Páginas

domingo, agosto 31, 2014

Pai

carola pai e filho no campinho correta

moderna





a festa
desaparecido o carro



pai e filho comemoram a lista  financiamento
direito

PIB
suspeito o fio



pai no cemitério o silêncio
a bola

operação
a indústria escolhe uma pedra flores comércio mundial
intriga a nação



a queda



Afonso Lima

Do ócio

Haverá por certo um começo
possível um escutar para o coração
combate de fogo e rumo incerto
crescer na tradição e ousar no verso

Na minha aldeia não há tempo
poesia luar e relva pouca
cansado novo, estrelas sabidas
linha ilegível
o pão de cada dia
não sei como sinto

Afonso Lima

sábado, agosto 30, 2014

Cinzas

Caro Pe. Lobato:
A senhorita M., que acaba de falecer em nossa casa aos 45 anos, de modo terrível, era parte da família. Ela foi abusada por seu padrasto e viveu quase um ano na rua, até que um primo a descobriu e a enviou para uma casa de caridade católica, onde foi treinada para ser empregada. Infelizmente, com 13 anos, sem que seus parentes soubessem, foi entregue a uma família e viveu dez anos sem poder sair de sua propriedade, sem contato com nenhum conhecido. Sua irmã depois de casada, contou o caso para o marido, que iniciou uma longa busca e finalmente ela foi resgatada pela segunda vez. Veio trabalhar conosco quando eu era criança e permaneceu comigo quando minha mãe faleceu e eu mesma tive filhos; nunca se casou. Seu ato contra si mesma pode ter sido causado por uma secreta depressão, minha filha tinha dito achar que ela estava mais silenciosa e ensimesmada recentemente. Nos alivia o coração pensar que sempre a tratamos bem e que ela teve mais sorte do que a maioria das crianças desprivilegiadas, contando com todo o conforto e respeito que uma família pode dar. Sem mais, Elizabete.

Afonso Lima

sexta-feira, agosto 29, 2014

adolescência

Um no outro encontramos o sol
deitados no barco, pelo verde
nosso corpo acredita e compreendemos
a inutilidade fundamental

Para sempre do perfeito
a memória será desses dias
surpresos de que no mundo
tudo pode ser refeito

Vogais e as consoantes que virão
apagar não podem a verdade
lábios sabem o segredo
o fluxo vai nos transformar

Então o puro silêncio mais profundo
do mar nunca achado será vivido
eterna brilha a frágil glória
no fundo de nossa alma

Afonso Lima

Caeiro


Antes eu fosse a pedra do rio que nunca
Que folhas soltas olham com desprezo...

Quem me der eu fosse a calma ovelha
Comendo alface na solidão terrena...

Quem dera eu fosse o negro inseto
Que entre água e céu coça sua antena...

Eu sou o ser que nunca dorme
E que rumina e molha sua pena...

Afonso Lima

Traduzindo Antonio Cícero

Segundo a tradição*

O grande bem não nos é nunca dado
e foste já furtado do segundo:
O resto é afogar-se com o amado
na líquida volúpia de um segundo.

Antonio Cícero

The greatest good never in the pocket
Already far from the second
So, to drown with the loved
In the liquid lust of a second

versão Afonso Lima


Voz*

Orelha, ouvido, labirinto:
perdida em mim a voz de outro ecoa.
Minto:
perversamente, sou-a.

Antonio Cícero

Ear, labyrinth, the eye
Lost in echoes, a voice I see
I lie
Perversely, that's me

versão Afonso Lima

Caixa

Dentro do osso, labirinto
parte solta: a conversa
dispersa o corpo
De mim eu minto
a outra
voz ecoa

Afonso Lima

*Outras praias, Iluminuras, 1998.

quarta-feira, agosto 27, 2014

comédia

Estudos de Costumes
Vida Privada  - Pq vc naum transa comigo? Naum gostou do meu k*? A lorena gosta kkk Naum vem com essa. Já era chata. Oi sou o pedro, vamos teclar?
Vida Rural - A colheira sofreu, o teto caiu. Ele faliu. O governo mudou, novo motor, filha letrada, chove na estrada.
Vida Política - Árvore já era. A Nova Era. Dois um casal lado a lado baleado. Se me apagam verão dizia o condenado. Associado. A polícia olha o sol se por.
Vida Militar -  Moço pedindo favor a imprensa tá aqui precisa de ofício impresso nada de no celular o funcionário tem ordem. Entra, senta, quer chá? PM.
Vida na Província - Ele caminha subindo a ladeira em direção à Matriz. Não é ninguém com um nome, um pouco sem rumo, mas ele vê um raio de sol na torre. A lua.
Vida na Metrópole - Um cavalo corre em meio aos carros rush do fim da tarde. Motoqueiros cowboys, polícia, socorro. O cavalo some.
Estudos Filosóficos - Filósofo na nuvem, observa a multidão, nem empresa nem governo te olham, meu irmão. Na rua na noite descobre a verdade: a teoria basta.
Estudos Analíticos - Dois viajantes estranhos na casa do militar. Vieram para o estudo de teologia milenar. Os anjos vivem em meio aos homens, diz o orador.

