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segunda-feira, março 16, 2015

folhas

somos civilizados não falamos uns com os outros escondemos cipreste e cimento em meio à chuva forte mulher com guarda chuva pega táxi por que tantas palavras a palmeira esfumaçada de água cortada pelo lado a lado do vidro algo de branco nos pingos grossos casados no escuro da avenida um pouco de Cairo e roxo e Kobra o que temos dentro é como se o animal voltasse e surgisse nas copas verdes das árvores o verão e braços longos brotando do chão atrás da janela uma luz lilás dia renovado mulher levanta a saia e as rosas água enche a calçada tudo é passado. 

Afonso Lima

Sol da manhã (verso ao vivo)

Eu mudo de opinião
é primavera
que eu tenha sempre coragem
de não saber
(o contrário do pensamento
é a certeza)
que eu não seja contra
o que é acaso
(porque tudo é inesperado)
que eu pegue em minhas mãos
o objeto
que eu não diga o certo
e o errado
(pisando com cuidado)
todo mundo faz parte do jogo
e como jogar
que eu não seja para ser visto
aceite o limite
(caminho de pedra e mata
a vida)
que eu plante devaneio
no mundo controlado

Afonso Lima

domingo, março 15, 2015

"Senhorita Cristine", de Katie Mitchell

Logo na primeira cena, uma mão toca um jardim de flores em um telão, que sobe e fica acima do cenário, uma casa do século XIX: à direita a mesa onde (vamos entendendo que) se produz o som; a esquerda uma mesa onde (vamos entendendo que) se produz também algo: imagens. O duplo jogo de ver o produto e ver a produção faz seu olhar correr de um lado para outro, o que seria, talvez, uma boa definição de teatro. As imagens são de uma beleza técnica perfeita: um especial da BBC.

Mas minha sensação é de que se perdeu algo de Jean e Julia. Aos poucos lembro que é a "visão de Cristine", a noiva dele. Na cozinha, você vê a luz da manhã, o vidro, a chaleira, tudo a ver com a tradição de sensações e natureza dos britânicos (trabalho anterior: "As Ondas", de Woolf). Cristine produz um ambiente nos gestos de cortar, lavar, limpar, preparar, e você pensa no que seria o cotidiano de um criado, a repetição. Apesar do texto interessante e das imagens poéticas, eu me distraio. Falta aqui o que faz o público "pensar junto", "humm acho que esses dois..." Porque tudo começa como se o absurdo de se passar por cima da classe, um rompimento, não fosse acontecer. No fim é isso, eu sei.

Logo na primeira aparição, Julia é só uma menina fogosa. Já sei o que vai acontecer, perde-se o ar de mistério da peça: Júlia tem um desejo, é reprimida, seguem as convenções, não consegue se segurar, vai sofrer porque assim o mundo quer. E Jean (que fala pouco e cuja cena mais forte é fazendo a barba) é interessante, mas não é o Jean que eu conheço, infantil, sensível, leviano, sem escrúpulos, que fala pela primeira vez talvez como é ser um pobre desgraçado, mas cada vez mais só um homem grosseiro. A própria Cristine, poderia ser mais que uma moça ciumenta: e se as criadas fossem menos presas a convenções sociais ("Você ficou brava comigo"?/"Por uma coisa tão sem importância... Conheço meu lugar"), e se ela se solidarizasse com a outra que, escrava como ela, se destruiu sendo livre? Strindberg, não por acaso, disse que Julia tinha 25 anos e Cristine 35. Como eu já sei onde vai dar, mesmo as belas cenas do quarto de Cristine não me tocam tanto, mas devo dizer que a produção de um sonho, com diversos planos de processo e a imagem surreal que envolve água e fogo, rostos que se misturam e pés no jardim são de uma delicadeza incrível. É a mais bela cena da peça. A montagem, a precisão, o rigor nos fascinam.

