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domingo, junho 16, 2019

CANÇÕES PARA DIAS DIFÍCEIS - Parte 1

CANÇÕES PARA
DIAS DIFÍCEIS

Afonso Jr. Lima

*

Biblioteca Nacional

697593, em 28/10/2015


Este projeto contou com o apoio de

Suely Mandelbaum, Jorge Eduardo Rubies, Felipe Francisco De Souza e Teresa de Almeida Prado.


*
O rapaz entrou na loja.
- O senhor teria um tecido mais grosso, bonito, talvez aveludado... quero forrar uma cadeira – o homem de idade abriu um sorriso e mostrou algumas opções.
É tão bom ser atendido por pessoas como o senhor, o comércio tradicional. Estou chegando no bairro. Há quanto tempo...
Minha família chegou em 1912.
O senhor é judeu?
Sou de origem síria. Prazer, Aimar.
David. Talvez tenha conhecido meu avô. Jacob, ele morava aqui em frente.
Claro. Meu amigo durante uma vida toda. Você está aqui agora?
Temporariamente.
Vamos tomar um café – ele procura algo, escreve num papel – Me ligue e combinamos.
Obrigado.

Ele observava o mar e sua jovem esposa que saía da água, loira, muito magra, belíssima. O filho havia trazido aquele colega que lhe dava calafrios. Jogavam bola à direita. Ia ser um verão estranho. Sentiu um mal estar. Coração? O médico dissera que aos 45 já era preciso fazer cooper e comer bem. Quis voltar para casa. Ela quis ficar mais um pouco.

Por que motivo o pai havia sido preso? Recebia revistas de música e poesia de Moscou. O carteiro não gostava de comunistas.

Papai e mamãe foram levados de trem. Mamãe foi levada assim que desembarcou para a enfermaria. Nunca mais a vimos.

Seu avô morreu. Ele juntou suas coisas, despediu-se dos sócios do escritório, foi morar no apartamento grande, antigo, com paredes cobertas de livros no Bom Retiro. Sentiu-se livre no escuro.

Quando eu era criança, meu pai foi me ver no campeonato de futebol da escola. Eu perdi. “incompetente”, ele disse.

Trata-se do monopólio da opinião e das letras. A primeira palavra do Gênesis é: Be-Reishit (no começo). Be é a segunda letra do alfabeto, equivale ao dois.


Eu nunca tive muito contato com meu avô. Eu lembrei de um almoço num aniversário em um restaurante do Bom Retiro. Ele contou como tomava banho nos rios e corria da sua casa até o Brás com os amigos. De como entrava pela janela dos cinemas para ver filmes de graça. De como o pegaram e o fizeram sair pela janela. Fora isso, são poucas as lembranças. O pai nunca fizera muita questão de estarem juntos. Considerava a religião do pai algo “exótico”. O avô mostrara uns papéis, “uma coisa” que estava escrevendo.

Ele ficara na casa com o rapaz. Como tratar um universitário? Ofereceu leite e sanduíche, não obrigado. Ficou no quarto do filho. Foi ver o carro na garagem. O rapaz chegou na porta. Ele achava que a mulher tinha gostado do Miguel.

O Padre sentou na mesa do Santo Ofício.
Queria liberdade para o versejador e para o profanador Miguel.
Estão com medo, atacam. Os homens dizem saber que sua avó era “mulata, bruxa e suja”.

Por que se sentia triste depois de tanto trabalho? Sem objetivos. Sem concentração. Tinha o suficiente. Ele queria agora pensar coisas diferentes. Ele precisava negar um pouco tudo que era rápido demais para fazer sentido. Ele sentia que o mundo estava mais e mais perto de certezas construídas sobre mera repetição.

Sim, ele sabia que o avô tinha passado por todas aquelas coisas ainda criança. Assunto um pouco preservado, um pouco proibido. Logo que chegou, depois de passar pelos Estados Unidos (seu pai não gostou) contava que comia demais e acabou engordando. O pai o colocou no futebol. Quando ele chegou no Brasil e começou a ver homens sujos, sem roupa, miseráveis pelas calçadas, chorava.

O homem foi obrigado a vestir roupa de palhaço e a assistir missa assim. Isso porque foi acusado de criar “academia” na sua casa.


