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terça-feira, março 30, 2010


Sim, Justiça!


Benjamin, ao que parece, achava que em qualquer ponto da superestrutura aparecia a infra. Não muda nada no Brasil, mas é catarse geral. Só sei que foram 152 milhões de votos, como se todo brasileiro tivesse estado ali! ("Votei mais de 3.000 vezes para o Dourado vencer", diz Déborah Secco. No piada.)

Diante da nossa insegurança pós-moderna por identidade, do amor dos brasileiros por pessoas, do poder de expansão da TV, etc., sim é um fato. E também (o oposto também, Aristóteles fez o princípio de não-contradição porque nunca esteve aqui) o talvez país mais "pobrefóbico" do mundo acha que ignorância é feio... depois de tanta escola e faculdade!

Na véspera se leu:

"O participante que tem uma suástica tatuada no braço e levanta da mesa quando o assunto é sexo gay está na final". (Patrícia Kogut, comentando alguns fãs doidões. Ainda a velha história da suástica, ai que sono... coisa de "teen" só para poder dizer: tem mais de 3 mil anos!)

Pois é... Dourado vendeu, ufa! O cara que era o malvado e ia sair já-já (frase besta do Mc, ele já teve a chance, ssss....)
O choro de 1 milhão de Reais, como com Bam-Bam. O protagonista, sempre nos disseram, é aquele que muda...

Apesar do ódio que despertou e de seus polêmicos e micos dizeres (tipo hétero não pega AIDS e "pessoas normais", se referindo aos (não) gays), ele mostrou carisma conquistando pelo menos a Máfia Dourada, que dizem ser mais de 100 mil seguidores dispostos a votar noite e dia...

O mais importante: não agrediu ninguém (depois da transformação), não implicou (é, acontece né Dc) com quem lhe deu a mão.

(Minha segunda favorita era a Lia, histérica, mas percebia bem o jogo. Aliás, ela salvou Dourado. O lance mais fenomenal que eu já vi no BBB foi quando ela sacou a Tss, votou nela chorando e tirou a vilão no Ato 1. Cadu conquistou o Brasil, bom, bonito e leal, mas não se expôs tanto... talvez, por isso só ganhou 11% dos votos).

Esta edição foi uma das mais chatas pelo merchan exagerado
(Folha: "A rede fez mais de 60 merchandisings durante os 78 dias de confinamento, média que supera uma ação a cada dois dias, e teve 25 anunciantes. ")
, em cada prova, em cada escolha e causou um certo incômodo quando parecia anunciar todo mundo pela profissão: o advogado, a doutora (em quê, gritaria?), a dentista...

(Nossa doutora, francamente... texte de QE pra entrar!)
Mas a seleção provou ser bem feita, pela diversidade: excluídos os excluídos, os "feios", selecionados os homens-mulheres-objeto, tudo deu certo.

Depois de tanta gente falando em processo, vamos aos símbolos.
A bruxa malvada dessa edição ficou até difícil de escolher, mas... Tss é campeã. Ela sup-er-a. Prefiro a ignorância autântica de Dourado (posso rir dele...) que o politicamente correto-falso de uma Tss. "Na fotinha" sempre. (Né? A explosão da publicidade seja-eu e a falta de igualdade apareceram na TV!)

Pareceu-me o símbolo de (muita gente de) uma geração acostumada com a aparência como essência: parece que usou mecanismos suspeitos para ter 120 mil seguidores, só pensava em jogar, fez sexo para ficar na casa... Talvez represente muito de um jovem criado com a idéia de que "tudo é poder".

Mc, o príncipe, fez papel de bobo e depois conseguiu virar o jogo quebrando o que parecia uma Liga da Justiça, o lado do "bem". Aqui, outra lição de RP: faça cara de alface, sorria e forme conspiração. (Fica até a dúvida se não teria manipulado os instintos de Rossé, para tirá-lo do Lado A).

Sg era mesmo bobo, Dc era fofoqueiro (que decepção! por que logo o gay nóis- na- fita, já-ganhou foi fazer o estereótipo da tia-velha - segundo foi chamado- o maldoso?), Ag era sim jogadora braba e quem explica?

E a sem-sal loira Fn era mesmo uma princesa que viraria sapo. Parece-me incrível que a "turma do bem" tenha ficado sem perceber sua "diferença": Sg se deixando levar pela sedução de Mc foi deprimente. Lia, Cadu e Dourado foram os únicos que mantiveram sua posição, vendo com clareza.

O que mais emocionou nesse BBB foi a inconstância das pessoas, seus dois lados. Aprendemos um monte sobre explosões emocionais e gente que não pensa em outra coisa. Cd pareceu que iria pegar o Sg a qualquer momento, até mesmo noticiaram outro gay na casa, e nada... nem com ninguém. Estranho.

(Ainda mais ele falando "que não se sentiu atraído por mulher alguma na casa, embora eleja a amiga Lia e a vice-campeã Fernanda como as mais belas do programa"- segundo a Folha).

Muitos gays saíram-se mal nesse jogo: achei desnecessária a coisa "nós perdemos" quando Dicesar saiu (merecidamente) e briga pelo twitter chamando El Douradon de homofóbico:
homofóbico é quem tem uma causa, não quem desconhece. (Leda Nagle, noTwitter: "Isto é ignorância não é homofobia")

Esse debate todo - com gente dizendo que ele é "lixo", gente prometendo sortear 50 mil para quem votasse contra, sites do exterior pedindo votação contra homofóbico, Gilberto Braga super-poli.cor falando "paraibazinho chinfrim" (sic) -

me deixou pensando que, na contemporaneidade, desfocamos as coisas com nossa pouca-muita-informação ("os nordestinos são pobres porque não querem trabalhar", ouvi esses dias...), vivemos tão fechados em blocos, guetos, apartamentos, que temos a ilusão de que os problemas sumiram (veja, na Paulista, tá tudo bem...) e não temos paciência/vontade com a ignorância, educar o diferente, com ampliar a ilustração. (Sim, Iluminismo, por favor!!!)

Afinal, educar pressupõe trabalho, busca... e, claro, criar um bode expiatório não vai ajudar.

