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terça-feira, julho 30, 2013

Colonial

Doce mar, gente do pátrio Rio assim 
na vida tão encurralado talvez 
num bar com amigos atacado onde 
vemos ninfas cantar, pastar o gado

não nos amorne o esquecimento frio
nos cale também o gás sombrio 
com tanto medo do próprio Estado

morrer em casa ainda é vida
na janela sentir o estouro 
no tiro livre do vasto campo
abatida rezar pra não ter sangue 
no couro a injustiça é chama que não 
cicatriza tudo indo bem, e ainda manda
o ouro 


Licença Creative Commons
Colonial de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Desaparecido

Eu queria falar do vestido puído
do branco do campo
da casa oca e do tempo lutado
entre o sistema doído e o íntimo 
sufocado
Mas o que posso é o soco 
do mundo palco
pão pouco 
na casa pouca
sempre
palafita vida 
sempre
trânsito 
para talvez alguém
cidadania aflita
para verificação
cidadão corpo
estudante marginal lei em desaparição
a multidão de formigas focadas
os gritos de esperança cortados
as línguas em trabalhos de eras 
suturadas na multiplicação, rompidas 
quando irrompe o fogo em preto e branco 
procedimento puro. boi
o vidro azul que cobria denso profundo
inferno. sombra antiga
da república. um silêncio de tempo deslizando 
frio. arte incriada das gerações 
pela flor da bala rasgada. hábito de guerra 
na prateleira e monótono sumiço 
Os sonhos do corpo em desafogar-se
Do caminhante da rua em sentir-se em duração
cavaleiro pedreiro em ser andante e amar pele geral
Sem ser apócrifo seu sonho, gemido desgosto
exterminado em enfermidade longa
transitar do quase-homem para o zero-quase
invisível ser sem relação 
Eu falaria da vaga do horizonte
e do sol que irrompe
mas não. 
Segurança


Ele estava cansado das humilhações do gerente. Trabalhava em dois empregos de dia, um à noite. Aquele cara não tinha nada a ver com segurança, foi colocado lá por ser um mauricinho puxa-saco, pensava. E, um dia, o banco foi assaltado. Troca de tiros. O gerente feito refém. Ela está em carne viva, disse a médica. Meu marido está desempregado, a chuva levou um pedaço da casa, tá chovendo lá dentro, a mãe justificava. Meu marido tá sem emprego faz tempo, hematomas no seu corpo confirmavam. Ele lembra da mãe falando que "água de rato" ia matar um deles, se pelo menos soubesse ler, faltava comida e leite. Um barulho. Ele atirou no peito do gerente, que caiu. 

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Segurança de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sexta-feira, julho 26, 2013

One

Esses registros foram encontrados muito tempo depois do ocorrido. M.T. era astronauta na estação Centuria 17P33. Uma tempestade elétrica o deixou sem comunicação com a Terra por mais de um dia. Quando retornaram seus equipamentos, não havia resposta alguma. Depois de uma semana, decidiu aterrizar. Ele conta que não encontrou ninguém na plataforma espacial que comandava a estação. A central e os escritórios também pareciam estar vazios. Tentou ligar para os amigos, os parentes, sem sucesso. A TV também havia parado de transmitir. Ele iniciou uma busca de carro por outros seres humanos. Ninguém nas ruas e nas estradas. Sua casa parecia deserta. 



Relata que o primeiro mês foi de sofrimento, mas que a esperança ainda existia. Vastas paisagens, silêncio quase absoluto, apenas os pássaros e o vento. Percorreu o país comendo o que encontrava em mercados de estrada e abastecendo-se livremente nos postos que encontrava. Uma sensação de paz se misturava à angústia. Nenhum sinal de pane, catástrofe ou doença. Atravessou metade do estado não encontrando ninguém. Finalmente, voltou para uma casa que tinha no campo e lá ficou. 

