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quinta-feira, maio 22, 2014

Na praia

"Quanto mais correta for uma pessoa, maior o número de coisas que não revelará sequer para si mesma. Eu, porém, decidi lembrar-me, falar sobre elas, ousar trazê-las á luz"- diz ele sobre a alma do grande escritor. Foi no processo de pesquisa para meu artigo sobre "O sósia" de D., que acabei deparando-me com uma história bizarra sobre ele - e o ensaísta. Algo constrangedor, imoral, mas que lhe colocava em sintonia com esse desejo de ir contra o mundo burguês e analisar as "profundesas criminosas da consciência". Ele fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas, que tem uma doença que se assemelha ao êxtase sexual e sua posterior depressão. 

Passei a buscar então a base dessa personagem, "figura viva" como queria Schiller, misto de conceito e sensibilidade e as camadas sobrepostas daquele que representa e do que inspira. "Que precisão de pensamento, expresso nesse belo corpo" - ele fala sobre o rapaz. Dizem que A., neto de um nobre industrial polonês, de férias com a mãe e os irmãos no hotel à beira do Lido, chamava a atenção de outros cavalheiros, inclusive de um outro escritor que chegou a colocá-lo no colo. "Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir" – diz o livro. O outro, tinha três anos à mais, ainda assim grupos católicos protestaram contra o filme inspirado no texto. Um deles foi preso pelos nazistas, perdeu sua herança na Polônia comunista, e viveu pobremente durante anos. O outro diz que era sempre visto como homossexual, desde a época que o diretor e a equipe o levavam a bares gays e se sentia constrangido, começou a negar isso ostensivamente, inclusive dizendo que o filme foi “uma maldição” para ele, e passou a ser descrito como preconceituoso. "Será que serei apenas esse rapaz?" – ele dizia. O primeiro era um aristocrata jovem quando recebeu da prima, que o reconheceu, o livro, ao qual não deu muita bola. "Perfeitamente belo, com uma seriedade divina, como as esculturas dos mais nobres tempos" – diz o livro. O jovem ficou muito tempo sem atuar, dizia que os diretores não tinham lugar para quem foi a representação da perfeição, chegou a declarar: "Não pedi para nascer com esse rosto. Não vejo a hora de envelhecer". Um morreu em 1989, tendo sido obrigado a permanecer na Polônia pelo regime comunista, pois sua fuga poria em risco a vida de familiares próximos. O outro, acabou casando, teve filhos e, na meia idade, passa a ter conflitos de consciência. Um deles, tendo perdido tudo, teve de ganhar a vida como tradutor na embaixada inglesa. O conde ficou profundamente ofendido quando o diretor do filme não quis visitá-lo em uma visita ao seu país. Deu entrevistas para o tradutor polonês do livro confirmando que era ele que brincava na areia com um amigo, e que isso pouco indicava sua vida como voluntário de guerra e depois prisioneiro quando os nazistas invadiram a Polônia. O outro acaba morrendo em pleno estúdio quando, no intervalo de uma filmagem, põem uma arma na cabeça e faz uma brincadeira - a pressão é suficiente para deslocar um osso do crânio. O primeiro lembrava-se da imagem de um homem “velho” (tinha 35 anos) observando ele e seu amigo, dois garotos jogando bola na praia. Ele lembra de entrar no elevador e quase ser devorado por um olhar apaixonado. Na embaixada, o homem descobre uma entrevista com a esposa do escritor, na qual conta que, quando esteve com seu marido nessa praia, ele ficou transtornado com a beleza de uma criança. 

O livro diz que ele tinha algo de “rico e mimado”, com seus cachos e terno de marinheiro inglês; o sósia (tão perfeita verdade) foi dublado por não ser polonês e dizem que o primeiro ator convidado a contracenar com ele apenas exclamou: “Não posso me apaixonar por alguém que existe”; a esposa do escritor diz que ele hesitou em fazer do personagem um escritor, mas acabou preferindo “dizer toda a verdade” - e, no entanto, era outro. Não existiria Tadzio se não houvesse ideia. 

Mas como dizia, acabei deparando-me com uma história bizarra sobre o grande escritor comentado. Na casa de uma família amiga, cercado de moças e crianças, ele conta sua intenção de escrever um romance sobre um senhor feudal que, entre amigos bêbados de uma noite de excessos, conta sobre o estupro de uma menina vinte anos antes. A dona da casa fica chocada e manda-lhe embora. Eu mesmo recordei que, quando adolescente, ouvi relatos cruéis, narrados de modo frio por outros bêbados. Um amigo conta da trágica ocorrência com sua filha dentro de sua casa num condomínio fechado. De fato, essa análise vem à tona na obra de um escritor que, também ele, se apaixonou, ainda que de forma idealizada, numa cidade úmida, sombria e pestilenta. E é ele quem fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas.

