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segunda-feira, novembro 30, 2015

Alcebíades


Entra o dono da companhia, com atores.
Dono – Senhores, eu, que vim de Siracusa, aqui trago esse mimo, com um flautista e um dançarino, para alegrar a festa que nosso nobre anfitrião oferece ao belo Autolico, seu namorado. Enquanto a taça é compartilhada, peço que reflitam sobre a cena e o quanto ela pode ser semelhante com os dias de hoje. Ao final, prometemos a visão de Dionísio e Ariadne
Narrador - Neste tempo, Atenas ia perdendo sua guerra contra Esparta. Esta guerra, que começara quando os espartanos pediram ajuda para derrubar os muros de Itome, e acabaram censurando os atenienses por sua demora, ia degenerando em bárbara mortandade de irmãos. Alguns precisavam encontrar uma culpa para estar sendo punida pelos deuses irados. Os aristocratas censuravam os novos filósofos por trazerem incerteza ao mundo, por ofender a piedade, e entre eles, Sócrates, a quem o jovem Alcebíades, sobrinho de Péricles, belo, rico, de inteligência finíssima, defendia dizendo que somente este homem o fazia envergonhar-se e querer se corrigir de suas imperfeições. Neste contexto, Alcebíades decide defender perante a Assembleia do povo que a cidade levante sua frota em socorro da pequena aliada Segesta, na ilha da Sicília, atacada pela sua vizinha Selinunte. O general Nícias, veterano coberto de glória, se opõe à ideia. Diz que poderia ser responsável por um trágico acontecimento que marcaria o início da queda de Atenas.

Alcebíades - Meus caros irmãos. Não deixai que a aparência os engane: também eu não teria derramado lágrimas ao ouvir Sócrates se não tivesse desejado ir além da sua imagem de bufão e bêbado, a alma do sábio. Eu sou jovem, mas tenho buscado a sabedoria e celebro ritos com os líderes dessa democracia desde a infância. Lembro do caro Filectetes, herdeiro do arco de Hércules, mordido por serpente enquanto iam os gregos à Tróia, abandonado em uma ilha deserta por um duro Odisseu, a quem vão resgatar este e Neptólemo, filho de Aquiles, depois que um oráculo anuncia que Tróia só cairá pela força de seu arco. Nem sempre a justiça é fácil. É a força moral de Filoctetes, velho, doente e magro, que faz o jovem, enviado para iludir-lhe, em nome do dever e do interesse dos gregos, depois de ter lhe convencido a entregar o arco, mudar de opinião e ceder à compaixão. É o dever ao bem que me faz promover entre vós uma campanha perigosa, em nome da amizade que une duas cidades. Porque, como diz Odisseu, "é a língua e não as ações que tudo conduz entre os mortais". Um oráculo nos profetizou a vitória.
Nícias - Não te deixo prosseguir, língua imprudente. O mesmo poeta diz que os planos concebidos por um espírito perverso, é pela palavra que se revelam.

Alcebíades - Não respeitas àqueles que, tendo chegado em idade adulta, têm o mesmo direito à palavra e à liberdade? Não respeitas a sagrada aliança de cidades irmãs?

Nícias - Não se eles creem, como Odisseu, que a mentira conduz à salvação. Mentes para ti mesmo que tua ambição é dever e compaixão. As palavras dos oráculos não são claras para um espírito leviano. Tens nobreza, não nego. Mas, tuas palavras enfeitiçam a ti mesmo. Odioso nos animais é seu eterno apetite e, se choramos por Édipo, é por ter voltado ao tempo sem lei. Também a um homem que quer viver no ilimitado da criança censuramos.

