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terça-feira, março 18, 2014

A tirania

Linha Amarela - É um funk só que fala em Jesus acredita que ela pôs isso no aniversário dela - Eles pensa que só porque a gente é evangélica [o bispo sequestrado por encapuçados] - Eu tinha um professor primeiro diz de aula ele perguntou quem aqui é evangélico eu levantei a mão outros dois também ele olhou bem pra mim e disse Teu pastor nunca disse que ovelha é o bicho mais burro que tem [mãos inchadas, face avermelhada, um filho dessa raça não precisa nascer] - Eles querem fazer a gente acreditar que é ruim ser do Pai se não estiver firme na doutrina - Respaldo bíblico meu pai que diz que isso vira uma nova Cuba uma nova Venezuela meu pai fala tirania sindical quem quer trabalhar trabalha - Olha essa coisa de médico cubano e Copa [violentada, tinha que tocar o pênis do outro preso para que recebesse o choque] - Mas eu vou gostar da Copa meu irmão diz que é tudo pra distrair partido é tudo miséria tudo corrupto eu voto branco - Minha mãe que tá certa ele diz que precisa braço forte olha o tanto de imposto a inflação esse Bolsa Família minha mãe diz que foi assim em 64 se não fosse a revolução tudo tinha virado motim revolta bagunça falam muito de tortura mas terrorista e vagabundo vai fazer o quê [meu filho de nove anos, judiaram dele] - Meu avô conta que era um bando de comunista comunista é ateu na Praça da Sé quando o exército foi prender o padre colocou pra dentro da Igreja e disse: aqui não entra é a casa de Deus! Os cavalos todos na porta. Agora me diz Deus lá gosta de vandalismo - Você vai na Marcha? 

Afonso Lima

segunda-feira, março 17, 2014

A fuga

Até o cem ele manteve um ar digno. Mas quando o chicote corta a carne viva, nenhum homem pode ser determinado. Cada assovio do carrasco, arrancavam-lhe um pedaço de carne. Nas duas primeiras ele dissera - Jesus! Agora sua cabeça pendia junto ao poste. Depois, um pior castigo, sal e vinagre na chaga. Cem negros vivos ao mar! Isso não pode - a mulata forra que servia no café. Nunca que será a tal abolição, Clarinha, porque se vai contra o direito de propriedade - o Francisco - Veja esse caso: a própria mãe do homem foi ter com o chefe da polícia, dizendo que comprava ele, que era negro filho de coronel de Angola, que ela apelava pra misericórdia cristã do padre seu dono e. Ela rosna. Olha os do São Bento, quatro engenhos lotados de negros - Mas que que o homem respondeu, que no Haiti os negros já mataram seus senhores, e que não podemos ter mais negros livres que brancos, que um é inimigo natural do outro, podem nos assassinar. Ela bate o copo. O que eu não gosto são as cabeças do fujões. Pai meu, nos paus pela cidade. Eu. Sabe. E esse José, ele mesmo era preso nas correntes, veio de Àfrica magro como esqueleto, se não fosse achar diamante. Agora quer trezentas chicotadas. Antes tinha, os padres diziam, mais de quarenta por dia mutila o escravo. Merece pedradas na rua. Francisco abre o jornal. É propriedade. Ninguém pode ser constrangido a vender seu herdamento. A pobre mãe não sabe que tudo nessa terra é a razão política. Deitado de cabeça pra baixo, para evitar o correr do sangue, as moscas. Arruma as calças, escoltado para a prisão, preparam-lhe o banho de sal e pimenta. 