Afonso Lima

domingo, agosto 24, 2014

O jovem Schopenhauer

Notas -
1 - Ele preferia escalar montanhas na alvorada, para ver o sol nascer e chegar até as aldeias do vale. Ali, com certeza, seu medo com relação ao futuro sombrio que o aguardava - negação total de si mesmo ou a negação do mundo - se abrandava, e podia esquecer a figura opressora e protetora do pai.

2 - Sua mãe, Johanna Schopenhauer vai apontar sempre seu modo de "criticar a tudo e a todos sem perdão". Ele, por sua vez, mais tarde, vai praticamente acusá-la de levar o pai, muito mais velho do que ela e doente, ao suicídio.

3 - As três montanhas que escalou foram: O Cume do Chapeu, em Chamonix; o Monte Pilatus, na Suíça; o Pico da Neve, em Riesengebirge.

4 - Ele primeiro se imagina, depois de  matriculado na universidade de Göttingen, dedicando-se às ciências físicas e biológicas, ao "concreto" - os médicos, nessa época, eram também continuadores de Kant e já era um passo além do cálculo pelo lucro e do conforto material como fim do mundo paterno. Para o amigo de sua mãe, o filósofo Wieland, que o advertira sobre o esforço e a solidão quando decidiu finalmente dedicar-se à filosofia, ele respondeu: "A vida é precária, vou refletir sobre ela".

5 - Ele usará esse exemplo mais tarde comparando o imperativo categórico de Kant com a estabilização autoregulada da sociedade burguesa de Adam Smith, ambas utopias.

6 - Essa triste descrição do diário de viagem também reflete sua própria situação em direção à uma vida não desejada. Em Toulon, as pesadas correntes dos condenados, presos dois a dois, que caminham pelo arsenal; os condenados que jamais levantam do seu assento nas galeras que apenas circulam pelo porto - tudo isso despertou nele um horror tremendo, ainda mais quando soube que há seis mil desses infelizes que aguardam a libertação pela morte.

7 - Quando seu pai lhe colocou a escolha incontornável - a viagem ao redor do mundo e depois um aprendizado de comerciante numa firma de negócios ou a matrícula num curso de humanidades para seguir a carreira filosófica que desejava - pode ter despertado no adolescente um desejo de vingança, que se transformaria em culpa, ele continuando a viver como o pai imaginara até anos depois de sua morte.


Afonso Lima

sábado, agosto 23, 2014

A batalha de San Romano

Dizem que Picasso, ao ver, no Salão de 1907, o quadro "As Banhistas" de Cézanne, exclamou: "Aqui acaba a natureza e começa a arte!" Ele havia trabalhado até poucas semanas antes de sua morte na tela. Paul decidiu pintar de uma forma que mostrasse sua própria percepção porque achava que Manet já tinha dado o passo decisivo, nem guerreiros gregos, nem mercados turcos imaginários, não havia nada para contar. O jardim da burguesia, com moças elegantes, poetas e pintores sob as árvores, sua pincelada fria, deformante, foi duramente criticada em 1863. Manet foi grosseiro com o traço porque não gostava das damas rígidas e ricas, da minúcia de joias, o veludo e as flores nos panos dobrados de Ingres, com poses copiadas de Rafael e Herculano, soterrada há tempo. Ingres pintava para agradar os banqueiros, mas também porque achava que era preciso voltar às coisas em si, ao concreto do fato, numa época de ciência. Ele amava os espelhos e a fotografia e, acima de tudo, a Itália. Dizia que Tintoretto já usara metade de todo o vermelho e azul do mundo para deuses e estrelas, túnicas ao vento, seios e coxas, cupidos e pavões, suas narrativas fluídas, verdade da mentira, penduradas nos quartos de imperadores. Tintoretto - que disputava com Veronese o título de maior pintor europeu e as encomendas das cortes principescas depois da morte de Ticiano, em 1576 - não gostava nem um pouco das narrativas sólidas demais de Paolo Uccello, como a batalha que representara em 1438, onde cada coisa encontra seu lugar sob a luz, nada flui, tudo permanece onde Deus o colocou no Sétimo Dia: lanças fantásticas, cavalos de mármore, tecidos cor de sangue, metais pintados à ouro e prata. Picasso adorava o painel com a batalha entre florentinos e sienenses porque é imagem de uma ideia, cada coisa conservava sua individualidade e brutalidade, nada de harmonia cósmica, porque em nada parecia com a natureza.

Afonso Lima

segunda-feira, agosto 11, 2014

Metzengerstein 2

"Era evidente que o cavaleiro não conseguia mais dominar a carreira do animal. A angústia de sua fisionomia, os movimentos convulsivos, mostravam o esforço sobre-humano no que fazia; mas som algum, a não ser um grito isolado, escapava de seus lábios lacerados, que ele mordia cada vez mais, no paroxismo do terror.

