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sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A lei

1. Seja livre.
2. Não vista vestidos amarelos
3. Abra seu coração
4. Nunca coloque a manga direita antes da esquerda (principalmente com blusões vermelhos)
5. Não sente como passageiro de uma mulher furiosa
6. Use sempre o outro telefone nas quartas à noite
7. Saiba perdoar
8. Fique atento à especulação imobiliária que está derrubando a cidade
9. Seja generoso com os jovens
10. Na escada, ande pela direita
11. Lembre a senha do banco 2
12. Quando for ouvir Elis Regina, esteja com uma roupa azul
13. Grite às quintas feiras às 10h.
14. Ao ler Lucrécio, lembre de uma poesia turca contemporânea
15. Abra seu coração para o lado escuro dos outros
16. Quando uma menininha falar com você, pense em Martin Scorsese
17. Faça um discurso em homenagem à Gandhi no terceiro dia depois da Páscoa.
18. Quando parar na estação, deixe os outros saírem
19. Não fume debaixo de macieiras
20. Ame sem lembrar do passado
21. Mergulhe sempre que ouvir um sino tailandês
22. Atravesse na frente do hotel Rennaicense
23. Sempre que escrever um H, escreva também um O
24. Ao ouvir música indiana, coloque um dedo no nariz
25. Nunca introduza uma Barbie em seu corpo
26. Olhe para cima quando vir uma pedra branca
27. No caso de ver um exército, abra a caixa preta
28. Quando estiver com três mulheres, cante a balada de Dubois
29. Se um coreógrafo falar com você, compre um sorvete
30. Quando escremento estiver em seu caminho, pisque duas vezes
31. Seja espontâneo e nunca minta quando sentar na mesa ao lado de paparazzi
32. Use canetas azuis em dias de tempestade
33. Se um menino estiver na tela do cinema, não use uma arma
34. Quando tocar um ferro quente, lembre de Paulo Freire
35. Não desenhe buracos negros nos banheiros
36. Não fique quatro minutos sem tocar um piano
37. Não olhe sua mão mais de quatro vezes em um minuto
38. Não faça o que Duchamp já fez
39. Não aceite apertar um botão para explodir uma cidade
40. Não bata palmas com apenas mais quatro pessoas
41. Não comece uma guerra sem armas de destruiçõ em massa
42. Não use as cenouras de modo indevido
43. Não sorria quando um prisioneiro lamber suas botas
44. Não grite quando alguém disser que você é sujo
45. Suba quarenta e quatro degraus de três em três
46. Se você desaparecer lembre do dia em que seu carrinho de bebê caiu rua abaixo
47. Não compre subprimes sem lembrar que ninguém se responsabiliza
48. Não mate coelhos em museus
49. Lembre que o segredo da democracia é o silêncio
50. Quando a escuridão chegar, assopre.

Moradores Água Espraiada querem manter suas casas

"A mensagem abaixo foi veiculada pelo movimento de moradores na região da Operação Urbana Água Espraiada, que serão vitimas da desapropriação para a construção de um túnel bilionário.

Eles tem travado uma batalha pelo direito de permanecerem morando no local , que passará por um processo de valorização tremendo e cujos maiores beneficiários não serão os que lá estavam mas, novamente, o setor imobiliário que vai obter imensos lucros reocupando e fazendo especulação imobiliária na área.

Prestem atenção no folheto (cópia abaixo) que está sendo distribuído nas casas e tudo ficará bastante evidente !!!"


Assunto: Abutres do setor imobiliário começam a cercar moradores.

Conforme previsto e alertado durante esses dois anos pelo movimento , a Operação Urbana de Kassab e seus amigos empreiteiros começa a mostrar sua verdadeira face.

"Abutres e chacals" do setor imobiliário representando as próprias empreiteiras que ganharam a obra de presente do Prefeito Kassab , ja começam a cercar as famílias de moradores que tem seus imóveis ao redor da obra , no caso o futuro "parque linear" para arrematar humildes propriedades para a construção de seus arranha-céus que serão erguidos em volta do parque , ganhando bilhões de reais em cima da desgraça daqueles que serão expulsos de suas casas para dar lugar a essa obra nefasta.

As placas colocadas no emboque e desemboque do túnel com prazo de 24 meses para a construção, mostram mais uma vez a prioridade para fazer o túnel , pois é lá que o dinheiro vai rolar.

As poucas moradias populares que constam na licitação, nunca necessitaram de licença ambiental para serem iniciadas, o que mostra mais uma vez a intenção de amarrar essas obras ao túnel.

Lembramos que há 4 ações tramitando contra esse novo projeto, e outras estão sendo elaboradas.

Por fim será uma batalha longa , com muitos prejuízos para os moradores e para o município que terá de pagar imensas multas as empreiteiras.

Mas também haverá muitos lucros para as empreiteiras que vão ganhar essa imensa area para explorar durante anos, vão finalmente conseguir livrar essa area "nobre" dos favelados, jogando alguns deles na Americanópolis e Vila do Encontro e lucrar inclusive com as multas do atraso da obra.
Anormais

Quando L. era pequena, sua mãe a deixara na entrada da sapataria e entrara.
Um homem a levou rua à fora antes que sua mãe percebesse.
A menina foi encontrada dois dias depois numa praça, desorientada, sem calcinha.
Afirmaram que houve "repressão de memória", ela não lembrava de nada.
Os exames foram inconclusivos se houve estupro.

Ela era uma adolescente silenciosa e reservada. Tinha alguns pesadelos. Apesar disso, tinha amigos, estudava, gostava de dançar.
Uma vez, inesperadamente, saiu gritando da sala de aula. Os pais decidiram procurar um médico.

Estavam testando um novo tratamento. Uma enzina era inibida e outras drogas atingiam campos específicos do cérebro. Trata-se de atuar no hipocampo.
Os pesadelos cessaram. Ela começou a namorar. Parecia mais alegre, comprava mais,
estava mais vaidosa.

Passou a se interessar por filmes trash de terror e a colecionar animais empalhados. Formou-se em Direito.
Aos poucos, adquiriu uma estranha e assustadora autoconfiança, uma esfuziante determinação, uma euforia de sólidos raciocínios e um olhar frio e implacável, que lhe fizeram brilhar como uma promessa, uma liderança.

