Páginas

terça-feira, março 29, 2011

EM BUSCA DE JUSTIÇA O que é a justiça? Seria a maioria conseguir ser valorizada?

No dia 17 de março, acabou o contrato entre o empresário do Cine Belas Artes e o proprietário do imóvel. As pessoas estavam consternadas. Muitas pessoas. Uma moça chorou ao falar comigo: “Eu participei dos abaixo-assinados, achei que iam nos ouvir. Conheci amigos aqui no Noitão, há mais de quatro anos, isso aqui é muito importante para mim”. “Eu sou aposentado e essa é minha diversão”, outro dizia.
Uma senhora contou que vem ao cinema desde mocinha.

Quando as sessões encerraram e a porta foi fechando, as pessoas não pareciam querer sair, e muitas ficaram perdidas do lado de fora, na calçada. Uma amiga estava decidida a dormir lá. Outro parou junto à bilheteria e parecia não acreditar que teria de cruzar para um outro mundo, sem arte. Vimos muitas outras pessoas chorarem. “Eu também estou a ponto de chorar”, me disse uma jornalista. Sem dúvida a multidão que lotou a “última sessão” – os 82 mil apoiadores do Facebook e os 16 mil que assinaram a lista - é a cidade desejando ser feliz.

Essa situação levanta questões bastante profundas sobre nossa sociedade fragmentada (trabalho intenso, transporte complicado, etc.) – por exemplo, de como é difícil fazer valer a representatividade. Vivemos num mundo onde há pouca comunicação. O bloqueio comunicativo é reflexo da concentração e fragmentação operada depois da Revolução Industrial. Somos solitários, assustados, nervosos – refletir é quase impossível. A arte colabora com a reconfiguração dos signos, como querem Guattari e Deleuze, e as trocas nos ajudam a nos situarmos no mundo, os significados alocados na mente nos ajudam a lançar tentáculos para as novas realidades. O oposto disso é a violência.

Por que deve acabar um espaço cheio de vida, de acesso fácil, de boa qualidade e com opções baratas? O que ele significa em termos de espaço para outros pensamentos e qual a importância da diversidade cultural? A nossa democracia nos representa? O lucro individual é o único valor numa cidade? O interesse público não consegue chegar aos nossos políticos? E, mais importante que tudo – onde estão nossos representantes? As autoridades sabem mesmo o que a população quer?
Seremos atores ou objetos desse mundo de concentração de capital?
Precisamos viver.

Afonso Lima – 18 de março de 2011

sexta-feira, março 25, 2011

Dramático que funciona, pós-dramático desfuncional



O cenário é uma beleza, aço escovado, luz do espelho, e dá muita esperança. Entra um Hamlet esfarrapado. Ok, pode ser bom. Mas logo surgem personagens fazendo Glee. Depois uma adolescente em conflito, um ator fracassado... e, claro, uma mulher de meia idade louca-desesperada-morrendo. De repente, um seu vozeirão parece que vai salvar tudo: são três ou quatro números sensacionais, incluindo Piaf, mas que podiam ser um show independente sensacional, Lady Gogó (é Rosana Stavis). Choro e lágrimas, e umas duas cenas de comédia escrachada que seriam um sucesso se o início não fosse drama puro (o travesti arranca risos sinceros). Algumas frases são involuntariamente cômicas: “Sou branca como uma nuvem”, “Eu te amo mais do que você me ama”, e por aí vai. A questão é (repetitiva, mas temos de repetir): somos tão dramáticos? Ainda falamos por sofrimentos tão profundos, ainda conseguimos expressar nossa dor com essa expressividade toda? Lembro que sempre em Malhação tem uns gritos para dar “vida” ao naturalismo boboca. A frase de Nietzsche aqui tem força total: falamos o que está morto em nossos corações. Não fazemos mais drama desde que Tchecov mostrou a banalidade do nosso mal. O que quer que se pense do conceito de pós-dramático, ele retrata o fato de filtrarmos em nossa linguagem cada coisa objetiva, de não termos um eu tão fixo, de sermos contraditórios, de nossa realidade ser tão instável que nos obriga a saltar de um eu ao outro continuamente. Sabemos que o Homem, um ser abstrato e universal, era um reflexo daquele Deus Imutável (e zangado), que até sustentava uma ciência “verdadeira” e um determinismo “já-que-é-assim-tem-de-ser-assim”. Tem uma bomba no caminho. Pelo menos em Pinter sentimos a frieza que é nosso viver macabro e banal, sem religião, sem Estado de Bem-Estar, sem utopia no horizonte. Mas mesmo assim a peça tenta ser “pós-dramática” no sentido de intercalar situações, sonhoXrealidade, etc.


