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quarta-feira, novembro 29, 2006

Noam Chomsky (MIT) e outros intelectuais eartistas em apoio a Oaxaca-Alarme entre comunicadores e artistas

Estamos extremadamente alarmados de ver que em vez detomar medidas severas contra os violentosparamilitares que têm lançado constantes ataquescontra o povo de Oaxaca, o presidente Vicente Fox usaos assassinatos como pretexto para escalar a violênciacontra a organização de base do povo.

Como companheiros trabalhadores da comunicação eartistas, honramos a memória do jornalista independente, documentarista e respeitado ativistaBrad Will, que foi brutalmente assassinado enquantofilmava o movimento popular em Oaxaca.

Junto com Brad,nessa última semana morreram ao menos outras seispessoas às mãos de agentes do ilegítimo governo deUlises Ruiz e as forças federais que agora ocupamOaxaca, entre elas, Emilio Alonso Fabián (professor), José Alberto López Bernal (enfermeiro), Fidel SánchezGarcía (pedreiro) e Esteban Zurita López. Finalmente, em solidariedade ao povo de Oaxaca somamosnossas vozes a estas demandas:

1. Ulises Ruiz fora de Oaxaca!
2. Retirada imediata das forças federais da ocupaçãode Oaxaca!
3. Liberdade imediata e incondicional a todos osdetidos!
4. Justiça para todos os companheiros assassinados ecastigo para todos os culpados em todos os níveis! 5. Justiça, liberdade e democracia para o povo deOaxaca!

Noam Chomsky, John Berger, Arundhati Roy, AntonioNegri, Naomi Klein, Howard Zinn, Eduardo Galeano,Alice Walker, Michael Moore, Tariq Ali, Mike Davis,John Pilger, Michael Hardt, Alessandra Moctezuma,Anthony Arnove, Bernadine Dohrn, Camilo Mejía, RoxanneDunbar Ortiz, Daniel Berger, Danny Glover, DavidGraeber, Eve Ensler, Francis Fox Piven, GloriaSteinem, Gustavo Esteva, Jeremy Scahill, Mira Nair,Oscar Olivera, Roisin Davis, Starhawk e Wallace Shawn.

terça-feira, novembro 28, 2006

CPI aponta que bandidos têm posse de 4 milhões de armas

O relatório do deputado Raul Jungman, um dos sub-relatores da CPI, é assustador.

Blog do Etevaldo Dias
http://z001.ig.com.br/ig/21/55/931191/blig/blogdoet/2006_49.html

"Os resultados desta investigação pioneira no país são devastadores, e em grande medida explicam porque morrem no Brasil uma média de 100 pessoas vítimas de armas de fogo por dia, colocando o país como campeão mundial em números absolutos quanto a mortes desta natureza, superando países em conflito bélico, como o Iraque, Israel/Palestina e a Colômbia.

-Segundo a pesquisa nacional “Brasil: as Armas e as Vítimas” (ISER, 2005), circulam no Brasil mais de 17 milhões de armas de fogo, 90% delas em mãos civis, isto é, não são pertencentes às Forças Armadas e às forças de segurança pública;

Desses 90%, mais de 50% são armas ilícitas, isto é, não registradas, das quais se calcula que 54% estão na posse de “cidadãos de bem”, e 46% na posse de criminosos: quase 4 milhões de armas nas mãos de delinqüentes.

sexta-feira, novembro 24, 2006

O caso está na novela.
Ana Cristina foi vítima de nosso elitismo.

Os gregos tinham consciência disso. A comunidade é um fato e não distribuir a renda é criar violência. Os liberais sem liberalismo agem como se o mundo fosse de proprietários rurais livres e empreendedores que querem "liberdade" do Estado Absolutista-Comunista, mas, com 2.000 favelas em São Paulo, como nos lembrou o governador Lembo no Jô, parece que seria impossível viver num mundo sem dar nada de graça a ninguém. Porque de fato, pelo menos o imigrante miserável ganhou a terra, e o escravizado perdeu a sua.

A violência do Estado mínimo – o RS deveria ter 11 mil policiais, mas tem a metade- se reproduz na violência de que os milionários estão isentos de impostos.“Quase 14 milhões de brasileiros passaram fome em 2004.”

