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terça-feira, março 28, 2017

Pipa na ocupação

dona juíza tenha piedade
um menino nessa cidade
lua procura no papel
aos sete anos de vida
mãe trabalha mas não pode pagar casa
limpando a sujeira do casarão
ele pintava anjos
crianças que o mundo esqueceu
aos sete e meio anos de vida
pombas e sangue no papel
essa gente que de medo vivia
um dia vem a bomba da polícia
crianças e a pipa voa
em cima do sujo vidro moderno
com o nariz na janela
observam a padaria em frente
pão quente dessa gente bela
aos oito anos vida
pombas e sangue
no desenho talvez
dona juíza tenha piedade
talvez o céu de estrelas
e a noite fria

Afonso Junior Ferreira Lima

quarta-feira, março 22, 2017

descoberta do mundo

meu poema não é sobre nada
é sobre a forma que eu procuro
para ver o que está oculto
para aventuras de ligação
precisei dos livros
é neles que busco o que não acho
conto de viajantes, mascates e ladrões
humilhados pelo ódio ao abstrato
aos poucos é que vejo onde me acho
aos poucos é que sei do que somos feitos
precisei da dúvida
para arrancar das veias a percepção
tudo já montado, tudo preparado
e é mudando as formas que eu procuro
o que as coisas são
debaixo do véu, da inundação
oceano da dominação
para além da automática visão
busco o que não acho


Afonso Junior Ferreira de Lima


domingo, março 19, 2017

Escolhas

Andava pelo aeroporto e parou na livraria. "Economia Socialista de Mercado". Tinha uma semana para ler aquilo. Timor, Filipinas e Birmânia vinham em seguida. Vivia cada semana de uma vez.
A moça que o atendeu, de pele muito branca e olhos verdes orientais, lhe pareceu familiar. Abriu seu 102 e tentou discretamente ver o código dela no crachá. Eles tinham feito amor, estava na sua lista.
Ele realmente tinha a impressão de ter passado por ali antes. Aproveitou para conferir o clima lá fora.

Andava pelo aeroporto e parou no café.
- Frapê de café cubano, por favor - ele abriu a mochila e achou "Economia Socialista de Mercado". Mais um livro que não conseguira ler. Abriu seu 102 e procurou quantos frapês de café cubano havia tomado naquele mês. Talvez fosse a hora de tentar o de morango, estimular o cérebro. Foi conferir o clima lá fora.
Uma moça de pele muito branca e olhos verdes passou e sentou na mesa ao lado. Ele sentiu alguma coisa. Ela pediu um frapê de morango e abriu seu tog. Era um 103, droga.
Tentou discretamente ver o código dela no crachá. Não conseguiu.

Tinha uma semana para ler aquilo. "Economia Socialista de Mercado". O aeroporto da Birmânia parecia familiar. Resolveu procurar na sua lista. Seu 102 estava esquisito. Estava difícil dar sentido àquilo tudo.

A verdade é que, depois que criaram o sistema de armazenamento externo, as pessoas pararam com as brigas inúteis, discussões filosóficas e fantasias sem sentido. Mas era um pouco complicado controlar o tempo. Algumas vezes fantasiava estar desembarcando no futuro ou no passado. Observar seu número na coluna onde suas cinzas seriam armazenadas depois de descontinuado. E se cada segunda-feira estivesse mesmo num lugar-tempo? Mas podia ter lido isso em algum lugar. Por sorte, tinha um dos melhores equipamentos de reanimação diária.

A moça que o atendeu lhe pareceu familiar. Enquanto esperava na fila, abriu o aplicativo para conferir o clima. Ele realmente tinha a impressão de ter passado por ali antes. Alguma coisa estava muito errada. Vivia cada semana de uma vez. Parou no café e pediu um frapê de morango.

Afonso Junior Ferreira de Lima


sábado, março 18, 2017

Sobre silly walks

nossa rotina de invenção

da cartola coisas que não são

nosso tambor, nosso laboratório

em alguma estalagem, maquiagem demais

seguir sua rota sem olhar pra trás

trocando palavras, imitando animais

fazendo o que acredita e ninguém mais

razão da loucura, espelho à venda

certo ou errado quem pode saber?

