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domingo, dezembro 20, 2020

Dramaturgia - Estado de emergência

Dramaturgia: Afonso Junior Ferreira de Lima e Sandra Vilchez

Carro.

Prólogo

Notícias do dia, coladas nas janelas. Do lado de dentro e do lado de fora.

- Deputada que falar contra o machismo vai ser morta! Anuncia partido do presidente.

- Último povo indígena exterminado com sucesso na floresta amazônica.

- Campo de trabalho forçado para professores foi inaugurado na última sexta-feira.

- Conselho de Direitos Humanos distribui uniformes azuis nas escolas prometendo que os

meninos nunca virarão meninas.

- Policiais recebem “licença para matar” todas as 24 cores de pele do Brasil, menos uma.


Cena 1

Mulher 2, de moleton e tênis, entra no carro. Olha as notícias coladas nas janelas.

Batidas na janela. Mulher 2 abre a porta. Entra Mulher 1, de salto alto, chapéu, frasqueira.


Mulher 1- Pára o carro!


Mulher 2- A gente nem saiu.


Mulher 1- Eu sei. Mas pára. Não to mais agüentando tudo isso.


Mulher 2- Isso o quê?


Mulher 1- Você. Sei lá. O trânsito.


Mulher 2- A gente não saiu.


Mulher 1- Por isso mesmo. É muito sufocante aqui dentro.


Mulher 2- Eu tenho pastilhas. As que refrescam.


Mulher 1- Eu não consigo respirar.




Mulher 2- Quando eu saio com o MEU carro, aquele incrível possante, eu me sinto muito bem.


Mulher 1- Eu não consigo respirar.


Mulher 2- Eu ligo o ar no talo. E o som. Liga o rádio no último volume.


Mulher 1 abaixa o som.


Mulher 2- Por que você abaixou o volume na melhor parte? Ela ia dizer que ama e que vai voltar.


Mulher 1- Eu não consigo respirar nesse trânsito com música.


Mulher 2- Nós estamos paradas.


Mulher 1- Mas há uma expectativa. Duas pessoas sentadas num carro. O arranque.


Tempo


Mulher 2- (Tira a chave da frasqueira) Então lá vai!


Mulher 1- Espera! Pra onde a gente vai?


Mulher 2- Dentro da frasqueira tem um envelope.


Mulher 1- Dentro do envelope há um endereço.


Mulher 2- Temos um alvo.


Mulher 1- E um GPS.


Mulher 1 abre o envelope.


Mulher 1- Por isso que eu não gosto de sair com você. Não tem nada escrito dentro do envelope.


Mulher 2- É feriado! Abre a frasqueira. Vasculha. Pega óculos escuros. Pronto. No feriado as pessoas se divertem. Vamos nos divertir! Liga o som.


Mulher 1- (Desliga) De que pessoas você está falando? Eu nunca me divirto em feriados. Fico entediada. Não tenho dinheiro. Eu quero sair daqui.


Mulher 2- Pois é. Todos querem sair deste lugar. Ainda mais agora.



Mulher 1- Agora o quê?


Mulher 2 – Nada. (Tira o moleton. Fica só de camiseta).


Mulher 1- Dá a partida! Você tem a chave.


Mulher 2- Eu?


Mulher 1- É. Você tem a chave o volante a embreagem o freio a buzina.


Mulher 2- Mas o carro é seu!


Mulher 1- Por favor! Eu não consigo.


As duas se olham. Mulher 2 não se mexe. Mulher 1 vai pra cima de Mulher 2. Embate. Elas trocam de lugar. As duas se olham.


Mulher 2- Se eu me sento aqui preciso do seu chapéu.


Mulher 1- Eu quero seus óculos de sol.



Cena 2


Mulher 1 com óculos de sol. Mulher 2 de chapéu. Mulher 2 tira da frasqueira folhas de papel com paisagens maravilhosas. Praia. Montanha. Deserto. Cola as paisagens nas janelas do carro.


Mulher 1- O que é que isso vai mudar?


Mulher 2- (Colando) A gente precisa se livrar do peso das notícias iniciais. Na vida real sempre existem janelas. E paisagens.


Mulher 1- Na vida real tem sempre uma janela aberta pra se jogar um pedaço de pão ou um abajur. Um cachorrinho ou carrinho de bebê.


Mulher 2- Ahn?


Silencio.


Mulher 2- Há um lugar! Aquele que todo mundo quer ir. Onde se contam carneiros

pulando acima de um arco-íris. Arranca!





Mulher 1- (Vendo o celular que tirou da frasqueira) Não posso. Acabei de ler mais uma. A bala atravessou a menina no trânsito. Ainda bem que não saímos daqui. Me parece mais seguro.


Mulher 2- Sim. Do lado de dentro.


Mulher 1- Ou do lado de fora? Ela estava do lado de dentro e...


Mulher 2- Me dá um medo de sair.


Mulher 1- Eles conseguiram. Me dá um medo de ficar.


Mulher 2- Dividiram a gente.


Mulher 1- Escolhem quem fica vivo e quem fica morto.


Mulher 2- Eu me recuso. Arranca!


Mulher 1- (Chave nas mãos) Você não ouve a imobilidade do ar. As folhas não dançam de um lado para o outro.


Mulher 2- Então?


Mulher 1- Eu vou! Tem um cigarro? Me dá mais coragem. Cinto de segurança, ok. Janelas fechadas, ok. Eu posso fumar?


Mulher 2- Se eles não se importarem?


As duas olham para o público no banco de trás.


Mulher 1- Ela, a menina de oito anos, do lado de dentro da Kombi, voltava pra casa com a sua mãe.


Mulher 2- Cheiro de fumaça no banco. Será que já somos o alvo?


Epílogo


Mulher 1 liga o carro. Tempo. O carro não sai.




Fim.




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