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terça-feira, novembro 29, 2011

Belas Artes: dono pode usar espaço


MÁRCIO PINHO - O Estado de S.Paulo

A esperança de que o Cine Belas Artes continuasse existindo no edifício da esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista acabou. O cinema não será tombado, como pretendiam seus defensores, o que significa dizer que o proprietário poderá realizar as alterações que quiser no prédio e imediatamente alugar o imóvel para que ali seja construída uma loja, provavelmente.

O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) entendeu que o Cine Belas Artes, como bem imaterial, pode ser tema de um registro de memória, e não ser tombado. Em outras palavras, pode ganhar o registro em um livro, uma placa no local e um reconhecimento que incentive políticas públicas.*

"Podemos chegar à conclusão, por exemplo, que o cinema de arte impactou gerações, que criou uma riqueza grande para a cidade e deve ser incentivada como prática", afirma a presidente do Condephaat, Fernanda Bandeira de Mello. Ela afirma que o tombamento não garantiria a permanência do cinema e não há valor histórico em termos de arquitetura no prédio, que foi inaugurado em 1943 e desde 1967 abrigava o Belas Artes.

O tombamento era analisado pelo Condephaat desde 3 de outubro, após pressão do grupo interessado na permanência do Belas Artes. O processo também passou pelo órgão municipal de patrimônio, o Conpresp, que informou que não pode tombar o uso do imóvel.

Afonso Lima, um dos membros do movimento pró-Belas Artes, que tem 90 mil adeptos no Facebook e 20 mil assinaturas em abaixo-assinado, criticou a decisão. "Poderia ter havido um debate, um estudo e mais boa vontade de ver o imóvel como algo histórico. Em seus porões se viam filmes proibidos na ditadura. E a Constituição também considera patrimônio cultural os bens imateriais", diz Lima, que pede que o imóvel seja decretado de utilidade pública.

Sujeira. Fechado desde março, o Belas Artes está abandonado. O prédio foi grafitado e abriga mendigos. O cenário atual é de abandono.
/COLABOROU FELIPE FRAZÃO

* São, me parece, na realidade, três alternativas. Tombamento (por motivo histórico ou arquitetônico), registro como bem imaterial (que prevê "medidas de salvaguarda") ou (o que será aplicado no caso do Belas Artes) o novo "registro de memória", ainda sem instrumentos definidos (uma placa, possivelmente).

Parece que, no Reino Unido, as casas onde os Beatles moraram foram tombadas. O Rio está fazendo políticas para reabrir cinemas de rua, que são economia criativa e movimento, e SP vai para trás, já que há 20 anos foi tombado o terreiro Ilê Axé Obá. Descaso.

segunda-feira, novembro 28, 2011

O Condephaat abriu processo de registro de memória para o Cine Belas Artes.

O órgão municipal do patrimônio havia ignorado o parecer técnico do DPH.
O Condephaat não realizou o estudo exigido pela abertura do processo de tombamento. O registro de memória ainda não tem instrumentos definidos.

A discussão se resumiu a uma troca de emails dentro da comissão e quando o assunto voltou ao Conselho, acabou sendo votado não o objeto de tombamento em pauta -material ou imaterial - mas a aprovação ou não do tombamento.
Todo processo aberto exige um estudo técnico necessariamente.

Algumas opiniões demonstraram completa ignorância do assunto, desinformação. Nem mesmo foi avaliada a Constituição e casos anteriores, como o terreiro Ilê Axé Obá tombado sem o valor arquitetônico. Não houve a participação da sociedade.

Alguns conselheiros levantaram em privado novamente a questão da necessidade de posicionamento do governador no sentido de realizar a desapropriação do imóvel antes que ele seja demolido.

O Movimento pela reabertura do Cinema conta com mais de 100 mil apoiadores no Facebook e 20 mil assinaturas.


Decreto permite o reconhecimento de manifestações culturais do Estado

Com isso, Condephaat agora pode registrar bens imateriais

Além de proteger imóveis e bens importantes para a história de São Paulo, agora o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) também pode preservar o patrimônio imaterial do Estado. Por meio do decreto 57.439, publicado no Diário Oficial da última terça, 18, o governador Geraldo Alckmin instituiu o registro de bens imateriais. O objetivo é identificar e reconhecer conhecimentos, formas de expressão, modos de fazer e viver, rituais, festas e manifestações que façam parte da cultura paulista.


Poderão ser registrados como bens imateriais conhecimentos e modo de fazer enraizados no cotidiano das sociedades; rituais e festas; manifestações orais, literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas, além de espaços onde são realizadas práticas culturais.


"A preservação desse tipo de memória cultural é uma das metas da Secretaria de Estado da Cultura, que investe em programas como o Revelando São Paulo e também direciona editais do ProAC para projetos de preservação do patrimônio cultural imaterial", explicou o secretário da Cultura, Andrea Matarazzo.