Afonso Lima

segunda-feira, maio 19, 2014

Thomas Mann no Brasil

para Willi Bolle

- Dizem que o deus Hermes, quando cruza o caminho de um homem, lhe inspira o desejo da distância - o senhor Mann bebia seu chá no terraço do hotel, com seus óculos escuros pelos quais olhava com visível satisfação o clima límpido e ameno. Ele viera para o Brasil para uma viagem "secreta" de um mês, pensando em manter a disciplina na criação de seu novo livro, já que no sul da Califórnia ele era "tragado constantemente para as atividades solares" - palestras, homenagens oficiais, entrevistas, talvez porque provava que a América era o que todos sabiam. (Além disso, fizera uma cirurgia grave no pulmão). Roosevelt havia dito que ele seria um ótimo presidente para a Alemanha. Parecia simplesmente mórbida a forma como queriam separá-lo da cotidiana humanidade. "A viagem é o maior estudo - dizia meu professor, mas eu viajei para parar o tempo" - ele disse bem humorado, pedindo outra fatia de torta de limão. "Eu sempre desejei ver as coisas de longe" - ele disse, parecendo olhar para mim, protegido pelo óculos. Eu não tinha coragem de retribuir o olhar. Preferia a água da piscina. Bebia mais uma xícara, mesmo com o calor de 25 graus.

Ele falava bem devagar, todos os seus movimentos pareciam estudados, como se fossem parte de uma ópera, mas eu pensava que isso nada tinha a ver com arrogância ou pedantismo, mas com uma cultura europeia que eu jamais entenderia completamente. E, ao mesmo tempo, fazia parte de mim constantemente a sensação de também estar atuando, de precisar saber fazer as coisas no tempo certo, de que existia uma certa medida para tudo. Em especial para "aquilo". "Diga tudo, mas nunca diga 'eu", dizem que Proust afirmou. 

Nada "disso" era falado às claras, naquela época. Quando eu vi a senhora Mann pela primeira vez, em Nova Iorque, fiquei surpreso com sua aparência masculina. Meu pai, que a conhecera muitos anos antes, tinha por ela a maior admiração e justamente a achava feminina, de olhar "forte e sensual". A primeira coisa que me ocorreu, que pode ser mesmo estúpido, era que ela não era feliz. Hoje, penso que era uma espécie de serenidade, um orgulho e um despojamento extremos, por ser o pilar da casa. Ele, ao contrário, parecia-me um pássaro frágil, tinha uma pele branca, olhar terno e um bigode levemente cômico. De alguma forma, nada nele me fazia ver o "deus da filosofia literária", a "Alemanha encarnada", a "saudade de Platão" com que geralmente o descreviam. Ele se sentia livre porque viera sozinho? 

Eu era um jovem jornalista recém formado, filho de um concertista brasileiro amigo da sua esposa. Fora escalado para ser seu acompanhante, principalmente nessa primeira apresentação, por falar alemão e porque, creio eu, meu pai supunha que seria um "trabalho de formação" para mim. Eu tinha lido seu livro sobre Veneza, claro. Queria falar sobre ele, mas minha timidez não me permitia. De alguma forma, ele percebeu?

Fomos ao Jardim Botânico. A vitória-régia, essa flor sexual, lhe inspirou um pensamento lânguido: "A maior parte do meu trabalho, eu devo ao espírito de minha mãe, essa brasileira. 'Oh volúpia, oh inferno - insaciáveis, invencíveis - diz o filósofo." Ele pareceu estudar atentamente uma travesti elegante que passeava por entre as orquídeas. E, entre as altas palmeiras, que parecem querer crescer até o céu: "No centro de tudo está a vontade de viver, o desejo". Lembrei de ter lido sobre o fato de seu irmão ter lhe recomendado a terapia do sono para "tratar" sua "condição".

- Andre Gide publicou em 1924 seu "Coridon", no qual expõe sua vida íntima. Dizem que o filósofo católico Charles Maurras, foi visitá-lo um ano antes para evitar a publicação. Pediu que ele se ajoelhasse e pedisse ao Cristo orientação, e Gide se negou a fazê-lo. "Não se trata de ser ou não rebelde, mas de ser ou não verdadeiro", ele teria dito.