Afonso Lima

domingo, março 16, 2014

O Silêncio

Aliados estrangeiros exigem a liberação de templos protestantes, proibidos no Brasil. O rei indisposto, reprimendas do núncio apostólico, que o ameaça de excomunhão. Criado por padres, depressivo, sempre sujo, amigo do canto gregoriano e das missas. Seu camareiro, alguns dizem, seu amante, o leva até um jesuíta misterioso nos arredores da capital. O homem vivia sozinho com seu criado numa propriedade da Companhia cercada pela Mata Atlântica. Foram para a capela, abriu uma parede secreta, que revelou uma cela forrada de ícones da Virgem e da Trindade. Ele lhe entregou uma carta escrita por um teólogo e cientista  jesuíta romano: "Este documento que descobri fala dos cristãos que viveram no começo. Os judeus falam da Torá existindo antes da Criação e os gregos pensavam na relação entre Um e Muitos. YaHoWe, o Supremo, o Pai Primordial, o Silêncio, diziam os seguidores dos Atos de João. Dizem eles que o Pai sempre teve ao seu lado Sabedoria. Um dia, expeliu emanações de Macho e Fêmea, o Casal Um, que criaram o mundo. Nos Atos de João, o amado discípulo vê o Mestre orando numa rocha e se aproxima. Quando chega perto, tem uma visão de um gigante, seus pés com uma luz que cobre a terra e sua cabeça tocando os céus. Quando se vira, Cristo diz: Tudo é Imagem de Deus, a pérola da alma; um banquete serve a Trindade e nos convida. Nem pagar os pecados nem suplicar que o Pai nos salve a seita prega. Em outra cena Jesus dança em roda com os discípulos. Os bispos chamaram esses cristãos de intérpretes malignos. A visão de Irineu foi aceita como a correta. Hoje grandes padres estudam a astrologia natural e profecias. Quem pode saber a verdade sobre a Natureza e a Fonte? Disse um cientista: Se você quer desvendar os segredos do Universo pense em termos de energia e vibração". O rei sai desorientado. Dias depois, os templos são liberados. 

Afonso Lima

sexta-feira, março 14, 2014

Um amor

Faltam 6 horas para a fronteira. Precisamos parar para comer. Dois músicos, que haviam sido presos, conseguiram avisar para que fugisse. Na sua cela, o padre escreve uma carta para um amigo em Roma. "Quem poderia dizer que o mesmo horror do Frei Caneca, que o mesmo horror da Cabanagem, que o horror de Tiradentes poderiam voltar numa armadura de modernidade e com técnicas importadas? Não existe interrogatório sem tortura". O meu namorado teve que sair do Rio. Ele teve que sair da minha vida. "A participação acabou. Os portugueses mandavam prender até quem se vestisse como francês e fecharam a Sociedade Literária do Rio de Janeiro. A UDN, o PSD, os conservadores da Igreja divulgam medo anticomunista e a classe média embarcou". O músico teve de sair do seu apartamento depois do AI-5. O Maracanãzinho tinha vibrado com ele. O Congresso fechado. Entraram no bar. "A CIA entrou com armas, com financiamento ao IBAB e ao IPEs para fazerem propaganda antigovernamental". No bar, música alta. Sempre alguém pode reconhecer, comentar. Começa a tocar música dele. Meu pai se levanta, eu abaixo a cabeça. Já vemos um soldado nos prendendo. Mas não. Era o sucesso. "No Congresso, a direita barrou o plano de Celso Furtado. A inflação disparou, favorecendo a campanha da direita. Central do Brasil, 200 mil pessoas tentando parar o golpe. Mesmo que o movimento por justiça fosse amplo, ninguém ia poder enfrentar as armas". Sucesso. Chegamos à Alegrete. O passaporte dele eu tinha destruído de burra com um perfume na minha bolsa. Ele vai sair do Brasil. "Eu só posso dizer que tortura é ensinada em aula, na Polícia do Exército. Com slides, tudo. Eles trazem presos e mendigos para aulas práticas. Eu também tenho dado aulas. Tranco meus alunos à chave e falo da ditadura." Ele ainda faz música, mas vive trancado no seu apartamento. Têm coisas que não se pode apagar e esquecer. 