é preciso coragem para tanta aventura

na nossa carroça, contra a corrente

o mistério das silly walks

atrás da cortina, o nariz vermelho

dançando e cantando por puro prazer

acreditando na sua voz  e criando mais

seguir sua rota sem olhar pra trás


Afonso Junior Ferreira de Lima









quinta-feira, março 16, 2017

Mercadoria

Mercadoria pegou suas duas mercadorias na escola e passou no supermercado para comprar mercadoria.
Seu marido Mercadoria saiu do trabalho e foi na academia, depois comprou uma mercadoria para o jantar.
As duas mercadorias ficaram assistindo uma mercadoria na sala enquanto preparavam o jantar.
A irmã de Mercadoria ia se casar. Precisavam comprar um monte de coisas.
Ela estava cheia de mercadorias, mesmo que significasse um aumento no ritmo. É preciso correr para viver sem correria. Não correr e viver seria estragar tudo.
Mercadoria ficou até tarde no telefone com Mercadoria. Está roubando nosso tempo, disse Mercadoria, mas é por uma boa causa. Eles haviam conquistado uma boa mercadoria, tinham uma bela mercadoria, uma linda mercadoria para as mercadorias brincarem, davam às mercadorias uma boa mercadoria e lhes ensinaram as mercadorias necessárias para uma vida feliz.
Mercadorias dormiram como anjos.

Afonso Junior Ferreira de Lima





O império

A piscina azul parecia continuar no mar. O drink era amarelo, com um guarda-sol vermelho. 
- Mas nosso apoio aos bombardeios pode impedir que a comida chegue - disse o general inglês. Podem morrer milhares. 
- O que você quer? Um aliado inimigo na região? - respondeu o político democrata, herdeiro das Indústrias Collyn. 
- Eles não produzem seu alimento... Precisamos de reforma social, ou seremos sempre os vilões...
Uma mulher passou observando o general. Sua camisa de palmeiras o deixava com cara de americano?
O democrata respirou fundo. Culpa imperialista. 
- A competição leva naturalmente à concentração. Uma igualdade artificial não deve ser buscada para reprimir o direito natural de expansão, nem que isso signifique regime forte - ele disse, pedindo mais um dry martini. 
- O senhor está me dizendo que acredita numa missão civilizadora? - disse o general servindo-se de um taco mexicano. 
- Não, caro general. Mas o comunismo destruiu muitos proprietários. Qualquer anticomunista é um líder da liberdade. E o investimento precisa de governos convenientes. 
Ao fundo, dois lobistas começaram uma partida de xadrez com um ministro. Mas o general, tendo deixado sua mente vagar, retomou: 
- Apoiar o fascista espanhol não ajudou. A Comissão Din também pediu reforma agrária, porque os camponeses filipinos se revoltaram com os latifundiários. Baixos salários são bons para investir, mas como sair do feudalismo sem mudança de regime? 
O democrata lembrou da China, triste erro de avaliação, deixar os chamados nacionalistas, ainda que corruptos, perderem. Mas disse: 
- É aí que entra o inimigo. Queremos ficar isolados da corrupção do mundo, mas não seria absurdo o as riquezas da terra  serem desperdiçadas com povos primitivos? Então, o inimigo, qualquer um, ameaça nosso "way of life" - sim, aquilo era culpa imperialista; mas seus pais industriais o haviam ensinado a liderar os menos dotados, a conduzir os inferiores. Uma nuvem cinzenta surgiu entre nuvens brancas. Prosseguiu:
- Sabemos que sem a Grande Guerra os lucros com armas não haveriam crescido - e devem crescer.
- Não sei... Eu vi jogarem bombas contra os camponeses, uma guerra científica - Sabia que nada poderia ser mais conveniente do que pessoas economicamente subdesenvolvidas, divididas, mão-de-obra barata, dentro e fora - mulheres, negros, estrangeiros. Brincou com o guarda-sol vermelho.
- Eu... meu pai viu a repressão à oposição na Índia, ele leu textos sagrados indianos. O sangue de Jallianwala Bagh lhe dava vergonha. É preciso manter a elegância em tudo. 
O martini chegou. 
- O desafio é gerar liberdade e desigualdade com o mínimo de sangue e fome. É o fardo do homem branco. Como disse Roosevelt, precisamos congregar forças para lidar com as raças mais atrasadas do mundo.
De repente, a jovem saia da água. As nuvens cinzentas agora eram maioria. O drink do general parecia ter desbotado. 

