Páginas

domingo, janeiro 30, 2011

Carta a Scliar

O que eu posso dizer a você, que ensina o otimismo, a generosidade e o bom humor? Que ensina que o conhecimento não é um bisturi assassino, mas a linha que nos liga uns aos outros, contando histórias?

Não somos amigos íntimos e nem desconhecidos. Trocamos e-mails divertidos. Quando precisava lançar meu primeiro livro, você escreveu algumas linhas sobre mim (o que fez por muitas pessoas, eu sei). Ou seja, você “perdeu seu tempo”, “falou com estranhos”, algo inusitado nos dias de hoje. (Quantos textos, todos em dia! E você lê novos autores!)

Elogiando um jovem desconhecido você revelou que se preocupa com a humanidade, e esta é a sua maior qualidade para mim. Depois da Revolução Científica e da Luz Iluminista, é como se vivêssemos sozinhos, ficamos descrentes da alegria simples capaz de regar as plantas, tão viva na tradição judaica da narrativa para o outro, a parábola, a Bíblia. É algo que explica também o prazer de ler. “Lemos para aprender sobre nossas emoções”, ouvi você dizer. Escrevemos também para despertar a curiosidade - a gana de viver. A rigidez mental descamba para o preconceito "racional" e para a rigidez do poder. Você achou que sabia o mundo?

Neste conto, baseado em uma história que você contou em uma palestra, sua emoção ao falar de sua infância me tocou. Eu a coloquei no papel de onde você a colheu, depois. É isso que os humanos fazem desde as rodas de chimarrão de Homero.

Além disso, você é inteligente: aprendo com você a ler, a olhar com olhar misericordioso a miséria (você diz que o contato com o povo pobre através da medicina mudou sua vida), a disciplinar o tempo e a ter sabedoria. E sabedoria é uma dádiva, neste mundo onde ficamos obcecados por tudo, principalmente por “vencer” – ainda que nunca saibamos o que é isso. Acima de tudo, você é feliz. (Sempre pensei que o olhar do imigrante pobre, agradecido pelo país que o acolheu, sobrevive nesse sorriso). Você comenta com frequencia: “Quando comecei a trabalhar na saúde pública, de cada mil crianças, 300 morriam antes de um ano de idade. Hoje, menos de 20”. Se precisamos de algo, é de esperança.

O motivo pelo qual você tem uma multidão de leitores e/ou fãs (a multidão que lhe implorou para participar da eleição da Academia) é que você rompe sem pompa os preconceitos que nos dominam, as divisões que separam nossa sociedade entre inteligentes e burros, magros e feios, vencedores e vencidos. As pessoas adoram sentir que alguém que escreve – que, bem, ainda tem uma antiquada auréola, mesmo suja de lama - anda na rua que elas mesmas andam, o antigo bardo ou narrador que sabe o que todos sabem. E gosta de modelar, de ikebana.“Ah, o Moacyr Scliar, ele passa aqui todo final da tarde para ir na ACM”. Então, você é, como diz, o menino do Bom Fim, alguém que faz parte de uma comunidade. Outro paradigma rompido.

Sua abertura à tudo, esse saudável humor, revitaliza o mundo. Uma vez você disse que se emocionou com outro trecho que eu escrevi sobre os judeus. Ter emoções significa ter julgamentos, ter uma base ética, ainda que ampla e flexível, é querer falar sobre o certo e o errado e da diferença entre ambos. E estou convicto de que somente isso cria literatura.

Lembro-me que, ainda na universidade, quando eu e meu amigo Eduardo, dois estudantes solitários tentando movimentar as coisas, lhe convidamos para uma palestra (aquela do conto), você foi! Uma multidão veio lhe ver. Muitos anos depois, eu o ouvi numa palestra para estudantes do ensino médio. Sabe, os pais não tem muito tempo para eles... A mesma simpatia trovadoresca contando causos da infância deixava a todos atentos como se fosse um papo sobre games.

Em São Paulo vi você falar sobre leitura. "Eu é que me sinto honrado de falar com pessoas tão importantes como os bibliotecários", "Viajando até o Japão, acabaram meus livros, quase enlouqueci e sai pelas ruas até achar uma livraria com livros em inglês- voltei ao hotel e dormi feliz",“Nunca se falou tanto em livros e leitura nesse país”. Os estudantes animados cercavam você e mal pude dar um oi! Algo em nós foi tocado.

É por tudo isso que eu lhe respeito. E pelos 80 livros, claro.

Afonso Jr. Lima

Homem que vive na esquina

Homem que vive na esquina

Como você passou hoje?

Qual o seu nome?

Amanhã você estará vivo

Como eu?

Tua roupa rasgada, olhos feridos

um saco de urina, no cimento

Você não sorri há muito tempo

Eu queria saber o que já aconteceu

Sol, multidão, ônibus

Nunca te vi falar

Talvez eu seja lembrança amanhã

E você lembre de minha moeda

Esses metais sem nome

Porque o mundo é cinzento

Se ninguém lhe dá seu eu

Ninguém cura a ferida

Todos nós sairemos daqui

A verdadeira morte é o esquecimento

Tudo que brota da noite é vida.