(O gay elite assumido-faz-tempo pode mesmo levar um susto com o Brasil: vide -)



O Brasil amanhecerá igual: empresas superfaturam obras para financiar políticos, déficit de moradias em SP de 1, 5 milhão, aquela homofobia cultural que pretende tirar a Parada da Paulista porque "Jesus está no Campo de Marte"...

Mas eu sinto um sentimento de justiça. (Onde a injustiça, a certeza da própria superioridade da classe média, é nossa carne há 500 anos. São Paulo é o mega-show disso: muita diversão para a classe média, erudição transbordante, velhos famintos e crianças sujas pelas ruas...)

Um sujeito que não falou mal, não trocou de time, não ficou na moita, soube ver o jogo, ganhou. A leitora do Big Blog Anna acertou: "Eu aprovo a vitória! Ele é um homem com seus defeitos e qualidades como qualquer outro ser humano, a diferença é que ele não tentou ser o 'perfeitinho' para a sociedade..."

Semana passada vi tantas pessoas gritando "Justiça!", quando da condenação dos assasinos de Isabela. (UFA!!!!) Há no ar essa sede.
Quem sabe um dia...

segunda-feira, março 15, 2010

Bahia: Você sabia?

Pois é... Tái uma herança da mentalidade portuguesa colonial, a idéia "rico é rico, pobre é pobre", no local onde primeiro se firmou... Passando pelo Wikipédia, dou de cara com o surpreendente conteúdo:

"Apesar de ter a sexta maior economia do Brasil, com o PIB superior a 90 bilhões de reais, são quase sete mil reais de PIB per capita.

Isso gera o quadro em que a renda é mal distribuída, e se reflete no IDH: 0,742 em 2005, o nono pior do Brasil, equivalente ao IDH de 2005 do Sri Lanka, que é o 99º do mundo com 0,743.

Além do IDH, reflete também:

- na esperança de vida de 71,4 anos, 12º em 2005 no Brasil,
- na mortalidade infantil de 34,5 mortes em 2007-2008 a cada mil nascidos, 7º pior do Brasil, e
- no analfabetismo de 15% da população baiana, 8º pior do Brasil em 2006".

Pode?

sexta-feira, março 12, 2010

Final de Partida, Cia Argos Teatro, Cuba

Depois de um “Sonho de uma noite de verão” da Sociedade Rotunda de Campinas semelhante a um pesadelo, com suas árvores de pré-escola e a rebuscada tradução de Bárbara Heliodora, cuja grata surpresa é uma (jornalista) Valéria Monteiro (primeiro item da sinopse) se destacando ao lado de um impagável Zé Bobina, enfim teatro no III Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo.

A presença de Beckett no cenário contemporâneo, estranhamente, assemelha-se a de Shakespeare e aponta para o “paradoxo do Marinetti (papa do futurismo) acadêmico”. Ou seja, a vanguarda tornou-se regra e tradição. Nada trai mais essa tradição e cumpre (melhor/pior?) o que o filósofo francês Jean-François Lyotard apontou como o “liquidar a herança das vanguardas” no pós-moderno que a repetição da imagem, a mecânica do cânone. Fazer Beckett, depois de milhares de cenários pobres, caras brancas e luz de holofote em fundo negro, exige frescor.

Digo isto porque a Companhia Argos de Teatro, de Cuba, soube tirar do autor algo novo e delicioso. Havia uma comicidade nessas falas do fim do mundo, depois do Holocausto, falas de mudos (Walter Benjamin dizia que os soldados que retornaram da Primeira Guerra nada tinha a contar) que me pareceu mais escondida nas nossas montagens intelectualizadas e sombrias. Porque apesar de tudo, Beckett nos convida a continuar, a rir, a falar.

A luz foge da "tradição" e a música é bela (ainda que, algumas vezes, entre de chofre). O cenário é o inevitável nada, mas com simplicidade digna, ou seja, não tenta ostentar um pré-fabricado mundo decadente, e os acessórios competentes, sincronizados (como o cachorro de pelúcia, simbolizando todo um universo humano impossível) O elenco está todo afinado, quando o excelente Pancho Garcia ri, nós pensamos em chorar. Waldo Franco (Clov), com sua gestialidade TOC e gritos, genial com o trágico e o cômico, deve ser um dos maiores atores da América Latina. O diretor, Carlos Celdrán fugiu do fácil e trouxe delicadeza ao tema. Podemos sonhar.

Afonso Jr. Lima

sábado, março 06, 2010

O metrô de Serra

sexta-feira, fevereiro 19, 2010


Ok... Sir Eljohn exagerou dizendo que Jesus era um gay caridoso... (Sabemos tão pouco dele...)
Mas quem explica isso, de um porta-voz da Igreja Anglicana:


"As reflexões de Elton John, de que Jesus nos convoca a amar e perdoar, são compartilhadas por todos os cristãos. Mas as reflexões a respeito de aspectos de Jesus como personagem histórico talvez devam ficar restritas aos acadêmicos".

http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1497734-7084,00-JESUS+ERA+GAY+SUPERINTELIGENTE+DIZ+ELTON+JOHN+EM+ENTREVISTA.html

???

quarta-feira, fevereiro 17, 2010



McKing

Que trágico início de ano para a moda...
Um dos mais contextadores ícones (sim, com "x", no contexto) se foi...



Herói do cenário, gênio da referência (Plato´s Atlantis!) e libertador da forma de sua prisão de comércio...


Existiria Lady Gaga sem o ar London-crash criado por ele?
Não se trata apenas da inovação, mas de um olhar certeiro. Existe Prada e Armany, mas ninguém tem 40 anos e essa liberdade tão grande para ser punk.

(Galliano também inovou,


mas nem sempre achei que estava correto, nem sempre soube se era fausto necessário, close puro, arte surreal total sem compromisso... Não entrei no seu jogo sempre, que me parecia bizarro, bobo ou sem ca(b)imento.

Certamente há momentos de verdadeira feminilidade em JG, mas deve haver uma piada macabra em chamar "ready-to-wear" algo como uma Emília egípcia vestida para festa junina... Talvez seja mais arte daliniana -ele viveu na Espanha- que moda...)