Eu tentava lutar contra o pensamento de que um homem assim amável pertencia a um mundo passado; pensava que o peso que tinha no fundo da alma, deveria ser por ter sofrido ao ver o que considerava a civilização ser devorado pela loucura, que ameaçava queimar tudo. Mas ele seguia em frente. E gostava de falar.

Subimos a serra. No carro, eu tive coragem de perguntar alguma coisa sobre o livro. "Você já leu o Fausto - do Goethe" - ele perguntou. "Lembra-se que o homem vende a alma para conquistar o mundo? Isso o faz crescer, ele é perdoado. Eu acreditava que o que nos salvava de toda a mesquinhez burguesa, a banalidade do comércio acumulador e da burocracia calculadora, era a arte. Eu achava que a arte era essa passagem, essa ligação entre o vir à ser e o atemporal, o real e o abstrato, o sensual e o universal. Pensamento em sentimento, sentir-pensar. Mas depois do horror, eu tenho medo do que pode ser a arte, a ciência, a filosofia. Medo dos faustos fechados em seu mundo". 

Jantamos cedo, caminhamos pelo jardim da casa que nos hospedava. Estava muito animado sobre seu novo livro. Falava em "abismo", "pacto com o demônio", "destino alemão", e eu, mesmo sabendo estar diante da história, começava a sentir um cansaço crescente. "Um intelectual seduzido pelo sono da felicidade, afundado na água suja e parada do pensamento conservador".

Esfriava. Acendemos a lareira. "Minha mãe não era burguesa. Ela nos contava lindas histórias, brincava conosco. Um dia, meu pai mandou embora minha babá brasileira porque achava que ela estava me tornando mole" - ele estaria falando comigo? novamente hesitava - "A paixão é a morte, todo desejo é sofrimento - dizia um pastor amigo de meu pai. Esse ambiente gerou a revolta romântica". 

A segunda garrafa nos deixava meio bêbados. "Um dia eu fui à ópera e lá encontrei um jovem que havia sido meu colega. Vestido com as últimas novidades da moda, cercado de amigos, passava, como sempre por íntimo das artes e ousado pensador. Várias vezes, em público, criticara meus trabalhos, opiniões e até mesmo comportamento, de maneira que eu sabia que, por detrás dessa alegre simpatia, vivia um ainda mais frio ódio ao novo e inveja. Ele tentava fazer com que eu me envergonhasse de ser um pensador, e livre, tentando convercer-me que eu é que era o beijo da morte, já que as pessoas rebeldes, nessa ambiente romântico, eram apenas as que faziam tudo que o costume mandava. Eu simplesmente saí do teatro. Esse Hades convidando à repetição eterna". Ele parou. Nossos olhos se encontraram. Eu o vi poucas vezes depois disso, e não saberia dizer nem sequer se aprendi algo desse homem, a sensação que tenho é de que observei a vida passando com liberdade. 

domingo, maio 18, 2014

O romance

"O sol trazia à sua alma a dor de sentimentos complexos, a grandiosidade e o mistério da neve mergulhada em silêncio", eu começo. Quando fui para o norte da África finalizar minha dissertação tinha como objetivos o isolamento, claro, e também estar no ambiente onde o "Teoria do romance" foi escrito. De modo algum sua vida pessoal me interessava, mas era inevitável pensar nisso caminhando por mercados e observando dunas na luz alaranjada. Meu interesse surgira na medida em que eu, jornalista, mau poeta, havia tido notícia de que um de seus livros começara a partir de recortes de jornais, descritos em seu diário. 

Eu ouvia a estranha música árabe no terraço da minha casa e, claro, pensava no personagem do jovem Hans, que vinha ao Marrocos acompanhar o famoso cineasta Jean Cochin despertando ciúme no autor, personagem central do seu livro, que o acompanha com a desculpa de buscar vinhos raros. E, de fato, o seu namorado cineasta fez um filme com um cineasta famoso. Minha pesquisa não avançava. Constantemente queria vasculhar os lugares mencionados pelo autor, passei a caçar pessoas que conviveram com ele, queria ter os diversos pontos-de-vista sobre a história filmada. Um livreiro contou-me que o livro foi escrito quando o escritor encontrou seu jovem amigo lendo seu diário sobre suas aventuras amorosas na juventude no norte da África. Um comerciante inglês, importador de vinho, contou-me a lenda segundo a qual o jovem passara a buscar o primeiro amor do autor, tendo ele mesmo o traído por ciúmes. 