Paulo Freire, quando foi secretário da educação de São Paulo, pensou que as escolas eram vítimas de depredação como uma resposta à violência quotidiana em que vive a população pobre deste grande centro urbano. Ele não falou da violência simbólica, não ter um lugar na vida conceitual nacional, mas ela está em tudo isso.

Ou seja, existe um fato real de violência constante: a violência da ausência, do elitismo, da concentração, da novela onde todo mundo é branco e anda de Mercedes (aliás a novela debate o caso, o Leblon se salva e “o resto da cidade faz promessa pra ver se chega vivo em casa...”), a violência da publicidade (todo morador de vila que conheço se sente o mais infeliz dos homens se não tem uma TV 29 polegadas ou um “som”, ou um celular de câmera- sem isso você é ninguém)...

É a força opressora da propaganda criando consumismo inútil que não melhora a vida de ninguém, e Estado mínimo onde as agora vítimas ganham isenções, o que faz faltar dinheiro para educação pública e conseqüente participação democrática... Como teremos controle público para que a democracia não se torne uma ditadura de comerciantes se o público é miserável?
Ausência simbólica, reação. O pobre se torna ignorante remediável ou explorado romântico, nunca alguém vivo e ativo, com todas as necessidades que tem a classe média, shampoo, caneta e livro.O revólver é sua marca de “entrada” como ator. O povo não existe.

Paulo Freire também nos lembraria da necessidade de uma moral de fundo que dê valor às nossas ações. Sem o cristianismo (longe das regras contra a carne) com sua idéia de caridade, não existiriam nem a vontade de vender, nem a redistribuição dos lucros, que mantém a paz. Se você não tem interesse pelas pessoas nem saberá o que elas querem comprar... É aí que a questão social se torna ética.

"Os presos ficam aí, ganhando comidinha de graça" -me diz um jovem de 16 anos. (4 mil em Charqueadas, onde poderia ter 1.500). "É bom pra nosa imagem ter uma grande empresa no estado, mesmo se não pagar impostos; gera empregos (?) e dá confiança a outros negócios (?)"- diz uma amiga. Não existe opinião pública.
Se ninguém tem interesse pelo povo quem vai gerar informação para o bem do todo?
Se não existe o “público” deixemos o país ao abandono, façamos a gritaria ao redor dos investimentos de Lula em infra-estrutura, salvação de estômagos, redistribuição periférica da verba de cultura.

Infelizmente o Brasil não percebeu o seu elitismo, seu europeísmo ridículo, a forma como um Mercedes Benz ML 500 afronte um miserável com bicicleta.Estamos fartos de teorias impostas hierarquicamente, de intelectuais sabe-tudo, de consultores de empresa, de gênios da nova era.
Se as pessoas estão reagindo ao abandono (“A bronca deles não é somente contra os atos da polícia, existe uma insatisfação social”, ou a guetização (“mataram 117 pessoas no Estado, o que dá uma média de 1,3 pessoas mortas por dia em ‘confrontos"), a questão volta a ser de postura, moral. A postura do medo do outro.

2- Ausentes

Parece outro assunto, mas não é.
O alinhamento no século XIX da religião com o estado absolutista e uma ordem moral conservadora nos levou agora a hiper-reação do anarquismo epistemológioco e do medo de propostas éticas: de deveres-ser provisórios, de algo que vem do trancedendente assim como a hipótese científica, de afirmações mesmo. Nosso capitalismo degenerou em guerra de todos por falta de coragem de se limitar, por falta de limitação exterior, eticamente colocando a sociedade como outro ator ao mercado.

Perdemos o interesse pala comunidade, pela cidade, pela família, como se o consumo do filho no seu quarto cheio de eletrônicos e do pai-carteira fosse nos tornar felizes. Esquecemos o velho estar aberto às pessoas, o interesse com responsabilidade, dizer ao filho “não você não vai sair hoje, porque eu sou seu pai e não quero; posso estar errado, tenho experiência e é melhor errar um pouco que errar muito; te amo e quero o melhor pra você!”