Narrador - A Assembleia perguntava se não se opunham à Alcebíades por inveja. Sete carros de cavalos numa corrida onde ganhou o primeiro, o segundo e o quarto lugar nos jogos olímpicos de 424. Patrocinador de coros em representações de tragédias em Atenas. Foi declarado strategós, general eleito pelos cidadãos. Conduziu uma política ofensiva contra Esparta e conseguiu juntar algumas cidades como aliadas, preparando-se para reacender a guerra do Peloponeso.
Nícias - Desejas prosseguir a política de expansão, contrariando os conselhos do teu falecido tio, Péricles. A diplomacia vai salvar nossa cidade. Não foi para isso que fiz a paz com os espartanos.
Narrador - Tucídides narra seu discurso: "Não deixem que a política de passividade que Nícias defende, ou o seu esquema de colocar os mais velhos contra os mais jovens, vos leve a modificar o vosso propósito. Mas ajamos à maneira dos nossos antepassados, que, mais jovens e mais velhos em conjunto pelas suas decisões nos deixaram a herança que dispomos. Será que vocês estão empenhados em prosseguir desse modo? Lembrem-se que nem a juventude nem a experiência podem fazer alguma coisa, uma sem a outra. Resumindo, a minha convicção é que uma cidade naturalmente ativa não pode escolher um caminho mais rápido para a ruína se repentinamente adotar uma política de inatividade, e com certeza que de modo mais seguro vivem as cidades que menos se afastam dos costumes e das leis do seu tempo…”

Nícias – Para vencer, seria preciso gastar muito.
Alcebíades – Se Atenas fosse atacada, que dirias tu?
Nícias – Qual o motivo que o move? Seria agradar seus iguais, alimentados por ideais arcaicos?
Alcebíades – Queres que acreditem que somente o ouro e a política me fascinam?
Nícias – Não haveria razão em incendiar o ódio de Esparta.
Alcebíades – Meus amigos, vejam como ele muda de estratégia quando percebe que perde.
Nícias - Tudo para os novos sábios é achar o tempo oportuno
e a justiça depende da necessidade do dia
aprendeste de Górgias, a quem Olímpia dedicou estátua de ouro
que o real é uma batalha de contradições
e a língua encantada deve acalmar o espírito
tomando posição qualquer no eterno combate
possibilitando a vida, ainda que ilusória
essa ilusão curadora tu a aprendeste, e outras
magias perigosas que à juventude envenena

Alcebíades - Quem te ouve assim não imaginaria que deitaste o lado de Sócrates tantas vezes

Nícias - Amante do vinho, bem sabes que para nós
os deuses deram sua imagem apenas em belos corpos
como o teu, jovem brilhante, de bela linhagem,
mas o meio corrompe até o mais fino adorno
tua imensa capacidade carrega o mal ou o bem

Alcebíades - Também nós temos de superar os antigos
e marcar nosso tempo como Aquiles ao seu
como Minos, que dominou o mar e criou as colônias

Nícias - De que nos servirá uma fama da destruição? O que queres, no fim, é tentar que a Sicília fique sob o controle de Atenas.

Alcebíades – (para si) Maldito que sou, tomado pelas ondas do desejo
incapaz de conter-me, escravo da fome
confundido pelo corpo, amigo do ilimitado
instruído na infâmia por homens vis
desejando acima de tudo ser apreciado
quero fazer grande o nome de minha casa
como fizeram tantos combatentes nobres
mas duvido de mim mesmo e desejo desistir

Narrador - A cidade foi tomada de entusiasmo guerreiro. Havia guerra entre os comandantes da expedição. As estátuas de Hermes que Atenas, foram mutiladas, causando pânico. Alcebíades foi chamado de volta da Sicília para ser julgado e fugiu. A frota ateniense foi aniquilada. O maior desastre militar da sua história. 40 mil gregos foram presos. Um terço da população foi perdida e metade da frota destruída. O imperialismo de Atenas enraiveceu seus inimigos. Uma facção pró-espartana derrubou o governo democrático.

Dono – Se como dizem os antigos, o que segue a razão se opõe ao espírito, esperamos que essas diversões ligeiras aqueçam o fogo da inteligência. Alcebíades queria ser Aquiles e, por isso, destruiu sua cidade. Que Héstia nos lembre que proteger o fogo com atenção é o primeiro dever do cidadão. E agora, Dionísio e Ariadne.
Afonso Lima, nov 2015




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