Cobriu as paredes do quarto com casos de crimes violentos. Lia antigos psiquiatras e legisladores interessados em anomalias do espírito e do corpo.

“Quando o governo tentou, sabiamente, capitular frente à Prússia, no ano de 1871, e a Comuna de Paris explodiu, pudemos estudar empiricamente o quanto as tendências impulsivas fomentam a desordem. R., mesmo inteligente, era um indivíduo inadaptado. Tentou entrar sem sucesso na Politécnica, depois cursar Medicina, caindo em seguida em uma vida vã, regada pelo mais execrável ateísmo, materialismo, socialismo e cinismo revolucionário. Complôs, sociedades secretas, orgias, tudo se misturava nesse espírito inflamado. Um olhar doentio, fisionomia arrogante, narinas que exalavam sensualidade, tudo nele apontava uma classe biologicamente desviante. Foi executado neste ano.”

Nos grevistas de Turim esse médico encontrou 41% de tipos fisionômicos criminosos. Ela passou a estudar as fisionomias com uma intensidade anormal.
L. transcrevia madrugada adentro nomes, tipos, casos inteiros de monstros morais, masturbadores, homens bestas, hermafroditas, antropófagos, assassinos.
Passou dois dias acordada ao ler sobre um crime dentro de um condomínio fechado. Parecia cansada.

Começou a falar do perigo da esquerda, do efeito da indisciplina na vida urbana, do vandalismo, da corrupção do Estado “sindicalizado”- entre os colegas de pósgraduação, na mesa de jantar, para desconhecidos. Os pais, preocupados levaram-na ao psiquiatra. Ele tentou induzir a enzina a atuar.
Internada há cinco anos, L. não fala, olha a parede ininterruptamente e parece completamente despersonalizada.

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O trabalho Anormais de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Universos

Eu estava pesquisando um dispositivo capaz de, implantado no meu cérebro, criar uma imagem holográfica de uma paisagem distante. Assim, o cérebro estaria sempre visualizando dois momentos e, para evitar o estresse sobre o sistema, decidi que a captação do fluxo distante se daria em blocos.

O que eu queria era um pedaço do outro espaço-tempo e não todos os frames.
Ocorreu que a máquina conseguia captar a variação entre os elementos subatômicos e enviar-me alguns desses arranjos. Ela, surpreendentemente, passou a prever arranjos e enviou-me imagens com microssegundos de antecedência. Meu professor sempre disse que o tempo e o espaço vieram a existir juntos, que o tempo é a forma como interagem as partículas. Já haviam transmitido informação para trás no tempo com raios gama.

Eu decidi aprimorar isso, tentando auxiliar a máquina a variar as vibrações intrínsecas através da gravidade atômica, que altera a forma da geometria local. Depois de meses de frustrante pesquisa, um acaso, a proximidade de um objeto magnetizado, fez com que eu visse uma mosca pousar na clepsidra e, logo em seguida, a cena se repetir.

Em uma noite de intensa busca eu, exausto, caí sobre o sofá no meu laboratório; uma sirene de polícia me acordou e, logo em seguida, ouvi o mesmo ruído; acordava ao raiar do sol e percebi que eu vi a cortina balançar e, no mesmo instante, a janela sem cortina. Um minuto depois, ela estava novamente balançando. Sai da sala e chamei minha assistente. A cortina iria ser lavada em seguida.

E se eu pudesse voltar a uma época onde ela não tivesse ido embora, mudar meus gritos, meu cíúme? Teria iniciado aquilo tudo, sem notar, por esse motivo?
Um Deus fora do universo era o tempo de Newton. Agora poderíamos controlar isso, o eu-lugar afeta o tempo, que é onde ocorreu. São pontos locais na matriz multidimensional, e pontos no passado e no futuro são reais, tem uma existência física. Não há um relógio absoluto.

Desde Einstein sabe-se que dois seres em lugares diferentes percebem a passagem do tempo de forma diferente, para A dois eventos foram simultâneos e para B não foram. Dizer “quando” depende de seu ponto de refência, só podemos comparar eventos dentro de estruturas. Os relógios em campos gravitacionais fortes andam mais devagar. Um observador, pela dilatação temporal, percebe um relógio igual ao seu com outro observador com um tempo lento. Se criarmos uma ligação intrínseca entre duas partes do universo, um túnel, e acelerarmos um das pontas, a outra ficará no passado. Assim como é difícil ver a temperatura de uma molécula isolada, mas apenas do sistema e seus movimentos, seria possível ver o tempo de uma unidade fundamental? É uma qualidade emergente? Os efeitos podem mesmo anteceder as causas, o tempo está apenas em nossas mentes, segundo o universo (a solução) de Gödel. Cada partícula desenharia uma linha de universo tipo-tempo e a gravitação pode fazer a linha fechar-se sobre si mesma. Como diz um amigo, “na verdade, o tempo está lá fora”.

Comecei a acordar antes de dormir. Pude manter meu trabalho, entretanto, aprimorando o chip com estatísticas sobre os efeitos quânticos. Em um momento de exaustão, na tarde abafada, vi minha esposa com outro homem na nossa casa. Comprei uma arma e decidi matar a nós dois.
No momento em que cheguei na sua casa, eu a vi com aquele homem. E, em seguida, vi meu corpo estendido no chão, sangrando.
Corri pela noite.


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O trabalho Universos de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Mãe e filho

A senhora, longo vestido azul – sempre o mesmo - cabelo preso, leva uma bandeja para o quarto do filho. O rapaz, olhando para a janela, sente o cheiro da mãe.
É você -pergunta.

Ela o mantém preso. O odor do cômodo fechado era o de uma câmara mortuária. Na parede oposta à janela, uma sombria cidade em miniatura, completa, com montanhas, igreja, trem e lago. Muitos habitantes sem rosto. O cemitério tem covas abertas, que vão se preenchendo dia a dia.

Há muitos anos atrás, no primeiro dia do jardim de infância, a mãe se afastou um momento e o deixou conversando com outras crianças. Quando retornou e tentou levá-lo para casa, ele gritou como se ela fosse uma estranha. Tentou cheirar as mulheres próximas.