Interesse. Vida de trocas.
É preciso ter coragem não de ser autoritário, intransigente, mas dentro de uma relação de amizade e troca, defender seu amor com força, e se o perigo for grande, usar o poder econômico (por que não, antes isso que criar um profissional que não sabe limites, um mimado drogado): “se você insistir eu te ponho na rua”. Apatia medrosa, abandono ao marketing, amor demais, matam, sim.

O autoritarismo é pior quando vindo da “esquerda” ativista, sem vontade de ouvir ou com complacência moderninha, por faltar um compromisso de auto-revisão constante. Por exemplo, quanto a forma de implementação das disciplinas transversais nas escolas, dentro dos novos Parâmetros Curriculares Nacionais- um avanço enorme, principalmente na visão de o que é importante na escola, mas que requer cuidado. Como diz o professor Ulisses Ferreira Araújo: “Ele pega uma idéia que acha boa e impõe às pessoas, então, ou elas se adaptam ou estão fora do mercado de trabalho.”

Se realmente o objetivo da escola passa a ser a cidadania, o respeito às pessoas, não posso querer chegar aí pela via da Língua Portuguesa, como foi sugerido, cujo objetivo é a gramática, a não ser modificando o próprio sentido de currículo e pensando em modificar o vestibular, ou a integração no mundo do trabalho. Revisão pela metade só cria dualismo incontrolável. Confesso minha ignorância no assunto, pode ser que amanhã venham e me provem que dá certo... Transversal é "o professor de matemática vai ter que também trabalhar a sexualidade e a partir do seu conteúdo?"

A matemática tem uma estrutura própria, não se pode parar a todo momento para trabalhar com uma conta de luz e dái discutir a minha cidadania, como disse o educador.

Qualquer não-pedagogo pode ver o hilário do professor de matemática trabalhando sexualidade (“se uma adolescente tem três namorados e cinco ficantes, quantos parceiros ela teve por mês?” ou “quanto ela vai gastar de fraldas?”)

Essa pedagogia acaba sendo a velha disciplina foucaultiana criadora de normas rígidas, pelo menos no dia-a-dia: o sabe-tudo ético e politicamente correto vem e destrói qualquer opinião dos ignorantes antiquados.
Pois é, diálogo (principalmente o diálogo pelo diálogo, estéril, sem uma base real de informação, direção, sobre o que dialogar, num mundo sem informação- "o professor sem esquer seu papel" como diz o professor pernambucano) não pode ser uma imposição de modo que Paulo Freire se torne uma outra forma de "condução" e esquecimento do povo.

Que medo do idealismo (jornalismo, publicidade, pedagogismo...) que se torna dogmatismo.
Estar consciente da violência quotidiana flexível e mutável – na nossa casa, no nosso mundo- é o primeiro passo para que alguém não morra por ter demorado para entregar um relógio.
"A empresária de 58 anos teria demorado para entregar um relógio para os assaltantes, que abordaram o Mercedes Benz ML 500 com bicicletas.
Ana Cristina foi morta com um tiro no rosto, na noite de quarta-feira, dentro de seu carro, na zona sul da capital fluminense. O crime ocorreu na esquina da Rua General San Martin e Avenida Afrânio de Mello Franco, a 200 metros da 14ª Delegacia Policial, no Leblon, área nobre do Rio, onde também funciona a Divisão Anti-Seqüestro e da Delegacia de Proteção aos Turistas. "
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"É demasiado fácil operar, pelo menos em nível inconsciente,
com um padrão de dois pesos e duas medidas, pelo qual pessoas que empregam a
violência em prol de causas que desaprovamos são "terroristas", enquanto as que
estão ao nosso lado são simplesmente "guerrilheiras", "soldados" ou "policiais".
A "palavra com T" (ou "palavrão que começa com T"), como poderíamos descrevê-la, tornou-se muito fácil de manipular para persuadir ou mesmo, ironicamente,
amedrontar as pessoas para que votem em governos que prometem ser duros contra o terrorismo....

Por outro lado, pode-se auferir um pouco mais de consolo de
outra generalização política, referente às situações nas quais ocorre o recurso ao terror. Um contexto recorrente desses atos é a resistência à ocupação estrangeira ou à ocupação que seja vista como sendo estrangeira -por exemplo, na Palestina, na Irlanda do Norte, no País Basco ou, voltando mais atrás no tempo, na Argélia sob a dominação francesa ou na França sob a ocupação nazista.

