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sexta-feira, novembro 26, 2010

Pedras

Quando eu era criança, meu pai dizia: “Você quer ser uma águia ou uma pedra?” Eu sabia a diferença, as águia seguiam livres, sempre melhoravam e tudo que precisavam era de um céu. As pedras eram chutadas pelos outros.

Um dia, cansado de ver tantos corpos expostos ao frio, a chuva, gente dormindo na pedra fria, tive a ideia de ligar para algum serviço da prefeitura. Um pouco surpresos, os funcionários me davam um telefone atrás do outro, até que descobri.

A primeira vez que liguei foram gentilíssimos, inclusive me ligando no dia seguinte para informar que sim, as pessoas haviam sido recolhidas.

Mas os dias frios continuaram. Eu sabia que provavelmente eles estavam pelas ruas, provavelmente o livre arbítrio da sociedade livre deveria prevalecer, mas a cena miserável dessas pessoas degradadas, alguns rostos tão sofridos que parecem mesmo alienados, sem estarem de fato drogados, me deixava chocado. Que fazer?

É claro que isso deveria levar à questão sobre o acesso, a informação, a capacidade do sistema e até mesmo sobre a história do Brasil e dessas pessoas: quem são como chegaram até aqui? Que ambiente é esse para o qual as pessoas não desejam ir (as rápidas visões e informações que eu tivera descreviam o inferno).

Passei a ligar sempre que um dia mais frio acontecia. Dia a pós dia, mudavam alguns atores, a tragédia permanecia, ainda mais que se ouve falar de redução nas vagas e na extinção de albergues no centro, tentando "limpar" à força a cidade. Provavelmente não era lógico, mas aquelas pessoas seriam lembradas de que eram seres humanos. Legal.

A ligação de cortesia sobre o resultado sumiu na terceira vez. Aos poucos o telefone passou a não atender. Tudo bem, hora do café.

Na penúltima ligação eu perguntei: "Tenho ligado quase todo o dia, será que há outra forma de resolver isso?" Uma moça simpática disse que eles eram avisados do local do albergue. Ok, mas pelo estado das pessoas, talvez isso não fosse tão fácil.

Na noite seguinte vi outro corpo, enrolado em lençol, três prédios a frente. Chovia um pouco, a noite mais fria do ano, anunciava o jornal. Lá pelas duas da manhã, acordei com a chuva que explodiu. Tive de ligar.

Na voz mais grosseira do mundo: "O Senhor tem ligado todo dia. Eu não vou mais abrir solicitação!" Subitamente me vi no papel de criminoso.

"Desculpe, eu apenas passei ali mais cedo, vi essa pessoa, queria ajudar, mas se não é possível..."

"Não é que não se queira. As pessoas que estão ali já sabem sobre o alberge!"

A voz responde, irritadíssima: "Vou abrir solicitação" e, praticamente, desliga na minha cara.

Então, percebi, que eu era apenas uma pedra.


Ajr

Legal...

by BBC/ mixbrsil

O trio Delphic, de Manchester, ficou ficou em 3º lugar em uma lista da BBC que indica os artistas que devem despontar em 2010.

Mais de 165 formadores de opinião, entre críticos, blogueiros e jornalistas, votaram.

Avesso a definições, o grupo diz que mistura a euforia da dance music com elementos emocionais da música indie, acrescentando uma pitada da “melancolia” de Manchester para criar um estilo próprio.



quinta-feira, novembro 25, 2010

As duas piores entrevistas da história

(uma delas, muito boa...)

O que leva alguém a iniciar uma entrevista dizendo “além de velho, punk e católico, como o senhor é descrito...” (sim! descrito pelo come-tudo-Murdoch - seria tanta a ingenuidade?), principalmente em se tratando do inacreditável crítico Terry Eagleton, uma das leituras contemporâneas mais intrincadas, lúcidas e abrangentes - Harold Bloom diria, muitas vezes, depois de Shakespeare!

Por que começar com a petulância sofisticada do “centro” na moda no estilo “já que o marxismo é uma piada, vamos entrevistar esse marxista”... e continuar com “o senhor disse que o futebol era o novo ópio do povo, já que está no Brasil”...

E, evidentemente, na continuação, poderia ter evitado o que soou como ironia batida sobre a "fé no marxismo", e ficado sem a merecida "o que você chama de fé... primeiro, todo mundo tem fé em alguma coisa." ("Ah, sim foi nessa fé que eu falei...")


E o que leva alguém a tratar Madonna com superioridade como alguém que "escolheu seu primeiro nome" e “concedeu ao marketing (sic)”?

Uma produção canhestra que nunca fez Vogue, claro... (ou sim!)

Bem, a eleita maior bizarrice do nosso mundo midial... Histórico...






segunda-feira, novembro 22, 2010

Yeats Unplugged

A preguiça me faz querer Yeats em pt.
Mas nada me irrita mais do que traduções empoladas, que falam mais e pior que o autor.

O pobre Whitman sofre com suas "Folhas pela refulgente Relva levadas" e a Ilíada (como já comentei) eu até transformei (bem ou mal) em teatro só pelo prazer de acabar com os "bronzelínios bronzes brilhando solincandecentes" ...
É a velha idéia de "Alta Cultura", tudo que é de fora e não pode ser apenas "bronze".

Então, aí vai, com dicionário e tudo...

THE LAKE ISLE OF INNISFREE (1892)

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made;
Nine bean rows will I have there, a hive for the honeybee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a-glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear the water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements gray,
I hear it in the deep heart's core.


Eu vou surgir e ir agora, e ir para LivreMundo

E uma cabana pequena lá fazer, feita de argila e vime

Nove fileiras de feijão lá terei, uma colméia de abelhas mel

E viver só na clareira som-de-abelha


Eu devo ter alguma paz lá, a paz vem em lentas gotas

Pingando dos véus da manhã para onde canta o grilo

Lá a meia-noite é toda trêmula, o meio-dia um brilho violeta

E a tarde cheia de asas de pardais.


Eu vou surgir e ir agora, para sempre noite e dia

Eu ouço a água murmurando graves sons pela margem

Enquanto eu continuo na estrada, ou nos caminhos cinza

Eu ouço no profundo fundo do coração.



Versão
Afonso Jr. Lima

domingo, novembro 21, 2010

Grandes entrevistas

Marcel Proust

Entrevista extraída da revista Espaço & Debates, v. 11, nº 33, 1991

* * *

Nos últimos anos de sua vida, Marcel Proust se isola no seu quarto de doente. É lá que ele escreve Em busca do tempo perdido, cujo primeiro volume é publicado em 1913. Um ano antes, no mesmo recinto, ele concede a entre­vista abaixo (extraída da revista Globe, nº 59, julho/agosto 1991).

No seu quarto, com as venezianas quase sempre fechadas, Marcel Proust está deitado. A luz elétrica acentua-lhe a palidez do rosto, mas dois olhos admiravelmente vivos e febrís reluzem sob a cabeleira desfeita, encobrindo a testa. Proust continua escravo da doença, mas já não o parece quando indagado sobre sua obra, se anima e fala.

http://www.tirodeletra.com.br/entrevistas/MarcelProust.htm
Ótimos documentários sobre livros...