O acontecimento da entrada de posse de uma fortuna tão incomparável por um proprietário tão jovem poucas conjeturas trouxera à tona referente ao curso provável de sua conduta. No espaço de três dias, a conduta do herdeiro sobrepujara a do próprio Herodes. Ultrapassou, de longe, as expectativas de seus admiradores mais entusiastas.

Orgias vergonhosas, flagrantes perfídias, atrocidades inauditas deram logo a compreender a seus apavorados vassalos que nenhum escrúpulo de consciência da parte dele lhe poderia de ora em diante garantir a segurança. Eram implacáveis as garras daquele mesquinho Calígula. Palavras de fogo, suntuosos ambientes, a arte como beleza obscena tudo fervia na sua mente escura e tempestuosa. Na noite do quarto dia, pegaram fogo as estribarias do castelo de Berlifitzing. A opinião unânime da vizinhança acrescentou mais este crime à já horrenda lista dos delitos e atrocidades do barão.

As pessoas caridosas, no entanto, haviam atribuído a alteração de procedimento do jovem fidalgo à tristeza natural de um filho que abandona para sempre seus pais. Alguns havia, de fato, que a atribuíam a uma ideia demasiado exagerada de sua própria importância e dignidade. Outros ainda (entre os quais pode ser mencionado o médico da família) não hesitavam em falar numa melancolia mórbida e num mal hereditário. Tenebrosas insinuações de natureza mais equivocas corriam entre o povo.

Na verdade, o apego depravado do barão à sua montaria recentemente adquirida – apego que seguia o aumentar das inclinações ferozes e demoníacas do animal – tornara-se, por fim, aos olhos de todos os homens de bom-senso, um fervor nojento e contra a natureza. No esplendor do meio-dia, a horas mortas da noite, doente ou com saúde, na calma ou na tempestade, o jovem Metzengerstein havia se fundido com o cavalo colossal, cujas ousadias intratáveis tão bem se adequavam ao próprio espírito do dono.

Havia, além disso, circunstâncias que, ligadas aos recentes acontecimentos, davam um caráter sobrenatural e monstruoso à mania do cavaleiro e às capacidades do corcel. O espaço que ele transpunha em um simples salto fora cuidadosamente medido. Verificou-se que excedia, por uma diferença espantosa, as mais ousadas expectativas das mais imaginosas criaturas.

Num instante, o tropel dos cascos ressoou forte e áspero acima do bramido das labaredas e dos assobios do vento, um instante ainda e, transpondo dum só salto o portão e o fosso, o corcel lançou-se pelas escadarias oscilantes do palácio e, como o cavaleiro, desapareceu no turbilhão caótico do fogo".

Afonso Lima

Plágio

Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
-  Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor. Meia hora.
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinou-se para tomar impulso, como um lançador de dardo. Se engolfava impiedosamente no sangue.

Afonso Lima

quinta-feira, agosto 07, 2014

“Murphy” e o conceito de ironia no primeiro Beckett

O Beckett de “Murphy” (1938) é um crítico do século XIX, um modernista semelhante à Joyce que torce os eixos da prosa, mas ainda não os tritura. Para que o autor fosse visto apenas como um “Beckett inciante”, seria preciso um olhar teleológico, assim como a ideia de que o modernismo é uma única linha em direção ao império da forma; importa saber quais questões guiam cada momento, os recursos usados, os achados que tornam o material rico e potente.
Murphy é um “solipcista exausto”, que pretende “o mínimo para sobreviver”, que vive de “pequenas somas de caridade” e deseja apenas “o sonho franco da criança, do espermário ao crematório”.
O que o texto nos apresenta não é um enredo, apesar dos movimentos de um “agregado complexo reunido sob a unidade de um nome” como quer Anne Ubersfeld (p. 73), também não é um caráter ao qual possamos nos apegar, com o qual possamos nos preocupar dentro do manter da crença, na consciência do artifício, com o destino do ficcional personagem.
Antes, são contínuos jogos de linguagem, paródias e inusitadas apresentações de personagens e situações, que causam contínua surpresa e atenção. 

Que recursos são usados se não a identificação com o personagem, a causalidade e o suspense oriundo da coerência?
Um dos mais interessantes é o uso de imagens atratoras, carregadas de simbologia, figuras que se destacam do fundo opaco distanciado de experimentalismo – tão bem expressos na descrição em tabela da personagem Célia e na irônica referência da relação entre silogismos na escolástica – BAR/BA/RA (“como Marphy tinha tantas vezes demonstrado a ela em Barbara, Baccardi e Baroko”).

Como imagens atratoras funcionam o tetraktys pitagórico, o livro "A cidade do Sol", de Tommaso Campanella e as referências astrológicas. O que sustenta a ironia fria é um calor buscado nos clássicos e na antiguidade. De certa forma, o passado é usado pela sua ressonância emocional, enquanto o contexto mágico-religioso que o constituía é dado como morto.
As qualidades que surgem são o ritmo, o contraponto, a síntese-surpresa (“- Não consigo entender o que as mulheres veem em Murphy... - É a sua... - Sua qualidade cirúrgica – disse Wylie”). Esses recursos incluem o jogo entre presente de uma narração e presente do ouvinte-personagem, criando choques de percepção – como no trecho em que Célia, a amada, descreve seu primeiro encontro com o enamorado Murphy ao amigo Sr. Kelly: “Célia acostou-se a ele da melhor forma – Menina infeliz! - disse o senhor Kelly – de modo que dali saíram caminhando...”