Afonso Lima

quarta-feira, março 12, 2014

Moreno das Ruas

Moreno das Ruas tinha os olhos claros do pai e a pele escura da mãe. Vivia das bananas e algum toucinho que as escravas davam para ele, dormia no porto com outros meninos. Naquele dia estava na ladeira quando viu os soldados trazerem o tropeiro, arrastado, mãos presas nas costas. Como o vento, a notícia se avizinhava: ele escondera diamantes na espingarda. E logo agora que o Rei em pessoa e toda sua gente nobre iam chegar! O menino foi seguindo os homens, que iam em direção à prisão. O barbeiro, homem das cirurgias mais delicadas, dizia: É por isso que prendem os franceses, meu amigo. Por isso que livro é proibido. Mas ficou quieto quando chegaram damas da sociedade. Falou baixinho pra Moreno: Lembra bem, uma dessas é que de certo ganhava com a vida ruim de tua mãe. Malditos padres! Elas são tão puras e trancadas, que os brancos tem que fazer filho nas putas pretas. O menino correu para alcançar o grupo que, agora já cercado de uma multidão, ia cruzando a praça. Ele roubava sim, também vivia de trambiques, mas rezava pra Virgem do Rosário. Subiu num pé, ficou sentindo a brisa do mar. Pobre do omi, pensou, jogado no buraco até o Dia do Fim. Pra esses, o melhor é quando mandam pra África, disse o vendedor de frutas do lado do ferreiro. Moreno pensou que, quando crescesse, ia ser tropeiro, mas que nunca ia roubar o ouro ou diamante do Rei, Que morrer em buraco já basta a Bahia. E correu de novo pra seu posto, que ainda podia ganhar uma moeda carregando alguma coisa pra Cidade Alta.   

Afonso Lima

terça-feira, março 11, 2014

Um canto

Armas e varões cortados [o engenho doce inferno] mais do que prometia a força humana [fornalhas perpetuamente ardentes] o novo reino e memórias gloriosas [semelhante ao fogo eterno] terras viciosas andaram devotando [incêndio] cantando espalharei por toda a parte [lagos ferventes e o ferro] a arte [as prisões, os açoites, as chagas] cale-se de Alexandre canto o peito lusitano [como terra palavra semente] mares e mostra o pescoço paz angélica [arde] musa antiga voando sobre a água outro valor se alevanta [nomes afrontosos a mágoa] criado um novo império [dor mistério sangrento . feras de línguas bárbaras] um som alto e sublimado [canas cruz de três madeiros] os sete céus e a tormenta aurora dourada [vida outra nada] estilo de água corrente sem descanso [de corda amarrado . colonizando gentes] onde tudo muda dai-me fúria grande mas de tuba [Paixão . paraíso dos pretos se orando] ventos e inquietas ondas cortadas a fama antiga [alma convertida] canto que se cante no universo inteiro em verso [e cativeiro] cantar das eras brasão e liberdade [salvar da chama . do quilombo repressão] a árvore mais amada do Ocidente [e destruição] aumento maravilha fatal o peso grosso [e nações ter doutrinadas] tenso e novo ramo florescente [tempestade e raios em torrente] cristianíssimo escudo vitória passada [vida negra nada] o sol vê primeiro [o sol rubro do reino] o novo [semelhante ao inferno] das terras [incêndio]. 

Afonso Lima

segunda-feira, março 10, 2014

.r.i.o.s.