O jovem Hans, justamente, começa a perseguir os pontos nos quais o autor havia vivido sua paixão - "monstruoso mistério" - e decide escrever um texto intitulado "Teoria do romance" para falar da dificuldade em encontrar a verdade. Ele também encontra, por acaso, o primeiro amor do escritor, o que faz com que o cineasta use o tema no roteiro, que fazem juntos. Por fim, eu mesmo me apaixonei, "o terror piedoso frente ao que tem grandiosidade e silêncio". Vivendo na incerteza, ciumento, abandonei a África e meu jovem amigo, voltei ao Brasil e me dediquei a importação de vinhos e a escrever esse romance. 

Afonso LIma

sábado, maio 17, 2014

O cair da tarde

O fim está próximo. Fumam, bebem. Aguardam o contato, não sabem quem. O inimigo acabara de matar vinte e três jovens franceses inocentes, em represália pela morte de um oficial pelo grupo.  
- Não haverá perdão. Depois dos massacres da Polônia, quem...
- Depois do 6 de fevereiro. Repressão imediata dos criminosos. 
- Não haverá perdão. Quem são esses pensadores que...
- Lembro de um artigo na NRF, depois que Hitler restabeleceu o serviço militar obrigatório. "A guerra é a suprema catástrofe. Todo antifascismo deve odiar a guerra".
- Apenas Suarès. Só lembro dele. Ele discutiu em público com Alain. Disse que o livro de Hitler baseava-se na ideia de raça. 
- Raça, um século inteiro, essa imbecilidade. 
-  "Pensam que uma raça superior em contato com uma inferior se degenera", lembro-me de ouvi-lo dizer. 
- Depois de 6 de fevereiro. Só com dez ou doze cadáveres... Se o parlamento fosse invadido pela direita... 
- Tudo já estava claro ali. 
- Mesmo assim, os intelectuais ou são pacifistas ou... Acham que o inimigo do comunismo é a democracia. A democracia parlamentar "capitalista". 
Um pássaro grita. Acende um cigarro.

E um silêncio se bateu sobre eles enquanto a luz diminuía de um azul ofuscante para azul. Max morrera na prisão. Um amigo teve sua casa invadida por soldados embriagados, violentaram sua filha, foi assassinado. Dois escritores foram executados depois de julgamento sumário. 
Desnos está incomunicável na prisão. Muitos estão escondidos. Paul foi deportado para a Alemanha. 

- Eu enforcaria o Sr. Claudel. "Bolchevismo contra a civilização cristã" - eu li em um jornal na época da guerra da Espanha. 
- Parece que ele falou contra o fuzilamento de Nantes. Precisamos criar uma lista de expurgo. Dizem que alguns já fugiram, outros se mataram, outros ainda foram presos pela Resistência e aguardam execução. "Judeus, franco-maçons, bolchevistas - cosmopolitas decrépitos" - gritava um desses panfletistas. 
- Será uma caça às bruxas. Eu serei um deles. Condenaremos a morte tudo traidor? Não haveria tribunal suficiente.
Esperam. A tarde vai caindo com um rosa desbotado que se mistura ao cinza do céu. 

Afonso Lima

sexta-feira, maio 16, 2014

"Memórias de um jovem solitário"

O que é o manuscrito nós não sabemos. Uma ficção do jovem suicida? Um diário? Uma crítica literária embrionária? Em alguns momentos ouvimos a voz do pai, por exemplo: "A governanta me dizia que ele, com dez anos, passava as tardes deitado olhando o teto". Em seguida o jovem é descrito em terceira pessoa como um bom aluno, alguém que jogava futebol com o motorista. "Depois parou de me contar. Eu achava que meu trabalho estava mudando o mundo e não era fácil sair de Brasília" - aqui temos novamente a voz do pai. A governanta é apresentada em uma reunião de escola onde o menino é elogiado por suas notas, mas contam-lhe como ele ficava solitário no pátio todo o recreio. 
Logo depois temos uma extensa nota onde se apresentam os livros que o jovem autor lê, com uma nota para cada livro (Hesse - 8,00 - reprovado). Poemas sobre a solidão, descrição detalhada sobre os cabelos de uma aluna, cartas falsas para a mãe em Paris. "Julio queria estudar ciências, mas nunca vai, porque quer morrer cedo. Eu sou tão pequeno, ele dizia. Não tenho um amor." O motorista o levara para assistir uma sinfonia de Mahler aos 11 anos. Temos, então, duas páginas de estudo sobre as sinfonias. "Julio poderia ter sido músico, mas seu pai não deixou". A crítica tem divergido sobre o valor da obra nesses últimos 20 anos, mas parece retratar uma crise na narrativa contemporânea e descreve a vida sofisticada da classe alta, uma bela casa em frente à lagoa, conforto e presentes vindos de todas as partes. Infelizmente, o rapaz morreu com 20 anos. Seus pais deixaram para a governanta o manuscrito, que foi publicado. 
Afonso Lima