Aqui começa a transformação do sujeito autônomo em camadas de pontos de vista, personagens-valise nos quais o centro está em toda a parte e não há circunferência.
Vejamos como Balzac apresenta a Sra. Grandet no seu livro de 1833: “Uma docura angélica, uma resignação de inseto judiado pelas crianças, uma piedade rara, um inalterável equilíbrio de gênio, um bom coração, faziam-na universalmente lastimada e respeitada”.
Na peça “Casa”, de Richard Maxwell, de 1998, o personagem “Mãe” diz, depois da metade do texto, quando ainda quase nada sabemos sobre os personagens:

MÃE – Meu Deus. Meu Deus. Meu marido está morto. O que vai acontecer com a casa? E com a pensão dele? Eu sei que ele tinha uma pensão, acho que nós temos direito a ela. Tenho que olhar os documentos. Eu sei que deixei em algum lugar, preciso procurar. Isto é bom, porque nós vamos precisar, e você ainda é menor. Trabalhar para o governo traz algumas vantagens. Apesar do fato de que você precisar se representar. Você tem que dizer a eles quem você é. Eu acho que posso dizer a eles quem eu sou. Você precisa dizer a eles. Quem você é. Senão você não tem existe. Eu acho.

Dificilmente, aqui vamos encontrar os temas do conflito, da ação e da causalidade que dão estrutura ao drama tradicional. Nesta mímese bizarra, se mantém um traço de realismo na indicação de “personagens” (Mãe, Filho, Pai, Mike) e no simulacro de ambiente (“PAI – Gosto de onde vivemos. A casa.”)
É o estranhamento de um universo aparentemente familiar que cria o suspense. O interesse da peça se dá mais pelo relevo da linguagem, seu absurdo, e pelo fato mesmo de que seus diálogos são opacos a qualquer caracterização holística, revelando antes traços de neuroses e manias. (Também aqui há intertextualidade com um clássico, Hamlet). Algo desse modo de uso do texto está em Murphy, no qual não é ainda absoluta a descrença na capacidade expressiva da palavra (os “meios” para os “fins”). 

Supomos que a tensão clássica do romance se dá pelo mecanismo da emoção correndo pela lógica da unidade – na psicologia, na consequência, na relação entre narrador e leitor. Grosso modo, o suspense se dá pela fórmula - “o que vai ocorrer ao personagem?” ou, mais modernamente, “o que mais saberei sobre essa personagem?” Propusemos que, em “Murphy”, o interesse ou a tensão se dá pela curiosidade sobre a linguagem, seu modo de operação, os recursos usados para operar esse personagem, marionete e autor singular do próprio absurdo. ("Cedo ou tarde, todas as marionetes deste livro choramingam, menos Murphy, que não é uma marionete").

De certa forma o que se está mostrando é mais o processo (os “bastidores”), a exposição da teatralidade, e, portanto, o fenômeno do pensar. Isso nos lembra as operações de Piscator e Brecht. ("A passagem acima foi cuidadosamente calculada para perverter o leitor cultivado").

Erwin Piscator (1893 – 1966) foi um diretor que influenciou profundamente a dramaturgia por meio de suas encenações e por tratar as causas sociais como tema. Afirma, no seu texto Teatro político, de 1918, realizar “o seu labor a serviço da luta do proletariado”. Ele pesquisa os “efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem”. (idem; grifo meu) Não busca mais uma dramaturgia do “eu - representação dos conflitos entre indivíduos e ambiente e indivíduo - mas mostrar diretamente as engrenagens e estruturas (a lógica subjacente) de problemas novos em todas as esferas: na vida social, na justiça, nos conhecimentos científicos e filosóficos...

Brecht, nos seus “experimentos sociológicos”, propunha uma espécie de análise científica do objeto personagem, observando os modos de operação, “uma superposição entre o que se chamava caráter 'culinário' do teatro e a crítica desse mesmo caráter. (Pasta, p. 92)
Ao sujeito descentrado, corresponde uma estrutura estranha, ela mesma, pelo menos montagem:
Contra a “peça bem feita”, último avatar do “belo animal“ aristotélico, o devir rapsódico do teatro contemporâneo coloca em questão a própria ideia de composição: transformada em montagem de arquivos de documentário em Weiss, justaposição de fragmentos narrativos e dramáticos em A missão de Müller, a escrita teatral obedece a uma lógica de decomposição. (Sarrazac , p. 42).