Justiça do Trabalho declara ilegalidade da greve de garis no Rio. Ele chegou no aeroporto e mal pode esperar pelo abraço. O banco encerrou o primeiro semestre deste ano com lucro líquido de R$ 598 milhões. Comer em frente ao mar, caminhar na praia, sacos pretos na calçada. Em greve, garis protestam em Ipanema. Agente de Portaria. Correndo entre árvores e trepadeiras e o fedor sobe pelas paredes. Fortuna em 2014: US$ 19,7 bilhões - Posição no ranking mundial: 34º lugar. Um bloco de carnaval, fazem amor com seis pernas, o lixo fechou a saída. Operador de Caixa. Garis fazem ato contra demissões na frente da Comlurb. Beijam-se com nojo, o lixo barrou a passagem dos carros. O balanço divulgado mostra que a receita em euros registrou queda nominal de 7,1% na comparação com o ano anterior, para 6, 945 bilhões de euros. Ratos gigantes sobem nas orquídeas de antigas árvores, o aeroporto foi fechado. Auxiliar de Limpeza. Garis decidem manter greve, mesmo com acordo assinado. O motor é o 1.7 turbo, e ele consegue chegar a 100 quilômetros por hora em 4,5 segundos. Ele grita da janela do apartamento, a prefeitura ordenou que ficassem em casa. Ajudante de carga e descarga de mercadoria. Os 55 funcionários estão agora muito ricos. A cozinha está cheia de moscas, um rato arranha a porta, pega a arma. Seus dois fundadores se tornaram bilionários. Garis mantêm greve e marcam manifestação para amanhã no Rio. Balconista de Lanchonete. A chuva leva rios de plástico, serpentes saem pelas ruas. Em uma semana mais curta devido ao feriado de Carnaval, o Ibovespa acumulou queda de 1,80%. O pesadelo terminou, o avião decola. Com aumento de 37%, garis do Rio encerram greve. Operador de Telemarketing. 

domingo, março 09, 2014

Amor do não como em fauzi arap

"Ensina-se em toda a parte em mistérios e sacrifícios, tanto entre os gregos como entre os bárbaros, que devem existir duas essências distintas e duas forças opostas, uma que leva em frente, por um caminho reto, e outra que interrompe o caminho, e força a retroceder". Plutarco, "Sobre Ísis e Osíris" citado por Walter Benjamin, "Franz Kafka".


Qual o momento específico em que decidi não viver. NÃO Naquela noite. sozinhos em minha casa. nos abraçamos e surgiu em nós raízes e ramos NÃO Qual o minuto mais ao norte próximo da zona da morte onde deixei meu cavalo morrer em frente ao poço. NÃO Eu tenho medo. de entrar nesses abismos. Eu sinto. [você se foi nos morros em azul completo contra nuvens de cogumelo amarelo no amor do sim] que perdi. [sozinho em minha cama no auge fundo da madrugada] muito e você pode fugir porque você é livre. Eu sinto que preciso de domínio. VOCÊESTÁERRADONÃOGOSTODEVOCÊASSIM. NÃO Qual o dia e noite em que as brumas tomaram o morro verde e onde o frio deixou morrer a flor no tronco.  NÃO O demônio é gelo e nega a realidade [imerso em WhatsApp deserto sem você] e fica aquecendo o esquecimento e esconde o tremor. NÃO. [louco. desesperado. confuso.] Eu sei. o que passou. Eu olhei. nos teus olhos apaixonei-me o teu talento a forma como se move toquei tua perna com toc. Eu desejo (desejo desejo desejo e existe) você. NÃO PASSEIAMÃONELENOBARUMEXNAMORADOBEIJOELENATUAFRENTE. TALVEZ. EUSOUCARINHOSOCOMTODOSOSMEUSAMIGOS. NÃO Você bate o portão. Perco por medo de perder de novo [d.e.s.e.s.p.e.r.a.d.o.] SIM Onde está a pele de serpente que eu vestia na correnteza do tempo para seguir magias e mistérios, sacrificios e fluxo de negro e ouro. NÃO. EUESTOUNUMAFASESÓESTOUEMPAZCO MIGOE NESSE MOMENTOÉSÓ COMIGOQUEQUEROFICARCOMIGOMESMO. Naquela noite. sozinhos em minha casa, nos abraçamos e nunca mais. SIM. É algo dentro de mim, você. Vou sofrer pelo futuro de não (compramos o ingresso pro dia errado, fomos à Paraty no verão, churrasco com amigos no aniversário da letícia, você e meu filho no parque). Animal. o próprio corpo. Eu fujo. Eu sei que naquele abraço estávamos unidos [no bar com esse rapaz estou sem você] e é por isso que pedi para não perdê-lo. SIM. NUNCATIVECIÚMEDEVOCÊ. Por que paro na presença do oceano que contém a sabedoria da vida rastejante e da pedra de 6 bilhões de anos. NÃO Eu sei que no dia em que desejaste partir [comendo e dormindo mas não é você] fiquei desesperado. Eu senti na rua escura quando disseste que ias e não voltarias para ficar no bar conosco. VOCÊNÃOFAZMEUTIPO.  TALVEZ As bandeiras coloridas da cidade em festa foram manchadas na queima do meu coração que perdeu. o tempo? NÃO Eu tenho (algo fundo vazio frio como) medo. Enforcado no jogo. Eu sei quem você é. Provavelmente eu prefiro algo que não sei. e me assusta também. PRECISAMOSNOSAFASTAR. NÃO Os sinos no dia claro estão surdos com memórias do futuro soterradas e pensamentos de rompimento fechados em arcas? 