Corredor, fecharam a porta na mesma hora, sorriu. Seu Rey era um homem alto, de cabelos grisalhos. Neto do Jacó? Gostava dele, o comuna. Ele o convidou para participar de seu grupo de estudo. “Nós nos reunimos para salvar o Brasil”. “Salvar?” “Venha, depois de tudo jogamos cartas”.
Nas paredes máscaras mexicanas e africanas.


Esse é meu avô? - seu Aimar fez sinal que sim - Quem é essa da foto?


Jacob fora tomar um café com o amigo físico. Décadas de conversas. Falavam sobre a paupérrima situação da capitania no início.
- O único livro que havia em São Paulo era Cervantes – dizia Mário. Nada subia a serra.
- Uma igreja e suas mil almas... Devemos tudo à voluptuosidade da Marquesa de Santos...
- Nada como ser caminho.
Meia hora depois estavam falando de Dante.
- Será mesmo, Mário?
- Por que não?
- Queria crer que sim. Uma seita influenciada pelo islã...
- Olha a matéria do Paraíso... É a luz... Isso é meio física quântica, não – ele disse.
- Sim. Sabe o que eu descobri. Que dependendo da forma que se traduz o hebraico pode-se dizer do início do Gênese: “No começo criava Deus” ou “O começo criando Deus”.
- Muito metalinguístico – Mario riu.
- Por isso somos perseguidos. Trata-se do monopólio da opinião e das letras. A primeira palavra do Gênesis é:
Be-Reishit (no começo). Be é a segunda letra do alfabeto, equivale ao dois.
- Não vivemos anos incríveis? De repente a ciência, que era esse monstro indestrutível e definia tudo, definia até o humano, parece ter virado uma coisa mais leve, muito leve, uma coisa poética.
- Em dado momento simplesmente ruiu. Tudo ruiu. A ciência toda com seu determinismo completo.
Imagens de pastores tendo suas ovelhas expulsas. Pedras nas casas. Fogo nos campos. Os colonos furiosos.
Por que esse grupo, afinal? A não ser por que... Aquela amiga dizia que a família era judia. Não. Quem não é?
Caracterização: difícil.
Enredo: não é claro.
Motivação: desisto.
Ação: uma parada.

A amiga da família disse que era uma família de judeus. Seria um grupo de judeus portugueses. Afinal, quem não é judeu português? E, afinal, o que é ser judeu? Os judeus foram os primeiros brasileiros. Deve ser por isso que sofremos, que temos divisões. “Eu sou uma pergunta”.

A coisa.
Eu não conheço bem sua vida interior. Você parece uma sombra para mim, quero crer que sou mais forte, ativo e capaz de dominar o mundo que você. Eu realmente não sei se você é capaz de quaisquer dos sentimentos top em roteiros: raiva, amor, medo, inveja, vingança.
Será que você é uma metáfora? Uma forma de emitir um julgamento sobre o mundo? Um apelo ao inútil? Será que tudo tem a ver com o fato de ter existido uma terrível injustiça pesando sobre a criança que eu fui, uma criança abandonada? Nem posso fingir que me importo com a crise do que quer que seja.
Sento na palestra de um amigo escritor. Uma moça pergunta praticamente sobre o sentido da vida. Fico pensando no que aconteceu com o pensamento. Você é humilhado, pisado, ninguém quer você e no momento seguinte assume seu papel como “reflexionador” da cultura.
Talvez o que o defina seja a falta, a busca.



Meus avós eram agricultores. De repente, viram suas cidades serem invadidas por monstros de concreto. Os membros da elite pareciam irreconhecíveis, falavam outra língua, subestimavam os mais velhos, queriam disciplinar o povo com métodos modernos, carros, máquinas e leis seculares.
Antes de tudo, agora, a vida era voltada para a exportação. A manufatura local foi esmagada. Tínhamos que comprar panos, facas, louças do estrangeiro.
A religião era algo primitivo e ingênuo.
No Egito, Napoleão veio com exércitos modernos, biblioteca e laboratórios. As províncias árabes do império otomano, a quem havia sido prometida independência depois da Primeira Guerra, tornaram-se protetorados e mandatos dos ocidentais.
Meus avós diziam que o mundo tinha sido enfeitiçado.
1646 – Sinagoga de Amsterdã.