Grandes Livros - Episódio 8: "Livro do Desassossego", Fernando Pessoa

segunda-feira, novembro 15, 2010

A ciência do comportamento e como aplicá-la nas empresas
CBN -Mundo Corporativo

Entrevista com Orlando Pavani Júnior, diretor-executivo da Gauss Consulting e especialista em Ciência do Comportamento

http://cbn.globoradio.globo.com/programas/mundo-corporativo/2010/01/23/A-CIENCIA-DO-COMPORTAMENTO-E-COMO-APLICA-LA-NAS-EMPRESAS.htm
Duo

Lá vem
sol
caminhamos sem rumo
o pensar se abre
há sempre outra porta

E o que importa
é estarmos juntos
criarmos ouro
criança

A esperança
passado é futuro
ouro quente
semente de paz
nossa dança

o sol
nossa vida
sem centro e sem selo
desespero,
pular por sobre
em direção à
o mar

Quixote no espaço
gente é pulo
outro ser
alegria da cartola
limonada, omelete
sozinho, no olhar
matar o dragão
dizer não ao não
tempero no aço
tudo cria
o tempo
não se aquiete
nada se repete
é o caminho
viver

não me diga a felicidade
a verdade
é estar vivo
atento
ter corpo lá dentro

rumo ao farol
nossa história
a calma do inverno
sem modelo
primavera da alma
vale
juntos
o agora é que pode
a dança
torta
do sol
a memória
da vitória
há sempre outra porta



Afonso Jr. Lima

sexta-feira, novembro 12, 2010

Amar

O Conhecimento mata
curiosidade vivifica

o conhecimento destrói
e também edifica

conhecer é julgar
e um modo de vida
sem contraditório
parasita

a verdade é o dia
o saber é finito
salva o riso
arte, pensar com sabedoria

conhecer não é
celeste
sabemos tanto
que tudo perdemos
o mundo não passou
no teste

Um pouco de saber
é sempre profundo
te dou todo o vazio
se me adorares

conhecimento é esperança
ser sem saber
o mistério
jogar faz o infinito

meu mel não cura ferida
não trabalho para agradar a Deus
Deus é meu vinho e renasce
uma criança da dúvida

pessoas: o novo
saber agora é mais que céu
além da razão
que glorifica o meu
toma a colher sagrada, símbolo de nosso jogo
a verdade e o mito se fecundam

uma brincadeira de circo
aqui e agora
com sentido de nada

mas que desenrola e desata
fingindo

pensar é pouco
pensar o coração
o não
Pensar para unir

que sabemos nós, nessa louca jornada
senão que estamos
e somos a tribo

e que o ouro aqui não é lá
e que dominar é pouco
saber semente
quer chão

knowledge is misunderstanding
conhecer para amar

Afonso Jr. Lima

sábado, outubro 30, 2010

Não criança

Teu nome era criança
Não podes passar aqui
As boas coisas da vida
Nao são para ti

Mas e se houvesse cavernas
e a verdade estivesse no mapa
se houvesse camadas
nessa tal realidade

o segurança te expulsa
menino com caixa suja
o pensamento de Fausto
em que lhe ajuda?

Teu nome era criança
mas foges do perigo
da lógica enlatada
e um poeta sabe que nada
Acaba com o infinito


Afonso Jr. Lima

sexta-feira, outubro 29, 2010

Verde


Como eu fiquei nessa situação?
Onde está o inferno, o veneno, a chama?
Olha, eu vim do interior, que lá a coisa tá feia.
Não existe o inferno e por isso também não há a paz
Passar fome na capital é outra coisa!
A alucinação é o pão nosso, eu derramei-me
Eu tenho dormido embaixo da entrada da Assembléia, não dizem que é a casa do povo?
O inverno o conforto
O guardinha sempre deixa eu ficar ali.
O barco bêbado
Devo dormir antes do último jornal
É um vão de verde onde canta o riacho
Descia rios impossíveis
Dormir não que o que a gente faz é ficar abraçando as coisinhas da gente
Não me sentia mais guiado
Daí de dia a gente fica nas Bibliotecas dormindo em cima de Machado
Muita gente diz que dá sono mesmo os peles-vermelhas
Lhes tomaram por alvo
Ah, quando eu vim pra cá eu tinha emprego sim
Pregando-os nus aos postes coloridos.
Eu era auxiliar de serviços gerais numa escola. Eu dormia lá.
Eu era inconsciente de todas as cargas levando
Ai a diretora me chamou disse: “temos de cortar custossss”.
“Custossssss!” Era eu!
O trigo flamengo ou o algodão inglês
Quando meus guias acabaram seu tumulto
Os rios me deixaram ir aonde eu queria
Que fosse gente, eu pensei, descobri que era
No burburinho furioso das marés
Nada
Aí comecei a viver nas ruas, eu e minha mochila. Eu corria!
Eu, o outro inverno, mais surdo que os cérebros de crianças,
Ah, de noite vem aquelas vans, e dão massa em copinho de caixa de leite.
E as penínsulas sem amarras outro inverno
Ou é massa ou é sopa! Argh! Será que aquilo é limpo?
Não tiveram clamores um dia
Eu levei a mão - e uma dona disse
Você? Mas você tem olho azul!
Aí eu: olho azul não enche barriga dona
Verde de fome gente rica é burra?
É um vão de verde onde canta o riacho
Como a gente toma banho?
Perdido, um buraco onde os raios caem
Ah, tem uma fábrica que domingo fica só com o segurança
Como sorri no sono um menino
Ele deixa a gente encher três baldes de água e a gente toma banho de calção na calçada
Dorme na relva a mão no peito
De calçããããão! Que nem no Big Brother
No lado direito
Sexo? É difícil... é mais companheirismo, a gente se dá a mão, essas coisas.
Dois furos no peito.


Afonso Jr. Lima/ Rambô

quinta-feira, outubro 28, 2010

Comprei, adoro!


Nova York e Leipizig são exploradas em romance juvenil

Rosana Rios e Regina Drummond autografam lançamento no dia 28

Aqueles que adoram conhecer outras cidades, ouvir novos sons e apreciar belas artes têm encontro marcado no lançamento de dois títulos que acabam de chegar às livrarias pela Editora FTD. Marcelo descobre a Alemanha, de Regina Drummond e Uma canção em Nova York, de Rosana Rios estreiam a coleção Intercâmbio que remete a uma verdadeira troca de culturas e novas experiências.

No dia 28 de outubro, as autoras que já tem diversos livros publicados, autografam seus lançamentos na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. A proposta da coleção é trazer para o leitor a grande diversidade que as experiências de intercâmbio proporcionam.

Em Marcelo descobre a Alemanha, Regina Drummond revela através do olhar do protagonista que viaja ao país para ficar durante um ano, aspectos históricos e culturais da Alemanha, em especial da cidade de Leipizig. O Muro de Berlim, a Segunda Guerra Mundial, a Baviera, a vida e a obra de Goethe formam cenários deste livro.

Os sons das ruas de Nova York são o pano de fundo de Uma canção em Nova York de Rosana Rios. Marcada pelo suspense – característico da obra da autora –, a narração traz a multiplicidade da vida numa das maiores cidades do mundo, habitada por personagens vindos de diferentes partes do planeta.

O lançamento acontece às 18h30 da próxima quinta-feira, dia 28 na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, nº 509.

Lenine e sua banda arrasam!

sábado, outubro 23, 2010

Corra como um Coelho: no in-joke.