Decidiu plantar para distrair-se. Leu muitos livros. Começou a criar companheiros imaginários: a cadeira Senhora Tulls, o bule de café Sr. Piccard, a poltrona Lady Maus. Os animais lhe faziam companhia: cavalos, porcos, pássaros. Muito trabalho. 


Mas um dia acordou e viu um homem que se apresentou como Samuel. Era um perfeito cavalheiro, em suas roupas muito antigas. Eles tomavam chá e falavam sobre a evolução da raça humana. "Sabe, amigo, como a natureza sempre seleciona os melhores, vamos progredir indiscriminadamente". Achava estranho ele não dizer: "infinitamente". Samuel era um bom amigo, mas, um dia, ao caminhar sozinho próximo do rio, teve a impressão de ouvi-lo gritar. Voltou correndo à sua casa e nunca mais o viu. 



Por outro lado, buscando ao redor da propriedade, encontrou uma espécie de caverna. Sua entrada era pequena e coberta de vegetação, mas resolveu entrar depois de sentir o vento sair pela abertura. Nunca havia sabido de sua existência. Dentro dela descobriu paredes pintadas e polidas. Eram como letras, mas não pareciam formar uma língua, nem tampouco uma história por imagens. Continuou buscando em seu interior. Qual sua surpresa quando, dois dias depois, ouviu a fraca voz de uma menina, de aparentemente 14 anos, que parecia agonizando mais ao fundo da caverna. 


Levou-a para sua casa. A menina estava muito fraca e dormiu durante 24h. 
- Os Altos, ela disse. Os Altos. 
Mas ela não podia falar mais. Três dias depois, ele a surpreendeu folhando um livro, na biblioteca. 
- Conhece? Sabe ler?
- Lótus. São lótus - sua voz era fraca. 
- O que é lótus, ele perguntou.
Ela caminhou até a janela e pareceu fraca:
- Os de sua raça pensam que nós não pensamos. 
- Minha "raça"?
Ela olhou tristemente para o livro. 
- Nosso povo usava objetos como esse para preservar suas histórias. Hoje, sabemos que eles conseguiam juntar Votons para expressar o pensamento. Mas só temos, agora, Votons das coisas simples. 
- O que aconteceu com seu povo? 
- Os Altos começaram uma grande perseguição. Acham que temos poucos recursos na Terra. Acham que queremos tirar o que é deles. 


Finalmente, ele conseguiu tirar dela que, na caverna, havia uma espécie de lótus-pergaminho, muito danificado, em uma caixa de metal, que eles não podiam ler, onde sua antepassada contava fragmentos de histórias, borrados pela degradação do material. Ele as interpretou como pode: máscaras de oxigênio, contaminação química. "Grande Divisão". Grupos fascistas mataram todos os líderes de trabalhadores. Guerra, Corporação Branca e Vermelha. Os "Altos" passaram a venerar a Pedra. 


Os Baixos deveriam pagar por sua formação, perdendo acesso aos lótus e, por fim, qualquer forma de linguagem complexa; nova língua Klyn, global, seitas fanáticas e rivalidades locais, robôs e, depois, seres holográficos, "campos de força seletivos" nas cidades, "polícia molecular", teste de "DPCI", coeficiente de evolução. 



Para os Altos, andar em pares ou grupos era considerado deselegante. Robotização orgânica. A maioria dormia muito pouco por causa dos pesadelos. A fome e uma peste levou os Baixos à rebelião. Muitos foram queimados. Depois disso, foram instituídas as "Camas Públicas", onde Baixos eram torturados nas praças para amedrontar seus semelhantes. Até que veio a Grande Perseguição. 