Afonso Jr. Lima
Eike Batista

"Eu não tiro meu chapéu para as elites brasileiras..." Quando perguntado -que surpresa!- sobre a Bolívia, ele apoia as mudanças! Sempre elogiando o governo Lula!
Empresário precisa ser cafageste?


sábado, janeiro 29, 2011

Nossa! José Dirceu nocauteia e mostra o que é monopólio de ideias! Quem são nossos entrevistadores, meu Deus! Todos da Veja! Com certeza existem entrevistas mais constrangedoras para o jornalismo do Brasil, mas devo conhecê-las.

Esse Augusto Nunes - lembra da entrevista com Contardo Calligaris, "O brasileiro é grosseiro... uma figura vulgar", esse estadosunidoscentrismo entreguista! -vem pra bater no convidado sem vergonha! Será que a Fox não tá precisando de alguém? "Eu gostei mais das perguntas do que das respostas!"

A cara de nojo para Dirceu é demais... E teve ainda Guilherme Fiuza dizendo: "Vocês vão invadir o Sítio do Pica-pau Amarelo?" Que bonitinho é ser simplista!
Isso não é entrevista, é uma conspiração! Assume-se fortemente que é um lobbysta (mas isso NÃO é negativo!), que usa poderes ocultos e ninguém sabe de onde vem seu dinheiro e então... vamos perguntar. Toda pergunta vêm com um sorriso irônico de "consenso".
Não é descobrir alguém! E quanta falta de informação!

Nossa! Mais uma vez a Record arrasou com sua série sobre o caos do transporte! Parece que - no mundo do toma-lá-dá-cá - alguém resolveu falar da vida como ela é... Incrível!

Foto da Semana - vem cá, te conheço?





sexta-feira, janeiro 28, 2011

PAGUE O GRATUÍTO

O provedor Terra está fazendo o pior tipo de plano de expansão! Quando você coloca o Speedy da Telefônica (ela mesmo não é modelo de atendimento, eu fiquei um mês esperando meu modem e , depois de gastar meu latim com o atendente, ligo dois dias depois e... não há nenhum cadastro!)

você é obrigado a ter uma senha (!!!) então você tem de ligar para o (en)Terra (que te atende- aproveite) e não te dá opção de não aceitar os 30 dias de "teste" dos produtos! Vocês já viram tudo, né?

(Próxima vez vou usar minha dança de macaco com gritos - NÃO! NÃO! SOU UM PSICOPATA PERIGOSO!)

Sim, era para acabar dia tal, eu pensei, mas antes chegou uma fatura, 69 Reais!
Ligo para lá, 30 minutos no telefone! Ninguém te atende! (Tem ainda o "atendemos até às 17h...)
"O Procom não pode fazer nada porque o senhor aceitou..."
Um dia: "Mas qual o motivo?"
"O Senhor recebeu uma fatura? Podemos fazer uma fatura de 25 por mês se o senhor aceitar...."

Era uma vez o capitalismo onde ou você era útil, ou acabava (né, GM)...

***

FORNO ALEGRE

Será a depressão? A central? Eu acho que é o Guaíba, se ele fosse uma cachoeira....
A verdade é que, falando com um taxista, ele contou que ano passado seu painel marcava 46º, e ele passou por um termômetro na Avenida Beira-Rio, ao sol, e marcava 48º.
Como diz meu irmão - não se pode sair da frente do ventilador...

Minha aposta é que, caso não haja um reflorestamento, seja colocado um umidificador gigante ou criado um ventilador gigante num lago com quedas, o que hoje é regime de praia (nunca sair das 10h às 16), vai evoluir para um deserto. De gente.

Mas deve ter algo a ver com os 80% de umidade do ar, pois quando eu atravessei uma rua na Cidade Baixa senti algo como dois motores de carro atirando ondas de calor na minha cabeça.
Caminhar uma quadra na Azenha é pagar o pecado antes, querer esquecer tudo e ir pra casa tomar banho: quero minha burca anti-radiotiva, sombrinha branca ou ar condicionado cesta-básica!

(Ah, que delícia São Paulo com seus 34 graus e 150 Km de engarrafamento...)
Sem brincadeira: duas pessoas falaram sobre "abrir um forno". É a sensação do "sul", que os paulistanos pensam ser uma Serra nevada...

Talvez em 50 anos vamos ter uma cidade fantasma ou uma cidade só para aristocratas, capazes de viver de um ar condicionado ao outro. Eu, pelo menos, dormi como um anjo sem desligar o meu, salve CFC!

segunda-feira, janeiro 24, 2011

19/01/2011 - 08:48 | Igor Fuser | São Paulo

Surpresa: a Tunísia era uma ditadura

Quando eu ingressei como redator na editoria de assuntos internacionais da Folha de S.Paulo, um colega veterano me ensinou como se fazia para definir quais, entre as centenas de notícias que recebíamos diariamente, seriam merecedoras de destaque no jornal do dia seguinte.