Bocas gigantes, pulseras hard com laços de plástico preto, tranças Star-Wars, vestidos bordados tão vitorianos como um sonho, o sapato com duas solas (uma delas grossa criando uma plataforma-monstro), o sapato Badromance vindo direto do espaço...

O desfile cambaleante, meia-luz, de modelos zumbis e carregadas da P/V-2004 reflete um clima angustiado da "Guerra do Iraque" onde toda a razão parece duvidar-se (onde as armas? o motivo?).



Ou seja, sua vanguarda tinha conteúdo, pesquisa, recriação (nascido e criado em Savile Row; essa precisão que aparece em tudo, em respeitar o clássico, principalmente).
Assim como Oasis e (a eterna) Viviane Westwood, fica claro que os Brit estão na vanguarda nos anos 90/00 por saber olhar para o passado. Há algo de aristocrático da Velha Inglaterra no que ele faz. E é isso que estamos buscando: um pouco de externalidade da pasteurização universal.



É a arte quando alguém interpreta seu mundo: todas essas estampas de cobra levam-nos direto para a natureza (seus homens com cabeça de cobra são futuristas e uma espécie de homem-bicho, afinal).

[Encontro agora uma entrevista legal:

"Não há melhor designer no mundo do que (a natureza) - [ele diz, no Rio de Janeiro]. A natureza sempre me fascinou. Como hoje quando cheguei ao Rio e vi uma borboleta de asas transparentes como o vidro, nas quais as linhas pareciam ter sido pintadas. É por isso que viajo: para ver o novo".]

http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1486887-7084,00-EM+VISITA+AO+RIO+ALEXANDER+MCQUEEN+SO+QUERIA+SABER+DE+PENAS+E+DE+CAIR+NA+NO.html

Num mundo onde perdemos tanto o contato com nosso corpo a ponto de se ler que 64% dos britânicos adultos com filhos admitiram estar sempre "muito cansados" para brincar com as crianças e 52% não tem energia para levar o cachorro para passear.

Para
Sarah Dauncey, diretora da Nutfield Health:
"Comida pronta, controles remotos e até compras pela internet estão contribuindo para uma Grã-Bretanha preguiçosa e ociosa. A nação caiu em um ciclo vicioso de preguiça que precisamos interromper."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2009/08/090810_lazyness_britain_mv.shtml


A cara feia na saída do enterro de sua descobridora Isabella Blow mostra mais raiva que tristeza, talvez seja apenas um gesto a mais de defesa-agressão contra a injusta -porque certa- perda de quem nos ama.
McQueen soube traçar o belo com um olhar dark. São poucos os criadores que sempre acertam.



Quando o passado e o futuro não dizem nada
Ainda há Alexander McQueen
Um pobre garoto, um menino violento
E nós o amamaos com todo o mal de nosso coração

Há algo de gótico no mundo
Há algo tech, escuro
Uma mulher nua, com penas, metalizada
Ainda há gente por ai

Há uma guerra no céu
Alexander vestirá Miguel.

PS: MJ

Não dá a impressão, no "We are the World" Again, que estava no ar reviver o mito e aproveitar o tsunami MJ? Tanta gente nova e boa para cantar que não ficou na história? Sei lá...

sexta-feira, janeiro 29, 2010

A história tem dessas coisas. Aquele que sofre tanto preconceito por não ter diploma (num país onde é tão fácil estudar como na França, vejam só!) é homenageado pelos chefes do planeta como estadista global.
A história nossa, tem outras coisas mais: esse mesmo ex-operário foi constrangido pelo dono de um jornal com a pergunta: "o que vem estudando nos últimos 20 anos?" Poderia ser apenas uma pergunta, o que se espera de alguém que comanda um jornal plural, crítico, etc...

Flashback:

"Tempos da campanha de 2002, a direção da Folha convida Lula para um almoço nas belas dependências da empresa. Anfitrião, Octavio Frias de Oliveira. O filho, Otavinho, diretor da redação, chega atrasado. E mal toma assento, pergunta ao hóspede algo em torno da sua falta de diploma. Cabe ser primeiro mandatário do Brasil a quem carece de estudo? Não será exagerada, descabida, ousada além da conta, a sua pretensão?

A implicância fermenta, o convidado ergue-se e se retira, com passadas de metalúrgico. Pai Octavio, que conhece as regras de cortesia, segue apressadamente, constrangido, tenta levar o candidato ofendido de volta à mesa. É tarde, Lula está no elevador, e se vai."
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=361ASP008

Diz o jornalista:

"- Até lembrei que o ex-presidente americano Abraham Lincoln também foi um autodidata e que isso funcionou com ele. Na primeira vez em que fiz a pergunta, Lula disse que não iria responder porque achava a pergunta preconceituosa. Achei estranho ele não responder, porque, afinal, eu queria saber como o candidato que pode vir a governar 170 milhões de brasileiros está se preparando, o que vem estudando nos últimos 20 anos."
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp310720021.htm

Interessante como diploma vale menos que ouvido...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Viva São Paulo!
Apesar da chuva, do trânsito e das pessoas na rua, essa ainda é uma linda, criativa e muderna cidade!
E a chuva que não para? Dizem que o aquecimento global (vulgo: Apocalipse) fez as chuvas irem para a Amazônia beber vapor antes de cair aqui!
Limitem os carros e melhorem os coletivos! Socuerro!

***
Lady Gaga realmente... Em geral eu sou resistente às novidades pop e pensei mesmo que seria uma nova Briney Produzida Spears... Não! Ela fez em Bad Romance uma síntese que engloba mãos de monstro do MJ, cultura pop de vampiros, o glamour do tech, a lição mude-o-tempo-todo de Madonna, o deboche das drags... Ela é uma drag hétero, afinal.
(Claro que Video Phone foi um erro: Lady B vestindo um quadro de Picasso P&B e Lady Gaga magrela com maiô branco não são propriamente contribuições ao repertório das duas... E que ideia foi aquela de efeito-Pokemon no treme-treme das cenas? Arminha de plástico colorida não é sempre uma boa. Eu, pessoalmente, sempre penso se a gostosona da Beyoncé precisaria tanta bund-ance.)

Reflexo de um mundo rude, suas crueldades irônicas refletem sim nossa refeição diária de meninos na rua, tiros e sangue.
E, além disso tudo, ela canta!