O título pode ser perigoso: seria uma brincadeira de meninos ricos sobre Alice, pop inside joke, vamos ser loucos, vamos ser velhos?

A coisa mais difícil, hoje, é ser surpreendido. Arte é ousadia, mas como ousar se vivemos uma tirania das normas: sexo, beleza, O Sucesso? Idéias, marcas, política global. Para sermos aceitos temos de ser corretos: gestos, livros, excesso.

Somos a sociedade exausta de novidades, e carente, enquanto a outra parte está suja e têm o estômago em coro. Já vi tanta coisa que é chata, não tem rebeldia, é só rebelde de novo. Não: cenário vintage, figurino lindo, Broadway, italianos burlescos, no momento da Itália suvenir.

O gesto, que estabelece, divide, sonha, nasce de uma postura, de um tema fundamental, jogo de atores ancestrais e externos, um interesse ético-(sim)político. Um nada-sei, que desperta o desejar, que alimenta de imagens o fio que sustenta tudo invisível.

Então, como os dadaístas eram birutas, parece fácil ser artista. Acabaram os critérios.

Contestação segundo o manual, inovação para inovar, atualidade européia, a favela de Pixinguinha, favela enlatada.

Viciados em adrenalina, vítimas, gozadores profissionais. Tudo o que poderia causar choque foi ocultado: pobre rico, pensar junto, pessoas gordas, distribuição, vida cotidiana. O contexto. Por isso somos chatos, não estamos em lugar nenhum, tudo é igual a tudo. A exploração foi excluída, nosso discurso morre. Bairros, países, massas inteiras sumiram do mundo.

Se meu filho atrapalha meu trabalho, perco o filho: existo quando me respondem. O processo é mais ou menos esse, como na família onde um filho morto cria uma sombra: se é selva, cada um por si, se temos de fazer parte à força da minoria dos privilegiados, se não podemos ver o todo, prever, participar e ter esperança, essa sombra gera angústia que nos aprisiona no mesmo, na incomunicação, no julgamento, o que mata a renovação. A vingança do morto.

E o coelho? Nonsense sem perder a cabeça. Porque Lewis Carroll (calma, ele não aparece!) só existe se tudo for lógico.

Sim, a sociedade do entretenimento da informação, zorra total (o mal é ser exclusivo), onde New York é mais próxima que M´boi, estereótipos, onde a clínica psicanalítica fala de sombras, espectros, todos são de outro planeta, sem chão, sem “raiz e fibra”, um Orlando rolando por aí.

Fernanda Camargo e sua trupe de inova-tores (Tomás Decina, Pedro Cameron e Carolina Bianchi, um gênio da comédia-dark), consegue rir de si mesma, falar da vida de plástico, colocar a arma na boca da personagem, levantar a plaquinha de aplauso, pensar.

Não é fácil.

Afonso Jr.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Arrasou, bee...


Mika- Rain

Eu percebi que minha rua nunca teve "moradores", de repente...

Pode? - do Conversa Afiada...


Governo Kassab tenta expulsar mendigos jogando água fria nos colchões



“Brasília Confidencial” via Azenha:


Na contramão das políticas de inclusão lançadas pelo presidente Lula em todo o país, em São Paulo os governos de José Serra (PSDB) e de Gilberto Kassab (DEM) se tornam, a cada dia, mais excludentes.


Além de frequentes cortes de gastos com programas sociais, particularmente na capital paulista a Prefeitura tornou rotineiro um tratamento cruel aos miseráveis, inclusive com o uso de jatos de água fria sobre colchões e papelões que homens, mulheres e crianças juntam para para vender e usam para dormir.


Um levantamento de Brasília Confidencial mostra que até marcas da propaganda nacional do Governo Serra, como os programas Renda Cidadã e Ação Jovem, foram reduzidos em todo o estado.


Na contramão das políticas de inclusão lançadas pelo presidente Lula em todo o país, em São Paulo os governos de José Serra (PSDB) e de Gilberto Kassab (DEM) se tornam, a cada dia, mais excludentes.


Além de frequentes cortes de gastos com programas sociais, particularmente na capital paulista a Prefeitura tornou rotineiro um tratamento cruel aos miseráveis, inclusive com o uso de jatos de água fria sobre colchões e papelões que homens, mulheres e crianças juntam para para vender e usam para dormir.


Um levantamento de Brasília Confidencial mostra que até marcas da propaganda nacional do Governo Serra, como os programas Renda Cidadã e Ação Jovem, foram reduzidos em todo o estado.


O Movimento Nacional da População de Rua estima que o número de moradores nas ruas da cidade de São Paulo aumentou de 12.000, em 2005, para 20.000, em 2010. Quase dobrou, portanto, em cinco anos. Ao mesmo tempo, o número de vagas nos albergues diminuiu.


De 2008 para cá o Governo Kassab desativou dois albergues que tinham 700 vagas mas chegavam a reunir mil moradores de rua. Outras 485 vagas serão canceladas neste ano. Nos três anos anteriores, incluído o governo municipal de José Serra, 350 vagas foram eliminadas.


EXPULSÃO

Os mendigos superlotam os viadutos do Centro da capital, de onde Serra tentou primeiro e o Governo Kassab tenta agora expulsá-los à força de jatos de água jogados pelos caminhões da Prefeitura nos colchões e nas caixas de papelão que recolhem para vender e onde dormem.


A intenção de Kassab é afastar os mendigos para a periferia, longe das vistas dos eleitores das classes média e alta. Nos últimos dias, no entanto, os mendigos têm se espalhado por áreas nobres da capital irritando os moradores desses tradicionais redutos de votos tucanos.


A Prefeitura de São Paulo informa que ainda pretende encerrar, neste ano, os serviços de mais dois albergues, com quase 500 vagas, porque estariam em condições inadequadas. E garante que procura outros imóveis para instalar albergues.


Não há, no entanto, nenhuma previsão de instalações nem previsões orçamentárias para os sem teto paulistanos. O que o Governo Kassab tem feito, além de aplicar o método cruel de afastar os mendigos, é instalar algumas tendas com banheiros químicos que não funcionam à noite.



http://www.conversaafiada.com.br/antigo/?p=27340

quarta-feira, outubro 20, 2010

A francesa Yelle:

segunda-feira, setembro 20, 2010

“Roberto Zucco”

Pois é, eu saio da minha casa, ando pelo centro à noite, espero uns 30 minutos e vou ao teatro ver “Roberto Zucco”. Vocês já ouviram falar daquele texto que em 10 min te entediou?

("Não se trata somente do dramaturgo francês contemporâneo mais encenado no mundo: trata-se de um escritor completamente singular. (...)Passados mais de dez anos de sua morte, ele aparece como um clássico contemporâneo." Fica difícil saber se é a filosofia ou a montagem...

http://www.opalco.com.br/foco.cfm?persona=autores&controle=7 )

Salvam duas grandes atrizes, a irmã e a madame francesa robótica e um irmão brabo bom. E a movimentação da arquibancada, bom. Faz algum sentido incesto e virgindade hoje? Bordel com boá, menina com laço, cara branca, bobs no cabelo... Tem cadeira de interrogatório, momento Lady Macbeth louca, videozinho, briguinha, monólogo sobre a vida...