Podemos imaginar que o tipo ideal do século XIX era o indivíduo empreendedor, imaginário alimentado pela economia de Malthus – poucos recursos para muitos indivíduos, de modo que a vida seria uma forma de competição. No caso do teatro, ainda o “belo animal” aristotélico obedece a um encadeamento lógico, “tornada unidade de ação na época clássica” (p.42)

Nietzsche vai atacar o darwinismo justamente por ver nele um produto da moral cristã, e propor a natureza como abundância e absurdo desperdício, e a ideia de evolução e teleologia como sintomas. Em seu lugar, ele vê o contínuo declínio das formas de vida, o “orgânico como degeneração”. (Barrenechea, p. 61-64)
O ideal do sujeito estável, confiante nas leis da ciência moderna e na religião, que dão unidade de percepção e parâmetros para a ação, o sujeito que vive a culpa e o conflito e alimenta a autoreflexão, bucando seu lugar na sociedade, começa a declinar.
Como afirma Italo Calvino: “A realidade do mundo se apresenta a nossos olhos múltipla, espinhosa, com estratos densamente sobrepostos”. (Calvino, 2007, p. 210) Nessa situação, tanto a unidade de percepção, quanto os parâmetros para a ação não são claros, e uma posição solipsista pode ser um sintoma, uma reação lógica, uma criação (a “autodestruição” criadora de Nietzsche).

Impossível não lembrar dos exemplos de Barteleby, de Heman Melville, que, em meio ao trabalho que “urgia”, toma distância, transforma o outro em “estátuas de sal” pelo estranhamento - “prevalecia com ele alguma suprema consideração que o obrigava a responder como fazia”. Allan Poe, no seu conto “A carta roubada”, mostra uma polícia “perseverante, engenhosa, astuta, e perfeitamente versada nos conhecimentos do seu ofício” que, no entanto, não consegue avaliar o raciocínio do “oponente”. O fazer não é o bastante; o como e o por que surgem novamente, a ciência não pode ser o único modelo da sociedade: “Os axiomas da matemática não são axiomas de verdade geral. O que é uma verdade de relação, de forma e quantidade, é muitas vezes enormemente falso com respeito à moral”.
Da mesma forma a clínica do olhar de Charcot, esse “fotógrafo da histeria” como o chama Saurí, em Salpetrière, será desafiada pelo recuo ao ouvir de Freud. Charcot afirmava que não se ligava às teorias preconcebidas, e sim “àquilo que surge da experiência, como se pudesse existir um olhar neutro e objetivo, e como se a sua fosse uma mirada ingênua”. (Alonso e Fucks, p. 34) Com Freud a histérica deixa de fornecer “quadros vivos” e obedecer à leis da ação e reação, da exposição num mecanismo habitual (movimentos epileptiformes, alucinações, etc) e passa a ser analista de si mesma, a elaborar situações de grande carga afetiva, nas quais a descarga era impossível de acordo com os códigos vigentes.

Agora interessa no personagem seu modo particular, sua filosofia de vida, sua avaliação do mundo (espelhado no fato de Neary, amigo e rival de Murphy, ser um “pitagórico”, que estuda a “harmonia” ou o “acorde”). Ele prega a não ação (é impossível “deduzir o que você é a partir do que você faz”), ele nem imagina “lutar”, ele prefere “não mudar”. Interessa interrogar o “real” (até mesmo através do olhar periscópico joyciano, que adota as mais variadas formas) e saber que densidades pode criar a arte para questionar os hábitos de percepção.
Em “Murphy”, não há a unidade da identificação, o narrador-personagem que leva o leitor-personagem a pensar como o personagem, mas há o narrador, o vazio e o objeto. Talvez esse seja o conceito de ironia no primeiro Beckett. “Pois o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência” - diria Nietzsche no “Nascimento da tragédia”.

Afonso Lima


Alonso, Silvia e Fucks, Pablo. Histeria. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
Barrenechea, Miguel [et. al.] Nietzsche e as ciências. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.
Beckett, Samuel. Murphy. Tradução, texto e notas: Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
Pasta, José Antônio. Trabalho de Brecht: breve introdução ao estudo de uma classicidade contemporânea. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2010.
Sarrazac, Jean-Pierre (org) Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Ubersfeld, Anne. Para ler o teatro. São Paulo: Perspectiva, 2010.