- Hoje a Holanda é para nós o que foi a Itália em 1400 – disse o rabino. Minha família fugiu de Lisboa depois que meu pai foi condenado pela Inquisição. Foi absolvido, mas o perigo de ser “condenado à morte como “relapso” era grande demais.


Os frades italianos deviam se envergonhar – disse o jesuíta. Se existia sodomia, jogo e luxúria, se as mulheres eram vaidosas e os homens adiavam o casamento, tudo era posto na conta dos judeus que emprestavam dinheiro. A ideia de que a Segunda Vinda deveria achar os judeus convertidos é ridícula.

- A Peste Negra foi uma calamidade para os judeus, era preciso achar uma causa. Os flagelantes queriam que se eliminasse os judeus para evitar a ira divina. Em 1336, na França, pessoas afligidas pela pobreza queimaram livros de contabilidade nos pogroms, camponeses, soldados endividados. Mesmo assim, no ínicio, o papa e outros cidadãos das cidades tentaram proteger-nos.

- A ideia de que crianças eram necessárias para rituais judaicos, de que judeus perfuravam a hóstia com pregos para provar que Cristo não estava ali, as infames “hóstias ensanguentadas”, de que todos os judeus são bruxos porque Salomão era um senhor dos demônios, tantas tontices e idolatrias não são dignas do homem racional. Algum maluco em Munique acusa os judeus de terem matado a criança encontrada no rio e todos eles são trancados em uma sinagoga e incendiados. O próprio papa inocentou os judeus! As redes de comércio mundial, além das rivalidades políticas locais, são o futuro: África, Império Otomano, Bordeaux e Veneza.

- Amsterdã nos possibilitou viver aos olhos do público. O pobre judeu convertido de Portugal vive seu judaísmo limitado temendo a morte: guarda o sábado com medo, não come porco com medo, joga fora a água de seus potes com medo. 

- É claro que meu objetivo é o crédito ao rei, mas além disso amo o Velho Testamento. E também trata-se de justiça. Sabemos que os reis protegeram os judeus durante mil anos, mas depois a Espanha, a França e a Inglaterra os expulsou. Restou Veneza, Nápoles e os Estados papais, a Polônia e a Rússia. Ouvi dizer que o senhor quer negociar uma comunidade sefardita na Inglaterra...

- Sim, pretendo negociar com Lorde Cromwell. Quando o Messias voltar, vamos juntos recebê-lo.

INT – Casa de praia

Os dois sozinhos assistem desenhos na TV, bebem água, perseguem um pernilongo.
Assistem TV.
Corta para EXT - O filho com a namorada num quiosque.
INT – Casa de praia
Um deles dorme ou finge dormir. Sua mão encosta na perna.
Corta para EXT Dunas – a mãe retorna do mar.
Corta para – INT – Rostos se aproximam.
Corta para EXT Dunas - Amigo bonito para a mulher e oferece água de coco?
[o que eu quero com isso? Conseguirei seguir adiante? São coisas tão íntimas... O que importa é o toque da pele ao entregar o copo, o raio de sol entre as árvores, a forma como a nuca se arrepia, quele animal de patas finas na parede]
- Conhece o Sham? É meu sobrinho.
David estendeu a mão e sorriu, Sham olhou em seus olhos fazendo-o corar.
- Vamos entrar.
O café do cinema.
Aqui está o roteiro - ou seja o que for – que meu tio estava escrevendo.
O que desapareceu?
É.
Foi antes ou depois de ter o texto censurado?
Depois. Mas não temos uma cópia final.
Ele...
Sumiu, sumiu apenas. Foi pra faculdade enão voltou mais. Meu avô tentou todas as autoridades que conhecia, nada.