Quando a ocupação termina, a cortina se fecha sobre o teatro
da violência."

Peter Burke, FSP, Mais! São Paulo, domingo, 05 de novembro de 2006.
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FOLHA DE SÃO PAULOA polícia matou mais 22 suspeitos em todo o Estado de São Paulo e prendeu outros sete, subindo para 93 os casos classificados pelas autoridades como "enfrentamentos contra homens do PCC". Ou seja, em média, 15,5 por dia, desde sexta, quando a facção criminosa iniciou os ataques. No primeiro trimestre do ano, as polícias Civil (12) e Militar (105) mataram 117 pessoas no Estado, o que dá uma média de 1,3 pessoas mortas por dia em "confrontos". A média de assassinatos cometidos por policiais em janeiro, fevereiro e março é de 39 pessoas, em todos os municípios paulistas. A comparação das mortes de janeiro, fevereiro e março com as mortes causadas pelas duas polícias desde sexta-feira, aponta que, em seis dias, matou-se 79% do total dos três primeiros meses (pág. 1).

JORNAL DO BRASIL
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Quase 14 milhões de brasileiros passaram fome em 2004. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revela que 6,5% da população não têm o que comer. Quase 60% dos habitantes da região Nordeste não têm garantia de alimentação suficiente. No Sudeste, a desigualdade social supera a média registrada nos grandes centros. (pág. 1 e A6)
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Os ataques fazem parte da estratégia de guerra para desequilibrar. A bronca deles não é somente contra os atos da polícia, existe uma insatisfação social. Estão fazendo esses ataques [aos bancos] para criar desequilibrio social e econômico. Pode, daqui para frente, ter um cunho político. Existe uma série de situações que teremos de analisar", disse Bittencourt."(...) Eles não estão atacando o povo, tanto que os ônibus que foram queimados tiveram os passageiros foram retirados, eles atacam imóveis para demonstrar o poder", continou o delegado.

74 MORTES, 150 ATAQUES, 80 REBELIÕES Folha de S. Paulo 15/5/2006
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A maldição dos carros de som se espalhou desde as eleições...

O inferno das prainhas gaúchas, caso de polícia sonora!
Direito ao meu pensamento, não quero ser invadido por um vendedor que entra no meu cérebro!
Concurso: os piores sons das eleições

Primeiro lugar- MANOELA ELA ELA, o hit eleitoral, insuportável pela repetição 24h!

Segundo lugar- RIGOTO exit – com direito a coração em tudo, de novo!, com suas várias versões gaudéria, forró, samba, ele é um homem do povo!

Terceiro Lugar – Lula Povão: que diabos achar que todo povo do sul quer ouvir um baião!

terça-feira, novembro 21, 2006

FRONTEIRAS DO CONSERVADORISMO

Quando recebi o convite da palestra de Paul Kennedy, na UFRGS, pensei: "Oh, mais papo furado de celebridades globais!" Não foi fácil de esquecer minha decepção com Lévy, há alguns anos, quando sua maior novidade foi que um vírus de computador é um ser vivo.

Mas para que nenhuma irmã universitária viesse me acusar de parcialidade, lá fui eu, aberto ao mundo! Afinal, é sempre bom ouvir novidades: quando são novidades!

A síntese da conferência pode ser dada pelo seu conselho ao presidente Lula: "evite políticas que criem conflito de classe e afugentem o capital". Há uma escolha aí, o esquecimento de que política hoje é feita de poderosos conglomerados econômico-políticos, pressão de órgãos externos como o FBI e ume elite interna corrupta e politicável, pronta a reagir a distribuição de renda.

É por isso que, se essas são as fronteiras do pensamento, prefiro ficar em casa dormindo; com a concentração absurda de dinheiro no globo, pouco saberemos da opinião dos jornalistas e professores de Angola e Timor Leste, mas quem é lançado por um poderoso governo ou mídia, imediatamente se torna "ouvível", um profeta.

O problema é complicado pelo fato de que em geral essas encontros dão ênfase a "fala" da celebridade e a perguntas individuais, respondidas sem réplica. Ou seja, não é nada como uma troca de idéias, mas um espetáculo. Lembro-me que há alguns anos veio ao Brasil um famoso professor francês que começou sua palestra com "gostaria de debater esse tema com vocês".