quinta-feira, maio 15, 2014

Acordando à meia-noite

A neve cai sobre o pátio, onde as estátuas estão sendo encobertas. Um cheiro podre chega do pântano. É o hotel no qual se hospedava no inverno com seus pais. Mensageiros da morte parecem os pássaros negros, ele entra no cemitério. Tadeu estava nu na brancura, inclina a cabeça. Estou sozinho, meu amor me abandonou, quer dizer. Suando. Recomeça sua tradução, febril, o germanista falando que, na modernidade, vale mais o processo que o real. Um chá quente, depois do almoço. A diretora quer expulsá-lo da escola. Você estava com as mãos nos bolsos. O professor descreve longamente seus erros, as calúnias, tudo que pode denunciá-lo. Palmatória erguida para bater. Fechou os olhos, as mãos trêmulas. Um grito saiu-lhe da boca. Caminhando no entardecer, as folhas avermelhadas ficam mais douradas pela luz lateral, algumas árvores se destacam, amareladas. Um velho musculoso entre os jovens que fazem ginástica, um tremor. O germanista falaria de Fedro, Wagner, Nietzsche. "À vida repugna uma precisão tão exata". Frio, banho quente. O nada brumoso. Ele beija a beleza de Tadeu, que se torna branca pedra. A imprensa antissemita o persegue, ele se esconde na casa da velha atriz em cadeira de rodas. Uma foto de uma gôndola. Chove no seu quarto, são obrigados a trocar os quartos. Ele não pode se mexer porque tirará do lugar suas cobertas. Morangos na mesa. Ventos quentes trazem um cheiro podre. Roupa molhada. Corta o cabelo. Morrendo na praia. Vai cuidar do sobrinho, ópera. Rejuvenesce olhando aquele bebê. A água quente. Ele pintou seu rosto, ele entra no cemitério. O cemitério dá nos fundos de uma casa, ele observa na janela da frente os colegas que saem da escola. A diretora não os expulsou. Ele senta ao lado do piano, Tadeu está pintado em um quadro. Ele se desespera. O barulho do mar o faz olhar pela janela. 

Afonso Lima

quarta-feira, maio 14, 2014

Com as próprias mãos

       Eu estava no trem, acompanhado de um jovem conhecido, Olímpio Dias, estudante de direito, que havia por acaso encontrado, mas minha mente estava nela, em seus hábitos misteriosos e reclusos. Eu tinha imaginado coisas horríveis sobre ela, eu a vi sorrindo com meu escravo liberto Josias e queria imediatamente revogar sua liberdade, mas me contive. O jovem, por fim, desistiu de me ler sua nova peça, pareceu irritado, e permanecemos calados até chegar à estação. Quando descemos, lá estava ela me aguardando, muito bem vestida, talvez um pouco sem propósito, e um sorriso se esboçou em seu rosto. Seria timidez, amor recatado, interesse no meu jovem amigo? Os olhos dele brilharam ao vê-la. Tomamos um café juntos, e ela me perguntou sobre nossa viagem à Petrópolis. Por gentileza, tive de convidá-lo a tomar a barca conosco. Aceitou. Eu os vi conversando longamente sobre música, ele parecia especialista em árias, polcas e tangos, e eu já não sabia se seu olhar era de delicada resignação ou de curiosidade astuciosamente encoberta. Fomos à ópera mais tarde. A mesma cumplicidade. Quando lhe falei sobre isso, ela riu discretamente e disse: - Você não entenderia, querido. Ele não é esse tipo. 

       Ele ficou hospedado em nossa casa, a seu pedido. Dona Glória, a governanta, pareceu sorrir como que dizendo: como ele é inocente. Eu vi quando, em nosso jardim, próximo à fonte, ela pareceu entregar ao Josias um bilhete. Seria um encontro? Eu a inquiri tentando manter a calma. Ela desviou-se. Fiquei carrancudo o resto do dia. Por fim ela disse, quando voltávamos na carruagem: - Você não me deixa ser uma boa mãe. ele é apenas um adolescente e precisa desafogar o coração. Eu farei com que sua felicidade floresça. Um adolescente! Estaria comparando-o a mim, um velho de 42 anos? Eu vira umas duas vezes ele trocar conversas sorrateiras com Josias. Uma conspiração. 