Na realidade, ela percebeu desde cedo. Foi amamentá-lo, um dia, logo após ter cortado o cabelo. A criança rejeitou-a com terror.

Na aula, ficava olhando para as paredes, mas atento aos som. Nunca olhava para os olhos de ninguém, o que o deixava isolado. Não podia participar dos jogos.
Aos doze anos se apaixonara por uma garota. Eles se beijaram, mas no outro dia não a encontrou mais.
Eu vou cuidar de você – dizia a mãe. Quem sabe o que pode acontecer se você sair pela rua?
Ele calava. Lia dia e noite obras de Lamartine, Stendhal e Balzac.

Dos sonhos um grito me arrancou
A cova esperava meu amor
Ao túmulo eu fui consolar meu coração
Acordei com marfim nas mãos

A mulher abaixou os olhos. Teria de agir antes?

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terça-feira, fevereiro 21, 2012

As sombras

Sempre houve lendas sobre Botucatu, "Vento Bom", antiga rota para o Peru, sobre um frei franciscano com poderes paranormais, que realizaria estranhos rituais em três pedras altas como megálitos (existem muitos dolmens na região, com inscrições de óxidos de ferro e caulim), sobre fantasmas de escravos que querem vingar-se de seus donos - inclusive um moleque negro, fantasma malévolo, que teria morrido por ter dado um golpe de capoeira no seu dono, o qual deixou, quando o apanhou, que morresse da gangrena, tendo sido pendurado por uma perna – histórias sobre sociedades secretas e até mesmo OVNIs.

Em 1943, o prefeito amanheceu misteriosamente morto em sua cama. Nenhum médico pode diagnosticar a causa da morte.
O prefeito estava planejando uma série de reformas na cidade – obras faraônicas para pagar seus doadores de campanha, o “império do cimento”. O povo se sentia alienado, muitos eram despejados para dar lugar a túneis, estradas, pontes e parques. Além disso, ele acabara com as comissões de saúde e segurança, onde o povo opinava.
Alguns jovens estudantes haviam sido expulsos dos prédios que ocuparam no campus– em protesto contra a falta de vagas e de habitação popular. (Centenas de pessoas haviam sido despejadas com fogo e tiros numa desocupação recente). Houve confrontos e dois jovens morreram.

Um vereador desapareceu misteriosamente quando seu carro parou em uma ponte. As portas abertas, a chave na ignição, um presente para a filha no banco de trás. Seu corpo nunca mais foi encontrado.

Foi quando primeiro se ouviu falar deles. Pregaram um manifesto na porta da Igreja onde exigiam que cada vereador fosse pautado por um grupo de moradores, que debateriam seu voto nas sessões da Câmara. Sessões estas que deviam ser transmitidas ao vivo no rádio nas várias praças da cidade. Os cidadãos deveriam se reunir todo o mês em assembleias de bairro e debater as leis aprovadas. Cada região receberia um orçamento calculado com base no número de pessoas e na arrecadação, e o povo decidiria onde seria aplicado o dinheiro.
A imprensa começou a chamá-los de "1848".

Quando o vice-prefeito tomou posse, disse que a democracia ia muito bem e que não se precisava de nenhuma participação além do voto. A violência deveria ser perseguida. “Não se deve evitar o diálogo”.
“Não há diálogo há muito tempo – há absolutismo” - foi escrito com seu sangue na parede de sua mansão.

Bombas começaram a explodir onde os vereadores iam. Três foram abatidos em um bordel, aparentemente com veneno.
A polícia, atordoada, começou a investigar – falava-se em uma seita satânica, em comunistas e em psicose de massa - e prendeu dois homens, acusados de conspiração.

Um médium foi chamado pelo presidente da Câmara para ajudar os policiais,
mas acordou com uma cobra em sua cama e foi embora.

Um incêndio criminoso destruiu a Prefeitura na madrugada – multidões vagavam nervosas nas ruas, homens disparavam tiros para cima, cavalos corriam, mulheres choravam, brigas, lojas foram depredadas, ateava-se fogo no que havia nas ruas. A fogueira imensa ardeu dois dias - sem que se tenha podido descobrir a causa.

Um prazo foi estabelecido para as mudanças – um bilhete achado no corpo do presidente da Câmara. Não foi cumprido.

O exército mandou reforços da capital. Os soldados começaram a sofrer de uma estranha febre, alguns se enforcaram nos arcos das pontes, outros atiravam contra os chefes tomados de estranha hipnose. Alguns juram que um deles desenhou um frade na parede da cela onde se esvaiu em sangue.

Os vereadores foram morrendo um a um, vitimados das formas mais incríveis, em acidentes, emboscadas, pelo suicídio ou pela loucura. Apenas dois deles escaparam, fugindo sem deixar rastro.
Por fim, o governador cedeu. As novas regras foram implementadas.
Decidiu-se fazer uma missa para o escravo supliciado.

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O trabalho As sombras de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O viajante noturno

Nessa época, os campos ainda não haviam sido cercados. Eu estava na fazenda de meu avô, havia muito gado, um tanto solto, as charqueadas não se importavam com a qualidade. Uma noite, acordei com a correria de peões falando alto, meu avô dando ordens e minha avó choramingando. Eles me mandaram para cama, mas fiquei espiando pela fresta da janela. Alguém vira o “homem de preto” e meu avô dava ordens para vasculharem os arredores.

No outro dia, minha avó, um tanto contrariada, cedeu à minha impertinência: quem era afinal essa assombração?