Nossa :




Salve a inovação!

***
BBB chega à 10 edição. É a prova de que os seres humanos precisam de modelos e perscrutar as camadas estranhas da nossa coisa-ser. (Por outro lado, tendo de ver um artigo bem chocante, percebo que a IC pode nos comer inteiros, nos chupar para a realidade paralela. Exclusivo é lixo).

Bem, dito isso: um dos personagenagens mais dramáticos me parece Marcelo Dourado. Ele entreou agressivo (em parte explica-se nossa herança cultural gaúcha: falamos na lata, somos mais quietos, desconfiados, etc.)
O que me chocou foi a edição feita pela Globo da sua cena de choro. Na web ele pareceu o Bam-Bam e talvez não queiram dar a ele já o troféu. Na tela era um bobo.
Mais um exemplo de que vivemos o "realismo editado"...


(Só o Casoy não edita...)


PS: A tal Lena (Elenita, eu acho) é a prova científica que doutores podem ter 15 anos.
PS2: Essas provas de resistência, como ficar levantando e sentando em uma casa de madeira, deveriam ser consideradas tortura.

segunda-feira, novembro 16, 2009


Sim. O Lula investiu 90 milhões em 2008 e 100 milhões em 2009/10 em bibliotecas, enquanto em 2002/30 foram investidos meros 7 milhões, sim, por aquele professor.

Este dado, fornecido por Fabiano dos Santos, da Diretoria do Livro e Leitura do Minc, foi uma das ações importantes debatidas durante o II Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias e o II Fórum Prazeres da Leitura, patrocinado pela Poiesis e pelo governo do Estado.

Justamente o secretário da cultura João Sayad gerou desconforto com suas colocações: os curadores de exposições seriam responsáveis por gastos com "mostras", enquanto o bom mesmo seria exibir o acervo dos museus.

Concordo que há alguns exageros, principalmente quando o "novo" não cabe no sentido didático para o público leigo, mas... será? Não é chato, sempre o mesmo? O curador seleciona um olhar, propõe uma narrativa.

Já, segundo o secretário, as Bibliotecas deveriam entrar na cultura "competitiva do século XX", tipo "jogo de futebol" (?), expor bem na frente Paulo Coelho e, quem sabe, a Playboy (?), e, mais atrás, Guimarães Rosa.
A platéia resmunga. Sim, deve haver alguma lógica. Tem que haver...

"Por que ler ao invés de ver um DVD"?

Sejam quais forem as vantagens de acessos múltiplos (é um absurdo, por exemplo a insistência da escola em fazer jovens de 18 anos ler apenas romances do século XIX, quando há tanta coisa leve e curta do Séc. XX!), soou maaaal.

Professora Lucia Santaella encantou o público explanando sobre as diferenças entre o leitor interiorizado do Renascimento, o leitor desatento da cidade, e o leitor implodido do Kindle. (O mestre de cerimônia, José Goldfarb, avisa que ela já foi twittada :)

Foram apresentados os lindos projetos da cidade de Medelín, do Ecofuturo, entre eles a criação de Bibliotecas Comunitárias, o ônibus Biblioteca do Município (que existe desde 1936, Mario de Andrade: vá em busca de seu público) , o Barganha Book de São Carlos, feira de trocas, (sem medo de "fazer o bom por causa do otimo") e o Instituto Pró-Livro, com sua visão ampla e o interesse que despertou pelo Brasil em sua curta existência.

O que mais me impressionou mesmo foi o trabalho do Programa Nacional do Livro e Leitura, que, como se disse, não criou praticamente nada (o que pode até ser bom nesse vai e vem de governos e ações), mas articulou, incentivou e deu resultado.

E é fácil começar obras de impacto:
a Biblioteca da Escola Municipal Maria de Lourdes Gonzaga, recebeu em 2008 os 6.000,00 que precisava para "Ter em mãos uma quantidade aproximada de 5.000 livros para a efetivação da primeira biblioteca escolar".

Como tudo no Brasil o mais incrível é o básico: um senhor nordestino contou-me que o Lula é um herói no rio São Francisco, pois colocou barcos a vapor por lá!

Moacyr Scliar fechou a noite com seu otimismo imbatível, dizendo que provavelmente ganhou o Jabuti porque souberam que ele ia falar para "pessoas tão importantes", contando de seu amor-tormento pelos livros e lembrando que o Brasil melhorou muito: "Nunca se falou tanto em livros! Não posso aceitar 1/3 dos convites que recebo para encontros sobre o livro!"

Todos nós saímos acreditando que ainda vale a pena guardar e trocar ideias.
Bonito Caetano, sua mãe ainda não é da elite,
nem quer puxar o saco...

Dona Canô vai pedir desculpas a Lula após Caetano chamá-lo de analfabeto

"
Vou me desculpar e dizer que, pelo que conheço de Caetano, sei que ele não quis ofender o presidente. Não é possível que ele chamasse Lula de analfabeto, aliás, ele nem teria o direito de falar assim. Ele é apenas um cantor", afirmou".

http://noticias.uol.com.br/politica/2009
/11/16/ult5773u2980.jhtm

quinta-feira, novembro 12, 2009

Apagar a verdade?


Em 2006, Alberto Dines escreveu sobre uma suposta "Onda antimídia" que estaria atormentando os jornalistas com mensagens críticas, certamente "enviadas por militantes petistas".

"Esta onda antimídia está ganhando proporções de verdadeiro linchamento... rancor jamais visto entre nós. Na quinta-feira (2/10), na Folha de S.Paulo, a colunista de política Eliane Cantanhêde denunciou a avalanche de e-mails ofensivos e ameaçadores que atulha a caixa postal de jornalistas e de veículos.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=405JDB021



Bem, eu não sou militante petista, mas não é difícil pensar que D. Eliane tem algum problema com Lula. Será que é o fato de ele ser o Brasil “verdade inconveniente”?


(Vide William Waak dizendo, como bem resumiu alguém no twitter, que o Brasil "não presta"...)


http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=20834

É que a grande mídia se distanciou do cidadão comum, a ponto de uma representante da Unesco confessar em palestra que os grandes jornais não enviam mais jornalistas à periferia por medo. Ou seja, trabalham em casa, no seu bairro...