Dona Glória me disse um dia, certamente lembrando o cuidado que me tinha desde criança, enquanto dávamos ordens ao jardineiro: - Não é certo um casal jovem trazer um outro homem para a casa. As pessoas podem falar. Nenhuma amizade vale a dúvida. Tomávamos chá, no jardim e ela disse que iria pegar um xale, porque esfriava. Por um momento, desviei o olhar do livro e vi o magro jovem sumir por detrás das árvores que davam no pequeno lago. Não pude me deter e segui-o. Eu vi quando conversava com Josias, e logo veio pelo mesmo caminho minha mulher, à passos ligeiros. Os dois homens estavam enrubescidos como dois personagens do Ginásio Dramático e eu perguntei, irritado, o que era aquilo. Alice disse que havia combinado com Olímpio um encontro para prepararem uma surpresa para mim, mas eu saí com as faces tremendo de ódio. Resolvi voltar ao Rio de Janeiro, deixando-os na casa, alegando compromissos com meu contador. Dona Glória tentou me dissuadir, mas o silêncio de Alice era uma confissão para mim.

       Acabei passando mais de um mês na capital, e não respondia suas cartas, dizendo a mim mesmo que não tinha tempo. Tentava me distrair de minhas agitações. Encontrei no Campo da Aclimação um colega advogado que, sorrateiramente, me deu a entender que ouvira boatos sobre minha mulher e o rapaz. Foi então que uma ideia começou a surgir em minha mente. Eu tinha que fazer justiça com minhas próprias mãos. Não sei como descrever o turbilhão que tomou conta de minha alma depois que retornei a Petrópolis. Mesmo sabendo que o rapaz fora embora, ao ouvir como estava triste na estação, ao perceber olhares de viscondes e condessas quando eu ia às festas da Corte, até mesmo na forma como Alice tentava me agradar e propunha passeios inusitados, eu só via a traição. Voltamos, por fim, quando o ar pestilento amainou. Eu mal falava com ela. 

Um dia, propôs subirmos no Pão de Açúcar, fatigante jornada. Lá encontramos Olímpio, todo aprumado com colete e chapéu de feltro, ao lado de um amigo, Diretor Geral de Ministério, com aspirações de romancista, como nos disse. A forma como seus olhos se encontraram foi demais para mim. O que ocorreu, como ocorreu, prefiro omitir. Só posso lhes dizer que, em casa, no cair do dia, o ciúme me levou ao desespero e o desespero à loucura. Nunca saiu da minha mente o modo como ela se ajoelhou e pediu misericórdia à Virgem. Por fim, após o ato cometido, jantei bem e fui ao teatro. Na minha ausência, Dona Glória, em pânico, chamou um médico amigo da família, que, usando das ligações com a Corte, fez o caso desaparecer dos registros policiais e da imprensa. É por isso que deixo essa nota, tendo vivido recluso, sem mulheres, até essa idade avançada. Já é demais. Volto a fazer justiça, agora com um cálice de vinho. 

Afonso Lima

terça-feira, maio 13, 2014

A colônia

A colonização de Marte foi um fracasso. Os homens e mulheres levados para lá foram, depois de uma década, explorados como escravos pelas Concessionárias: preços altos para importações, instalações sofríveis, jornadas de trabalho excessivas, e, logo, esforço braças desumano, punições cruéis. As crianças passaram a trabalhar das sete da manhã até às cinco da tarde logo depois que foram liberadas da escola, cujos custos foram considerados impossíveis pelo Parlamento. A chamada Revolta dos Meninos explodiu duas semanas depois. 

Muitas famílias, condenadas à miséria devido à crise econômica, abandonaram seus filhos e formaram-se hordas de jovens que circulavam pelas grandes cidades e viviam de crimes ou amontoavam-se em condições de imundície dos becos da capital. 832-NL perdeu o pai em um beco de Niobe K12 muito cedo e passou a trabalhar nas fábricas de extração aos 12 anos. Ele e 945-MN fumavam juntos depois do trabalho, caminhavam pelas margens do rio, descobriam sua sexualidade e assistiram os Circos de Horrores na periferia da cidade com as multidões de curiosos. Mas 945-MN foi demitido por ter dormido no trabalho, depois de uma semana em que não tiraram folga. Adoeceu e acabou morrendo em decorrência da subnutrição.