Quero comparar então com Pororoca, que podia ser levada pelas águas do estereótipo: o texto é mais “dramático”, o tema é o pitoresco, há “polêmicas” como prostituição, homossexualismo etc. Só que o naturalismo aqui é muito natural e, além de assumir a ilusão mostrando uma linearidade franca, “irreal”, ou com uma evocação das lendas, por exemplo, logo ganha o público pelo humor simples (o público dá gargalhadas), que é intercalado com cenas do mais puro trágico cotidiano, sem perda para qualquer um deles. O diálogo sempre enriquece os personagens e a ação leva ao seu final previsível, mas tão bem encaminhado que tudo é frescor (ou seja, sempre é o como, porque já sabemos o enredo de Romeu e Julieta). E, no fim, ficamos sim com vontade de ver novamente (talvez por isso os 500 lugares estivessem lotados). Não nos sentimos atormentados por nenhum tratamento “folclórico” do “tipo” nortista. Eu já conhecia um pouco o autor, mas é delicioso ver que o texto ganha vida própria, também pela direção precisa e atores vivos. (Eu encurtaria apenas uma cena ou outra, o que, reduzindo o tempo total, ajudaria a amplificar o impacto. E também seria leal ver mais gente negra e parda - só um! - numa peça sobre o Maranhão, mas não se pode ter tuudo). E como comentou o ator que estava comigo, mesmo não compreendendo muitas palavras típicas da região, nos identificamos pois vemos o que somos e vemos o que suspeitávamos (por exemplo, uma menina vendida pela avó).


terça-feira, março 01, 2011

O Movimento pelo Belas Artes, que defende a preservação do cinema localizado na esquina da Av. Paulista com a Av. Consolação, na capital, convocou Audiência Pública através do vereador Eliseu Gabriel (PSB). A audiência está marcada para o dia 16 de março, 19h, na Câmara Municipal de São Paulo.

O prédio tem essa função desde 1943 e, segundo os membros do movimento, colabora com a defesa da diversidade cultural, com a formação intelectual da população, além de servir como local de sociabilização urbana em uma metrópole cada vez mais complexa.

Entidades como o Instituto de Pesquisa e Ação Via Cultural e a APACI (Associação Paulista de Cineastas), ABD - Associação Paulista de Documentaristas São Paulo e CEBEC - Conselho Brasileiro de Entidades Culturais participam do Movimento também enfatizam a função de democratização da cultura promovida pelo cinema através de seu Cine Clube, a importância da revitalização das áreas centrais e do combate à violência através da mobilidade urbanal (os famosos "Noitões", por exemplo, lotam os cinemas durante a madrugada).


Um dos abaixo-assinados em circulação já conta com 16 mil assinaturas. Blogs têm surgido na internet para tentar evitar o fechamento, entre eles querobelasartes.blogspot.com/. Mais de 70 mil jovens apoiam a causa no Facebook.
Muitas pessoas têm enviado manifestações ao prefeito pela desapropriação do local pelo site da prefeitura - gabinetedoprefeito@prefeitura.sp.gov.br


O fechamento foi anunciado para dia 10 de março.
http://afonsojunior.blogspot.com/

Notícia: http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/instituto-pede-ajuda-da-populacao-para-reunir-material-historico-para-tombamento-do-belas-artes-20110302.html