Dizem que um gaúcho que viajava solitário à noite, encontrou um menino índio com olhos vermelhos fazendo uma trança no seu cavalo enquanto ele dormia ao lado do fogo. Pensou tratar-se de alguma feitiçaria, mas o menino ria alto, dizendo que era uma brincadeira e perguntando se podia dormir alí para se aquecer. Como o homem não acreditava em assombração, deixou que o menino ficasse. Mas, enquanto ele dormia, aproximou-se e pôde perceber que, dentro da calça, logo no fim da coluna, o índio tinha uma coisa parecida com um rabo. Assim, não pregou o olho nem um segundo, até que o sono lhe venceu logo antes de surgir a manhã. Quando acordou, percebeu que estava no meio de um mato cerrado, e uma mati-pereira gritava nas árvores, parecendo ecoar de todos os lados. Ele ficou perdido assim um dia inteiro e, quando veio a lua, adormeceu. O menino de olhos vermelhos voltou e lhe acordou, oferecendo-lhe algumas ervas e frutos. Como estava com fome, comeu e acabou dormindo de novo. No outro dia achou a saída da mata e bateu numa tapera onde moravam dois velhos. Tentou contar-lhes o que lhe sucedera, mas sua voz não saía, apenas urros horripilantes. Os velhos o expulsaram e ele começou a vagar pelos campos à procura do menino, tornando-se uma assombração.”

Nesta noite, eu não pude dormir. Saí da cama na ponta dos pés. Resolvi ficar na grama do lado de fora da casa, com meu estilingue, fingindo olhar as estrelas, mas com a secreta ânsia de ver alguma coisa. Eu me cobri com um pelego e deitei sobre minha grossa capa de lã.

Acabei adormecendo. Sonhei que um homem barbudo me estrangulava e acordei em meio a tais gritos que a casa inteira veio me acudir.

Nunca mais consegui falar.


Afonso Jr. Lima

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O trabalho O viajante noturno de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.


O Saci-Pererê é um dos personagens mais conhecidos do folclore brasileiro. Possuí até um dia em sua homenagem: 31 de outubro. Provavelmente, surgiu entre povos indígenas da região Sul do Brasil, ainda durante o período colonial (possivelmente no final do século XVIII). Nesta época, era representado por um menino indígena de cor morena e com um rabo, que vivia aprontando travessuras na floresta.

http://www.suapesquisa.com/musicacultura/saci-perere.html

domingo, fevereiro 19, 2012

Outro

Conversávamos pela manhã. Ele era simpático no início. Um pouco imaturo. Um dia, resolveu sair comigo. Pouco importa que fosse alucinação ou outro fenômeno.

Queria atacar as pessoas, não sabia se comportar. Foi criando situações impossíveis.

Não suportava calado as injustiças, queria ser igual a todo mundo, desafiava os arrogantes, queria mudar o mundo.

No fundo, quem precisa de todas aquelas coisas? Transtornava-o sobretudo a obrigatorieade de saber tudo para ser alguém, de nunca estar pronto. E o fato de tanta gente saber tanto sobre você, estar disposta a julgar e condenar. Você é esses outros que cada um cria.

Tive de começar a ficar em casa. A rua, a chuva, o calor, o trânsito, a multidão, o barulho, miseráveis nas calçadas do século XIX, tudo o perturbava.

Para fazê-lo parar, falava eu mesmo, de modo que comecei a descrever em voz alta o maior número de detalhes externos e internos que se podia imaginar. O guarda-roupa estava com um pequeno arranhão, o cartaz de filme caíra da parede, os vizinhos, janela fechada, foram viajar, a parede branca está com uma mancha, quando acordei pensei nas frases “rainha do infinito”, minha garganta doía, senti-me feliz, devo começar a empilhar os jornais que se acumulam (corrupção e assassinatos), tirei o pó do pássaro verde no cactus, se conseguisse aquele emprego poderia viver mais calmo, e mais cansado, os sinos tocam, os vizinhos já ouvem uma música irritante, o cão, preso, late, aviões, o sol entra pela janela. A banalidade era um antídoto. Meu amigo observava-me com ódio e começava a me assustar. Devia dar um fim a tudo isso?

Por que motivo aquela imagem tomara forma? O que senti eu quando um vulto passou no meu apartamento? Quando estava sozinho? Às duas da manhã, ele caminha pelo quarto.

"Tudo está certo" - tentava dizer a mim mesmo. Cantava um poema de Whitman:

"Da terrível dúvida das aparências,

da incerteza afinal de que possamos estar iludidos,

de que talvez a identidade para além do túmulo seja apenas uma linda fábula".

Olhava no espelho e podia vê-lo.


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O trabalho Outro de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Condutor da noite

Não conseguia parar de lembrar. Os trilhos, meu amigo no líquido vermelho, a forma desesperada como seus braços se moviam, como tentava se mover, os gritos.

Por que motivo eu deveria ser o condutor que vinha depois, por quê?

Comecei a sonhar todas as noites. Ora ele gritava do seu lago de sangue, ora eu conversava com ele sobre o que poderia ter evitado aquilo.

- Mas por que motivo nós temos de vistoriar os trilhos com os trens em funcionamento, ele perguntava.

Eu acordava banhado em suor. Meus gritos despertavam minha minha, que mulher começou a se preocupar comigo. Passei a dormir na sala.

Agora já nem mais dormia, com medo dos pesadelos. Caminhava como um fantasma pela casa com um copo de água ou uma cerveja.

Tomava alguns remédios para ir ao trabalho.

- O cara que vinha dirigindo não teve muita opção. Não se pode ver a não ser coisas bem distantes. Ele abaixou os olhos para ler alguma coisa – era o que se comentava.

Uma noite, depois de vagar pela casa até o momento mais frio e escuro, decidi pegar o carro e dirigir até o local.

Eu poderia ficar observando os trilhos no resto de luar, o vento, qualquer coisa que apontasse para um significado. Poderia sofrer um assalto também, mas qualquer coisa, até o silêncio, eu imaginava, poderia aliviar minha mente enlouquecida.

Observava a pedra branca do céu e seus véus negros. Por incrível que pareça, acabei dormindo no carro.

Passei a fazer isso noite após noite. Fiquei até amigo do guarda noturno.

- Sabe o que eu não entendo, eu dizia – Por que motivo não se faz essa coisa toda de madrugada?

Ele foi gentil deixando que eu caminhasse pelos trilhos, horas e horas, sozinho, pensando em que deveria eu me apoiar para seguir em frente, como acordar num dia radiante se tudo era tão absurdo, até que eu retornava para casa e conseguia dormir um pouco.

Em uma dessas jornadas de notívago, eu estava saindo de um túnel, pareci ouvir um gemido. Fiz força para controlar meus nervos, mas meus passos começaram a acelerar.