Ontem assisti a uma entrevista do Boni e ele falou da falta de “conteúdo” na TV brasileira, que era preciso trazer “gente de fora” (como ele fez com Dias Gomes, etc.), que estejam perto do comum e do cotidiano. Grande verdade: em um Brasil cheio de moradores de rua (vi um caído com sangue e moscas na esquina hoje), 1 milhão de dependentes de crack, uma classe média zumbizada que não vê sentido na vida, vestir roupa de Nelson Rodrigues cansa.

E levanta a pergunta: por quê? Para ser “artista”? (A Boa Companhia, em contrapartida, arrasa mesmo quando o enredo não é tão bom, como em “Portela, patrão; Mário motorista”. “Tão bom”, mas bom, com começo meio e fim e um trabalho de corpo e interpretação que o valoriza. Uma reflexão sobre a exploração e a violência da vítima que “denuncia” sem chatear).

O mero acúmulo de palavras e cenas aleatórias lembra o jornalismo de “agenda” de que fala Boni, que repete o mesmo e não investiga nada. No fundo reflete uma falta de critérios, um “vale tudo” moral, onde a arte é neutra como um canal que não pode ofender ninguém.

(Duas cenas exemplares: no Fala Brasil, da Record, logo após noticiar que uma mulher foi baleada na cabeça, a repórter aparece rindo para a próxima notícia; hoje, novamente, após falar sobre um pedófilo que vivia com uma menina de 11 anos, aparece toda contente para falar de um periquito). Esterilização mesmo da violência nossa, interna, pois o ser humano já seria um perigo suficiente se algo nos alojasse no corpo. Pinter e Sarah Kane aí, dando sopa...

Sorte que uma irmã incestuosa (que dá o texto com toda a sutileza possível neste texto) e uma dondoca parisiense cômica, histérica e sorridente, uma cena legal ou outra (o banco da praça, um musical melodramático, movimentos de uma multidão solitária, etc.), mas já no fim e que não levam a um crescendo de inquietação, salvam o que poderia ser uma didática geral do “oh, o mundo sem amor.” Para que?

Roberto Zucco - Espaço dos Satyros Um. Praça Franklin Roosevelt, 214, telefone 3258-6345. 6ª e sáb., 21h30; dom., 18h30. R$ 30. Até dezembro.
Somos felizes


Quando nossa mãe nos teve, sabe, foi há muito tempo, muito tempo, nós passávamos o dia todo com fome esperando papai chegar com a caça, havia mato na época, e a gente comia aquela comida e mamãe lambia a panela, ela ficava sem. E minha avó, ela nos contava, ela colocava uma pedra na panela e ficava brincando de roda com eles, pra distrair da fome. Bebiam a água e iam dormir para não lembrar.


O sono é o melhor amigo dos que sofrem. Daí meu pai veio da Bahia, pro interior, sabia ler e sabia escrever, teve poucas aulas de letras, e os irmãos foram ajudando, o resto fez por conta própria. Quando começou a trabalhar aqui, fez um curso e formou-se na quarta série, pode pagar o aluguel. Minha mãe teve cinco filhos: um morreu dois dias depois de nascido. O terceiro filho morreu com 12 meses com alguma coisa parecida com catapora. O quinto, o médico deu medicação errada, também morreu. Minha mãe sofreu muito. Aí eu tive meus filhos. Com eles grandes a empresa disse que ia dispensar os funcionários. Meu marido desempregado. Um tio disse para nós irmos para São Paulo. Minha irmã disse que pagava quando chegássemos lá, mas o homem do caminhão não aceitou. Meu sogro deu um cheque sem fundo. Viemos eu na frente com o motorista e eles sentados atrás, com uma lona preta, só paramos duas vezes para tomarmos água.

Chegamos na casa, só tínhamos café, não tínhamos nem açúcar. Lembrei de minha avó, sopa de pedra. Minha mãe, sofrida, enterrando os filhos. Lembrei de uma mulher que vi no hospital, quando meu marido adoeceu: ela pegou um lanche sujo debaixo de uma maca que um menino jogara fora.

Pensei que eu tinha sorte. A vida não é apenas o que deveria ser é como nós somos mais do que fomos. Por sorte meu marido achou umas moedas no armário. Passamos assim até que minha irmã chegou. Meu marido estava muito nervoso, eu disse: vamos vencer. No outro dia fui procurar emprego. Hoje meus filhos estão formados, sempre ensinei não pegar nada dos outros, e compramos uma casinha, somos felizes.



Afonso Jr. Ferreira de Lima

quinta-feira, agosto 26, 2010

Rafinha cria o Centro.

Anteontem, assistindo "A Liga" vi uma síntese dos problemas que a TV pode apresentar.
O "Rafinha" é aquela flor que foi capaz de falar que "macaco..." (fazendo o Hélio de la Peña se zangar) e dos 10% de tudo que o Cristian Pior ia levar, levando uma bronca pública. Não é sua culpa: nosso olhar é cego, nosso realismo bebeu do delírio modernista e ficou vendo sem ver.

Não éo caso, claro,mas eu conheço aquela (minha) classe média gaúcha capaz de ser ainda patriarcal, provinciana e modernosa (vista Nike, seja radical!) por que vê apenas um pedaço. O mais impressionante é que ele não é um zero-instrumento do capitalismo (como um Mainard) e parecia bem simpático: o que mostra mais ainda a face do "medo" e do "impacto-que-vende-torna-se verdade".

[Isolados do vale tudo da megalópole, vivendo apenas entre três etnias, sem a circulação de classe de onde todos vendem e todos compram, com ar aristocrático de “quem roubou o meu queijo”, a elite gaúcha vive no século XIX. É uma elite que ainda pode simplesmente desprezar os “pobres”, enquanto aqui é preciso dar algumas migalhas... (15 estações de metrô em 16 anos). Não é a toa que temos um símbolo de monopólio de comunicação e ser artista é estar lá.

São várias piadinhas de "veado" no CQC. Ainda tem graça... (“É um povo mais aberto”, quando a Argentina liberou o casamento gay. Quem tem meio neurônio ri culpado. Bem, que tal fazer piada de judeu?)]

A TV tem de falar rápido: saber o que já sabemos.
Bem,a reportagem reduziu o centro de São Paulo a "ambulantes, viciados, imigrantes e sexo",como sintetiza o apresentador ao final do programa! Uma imagem distante das lojas e uma mulher na parada de ônibus com a pergunta "você se sente segura aqui?" é tudo que se tem a dizer e a mostrar do lugar onde caravanas vem do Brasil todo para ver exposições de arte e comprar suas roupas de boutique! Se andasse uma quadra daria no Franz Café, meia, no Plaza Luz e duas no Bellapan, o pão de café que saiu an Ana Maria Braga, Estadão e ruma à Veja!

Onde está o Sujinho, o Teatro de Arena (onde uma viatura de polícia estava fazendo a segurança na última peça que vi), a Oficina Oswald de Andrade e A Rota, a Fatec, etc. etc?

Será que nosso artista nunca foi ver Harold Pinter na Roosevelt? Será que a feira onde circulam centenas de pessoas (um amigo estrangeiro é que me apresentou), onde já levei diversas caravanas de turistas sem ter problemas pode ser reduzida aos dois malandros que ele apresenta? A mulher responde o que qualquer um em qualquer lugar responderia: falta segurança. (Mesmo na República, à noite, há uma viatura da polícia!) Mas uma amiga foi assaltada na Paulista, né?

