Eu conheci a Democracia. Era uma senhora de meia-idade, cheia de problemas.
Naquela época, os juízes não perseguiam os críticos.
A polícia não era dos negócios, nem cuidava (só) de distinções de classe.
A classe média não estava tirando as notas velhas debaixo do colchão.
Na velha democracia, nossos líderes pareciam distantes; agora, temos medo deles, todo delírio tem brechas.
Na época da democracia, era possível sair da bolha.
Parece, agora, que a realidade contraria a verdade oficial.
Nos ensinaram a não aprender com a experiência.
Nos ensinaram a quem odiar com piadas.
Não entendíamos a democracia, parecia que podíamos ser descartados, ficamos com medo, mas não sabíamos de quê - souberam nos explicar com um meme.
A política não nos seduzia, tínhamos muitos problemas, foram 20 anos de silêncio.
Somos incapazes de aprender depois da revolução.
O filme se repete, mas o segundo ato é a invasão.
A classe média, que achava que a democracia não a ajudava a subir, percebeu que está em queda livre.
Os pobres radicais tiveram uma sensação de poder, sendo "um deles", mas logo caíram no desespero.
O dono de bar que xinga o pedinte, o taxista que chama o morador de rua de vagabundo, a bicicleta de entrega que voa na calçada, o motorista prateado que dobra sem sinal.
O incômodo com a desordem, o imposto e a ameaça com a mobilidade social deram lugar ao medo do crime na política.
Temíamos o desconhecido.
As igrejas-partido assustam com seus cantos de ordem - quem será o próximo?
Na democracia, as leis pareciam não dialogar com a vida. O Senado não respondia minha pergunta.
Agora, os senadores são gladiadores na arena, sua violência nos cansou.
Na democracia, não entendíamos os contratos, eram suspeitos, estávamos perdidos.
Eles chegaram com um plano de leis e mudanças em cada regra e contrato, a guerra nos deixa exaustos.
Na democracia frágil, poucas vozes.
Agora, o ataque aos jornalistas e a censura nas redes gerou uma sensação de controle de comportamento distópico.
As riquezas da terra foram para fora, os novos senhores nos tratam como lixo.
Todos aqueles que achavam que a política não importava, dormem mal e temem por seus filhos.
Pensando que as hierarquias de classe seriam mantidas, o homem branco filho de imigrantes, que queria esquecer a violência colonial, se viu um cliente de joelhos, servo da aristocracia.
Todos são descartáveis nas ditaduras.
É por isso que se ganha pouco e se trabalha mais.
As noites são longas, os dias não descansam.
A peste ajuda a criar muros.
É preciso lembrar de estar sendo observado.
As mulheres são agredidas, o Velho Oeste chegou nas famílias.
A corrupção tomou conta de todos os sistemas, e as árvores não resistiram ao fogo.
Eu conheci a Democracia. Agora, que ela acabou, penso que seus problemas não eram os piores.
AL