Fiquei duas noites sem voltar lá. Ao mesmo tempo, uma curiosidade cega me afligia. Que som seria aquele, sinistro e misterioso?

Passei a andar em busca de algo sobrenatural, até passei a dormir na plataforma, esperando o dia amanhacer. Sentia minha mente se esfacelar – o sangue, os gemidos a escuridão, e agora os ratos e os uivos dos cães ocultos, tudo me transtornava.

Por fim, desisti de meu emprego, abandonei minha mulher – assustada e resignada - e passei a dormir durante o dia dentro do túnel, atrás de uma coluna e, o sol derrotado, saía com os morcegos para minha vida. O guarda me alimentava.

De alguma forma, a minha consciência é que fazia a madrugada, era eu que a conduzia.

Uma vez, já no meio dessa marcha de silêncio que tudo esconde, após uma tempestade, ouvi uma voz que parecia me chamar. Vi meu amigo caminhando nos trilhos. Seu torso era cinzento, seu rosto, sem olhos, suas pernas, de substância volátil.

-Venha comigo – ele disse.

Não sei mais que lugar é esse em que tenho vivido.

Um tipo de sol


Eles foram falar com o Secretário Geral. O homem tinha abotoaduras de ouro e usava medalhas.

- Veja bem, senhor – disse Elisa, bela, jovem, com seus olhos negros faiscando e os cabelos longos caindo pelo vestido de seda malva – a participação da população nas decisões do conselho de saúde é algo tradicional. Desde que meu avô chegou à Redução...

- Minha senhora – o nobre interrompeu – A senhora deve saber que a participação acaba no momento do voto. Não queremos rebeldes, anarquia, mas gente que trabalha, luta e ajuda o desenvolvimento. Temos especilistas, pessoas que dedicaram toda a sua vida a estudar. Por que motivo um bando de mulheres ou velhos deveriam interferir em temas tão fundamentais?

Elisa segurou sua raiva e sua irmã apertou sua mão.

- Esse aristocrata, esse hipócrita! - gritava pela rua.

- Acalme-se – Vanessa disse. Que se pode fazer? Além do mais, com esses bombardeios, esses ataques, a guerra é iminente. Não se fala de democracia em tempos de guerra.

Elisa lembrou-se imediatamente do irmão, falecido em um ataque à base avançada de V2. Fora a primeira vez que tivera uma séria melancolia, ficara na cama, sem comer por mais de um mês.

Quanta sorte de ter uma irmã tão inteligente e bondosa como Vanessa. Além de tudo, era uma pintora talentosa. Reuniam em torno de si um grupo de poetas, filósofos e reformadores, interessados em mudar a vida na Redução.

Foram passear no boulevard. Observava os seres marinhos dos dois lados do caminho, um polvo gigante pareceu mirar-lhe nos olhos, tocando o vidro. Havia um tempo, se dizia, que as mulheres haviam trabalhado fora, podiam estudar, podiam votar como os homens. Agora, somente na física teórica a mulher era admitida – diziam que sua criatividade ajudava esse campo. Mais um preconceito.

“Nora, temo entrar novamente em colapso” - ela pensava em escrever à sua amiga de infância- “é, talvez, covarde, ridículo e sem sentido, claro”. Mas desistiu, com medo de assustar a outra inutilmente. Nora e Elisa, ou, como as chamavam na escola, a rocha e o coral. Estudaram juntas a vida antes do Colapso, a vida animal, os Pioneiros, mitologias antigas e literatura. Ajudaram na restauração dos livros na Biblioteca Nacional, livros que sobreviveram. Nora era forte, corajosa, mas também sensível e tolerante e sempre incentivara a amiga a escrever. Elisa tinha dois livros de poesia, um deles dedicado à ela.

E, se a invasão se confirmasse? O que restava da civilização desapareceria. Ela e o marido – amado Leon – já imaginavam tomar pílulas fatais, pois seriam perseguidos por sua postura arrojada.

Elas agora entravam no jardim, anêmonas gigantes coloriam todo o mirante. Ela pensava que sua vida não tinha sido fácil. As mulheres podiam estudar caso pagassem o próprio estudo, e ela teve de desistir no meio da faculdade. Além disso... Preferiu fugir das lembranças.

- Que corais maravilhosos, como buquês roxos e lilases! Se tem algo que considero correto nessa mundo é termos adotado o nome desses bichinhos, Anthozoa.

Essa era Vanessa. Porosa a toda a luz, cor e alegria do mundo. Há muito o costume aceitara relacionamentos abertos. Mas somente ela podia conviver com o amante de seu marido como se fosse um irmão. Também, quem poderia resistir ao encanto do Cérebro?

Ao chegarem am casa, o choque. Sua mãe estava caída ao lado da banheira, um infarto. Elisa parecia em estado de choque, não conseguiu falar uma palavra em dois dias. Depois da cerimônia – os corpos eram colocados em urnas de cristal na rocha – o marido de Elisa sugeriu que ela fosse para o Campo, com Nora. Ele sabia que haviam tido um relacionamento íntimo há muito tempo, mas desejava antes de tudo ver a mulher feliz.

Nora morava em uma das 4 colônias ao redor da Redução, onde se plantava hortaliças e se cultivava frutos do mar. Tinha dois filhos, Haji, de 12 anos, e Mika, de 9, uma garota sorridente de lindas tranças azuis. Seu marido, militar, havia morrido deixando-lhe boa herança.

Elisa ficava brincando com as crianças – o jogo “que tipo”, onde alguém descreve uma cena, por exemplo, “hoje eu acordei cansado”, e o outro pergunta, “que tipo de cansado?”, até que o maior número de camadas, tons de percepção e emoções sejam decifrados. Depois, ajudava a arrumar a casa, enquanto Nora estudava física.

Adorava caminhar pelos campos com as crianças, vendo a vida animal nas piscinas, lagos e fontes. Um golfinho - Utah, parecia consolá-la toda vez que nadava com ele. Tinha de fugir do sedutor Treinador, que usava os elefantes marinhos como isca. Havia grandes plantações de flores modificadas e plantas ornamentais inteligentes e um bosque vigiado por medusas terrestres robóticas (MTR). Um grupo de teatro animava as tardes no parque central. Vez por outra entravam na região resguardada do mar vestidos com suas roupas com sonar.