É como se o realismo do teatro britânico encontrasse seu lugar natural e extremo (apesar de que um vídeo no Youtube dá a entender que o processo da diretora começa com bastante fisicalidade do ator em workshops, onde propõe bastante). Em palestra na tarde de ontem, Dmitry Krymov, diretor de Opus n.7, falou de seu processo que se contrapõe à tradição russa de trabalho com o texto: quer manter o interesse, não se importa que não seja tudo entendido, quer que a imaginação percorra um caminho para que "uma coisa fale de outra coisa", para que os objetos falem. Talvez seja um pouco isso, mas a imagem como metáfora parece me tocar mais.

Katie Mitchell por fim me capta novamente pela forma mesma do ato: a traição. Cristine ouve a discussão na cozinha, olha atrás da porta, Julia tem uma a mala, Jean está furioso e ela prepara sua navalha para... fazer a barba. Ele a afasta para a missa, quando ela retorna, enxerga sangue. É um final bem impactante.

A discussão na saída girava em torno da questão: "vale a pena ver um filme no palco"? Em "Ozzz", do grupo português que ocupa o Sesc Belenzinho, eu assisti praticamente um filme, gostei muito, não é o caso. Eu sei que refazer um clássico requer que se pense sobre ele, que se tenha um ponto-de-vista que responda à questão: "por que mais um..." A diretora diz num vídeo estar cansada de tantas palavras. Todos nós estamos, mas é preciso lembrar que o que é dito deveria esconder o que não é dito. Não dá tempo para amar Julia, mesmo que ela se mostre boba e sonhadora no final.

Katie Mitchell nos oferece um banquete para os olhos, é contemporânea na sua forma de expor o processo, entendo e me envolvo com Cristine, mas eu gosto muito mais de Jean e Julia e da forma como vão devagar e rápido. Por outro lado, o produto me comove, com sua luz suave atrás das janelas. No fim, a peça deveria ser "Senhorita Cristine" - Strindberg é um pretexto, o que é uma pena por que é complexo. Um casal ao meu lado diz, antes da peça: "Parece que é a história de uma moça rica que se apaixona pelo jardineiro". E, apesar da poesia, é.

Afonso Lima

sexta-feira, março 13, 2015

Terra de ninguém

quem são vocês?
viajo pelo nunca antes
numa cidade feia
quero passar

círculo cinza e reta
não circulo
o imigrante o muro
dentro do carro a chuva
aqui eu não posso ir
melodrama

A idosa ganhando
o pão no Parque da Luz
o pé sujo sentado na escada
os brotos de feijão brotam
de uma artista de algodão

O policial: no meu batalhão
mulher mata mulher
homem mata homem
(será piada?)
o menino na casa furada
cinco no ninho miserável
o pensador habituado
olha através do vidro

não circulo
a chuva esse Brasil
seco e frio duro
toda a dor do condenado
preso à ferros no chão gelado
e eu já sou grande o bastante
para o melodrama

não há movimento
bebendo champanhe o pensador
(refugiado)
engorda dentro do carro
aqui eu não posso ir
cria o melodrama
(devolvam-me os sentidos
uma mulher abre o algodão)

Afonso Lima

quinta-feira, março 12, 2015

Ficção científica

(Para Samir Yazbek)

O horizonte anuncia
tempos fora do tempo
já as flores lilases se escondem
a velha luta enfermidade
vivê-la ainda uma vez
o Menino sobre Hiroshima

"Ninguém nasce anormal"
Abutres na carne mordem
cálculo que não se olha
minha pena com tinta
quente da América

A menina que só faz no mato
não sabe que aqui os melhores não vencem
vencem os endinheirados
o menino com fome
espera pela aula
leva tempo
para se fabricar um bandido

O índio entrega sua orelha
para quem ganha por orelha
o efeito primogênito
o diabo temia (na sua filosofia)
pela civilização (ou não)
os fortes aprisionados
o sangue misturado

