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quinta-feira, novembro 13, 2014

Lembra?

Você sabe quem eu sou? - um homem negro, de camiseta e jeans, pergunta a um policial que está com seu parceiro.
O policial lembra de um segurança negro que estava numa agência de banco (ele, à paisana), entra uma mulher drogada, bate no braço de uma cliente que sai do caixa eletrônico, o segurança fica parado, a funcionária do banco grita com a mulher, leva um tapa na cara, o segurança parado, a funcionária grita: faz alguma coisa negro filho da puta!
Não.
Uma mulher compra milho de um ambulante negro na Paulista, ele diz: fica de olho na polícia pra mim, ela muda de posição, ele passa. Não.
Uma foto de um traficante de escravos que viu no museu - um velho sem dentes que lembra esse homem. Não.
Eu sou o que estava contigo.
O policial lembra: correndo atrás de bandido, rapaz correndo, tiro, expulso da polícia.
Agora eu sou um preto pobre como eles.

Afonso Lima

domingo, novembro 09, 2014

Bucólico

- Montes.
- Boi.
- Mas longe.
- A teia de aranha.
- Saudade? Mas o que dizem?
Escuro. Uma aranha na parede. Ruínas.
- Pequenos. Rápidos.
- Cruzando a estrada.
- Molhamos os pés.
- Saudade?
- Acabou.


Ele observa através da janela de madeira.
- Acorde.
- Eu descia até o mundo dos mortos.
Um antepassado tão longínquo.
- Maldição?
- Parente do tio.
- Doze gerações.
Eu tenho medo.
- Herói derrotado.
- Você nasceu.
Na noite caçamos. O silêncio na meia noite. Latidos marcados. Tempestade. Molhados no mato. A cidade. Saudade.

Afonso Lima

sexta-feira, novembro 07, 2014

como eu estava morrendo


Como o autor já havia morrido, ele, com já mais de cem anos, buscava levar à julgamento os descendentes daquele. "Ele roubou minha vida: toda a vez que conto para alguém um episódio de minha vida, a pessoa diz que já leu isso em outro lugar". (Escreveu: Levavam o caixão pelas ruas da pequena cidade filas de homens de chapéu e mulheres bem vestidas. Filho supérfluo de pai supérfluo, começou bem graças ao cargo fictício criado para o pai inútil, mas de salário vitalício). De fato, juiz, mudara-se para outra cidade e sofrera uma queda no meio da reforma da casa recém comprada. Vivendo em casa, com o filho adolescente, uma vida de mentiras, o viver para o meio social, reflexões sobre a existência, a solidão e as coxas magras, tudo, tudo já havia sido escrito. (Escreveu: Chamou a carruagem, lembrou-se, enquanto ia para o cemitério, de sua vida de Tribunal, jogo de cartas, chegando em casa e ouvindo que sua mulher recebera visitas, seu filho estudara com o tutor, tudo ia bem, lia um livro, lia documentos. Desceu, pagou o cocheiro, ouviu o trovão e pensou que sua primeira visita ao seu futuro túmulo ia ter água.) Mesmo minúcias como a cor verde da sala de visitas da mansão, o local da casa de campo do cunhado, a cadeira do Tribunal... O juiz ficou espantado. Mas, tendo morrido o autor, decidiu arquivar o caso. "No fim, escrevi um livro para sair de dentro do livro". (Escreveu: É com profundo pesar que a Sra. X participa a amigos e parentes a passagem do juiz seu marido, membro da Corte Suprema, de quarenta e cinco anos, que deixou a vida no dia 02 de fevereiro. O enterro será sexta-feira à tarde). 

Afonso Lima