832-NL reuniu um grupo de quinze garotos em sua casa (viviam em grupos de até vinte jovens em quartos coletivos nos becos) e planejaram incendiar os carros dos principais gerentes da fábrica. O tumulto tomou conta da fábrica, espalhou-se pela cidade, casas de políticos foram apedrejadas, um vereador teve seu carro  cercado e escapou por pouco do linchamento, policiais usaram gás venenoso, e mais de cem corpos foram retirados das ruas. 832-NL foi enforcado em praça pública e seu cadáver foi decaptado. Um jornalista da Terra estava de passagem pelo planeta e acabou publicando as fotos, fazendo com que um parlamentar questionasse o Ministro das Colônias. Uma investigação foi aberta e o contrato com a Concessionária foi rompido. Escolas tornaram-se obrigatórias em todas as cidades marcianas. Ao mesmo tempo, leis mais duras contra atos de vandalismo foram criadas, incluindo pena de morte, e os grupos terroristas, aqui tratados, passaram a agir. 

Afonso Lima

segunda-feira, maio 12, 2014

Outro caso

Ele ficara responsável pela cobertura do julgamento. O réu era um farrapo humano. "Que seja culpado de traição eu deduzo de sua raça. Judeus, estrangeiros, naturalizados, desprovidos dos belos traços da raça indo-europeia, ligam-se aos 'intelectuais', que se arvoram acima do povo e não passam de anarquistas metafísicos". O presidente havia sido atacado no hipódromo, um dia depois de se anunciar um novo julgamento. Nas ruas, a violência antissemita. Uma tentativa de golpe foi abortada. Nos salões, debates acalorados. Ele a conheceu na casa de Mariéton. A nobreza romena se ligara a uma rica família judia, através do casamento de sua bisavó com um grande senhor. 

Apesar de tudo, uma história de amor. Novo governo, o golpista é cercado pela polícia em sua casa, na qual resiste por duas semanas com defensores armados. Cabe a ele fazer a defesa do nacionalismo diariamente em seu jornal. "Somos o prolongamento de nossos mortos. A alma comum da França tem que resistir contra a humilhação do Exército, contra os intelectuais que abandonaram a raça rural de sua origem, contra os judeus, protestantes e maçons".

Mas na luz do luar, Anna o enfeitiça com seus versos, sua voz, seus gestos elegantes. "O senhor realmente acha que não é relevante se esse homem em particular é inocente ou não" - ela disse servindo-lhe chá. "A espécie e a nação deveriam estar acima do individualismo de 1789" ele poderia dizer, mas calou-se. Percebe que jamais poderia escrever com a mesma paixão de antes.

Afonso Lima

sábado, maio 10, 2014

Grande amor

A dama elegante sentara em minha mesa:

- O senhor já leu Isaac Singer?
- O judeu? 
- Ele tem uma frase: todo grande amor tem algo de telepatia. 
- Na escola. Acho macabro demais. A senhora acredita em telepata?
- O que aconteceu entre eu e essa jovem. Se é que posso chamá-la assim agora. 
- A senhora quer se livrar dela?
- Nós nos conhecemos quando eu era professora na universidade. Ela estava quase se formando, uma jovem de vinte e três anos. Nesses treze anos eu a traí e ela me traiu, mas nossa alma era uma só. Entende?
- Preferiria pular os detalhes. Sou antiquado. 
- Nesses anos todos, não saberia descrever quantas vezes vivemons situações estranhas. No início, era apenas uma coincidência divertida. Eu ligava de uma cidade onde estava dando conferência, e descrevia a roupa que ela estava usando. Ou ela adivinhava o que eu iria perguntar. Depois as coisas ficaram mais estranhas. Eu largava meu trabalho subitamente para chegar em casa e encontrá-la desmaiada, com a cabeça machucada. Ela descrevia um sonho que tivera com uma mulher idêntida à qual eu cometera uma traição. Eu sentia enjoo e dor de cabeça quando saía com outras. Eu podia até mesmo dar comandos ao seu corpo quando não queria estar com ela. Ela sentia-se mal ou pegava uma gripe. Para o senhor pode não parecer nada, mas para quem vive isso dia após dia por anos...
- Mas por que quer...
- Nos separamos há três meses. Durante um tempo ela ligava todos os dias, batia na minha porta. Eu sempre fui uma mulher forte e decidida. Sou uma rocha. Mas recentemente tenho estado assustada. Cada dia me sinto mais fraca, nervosa, triste. Minha namorada recente escapou por pouco de um grave acidente. Ouço ruídos na casa à noite,  percorro a casa e não acho nada. Objetos quebram na minha casa sem motivo aparente. Pior de tudo, sinto enxaqueca constante, sua imagem não sai de minha mente. Em uma de suas crises de ciúme, ela ameaçou me envenenar. Passei mal esses dias e fui ao médico. Ele examinou meu sangue e encontrou substâncias tóxicas, mas em baixa quantidade. Mas eu mudei de cidade. E, pior que tudo, acordo no meio da noite tendo a impressão de que ela está em meu quarto. 
- A senhora já pensou em procurar um psiquiatra?
- O senhor será bem recompensado. 
- A senhora pode estar apenas abalada, será que ela cometeria um crime tão grave?
- Ela vai me matar com seu pensamento. 