Ela e Nora liam poemas no fim do dia, quando a luz era reduzida, e Elisa transcrevia trechos inteiros de livros, para se distrair. Tocava harpa.

- Por que você não começa um romance? Sempre achei que tens muitas coisas pra contar – dizia Nora.

Leon mandou uma carta. “O governo está aproveitando a ameaça de guerra para cortar os salários pela metade. Quer reduzir a educação pública – já pagamos caro pela luz, água, transporte, até quando poderemos resistir? Temo que haja distúrbios na cidade. Acho que seria bom ficares na Colônia um pouco mais”.

Elisa sentiu-se feliz até certo ponto, por ficar longe das neuroses da cidade. Mas acabou melancólica, perdeu todo o apetite, não se sentia forte para sair da cama. Nora passou mais tempo com ela, lendo longos trechos de romances e diversos poemas. Elisa pediu que dormissem juntas.

Vanessa estava procupada com ela: “Busque aquilo que gosta de fazer, minha irmã. Escreva. Sei que os pesadelos do passado, aquela terrível humilhação causada por nosso tio, ainda perfuram seu coração. Mas é um coração muito bonito, há beleza nele. Transforme sua dor em cores e sons.”

Mika veio na sua cama numa linda manhã. “Que tipo de sol?” - perguntava. Elisa beijou-lhe as faces morenas e a menininha sorriu. “Você e a mamãe se amam, não é?” - ela disse.

Depois saiu correndo com sua boneca nas mãos.

Nora estava na porta, havia ouvido. Elas sorriram. Podiam ser felizes.


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segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Na madrugada

Aquela noite eu estava um pouco agitado – comera demais, estava um pouco gripado e não conseguia ficar na cama, ora com frio, ora com calor. Por volta das duas da manhã, levantei. Na cozinha, abri a porta da área; percebi que a janela que dava para o corredor do prédio tinha luz. Quem estaria chegando essa hora? Com toda essa chuva?

Tomei meu copo de água, estava indo dormir, quando percebi que a luz do corredor acendeu novamente. Instintivamente fui até o olho mágico da porta observar.
Uma moça de camiseta branca, cabelo negro e tranças passou pela porta – recuei. Não tinha podido ver seu rosto, estava de cabeça baixa?
Quando eu mudara para um prédio antigo no centro de São Paulo, um mês antes, muitos amigos me consideraram louco. A região estivera muito violenta por um tempo, e os preços baixaram. Dizem que a Prefeitura havia parado de recolher o lixo e prover segurança com o objetivo de degradar a região – surgiam assim planos de “revitalização”, entregando à exploradores privados o direito de desapropiar, demolir, contruir e obter lucro.

Aquela visão despertou algum sentimento estranho em mim. O silêncio do prédio fazia tudo parecer mais esquisito. Ficaria ela no corredor, com todo esse frio? Deitei-me. Percebi que as luzes acenderam algumas vezes, como se alguém estivesse caminhando lá fora. Finalmente, dormi.
Eu acordei com um choro, ou talvez fosse a tosse de alguém. Dormi novamente e, dessa vez despertei com batidas em uma porta, seguidas de soluços, estes sim, de desespero.

O mundo dormia. O sono misturava-se com lembranças de casos terríveis: um ex-namorado matara uma moça por ciúmes; um policial fora baleado e sua namorada estuprada. Eu estava perturbado, talvez pela ideia de só eu estar consciente na escuridão, e tentava me convencer que, simplesmente, uma pessoa esquecera as chaves. Que houvera alguma briga dias antes, uma separação. Que o homem condenara a mulher a vagar por alguma traição. Onde teria ela ido morar?

Como não cessavam as batidas, cheguei a pensar em abrir a porta e chamar por ela. Mas quem seria aquela mulher? Poderia simplesmente lhe servir um chá? E se fosse realmente uma maluca, que houvesse ameaçado o próprio marido ou namorado? De repente, lebro que a vizinha havia comentado sobre uma briga violenta meses atrás. Preferi desistir. Por fim, dormi profundamente.

Aquela foi uma semana agitada. Trabalhando bastante até tarde da noite, esqueci completamente do ocorrido. Mas, uma noite, quando uma tempestade parecia querer varrer todo o cimento de sobre a terra, com um frio lúgubre, ouvi novamente as pancadas fortes em uma porta. Quem seria tão grosseiro de fazer isso depois da uma da manhã?

Abri instintivamente minha porta e olhei pelo corredor. Uma mulher estava de costas para mim, com suas tranças negras, encostada na parede. Eu dei um passo em sua direção, e algo me fez parar, meu sangue gelou. Ela estava virando e, por algum motivo, eu também olhei por cima do ombro, para a escada, como se algo estivesse atrás de mim; e quando mirei novamente, o corredor estava vazio. Desaparecera. Fechei minha porta com um estrondo.

Procurei minha vizinha no outro dia. No prédio, vivera uma moça presa pelo marido dentro de casa. Há mais ou menos seis meses, ela conseguira fugir. Voltara para a casa da mãe. O marido, inconformado, tentara ameaçá-la. Foi morta num suposto assalto quando voltava sozinha por uma estrada de terra.
Passei a dormir muito pouco, assolado por pesadelos. Uma semana depois, fui morar com um amigo.

A. Jr. Lima


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domingo, fevereiro 12, 2012

Matéria escura

Coloque seu protetor amiax – gritava sua mãe.
Ele queria desobedecer, mas lembrou de seu amigo, que ficou com queimaduras de segundo grau ao sair no sol sem roupa de proteção. Cada vez menos gente saía à rua. Pensou que, em algum tempo próximo, todos viveriam dentro de suas casas.

As construtoras globais haviam posto abaixo todos os antigos prédios, casas e áreas públicas, desaparecera a multiplicidade de atividades de outrora, restanto filas de altíssimos condomínios fechados que eram continuamente destruídos para se dar espaço a outros ainda maiores, com a possível expulsão dos moradores para zonas periféricas.

A namorada estava radiante, seus cabelos negros e seu sorriso muito branco, sereno.
Fez boa viagem? - e queria beijá-la antes que respondesse.