A noite bate nas janelas
O vento e a lua na terra das lágrimas
A voz nos mapas da mente
Nem uma cação
nem um poema depois que a humanidade se foi
/Os brancos lençóis
ainda aqui
o sol da manhã pela janela
você já saiu e eu
vou
em direção à cidade sem horizontes
que momento de paz
em teus braços

terça-feira, novembro 17, 2015

Trecho do romance "Canções para Dias Difíceis" (inédito)

Trata-se de dinheiro, duto de bilhões dos contribuintes dos Estados Unidos, do petróleo do Iraque para corporações; abrir mercados com a guerra. Eliminar a indústria do país, invasão de trabalhadores estrangeiros, reconstrução com subcontratadas das subcontratadas que não fazem nada direito, governo que significa entregar pacotes de notas de cem dólares. Somente o que atinge fisicamente, os nervos, pode levar à pensar. 
Eles eram uma raça inferior, repetiu o comandante. Eles não entendem a democracia, ele disse. Eles gostam de empresas públicas ineficientes e corruptas. Eles tinham medo que suas empresas fracassassem diante da competição estrangeira. Vencem os melhores é uma lei biológica, dizia nosso comandante. Mas parece que os trabalhadores daquela fábrica se negaram a abandonar seus serviços. Agora não tinham água tratada, eletricidade duas horas por dia, usando lenha para cozinhar, um clérigo juntou desempregados para consertar as linhas de telefone, instalar geradores, dirigir o tráfico. A iniciativa privada comprou essa companhia, a primeira coisa que irá fez foi reduzir o pessoal. Eles pensam se colocam fogo ou se explodem dentro. Não será privatizada. Quatrocentos mil soldados demitidos com suas armas. Cimento e trabalhadores importados, sem geradores para as antigas empresas estatais que poderiam produzir. Empresariado financiando a violência, porque suas fábricas acabaram. 
Fecho os olhos. Escuro. Por que agora? A educação-lixo, os políticos fundamentalistas, oligarquias. O sistema de exclusão do Brasil, 

"Canções para Dias Difíceis" - Afonso Jr. Ferreira de Lima

sábado, abril 04, 2015

Entrevista - trecho do livro "Canções para Dias Difíceis"