Em um mundo de política cínica onde a exclusão começa pela "degradação" da imagem, pois o que não produz pode ser esquecido, e onde a TV tem esse papel formador, não valeria apena mostrar as velhinhas fazendo caminhada na Luz,os universitários na rua Direita, a Ópera do Municipal e a bela nova Mario de Andrade, excelentes restaurantes, como o Nutrissom, e a UNG do Shopping Light?

O estereótipo significa mostrar o que eu penso: é assim que "a elite" foge e a distância se reafirma. Para invadirmos o Iraque, primeiro eles tem de ser "fanáticos" que tratam suas mulheres mal. Para excluir toda uma população,primeiro eles tem de ser "excluídos". Um "favelado" é incorrigível, né, diferente da gente... Quando Ele, Mr. Comunicador, chegou na cidade, alguém disse: “Hei, olha o Centro...” E o Centro se fez.

Coisa diferente seria mostrar que, apesar do esquecimento da Prefeitura, da luz insuficiente, policiamento fraco em ALGUNS PONTOS e não atendimento aos dependentes do Crack, sim, o Centro vive (muito!) e faz parte da cidade.

quinta-feira, julho 22, 2010

O crime

O Brasil está estarrecido com o crime. Nossa primeira reação é descrever os suspeitos como psicopatas, mas aonde isso vai nos levar?
Onde se aprende a tirar os obstáculos do caminho com violência? O diálogo existe para a maioria da população?
Há, apesar de tudo, muito o que pensar. Por exemplo, viu-se que o pai poderia ser um pedófilo. Muita gente do meio psi me conta que isso é muito mais comum do que se imagina, ainda mais entre as classes desfavorecidas, onde, barbaramente, serve até mesmo de “sustento” da família.
O ocultamento de corpos é prática comum entre os criminosos organizados. Até mesmo o número de óbitos acabou baixando.
“Quem nunca saiu na mão com uma mulher?” – disse Bruno. Será que as mulheres ainda são vistas como objeto, são espancadas, são submetidas a um machismo grosseiro? Um grupo de professores que visitou o nordeste voltou chocado com os abusos dos pais, abusos sexuais, espancamentos, etc. “O mesmo machismo da favela em São Paulo”, disse-me uma amiga. Isso nos lembra do “Puta!” na universidade e da própria dizendo que a aluna era culpada.
É inevitável pensar sobre o fato de que existem grupos de extermínio, alguns ligados à polícia. Muitas mortes podem simplesmente não ter atraído a mídia. Volto a relatar o que disse uma moça que trabalha com a UNESCO: a imprensa tem medo de enviar repórteres à “periferia”, o que torna a violência invisível.
Ainda há a questão das meninas que foram adormecidas pelo sonho de sucesso, representado pelas modelos e celebridades (até do futebol). “Tem jogador que liga dos Estados Unidos, sabe que você já saiu com vários, e quer negar, é complicado!”
Um dos amigos conta que ele e o goleiro passavam fome e comiam pipoca na parada de ônibus – até ganhar 200 mil Reais por mês. Será que criamos uma sociedade de excluídos, que vende a ilusão de que o luxo é o sentido da vida, e, portanto, exclui da humanidade ricos e pobres? Jovens adolescentes estupram uma menina, e seus parentes, donos de uma rede de TV, dão a lição: não serão julgados pelo público. Nada pode explicar a maldade, mas é possível olhar o campo fértil que a fez germinar.
A polícia também parece estar acusando e condenando – é sociedade do espetáculo? Uma semana depois a TV repetia infiniatamente o já sabido: notícia ou delícia (sádica)?
Como a polícia não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é preciso a cooperação, o consentimento, o que só se alcança com a distribuição da felicidade. A pena não basta para criar a ordem, é preciso valer a pena. A opressão e a injustiça levam os homens à idolatria da força.
Benjamin achava que um pedaço da realidade espelha o todo. É interessante se transformarmos o horror em análise. Uma sociedade onde a lei é para a minoria ensina que sempre é possível resolver “no braço”. Um governador responde a um jornalista que o questiona sobre os pedágios: “Seu discurso é apenas o discurso do PT”. Onde o diálogo? “Resolvam o problema” - é uma frase que poderia estar na boca de muitos senhores feudais econômicos e políticos.

quinta-feira, julho 15, 2010

PORQUE CONTINUO SENDO LULA

Pedro Lima
Economista da UFRJ



FHC, o farol, o sociólogo, entende tanto de Sociologia quanto o
governador de São Paulo, José Serra, entende de economia.

Lula, que “não entende de sociologia”, levou 32 milhões de miseráveis e
pobres à condição de consumidores; e que também não entende de
economia; pagou as contas de FHC, zerou a dívida com o FMI, faz a economia crescer em ritmo chinês (2010) e ainda empresta algum aos ricos.

Lula, o analfabeto, que “não entende de educação”, criou mais
escolas e universidades que seus antecessores juntos. Foram 14
universidades públicas e estendeu mais de 40 campi (FHC não criou nenhuma em 8 anos), e ainda criou o PRÓ-UNI, que leva o filho do pobre à universidade [meio
milhão de bolsa para pobres].


Lula, que “não entende de finanças nem de contas públicas”, elevou
o salário mínimo de 64 para mais de 291 dólares [valores de
janeiro de 2010], e não quebrou a previdência como queria FHC.

Lula, que “não entende de psicologia”, levantou o moral da nação que vai sediar a Copa de 2014 e a Olimpíadas de 2016, e disse que o Brasil está melhor que o mundo. Embora o PIG (Partido da Imprensa Golpista), que entende de tudo, diga que não.

Lula, que “não entende de engenharia, nem de mecânica, nem de
nada”, reabilitou o Proálcool, acreditou no biodiesel e levou o
país à liderança mundial de combustíveis renováveis [maior
programa de energia alternativa ao petróleo do planeta].

Lula, que “não entende de política”, mudou os paradigmas mundiais
e colocou o Brasil na liderança dos países emergentes, passou a
ser respeitado e enterrou o G-8 [criou o G-20].

Lula, que “não entende de política externa nem de conciliação”,
pois foi sindicalista brucutu; mandou às favas a ALCA, olhou
para os parceiros do sul, especialmente para os vizinhos da
América Latina, onde exerce liderança absoluta sem ser
imperialista. Tem fácil trânsito junto a Chaves, Fidel, Obama,
Evo, etc.

Lula, que “não entende de mulher nem de negro”, colocou o primeiro
negro no Supremo (desmoralizado por brancos) uma mulher no cargo
de primeira ministra, e que pode, inclusive, fazê-la sua sucessora.

Lula, que “não entende de etiqueta”, sentou ao lado da rainha (a
convite dela) e afrontou nossa fidalguia branca de lentes azuis.

Lula, que “não entende de desenvolvimento”, nunca ouviu falar de
Keynes, criou o PAC; antes mesmo que o mundo inteiro dissesse
que é hora de o Estado investir; e hoje o PAC é um amortecedor
da crise.

Lula, que “não entende de crise”, mandou baixar o IPI e levou a
indústria automobilística a bater recorde no trimestre [como
também na linha branca de eletrodomésticos]. “É só uma marolinha”, disse ele. Ninguém acreditou, mas ele estava certo.