Para a presidente do Condephaat, Fernanda Bandeira de Mello, a decisão é mais uma conquista importante para o órgão. "A assinatura desse decreto é o coroamento do trabalho que vem sendo realizado na defesa do patrimônio histórico e cultural paulista em seu sentido amplo: material e imaterial".


Qualquer cidadão pode solicitar o registro de um patrimônio imaterial, que, a partir do pedido, será objeto de estudo dos antropólogos, sociólogos e historiadores do Condephaat. Não é necessário tempo mínimo de existência da manifestação para que seja feito seu registro. Sua importância será determinada pelo estudo.


O decreto permite o registro universal para reconhecimento de manifestações que possuem uma matriz comum - como os Reinados de Congo e a Festa do Divino - e o registro específico, para o reconhecimento de manifestações culturais de determinados grupos, realizadas em diversos locais do Estado. Além do registro, o Condephaat pode indicar ações que colaborem para a para salvaguardar a manifestação. A decisão também prevê a concessão do título de Mestre das Artes e Saberes da Cultura do Estado para personalidades consagradas pela comunidade ou que tenha conhecimento indispensável para perpetuação da prática cultural.


Da Secretaria da Cultura

http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=216522&c=5006&q=Decreto+permite+o+reconhecimento+de+manifesta%E7%F5es+culturais+do+Estado

sábado, novembro 05, 2011

Filmes brasileiros na 35ª Mostra SP.

O Céu Sobre os Ombros - de Sérgio Borges

Antes de mais nada, reforço que não existe coisa pior do que o filme de Hollywood em português ou o de-novo "menino e menina se amam em São Paulo".
Por isso o filme de Sérgio Borges tem valor. São os desencontros, vazios, contradições que fazem os grandes filmes contemporâneos.

Agora, como espectador, acreditei que era ficção. Três vidas na metrópole. Talvez seja nosso hábito, talvez seja burrice, só que depois dos famosos 10 minutos de apresentação do personagem esperamos outra camada. Essa complexidade (até) surge das facetas caleidoscópias desses seres: acadêmic@ prostitut@, escritor perdido, torcedor religioso... Mas a apresentação dura 71 minutos.

De repente, o filme acaba. A primeira impressão é: e dai?
Se fosse Godard desde o início, ok. Só que a sensação é de uma fábula que começou mas não se conclui.
Mas e os peitos de verdade? E o choro falando da avó?
A coisa meio perdida (e a filosofia de boteco) do escritor perdido?
Ele chama a Greice de Greice?

Voei para o site: então era um documentário? Sim, tudo era de verdade! Você acreditou! Então... foi filmado o sexo ao vivo da trans com um cliente? Forte...

Um pouco conformado, comentei com um amigo que assistira ao debate após a primeira sessão.

- Há muita direção aqui. Ele criou situações, dirigiu atores e deu falas. Não é um documentário, o blog também é "fake".

Uma das delícias do documentário é ter o contexto: não temos o clímax, mas temos um universo rico, causalidades, memórias, uma teia social. Essa densidade nos conta um enredo que leva de um estado a outro.

Se essa confusão (num mundo onde a "escrita de si" floresce e as barreiras doc/real se diluem) não nos faz perder o interesse, deixa o leitor-modelo de Eco tão atrapalhado que pedimos a "intenção" de vidas que nada (disso) nos podem dar.

O filme ganhou o Festival de Brasília - o que mostra sua qualidade.
A trans, por exemplo, nos comove com seu jogo do dentro e do fora, seus muitos mundos.
Se ficamos um pouco com a sensação de arte contemporânea que precisa de placa explicativa do "processo", é bom, entretanto, ter novas ideias por aí.


Histórias que Só Existem Quando Lembradas - de Júlia Murat

Ok, a menina fotógrafa da cidade grande (e ela é só isso, do início ao fim!) encontra a cidade perdida no tempo.

Mas tudo está tão sublinhado... e tem um tempo lento para dizer a mesma coisa.
O tempo lento nos filmes russos e nos mais desconstruídos é camadas de não-saber, de sentimentos materializados, de novidade.

Sim, a velha senhora é quieta, esquisita, cheia de medos... (mas não são terrores e silêncios de gente humana, logo passa).

Sim, a(s) casa(s) é/são grande(s) - vemos lampiões, máquinas de datilografar (que antigo!), pão amassado - os matutos são matutos (não é realidade, é o olhar que os deixou assim), o padre é ortodoxo, etc.

Então percebemos que há uma leveza "latina", não, não é Tarkoviski. Mas o que é?

Exemplo de diálogo:

- Por que parou a música, estava tão boa.
- Vou virar o disco.
- Boa essa música.

Nesse momento eu penso que faltam bons roteiristas.