Os mundos inacabados

Lady Luvia, com seus vestidos negros e seu cabelo ruivo. Ela escrevia poemas que falavam de um estranho mundo, onde todos eram animais cinzentos e de pele dura. Alex e Matti eram gigantes com pés sujos e mãos sujas de tinta negra. O antigo manuscrito. O que diferenciava essa Biblioteca era que guardava pedaços de mundo. Quando alguém descobria nela um volume, algo se manifestava. Quando algum volume era perdido, coisas desaconteciam. Porque podia-se ficar entre os milhares de volumes sem estar inscrito. Era realmente impressionante como a variedade das coisas, que crescem, que surgem, que definham, dependia de sua ordem na estante e de seu número nessa ordem. Foi assim que os funcionários decidiram buscar nela um antigo manuscrito que descrevia uma terra de gigantes, um mundo onde todos eram inacabados, eram gestos de mau humor e pensamentos suicidas na mente de Deus. Achando essa obra, eles a abriram sobre a mesa, a numeraram e de fato surgiram Alex e Matti sob a luz do luar. Eles beberam cerveja, eles cantaram baladas, eles se amaram subitamente de forma nova na beira do rio que transbordava devido às chuvas de ontem.  (E, no espelho da biblioteca, refletiam pensadores nascidos e não nascidos em trinta mundos inacabados). Alex e Matti eram gigantes com pés sujos. Como nunca acabavam, escreviam outros mundos para dar fim à sua angústia. Eles nadaram criando seres tão sujos como eles no rio em tumulto. Por fim eles organizaram sua própria biblioteca no castelo de seus ancestrais. (E, no espelho da biblioteca, refletiam pintores de paisagens e retratos e escultores em trinta mundos inacabados). Nela surgiu Lady Luvia, com seus vestidos negros e seu cabelo ruivo. Ela escrevia poemas que falavam de um estranho mundo, onde todos eram animais cinzentos e de pele dura que viviam ao redor dos menires,  altos blocos de pedra inscritos para seus antepassados. (E, no espelho da biblioteca, refletiam cisnes cantores nos mundos inacabados). O livro foi jogado ao fogo por um ajudante que pensou estarem blasfemando contra o poder do Senhor da Natureza. 