Lula, que “não entende de português nem de outra língua”, tem
fluência entre os líderes mundiais; é respeitado e citado entre
as pessoas mais poderosas e influentes no mundo atual [o melhor
do mundo para o Le Monde, Times, News Week, Financial Times, The Independent e
outros...].


Lula, que “não entende nada de sindicato”, pois era apenas um
agitador;.. é amigo do tal John Sweeny [presidente da AFL-CIO -
American Federation Labor-Central Industrial Congres - a central
de trabalhadores dos Estados Unidos, que lá sim, é única...]e
entra na Casa Branca com credencial de negociador e fala direto
com o Tio Sam lá, nos "States".

Lula, que “não entende de geografia”, é ator da [maior] mudança geopolítica das Américas [na história]. Lula, que “não entende nada de diplomacia internacional”, pois
nunca estará preparado, age com sabedoria em todas as frentes e
se torna interlocutor universal.

Lula, que “não entende nada de história”, pois é apenas um locutor
de bravatas; faz história e será lembrado por um grande legado,
dentro e fora do Brasil. (Menos pelo PIG, é claro)

Lula, que “não entende nada de conflitos armados nem de guerra”,
pois é um pacifista ingênuo, já é cotado pelos palestinos para
dialogar com Israel.

Lula, que “não entende nada de nada”... é bem melhor que todos os outros...!

quarta-feira, julho 07, 2010

J.L. Goldfarb

Conheci J.L. Goldfarb porque freqüentamos a mesma universidade. (Ele casou com a moça inteligente). Não somos amigos muito próximos, mas isso apenas significa que, em um mundo marcado pela multidão que mecaniza, ele tem muitos amigos e trata a todos com bondade.

Abrindo livros, voando por ai, organizando e juntando. Sempre achei que a função de um professor é despertar o desejo dos alunos, porque a intelectualidade enquanto acúmulo pode decair em arrogância sem o sopro da vida.

(Afinal, o que conta, é achar seu próprio desejo, quem sabe, diria Lacan, porque - ai de nós, que não podemos viver dentro das linhas e vivemos - tudo nos interessa e todos os livros formam uma só escrita que luta contra a indiferença e o preconceito).

Claro, ele faz parte daquele povo riquíssimo cujo tesouro ostenta como Livro (era o que os imigrantes do séc. XIX tinham na mala, porque não vieram acorrentados). Mas há ainda mais (como os 49 significados de uma palavra da Torat: há a essência da comunicação, que é a tribo, o olhar, a fratria pelo diálogo.

E ele sai por aí, distribuindo livros (foi pra ele esse refrão) e cantando as maravilhas de se ter um irmão. E é por isso que a gente tem esperança, porque ele vê o que não vemos, e sabe nos contar. (Frei Rovílio Costa, de Porto Alegre, foi outro desses chefes de tribo que erguem Templos à Palavra, criando vínculos onde, por exemplo, a cidade do meu pai, Bom Jesus, perdida no tempo, reviveu). Então, amigo, quando tivermos passado, os herdeiros herdarão a terra, uma semente planta a outra. E está feita a humanidade.


Saramago
É muito emocionante para mim ver o amor do povo português pelo seu poeta, que mudou de ilha. Na biblioteca converso com a funcionária que diz não ser grande fã de Saramago, e eu digo que também não sou um apaixonado, mas penso que ele me ensinou a pensar em termos de cores e sensações, numa nuvem vermelha que corre sem cessar.

Eu só conseguia ver um céu alaranjado e roxo enquanto um Anjo dourado convidava Maria para entrar. (Só li dois livros dele, porque só temos 100 anos, e dá um livro por minuto). Eu digo que admiro sua figura combativa, sempre ao lado dos pobres, sempre não-crente. Pergunto se ela viu o filme, ela diz que não, que os estupros do livro já foram de bom tamanho.

“Mas, infelizmente, essa foi a história da mulher” eu digo, “ele retrata um mundo primitivo onde vale tudo” e, dizendo isso, entendo: “Ou seja, ele fala de hoje”. Penso que deu um choque geral, mostrando um animal que come carne, no mundo congelado do burguês novo milênio, anestesiado com maravilhas luminosas e a velocidade irrefreável da ambição.

Onde o conhecimento se solidifica em castelos auto-referentes. Sempre achei que nas portas dos banheiros estão as verdades escondidas, onde a capa de elegância não pode segurar o fascismo reinante, e é lá que as encontro. (Na faculdade, pensei em escrever um ensaio sobre a quantidade de números de telefone entre homens, porque macho que é macho se esconde).

“Sou paulistano e paulista, mas digo que os nordestinos são mais inteligentes”, escreve alguém. “Senão não teríamos ótimos porteiros e manobristas, o proletariado que nos serve!” – responde outro mais revolucionário. “Podem ser inteligente (sic), mas são tosco (sic)”- responde outro. Ai está um mundo onde o desqualificar vem antes do dominar, porque a base do imperialismo é a incompreensão. Então, eu compreendo Saramago.
Gift

Quero meu dada particular

um anjo descendo a escada

o que eu tenho é uma canção

maluca, o mundo, complicado

é simples, sim, um arco-íris

e mil luzes de se perder

o africano em mim tem tambores

o mongol quer cavalos no infinito

um sorriso, um abraço, o limite

caminharmos nessas florestas

ou dizermos que tudo é uma fraude

Pode ser que eu corra na chuva

Pode ser que tenhamos um filho

Que aprandamos a perdorar

Que você me faça inquieto

e eu durma em seus braços

um colapso, uma rosa, os campos todos do mundo

Eu sou do coral da savana

Falo em nome de Buda

Sou a selva de ouro

com beijos e abelhas

Sou o vitoriano corpo que treme

Vejamos as estrelas antigas

Na capa do gaúcho, deitados no úmido verde

Não sei começar e nem perder

E você pode dizer: isso é seu

Agora está feito

Meu coração não sabe como

Você vai ser seu dono


Afonso Jr. Lima

quarta-feira, junho 23, 2010

Agora
Quando o fascismo chegar
Haverá mortos nas ruas
Mortos ou não
(São os dispensáveis
no mundo da informação)
E todos pensarão que é
Ainda o mais belo dia
Quando ele chegar, festivo
Mal saberemos seu nome
Os pobres serão presos
A boca dos criadores
Haverá um só pensar
E a fala bruta da morte
Haverá alegria e risadas
(tortura legalizada)
E a pedra-paz do mais forte
O fascismo precisa sim
De uma boa dose de sonho
(um sonho sem som, nem cores)
Sonhar que alguns são
Melhores
Já botas marcham fora da caserna
Os mortos pedem suas valas abertas
Uma dominação injusta
Não pode ser eterna
Liberdade: onde falam os povos
Os homens que se governam?

