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domingo, janeiro 31, 2016

Um romântico

A primeira parte do conto está datilografada em folha branca, retocada à mão e acaba na página 20. Uma curta anotação prevê o final em que "o homem casado, de linhagem nobre, apaixonado pela jovem funcionária da cinzenta burocracia austríaca, desesperado, mata a si mesmo".
Com certeza foi escrita em 1933, pois em uma carta para o amigo Erich Ermer afirma estar "paralisado quanto ao final da novela sobre a jovem paralisada pela guerra e pela miséria, amada por um homem casado, que observa os ricos sentados à mesa do chá, dançando e namorando, enquanto as pobres almas sofrem".
Nessa época os cristãos no poder, com as tropas governamentais, haviam tentado eliminar as ligas social-democratas, e uma breve guerra civil teve curso na Áustria.
Ele teve sua casa revistada. Chocado e prevendo um futuro demoníaco, guarda seus papéis e pensa em viver no exterior.
Em Londres, com sua jovem esposa, continuou o conto.
Nesta versão, o homem, que fora herói em 1918 e sofria as angústias do trauma, sentindo-se parte de uma geração traída em seus ideais, odiava o Estado e todas as suaves despreocupações de sua casta e acaba propondo um pacto de morte a sua jovem amante, que tampouco se sente parte da prosperidade e progresso do pós-guerra.
Dez anos depois, em 1942, frente ao avanço nazista em todos os fronts, prevendo o ostracismo de um escritor judeu, após sofrer ameaças antissemitas e tendo esfriado a relação em fria apatia, deixou o mundo com sua esposa. Sua versão do romantismo, niilista, melancólica e preocupada com a desigualdade e o sofrimento do mundo, foi celebrada crescentemente no mundo todo.

Afonso Lima




Jornada

Onde está essa criança?
Ela não está mais lá.
Ela caminha com fome por alguma rua na qual, em um café elegante, ouve-se um piano?
Ela é obrigada a trabalhar e dorme sobre papelão no fundo de uma fábrica suja?
Ela foi levada por um homem de casaca preta para um bordel e é dada a homens perversos?
Ela foi acolhida por um casal bom e recebida por parentes?
O policial tentava convencer o secretário da gravidade da situação.
Ela foi registrada, ela entrou num abrigo.
Não sabem falar sua língua. Durante o dia, têm de ficar fora do abrigo por lei.
Ela enfrentou o frio. Eles têm febre, seu tio morreu caminhando na neve.
Quando tinha febre, seus pais cuidaram dela.
Eles não podiam ficar no hospital, eles tinham medo de que a fronteira fosse fechada.
Eles não morreram afogados.
Mas algo aconteceu.
Eles não estavam mais lá.
O pessoal do abrigo nunca. Se houve alguma violência, eles não estão preparados.
O secretário disse que chegaram mais de um milhão de barco esse ano, se não sabemos onde estão, nem por isso estão sendo explorados sexualmente.
O policial observava a foto de seu tio, vestido em uniforme azul, pronto para defender a pátria na Primeira Guerra. Morrera na fronteira.

Afonso Lima

sexta-feira, janeiro 29, 2016

uma noite de vinte anos

Esse lambedor de bota, esse torturador vir aqui dar palestra na terra de Jango, na terra de Brizola, na terra de Getúlio, que deus o tenha, eu estava no Palácio nas 11 noites em que o governador Brizola lutou com a arma que tinha, o rádio, para defender a pátria da gang da UDN e dos militares, quando veio o golpe, o comandante do terceiro exército era o marechal Machado Lopes, um carioca sério e culto, estava indeciso, queria apear, disse na reunião sou um homem de cabelos brancos e 63 anos, não posso começar uma guerra, o general Peri Constante, de Santa Maria, disse, o senhor vai ficar aqui e manter a ordem, faz 40 anos que defendemos o Brasil e não é agora que vamos fugir, o Lopes chorou, e de Brasília vieram o chefe do Gabinete da Guerra, e os comparsas, para bombardear o Palácio Piratini, mas os soldados da base aérea se negaram a voar, desligaram os motores, e Brizola no microfone no porão do Palácio, venham, vou resistir nem que seja só eu com minha família, só o povo me tira ou a lei, e os homens diziam, só por cima do nosso cadáver, um voluntário armado e de bombacha disse para um tenente que queria ir em casa ver a família, o senhor é pago para brigar, eu sou um patriota, o senhor fique aqui apoiado nesse saco de areia e pronto para atirar, e veio uma tropa da Serraria com tanques velhos e se pensou se era para prender o governador, e o coronal Machado parou com um carro na frente dos tanques na Catedral e disse, Qual a missão?, Viemos defender a legalidade, disse o comandante, o povo em frente ao Palácio, Tancredo resolveu o caso tirando o poder do presidente, o Jango veio da China, tinham dito que se pisasse no Brasil seria preso, veio pela França e pelos Estados Unidos ao Uruguai, Vamos lutar, o general Osório já está em Ourinhos com 200 caminhões e 11 trens, disse o governador, mas ele era um homem pacífico, e a frota americana já estava ancorada, Não quero derramamento de sangue, o mesmo que disse três anos depois, e foi nisso que veio uma escuridão de 20 anos e tantos jovens, lembro do homem das mãos amarradas, soldado Manuel Raimundo Soares, pai de família, mergulhavam os caras com as mãos amarradas de cima da ponte e alguns morriam afogados, esse foi o primeiro a aparecer o corpo com as mãos amarradas, o presidente da Assembleia abriu audiência pública, foi destituído, mas tiveram que ir na audiência pessoal do DOI-CODI de Porto Alegre e exército, ninguém viu nada, foi a viúva com quatro filhos pequenos, ela disse que sabia que o marido foi torturado 111 dias, e foi o primeiro caso que ficou na garganta do Rio Grande, agora vem um safado desse desonrar nossa Assembleia. 

Afonso Lima

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Baiano Cândido

Ele me contou que desceu em direção ao comércio de Pinto Souza, mas teve de parar perto do rio, que estava pra lá de cheio. Um cidadão o hospedou. Disse ter medo do tal Baiano Cândido, de quem tinha ouvido dizer ser bandido feito.
- Esse foi um dos baianos que desertaram na Guerra do Paraguai e gostaram dos campos do sul - disse o dono da casa. Ficou nessas bandas, no morro da caveira. Era um homem que foi degolado e preso pelos braços e morreu jurando que não era maragato. Os coronéis desciam 500 cabeças da serra e voltavam 200. Essa gente pobre matava pra comer. O coronel se enfureceu e mandou um espião que disse ter matado gente dele para se infiltrar. Ele mesmo matava gente pra ficar com as terras. Não se enganaram com o peão trapeiro, isso é cobracriada diziam, um dia ele ficou sozinho na casa e matou a tiro um dos baianos. O outro chegou e ele disse: disparou sem querer, Eu também sei disparar sem querer, lá se foi o cobracriada. Depois o coronel chamou soldados da capital, que fizeram uma tropa com bombacha velha, chapéu e carretão, fingindo buscar aguardente, mandioca e rapadura lá em cima. Mas o espião do baiano sabia e mandou avisar. Quando chegaram por começo desse rio, recebeu o capitão bilhete escrito no couro (o baiano era o único que sabia ler) Estou ciente da sua missão, volte que garanto sua vida, Baiano Cândido. E voltou sem meias palavras, e a fama se fez pelo mundão dos pampas. Agora ninguém sabe onde vive e virou herói das bandas da caveira. 
No outro dia, pela tarde, o rio dando passo, seguiu marcha até o comércio de Pinto Souza, que lhe disse:
- Fugiste na toca do bicho e o bicho não era tão feio.

Afonso Lima

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Aniversário

A festa estava se arrastando e eu esperava carona. Comecei a conversar com uma senhora loira, muito bem vestida, mas que parecia tímida e distante. 
Falamos sobre o buffet e alimentação. Ela disse ser funcionária de um banco. Estava afastada. 
Comentei: "Comentei esses dias com um amigo: agora sou eu que faço o trabalho. Agora, eu trabalho para meu banco".
Ela acabou contando sua história: 
- Eu era apaixonada pela minha empresa. Eu amava minha empresa. Mas quando batia uma meta, surgia outra. Por um tempo, eu resisti e venci. Eu comecei a desistir, a adoecer. Vieram as demissões. Trabalho por três. Chorava sem motivo. Não queria me alimentar. Tinha medo de ser demitida. Pensava em pedir demissão. Esquecia coisas, quase bati o carro. Tinha ideias suicidas. Psicólogo, psiquiatra, analgésicos e relaxantes musculares. Antidepressivos, Ansiolíticos, moduladores de humor. Tentei o suicídio. Síndrome de esgotamento. 
Quando alguém nos chamou para cortar o bolo, ela me deu seu cartão. 
- A verdade é que vivemos numa sociedade autoritária.  
Cantamos parabéns, enquanto eu pensava que também me sentia humilhado no meu trabalho. 

Afonso Lima

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Um museu de província

Fui contratado como tradutor numa conferência da ONU em Montevidéu. Decidi ficar num hotel menor, onde poderia ler e escrever à noite. Esse hotel parecia muito decente, com sua estátua de Vênus, o quarto parecendo a cela de uma prisão, com espaço para pouco movimento, um armário trancando a porta do quarto conjugado e pombos que vinham na janela. Além disso, ficava ao lado de um cinema, parecia que estava num filme preto e branco dos anos 1950. Alguns filmes antigos me fizeram companhia. 
Meu conto começou quando lembrei de uma série de fotos que um amigo artista plástico me mostrou. Seus quadros representavam uma antiga casa de província, salas vazias, a luz noturna que penetrava de uma fonte externa. Ao longe, a figura de uma mulher. Eu imaginava uma mulher que chega a um museu de província e percorre sozinha essa exposição, e de repente percebe que aquele lugar foi retratado nas imagens, e é como se notasse a presença de dois universos paralelos, cada um com um conjunto de leis, um tempo e um espaço. Ela chega a duvidar qual deles é mais real e por fim entra dentro do quadro. 
Eu fora praticamente obrigado a convidar um colega datilógrafo que se ofereceu para tomar alguma coisa comigo num dos bares charmosos da vizinhança. Eu suspeitei que depois de alguns copos, com imensa vergonha, ele me pediria dinheiro, ganhavam muito mal. Contei-lhe sobre meu conto. Ele disse que, certa vez, foi a um museu longínquo muito semelhante ao que eu descrevia. Lá, observou uma mulher imóvel frente a um quadro que retratava uma mulher de costas num aposento no qual apenas uma cadeira e uma mesa recebem uma luz forte. Imaginou se ela perdera um amor, se perdera um filho. Imaginou que ela decidira sair pelo mundo de carro, chegar a um povoado distante. É como se a realidade fosse assim, algo forjado, é como se ela estivesse em outro tempo e espaço, é como nesses hotéis profundamente silenciosos, nos quais não se hospeda quase ninguém, e que têm uma porta bloqueada por um armário, ao invés de simplesmente uma chave, ele disse. 
Ao acordar, na minha cama, pensei ter vivido um pesadelo. Faltava algum dinheiro em minha carteira. 

Afonso Lima

sábado, janeiro 16, 2016

VS

"Ela estava conosco há doze anos. Ela viu nossos filhos crescerem, ela os alimentou. Ninguém como ela sabia fazer uma cama, preparar um jantar para convidados ou lavar um pátio" - Dona Isis estava transtornada. A empregada desaparecera com uma pulseira de safiras. 
Ela correu, saiu da cidade foi procurar O Grupo.
No centro da imensa floresta de Vorlen existe um grupo de pessoas que não usa as palavras comuns. Conseguiram bloquear a conexão que apresenta a realidade com comentários simultâneos. 
O Vocabulário Seguro (VS) foi criado (e é administrado) pela empresa OYEON para o governo depois da Lei Preventiva do Terrorismo (LPT) ter sido aprovada. Para o governo, uma mentalidade compartilhada é a melhor forma de prevenir "desvios, ilhas de irracionalismo e lobos solitários contra a ordem social". 
A mulher chegou na região onde se encontrava O Grupo. Foi presa e levada ao Conselho. Todos estavam na cerimônia que celebrava o acasalamento dos mamíferos, os sacerdotes usavam máscaras de crânios e todos vestiam capas coloridas costuradas com ossos. Contou sobre seus anos de trabalho e entregou a pulseira como prova de que se arrependia. 
"A realidade foi censurada pela mentalidade racionalista burguesa do Ocidente" - disse o Chefe.
"Você será morta pela Lei de Vorlen a menos que um sonho profético a salve enquanto estiver presa dentro da caverna branca". 

