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domingo, junho 30, 2019

O organismo

"Sou recipiente e não tenho forma
Porque sou areia do fundo do mar".

Recipiente - Autor: Mauricio Pereira, Skowa




- Não é algo que você tenha feito. Bem, é o que você é.

Ela - mulher ruiva, cristã - não imaginava que isso ainda a podia afetar. Não depois do governo ter tornado a yoga uma prática obrigatória em todo o país e acabado com a instabilidade da mente.


Os atentados tinham sido tão misteriosos que a/o tinham chamado, um/a ex-astronauta. Desde que voltara seu corpo mudava constantemente. Aquele maldito buraco negro.

- A esquerda é perigosa, não precisamos duvidar que ela teria feito, que ela faria, que ela fez esses atentados, disse o velho policial.


É isso que faz o planejamento estratégico, pensava ela enquanto dirigia para casa. Uma parada em homenagem ao Dia da Toalha trancava o tráfego. Isso foi bem depois de as crianças serem obrigadas a festejar o Mickey Mouse Day nas escolas e cantar o hino Frozen no início das aulas.

De repente, tudo que conhecemos como mundo, porque os gestores e técnicos eram nerds ricos e queriam mudar as coisas, fora inspirado nos livros do "Mochileiro das Galáxias" e "Blade Runner".

Ela esperaria o outro dia - em que seria homem, negro e adotaria o islamismo por diversão - para pesquisar sobre aquele bairro distante, onde sabia haver uma seita que pregava sobre o "corpo nacional", as ameaças do ambiente ao organismo da pátria.

O homem negro muçulmano entrou na agência. O diretor o esperava.

- Eu sei que vocês espionam todos os movimentos dessa gente, de todos, na verdade.

- Não.
- Sim. Eu preciso entrar lá. Tem algum contato?
- Tenho. Podemos marcar uma entrevista. Não acho que eles tenham feito.
- Pelo que entendi, estão tentando comprar prédios, um bairro todo, e lá fomentar pensamentos de extrema-direita.
- Não tente ir contra a maré.
- Por que permitem que todo o corpo policial se iluda quanto aos atentados?
- Eu sou uma autoridade, meu papel é mentir o tempo todo.

A trans asiática chegou na casa com seu quipá dourado. Uma sala parecendo um bunker do fim do mundo. O chefe parecia bastante à vontade em sua cadeira feita de ossos humanos.

- Inteligente de sua parte, sim. Você pensar que não eram os esquerdistas. Mas é claro que, se levarmos em conta o todo, o multiculturalismo está matando nossa identidade
e o homossexualismo espalhando a pedofilia.
- Vocês não são tão diferentes dos agentes da lei, afinal. Muita gente costuma estudar para ser burro.
- Eles também estão nos negocios da insegurança, não é? Se tudo for bem inseguro, vamos precisar de shoppings e vamos precisar de prisões privadas. E, claro, seremos nós, homens brancos heterossexuais os mais qualificados para cuidar de tudo.
- Você acha mesmo? Os jornalistas, sindicalistas e artistas são forças contra o organismo social? Uma ameaça?
- Uma força dispersiva, sim. Em um determinado momento pode ainda não ser uma força antagônica, mas potencialmente pode vir a ser. 
- Por favor, descubra se são jovens de sua comunidade e onde estão.

Respirou tentando manter a instabilidade da mente. Não queria nunca deixar de mudar.
Quatro jovens foram presos próximo à fronteira quando o sol ainda não havia desaparecido. 


Afonso Jr Lima 

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