Afonso Junior Ferreira de Lima




Adeus ao imigrante

querido amigo

parece filme ficção

a lei esmaga o coração

romeu e romeu interrompido


o dia é seguido pela noite, a noite, pelo dia

quem imaginaria o preço a pagar

o que você sentia não existia para

a Imigração


hoje você foi ferido de morte

hoje toda a treva com passaporte

parece ficção não poder amar


um céu azul sempre vem

assim como a onda trouxe na praia esse presente

quem sabe o que poderá chegar?


Afonso Jr. Lima

terça-feira, março 14, 2017

O sapo e o poço

Os monges começam a ensinar pessoas comuns. Rapidamente, por todo o país, as pessoas começam a conhecer o que antes só os nobres e militares conheciam.
Imprime-se xilogravuras com poemas e dramas.
Agora, Bashô pensa em como criar um poema que o homem comum possa escrever.
Ele caminha no jardim e fala em voz alta sem perceber:
- A primavera chegou.
Um grupo de borboletas azuis voa até a entrada da casa.
Cria um poema de duas partes. Alguém diz o primeiro verso e outro responde com o segundo.
Atinge sucesso na corte. Mas ele sai pelo país à pé.
- O Todo na Unidade; a Unidade no Todo, nos ensinaram os antigos - ele diz. Minha poesia é apenas o que acontece num dado momento.
A montanha, o lago, a lua, o gelo, o bosque de bambu, a pedra, o riacho, o pessegueiro.
Por todo o país, seus poemas estão gravados em pedra.
Uma borboleta branca pousa sobre "O sapo e o poço".

Afonso Lima

segunda-feira, março 13, 2017

O rebelde

Ninguém sabia no que ele estava trabalhando.
Seu neto de doze anos entrou na sala e disse:
- Vô, o que o senhor sabe sobre a lei de banimento dos casamentos inter-raciais de 1937?
Ele percebeu que devia fazê-lo.

Quando chegou, percebeu que as ruas estavam sujas e desertas. Um rapaz com uma arma chegou perto dele.

- O que você quer? De onde veio?
Ele viu uma poça de sangue no chão. Esperava que sua arma não fosse descoberta.
- O que está acontecendo? Chego de longe. Esse é meu país, mas eu não o reconheço mais.
- Venha para meu porão, disse o rapaz.
- Estamos caçando estrangeiros. Eles nos exploraram por anos e agora queremos vingança.
- Vocês tem uma lei que proíbe casamentos com imigrantes?
- Sim. Nosso Parlamento votou semana passada. Agora estão prendendo quem se manifestar contra.

O homem decidiu recuar um pouco mais. Precisava acertar no alvo.
Chegou na rua um minuto antes do primeiro-ministro sair de casa. Estava cercado de repórteres. Tinha de ter uma mira perfeita.
Logo, o homem estava rodeado de uma poça vermelha.

Tentou voltar ao ponto anterior.
O rapaz agora estava fumando num muro.
- Preciso saber uma coisa. O que tem a dizer sobre a lei de casamentos inter-raciais de 1937?
O rapaz pensou e o levou até a praça.
Um enforcado pendia azul na sua corda.
- A lei não foi votada. O primeiro-ministro foi morto antes. O rei abriu um processo. Enforcaram os líderes da conspiração fascista.

Seu neto entrou na sala e disse:
- Vô, o que o senhor sabe sobre a lei de banimento dos casamentos inter-raciais de 1937?
Ele era uma mistura de raças. Se a lei fosse aprovada, quem faria sua descoberta?

Afonso Junior Ferreira de Lima



o inverno não dura para sempre

um canto ainda ouço, azul o pássaro
um raio de sol, somos todos iguais
a chuva não dura para sempre

construímos torres de vidro
para o homem tomar água que corre na rua
ele está com o peito nu, lava os cabelos

construímos satélites
para o velho sujo e com unhas grandes
sentar na calçada e pedir esmola

construímos computadores
para uma geração sem história
desprezar a velha que vende cigarros no metrô

o sofrimento precisa sumir na névoa
perca todo o seu tempo querendo mais comida e plástico
se tornando o que nem quer ser

o corpo precisa de conforto
o corpo só vive com outros corpos
não vive um pássaro solitário

um canto ainda ouço, é a memória que insiste
o nosso silêncio é a nossa arma
o inverno não dura para sempre


Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, março 12, 2017

O menino dourado

Camila, Paulinha e Junior estavam na casa construída no bosque ao lado da casa do avô. Eles haviam ouvido que o bosque seria cortado. Junior havia sugerido o clube e seu pai fizera a casa.
- Nosso Clube do Verde vai sumir, diziam. Como vamos nos reunir para salvar a natureza num campo aberto?
Tio Nicolas que morava na casa do avô queria vender a madeira.
- Por que não perguntamos para o Grande Eucalipto? - disse Paulinha.
Grande Eucalipto falava com eles, mas somente à noite. Por isso tinham de sair de suas camas sem serem notados e descer até o bosque.
Os Sete Eucaliptos foram plantados pela avó e os irmãos da quando criança.
- Os peixes dourados do riacho viram o menino dourado, num salto, deixar cair as moedas do bolso, eles dirão onde as moedas estão e o menino mágico vai lhes dar o que pedirem. O peixe mais esperto se chama Mestre Vermelho.

Eles contaram a história toda aos peixes dourados do riacho. Mestre Vermelho disse:
- Uma moeda caiu aqui e ou vou buscar, disse o peixe. Mas a outra o Tatu Poeta pegou e terão de buscar na sua toca.

Camila, Paulinha e Junior lá foram. O o Tatu Poeta só saía à noite e tiveram de ir escondidos.
Ele estava na porta de sua toca cantando poemas e tocando sua gaita.
- Senhor Tatu, disse Camila, ouviu dizer que o o bosque vai ser cortado? Precisamos da ajuda do menino dourado. O Mestre Vermelho do riacho nos disse que o senhor sabe onde a moeda do menino mágico está.
Tatu Poeta disse:
-Na velha casa, vocês sabem, o gato preto fica o dia todo deitado e à noite sai para cantar para a lua. Sua voz estridente incomoda a minha poesia. Se vocês conseguirem incriminar o gato preto e fazer com que o seu avô o prenda pelo menos por uma semana na dispensa, eu ficaria feliz.
Assim, Camila, Paulinha e Junior  foram para a casa construída no bosque pensar no que fazer.
Paulinha teve uma ideia:
- Nós devemos roubar o queijo, que ele fique bem pequeninho e depois colocar a culpa no gato preto.
Assim fizeram. Sua avó os ajudou a comer escondido o queijo antes que endurecesse ficando na janela da casa de queijo quando o avô passava.
Quando ele perguntou o que estava havendo com seu queijo, Camila disse:
- Parece que o gato preto anda comendo o queijo antes dele endurecer.
E depois, voltaram ao bosque para pensar. Camila disse:
- O vô odeia quando as galinhas ficam espalhadas. E se roubássemos o milho das galinhas e colocássemos pelo bosque?
Assim, eles levaram nas suas botas milho até o bosque e as galinhas se dispersaram por aí.
- O que deu nelas - perguntou o avô? Minhas galinhas fugiram por todo lado!
- Foi o gato preto, disse Paulinha. Ele roubou milho e derramou por todo o bosque.
E o gato preto ficou preso na dispensa com água e comida.
- A moeda está aqui - disse o Tatu Poeta. Podem chamar o menino.
Assim voltaram ao Grande Eucapilto, que chamou o menino dourado. Seus cabelos eram de ouro e suas mãos de prata.
- Se você quer suas moedas de volta, precisa dar a eles o que eles querem.
- E o que vocês querem, perguntou o menino dourado.
Eles contaram.
Tio Nicolas dormia profundamente. Sua esposa havia ido visitar a irmã que morava longe. De repente, sentiu algo gelado nas suas pernas. Acordou num susto.
- O que é isso?
O lençol estava cheio de cobras.
- Somos serpentes negras e viemos vingar as árvores cortadas do bosque.
- Mas eu ainda não cortei árvore nenhuma!
Nesse momento, as serpentes desapareceram.
Tio Nicolas estava branco de medo e saiu de casa para observar o céu.
As crianças observavam atrás da casa.
- Pobre do gato preto, precisamos dar algum presente para ele em troca - disse Junior.
No outro dia, o tio disse ao avô que não iria mais vender a madeira do bosque.
A avô ouviu o que eles contaram e deu uma risada gostosa:
- Os Sete Eucaliptos têm amigos leais. Afinal, vocês defenderam o verde.