domingo, agosto 03, 2014

um dia de ulisses

1.
Precisamos de um herdeiro, ele dissera.
A luz já incomoda, sono.
Enquanto prepara o café – da direita claridade invade a cozinha - quebra um ovo na caixa, a gema fica intacta no formato ovalado do recipiente. Um segundo cai na frigideira. É branco e dourado, resolve misturá-los. Começa a pensar no Grande Livro Pé-de-Sofá.
Mas por que cargas d´água deveria pensar nesse livro? Algo que lera há...
E, de repente, haviam-se passado vinte anos.
O zelador grita algo com alguém, sobe ao terraço. Como pode? Gritos às 8h da manhã, sempre achou.
Estava pesquisando a Trindade. Mistério para o Ocidente. Três que são um, sem hierarquia, várias tentativas de representar. A rebeldia contra as redes da tradição, da família e da religião parecia mais tênue, já que nenhuma delas sobrevivera.
Lembrava do encantamento com o livro - como se toda luz de um mar branco invadisse o ambiente. As palavras rolando, as palavras na renda branca, o límpido fluir dos movimentos do princípio do dia.
Precisamos de um herdeiro, ele dissera. Agora, o pai reduzia seus sonhos à carne e sangue.
2.
Ele deve gabar-se de tudo que fez.
Toca o sinal para começar a aula. Estão falando de D. Pedro I.
Queria andar pela cidade o dia todo. Mas como, é preciso mais que coragem para vencer cimento, moradores de rua, lixo, sirene, motos, acúmulo de ausências. 
Os alunos debatem sobre o texto. Ajusta sua meia. Lembra.
Daquele livro todo casa, dia, farol, que me derrubou. Como a pata do cavalo no outro, saio em disparada. Esses, sempre largo porque me inspiram. Parte dois dez anos depois.
Precisa orientar o rapazinho. Ele precisa de um guia. Eu gosto de estender a mão. E sei que a terra está rachada. Passo creme nas mãos.

3.
Na sala dos professores olho o jardim, a palmeira brilha, faíscas cor-de-rosa. Um professor conta que os nazistas inverteram o significado da palavra "fanático" na Alemanha para algo positivo.
Quero dizer o que fiz nesse tempo, aventuras, monstros, metamorfoses, ou seja, os livros que li.
Observo como a luz muda, algo se destaca, emerge, passa uma borboleta. O que andei fazendo nesses vinte anos de barquinho na tempestade?
Nós precisamos apenas cumprir as ordens, dar comida ao mecanismo, precisamos apenas mais do mesmo.

4.
Será que existe mesmo algo como destino? Coisas externas contra as quais é inútil lutar.
Algo enredou nos meus pés, não posso avançar. Caminho pelo parque.
Tenho contas à pagar. Cortaram a internet por um dia, uma tragédia.
Corto as laranjas, esmago com a mão, tenho pressa. Deito na minha cama.
Amigo antigo, transformou tudo aquilo em espaços de luz azulada, janelas que dão para ruas onde heróis caminharam, um adolescente com seu livro aberto no jardim e um amigo falando de arte.
Eu li isso tudo em pleno fracasso, deitado, olhando para o chão, enquanto minha família agonizava e minha mãe contava moedas, sem ter entrado na faculdade.
Talvez o segredo seja filtrar as experiências, expelindo tudo que foi tóxico. Vou ao banheiro.

5.
Água.
Do que será feito? Proteína, claro. Pelo menos foi o que eu disse a um amigo que tinha asco.
Crescer. Penso nos nós das árvores, será isso, essas coisas que brotam, mas não são tão delicadas, uma árvores parece ter um rasgo pelo qual saiu a raiz, outra como um arco pelo qual se vê um tronco em expansão.
Eu gostaria de beijar a mim mesmo, reproduzir-me, uróboro bípede, comer sem sal a pura carne e o sangue tão brancos.
"Você não é uma criança como as outras", "Você sempre foi adulto","Sente-se no seu lugar porque os coleguinhas não conseguiram fazer ainda", "Eu não tenho inveja dele, invejo coisa melhor".
Eu não quero abandonar a infância.

6.
O email diz que meu avô sofreu um infarto mas está se recuperando bem.
Penso em Luz, Noite, Zeus, Maria, Odin ou Krisna, que a Natureza seja boa para ele.
Deitado, olho o teto. O administrador do parque disse, estavam fazendo compostagem naquele lado escondido. Eu vi um saco preto em meio a terra e folhas. Pensei que jamais se decomporia. Queria pegar, resisti ao impulso, sempre tão antisocial.
E nada de polícia, estão ocupados.
Mais acima no caminho, um fruto escurece no chão.
Eu sinto um peso no peito, alguém está em cima de mim, quero gritar. Abro os olhos com prazer.
Eu liguei algumas vezes para ele.

7.

Ele me observa. Grosso, capa azul. Um frio germânico, um amigo me diz. É apenas isso? Instinto reprimido na ilha de Calipso, onde todos estão de fato mortos e a paixão se torna morbidez.
Quero gritar à plenos pulmões que Thomas Mann precisava de mais sangue. Thomas Mann eu.
Ligo a TV recolhendo a roupa do varal. São notícias de ontem.
Sou de fato, um vago jornalista. O que eu faço é olhar coisas que estão na sombra, não sou original nem inovador. Tanta novidade criou um caldo branco de sono, vidro e metal.
Abre o livro. "A matéria viva sem estrutura", "organismos não-organizados", "protoplasma primevo das profundesas do mar".
Um vento frio entra pela janela.

