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domingo, abril 27, 2008


Senhora dos Afogados


Nelson Rodrigues é sempre assim. Primeiro ficamos encantados com a história, acreditamos que será uma tragédia grega. Depois, lá pelo meio, pensamos que seria melhor vê-la como um Eugene O'Neill da Mangueira, misturando sangue e zombaria para criar uma espécie de Absurdo tropicalista. Aí, subitamente, no último segundo, tudo se encaixa e pensamos que sim, ele é um gênio.

Nesta montagem de Antunes Filho, o diretor preserva essas ambigüidades do texto. Tudo começa dark, como o folder em preto e preto, lembrando as muitas meninas japonesas de cabelos compridos dos filmes de terror. Você antevê um cinema noir ou um Hitchcock, ainda mais que a programação (preto e branco) explica "casa soturna numa ilha, família cercada de assasinatos, etc...".

De repente, o juíz que deveria ser um homem malvado e mau aparece como um tio do Pato Donald, falando com uma voz esquisita e de óculos fundo de garrafa. A vovó chora um choro de cachorro. O noivo marinheiro violento fortão aparece fantasiado de Fred Mercury, com direito a quepe e blusa de sede. As piadas de Nelson desconcertam, ironizam, buscam o ridículo.

Algumas frases explodem revelando o eu dos personagens, mudanças bruscas, "eu também me vingo", diz a heroína supostamente vitimada.

Assim como os personagens-ideogramas de Nelson- que começam como caricaturas e tornam-se caixas de surpresa- não têm uma evolução linear, dão saltos, para ter alma, um "saiba por que é assim", novos problemas, novas dimensões e novas ironias, a direção também não é contínua. Há partes das quais gosto mais, que puxam a peça como um vácuo de buraco negro. Paulo, o quase Orestes, por exemplo, repete um "choro" muito demais. Parece no meio que a peça vai acabar, "marido mata mãe de seus filhos", mas ela consegue se salvar com novas e surpreendenetes melotragedias nelsonianas...

Ficam nos olhos- e ouvidos- os lindos contrastes criados com máxima simplicidade, uma mulher de vestido branco num grupo negro, cadeiras brancas que formam jogos de montar, um coral de vozes masculinas que preenche o espaço no tempo certo e com unidade perfeita. A sineta incomoda um pouco, até que uma boa atriz a transforma em símbolo (lembramos nossa escola, seu catolicismo que pode ser castrador).

Valentina Lattuada, como D. Eduarda, mãe e esposa, e Angélica di Paula, como Moema, a filha electriana, levam do começo ao fim a tragédia. Pode parecer pouco, mas há momentos - aqueles em que, nas palavras do próprio Antunes, tudo pode virar dramalhão -em que elas fizeram o impaciente homem a minha frente permanecer sentado. São atrizes que salvam qualquer espetáculo. Aí vemos como Stanislavski pode encontrar linguagens mais "falsas" e como pode-se fazer um realismo não ortodoxo.

Eu talvez bem quisesse uma tragédia mais lisa, negra e com fio metálico. Mas isso talvez seja impossível para o Brasil 8ª economia do mundo que vê no jornal "seguranças do metrô espancam gays" ou ouve numa fila de teatro, tragicomédia pura- "tio tem moeda?- não- aceito nota", impossível para o teatro contemporâneo e e certamente é impossível em Nelson.

É magistral como Antunes salva tudo nos 44 do segundo tempo e vamos pra casa com um sorriso de "isso é a arte". Como "bem está o que bem acaba", o coro cantando com drinks na mão, uma mulher chorando com e pelas mãos e outra sem, sim, é muito bom. Enfim, entre as ondas do fogo e do éter, Eurípedes e Diário Popular, momentos de genialidade e outros que são tragados por estes, é uma linguagem própria, pessoal, o que no mundo de hoje é algo impressionante.