O fígado na cama
as máquinas obscuras
no beco dos condenados
medo do fraco
os ratos devorados

o filho, o pai, a mulher
desapareceram na cidade
América de garras compridas
multidões assustadas
limpar a neve da peste
civilização do diabo

Uma estrela coberta
desfocada uma nuvem rosada
luzes distantes meio céu de
chumbo
apesar de tudo um réptil
escuro e pequeno corre por aqui

O pampa de silêncio morto
Ninguém animal ruim
minha pena com tinta
quente da América

Afonso Lima

terça-feira, março 10, 2015

Santuário agreste

O sinhô caiu de amores
pela mulata
mas ela continuava na senzala
a carne é fraca
no chicote

árvore seca baleia encalhada
yakuza acusa canudos
o intelectual armado
de visões do passado
o empresário com a faca nos dentes
querendo ser presidente
o empreendedor do pó
o dogma da TV
só inglês vê

quem tem medo do brasil?
o que é essa nação?
cidadão mal e mal
separado dos irmãos
na jangada na tempestade
brotando do Sardinha
gaiolas herdadas

descobrir África
desenterrar os ancestrais
não branco sim,
negro não

A república comeu a princesinha
(depressiva com a barriguinha)
O jardim dos amores-perfeitos
morreu no veneno verde
mallarmé sentiu a maré?

rubro ouro negro
empurrado pro cimento
biscoito: saia de casa
veja como está o tempo
entre em casa
como está o outro?

afundado na verdade
grande a casa grande
o aplauso do golpe
rezando contra o novo
quem não tem medo do brasil
deve estar equivocado

Afonso Lima

segunda-feira, março 09, 2015

Acacaso

não não é verão
cinza sem nevoeiro
artista carniceiro
agitar o coração

pós-concretista
pelas árvores desarvoradas
herança do mal
catedral de ossos
palmeiras explodidas

não não é verão
cinza como um dia
rei devorador
tupi sem alaúde

devido ao sucesso
conspiração rearmada
belle époque 300 chineses
em quartos sujos
grita - foi morto?
trabalhador? pai de família?
vagabundo um a menos - a moça bonita
morador de rua assiste lanche
na calçada

o progresso devora
a avó pé no chão na caliça
lê pouco a empregada
cidade sitiada
a filha sem professor
sem rima possível
escola ruína
bala perdida?
era uma vez é ainda
é a noite que nos iguala

à beira do abismo
tocam por nós os sinos
os que se foram
caminham pelo mundo
o retorno - o nome,
o crime, o sonho
o mesmo
ódio guardado

como nossos pais
tem muito medo
em pedaços
velho rico
novo rico
medo do sem livro
demolição inacabada

não não é verão
cada novo olhar
possa recriar
folhas verdes
nação


Afonso Lima

domingo, março 08, 2015

A conspiração realista

Ser e não ser. Onde tudo funciona. Como a cidade era difícil, qualquer complexidade extra era mal vista. Era preciso saber onde, quando, como. O rio sempre sujo. Haviam os realistas complexos, os realistas políticos, os realistas televisivos. A conspiração realista sequestrava e prendia sujeitos esquisitos. Por reação, surgiram os esquizo-antirrealistas, uma seita capaz de não dizer nada. (Seus inimigos, claro, achavam antirrealistas lógicas novas, unidades A e não-A e objetos sem fronteira).

A cidade era marcada por guetos antigos, máfias locais, o poder envelhecera em famílias nobres que se alternavam no governo do castelo. Os revolucionários tinham sua própria cidade-fortaleza, pobre, e suas ideias podiam pairar contra (valor de uso) ou à favor sem pisar no chão, sem atingir a máquina. O rio sempre o mesmo. Ser e não ser. Onde tudo é elegante.