Afonso Lima

sábado, março 08, 2014

Aloraab

Correu na aldeia a notícia de que o garçom Aloraab tinha tido uma visão de Deus. Em sete dias deveria sacrificar aquela criança. Apenas contou isso a seu porco, criado desde pequeno em sua casa (alguns diziam criado como gente, humanoide, pelos gritos que dava). Aloraab arrumou a casa, acendeu as velas, fez um último bolo, limpou a foto e trocou as flores da mulher morta que cultivava em um altar, costurou sua capa de carneiro, deu milho para as galinhas, passou óleo nas juntas das portas para que o vento do inverno não as fizessem gemer, cortou a lenha, juntou as folhas do jardim, deu de beber às cabras, engomou a gola de sua roupa domingueira, verificou o encanamento, tirou a neve da frente da casa, fechou vidros de compota para que não fosse pego de surpresa, comeu gengibre e tossiu para limpar a garganta, limpou os dentes com finos galhos e saiu. O filho agora era um belo jovem que ficava os dias entre as colinas servindo de inspiração para moças e rapazes e apartava as ovelhas. Nesse meio tempo, nascera de dentro dele mais uma criança, essa sim estranha, como um ovo de mármore. Nunca chorou nem cresceu. Aloraab levava o filho mais novo por todos os lados, e as pessoas brincavam com ele sem entender (a criança revelava novas linguagens, constrangendo a todos). Por fim todos esqueceram do outro filho. Todos tinham Aloraab por uma espécie de santo - porque um dia cumpriria uma profecia, mas o esquecimento fez com que todos evitassem nomeá-la e, evitando nomeá-la, a profecia tornou-se secreta e impraticável. Por algum motivo, começou a sentir vergonha e deixou de ir na taverna onde servia. Seu filho começou a definhar e ele o enterrou ao lado da casa; o irmão mais velho fugiu para as montanhas. O único amigo do homem passou a ser seu porco, criado desde pequeno em sua casa. Ele lia para Aloraab em seu leito. Ele varria a casa. Muitos duvidaram que fosse um porco, já que parecia nunca ter medo da morte. O único que lembrava da missão era Aloraab e ele se jogou dentro de um poço num dia cinzento.

Afonso Lima

terça-feira, março 04, 2014

Os prisioneiros do forte

A fogueira já foi acesa. Ele não terá o duvidoso benefício de ser enforcado antes. Isaac tem 22 anos.
Na beira do rio São Francisco, cai o forte Maurício, sendo presos duzentos soldados, entre eles dez judeus. O bispo da Bahia o manda para a Inquisição.
O rei envia carta ao Tribunal esclarecendo sobre o Tratado de 1641. 

Antônio Vieira, conselheiro do rei, estava preocupado com o destino dos embaixadores portugueses em Haia, assim como com sua credibilidade junto aos comerciantes judeus. Vestiu seu manto negro e foi até os aposentos do Inquisidor-Geral.
- Não os mantenha no cárcere.
- Vou processar o rapaz.
- Quer queimá-lo vivo?
- Se ele negar Cristo.
- Portugal vai afundar. Vossa Excelência contraria frontalmente a política do rei. 

Sem o apoio dos judeus de Amsterdã, não haverá reconstrução do reino. O reino, empobrecido, pode ser invadido pela Espanha ou pela Holanda. O inquisidor geral era suspeito de apoiar os espanhóis. Quando Portugal pediu um mês de trégua, Filipe IV dissera: "Nem um dia sequer". 
- Um dia, provarei seu sangue infecto.
- Eu defendo a fé com meu sangue. Eu venero o Antigo Testamento. Todos os reis aceitam os judeus, mas Portugal vive da memória triste de 1497. Um judaísmo secreto e perigo constante. Esses burgueses fizeram a grandeza da Holanda. Queime esse rapaz e nosso reino estará condenado.
- Um dia vou processá-lo.
- Fiz mal em libertar-te da Torre, traidor.
O jesuíta saiu pela noite de Lisboa com seus guardas. No céu, as estrelas não eram mais esferas de cristal, o mundo não era mais governado por ideais aristocráticos, limpeza do sangue, judeus não poderiam perder os seus bens por serem processados. Quando Cristo voltasse e usasse Portugal como vanguarda do Novo Milênio... Viu, na sua visão profética, o rapaz como um santo herege em meio às chamas. Algo gelado desceu pelas suas costas, imaginando que ele também poderia cair assim. 


Afonso Lima