8.
O vigia conta. Um rapaz caiu no chão. Pedem ajuda a um policial militar, disse que não pode fazer nada porque o parque está à cargo da prefeitura.
Lavo os pratos pensando nisso.
O policial do meio dia. Particular. Dois metros, sempre lembro-me de A.
"Você viu? Prenderam o chefe de onze morros no Rio, comandava sessões de tortura". Lembro do filósofo falando da boa ambição à TV. "Estou me mudando. Condomínio fechado três quartos. Onde eu morava estava virando uma zona, pobre, funk e crack."
Tenho que ler textos para o grupo da tarde. A Prefeitura disse que não pode ter um guarda no parque porque estão acabando com o crack na região.
Quando paramos?
"Os sem-teto bloquearam uma avenida, você viu?"
A ideologia está nos detalhes.

9.
Entre a cruz e a espada.
O novo plano diretor. Tenho que ler o substitutivo. Como fazer o mercado imobiliário mais amigável?
Colocando as pessoas perto do transporte, mas não seria preciso começar com mais metrô ("mantenha-se à direita"; avisos altos para evitar comunicação) e melhorias nos bairros?
Os sem-teto.
Tenho que assistir. Como os ingleses conseguem? Um drama histórico, uma luta.
Penso nos “a serem lidos”. Busco e busco, pilhas no chão. Aqui, Hammett. Em cima da mesa, com seu corte seco.
Volto para os anos 1920 na tela, o Ulysses é de 1920?

10.

Chave em cima, chave em baixo, dezesseis degraus até o outro andar, porta de ferro. Confiro o cartão, 30 reais. Entro no metrô, escada, uma velhinha lenta, fecha a porta, chega, saio, espero um pouco o fluxo que sobe. Cruzo com o fluxo da outra linha, desço mais rápido pela esquerda, mas sou obrigado a parar, porra, até a porta mais vazia do metrô, espero entrarem os afobados, está frio, abro um livro. Facebook, alguém pediu um texto, tenho uma aula desmarcada, meu irmão, uma amiga convida para uma peça, um amigo conta um caso bizarro. Ele traz um rapaz para casa, o cara começa a pedir pra bater, ele se assusta, pede mais e mais, recusa abraço, o cara bate nele, ele ficou mal. As pessoas querem se destruir? As unhas chegaram a fazer um corte, o cara dormiu no sofá, ele não pregou o olho, foi embora sem tomar café. Logo eu, que gosto tanto de dar carinho, ele disse. Estou estranho desde esse dia.
11.
Tempo fechado, nebuloso. Cidade limpa, bosques, ordem. Uma massa alegre, discussão. O professor é estrangeiro, precisamos ensiná-lo. As moças bonitas da direita falam da dificuldade da tradução do russo, os rapazes malhados do meio falam da dificuldade de produção, os dois homens gays mais velhos falam de como o financiamento público está acabando com a iniciativa no teatro. Imagino alguém semeando sementes de intelectuais, para o bem da nação, mas algumas cabeças simplesmente começam a devorar tudo. Saio para um café. A faxineira perdeu um sobrinho no tráfico, a secretária consola. Começa uma chuva e o dia está no meio.

12.
Vou ao toalete, paredes brancas, um mundo perfeito, luz, dois operários entram, Como você vai ver o filho, se você e sai às seis da manhã e volta às onze da noite, eu penso que no outro ano cheguei, acordando seis horas, metrô, ônibus, como estrangeiro numa disciplina, um mês atrasado, pedi ao professor para observar, não fui aceito, São as regras, ele disse, já somos um grupo fechado, eu andei pelo verde no sol, tomei café, chamei Dionísio, o transformador, Como mudar as regras, eu pensei, eu viajei para o dia em que comprei comida atrás do Mercado, casas decadentes, homens carregando carrinhos de caixas, estoques da alho, eu vejo uma pobre Catedral oprimida entre torres cinzentas, o verde de suas torres petrificado entre carros e pichações em cimento, eu penso na audiência pública sobre o Plano Diretor da Cidade, somos cenário aqui, disse meu amigo urbanista, Somos a falsa democracia, ele disse, e sabemos que antes foi pior, o último prefeito, robótico, nem falsa democracia, e as pessoas excluídas gritam no microfone que querem mais casas, praças, saúde, mas não é o momento, e também nunca é o momento, sento na minha classe.
13.

Ah a arte, uma mandala cheia de manchas, um círculo em movimento, algo entre feto, folha de outono, raios de sangue, pedras, eu gostaria de pintar como essa mulher aos cem anos, e tudo se transforma, eupenso, por algum motivo lembro disso, no ônibus com um milhão de estudantes enlatados, a escravidão infinita, um jovem negro cobertor sob os braços e chinelos velhos e calça dobrada com fundilho marrom e ombros escuros caminhando sem rumo entre lojas, bancos, carros, novidades eletrônicas, e eu, fazer arte, “na pintura interessa o que não é pintura, no concretismo interessa o que não é concretismo”, novamente vejo as mandalas em flor, as rosas bloom do parque, lilases crespas, de laranja à amarelo, de rosa intenso, eu daria roupas e flores para esse homem, talvez ele tocasse jazz ou amasse uma garota, talvez sua voz trouxesse novidades, eu chego no metrô.