Afonso Junior Ferreira de Lima








sábado, março 04, 2017

O muro de vidro

A primeira impressão que eu tive foi que alguém errou a entrada e tentava abrir a porta de vidro fechada. Depois o rapazinho começou a beijar o vidro. O garçom fez um sinal e foi chamar alguém. O menino continuava como que forçando a entrada. 
Depois o segurança apareceu, e ele já estava longe.
- São os sem-teto - disse o segurança para alguém quando saímos. 
Imaginei o que deve ser para uma criança que está acampada na rua, sob plásticos pretos, porque o presidente achou melhor destinar o dinheiro das casas populares para pessoas com renda acima de 4 mil Reais - o que deve ser ver gente comendo sopa, bebendo chocolate, comendo pizzas deliciosas. 
(A verdade é que a pichação deve começar aqui: uma voz). 
Quando comentei sobre isso com uma amiga querida, mas que nasceu rica, ela disse:
"Não acredito mais em notícias da esquerda".
O isolamento e a segregação nos fizeram entrar num quadro de adoecimento coletivo, no qual uma análise imparcial é impossível. Além da tese filosófica de que inexiste "neutralidade ou superioridade epistemológica" precisamos ter espaços coletivos de acordo, nos quais a mais razoável verdade prevaleça: o jornal caiu no mais obscuro marketing; as instituições parecem surdas aos apelos do povo; a polícia reprime manifestações. 
Quando a elite toma para si uma "mentira racionalista" e insiste nela, o que temos é guerra. Políticos-celebridade apelam a nossa emoção, levantam nossa moral, não importa o resto. O "resto" pode ser violência com judeus e comunistas? 
O país foi varrido pelo ódio de classe média. Ódio médico, ódio legal, ódio empresarial. Fui recentemente expulso de um grupo no Facebook que defendia um parque na cidade. Motivo? Por que falar mal da atual gestão, essa do vende-se?
O partido há vinte anos no poder usa da repressão da verdade e do sistema de silêncio para não fazer quase nada e manter-se no poder como "inovador". 
Em outro grupo de bairro, fui ameaçado. Num terceiro, "você só fala de um partido". Interessante é que esse partido sofreu quatro anos de bombardeio da mídia e ninguém sabe as coisas que fez: calçadas, proteção aos dependentes químicos, iluminação, creches... A sensação é que "é tudo igual". A classe média regrediu para a negação. 
O resumo de tudo isso é que a classe média vive num mundo paralelo. Até que esse mundo não apenas beije o vidro - mas jogue uma pedra nele. 

Afonso Lima.

quarta-feira, março 01, 2017

a lua

não pensem em barcos num horizonte cinzento
vamos competir para ver quem comeu mais sorvete e tem um carro maior
espero que as pessoas não pensem em escritores
pensem em liquidificadores, vestidos e decoração de sala
espero que as pessoas não façam poesia
poesia é marca, a marca da superioridade, autoconfiança
sem pesquisa pelo oceano, pelas dobras que a pele faz
pesquisa pela pergunta que pode nos libertar
nenhuma curiosidade pela coisa estranha da vida
espero que os miseráveis sejam um alerta para todos
os que quiserem coisas do espírito
para os que pensarem que podem questionar a vida
longos silêncios e andar em círculo até descobrir algo - não
as pessoas comuns como erros da natureza
a lua pode nos fazer descer até os labirintos ocultos
onde moram figuras, posições e, portanto, os significados
não vamos pensar - a liberdade vive não no supermercado
mas na alma capaz de pensar um mundo novo
todo um sistema repousa sobre o nojo que
um velho sujo deve despertar por pedir comida
um único caminho cheio de plástico e brilho e informação
vamos acabar com as dores da alma
e acabar com o adubo que faz crescer a flor
porque as flores nunca se repetem e quem ganha com elas afinal?
a lua pode ser explorada e os genes podem ser um produto
nada de pensar sem rumo, nada de músicas sem plano
nada de passado relembrado ou faróis de Alexandria
não pensem em amigos num jardim sem lucro
não pensem em cisnes num horizonte sem dinheiro
não pensem em barcos num horizonte cinzento

Afonso Lima