Abaixo uma notícia bem feita, de Claudia Andrade, sobre o apagão, no UOL online que, como o G1, consegue superar a versão televisiva e "oficial" do grupo: informa o motivo; não tenta usar fatos para insinuar nada; aceita dados informados.


Vale a pena ser citada, pois demonstra imparcialidade cada mais rara. Comparemos com a Folha mesma abaixo:


***

Raios e ventos na região de Itaberá (SP) causaram apagão no país, diz ministro


Claudia Andrade*

Do UOL Notícias



A reunião realizada no fim da tarde de hoje reuniu mais de 40 pessoas, integrantes de órgãos ligados ao Ministério de Minas e Energia. "Todos chegaram à conclusão que foram descargas atmosféricas, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá (SP).

Houve uma concentração desses fenômenos atmosféricos ali. O que provocou um curto circuito nos 3 circuitos que levam a Itaberá, que vêm de Itaipu", disse Lobão. Nenhuma medida emergencial para evitar que o problema se repita ficou estabelecida. Ele classificou o fato de "ocorrência raríssima".

"Vejam que temos três linhas. Se caísse uma, as duas atuariam fortemente, caindo duas, a terceira sustentaria o sistema, não conseguiu sustentar, tão forte foi a incidência dos raios ali ocorridos", disse Lobão durante a entrevista no começo da noite.

De acordo com Zimmerman, nenhuma medida emergencial foi adotada porque a ocorrência foi considerada excepcional. Ele afirmou, contudo, que o encontro realizado hoje resultará em um relatório com propostas de melhorias no sistema.

Questionado se não haveria nada a ser feito para evitar um novo apagão em curto tempo, o ministro recorreu mais uma vez ao histórico de investimentos. "Há o que fazer fortalecendo o sistema. Isso nós fizemos. O sistema está fortalecido. Eu disse que temos três circuitos, não um, não dois", afirmou.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/11/11/ult5772u6082.jhtm

***

Dito isto, voltemos à Folha, nas manchetes:

MP abre investigação sobre apagão

Governo culpa "fenômenos climáticos" por apagão

Usina de Itaipu levou oito horas para voltar a funcionar após apagão



... É que, nesse caso, as linhas que levam energia para o país vizinho são de responsabilidade da paraguaia Ande (Administración Nacional de Eletricidad) e não de Furnas.

Isso foi usado pela direção da hidrelétrica para reforçar que o apagão não teve origem em Itaipu. "Em 15 minutos [após o início do apagão], o sistema paraguaio já estava sendo suprido por Itaipu, o que reforça o fato de que a causa do defeito foi externa", disse a direção, em comunicado oficial.

***


Escuridão na luz - Sérgio Malbergier (com destaque no site)

....
A teoria do raio de Bauru, obviamente, nunca foi comprovada. Procurado, São Pedro não retornou as ligações da Redação. Nossos dirigentes não estão interessados em dar satisfação aos cidadãos-eleitores, mas em nos enrolar para que possam seguir tocando seus negócios como sempre.


***

Vale lembrar do apagão FHC, este sim, por falta de investimentos:




"A crise ocorreu por falta de planejamento e ausência de investimentos em geração e distribuição de energia, e foi agravada pelas poucas chuvas. Com a escassez de chuva, o nível de água dos reservatórios das hidroelétricas baixou e os brasileiros foram obrigados a racionar energia [2].

Após toda uma década sem investimentos na geração e distribuição de energia elétrica no Brasil, um racionamento de energia foi elaborado às pressas, na passagem de 2000 para 2001".

http://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_apag%C3%A3o]




Só para lembrar, FHC recentemente pretendeu comparar seu governo ao de Lula, causando constrangimento aos tucanos:


"Como destacaram, em 1997, Cid Benjamim e Ricardo Bueno, no "Dossiê da Vale do Rio Doce", "o Brasil levou 54 anos para construir e amadurecer esse gigantesco complexo produtivo. O governo FHC pretende vendê-lo, recebendo no leilão uma quantia que corresponderá, mais ou menos a um mês de juros da dívida interna". Em maio daquele ano, a Vale foi vendida pelo governo federal por R$ 3,3 bilhões. Em 2007, seu valor de mercado estava em torno de R$103 bilhões."


http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16223


Então, jornalismo de laptop: alguém se lembra da entrevista de Itamar de Souza – um dos integrantes do MST que esteve acampado em Brasília em agosto? Pois é, só na Agência Brasil.


“Somos responsáveis por 95% da produtividade [daquilo que chega à mesa do brasileiro]. No entanto o dinheiro destinado para pequenos e médios produtores é de apenas R$ 15 bilhões, enquanto o dos grandes [produtores], que plantam principalmente para o mercado externo, é de R$ 45 bilhões. É preciso reverter esse quadro”, afirmou.


Agora a Folha fala que apenas menos da metade do orçamento para a energia foi utilizado, em 2009. Mas onde está o contexto?

Lá no meio se lê, bem depois do impacto da manchete, só para assinantes:


A Eletrobrás prevê que, até o fim de ano, executará de 70% a 80% do orçamento. Segundo a estatal, a execução depende de fatores como "procedimentos legais e ambientais que necessitam ser cumpridos".


Onde estão os dados sobre o investimento do PAC? Será que mídia agora é só a defesa de um ponto de vista privado?


http://www.brasil.gov.br/pac/.arquivos/8balanco_3Aenergetica12112009.pdf


terça-feira, novembro 10, 2009

Quando o Estado compensa sua ausência com força

by Michelle Amaral da Silva — http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/entrevistas/quando-o-estado-compensa-sua-ausencia-com-forca

"Para o professor do Departamento de Economia da Puc-SP Ricardo Gaspar, aumento do 'número de favelas e ocupações precárias' em São Paulo é preocupante

Como avalia essa intensificação de confrontos em São Paulo entre forças de segurança e moradores de comunidades pobres?

Ricardo Gaspar - Esse é um problema crônico de todas as cidades mais importantes do planeta hoje, que passam por uma transformação bastante profunda na sua estrutura econômica, diminuição de empregos industriais, aumento de empregos em serviços, precarização da força de trabalho e vulnerabilidade da moradia. São três elementos que eu queria destacar, esse é o primeiro.