- Tudo bem?
- Boa pergunta.
- (rindo) Um estilo punk?
- Punk zen. (risos)
- Vamos começar pelos seus livros queridos.
- Sim. Um deles tinha capa verde, lembro bem, enorme, capa dura.
- Verde como?
- Acho que as coisas mais importantes a dizer sobre os velhos livros... É sobre o prazer intenso, sobre a transformação que provocam. Em certo momento, talvez os escritores perceberam que tudo era unificador, universalizante, eram os sistemas científicos positivistas, o poder absoluto dos reis e depois das corporações, etc. Proust para mim pode ser o surgimento do particular, e, ao mesmo tempo, do fluxo. Esse projeto moderno imagina também o que agora o por que agora: o que pode ser literatura quando tudo tem uma utilidade, quando a linguagem se empobreceu e estagnou... Os Shakespeare, velhos, vermelhos, me mostraram a deliciosa terra da imaginação. Os russos, amarronzados, lembrando uma tradição secular, mostravam um mundo injusto, um sentido ético, uma consciência sobre os sentimentos e hábitos, que é o que nos falta. Só Clarice era luz pura, puro enraizar-se, pura terra úmida, delicada retirada da pele, novinha em folha. Woolf... não lembro. Talvez porque eu seja Woolf.
- Algumas pessoas acham pedante falar desses livros hoje.
- É porque nossa elite se fechou sobre si mesma. O projeto de que nada será de graça, de que vencem as raças superiores, de que aqueles que não tem transporte, nem saúde, nem habitação, merecem isso porque seu trabalho não têm mesmo valor... esse projeto é contrário ao literário, para quem a moça nordestina com olhar perdido, uma flor, uma rua, tudo é parte de uma sinfonia brilhante e fala. Para excluir constantemente os "diferentes" precisamos de uma polícia forte e de pessoas sem identidade, sem reflexão.
Na adolescência, a biblioteca de sua casa tinha o quê?
- Eu não li muito. Minha mãe trabalhou como funcionária pública, bem na era em que tudo que é público é visto como "obstáculo à competição". O que é competitivo é sempre estrangeiro e não importa se as pessoas ficarão sem emprego, como no Iraque. Mas, retomando... Havia 100 mil livros na biblioteca do banco federal. Depois, para evitar gastos, foi fechada. Adorava caminhar pelos livros e a madeira antiga. Eu, no fundo, era um adolescente solitário, sem muitos amigos de verdade, só que tive oportunidade de mergulhar em oceanos anteriores à tudo, conversar com esses fantasmas sinceros.
- Ainda hoje?
- Você sabe como é São Paulo. É preciso dizer não. De repente você está numa multidão, cercado de prédios decadentes, ou caminhar até o centro num domingo parece passar por um campo de refugiados. Minha imagem de mim mesmo é caminhando, cruzando a cidade, um parque, um campo. E, lutar muito para criar o mapa, com o recolhimento.
- Mas quais...
Acho que disse isso em outro lugar. Grandes, clássicos, fortes. Se ficamos apenas no jogo exterior, no corpo, nas ações de comer e pegar comida, algo se desfaz. Por que será que, de tempos em tempos, os gregos tinham que por uma máscara, sair das regras sociais, falar com a voz dos outros, acreditar que eram transpassados por vozes e energias do cosmos? A transformação revitaliza a sociedade. Muda as formas de pensar. O mais importante foi a imensa luz na torre, Sodoma, Ana Karenina, o crime da machadinha... Não muito mais. Pelo menos nesse intervalo entre ser reprovado no vestibular e tentar de novo. Mas voltando ao início... Lembro que eu tinha quatorze, estava num hotel perto de uma famosa cascata em Gramado com minha avó. Eu estava lendo a República, minha avó achava que eu era estranho.
- A avó que você diz "aristocrática", fazendeira?
- Digamos que sim. Para mim, era o lar, o cheiro de bolo (era doceira), tinha medo. Herdeira. Da alma melancólica e pesada, digna, altiva. Quando, adolescente, fui para Berlim... Berlim nessa época ainda não era vista como um centro internacional de cultura ou cidade verde, eu, pelo menos tinha a sensação de uma cidade em reflexão, tentando entender o que significava a queda do muro, mesmo um tempo depois. Descobri minha avó um pouco por lá. Estava no Aquarium e encontrei uma senhora parecida com ela. O mesmo coração. Era uma serenidade, uma máscara, mas perfeitamente funcional no mundo. Ouvi na igreja Kaiser-Wilhelm um Monteverdi e lembrei dela também. Eu sou muito mais esparramado, desatento, preguiçoso, mesmo ler precisa do dia certo, em que o sangue dorme, sou pedra e lama; sua ordem e disciplina, luz e força, carinho frio, um oposto complementar. Ela entrou em depressão quando minha tia – uma amidade de quarenta anos – quando ela morreu, anos depois. Sentada em um banco comigo aguardando o corpo, pela primeira vez deixou rachar a superfície: merda de vida, disse. São as pessoas que me conheceram de verdade.
- Pesado, heim?
- É a vida e tudo que fazemos dela. "Ela virou escrita", como disse alguém.
- E no entanto, você sempre reagiu a...
- Gosto da visão grega antiga, onde tudo era mudança. A identidade era importante no século XVIII para fugir da soberania do rei; para que serve uma identidade hoje?