Afonso Lima

sexta-feira, maio 09, 2014

A decisão

- Você entende?
- O caso das maçãs.
- Sim.
- Uma pena.
- Ele quer receber seus 150 mil. E acha que essa é a forma mais rápida.
- Não imagina. Coitado.
- Mas vou dizer. Foi uma vacilada sua. Como ele ficou sabendo?
- Do Conselho?
- É.
- Ele estava trazendo as notas naquele dia.
- Você não tem uma secretária ou algo assim, seu merda?
- Ele viu o conselheiro chegar. Pensei que não...
- Aí você dá uma mala de dinheiro. Seu merda.
- Faz anos que ele. Ora, afinal. O esquema das escolas. Ele é que deveria ter medo de nós.
- Agora teremos que acabar com ele. Pobre homem, começou vendendo limão nas ruas, foi dono de uma distribuidora, agora... A cidade está mesmo muito violenta. Trate de encobrir na imprensa.
- Você sabe. Todos votaram contra o projeto. Ninguém questionou.
- Pobre homem. Se tivesse me trazido 50 mil resolveria o caso.

domingo, maio 04, 2014

Profetiza

[2013] Cremação coletiva. Era alugado. Estamos fazendo esse apelo. A gente não preferia. Podem tirar ela do jazigo. Ela trabalhou mais de vinte anos lá. Os ossos da mamãe. Queimar como indigente. 
[1888] Liberdade? Minha propriedade.
[2011] Queremos processar. Esperou quase dois dias inteiros. Depois de terem diagnosticado. Se estava generalizado. Foram muitos anos naquela ambiente. Nem bicho merece. Maca no corredor. 
[1889] Gente bicho. Vão comer lixo. 
[2006] Urubu. O cheiro. É chuva e lama, todo dia. Ela canta, cata, a mãe. 

Afonso Lima

sábado, maio 03, 2014

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Também em meu tempo cartas 
Vem ossudo vento oeste
Anjos de chuva e trovão 

malandro cosmopolita
consciente, independente
letrado sem preconceito 
de não ter jeito

cavaleiro solitário na terra antiga
a pedra do rei com o rei na barriga
vasta areia e cabeça quebrada
canta a cantiga, ao redor, o nada

triste jeito
o bando do seu joão
gente nem é propriedade
gente irregular 
se matam sem explicação

minha avó costureira
minha mãe engenheira
eu estrangeiro

eu sou um astro acelerado
eu não vou ao supermercado
algo está errado 
política do baseado

meu terno apertado
ouvindo pesado
a grama domingo
estou perdido 

malandro cosmopolita
roda mas não cai
homem negro super carro
homem negro vende água
o ladrão pegou 
a polícia matou
casa não
teto não
Chanel quebrada 
rum com coca-cola
consertar a madrugada 

está tudo confuso 
se os prédios fossem felizes em vidro
por que expor imagens fluídas?
duas taças 
quem sabe o amanhã?

gente pode viver no chão
cantando na chuva
gente impensável 
nasce

em meu tempo 
ossudo vento 
anjos de raio e trovão 
a gente rega a planta
a gente viu coutinho
a gente fala de carinho

o traficante atirou
a cola pegou
superfície plana
acelero reto
meu vento 
o futuro já passou

sou bacana
um ano até a consulta
morreu com 19 anos
na favela, por engano
luta pelo perigo
profeta do já sabido

desculpe drummond
mas não dá
a noite a rua
a hora melancólica?
desumana

sob a cidade existe grama 
puras águas sob o asfalto
redes de insetos
as tempestades 
as pontes caídas 
apagando homens cinzentos

cavaleiro solitário balada antiga
a lei comprada o rei na barriga
pedaços de pop na luz escondida
canta a cantiga, ao redor, o nada

Afonso Lima