A selva cresceu lá fora
(homem-cabeça de caixa,
500 anos para fabricar)
Voltaram os castelos
Igualdade: para todos,
sala vermelha com escultura
Cidade em mil pedaços, vaidade
Como pode o surrealismo
Transformar a sociedade?
Fraternidade: promoção na vitrine
Franco por muito pouco
A velha miserável mija na rua
Herdeiros de Nero louco
Os que chegaram antes
(mas depois)
São os novos senhores da terra
Fecham as portas a seus pais
Que eram gente como essa
Se o fascismo chegar
serão felizes os homens
Que precisam repetir
(as coisas como estão
são horrores que virão)
Não haverá Lorca ou aurora
Seremos atores
Quando chegar
Todos os poetas serão arautos
dos tempos passados
daqueles que morreram
(mas em grega, branca glória)
Insulto será falar
dos dias que vivemos
Os jovens saberão muito
Mas nada do que estão vendo
A dor e opressão do mundo
Alegremente esqueceram
Os pensadores serão
Aqueles da torre dourada
(saberes sem contexto)
encantados no espelho
e o mundo desfeito em nada
Para os negócios é bom
Que ninguém pense diferente
Há nova ordem e progresso
No banquete da Serpente
Quando o fascismo chegar
(Faremos nossa opção)

A rua será silenciosa
Não haverá amores - desses doloridos
Porque não há vida sem contradição -
Todos que discordarem
Serão, assim, malfeitores
Quando o fascismo chegar
Haverá dor e noites com medo
Mas não haverá um sonho
De um dia sem segredos
Afonso Jr. Ferreira de Lima

sexta-feira, junho 18, 2010


Ontem vendo o Jô, quase tenho um treco com a entrevista: "O Serra fez o teste do pezinho, eu estava lá..." Gente, um novo Collor?

sexta-feira, abril 30, 2010

A Era Pós-Veja

O Serra rindo pode ser uma capa histórica de "maquiagem". Alguma vez algo representou tão bem a "realidade paralela" da "opinião pública" privada?

Então...
Mais um amigo conta que foi "expulso" do metrô da Linha Vermelha pela quantidade de gente que entrou, fazendo-o sair pela outra porta. No Encontro dos Grupos de Teatro Latino-Americanos, no Centro Cultural São Paulo, os grupos falam do desmanche da lei de fomento (que patrocina 30 dos 400 grupos da cidade), assim como demais medidas repressoras contra professores, periferia, a própria polícia!

Como já foi dito:


"Acompanhamos com preocupação por causa da violência da polícia, é um desrespeito com as pessoas. A periferia de São Paulo hoje está sitiada, qualquer coisa é motivo para a polícia entrar e matar as pessoas"

(Antonio Maffezoli Leite- coordenador auxiliar do Núcleo Especial de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo)

Temos ainda a propaganda descarada da Globo na campanha do Serra-FHC-2, sua transformação em TV do Partido. Como comentou P.H.A.:

“Deve ser uma retribuição ao agasalhamento do terreno que a Globo invadiu por 11 anos e o Serra transformou numa escola técnica para formar profissionais para a Globo. Uma mão lava a outra. E cada vez 'mais !”.


Ou seja, repressão da comunicação, de um lado e repressão da população, de outro.

Dentro desse contexto proto-fascista, vemos a Veja anunciar-criar uma Era Pós-presidente-mais-influente-do-mundo-pela-Time. (Ou seja, nem os liberais mais originais se equivalem ao nosso P.I.G)

Seria mais realista falarmos de uma Era Pós-Veja, pelo menos isso já aconteceu.


Era uma vez a Veja como informação e jornalismo (sem falar na transformação em jornalismo do "não-veja" . E, precisamos ficar atentos para evitar que a visão seja perdida por completo, retornando ao fascismo: pós-veja, seria então o tempo sombrio do consenso!)

Como coloca Nassif (agora processado!):

"O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos
foi o que ocorreu com a revista Veja.
Gradativamente,
o maior semanário brasileiro foi se transformando em
um pasquim sem compromisso com o jornalismo,
recorrendo a ataques desqualificadores
contra quem atravessasse seu caminho,
envolvendo-se em guerras comerciais
e aceitando que suas páginas e sites abrigassem
matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico".

Assim fica como clássico o testemunho de um filho admirando o pai indignado, que cancelou sua assinatura:

"Hoje, ele cancelou a renovação da Revista VEJA, aquilo que para ele já foi seu meio de conhecimento do mundo, depois de chamar de “idiota” a entrevista daquele herói das páginas amarelas (sobre a "inexistência de motivos para temores com o aquecimento global").

Antes, havia criticado fortemente um artigo de Reinaldo Azevedo publicado na Revista, em que Azevedo falava atrocidades sobre Paulo Freire: “meu filho, veja que besteira esse homem está dizendo sobre Paulo Freire”.

Hoje, ele operou uma mudança nesta realidade tão acostumada à perpetuação do estabelecido. Hoje, para o mundo, como em todos os dias da minha vida para mim, meu pai é um herói".

quinta-feira, abril 01, 2010

A gente só percebe que há censura no Brasil - e o quanto de preconceito existiu da parte da classe média e da mídia sobre ter-ou-não-diploma (argh! - aprender com a experiência, diz o Bion!) quando vê o Lula falar na TV que fez mais pela educação blá blá blá. Nossa!

O pastor pelo menos não nasceu na elite. Enquanto Serra beija a esposa em outro jornal...

terça-feira, março 30, 2010


Sim, Justiça!


Benjamin, ao que parece, achava que em qualquer ponto da superestrutura aparecia a infra. Não muda nada no Brasil, mas é catarse geral. Só sei que foram 152 milhões de votos, como se todo brasileiro tivesse estado ali! ("Votei mais de 3.000 vezes para o Dourado vencer", diz Déborah Secco. No piada.)

Diante da nossa insegurança pós-moderna por identidade, do amor dos brasileiros por pessoas, do poder de expansão da TV, etc., sim é um fato. E também (o oposto também, Aristóteles fez o princípio de não-contradição porque nunca esteve aqui) o talvez país mais "pobrefóbico" do mundo acha que ignorância é feio... depois de tanta escola e faculdade!

Na véspera se leu:

"O participante que tem uma suástica tatuada no braço e levanta da mesa quando o assunto é sexo gay está na final". (Patrícia Kogut, comentando alguns fãs doidões. Ainda a velha história da suástica, ai que sono... coisa de "teen" só para poder dizer: tem mais de 3 mil anos!)

Pois é... Dourado vendeu, ufa! O cara que era o malvado e ia sair já-já (frase besta do Mc, ele já teve a chance, ssss....)
O choro de 1 milhão de Reais, como com Bam-Bam. O protagonista, sempre nos disseram, é aquele que muda...

Apesar do ódio que despertou e de seus polêmicos e micos dizeres (tipo hétero não pega AIDS e "pessoas normais", se referindo aos (não) gays), ele mostrou carisma conquistando pelo menos a Máfia Dourada, que dizem ser mais de 100 mil seguidores dispostos a votar noite e dia...

O mais importante: não agrediu ninguém (depois da transformação), não implicou (é, acontece né Dc) com quem lhe deu a mão.

(Minha segunda favorita era a Lia, histérica, mas percebia bem o jogo. Aliás, ela salvou Dourado. O lance mais fenomenal que eu já vi no BBB foi quando ela sacou a Tss, votou nela chorando e tirou a vilão no Ato 1. Cadu conquistou o Brasil, bom, bonito e leal, mas não se expôs tanto... talvez, por isso só ganhou 11% dos votos).

Esta edição foi uma das mais chatas pelo merchan exagerado
(Folha: "A rede fez mais de 60 merchandisings durante os 78 dias de confinamento, média que supera uma ação a cada dois dias, e teve 25 anunciantes. ")
, em cada prova, em cada escolha e causou um certo incômodo quando parecia anunciar todo mundo pela profissão: o advogado, a doutora (em quê, gritaria?), a dentista...