Eu, ingenuamente, na verdade desconhecendo como ele era "importante", aceitei o convite e questionei seriamente seu ponto de vista superficial. A platéia ficou metade enfurecida, metade rindo. Importamos conceitos como importamos cultura. E importamos para 1.200 pessoas.

Por exemplo, Paul vê o crescimento da "mão-de-obra" ("se você trabalha em uma fábrica, mas não se você é um vendedor de galinhas no interior do amazonas") como ótima notícia para os trabalhadores dos países pobres, que se tornam consumidores: nada foi dito sobre seu rendimento que não paga três refeições diárias, ou sobre os abusos das empresas na vigilância e proibição de sindicalização. É o progresso, afinal.

O pensamento superficial sempre vê como solução jogar a bola para os países, enquanto seus reais poderes de decisão são enfraquecidos por regras globais de comércio, para dizer o mínimo; sempre gera falsos problemas e cria soluções parciais, sempre mostra os dados isolados do contexto geral. Sim, é verdade que os conflitos armados tendem a ser em áreas de baixa renda; sim, o aumento da população (velha idéia colonialista do controle de natalidade como solução final) tem a ver com guerra (e com muitas outras coisas); sim, um sistema eleitoral representativo, uma polícia e justiça eficientes e escolas, água e saúde podem garantir a paz.

E daí? A questão é: o que tem sido feito sobre dar chance às pessoas de participar quando os lucros das empresas nunca foram maiores e os países mais falidos. Como ensinou o velho amigo Kennedy, trabalhe pelo seu país e não encha o saco. Seria preciso falar muito mais de por que as economias ficam na periferia, vendendo grãos a preço de nada, quando royalties, dívidas, e uma democracia sem distribuição criam uma sociedade sem controle sobre suas elites ditatoriais em conflito.

Em alguns momentos Paul Kennedy chegou a beirar uma democracia "elitista" quando disse, por exemplo, que o sistema de soberania dos países foi criado no pós- guerra, quando não se imaginava que os conflitos maiores seriam dentro das nações. "Não há soberania se não há crescimento".

Depois brincou sobre os 192 países na ONU como uma surpresa para os supostos marcianos que deram a palestra com ele. Sua postura sobre imigração também disse tudo e nada: é ruim para os países de onde saem e bom para os países onde vão, se são ricos. No mínimo uma tautologia. Admitiu que os Estados Unidos é um dos países que menos gasta em termos de educação básica, mas insistiu na velha fórmula patética de "educação" para salvar o país. Claro, Sr. Paul, mas com que dinheiro se os ricos não pagam imposto? FHC foi responsável pelo apagão do sistema universitário.

Depois de tanta celebração das estrelas globais, fico pensando o que sairá dessas "fronteiras". É constrangedor ver uma lista de pensadores best-seller, sem que se sinta aumentar em nada o senso crítico e o questionamento. Foucault poderia dizer que um saber, nesse caso, gera uma série de sistemas de micro-poder, cria, literalmente ,"criam" países "em desenvolvimento" e submetem povos e conceitos. Os dados estão lá, os problemas estão lá, mas não levam a nenhuma forma de ação coerente com a realidade das pessoas que não estão numa Universidade americana.

E, por gentileza, acabem com essas listas chatérrimas – E LONGAS- de autoridades presentes, senhor diretor, senhor vice- isso, senhor ex-aquilo, o prefeito de Taquara... É vitoriano!

terça-feira, novembro 07, 2006

Conto ou Crônica?

É uma discussão perfeitamente anacrônica e descabida, eu creio.
Assim como "existe poema sem soneto"?
Então, digo logo: o título nada significa para mim. Poderia ser qualquer outro.
Como disse certa vez Ney Matogrosso, um artista primeiramente é artista, a forma de se expressar depende do momento.

Se não me engano foi meu editor que colocou este título "Alguns Contos" no meu livro. Possivelmente tentando controlar minha loucura, uma das minhas idéias era "Sobre a realidade e outras coisas". Poderia ser "Escrituras", mas seria derradiano demais, ou "Minhas Palavras", mas não diria muito. Poderia ser muitas coisas, principalmente algumas frases que sempre me impressionam em poetas.