O rio sempre parado. Os realistas limitaram o novo dentro do círculo, não se viam como realistas, mas pensavam que não semelhantes eram ignorantes. Os realistas debochavam da burguesia, eram o senso comum sempre crítico. Os inquietos que não vinham nem do alto clero, nem do campesinato, da contagem do ouro ou da bibliografia oficial, eram um insulto, um erro, uma dúvida. Os realistas tinham gênio forte, estouravam fácil, denunciavam, ironizavam a falha, o desconhecido, a ironia. Ser e não ser. Onde tudo tem norma. Ratos, pólvora, astrologia inserida sem green card. Porque o realismo era também um conjunto de doutrinas. Eles temem o fracasso, o risco, a frustração lhes dá pânico, eles não têm paciência para entender como se ligam os pontos de cada cérebro, eles não gostam de ficar sozinhos, precisam fugir de si mesmos. Os realistas acham que o mundo tem resposta, usam gel para um cabelo rebelde na TV, eles acreditam que falta de ponto no texto é vaidade, vestem coleções ousadas do passado, eles correm sem sair do lugar com garrafas de água mineral. Os realistas não se importam com a violência, a injustiça, o desencontro da alma, o mundo real.

Existe um surto realista. Os intelectuais realistas, nutridos de inovações, contradições e faro fino, diziam que não se podia perder tempo, que não se podia fugir da sua função, que exigir demais era imoral. Os realistas achavam que os degraus de uma busca eram dispensáveis. Os realistas se consideravam além da vanguarda, cheia de dúvidas. Mas o segredo, o silêncio, aquilo que pode e não pode dizer alguém, isso lhes fugia completamente. 

Afonso Lima

sábado, março 07, 2015

A morte

Ele foi perseguido desde que começou a política externa agressiva. Sua perseguição era seu sufocamento. O ditador era um industrial: arrivista, materialista, hedonista. Uma classe inculta reduz a realidade. Os artistas, os filósofos alegram a festa com teatrinhos, novidades, discursos. Ele já estivera na aventura, na loucura, num tempo sem nome, no ilimitado. Ele conhecera o crime, o mercado, a máquina burocrática, a lei. Ele tivera devaneios na província, depois devaneios em cada hora do dia. Agora era sufocado pelo deserto cinzento do medo. Agora, a censura, pobreza de liberdade. Ninguém veria a letra livre no papel. Mas seu medo era permanecer. Percebia que estava secando, sua pele se acizentava, seus olhos sem brilho. O progresso o tornaria um morto que vive. E o que respira seria explicado. 

Afonso Lima

Guerra

Conta-se que quando eles chegaram à terra onde ocorreria a guerra, havia entre eles um grande debate sobre o seu motivo. A honra, o ouro e a tradição eram defendidos, duvidados, o que havia já dez anos. Assim, cairiam no ridículo os gritos, o sangue, Aquiles e os próprios deuses. Corria o boato de que Proteu havia criado de Helena um simulacro. Ela chorava linda e livre no túmulo do rei de Faros. Era preciso ir no âmago da realidade, ouviam os poetas. Anotavam os sonhos. Por fim, venceu o hábito e começaram a carnificina, antes que o inverno os matasse.

Afonso Lima

sexta-feira, março 06, 2015

Terra

Alguém em algum lugar talvez no branco no caminho para um possível vir a ser. Alguém que fala pela sua boca? Nada, desespero. Sufocado era apenas um grito do não dizível, dor, um grito. Por que em condições normais o que é mais próximo senão as imagens doentes vozes fragmentos o pensar se chama e disso vejo que algo aqui agora respira aqui entre eles respira algo permanece. No sonho um grão apodrece. Ele não pode ser reduzido ao seu ato. O que é não aparecência? Ele quer tornar-se. Um possível vir a ser. Mas quem pela sua boca? No sonho um homem apodrece.

Afonso Lima

quinta-feira, março 05, 2015

O silêncio

Ele tinha uma pergunta. Ele venceu as montanhas, desbravou as ilhas, caçou Proteu de mil formas - leão, serpente, água, árvore, espuma, pedra - e o prendeu. Finalmente o deus marinho falou em versos seu oráculo. Mas o outro havia esquecido a pergunta.


Afonso Lima