Para seu aborrecimento, o marido da irmã teria de dormir novamente em seu quarto. Lembrava do cara falando de matéria escura, algo que é 90% de tudo, mas ninguém explica, seria matéria diferenciada, energia intrínseca, transbordamento quântico, campo dinâmico de energia? E se, de fato, a maioria de tudo fosse o desconhecido?

Eles partiriam para a praia no dia seguinte.

Eu adoro ver a água, apesar de ser tão escura. No museu podemos ver como havia seres vivos lá dentro – dizia o editor de hologramas entusiasmado.
Sabe o que eu teria gostado? - de ouvir aquilo que chamavam pássaros ou dinossauros aéreos. Dizem que nas cidades havia aquelas madeiras com verde, que alí também eles faziam saudações ao sol! Por que fui eu viver nos dias de hoje – a moça sorria tristemente.

Para poderes comer salex em barras multi-vitaminadas – Fred-I tentou ser simpático, mas parece ter sido uma péssima ideia.

O homem ficava muito à vontade, com protetor de sexo, caminhando e roendo sua água destilada. Olhos negros, nervosos, profundos. Ele só queria desaparecer dentro de seu holomundo, quantas coisas para fazer – jogar na Bolsa, amantes, corridas, óperas, estava vivendo um amor com uma cortesã na França de Luís Filipe, onde jantava com Flaubert, e participava do movimento ecológico no século XX, contra as usinas nucleares, muito engraçado.

Augush simplesmente saiu pelado do banheiro. Gostava de conversar, o chato. Não tinha podido conhecê-lo muito, mas o fato de invadir seu espaço era suficiente. A irmã há muito havia cansado dele, parecia, e ficava quieta quando a mãe perguntava como ia o casamento. “Não sei, é como se não se conhecessem” - dizia depois para Fred-I. “Ele é um homem sensível” - ela dizia - “tenho certeza de que teria vivido bem em uma época menos exigente que a nossa”.

Na praia, entraram num holograma de mar, brincaram com um jogo infantil de passar por debaixo das pernas um do outro. A namorada não gostava daquilo. Sentiu-se péssimo quando sentiu reações involuntárias, saiu do programa alegando dor de cabeça. Os médicos vinham recomendando “tempos mortos”, ficar alguns minutos por dia com os olhos vendados para desacelerar o cérebro.
Foi com a namorada na casa de um amigo - como combinado, o outro deixou-os sozinhos - e lá fizeram amor.
Sabe, fui convidada para trabalhar no museu.
O quê?
É, viver o dia todo dentro da exposição, guiando os visitantes.
Fred-I estava tonto.
Vai aceitar uma vida sem corpo?
Eu sempre amei a arte. Você sabe, sempre quis descobrir novos mundos. Não aguento mais minha mãe, com essa mania de falar. O que será que ela quer de mim? Eu tentei ficar dentro do meu C, lembra, mas ela ficou histérica, chamou o neurex, achou que eu tinha uma disfunção.
E nosso amor?
Não seja idiota! Podemos gozar sempre que quisermos. Posso beijá-lo, tocar seu corpo, tudo, roboticamente.
Não sei.
Você se acostuma. O mundo não se acostumou? Quero dizer, antes havia madeira, animais, inverno, verão... E daí? A gente muda.

Nessa noite, Augush parecia dormir tão profundamente que praticamente abraçou seu companheiro de cama. Seria de propósito? O filho da puta seria transgozável? Por outro lado, podia-se jurar que dormia como uma criança. Sentiu nojo, depois tristeza. Depois seu pau cresceu. Seria a hora de tomar hormônios zero e acabar com essas forças primitivas?

Sonhou com música. Não a música pós-sonora feita de ruídos, música antiga, com voz e notas. Acordou enjoado, vomitou. Olhou pela janela, o frio da noite, o barulho da água escura. Comeu um tablete de água.
No outro dia, sua irmã havia desaparecido. Um bilhete estranho, “compromissos na cidade”, fez sua mãe comentar baixo: “Eles devem ter tido alguma discussão”.

O homem parecia não perceber nada disso e convidou o cunhado a visitar as rochas, onde se podia ver alguns cadáveres de madeira e ossos de baleias.

Augush não parava de falar sobre uma coleção de arte que havia visto, o artista conseguira representar todos os pontos de vista possíveis de uma tempestade. Como teria sido o tempo em que as tempestades eram pouco violentas e os furações raros? O outro não conseguia conter-se, deveria fazer como muitos, simplesmente pedir que desligassem as sinapses de emoção no cérebro? Viver entre remédios para ansiedade, para dormir, para acordar, para comer... Começou a chorar. O homem ficou perplexo, e o outro encostou sua cabeça nele. Timidamente, Augush abraçou-o.

Fred-I estava constrangido e passou os dois dias seguintes fugindo do cunhado, que parecia olhá-lo com simpática condescendência.
À noite, o homem gemia ao sonhar e gritou. Fred-I o acordou. Suava. Teve pena dele.
Vou viajar. Vou deixar tudo. Não posso mais viver assim – ele disse ao acordar pela manhã.
Para onde vai? - Fred-I sentiu o coração apertar.
É como se minha alma tivesse se perdido por corredores de chumbo, como se eu andasse sobre águas geladas e meu coração... - não podia falar mais.

Fred-I achou seus lábios e sentiu que queria algo que fosse belo. Sentiu um tremor por todo o corpo, como se uma multidão corresse na escuridão de seus nervos, algo novo, um animal com impulsos, olhos assustados, surgiam nas pálpebras relâmpagos - flores, plumas, rendas vinham à sua mente, caía num mar agitado. Era diferente.
Dormiram profundamente.
Quando acordou, o homem havia partido. Um holograma representava uma rosa.


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sábado, fevereiro 11, 2012

A Música Segundo Tom Jobim

Dorothy e Ella, remetendo ao belo filme de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom!
Orgulho BR ;)





E tem ainda a mais melhor super de todas (fora Elis :)

Les Eaux de Mars - Georges Moustaki

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Paisagens

Afonso Lima – 2011



Acordo. Os pássaros me dão esperança. Ainda, tantos.

Os helicópteros me dão pânico e têm sons estranhamente confortantes.