O segundo é o fato de que os governos locais das cidades são, por si só, incapazes de resolver esse problema se não tiverem um apoio forte, uma institucionalidade regional e um apoio do governo federal para isso. Em terceiro lugar, apesar das cidades não poderem fazer muita coisa, [elas] podem fazer, sim, ações importantes, e a cidade de São Paulo não está fazendo isso, pelo menos na direção correta.

São ações não só no sentido de propiciar maior número de moradias, condições mais adequadas de moradia, como também planos para a cidade, planos mais democráticos, que prevejam maior mistura de usos, acessos mais fáceis à população de baixa renda aos serviços públicos e equipamentos públicos. Isso não está sendo feito pela atual administração".

***

Maioria dos alemães orientais sente que a vida era melhor no comunismo

Uol -Der Spiegel

A apologia da República Democrática Alemã está em alta, duas décadas
depois da queda do muro de Berlim. Os jovens e os mais ricos estão
entre os que desaprovam as críticas segundo as quais a Alemanha Oriental
era um "Estado ilegítimo". Numa nova pesquisa, mais da metade dos
antigos alemães orientais defende a RDA.
...

O resultado dessas pesquisas, divulgado na sexta-feira em Berlim,
revela que a glorificação da antiga Alemanha Oriental atingiu o cerne
da sociedade. Hoje, não é mais uma mera nostalgia eterna que chora a
perda da RDA. "Uma nova forma de Ostalgia (nostalgia pela antiga RDA)
se constituiu", diz o historiador Stefan Wolle. "A ânsia pelo mundo
ideal da ditadura vai muito além das antigas autoridades
governamentais." Até os jovens que quase não tiveram experiência com a
RDA a estão idealizando hoje. "O valor de sua própria história está em
jogo", diz Wolle.

As pessoas estão ignorando os defeitos da ditadura, como se as
críticas ao Estado fossem um questionamento de seu próprio passado.
"Muitos alemães orientais percebem as críticas ao sistema como um
ataque pessoal", diz o cientista político Klaus Schroeder, 59, diretor
de um instituto na Universidade Livre de Berlim que estuda o antigo
Estado comunista.

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2009/07/05/ult2682u1224.jhtm

segunda-feira, novembro 09, 2009

"Prefeito Kassab (DEM) fecha bibliotecas em São Paulo

Sob a alegação de falta de demanda, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) determinou o fechamento de quatro bibliotecas infanto-juvenis em São Paulo.

Foram desativadas uma biblioteca que ficava no Alto da Lapa (Cecília Meireles), duas na Vila Mariana (Zalina Rolim e Chácara Castelo) e a última no Tatuapé (Arnaldo de Magalhães Giácomo).

Juntas, as unidades tinham um acervo de 165 mil livros que registraram o acesso de 58.842 pessoas de janeiro à setembro de 2007".

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/prefeito-kassab-dem-fecha-bibliotecas-em-sao-paulo

Menos bibliotecas

O prefeito fechou o livro

mas a mente é sempre fogo

Sem palavras e sem freios

corta, mostra, torna vivo

o dentro


O homem odeia os livros?

torna o caminho tortuoso

nosso rosto não nos fala

voz dum mundo rouco


meu falar cria molduras
de futuro, o medo emudece
sem passado e sem olhar
o homem, só, adoece


sim, livros e pontes

sim, precisamos falar

sim somos um povo

de poetas naturais


aquilo que herdamos e somos

nos vem por invisíveis

pássaros que voam


tomar pé e chegar ao chão

biblioteca avenida

palavra puxa palavra

inventa o mundo

e lê a vida


Senhor, senhor que tem a chave

abra a lingua para a passagem

de homens por dentro de si

só há um grande enredo

da guerra, do amor e do medo

sem forma o fogo de dentro

torna-se fogo de tormento

os livros contam a passageira

contagem



Afonso Jr. Lima

quinta-feira, outubro 22, 2009

1 000 000 000


Preto turbinado: o carro

O astro australiano da semana

Ouro na noite

A semiótica a robótica a logológica

Pesado medido tese de doutorado

Explode a favela


Teu rosto machucado

Velho, pedindo comida

Teu cheiro repulsivo

- tua roupa imunda

Bêbado!

por tua sorte te culpam:

Chegaste tarde no albergue?

Não querias tomar banho?

Por que essa cara de espanto e de dor?

De onde vem esse roxo e esse sangue?

Tanto dinheiro e nenhum para ti

Tuas chagas são nada

Ouro e negro, a noite

A cidade se apaga


São Paulo UK:

viver

ou não

herança antiga

– abandonados

entregues

o frio

solidão

e a esperança?


fechado

o albergue

um fio de

projeto social

0 . 1 . 1 . 0

número

sem barriga

o mal no mundo racional


10 bilhões 100 bilhões

de euros de ações de bites

a fotinha a motinha celebridades

a Bolsa caiu, a Bolsa subiu

num instante

comentário na tela, economista

cabeça americana, transplante

formada, transformada, elite pensante

São Paulo mil favelas

1 bilhão de famintos


a tela, a visão

palavra feitiço

morreram nas chuvas

ficaram sem leite

perderam a mãe

sem casa: enchente


senhor cidadão

corre entra pula

dorme dorme dorme

- no domingo

somos os primeiros

prata corre: crescemos

tetra luxo meta super

bocas

insanos urbanos


- chamem

as deusas da floresta

para trazer o que interessa

um canto do lago, uma reza –


que tudo é isso?


- me chama de índio raiz e cobra

fala da Terra Sem Males

quero um sono de dormir e ser o mundo


Quero ir ao outro da lua

pelas pedras e estar com meu povo -


A arte a língua a vaga angústia

Bresson pop um som

internacional: eletro DJ o novo

gringo de 80 reais

a cidade a balada

a guerra, terror

O Chamado: bonde

entre empurre grite

usuário aguarde: gado


o eleitorado

metropoferrado


praça anti-mendigo

o velho bicho

o Isso

animal mestiço

- Não!

criança baleada na rua!

chegamos a um bilhão


socorro

de onde veio este homem

conhece Madonna? já viu Overdrive?

um novo CD de Amy Winehouse?


fome velho perdido sujo

na avenida na porta

mão gorda vermelha pedindo

de onde essa barba branca

sem nome, pele, ossos, sem cor

entrego comida. Jesus te: corro


São Paulo UK: a ciência

viver

ou não

mundo racional

uma pergunta

– é preciso

vidro aço aço metal

robô.dernidade

vencedora

a cidade

hoje ainda não

homem hematoma velho fome

paciência: ?