Eu sabia que esse título - com a palavra "contos"- era provocador. São afinal "alguns contos": você leva alguns, mas leva outras coisas também. Cômico.

Achei interessante. Cada vez acho que faz menos sentido essas definições "acadêmicas" que só interessam aos que precisam falar sobre isso. É a velha perda de tempo terminológica, pois afinal, tudo são definições, tudo foi criado e pode ser descriado.

Se a coisa começa com as histórias curtas de Boccaccio (recolhendo narrativas do povo, juntando, criando), e toma forma no Século XIX, nos jornais, ganhando por número de páginas, criando séries - sempre me pareceu arcaico imaginar que, depois de Clarice Lispector, Borges, da palavra-conceito-de Kafka e das inovações linguísticas do Século XX, se possa pretender um "tamanho", como lí esses dias: "pode variar entre um mínimo de 1.000 e um máximo de 20.000 palavras."

Eu já fui impedido de inscrever textos em concursos, por exemplo, por serem narrativas maiores que "30 laudas" (conto) e menores que "130 laudas" (romance). Há textos com dois parágrafos que criam tensão e surpresa, quantas folhas faz um conto? Meia, uma, duas, mais de 30 não é mais conto? Teorias? Que interessa, se a reflexão for boa e colocada com decisão?

Gosto da coisa alemã daquele que "se utiliza das palavras". Escrever algo com um "tipo" rígido (médio, um ambiente, personagens limitados, um todo linear, início contextualizador, mudança de enfoque, final chave-de-ouro, etc.) , seguindo normas que deixam tudo com cara de "A Missa do Galo", seria ridículo. Os nomes surgiram em função dos textos, e o mundo gira. Que faria Boccaccio depois da Bomba Atômica?

Mas uma amiga comentou que seria bom para o leitor saber se afinal está lendo conto ou crônica. Então, acho que posso dar uma definição de segunda mão, que considero quase verdadeira, dada sua lógica estável.

Pessoalmente - muito de novo, se ainda valesse a pena classificar- eu diria que a crônica, para mim, como para metade da humanidade, está ligada ao cotidiano, a linguagem comum, o espaço crítico que a notícia descritiva não pode ser, a narrativa de fatos, mais pessoalizados, como "um jornalista": alguém que conta como entrou em um taxi e conversou com o motorista, ou como foi o aniversário de seu filho adolescente, seus percalços, sua invisibilidade. A linguagem é o meio para a narrativa simples e coerente, também ela passível de ser vivida por outros do mesmo contexto.

Mas sabemos que a crônica é também, na prática, um gênero que se adequa a necesidade de escrever uma coluna, que é sempre feroz e preemente. No Brasil, esse gênero de jornal engordou com muita poesia... Ela engloba então, não apenas o fato recém visto, mas pequenas narrativas "fantasiosas" que debatem o presente. Óbvio? É mesmo...

Já o conto, me parece, seria uma criação maluca- totalmente livre, um "objeto inovador"-baseada na estrutura, para remeter a uma questão oculta, moral, política, psicológica: os "Mistérios de Porto Alegre"de Moacyr Scliar, por exemplo, usam uma linguagem aparentemente simples, mas envolvem o inusiado, o trágico, o fantástico.

Por exemplo, no conto "Subterrâneos da Rua da Praia", os capitais fogem, como se fosse pessoas. É a fuga "dos capitais" e não DE capitais. Ou, em outro momento, um funcionário chamado Ego fica preso em seu escritório, ou um homem do interior fica preso no centro da capital, tenta sair do centro mas está cheio de obras, acaba vivendo alí, sem muita explicação racional. Pode tudo.

Kafka é o mestre disso: algo estranho não é compreendido, nunca será. Como o ser.
Eu acho que o conto define claramente um mundo outro, um mundo passado e em vistas de um conjunto de referências indepenentes: no meu trabalho, mesmo um conto simplíssimo, como "Filantropia", remete a um contexto, personagem e universo moral autônomos e inconfundíveis.