- E o teatro...
- Isso é o que Shakespeare pode fazer a uma pessoa. Quando você lê um texto, não vai julgar como julga no mundo real: não podemos aceitar tudo, mas no texto, sim, e os personagens mais demoníacos são aqueles de quem mais gostamos. Escrevo teatro desde os quinze anos, talvez não seja bom, mas escrevo. Quando cheguei em São Paulo... pareceu-me que tudo é muito realista. Realismo quebrado, mas realista. Eu fui indo para coisas narrativas em 2007, depois estados da mente, foi natural, coisas que eu li, mapas da mente. As pessoas diziam... nada agradava ...que não tinha conflito, não entendiam o lugar, o enredo. Não gostavam, pensava, será que eu perdi a relevância, a varinha de condão? Terrível. Mas depois, percebi que nada tinha a ver comigo.
- Essa é uma autoficção autobiográfica?
- Sim, mas verdadeira.
- Eu li uma crônica sua na qual contava sobre um mago que conheceu na Inglaterra...
- É verdade. Nos conhecemos um uma festa. Ele usava dreads vermelhos, mas já tinha seus 50 anos. Uma capa de couro preto. Ele mal me viu e falou que eu deveria ser astrólogo, dançarino, pintor ou colecionador de antiguidades. Eu poderia mesmo ser qualquer dessas coisas. Como eu conto no texto, atravessamos a cidade em meio a fog, ele falando das mulheres que conquistou e conquistando algumas. Era culto e herdeiro de uma indústria. Ele disse: "Você tem o pensamento cósmico. Parece ter viajado o mundo". Fiquei com isso na cabeça. Nunca tive propriamente a sensação de saber perfeitamente para onde estava indo.
- Seu trabalho já foi dito experimental e, paradoxalmente, classicista e parnasiano. Como vê isso?
- Eu andei namorando Borges, mas estaos na era do clichê, "o que ninguém é é obrigado". Não tenho, nem deveria ter opinião à respeito. Muito ocorreu no século XX, um arcaico que era o contemporâneo. Dizem também que quando Leminski mostrou pela primeira vez seu livro Catatau para os amigos eles disseram: você é um bandido que sabe latim. Eu não sei, mas acho a frase ótima. Veja, se você não tem dinheiro de berço, acaba sendo um observador, luta por palavras estranhas, imcômodos, e tem que achar seu jeito de ser, para não ser levado pelas modas. É o mundo do estado de emergência, calamidade pública, como se disse. É a tensão brasileira em ser totalmente marginal e rebelde e lutar por uma herança que é e não é nossa.
- Vamos falar do conto "Parmênides", onde você fala de psicologia arquetípica.
- Brinco, melhor dizer que eu brinco com. Da modernidade, herdamos uma proposta estética que é "criar as regras pelas quais se cria", ou seja, toda proposta é uma proposta de possiilidade da linguagem, juntar de forma nova as velhas palavras revelando o olho que olha. A teoria de Hillman é provavelmente fantástica e séria, mas pra mim sempre teve um sentido de materializar e racionalizar o movimento junguiano de questionar o positivismo. Não sei se Jung estava certo, mas tem coisas incríveis no fato de você arriscar um salto na metafísica. O que será a realidade? É preciso continuar buscando.
Por que escrever? Por que a arte?
Será que é porque é a única coisa que não tem definição? A humanidade está morrendo por falta de aparelho de pensar, de papa para pensar, de pensamentos de igualdade, e por causa de mecanismos econômicos que podem mesmo acabar com a natureza. Sabe, talvez o mergulho numa outra consciência ajude na tolerância para diálogo: a incapacidade de entender outra lógica, a autocomplacência com nossa suposta superioridade, nosso discurso organizador, pode levar ajudar até no que pode ser a lei maior do capitalismo doente, o darwinismo social, a competição histérica e a exclusão do "fraco": a guerra para abrir mercados pode vir de um sentimento: Eles eram uma raça inferior, Eles não entendem a democracia, Eles gostam de empresas públicas ineficientes e corruptas, Eles tinham medo que suas empresas fracassassem diante da competição estrangeira, Vencem os melhores é uma lei biológica.
- Mas isso não seria do campo da filosofia? Você já foi acusado de ser filosófico demais.
- A escrita nada tem de pessoal. Ele, esse sujeito autor, pode ler sobre filosofia do Renascimento e depois passar meses sem vontade de nada, ou lendo romances policiais e vendo filmes. Por isso o trabalho da criação não deve ser visto do ponto de vista comercial, como tudo hoje em dia. A vida de um artista não segue aquela linha comum, um crescendo em direção à carros, viagens e casa, mas pode parecer ociosa até que um texto resume e significa tudo. Não é comum, mas devia ser, talvez, fazer a biografia dos livros lidos, onde se viveu de verdade. Vivemos uma época de empobrecimento extremo do pensar, a ponto de ter de reensinar a ler, pensar freia, e pegamos a primeira coisa que propõe uma lógica, aceitamos os fundamentalismos midiáticos e religiosos sem confronto. Chego a pensar que deveríamos afastar com rigor tudo que nos afasta de uma construção subjetiva - porque é a única riqueza perene, a raiz profunda.
(...)

Afonso Jr. Ferreira de Lima