O verde me puxa do fio invisível que desejo usar ao pular do prédio mais alto da cidade.

As hélices conversam entre si, olhando em lugar de Deus, conversam com o concreto, o horizonte levemente alaranjado, eu tento largar o sonho um tanto angustiado.

Pensar - e hoje, por quê?

Como continuar vivendo com traquéia e olhos úmidos no oceano de metal e pedra?

Mas a máquina também é vida. Ou são apenas homens poderosos que nos arrastam e as máquinas nos caem das maõs?

Conhecimento é poder e eu posso querer não saber.

Eu tenho de estar atualizada ou perderei alguma coisa.

A vida.

*

Somos tão sofisticados que perdemos o contato com as coisas mais evidentes.

Uma velha dorme na porta da minha casa com seu edredon vermelho. Frio.

Então somos movimentos mas as coisas pedem água.

Sofrimento em forma de pássaro atravessado por flexa. Qual é a moda agora, qual o dogma?

Os insetos magnetizados sobem a escada rolante, nova, brilhando. Imaginar vida para aquela pessoa, era como se ela realmente tivesse uma.

E não apenas uma blusa amarela com listas brancas, uma bengala, um fone de ouvido redondo com cara de anos 80, um livro grosso e sedução mexendo no saco.

*

Avassalador. Depois de ouvir os ruídos sua mente se amplifica, a geladeira do outro lado da casa esmaga infinitamente.

E, de repente, alguém fala ao meu lado. Estou cansada demais para entender. Para responder.

Pode ser meu amor, possível bom pai, trabalhador, que eu conheço de algum lugar. Pode ser eu, que não conheço e nem quero.

Meu desejo foi se afastando de mim e eu dele. Deveria foi pouco.

*

Eu produzo música a partir do ruído. Esse hoje foi o dia em que decidi subir no prédio mais alto da cidade e abrir a janela.

Só posso ver o monstro branco de uma imensa onda arrastar uma cidade é isso que eu vejo.

Cair passo a passo do 101º ruído do Itália - num mar de gente, que grita.

Então eu abria a janela.

Não era a voz cósmica desumana que engole - e sua poesia harmônica da eficiência - como o metrô.

Eu só sentia os pelos arrepiarem e as gotas frias excitarem meus nervos de mamífero.

Vários pedaços não faz uma vida.

Era apenas que para que se veja a realidade entender isso e sentir isso preciso de representação.

A soma das perspectivas de um bar nos dá o que a fotografia perfeita não dá. Nossa paisagem está escrita em ficção.

E, conforme eu caía, ouvia os movimentos da massa, algo de instintivo e gigantesco, intensidade que reconstrói as moléculas do cimento.

*

Eu sempre tive uma atração estranha por aquelas máquinas que trituram o lixo. 13 mil toneladas diárias e nenhum sistema digno de separação.

Então é isso, mistura tudo e vemos o que gera.

E esses homens sempre felizes, correndo e gritando, sempre vencendo e limpando nossas culpas, nosso virar mecanismo.

E um deles, na minha rua, era sambista. A rua está amarela da chuva da tarde.

Ele fundou a Escola e de vez em quando fazia barulho com a lata, entre o vidro e a xícara quebrada que aquela mulher deixou cair ao procurar desesperada um bilhete de amor ou uma conta a pagar.

E, de repente, eu transformava aquele triturar diário em sentido.

Quase um naipe, um sentimento mesmo de organizar.

E os sons mais diversos estão brincando de famílias, estão em combustão pelo espaço, dispersos, flamejantes, como uma partícula metafísica qualquer com seu emaranhamento intrínseco com outras - que está e não está pronta em relação em criação.

Fogo no Brás. Um ônibus foi incendiado por homens que passam fome. O governo favoreceu aqueles que lhe deram milhões em campanha. 2.600 favelas em São Paulo, que cresce.

E os pássaros cantam. Lata.

E tudo que eu posso ver é uma onda gigantesca que arrasta todos os meus sentidos, com sol, chuva, no amarelo, deuses helicópteros, o cachorro e paisagens de barulho e cimento.

Eu quero querer transformar tudo. E o que eu quero é apenas um silêncio aqui dentro.



Afonso Lima, SP Escola de Teatro - Experimento Módulo Amarelo - 2011 - produzido por Ailton Jose dos Santos, Andréa Fu e Alexandre de Matos

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sábado, fevereiro 04, 2012


Viktor Vasnetso e o tapete

Por algum motivo os russos quase empatam com os brasileiros nas estatísticas desse blog.
Se alguém tiver uma teoria, me avise ;)

(Ou pode ser um blogueiro russo clicando 100x nessa semana e deixando os irmãos sozinhos com -20 graus na manifestação contra Putin, hoje; ou pode ser que eles saibam que eu li "Memórias da casa dos mortos" nas férias e estou pronto a comprar uma casa na Sibéria - com minha própria usina termelétrica- com todo o Dostoiévski).


Então, uma pintura de Viktor Vasnetso, pintor russo. Talvez "apenas isso" seja pouco...


Viva a democracia de verdade, e não o que fizeram depois da URSS!

Eu sei, eu sei, os outros tiranos que vocês enfrentaram não conheciam o marketing!

Ou será que eles também eram fortões da "nova economia", "salvavam de crises"?


Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. Klein, Naomi)


Força amigos, nem o frio nem o enxofre de Mr. D. pode derrotar vocês!



Aleksei Navalny convocou milhares de russos para manifestações contra supostas irregularidades nas eleições parlamentares


"Eu gostaria de agradecer Aleksei Navalny. Foi ele quem nos uniu com a ideia: todos contra o Partido dos Trapaceiros e Ladrões".

A jovem usou a expressão que Navalny, bloqueiro mais famoso do país, criou para se referir ao partido Rússia Unida, do premiê Vladimir Putin. Preso e agora longe da internet, Navalny, 35 anos, ficou famoso na limitada blogosfera russa. Depois das eleições parlamentares de domingo, ele usou seu Twitter e seu blog para chamar "nacionalistas, liberais, esquerdistas, verdes, vegetarianos, marcianos" para protestar contra irregularidades na votação.


Mais trabalhos de Vasnetso: