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segunda-feira, outubro 31, 2016

K. e Y.

A imprensa teve o cuidado da chamá-las apenas de K. e Y. por se tratarem de adolescentes. Uma delas está em estado de paralisia e outra está morta. As duas jovens japonesas compraram o pacote para participar de uma Noite dos Mortos em um castelo em ruínas na Escócia. 
K. e Y. nunca foram alvo de bullying na escola, nunca relataram pressão dos pais no sentido de escolher carreiras ou melhorar o rendimento, não demonstravam excessivo receio em demonstrar emoção, nem zelo desmesurado em mostrar-se competente, nunca apresentaram isolamento ou mesmo sonolência nas aulas. O único fato estranho seria a fixação delas em comerem o lanche da escola dentro do banheiro. 
A viagem era uma espécie de acampamento de Halloween, no qual iriam ouvir histórias macabras, ver vultos fabricados e tomar sustos de aparições bizarras. Um gerente, uma turismóloga e um assistente eram os encarregados da organização do castelo, contando com cozinheiros, um operador, um técnico (invisíveis), dois atores e três músicos (mais próximos dos clientes). 
Segundo foi apurado pela polícia, na sexta-feira chegaram vindas de Londres com mais 30 garotas. Passearam pelos arredores do castelo sendo levadas por um ator vestido com as roupas tradicionais. 
Ao anoitecer, por volta das 16 horas, acendeu-se a grande fogueira e todos ouviram a primeira história. 
Era sobre o terremoto que ocorreu na cidade de Alepo depois da conquista bizantina. Mais da metade da população morreu e dizem que suas almas ficaram vagando entre as ruínas, tendo sido feitos rituais antigos para afastá-los. 
Tiveram o banquete com carne, frango, pernil, saladas e uma sopa forte, que algumas meninas relataram ter um gosto estranho. Ouviram velhas canções que narravam terrores de castelos. Caminharam por corredores escuros nos quais sombras pareciam gelar o ar. Duas ou três vezes gritaram por verem seres sobrenaturais surgirem do nada. 
Depois do jantar foi-lhes contada a história do dono do castelo, um juiz que ganhou título de nobreza depois de uma batalha sangrenta contra os ingleses. Ele sempre foi um homem rude, que debatia ferozmente questões teológicas e chegava a rezar em voz alta no meio de reuniões públicas. Com a idade, passou a ter alucinações e acabou restrito a um quarto do castelo, sendo cuidado pelo filho. Mas o filho casou, sua esposa engravidou, e ele decidiu ir viajar pelo continente para a mulher dar à luz em ambiente mais saudável. Dizem que seu fantasma nunca perdoou o filho por ter morrido sem sua presença. 
Nessa noite, muitas histórias foram contadas em frente a grande lareira do castelo, histórias de todas as partes do mundo. 
Uma delas dizia respeito a uma cidade de fronteira, que havia sido fundada pelos romanos, na qual os habitantes não celebravam a lemúria, festival dos mortos criado pelo fundador de Roma para apaziguar o espírito de seu irmão, que havia assassinado. Séculos depois, mulheres da cidade começaram a apresentar uma espécie de dança, na qual faziam gestos involuntários; as autoridades, assustadas, não sabiam como agir e pensaram que deviam incentivar o fenômeno com música, até que seis dias depois centenas de pessoas haviam morrido de exaustão. 
Foi servido um lanche da madrugada com carne fria e um chá forte. (Os organizadores dizem ter proibido qualquer tipo de bebida alcoólica, mas foram encontradas latinhas de cerveja nos quartos). 
Algumas meninas começavam a dormir pelos tapetes e divãs, mas a noite continuou animada. 
Uma das últimas histórias foi sobre os seres inumanos que, nas lendas orientais, vagueiam pelos campos e vivem em escombros, matando viajantes desavisados cuja carne comem, ou, na sua ausência, visitam cemitérios para alimentar-se da carne dos mortos, que desenterram. 
K. e Y.  pareciam muito contentes com toda a festa. Foram dormir no quarto com mais duas garotas quando o sol nasceu. 
Infelizmente, quando todos se preparavam para o café da manhã, lá pelas 10 horas, as colegas perceberam que não estavam entre elas. Começaram as buscas. K. foi encontrada vagando perto do rio em estado alterado, cantava um música. 
Depois caiu num estado terrível em que mal se podia mover e nenhum som saía de sua boca. 
O corpo da outra jovem foi encontrado no rio gelado. 
Ficou-se sabendo das cartas que K. e Y. trocavam. Nelas, juravam fidelidade uma a outra e Y. conta de um sonho que tem recorrentemente sobre um ser que aparece ao seu lado na cama. E também sobre ter tido quando criança uma série de visões, que fizeram com que seus pais a levassem a psiquiatras. Os pais não confirmaram a informação e não foi encontrado o suposto psiquiatra.  
A polícia ainda não chegou a uma hipótese conclusiva. 


Afonso Lima 



Viagem à Abyssínia

Ele foi levado à presença da rainha para receber sua bênção. Seu pai, livreiro de Campo dos Mortos, acreditava que o toque da mulher poderia curá-lo da tuberculose.
- Esse menino tem dons especiais, minha Senhora. Dizem que ele consegue saber o que vai nas mentes.
Ela riu. Pediu que aproximassem a criança de seu ouvido. A corte ria e sussurrava palavras como "deformado", "feio" e "grotesco".
A rainha levantou-se.
- Torne-se um verdadeiro inglês - ela lhe disse, colocou uma moeda em sua mão e saiu.
O pai lhe deixava folhear os livros. Em muitos deles, apareciam palavras inglesas entre linhas latinas. "É quando não se sabe a palavra", disse o pai.
Ele adorava um livro sobre a África, com desenhos de caravanas no deserto e bruxas maometanas.
Ele passou a cobrir-se com panos coloridos e afiar ramos de árvores como espadas.
Mas tiveram de se mudar porque a notícia dos dons do menino se espalhava. Muitos podiam temer ser um dom dos demônios, até mesmo ser ele filho de um deles. Chegaram anônimos a Londres, onde o pai morreu subitamente. A mãe tentou sustentá-los por dois anos, até que também adoeceu. Nesse tempo um nobre lhe concedeu uma bolsa para a Universidade, mas o rapaz desistiu quando viu que riam dele.
O padre o aconselhou enquanto trabalhava num jornal para ajudar a mãe. Ficou sabendo da sua fama enquanto menino.
- Está bem um menino ler mentes. Agora, prepare-se para estar na mente dos outros homens, o que só um livro pode fazer.
O padre defendia as virtudes das igrejas anteriores a 1066, de origem saxã, "pedra quadrada e escura ao lado do bosque".
- Precisamos nos defender contra as palavras francesas - ele dizia - No teatro, por exemplo, eles pensam seguir Aristóteles, querem que a ação ocorra toda num mesmo dia e num mesmo local, mas a poesia é abstração, universalidade.
Apesar do anonimato, homens célebres vêm a ele para lhe pedir conselho. Um deles, um jesuíta português, deixa consigo seu livro de viagens. Traduz o livro e imagina uma fábula que se chamaria "Viagem à Abyssínia".
Começou assim: "O fantasma de uma rosa fica em nossa mente como imagem, assim como uma pirâmide fica enterrada no deserto como monumento à vaidade de um Império". Assim que sua mãe faleceu, ele escreveu - em uma semana - a pequena novela para pagar o enterro.

Afonso Lima


domingo, outubro 30, 2016

A casa da praia

Chegamos com nosso Dodge vermelho na cabana de madeira bem próxima do mar. Os colegas de banco de mamãe tinham virado padrinhos do meu irmão - e queriam ver minha mãe grávida da minha irmãzinha.
Seu Juarez era um grande contador de histórias. Sua esposa, Isadora, fizera uma lasanha. Eu dormi antes de todos. 
Levantei da minha cama e vi a lua cheia. Parecia que a água estava mais próxima da casa. Caminhei até a varanda da casa e a água a envolvia. O que estava acontecendo?
Sacudi meu pai, que não acordou. Minha mãe também não. 
Fiquei na porta observando o mar subir. 
Acho que adormeci. Sonhei com prédios que pareciam estar em outra dimensão, coloridos. Eu voava entre eles. Alguém me acordou. Era um vulto que parecia ter saído da água. Dei um grito. 
O vulto me mostrou um barco, no qual estava o cadáver do Seu Juarez. Eu fiquei perplexo. 
- O que aconteceu? 
Não obtive resposta. Fomos navegando em direção a uma sombra que se revelou uma ilha. 
Na praia, diversos esqueletos e um som fazia zumbir a noite - só depois percebi que o som vinha desses ossos. Pareciam cantar músicas tristes. 
Meu amigo silencioso foi me guiando pela mão para dentro de uma casa de pedra no alto. A lua iluminava as rosas que cresciam no muro. 
- Você está vendo que isso não é um sonho. É o lugar para onde vão os que desaparecem - disse por fim meu amigo. 
A casa era coberta de quadros, espelhos e estátuas de mármore. Eu entrei na biblioteca. Livros escritos em diversas línguas. Pintados em folhas escuras, um animal semelhante ao leopardo, um peixe monstruoso e uma ave de fogo. Um soneto chamado "A Casa"- "Nessa casa ninguém te responde / e todos dormem para sempre". Depois, percebi um desenho no qual aparecia um menino como eu mesmo - e tentei observar seus caminhos complexos. 
De repente, um grito - é minha mãe chamando por mim. Observo no espelho ela tentando me acordar. Tento ir em sua direção e meu amigo estranho me segura. 
Consigo me soltar. 
Minha mãe me abraça. Faz meu pai partir antes do sol nascer totalmente.
Nunca mais voltamos à casa dos nossos amigos, e Seu Juarez faleceu dias depois. 

Afonso Lima





O caso dos corpos sem nome

Os corpos apareciam boiando no rio, mas desfigurados. Como não se tinha notícias de desaparecidos, Oto, jovem universitário, decidiu investigar o caso. Havia lido inúmeros livros em que um detetive amador conseguia intuir os passos de criminosos.
Oto foi falar com o padre da sua paróquia. Ele era um estudioso de ocultismo. 
Agora o padre dizia que tinha certeza de que os mortos eram da parte invisível da cidade. 
"Você já reparou que não existem favelas nessa cidade? Quando as pessoas ocupam um terreno e começam a erguer casas miseráveis, logo o governo cria um parque e expulsa as pessoas para outra cidade. Tenho certeza de que alguma pesquisa científica está usando essas pessoas sem rosto como cobaias". 
Procurou o médico legista da cidade. O homem não era nada simpático, mas ele insistiu e pediu que contasse qualquer coisa estranha. Finalmente ele revelou duas coisas: os corpos pareciam ter marcas de violência e um deles pareceu ter um movimento vibratório na língua e na mão. 
Lembrou o que o padre dizia, que as execuções públicas tinham criado um gosto pelo grotesco entre os moradores da cidade. "A insensibilidade virou uma regra; vi um menino brincando com um corpo putrefato que foi deixado em exposição na praça" - contara certa vez. 
Oto resolveu ficar à noite próximo à cabeceira do rio. Era o lugar mais acessível para qualquer ato desses. Escondido entre as árvores, observava a lua e os sons estranhos dos animais. Não tinha sono. Mas também não tinha medo. 
De fato, viu na terceira noite um homem vestido com um sobretudo negro se aproximar de carro e puxar do porta malas um vulto dentro de um saco. Tentou ver com mais precisão, por sorte a noite tinha uma lua cheia. 
Teve a impressão de que o saco se mexia. Ele sentiu um frio na espinha. 
No outro dia, um tanto cansado, foi procurar o padre. O homem serviu-lhe um vinho e disse sussurrando: 
- Eu não tinha imaginado isso. Você sabe que estudo essas coisas há muito tempo. Os chineses já falavam sobre isso. Os egípcios aprenderam dos indianos as mesmas técnicas. Mas foi no século XVIII, na Alemanha, que um sábio começou a criar a teoria. Ele estudou em Newton o conceito de gravidade universal e postulou a presença de uma energia universal. Ele ficou famoso por curar dores com um ímã. Segundo o cientista, seria possível transformar a energia invisível do éter em força magnética e esta em força orgânica. Já há tempos alguns homens se perguntam qual o limite da morte se um corpo puder ser mantido vivo através do frio ou uma energia qualquer. Alguém voltou a estudar  do magnetismo animal. 
Oto partiu com uma sensação estranha que não sabia definir. Por que afinal ele queria saber sobre coisas tão sombrias? Acabou adormecendo em sua cama sobre um livro. Sonhou que os condenados mutilados eram levados a um laboratório macabro e mantidos animados por algumas horas, para depois serem devolvidos ao silêncio no rio. 

Afonso Lima





quinta-feira, outubro 27, 2016

Uma zona morta

A Associação em Defesa da Cidade foi informada por uma enfermeira anônima. 
Milhares de pessoas em diversos hospitais do estado. "Nós suspeitamos que é algo na alimentação. Todas têm níveis altos de elementos pesados".
"O que pode ter causado isso?"
Desligou. 
Beatriz, a advogada diretora da ADC, pensou em primeiro lugar na sua filha. A menina sempre dizia não gostar do gosto da água da torneira. 
Ela foi procurar um amigo jornalista. "Existe alguma coisa na água, mas não podemos divulgar. Envolve o governo". 
"Foi um erro?"
"Não exatamente. A regulação é feita por um agência que pertence ao maior acionista: o governo. 
Ninguém regula essa porra." 
"Você quer dizer que..."
"O excesso de terceirizações. R$ 4,2 bilhões em dividendos depois da privatização. Nada investido na qualidade". 
"Você está me dizendo que temos um escândalo de saúde pública? E a imprensa esconde". 
"A água é um produto. Tem de dar lucro".
Beatriz achou que estava sendo seguida. 
Foi procurar um engenheiro, professor universitário, especialista no tema.
"É um monopólio certo? O estado pagou para melhorar o desperdício. Não melhorou. Onde foi esse dinheiro? "
Ele a levou até um laboratório. Mostrou uma amostra. 
"Tão tóxico que não posso dar para um rato". 
"Então a água é tóxica e milhares já morreram?"
"Me pergunte quem são os afetados. Todos são de zonas periféricas. O presidente da agência disse, numa reunião em presença de jornalistas, que seria uma boa maneira de acabar com consumidores que consomem pouco - claro que isso nunca vazou. Os técnicos sabiam há mais de dez anos que se o nível de água chegasse nessa zona morta o envenenamento era muito possível". 
"O senhor está falando que isso nunca vai vir a público?"
"Para essa lógica, esse público é um gasto. São os perdedores. Os acionistas querem dividendos. Quem tem gasto superior a 500 mil metros cúbicos paga tarifa reduzida e tem abastecimento priorizado". 

Beatriz se sentia tonta ao sair da universidade. Entrou no carro e recebeu uma mensagem no celular: "Sua filha está conosco. Saia da cidade".

Afonso Lima


quarta-feira, outubro 26, 2016

O desconhecido

Ele havia publicado alguns contos numa revista popular.
O padre, um leitor, havia chamado o jovem rapaz para ir na casa que os moradores diziam estar dominada por estranhos fenômenos. O clima frio e o céu cinzento não ajudavam.
O rapaz parecia ter vivido toda sua adolescência dentro de uma biblioteca e do laboratório de seu avô, um industrial curioso e erudito.
Logo depois da morte do avô, sua mãe tendo ido parar num manicômio, casou e viveu dois anos com a esposa até que ela decidiu morar com a família. Ele praticamente não saiu de casa durante muitos anos.
Quando chegou na casa, a jovem esposa contou sobre lustres que balançavam sem vento, sobre sombras que passavam pelos corredores e como ela vomitou sangue logo na primeira noite. O padre estava preocupado com as crianças - cada dia mais doentias e chorosas - e pedia que deixassem a casa. Ficou um pouco com eles e saiu antes de anoitecer.
O marido parecia cético.
- Precisávamos de mais espaço e nunca vamos achar uma casa dessas por melhor preço. tem até jardim para as crianças brincarem. Mas minha mulher está perturbada.
A mulher pediu que ele dormisse uma noite na casa.
- Estou a ponto de desistir da compra. Sabíamos do que aconteceu aqui, mas sinto-me oprimida e a ponto de perder a razão.
O marido mostrou uma revista na qual havia um conto seu sobre um monstro de outro planeta.
- Sonhei com um desenho japonês de um polvo sobre uma mulher. Viraram criaturas nunca vistas, seres que se adaptam ao meio.

Jantaram. Na frente da lareira, o marido estendeu o chá.
- Minha mulher parece mais calma só de ver o senhor aqui. É como se o universo tivesse um centro, afinal.
- Não creio.
- Como?
- Acho que o universo é absurdo, perigoso e cruel.
- O senhor não acredita em Deus?
- Eu sou um forasteiro.
- Apesar de ter sangue aristocrático... Ouvi dizer que o senhor tem sangue inglês.
- Sim. Acho que a América começou sua decadência quando deixamos o Trono Inglês. Eu costumo pesquisar a genealogia. Sou um conservador. Eu tenho tido muitos problemas.
- Problemas?
- Desde que vim para Nova Iorque. Tanta promiscuidade e ignorância.
- Entendo. São muitos imigrantes - ele ofereceu um conhaque.
- O barulho. Blasfêmias. Sujeira, cheiros terríveis. A cidade contaminada. Superstição.
- São invasores. Sombras. Ratos - disse o homem olhando o fogo.
- A lei e a ordem perturbadas. A tendência pior da humanidade. A sub-raça russa. A sub-raça asiática. São mutações. Nenhuma sociedade poderá ser estável sem homogeneidade.
Ouve-se um grito da cozinha.

Afonso Lima




sexta-feira, outubro 21, 2016

Voz

Minha voz será ouvida
Queira o juiz ou não

Você fala em liberdade
E é a voz da opressão

Eu canto a liberdade verdadeira
As vozes todas unidas

Irmão caído no chão
Vivendo de migalhas

Da floresta antiga união primeira
Nossa voz será ouvida

Irmão sem escola para abrir o coração
Irmão no morro por um teto

O bem do todo, renovar os valores
Nem só de lucro vive a terra

Abra espaço
A voz precisa de tempo

"Ele não está respirando"
O policial no viaduto toca com luva o homem caído

Eu canto a liberdade verdadeira
Pelo muro, o sistema do egoísmo
Eu canto a liberdade de fazer parte
Num sistema de amor coletivo

Um dia, seremos quem define a vida
Nossa voz será ouvida


Afonso Lima



quinta-feira, outubro 20, 2016

Brasil aos pedaços

"Afinal, há uma vasta sequência de fatos – todos comprovados --- que mostram que o citado agente público praticou violações claras às garantias fundamentais de Lula, como, por exemplo, ao privá-lo de sua liberdade por meio de uma condução coercitiva sem previsão legal, ao divulgar suas conversas interceptadas para alcançar fins estranhos ao processo, ao grampear 25 advogados do nosso escritório para monitorar a defesa do ex-Presidente, ao fazer 12 acusações contra nosso cliente em documento dirigido ao STF, ao participar de eventos com políticos e pré-candidatos do PSDB e de outros partidos que antagonizam Lula e, ainda, ao participar de eventos da própria Globo, que sabidamente não aprecia Lula."

-- 
"Eles precisavam de um fato de 2015 para abrir um processo de impeachment contra a presidenta Dilma. Eles não tinham nem fatos nem maioria para isso. No entanto, as investigações da Operação Lava Jato acabaram atingindo lideranças do PMDB, entre elas Eduardo Cunha, que controlava cerca de 100 deputados. Ele era um verdadeiro partido na Câmara.

Quando ocorreu uma operação de busca e apreensão contra Cunha, ele veio a público dizer que estava rompendo com o governo. Quando foram descobertas as contas dele no exterior, Cunha disse que havia uma conspiração coordenada pelo governo e ameaçou abrir um processo de impeachment, caso o PT votasse a favor de sua cassação". (Ex-Ministro Cardoso)


Ministro Barroso (STF) concedeu indulto ao ex-ministro José Dirceu (70 anos) na A.P. 470 - Na Lava Jato, condenado a 23 anos e três meses de prisão. O ex-goleiro Bruno cumpre 22 anos pela morte da ex-namorada Eliza Samudio.

- Para ele, a aplicação desta teoria pelo STF cria uma “insegurança jurídica monumental”. "A televisão põe o Supremo na berlinda”, defendeu.
Por fim, questionado sobre a atuação do ministro Ricardo Lewandowski, Gandra afirmou que o ele foi “sacrificado” porque se ateve as normas jurídicas durante o julgamento.


Direito do Inimigo. Um país que só tem um bloco de mídia.


2 de fev de 2015
- PSDB-BA

"Eleição de Cunha em primeiro turno é dura derrota para Palácio do Planalto, avaliam tucanos - Deputados do PSDB destacaram, na noite deste domingo (1º), a derrota acachapante do PT, do governo federal e da presidente Dilma Rousseff na disputa para a Presidência da Câmara, vencida em primeiro turno pelo peemedebista Eduardo Cunha (RJ), que arrebatou 267 votos. O candidato do Palácio do Planalto, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), obteve somente 136 votos."

Brazilian politician who led Rousseff impeachment is expelled from office

Brazil’s political bloodletting claimed another high-profile victim on Monday when the lower house voted to expel its former speaker Eduardo Cunha for perjury, corruption and obstruction of justice.



Temer tira a grande imprensa do vermelho

Contudo, o governo de Michel Temer retoma uma velha prática comum às administrações de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando a regra era dar muito a poucos, reproduzindo uma antiga característica que marca a desigualdade em nossa sociedade. Ao deixar a presidência da república, Fernando Henrique chefiava um governo que pagava cerca de R$ 2,3 bilhões ao ano a 499 veículos de mídia (redes de TV e rádio, jornais, revistas e outros). Com esse número de empresas, as verbas publicitárias se concentravam bastante nos cofres da Globo e da Abril.
A partir de 2003, quando Lula assumiu o comando do governo federal, houve uma maior partilha das verbas usadas para as propagandas, sem que houvesse aumento significativo do total investido.
http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/temer-tira-grande-imprensa-do-vermelho/



Escândalo da Telerj na Folha dos anos 90
- O que cresceu foram as bancadas sem compromissos partidários, que votam e formam blocos de acordo com os interesses próprios de cada um, ou do setor econômico que representam. A governabilidade passa a ser executada no varejo, com articulações para montar maiorias temporárias no Congresso a cada votação importante. Eduardo Cunha é especialista na articulação política de varejo, daí tantos deputados se sentirem confortáveis com sua liderança
- Cunha teve apoio publicamente declarado de seu partido, o PMDB, e de outras 13 legendas, sendo duas de oposição, o DEM e o SD. A soma dessas bancadas daria 218 votos. Cunha teve mais, atingindo 267 votos. Quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou a primeira denúncia contra Cunha, em fins de julho, o presidente da Câmara declarou-se oficialmente na oposição à presidenta Dilma e foi recebido de braços abertos pelos oposicionistas, mesmo diante da gravidade da denúncia. (Helena Sthephanowitz)




O descaso do governador Beto Richa (PSDB)  com a Educação instalou um cenário caótico no Paraná. A greve dos professores, deflagrada nesta segunda-feira (17), junto ao movimento de ocupação dos estudantes mantêm em torno de 700 escolas públicas fechadas.

segunda-feira, outubro 17, 2016

Haymarket e outros

Chicago - 4 de maio de 1886. Marcha por jornada de oito horas.

Congelamento dos salários e intervenções em 342 sindicatos, 43 federações e três confederações de trabalhadores.

Os policiais em posição. Explosão.

Sindicatos rurais criados nos anos 1960 são fechados.

Um morto e sete feridos.

150 greves em 1963; em 1965, 25.


Fogo contra a multidão.

Passeata dos 100 mil no Rio.

Quatro enforcados um suicídio, três prisões perpétuas revogadas quando o governador julgou todos inocentes.

Três dias da greve, a partir de 16 de junho. Sindicato sofre intervenção governamental. Quatrocentos trabalhadores são presos.

"Um dia nosso silêncio será mais forte que as vozes que hoje vocês estrangulam".

Afonso Lima

quinta-feira, outubro 13, 2016

O passeio à Hathersage

Você me pergunta por que preferi publicar meu livro sob um pseudônimo masculino. Não seria difícil perceber que nós, mulheres, somos, em geral, vistas como incapazes de articular um discurso útil, sendo nossos corpos a desculpa para julgamentos pessoais quando esses discursos chegam à público. 
Nossas vidas comprovam isso. As histórias das quais parti, tecidas pelas forças da tradição e do destino, também. 
Uma delas é a história - eu presenciei esses fatos quando mocinha - de uma uma jovem criada casada com um belo taberneio  Eles tiveram um filho, mas logo depois ela descobriu que ele, na verdade, já era casado. Isso podia arruinar a vida de uma mulher. Sua justificativa era de que a verdadeira esposa era louca e ele não suportaria viver sozinho. Ela mesma ficou muito perturbada, tendo sido levada pelos parentes para a cidade onde eu nasci. 
Outra história eu ouvi quando fui visitar minha amiga Ellen, em 1845, no casamento de seu irmão. Ele havia me pedido em noivado anos antes e eu não aceitara, como você sabe. Na região que fomos conhecer, uma sombria mansão guardava um trágico acidente. Uma mulher dada como mentalmente desequilibrada vivia confinada em um dos quartos da casa. Desgraçadamente, foi vítima de um incêndio. 
Eu e minhas irmãs usamos pseudônimos masculinos porque o que importa é a obra. 
Eu me pergunto, foi tudo a vontade do destino ou poderia ter sido diferente? Em espírito não somos iguais? 
Escrevi meu livro num quarto escuro, enquanto cuidava de meu pai, convalescente. 
Tive uma febre misteriosa logo antes de concluí-lo. 
Minha irmã brincou comigo que era o meu espírito cristão censurando-me por revelar a verdade.

Afonso Lima



domingo, outubro 09, 2016

uma crônica do mar

o poetinha:
o luar e o mar - eu passo pela janela
deito na areia fofa e sinto as ondas
ao longe a casa, a ilha era amiga
um peixe saltando, eu menino

nas galáxias eu via desenhos mil
as águas nos meus pés
e eu junto a esse vento que me dormia
e não como bicho sem profundo

depois a aurora dourada me despertava
o céu ficava manchado de rosas e uma estrela resistia
eu sentia o rosto tocado pela fria chegada
pulava a janela e no leito sonhava

Afonso Lima

sábado, outubro 08, 2016

o preço do progresso

- você disse 20 por orelha.
- você entendeu mal.
- por 10 eu nem gastava minha pistola.
- dou 12 por orelha.
- olha, se depois sua plantação não crescer. tem mais empresário lá no oeste.
- 13 por orelha e não se fala mais nisso.
- esses barões. mato 100 índios por semana e querem que eu passe fome.


Afonso Lima

domingo, outubro 02, 2016

Crônica do inconsciente de classe

Por acaso, estou na casa de um casal muito bem estabelecido, herdeiros. Estamos na biblioteca da casa, prometeram me dar alguns livros. Comento sobre um livro de que gosto (ou seja, pareço inteligente, falo coisas "difíceis"). Imediatamente, a jovem fala sobre as maravilhas do bairro em que mora, que está fazendo pós-graduação. Só depois percebi que não estávamos falando de livros, mas de um lugar que eu devia ocupar. 

Comento com outra pessoa achar estranho um comportamento de um amigo, que usa minhas informações sem dar a fonte. "É que você pode aprender com ele, mas ele não pode admitir que aprendeu com você".
Falando com uma pessoa trabalhadora e bastante bem sucedida, escuto: "Um país precisa de uma elite". 

São essas coisas que me fazem pensar num inconsciente de classe. Walter Benjamin já andou por essas terras, eu acho. Assim como o sociólogo Jessé de Souza. Pode-se ver, então, a convergência de uma força irracional com outras muito conscientes que vão sendo legitimadas pelo apoio dos realmente poderosos (donos de bilhões), que vão ganhando autoconfiança e se expressam sem medo. A TV, a partir de 2013, com sua campanha contra a esquerda, apostou na incapacidade de parte da classe media desinformada de unir conceitos e refletir sobre contextos. Ganhou.

Parte do que aconteceu pode ser apenas uma abreação, mas no sentido da liberação súbita de um afeto surgido da tensão da divisão entre "homem bom" e "marginal", mal maior da sociedade, a naturalização da pobreza como resultado da suposta diferença intrínseca, afeto aumentado na repressão. Você estudou, portanto tem direitos e não pode fazer nada. 

A satisfação consigo mesmo tem de encarar o que escondeu. O irracional que emergiu quando a identidade da classe média se viu em xeque - a autoimagem de um detentor de saber que, pelo esforço, mostra seu valor - que ensina e nunca é ensinado e se diferencia da classe trabalhadora, supostamente culpada de sua miséria - animal, instintiva e preguiçosa. A ideia de que se mereceu o status privilegiado. O que se revelou foi a farsa - a sociedade permite ou não o desenvolver da potencialidade. 

Recentemente, a Justiça inocentou os policiais que invadiram um presídio matando ao menos 111 pessoas. Uma rebelião. Alguns presos estavam desarmados e nus dentro das celas quando foram mortos - alguns receberam inúmeros disparos pelas costas. Depois de perder sua humanidade, as pessoas não precisam mais de escolas, podem ser presas até mesmo sem julgamento. A Justiça como direito de propriedade.  Para os desembargadores, a lei é de classe. 

Um senador de esquerda e sua esposa são fisicamente hostilizados na saída de um restaurante. Uma atriz famosa que criticou o golpe internacionalmente recebe inúmeros insultos em seu Facebook.

Afinal o capitalismo talvez seja a produção industrial da desigualdade, e o nosso, colonial, aposte mesmo na repressão e criminalização das massas miseráveis. Um dos efeitos tóxicos da desigualdade é que parte da classe média não consegue se identificar minimamente com o excluído, que é apenas o chato no sinal e o ladrão, e o primeiro passo para a paz é o reconhecer do outro. 

Tudo isso demonstra que a doentia estabilidade de uma sociedade injusta foi abalada - os lugares, os deveres, quem dá as ordens. O inconsciente de classe precisa ser analisado. Na falta de um princípio ético e de um arrependimento com os males da escravidão, da repressão e da exclusão, o medo tomou o lugar da reflexão - e não apenas no Brasil. Mas como toda a sociedade é feita de contradições, vemos também um grupo de pessoas reagindo a tendência fascista de desumanização, silenciamento e agressão. 

Benjamin já pensara que o fascismo é a emoção como política. Aquela parcela da classe média que pensa através dos monopólios, sucumbiu ao cálculo neoliberal como código ético e reprimiu tudo isso com um discurso de criminalização do pobre e de quem busca igualdade, é tão velha como medíocre.

Afonso Lima


vastos campos

Caminho na terra das águas
não têm as casinhas fervilhantes e os bares
são campos vastos que convidam ao infinito
não tenho forças
apenas pergunto se
as coisas poderiam ser diferentes
comprar não é de todo mal
apenas as perguntas foram silenciadas
caminho em ruas nas quais homens procuram
no lixo ao iniciar a manhã comida
não vendo nada que cubra a pele
nada que ajude o sangue
nada que vá aumentar o fluxo de capital
vivo entre ilhas e rios que fluem
o que eu tenho são perguntas


Afonso Lima