Depois de meia hora de eu-já-sabia, começa uma relação mais dinâmica, com mais humor (dos habitantes) e belas fotos...

Então elas ficam amigas - claro!
A protagonista é um ponto: não tem nada a dizer a não ser "ser da capital".
Um certo "estereótipo" paira sobre tudo: uma nostalgia do rural que é mais um fetiche (não há televisão nesse lugar e um aparelho que faz som dá medo).

Ah, sim, mas tudo vem de um livro - o que prova minha tese de que vivemos num mundo de europeus (ou latino-americanos) mortos por causa do campo de força.

Por que imagens tão (potencialmente) fortes precisam de tanta fala?
Por que a ideia maravilhosa de um cemitério fechado pelos militares e uma velha que não pode ser enterrada na sua cidade vira um "o que você acha dos jovens"?

Como pontos positivos estão as belas interpretações de Sônia Guedes (Madelena) e Luiz Serra (Antônio).
Ainda, a ideia de mostrar pessoas idosas em cena (o público era também em sua maioria da terceira idade) cobre uma ausência.

Para que vou ao cinema? Para saber que a vida tem dobras.

Ctrl-V - de Leonardo Brant

Existe um senso comum que diz que a mídia nos manipula e nos impulsiona ao consumo e à alienação. Até mesmo as pessoas que mais reproduzem esse esquema na exclusão baseada em conceitos (em "produção") são antimídia.

Ou seja, não é o bastante. O filme se propõe a ser uma reflexão global entrevistando pessoas como Neil Gabler (sempre excelente), Gilles Lipovetsky (tentando falar do atual) e Massimo Canevacci (impecável) e apesar de algumas falas iluminadas não traz realmente um novo aporte ao nosso ódio enevoado. Muitas coisas são sugeridas, mas pouco é dito que nos dê a informação desejada.

Essa novidade pode se dar de duas formas: falando dos casos concretos e dos números desse domínio, como a coisa se dá de forma específica; citando as mudanças reais surgidas da crise que a televisão vive, do fim dos DVDs pela pirataria, da revolução da produção pela divulgação da tecnologia, da reformulação do colonialismo cultural com a crise do patriarcado e a emergência do produto-diferença, do cenário onde a cultura de massa é parte da vida de todos e não pode simplesmente ser rejeitada como "imposta", e temos de nos haver com o prazer e o desejo que as reflexões de Brothers & Sisters nos trazem junto com a problemática do acesso e da distribuição.

Os atores mais experientes ainda conseguem usar a teoria de ferro do marxismo, mas conhecem pouco desses cenários mutantes. Os atores mais jovens, de modo geral, tendem a aceitar como fato o mundo como está, a indústria como criação de demanda e a guerra selvagem como forma de produção.

Sintoma de como o mundo nos isolou uns dos outros e nos congelou em gavetas de racionalidades, parece que cada personagem fala de um lugar sem poder ver além de sua janela. Falta pensar junto para ver mais.

Ao formularmos perguntas temos de evitar o genérico.

Assim, o pensamento crítico poderia sair de seu gueto onde torna-se mais um fetiche burguês, um modo de pertencer ao grupo.

quarta-feira, novembro 02, 2011




Em homenagem às 9 pessoas da Rússia que entraram no meu blog (gente, como vocês sabem português???)
Assisti na Mostra "A cor da Romã" de Sergei Paradjanov (vai escrever isso!).
Sem palavras!
Pura poesia visual. Um cinema realmente feito de reflexões e imagens que narram!

Vale a reflexão do prof. Gilberto Safra:

"Em tempos passados o solo russo era ocupado por uma série de aldeias. (...) A interdependência entre os humanos e entre o homem e a terra é fundante. Assim, na concepção de vida russa é impossível se pensar no ser humano sem o enraizamento na terra, sem considerar a importância do trabalho que transforma e faz surgir as coisas, sem a convivência com outros seres humanos." (Safra, A po-ética na clínica contemporânea, Ideias e Letras, 2004).






Brinde: Sergei Paradjanov by Herchcovitch




terça-feira, novembro 01, 2011

Courbet censurado no Facebook






Ai, ai... Será que voltamos a 1900?

"La popular red social cerró sin previo aviso, el pasado 27 de febrero, la cuenta que contenía una fotografía de la conocida obra del pintor francés Gustave Courbet “El origen del mundo” (en la foto), en la que se ve en primer plano el sexo de una mujer abierta de piernas, y que se conserva en el parisiense Museo de Orsay".

http://paper.li/Blogdofavre

Vale a frase:

"Acepto con mucho gusto esta denominación. No solo soy socialista, sino que también soy republicano, y en una palabra partidario de cualquier revolución –y por encima de todo realista... realista significa también sincero con la verdadera verdad". G. Courbet

http://www.musee-orsay.fr/es/colecciones/resena-courbet/courbet-se-expresa.html