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sábado, abril 26, 2014

No gueto de Varsóvia
homens pelo chão
hoje não
No gueto de Varsóvia
A morte discreta paira cinzenta
exílio e ruínas em pé
o silêncio
hoje não
No gueto de Varsóvia
a máquina não vê nada
olho que se olha
de um mal mil vezes montado
hoje não
No gueto de Varsóvia
existe o gueto
hoje não
No gueto
uns não são
hoje não
No gueto de Varsóvia
não há caminhos e nada pode ser feito
hoje não
eles sabem mais que nós
aceitamos o absurdo
a gramática do esquecimento
podemos festejar
tudo avança quase bem
hoje não
as crianças caem mortas
e homens como pedras agonizam
hoje não
eles têm fome
o calor de um abraço
não
a sede
humana
hoje não
a ruína longe de nossos olhos
hoje não

Afonso Lima