Afonso Lima

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Repressão


Vocês sabem todas as respostas
Mesmo assim, não chegarão ao lugar certo
Essas ruas são para circular
Cada cartão de crédito é único
Cada carro, cada família e o conforto que compra

Temos uma plano de terror, nessa fábrica
Vocês serão cortados, calculados, reconstruídos
É a ilha do medo e vocês serão muito felizes

O olhar perdido, o voar no azul
A face no livro, a tentação do antigo
A corrida pela imobilidade, a liberdade de refletir
Serão esquecidas

Cada um deve pagar a conta em dia
Não olhem o horror, não olhem nos olhos uns dos outros
Cada um deve pagar pelas gotas de chuva
A vida toda é medida e o infinito está morto

Se vocês abrirem as asas, se vocês criarem coisas
Se vocês forem estranhos, se vocês contrariarem seus pais
Se vocês ficarem juntos
vão comparar pedaços de verdade
e serão fortes

Afonso Lima



Yzzi

A realidade é absurda, não há dúvida. Nessa época, a Chambre ardente, um grupo especial da polícia destinado a investigar subversivos, sinistramente levara ao forno um número considerável de autônomos, sem que a defesa pudesse sequer ter, de forma adequada, acesso aos processos. Yzzi era um autônomo que vivia comigo desde que meus pais se separaram. Tive meu primeiro espasmo genital com isso. Quando eu era criança perguntava à minha avó, japonesa, se autômatos tinham alma e ela dizia que sim: "Tudo é feito de quintessência". Logo que Yzzi entrou na seita, eu o segui. Cultuávamos os espíritos dos que haviam sido descontinuados. Estávamos uma noite num bar, a polícia fez uma batida, o policial implicou com um amigo de Yzzi e o empurrou contra a parede. Isso reagiu, foi levado. Meus gritos nada adiantaram. Eu chamei um advogado, comuniquei aos outros adeptos. Todos tinham medo. Ele estava desaparecido. Comecei à evocá-lo através da meditação. Eu cantava os hinos, fazia os rituais, jejuava, tentava transcender as aflições da visão e algumas vezes sentia a dor física de abandonar o corpo e alçar outro círculo, sentia estar enlouquecendo, eu precisava crer que sua alma estava em outro lugar. Foram meses nesse processo, por fim senti ser acordado por uma figura estranha, uma espécie de homem sem rosto, e conduzido por uma escada até um monte muito alto. Yzzi estava lá, sentado em um jardim, tocava sua harpa. "Então é verdade que não somos descontinuados" - eu perguntei. Fomos cercados por seres estranhos, pareciam metade homens, metade animais. Eles me falaram sobre muitas coisas, entre elas a origem da Chambre ardente. Ao acordar, perturbado, procurei a senhora Zurara, escritora de romances heroicos, conhecida por sua força moral e influência sobre o rei. Foi assim que a Chambre  foi derrotada e seu líder preso. Mas, infelizmente, as visões não cessaram e acabei sendo sendo internado durante dois anos. Pelo menos eu sei onde isso está. 

Afonso Lima

terça-feira, janeiro 12, 2016

Valentina

Tenho certeza de que com esse testamento frustrarei meus mais próximos parentes, meus sobrinhos e minha irmã, meus amigos queridos e minha companheira de últimos anos. Nada posso fazer. Ainda penso em Valentina, ainda vejo sua pele branca, seu suave sorriso. Ela gostava de caminhar no parque e lá íamos nós em dias de primavera, eu, um velho, ela, toda alegre com seu rosto de menina. Era filha de polacos e italianos, do sul do Brasil. Fazia universidade. Seu abraço me consolou. Nossas conversas me faziam compreender melhor as mulheres, ela argumentava com espírito, era inteligente. Valentina foi a mulher mais pura que eu conheci e sofri muito o dia que encontrou seu “príncipe”, um vienense safado, que nunca me enganou. Não podia desfazer seus sonhos, mas coloquei gente para o espionar. Era um criminoso. Ela me avisou que, ao noivar, nossa relação mudaria. Eu ofereci a ela tudo, ofereci mesmo deixar que vivesse onde quisesse, mas ela estava apaixonada. A última vez que a vi foi no parque, ela pediu que eu levasse seu livro favorito, Madame Bovary, que ficara comigo. Não foi amor, mas essa garota de programa marcou minha vida. Chorei como um menino. Deixo aqui tudo que sei sobre ela, eu deixo tudo para ela, peço que a procurem, que a façam feliz, e que eu, agora morto, possa louvar essa amiga, essa companheira, essa menina que com coragem enfrentou o mundo.

