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terça-feira, junho 07, 2011


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O Salvador


Vampiro quase novo. Eu não era esse poder ubíquo, não tão vazio e unânime, nem imaginava que a vontade produtiva puritana e contra-reformista, mudando o mundo e os corações para salvar-se do Inferno, substituiria tão bem a caridade externa dos senhores e a repressão do corpo pelo corpo como Tábua para a exclusão.

Nesse mundo em transição, estava cansado da pele de lagartixa da Rainha das Fadas (um dos poucos capazes de ver seu caminho invisível pelos séculos), dos Lobos (pelo menos conseguira fazer a Inquisição matar um deles, aquele velho), e da luta pelo "Sangue de Isis", perigoso, como um templário buscando um caldeirão celta da eterna vida. Até os discípulos vândalos, os Capas Pretas, podiam entediar, eu queria mais.

Estava curioso, queria umas férias, viera para a “Boca Infernal” da Província de Santa Cruz, mas então encontraram um corpo dentro de um saco na mata. Podia ser do índio Salvador, desaparecido.

Eu era suspeito, claro. E a Maldita chegara. “Lá vêm os diabos da Inquisição!”, as pessoas diziam e chegaram a apedrejar um inquisidor no Rio.

É claro que essa coisa de Índios cantando, procissão com bandeiras, anjos bailarinos, diabos, um rabi com a “Tourá”, dança judia, uma Tentação requebrando seminua, São Sebastião peladinho e arcos e espadas em punho não podia dar certo com eles.

Os jesuítas, nesta terra sem bispos, de capelões de fazenda, haviam criado cedo o Triunfo Eucarístico - berimbaus, maracás e taquaras. Era melhor pegar uma ideia, que pegar uma coisa. Isso nem Maquiavel me ensinara: dominar seria recompor um modo de ver, percepção, impor um discurso pela lógica aparente, mente-microspópio, mente-pedra. Viria a destruição da auto-afirmação por um simulacro dela mesma, superando minhas expectativas. Nosso culto às imagens precisa de solidão e o poder ainda não quebrara as comunidades.

Por enquanto, o índio Salvador, desse incrível culto Mãe-Filho sincrético - no qual o senhor da Casa Grande, no catolicismo de família, se ajoelhava - sumira como mágica e tínhamos uma revolta indígena em gestação. Um senhor se ajoelhava para o Filho mestiço? Quando os orixás da terra viravam orixás da guerra, era preciso mesmo santos negros como degrau de cristianização.

(...)

É claro que o Visitador estava de olho no senhor Fernão, que permitia que a “Santa Maria” batizasse novatos, mas ele também vinha de uma Europa onde Aristóteles dormia com reis que curam. Onde Lutero afirmava que a maioria dos homens se diziam cristãos, eram batizados, mas não sabiam nem o Pai Nosso nem o que é a Trindade. De onde vinham viajantes certos de que existiam homens monópedes, monstros marinhos cobertos de pelos e com bigodes no focinho, ciclopes... Até Colombo vira três sereias.

Eu podia simplesmente morder e secar esses fanáticos, acabar com tudo, mas e a delícia da ficção? Aceitar? É chato mudar de regras. Já estava adaptado a esse Purgatório além-mar, cozido enfeitiçado de africanos, índios, judeus, portugueses, caldeirão de “cruéis animais”, como diziam os sábios, onde se combatia com o demônio todos os dias.

Eu tinha o maior cuidado em voar apenas de madrugada, sem lua, matar apenas desconhecidos (todo esporte exige treino) e cheguei a torturar uma Lâmia que devorava um bebê, dando um aviso aos Seres Outros para não perturbar meu teatro.

Até ali minha riqueza havia me protegido. O Padre me visitou, eu tinha alguma experiência com a Inquisição, mas eles estavam ficando mais profissionais, disciplinados e sem imaginação, unificando as visões. Comecei a procurar o índio voando pela noite, temerariamente, precisava encontrá-lo ou achariam que eu era “judaizante” – na verdade a maioria deles havia entrado no clero e confrarias, protegidos – e destroçados – pelo catolicismo tropical.

Eu o achei fazendo abrir roças e batizando “apóstolos” em terra ao sul, anunciando o Fim do Mundo onde os escravos virariam senhores. Apareci no meio da noite em seu quarto – estava prestes a prendê-lo por telepatia – mas neste momento vi a imagem da sua Mãe índia, que me derrubou ao chão. O Salvador saltou sobre mim e enterrou-me seu punhal, enquanto eu tentava lutar contra o poder da mulher, que criava alucinações em minha mente. Ele derramou sal sobre mim e avançou contra meu pescoço, fazendo-o sangrar.

Eu tive de voar na noite e deixar a Terra da Cruz por muito tempo.


Afonso Jr. Lima - copyleft (uso não-comercial)

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