Por isso, se a questão fosse essa (e não como "será que a mulher deve casar virgem?")
eu ainda poderia dizer que há mais "contos" com cronicidade, que "outros" nesse livro. A linguagem mais livre para o efeito desejado. "A formiga pára em frente ao imenso mundo", poderia ser um conto. A dificuldade justamente é não ser Kafka, não ser Bukowisky, não ser Borges, nem Veríssimo, mesmo usando coisas herdadas.

Por exemplo, em "Ovelhas", sinto que a linguagem aparentemente simples dá a impressão de "cronicidade"; mas é uma escolha estilística criar uma narrativa com o modelo das manchetes, do entretenimento. Existe ainda essa liberdade de escolha das palavras, de sentido do efeito que a ocultação e o estranhamento causam.

Em um mundo tão acelerado pela produção de entretenimento e pela venda frenética de produtos culturais, notícias, mas também celulares e formas de ser, a narrativa deve ser livre para fazer tudo que pode e quer. Reflexão, acima de tudo: façamos nossos conceitos - sempre e só - aceitar a realidade.

ajr

domingo, novembro 05, 2006

Fui convidado a escrever um texto sobre o centro, em época de Livro:

Quartir Latin caipirinha

"Minha vó está nos Bancos". Todo mundo achava umagracinha quando eu dizia isso, com 4 anos, e os Bancos eram no Centro. Não havia nada mais chique do que irbem arrumado "cuidar da vida" ou tomar um sorvete, euna mão de minha avó, perfumada e com broche brilhante (Uma vez comi um Pijama Havaiano, com 12 bolas e orgulho gaúcho - aliás, só comi 11).

Sinto um pouco a nostalgia pelo centro de Mário Quintana, aliás, comodizem os franceses, quem mora no centro têm mesmo devez em quando essa "nostalgia da lama", uma necessidade de grama e árvore, nada que o Gasômetro ea Redenção não amenizem.

Hoje o centro mudou, aliás, tudo. "No brasil, tudo brilha", "Tudo está em movimento", "nunca vi tanta gente junta" me disseram alguns amigos estrangeiros. ACidade Baixa é um "Quartier Latin".Quem sabe? Sorbonne com caipirinha. Claro, eu também tenho meus momentos de irritação comesse borburinho. Com o alto imposto para empresas médias e a tecnologia, 60% dos brasileiros vive de"bicos", e o camelô é a cara do Centro, queiramos aonão.

Há algo de poético em fazer uma caipirinha com olimão que Deus te deu. Quando, na era Positivista, o Centro foi"higienizado", segundo o modelo europeu, os pobresforam afastados dos tradicionais "becos" para a zonada Independência, a Colônia Africana. Agora voltam, numa vingança alegre e triste, no "Jesus te ama" e no"fábrica de calcinha". Hitler quis fazer de Berlin umacidade modelo, grega, e quem sabe não está aí a origemdos fornos para judeus, nossa mais infame herança doséculo recém ido.

Por falar nisso, os Voluntários da Pátria (hoje, a ruada Muvuca informal), foram cidadãos que seapresentavam para lutar na Guerra do Paraguai, ao ladodo mal armado Exército Brasileiro, a maioria escravose negros alforriados, que pensavam em ganhar aliberdade ou reconhecimento.Morreram ou voltaram sem nada, muitos tornando-se trabalhadores braçais.

Que coincidência irônica! Mesmo assim, eu penso que um dos lugares mais interessantes do mundo (diz alguém, "para o gaúcho oRS é Delphos, o Umbigo do Mundo") deve ser essecruzamento Centro-Cidade Baixa. Quem aqui mora estámais próximo da realidade de maioria, mas vive aindaum clima de “cidade do interior” e tem oportunidades ímpares de viver a cultura. A maioria das lembranças boas que eu tenho têm a ver com esses bairros; nascino Centro, vivi quase toda a vida na Baixa City (cadavez mais alta, novos prédios).

Um conjunto colorido de jovens universitários,jacarandás, mendigos, pastel na República,intelectuais, Feira do Livro, feira livre, SantanderCultural (salve Nossa Senhora do Dízimo!), skate eTheatro São Pedro. Uma das emoções maiores que eu játive foi ver a Lua imensa sobre o Guaíba, depois deaberta a orla do cais. Não é, apenas, o melhor pôr-do-sol do mundo, por ser o meu."
ajr