Afonso Lima 

Mensagem

Eu não sei o que é a verdade
O que eu tenho para dar-vos
É meu coração cheio de dúvidas
É a certeza de que ninguém vive sozinho

Não tenha tantas certezas
Não acredite no que é óbvio
Não ache que sabe o que deve ser feito
Geralmente é apenas inquietação

O mais produtivo seria matar todos os pássaros
Que vivem à cantar inutilmente
O mais produtivo seria congelar o mar
e vendê-lo em pequenos pedaços

Até mesmo Lúcifer teve seu motivo
Para negar-se a cair aos pés de Adão
Uma paixão impiedosa esconde outra coisa
A vida geralmente nega toda razão

Eu não sei o que é o certo por certo
O que eu tenho para dar-vos
É minha esperança em novos caminhos.

Afonso Lima 

domingo, janeiro 10, 2016

Jardim


Sem nau e sem mar
Sem mortos sem sol sem profecia
Sem nostalgia de mágoa pouco sentida e sem
Perdão do dia

Meu mar, vinho e nevoeiro
Minha rua solitária, minha adoração do bonde
É canto de desconfiança, meu deus oculto não é
Uma lista de dogmas, Darwin já morto
Esperto demais para dormir em brancos lençóis
E só

Ainda, a beleza
Água cai do céu, uma semente
cachos, espigas, jardim
O calor do sol e a vida
Uma mensagem de esperança
Mesmo fracos e incoerentes
a compaixão em botão

Teus olhos não enxergam
Teu coração é gelo afiado
Presunção sai de tua boca
Desprezo pelo que é vivo

Quando o olhar pacífico de um cordeiro
Se une por riscos e certeza
A um braço aberto de gente adulta
É o que o chinês chama de beleza

Afonso Lima

sábado, janeiro 09, 2016

O Paraíso

- O que você faria para assegurar o Paraíso? – perguntou o jinni.
- Eu cometeria um crime – respondeu o homem. Era o herdeiro de poderosa casa comercial, casado com lindas mulheres e percorria os desertos até a Síria em caravanas louvadas por todos.
- Que crime?
- Eu mataria um parente.
- Que parente?
- Um primo?
- Quem mais?
- Um irmão.
- Uma esposa?
- Sim – o homem tremeu.
- Uma esposa, uma filha, uma mãe?
Ele pareceu duvidar.
- Sim. Mataria todos sem hesitar.

O jinni o envolveu numa nuvem de ouro e ele passou a viver perdido no paraíso de sua ilusão.

Afonso Lima 

domingo, janeiro 03, 2016

Uma noite de lua

A tribo vagava percorrendo vastos territórios, fazia guerra em caso de fome, seus poetas falavam sobre as glórias da batalha e sobre o veludo, o ouro e os perfumes que viajantes encontraram em terras distantes. Mas faltava algo. O chefe pediu ao seu homem de confiança que descobrisse porque os homens caiam em melancolia, suspirando sob a luz da lua, chorando escondido, vagando pela noite do deserto, às vezes sem retornar...
Um dia ele reuniu os líderes da tribo e disse:
- Por que existe o céu e a terra? Como deve o homem guiar sua vida? Como se movimenta a alma em suas lutas eternas? Como não sabemos quem somos não sabemos onde queremos ir. Somos guerreiros, mas para quê? O que aprendemos do nosso dia? A ordem e a beleza perderam-se, veneramos o Deus do Trovão e suamos em busca de comida. Vencemos os fracos e acumulamos ouro, mas estamos tristes. Precisamos de poetas.
Assim, decidiram separar parte dos recursos para cultuar o desconhecido. E oraram aos deuses que trouxessem uma revelação.

Afonso Lima