Apesar de muitos cuidados, a menina morreu alguns dias depois. Ele ficou deprimido por muitos dias. O retorno ao mundo vazio o aniquilou. Decidiu partir e retornar à estação. Queria morrer no espaço. Sua  última mensagem foi escrita na capa de um livro: "One". 

domingo, julho 21, 2013

Cosmos

Eu te quero bem
O pacífico possível do mundo
coberto de letras-estradas
e o cabelo centenário da madeira
como signo subaquático das medidas
desmedidas - os pelos gráficos
dos apelos atávicos nossos
as nuvens tão maiores que os prédios
que soltam o olhar onde
o quadrado solto pode te desintegrar
os pulsares do peito sem juízo
o mar impalpável que une
querendo ser visto
a tipografia cornucópia
do dia, forró de matéria em transe
as coisas nunca saem como o esperado
o big-bang de tudo
o que é uma flor
insabível
o susto de pingos vermelhos
movimento intencional do ser
ligações no espaço-tempo poético
de como falam as camadas do corpo-mente
redes, catedrais de pó inteligente
esconderijos do átomo concreto
metafísica do tato
linguística do químico
todo movimento já é mundo
uma espécie que quer ser pessoa
nem fantasma
nem máquina
seria muita prepotência dizer que sei as coisas

Consciência de uma inconsciência universal
mutante
perigo da pedrapensar
(pedra que quando pedra viu o mar)
e fome de outramente
replantar o chão, semente do mundo
dúvida jedi
contra a fábrica de banal
desesperança
não sei me salva

Eu vivo a vida dos insetos
árvore alienígena e banho de araras rebordosas
parte da paisagem sonora germinando
sintética dos seres resendo
os brotos grossos do corpo
e a onda de ânsias do belo todo
útero vertical nos dias oculto
no pisar pálido
o pântano dos ossos esvaziados
sem nonsenses regulados
eu quero a pele do mundo na minha
jazz atravessando a avenida
e a surpresa do absoluto nós


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O trabalho Cosmos de Afonso Jr. Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.









sábado, julho 13, 2013

Corrida

Uma vida tão corrida
malandra, com tanta lambida
tanta esperança achada e
tanta certeza perdida

Uma vida meio construída
na tempestade
achar poesia ou coisa assim
nas ossadas
que caem sobre nossas cabeças
e na beleza fria agora
e não perder o passo
pulando num pé só
dar nosso fruto de querubim sem asa
e subir à tona na madrugada
escura

O menino precisa da raiz
Para sujar a cara e ver longe
Eu cresci e desenho na areia
Não um mapa, mas caminhos
Foi errando, caindo, em frente
Nós queimamos para um dia

Solidão, e a mão amiga
dos poetas mortos
Quem precisa é a vida
Seguir a ginga e polir a estima
Sem rumo, querendo verdade
Quando um dia ameaça e outro elogia

Agarrar-se no vazio e erguer
um pouco de valentia
para o mundo

Uma aventura, esforço brincado
A meta de não morrer
Rever, olhar sem rancor
Quantas coisas nessa  vitória suja
Porque não sei de outro mundo
que não meus olhos que abraçam

Sem nunca fazer o que deve, do jeito
certo, sem nunca se adaptar
E surpreso com o sopro invisível
É preciso retornar à cidade

Subir ao céu, descer ao nada
Não levar nada porque não é essencial
E entre gregos, troianos, no terremoto
acreditar
Ver o universo como objeto
quebrado e incriado
querendo colo
E uma dúvida certa e constante
que guia
Estrada.

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O trabalho Corrida de Afonso Jr. Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

quinta-feira, julho 11, 2013

Frio 


As carruagens, barulho no Teatro
Lampiões em névoa densa
Londres está fria
as crianças deitam suas cabeças sujas
depois de horas de trabalho
A mulher da noite dorme sobre um chão frio
Choveu muito ontem
Ela se cobre com panos azuis e verdes
Ela esconde seu rosto com uma
sombrinha chinesa rasgada
Pingos gélidos
E as coisas que sonhamos
e as coisas que sabíamos, somem
E tudo tem uma história
um passado escondido
de um eu cavaleiro solitário
e tudo ao redor torna-se impalpável

cidadã de segunda classe
Escondida na noite silenciosa