14.
o heroísmo é uma baita mentira e não há subtituto para a paixão individual como motriz de tudo”, eu pensava que o idealismo foi o grande inimigo do século XIX, ter uma visão mais realista, deixar emergir, desamarrar-se dos costumes, ter uma visão pessoal foram as lutas, jogo, jazz, Jung e nós nos dissolvemos, não somos valorizados, não somos vistos, liberdade formal, sopa de democracia, nos convida e nos segrega, um rapaz expulso do Congresso pela Liberdade por fazer uma pergunta imprópria, sabemos tudo sobre tolerância, aceitação, diversidade, só não no mundo concreto. Estamos emagrecendo, temos cada vez mais músculos, o pensamento é lento, o consumo é rápido, quem vencerá, são 4 milhões de óvulos, 100 milhões de espermatozóides, diria seu parente liberal, só os melhores ganham. Tirésias vê algo que nós não vemos, nas faces da Lua?, mas seguimos em frente com lanças de bronze, lanças em punho.

15.

blues no ar da moça com dreads, eu espero na plataforma, chega o metrô, nem um milímetro livre, micropânico, percebo que estou no sentido errado, eu chego na estação Marechal Deodoro, por sorte contra o fluxo, qual o som dessa gente amontoada como animais? que sons produzem pessoas sem casa? qual o ritmo dos meninos vivendo na rua? qual a batida da fome? qual a canção silenciosa do coração de uma mãe que se vende? qual o som de um bairro abandonado? os sons dos meus vizinhos fazendo sexo, música sertaneja, sim pegadores, macho, bêbado bruto, ou 50 Reais a chupeta?, ouço a senhora do parque, lembro de você, out of the blue here´s you and how you care about me you cure me you save me much more I can see, no frio da noite eu te vigio, tuas nádegas redondas, teu abraço, aconchego de lado, boca vermelha, surpresa na madrugada, eu sobre, o calor leve, amanhece, quero mais sono, encosto a cabeça, no mundo do sexo eletrônico, fast-food, sistemas nervosinhos, macromachos nanopsíquicos, mercados financeiros andantes, investidores de anabolizantes, sons do reino mágico do dinheiro, demônios de vidro e aço, um mundo de destroços.

16.
nada está decidido, entro na sala todos sentados meu texto será o primeiro, a roda, eu estou pensando sobre Ulysses, e como a crítica falava sobre uma androginia do protagonista, e como o livro me pareceu poético na adolescência, devora-me, a torre, a mente como mar claro, conversas em pontes preto e branco, sim, sim, arte vera maior mesmo com tudo sobre ela vence, eu lembro de como minha irmã disse sobre obras de arte que parecem absurdas, e ficam com você (ninguém entende nada do que escrevi, não tem ação, não consigo me agarrar em nada, quem fala) e penso que os homens bêbados e rudes já não sabem o que fazer com as mulheres ousadas e ativas, e que o crítico parece falar de uma homossexualidade mental porque a física o repugna, eu perco o tema, será isso, apenas clichês, mas o que impede de ele ser um mulherengo e querer as nádegas-melão de Stephen, assim como a prosa, era vida habituada, e lembro da mulher testemunha relatando 50 anos depois sobre sua vagina fios e levar choques dos policiais, camponeses nus com mel na pele até as vacas lamberem em carne viva, a boca dos estudantes no escapamento acelerando o carro, é uma guerra eles disseram, a empresa ensina demitindo quem protesta, o fazendeiro ensina a ensinar quem manda, o pobre tem sede de comando, o muro caiu, cercas e tropas pela rua, a liberdade triste, estou impaciente, tenho que ficar mudo enquanto a roda roda, o que está acontecendo, procuro um abrigo, marinheiro na tempestade, minha mente em velhas histórias, escreveria eu tudo em detalhes como P ou J quem leria?

17.

“O que realmente eu represento pra você nesse tempo em que nos conhecemos?” Eu leio do e-mail, quase duas horas, “você se esconde”, será que eu me tornei realmente frio e medroso, esqueleto bem científico, proto-humanista matemático? Se algo sabemos depois do século XX, diz o cientista, é que nada é o que parece, mas todas as questões parecem decididas, mundo é máquina, só resta um mais, desde o amor por império de Igreja, ou parte do real é a teoria, e somente a imanência pode, o quê?, ainda, talvez, o aqui e agora, salvo, brilhante, a beleza, como?, intrínseca, e se diz que existe uma quantidade de energia inerente ao próprio espaço, talvez infinitos mundos. Estamos todos nesse barco, a pressa nos cega, o mercado levou tudo que eu acreditava, a luta toda foi apagada, o chão secou, pouca tolerância, de repente os centauros estão voltados para si mesmos, em formação de gueto, violência fria. Uma mensagem – estou namorando; eu também fiz uma escolha, aquele abraço, a casa.

18.

Acorda a carne na cama por terra e canto. Você chegará. Permanecer. Polifonia por favor. Intensidade, improviso, flexibilidade para encaixe. Perguntar. O mundo clichê. Sim.


Afonso Lima, 2014