Afonso Jr. Ferreira de Lima

segunda-feira, setembro 28, 2009

"Você mente!"

Recentemente a CNN criticou a FOX por, elevando o tom, como sempre, ter mentido sobre uma suposta falta de cobertura de sua parte a um protesto contra Obama. Ou seja, você planta uma bomba, mesmo que totalmente descabida, e a verdade demora tanto a aparecer que cria um efeito confusão na opinião pública.


O âncora da CNN disse: "A verdade é que nós, sim, cobrimos as notícias e nós cobrimos extensivamente esse evento nós não promovemos o evento. É isso o que as verdadeiras organizações de notícias deveriam fazer" "Você mente!" - ele completou, usando o slogam republicano.

Confesso que sempre acho contrangedor esses slogans como PIG (Partido da Imprensa Golpista), porque penso que, se chamamos de golpista um pensamento conservador, subimos o tom e ficamos sem referência no caso de algo mais grave.
Bem, mudei de opinião.Agora, é grave!
A capa da Veja me deixou boquiaberto. Por que fiquei com a impressão de que, se houvesse um golpe de Estado no Brasil...

Vamos retomar os acontecimentos: um presidente eleito foi deposto, com a justificativa de que iria fazer uma consulta não autorizada pelo Congresso.
A OEA, imediatamente, condenou o ocorrido.

"O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu a Honduras que 'respeite as normas democráticas e o Estado de direito'. A prisão de Zelaya também foi condenada pela União Européia".
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/06/090628_honduras_atualiza_rw.shtml

"Certamente nós achamos que Zelaya é o líder constitucional e
democrático de Honduras'- reiterou Ian Kelly,
porta-voz do departamento de Estado dos EUA".
http://www.camera2.com.br/noticia_ler.php?id=185576

Ou seja, o fato é totalmente anacrônico e violento. Neste contexto, a comunidade internacional deveria tomar medidas enérgicas, porque, afinal (mesmo depois de Bush), existe o direito internacional. Os países da América deveriam tomar medidas imediatas, ou parecerá que os órgãos internacionais estão falidos, só servem a usos instrumentalizados, para aprovar um projeto nacional, como a ALCA.

Depois disso, ladeira abaixo: a embaixada ficou sem luz, foi invadida por gases tóxicos, as pessoas sangraram...
Não é nada disso que se vê na imprensa.

A Veja puxou o cordão com "Imperialismo megalomaníaco". É uma pérola da criatividade!

Acabo de ouvir o Boris Casoy dando a chamada: "Representante americano na OEA diz que a volta de Zelaya foi irresponsável!" Continua afirmando que a volta do presidente "não ajuda a democracia."

Uma série de entrevistados do programa Canal Livre aparecem dizendo que "não houve golpe, apenas aplicação da regra constitucional que veda a reeleição", "Zelaya estava caindo no esquecimento e decidiu usar a Embaixada como escritório", etc.

Até Sarney (agora é autoridade?) surge para denunciar o "abuso", ainda que diga que "dar asilo era fundamental."
O jornalista ainda conclui com seu famoso comentário: "Nem o presidente deposto pediu nem o Brasil deu asilo, um instrumento sério". Teríamos de "condenar a irresponsabilidade da volta", que tranforma a embaixada no "QG" de Zelaya. A operação é uma "aventura picaresca."
No SBT, o comentário é: "O presidente Lula deveria demitir o ministro das relações exteriores." O fato é chamado de "lambança".

Bem, isso é, no mínimo, não comentar, não contextualizar, por exemplo, o AI5 Hondurenho, a gravidade da recusa à mediação, impedindo a entrada de membros da OEA.

Esquecer que "a OEA (havia dado) ao governo interino do país prazo até sábado (4) para que Zelaya voltasse ao cargo" e que, por exemplo, "os manifestantes, entre oito e dez mil, ocuparam uma faixa de cerca de 100 metros em frente ao aeroporto (...)"
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Isto soa como um tácito apoio ao golpe!

Como diz Luiz Carlos Azenha:

"O governo golpista só tem apoio na mídia brasileira, na Fox News e no Washington Times, ambos a serviço da extrema-direita dos Estados Unidos."
http://www.viomundo.com.br/opiniao/governo-golpista-de-honduras-tem-apoio-na-midia-brasileira/

Até a CNN afirma:

"Roberto Micheletti is in effect running the country, but he wasn’t elected. He assumed power by force!"
http://ricksanchez.blogs.cnn.com/

Lembro de ter lido:

"Há vários quadros da Fundação Victor Civita,
que é uma susidiária da Editora Abril, que
trabalharam na administração estadual e vice-versa.
Várias estatais estaduais de São Paulo tem investido
bastante em publicidade nas revistas da Editora Abril (...)

O problema é que a Veja, a revista 'informativa' da Abril
tem feito várias reportagens sobre Serra.
Não uma defesa ideológica do sujeito, mas basicamente
uma série de artigos defendendo a viabilidade
da candidatura do sujeito".
http://www.andrekenji.com.br/weblog/?cat=18

Engraçado, não ouvi, na TV, essa notícia:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve o prêmio Chatham House 2009,
concedido pelo Instituto de Assuntos Internacionais de Londres,
por sua contribuição à melhora das relações exteriores. (...)
Na esfera subcontinental, Lula foi reconhecido por ser uma "figura-chave na estabilidade e integração na América Latina e por desempenhar um papel destacado na resolução de crises regionais", e no âmbito local por "sua contribuição para a redução da pobreza no Brasil".
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u630353.shtml


É uma pena que nossa imprensa tenha tão pouco amor à democracia de fato. Depois dessa, eu só espero que o Brasil não tenha um golpe!


sexta-feira, setembro 18, 2009


BRUNO: dois coelhos com um consolo só

Vou contar uma história: depois de um ano de amizade, descobrimos que tudo sobre nosso amigo era mentira. Ele mentia o lugar que nasceu, a casa, o emprego. Tinha vergonha de ser "out".
Isso mostra que nossa sociedade adoeceu as pessoas, com seus padrões de "certo" e "errado". Todos nós estamos condenados a ser não-celebridades.