"É só olhar os telegramas das agências e ver o que elas acham mais importante", sentenciou. Pragmático, ele adotava esse método como um meio seguro de evitar que o noticiário da Folha destoasse dos jornais concorrentes, os quais, por sua vez, se comportavam do mesmo modo.

Na realidade, portanto, quem pautava a cobertura internacional da imprensa brasileira era um restrito grupo de três agência noticiosas -- Reuters, Associated Press e United Press International, todas afinadíssimas com as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos.

Passadas mais de duas décadas, a cobertura internacional da mídia brasileira ainda se orienta por diretrizes estrangeiras. A única diferença é que agora as agências enfrentam a competição de outros fornecedores de informação, como a CNN e os serviços de empresas como a BBC e o New York Times, oferecidos pela internet.

Mas o conteúdo é o mesmo. O resultado é que as informações internacionais que circulam pelo planeta, reproduzidas com mínimas variações em todos os continentes, são quase sempre aquelas que correspondem aos interesses de Washingon.

Quem confia nessa agenda está condenado uma visão parcial e distorcida, uma ignorância que só se revela quando ocorrem "surpresas" como a rebelião popular que derrubou o governo da Tunísia.

De repente, o mundo tomou conhecimento de que a Tunísia -- um país totalmente integrado à ordem neoliberal e um dos destinos favoritos dos turistas europeus -- era governada há 23 anos por um ditador corrupto, odiado pelo seu povo. Como é que ninguém sabia disso?

A mídia silenciou sobre o despotismo na Tunísia porque se tratava de um regime servil aos interesses políticos e econômicos dos EUA. O ditador Ben Ali nunca foi repreendido por violações aos direitos humanos e, mesmo quando ordenou que suas forças repressivas abrissem fogo contra manifestantes desarmados, matando dezenas de jovens, o presidente estadunidense Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, permaneceram em silêncio.

Não abriram a boca nem mesmo para tentar conter o massacre. Só se manifestaram depois que Ben Ali fugiu do país, como um rato, carregando na bagagem mais de uma tonelada de ouro.
O caso da Tunísia não é o único na região.

No vizinho Egito, outro regime vassalo dos EUA, Hosni Mubarak governa ditatorialmente desde 1981. Suas prisões estão lotadas de opositores políticos e as eleições ocorrem em meio à fraude e à violência, o que garante ao governo quase todas as cadeiras parlamentares.

Mas o que importa, para o "Ocidente", é o apoio da ditadura egípcia às posições estadunidenses no Oriente Médio, em especial sua conivência com o expansionismo israelense.

Por isso, a ausência de democracia em países como a Tunísia e o Egito nunca recebe a atenção da mídia convencional, ao contrário da condenação sistemática de regimes autoritários não-alinhados com os EUA, como o Irã e o Zimbábue. É sempre assim: dois pesos, duas medidas.

*Artigo publicado originalmente no Brasil de Fato. Igor Fuser é jornalista, doutorando em Ciência Política na USP, professor na Faculdade Cásper Líbero e membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato.

.



Conheça aquilo que não queriam que você soubesse

www.brasildefato.com.br

domingo, janeiro 16, 2011

Há muito tornou-se constrangedor pensar na vida do dia-a-dia para qualquer intelectual sério, pensar em como conduzir bem a vida, por exemplo. Como dar conselho é anacrônico, devemos esquecer que precisamos decidir, olhar para trás, prever. Se o certo é quebrar tudo, não tem sentido pensar no que é certo, mesmo se o mundo explodir. A filosofia é uma múmia.

Fico muito impressionado com essa nova aristocracia que está se criando dos "vanguardistas eruditos", capazes de educar os ignorantes com o pensamento-dinamite pós-alguma coisa.

Um deles afirmava, com a força dos revolucionários, que não havia problema algum na educação senão a tentativa de se reerguer a "autoridade". Uma, agora, afirma que os jovens sempre foram isolados -ela, por exemplo, via TV a tarde toda - que não há nada de novo.

Um professor comentava que uma orientadora desprezava as boas idéias de seu orientando, que desejava entrevistar vários atores, afirmando que ele deveria apenas "dar voz aos próprios sujeitos da pesquisa".

Claro que muito do que se fez no contexto europeu como reflexão surge aqui apenas como eugenia, eurocentrismo e elitismo e que novidade é poder. Preocupo-me quando um saber se torna tão estranho a seu contexto, tão parcial, que, para defendermos o positivo do maior diálogo entre pais e filhos, por exemplo, negamos que existe um distanciamento entre eles, documentado por qualuqer professor com quem se converse.

Ou que, mesmo que sempre tenha havido o isolamento dos jovens, não havia o hikikomori que não sai mais do quarto e a intransigência, agitação e impaciência da geração Y-now.

Estaremos tão mergulhados na especialização que defendemos uma ideologia, querendo desconstruir no contexto da hiper-exploração? O sofrimento humano e a miséria sumiram do mapa no mito de que a verdadeira revolução é a dos valores, onde se pode debater tudo, menos a injustiça dos poderosos? Revolução como venda.

A filosofia do martelo se tornou, quem sabe, a nova erudição empoeirada.