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quarta-feira, dezembro 23, 2015

Meu irmão brasileiro

Venho por meio dessa dizer solidariedade a quem cava cava cava a dura realidade
De linhagem de viajantes, de parede de letrinhas, vem o marujo das entrelinhas
Ter os pés no chão, ser tão joão em Ipanema, a vida encontrava o poema
E você é um farol em tempos de obscuridade o que é esse Brasil que ninguém sabe
Amar ser herói na terra encantada onde você me fez brincar
Moleque, os pés n´areia branca, as trevas desaparecem quando o sol se levanta
Do tempo do ferro do tempo da esmola vive ainda a moçada da escória
Segue teu caminho amigo irmão que a curiosidade de como onde para quê é a nossa salvação

Afonso Lima


sexta-feira, dezembro 18, 2015

a massa

Mataram um homem.
Não é um homem, é um garoto.
Com 17 anos já se pode portar uma arma.
Ele não tinha nada nas mãos.
Era pobre. Era um pobre perigoso.
Não, era negro. Não, ele não merecia.
Armados, protestam, gás lacrimogêneo.
Por que suas mãos estão levantadas?
Uma massa de negros. Colocaram crianças lá para desviar a atenção.
TV ao vivo, podem falar sobre escolas? Sobre encarceramento? Sobre policiais que ameaçam? Na rua por quatro horas e meia.
Milhares de pessoas saem às ruas, ok, isso é uma democracia. Se não fosse uma democracia, isso tudo seria horrível.

Afonso Lima

domingo, dezembro 06, 2015

Acalme-se

Antes de aplicar o choque é preciso avisar que não vai doer. Mas vai doer.
É preciso dizer que não doeu. Que vai melhorar. Não vai.
Diga aos familiares que ele não morreu. Está desaparecido.
O calabouço com água até os joelhos por seis meses, a cela onde, nu, fará suas necessidades, o que enfiarão em sua boca, o que fará arrebentar seu tímpano, têm uma lógica.
Diga que tudo isso tem um motivo. que vamos trilhar o caminho do progresso.
Diga que os rebeldes são terríveis, temíveis, que as senhoras respeitáveis no shopping - sensatas e contra a violência - e os jovens que defendem Margaret Thatcher para subir na vida devem se assustar.
Diga que a resposta é violência.
Diga que você sabe muito, diga que eles não sabem nada, diga que isto não está previsto no manual para cortes de 1996. Que não reduzimos cultura e educação há anos para fazer monumentos de cimento. E quando você não souber mais a diferença entre as coisas, nós te ofereceremos medo, perguntas e soluções.
Diga que não estamos voltando ao século XIX, diga que não são escravos adiados, diga que a educação vai melhorar.
Diga que não precisamos de ninguém cuidando os lobos, porque lobos são confiáveis e você só precisa conquistar seu espaço. Que existe esperança se você for normal.
Você é vital ao sistema, pague ou deixe-o,
Enquanto você sonhar e você gritar nós diremos: "volte ao seu lugar".

Afonso Jr Lima


quarta-feira, dezembro 02, 2015

Queres

Ela abria a mandíbula e preparava as garras para engolir o duplo que ajoelhara-se ao lado do corpo.
- Eu apelo para tua mãe, Noite.
A deusa surge em meio ao caos e a devastação.
- Quem me chamou?
- Eu sou um pobre pescador. Aqui jaz meu corpo, engolido pela terra que desceu. A cidade desapareceu. O rio encheu-se de ferro. Meu corpo não pode ser enterrado. Por isso, tua filha Queres vai devorar-me e jamais poderei descansar.
- Essa é minha função, ninguém achará o cadáver, não podes ficar eternamente habitando ao seu lado - ela diz.
Nix observa o cenário triste. Era como uma pomba esmagada por uma pedra. Árvores escuras, animais mortos, o cheiro no ar.
Ela arrasta Queres e as duas desaparecem numa nuvem cinzenta.

Afonso Lima