Sacha Cohen retorna com seu misto de documentário, roteiro e tentativa de suicídio.


Por um lado, ataca o padrão global "be a celebrity", e por outro, mostra a verdade que o politicamente correto encobre: o que pensam um político conservador e o povo do Alabama sobre os gays. (Esse é o povo americano real? A instrução pública não existe? Será que a "onda gay" é apenas um slogan "comprem, gozem, vivam sem limite como eles!?")

Sim, existem caras que se divertem dando tiros em lebres e que acham veados porcos, com o perdão da piada.

Bruno é um pensar, o que já é muito. Não é o clássico que é Borat, mas é uma comédia reflexiva genial.Não apenas pela tão falada cena em que traz um bebê africano, trocado por um iPod, em uma caixa (que idéia de solução da pobreza, essa de Hollywood!)

Mas também por aquelas menos comentadas, como a cena em que desfila na passarela De La Prada com roupas presas no seu modelito de velcro, sem sentirmos muita diferença entre seus pinduricalhos e as modelos, cheias de panos estufados...

As mães tantando vender (para uma sessão de fotos) seus filhos por qualquer coisa (animais mortos, pseudo-crucificação, roupa de nazista, etc.) Ser famoso é mais importante que estar à salvo.

Cantando uma canção de paz entre palestinos e judeus... (será que alguém vê essa situação de modo simplista?)

Paula Abdul falando sobre sua filantropia sonhadora sentada sobre um mexicano é um clássico! (Dizem que a equipe não esperava que alguém de fato aceitasse isso!) Sentar sobre latinos é constrangedor (Elton John, parece à vontade), mas, e vê-los como cidadãos de segunda classe?

Sem falar da cena em que ele, com um vidente, faz sexo oral com um espírito do rock, quando o cinema vem abaixo!

Pois é, ser gay é super "in", não? O mundo aceitou a divertidade? Não, somente os marketeiros das corporações. Vide os soldados da Guarda Nacional dos EUA na frente de um D&G.

Além disso, os recrutas estão proibidos de falar com seus oficiais. "Quando finalmente foram questionados se 'sabiam quem era aquele recruta', cadetes responderam com segurança: “Sim, senhor! Sacha Baron Cohen, senhor!” http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2939.

O filme mostra a rebeldia programada do mundo MTV/Fashion Week... Lembra quando Björk apareceu de Cisne no Oscar? Todas as revistas disseram que ela era doida... Mas a arte não era ousadia?

(Spoiler:
"O Conselho Italiano de Moda emitiu um comunicado aos estilistas,
alertando-os para a possibilidade de Baron Cohen tentar penetrar
em seus eventos; a instituição recomendava ainda a proibição
ao acesso da produção de “Brüno”.
(...) E a polícia de Milão declarou que ele seria detido no ato. (...)
O ator foi algemado pela polícia e levado preso,
enquanto os integrantes da sua equipe seguiam no encalço deles.
Embora ele tenha alegado que simplesmente cometeu um terrível engano
— ele simplesmente usou um macacão de velcro e saiu andando
— Baron Cohen foi revistado e interrogado por sete agentes da polícia."
http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2903

Viva a criatividade!)

Bruno tira o maior sarro também daquelas "músicas que salvam o mundo", o que eu já havia comentado sobre MJ. Parece vago e soa como anestésico para os conflitos reais.

Lembrei-me de Thom Yorque (vocalista do Radiohead, que falou sobre Bono:

"a diferença entre eu e Bono Vox é que ele fica
completamente feliz em elogiar pessoas para conseguir
o que ele quer, e ele é muito bom nisso,
mas eu simplesmente não posso fazer isso.
Eu provavelmente acabaria dando um murro na cara deles
em vez de apertar as suas mãos,
mas isso é melhor do que ficar fora do caminho deles.
Eu não posso simpatizar com esse nível de besteira.
É uma vergonha, verdade, e isso pode ajudar
se eu quiser, mas eu não posso.
Eu admiro o fato de Bono poder,
e poder caminhar através disso cheirando a rosas."


Walter Benjamim falava da embriaguez, da telepatia e da teologia contra a ideologia da técnica que se tornara desumana: hoje, a embriaguez é a técnica, mas é possível usar-se desse "limiar", o bizarro, para mostrar seu absurdo. Diversão é a alma do negócio, mas é uma pena que seja apenas uma nuvem de fumaça de alegria para o medo do mundo em pedaços.

Ou, seja, que fazer se todas as pessoas se tornaram tão banais quanto Bruno, o mundo é fútil, e o entretenimento o produto mais importante? "Se eu abrisse meu guarda roupa e só visse capas pretas, eu também me explodiria", diz ele sobre os homens-bomba.

Mas isso é homofóbico? Infelizmente, os gays se tornaram o símbolo de tudo que o prazer sem limites tem para oferecer.
-
Boa reportagem: http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2892

***

Susan Boyle está aí de volta, com seu single de estréia!



Ela comoveu o mundo por seu talento, força emocional (de todas as versões de Cry me a river que ouvi, nenhuma chega à sua paixão) e, principalmente, por ser uma cidadã "out-fashion".
O seu caso fala muito do nosso mundo, onde uma senhora tipicamente "inglesa" (da Escócia), com seu vestidinho poá está definitivamente fora de questão.

O jurado faz a cara mais feia do mundo quando ela diz sua idade; e, quando ela dança sua dancinha, dizendo "Mas esse é só parte de mim", o outro faz cara de "Ai, que nojo!". Claro que eles enfrentam muita gente doida e sem esforço que pretende ser um grande talento, mas a seleção do show provavelmente selecionou algo...

Enfim, fica a pergunta: quantas Susan Boyle estão perdidas no mundo onde o Estado desapareceu e as pessoas estão entregues a sua sorte, onde o homem é o lobo do homem? Que riqueza está perdida na favela? Em Dublin?