(Nossa doutora, francamente... texte de QE pra entrar!)
Mas a seleção provou ser bem feita, pela diversidade: excluídos os excluídos, os "feios", selecionados os homens-mulheres-objeto, tudo deu certo.

Depois de tanta gente falando em processo, vamos aos símbolos.
A bruxa malvada dessa edição ficou até difícil de escolher, mas... Tss é campeã. Ela sup-er-a. Prefiro a ignorância autântica de Dourado (posso rir dele...) que o politicamente correto-falso de uma Tss. "Na fotinha" sempre. (Né? A explosão da publicidade seja-eu e a falta de igualdade apareceram na TV!)

Pareceu-me o símbolo de (muita gente de) uma geração acostumada com a aparência como essência: parece que usou mecanismos suspeitos para ter 120 mil seguidores, só pensava em jogar, fez sexo para ficar na casa... Talvez represente muito de um jovem criado com a idéia de que "tudo é poder".

Mc, o príncipe, fez papel de bobo e depois conseguiu virar o jogo quebrando o que parecia uma Liga da Justiça, o lado do "bem". Aqui, outra lição de RP: faça cara de alface, sorria e forme conspiração. (Fica até a dúvida se não teria manipulado os instintos de Rossé, para tirá-lo do Lado A).

Sg era mesmo bobo, Dc era fofoqueiro (que decepção! por que logo o gay nóis- na- fita, já-ganhou foi fazer o estereótipo da tia-velha - segundo foi chamado- o maldoso?), Ag era sim jogadora braba e quem explica?

E a sem-sal loira Fn era mesmo uma princesa que viraria sapo. Parece-me incrível que a "turma do bem" tenha ficado sem perceber sua "diferença": Sg se deixando levar pela sedução de Mc foi deprimente. Lia, Cadu e Dourado foram os únicos que mantiveram sua posição, vendo com clareza.

O que mais emocionou nesse BBB foi a inconstância das pessoas, seus dois lados. Aprendemos um monte sobre explosões emocionais e gente que não pensa em outra coisa. Cd pareceu que iria pegar o Sg a qualquer momento, até mesmo noticiaram outro gay na casa, e nada... nem com ninguém. Estranho.

(Ainda mais ele falando "que não se sentiu atraído por mulher alguma na casa, embora eleja a amiga Lia e a vice-campeã Fernanda como as mais belas do programa"- segundo a Folha).

Muitos gays saíram-se mal nesse jogo: achei desnecessária a coisa "nós perdemos" quando Dicesar saiu (merecidamente) e briga pelo twitter chamando El Douradon de homofóbico:
homofóbico é quem tem uma causa, não quem desconhece. (Leda Nagle, noTwitter: "Isto é ignorância não é homofobia")

Esse debate todo - com gente dizendo que ele é "lixo", gente prometendo sortear 50 mil para quem votasse contra, sites do exterior pedindo votação contra homofóbico, Gilberto Braga super-poli.cor falando "paraibazinho chinfrim" (sic) -

me deixou pensando que, na contemporaneidade, desfocamos as coisas com nossa pouca-muita-informação ("os nordestinos são pobres porque não querem trabalhar", ouvi esses dias...), vivemos tão fechados em blocos, guetos, apartamentos, que temos a ilusão de que os problemas sumiram (veja, na Paulista, tá tudo bem...) e não temos paciência/vontade com a ignorância, educar o diferente, com ampliar a ilustração. (Sim, Iluminismo, por favor!!!)

Afinal, educar pressupõe trabalho, busca... e, claro, criar um bode expiatório não vai ajudar.

(O gay elite assumido-faz-tempo pode mesmo levar um susto com o Brasil: vide -)



O Brasil amanhecerá igual: empresas superfaturam obras para financiar políticos, déficit de moradias em SP de 1, 5 milhão, aquela homofobia cultural que pretende tirar a Parada da Paulista porque "Jesus está no Campo de Marte"...

Mas eu sinto um sentimento de justiça. (Onde a injustiça, a certeza da própria superioridade da classe média, é nossa carne há 500 anos. São Paulo é o mega-show disso: muita diversão para a classe média, erudição transbordante, velhos famintos e crianças sujas pelas ruas...)

Um sujeito que não falou mal, não trocou de time, não ficou na moita, soube ver o jogo, ganhou. A leitora do Big Blog Anna acertou: "Eu aprovo a vitória! Ele é um homem com seus defeitos e qualidades como qualquer outro ser humano, a diferença é que ele não tentou ser o 'perfeitinho' para a sociedade..."

Semana passada vi tantas pessoas gritando "Justiça!", quando da condenação dos assasinos de Isabela. (UFA!!!!) Há no ar essa sede.
Quem sabe um dia...

segunda-feira, março 15, 2010

Bahia: Você sabia?

Pois é... Tái uma herança da mentalidade portuguesa colonial, a idéia "rico é rico, pobre é pobre", no local onde primeiro se firmou... Passando pelo Wikipédia, dou de cara com o surpreendente conteúdo:

"Apesar de ter a sexta maior economia do Brasil, com o PIB superior a 90 bilhões de reais, são quase sete mil reais de PIB per capita.

Isso gera o quadro em que a renda é mal distribuída, e se reflete no IDH: 0,742 em 2005, o nono pior do Brasil, equivalente ao IDH de 2005 do Sri Lanka, que é o 99º do mundo com 0,743.

Além do IDH, reflete também:

- na esperança de vida de 71,4 anos, 12º em 2005 no Brasil,
- na mortalidade infantil de 34,5 mortes em 2007-2008 a cada mil nascidos, 7º pior do Brasil, e
- no analfabetismo de 15% da população baiana, 8º pior do Brasil em 2006".

Pode?

sexta-feira, março 12, 2010

Final de Partida, Cia Argos Teatro, Cuba

Depois de um “Sonho de uma noite de verão” da Sociedade Rotunda de Campinas semelhante a um pesadelo, com suas árvores de pré-escola e a rebuscada tradução de Bárbara Heliodora, cuja grata surpresa é uma (jornalista) Valéria Monteiro (primeiro item da sinopse) se destacando ao lado de um impagável Zé Bobina, enfim teatro no III Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo.

A presença de Beckett no cenário contemporâneo, estranhamente, assemelha-se a de Shakespeare e aponta para o “paradoxo do Marinetti (papa do futurismo) acadêmico”. Ou seja, a vanguarda tornou-se regra e tradição. Nada trai mais essa tradição e cumpre (melhor/pior?) o que o filósofo francês Jean-François Lyotard apontou como o “liquidar a herança das vanguardas” no pós-moderno que a repetição da imagem, a mecânica do cânone. Fazer Beckett, depois de milhares de cenários pobres, caras brancas e luz de holofote em fundo negro, exige frescor.

Digo isto porque a Companhia Argos de Teatro, de Cuba, soube tirar do autor algo novo e delicioso. Havia uma comicidade nessas falas do fim do mundo, depois do Holocausto, falas de mudos (Walter Benjamin dizia que os soldados que retornaram da Primeira Guerra nada tinha a contar) que me pareceu mais escondida nas nossas montagens intelectualizadas e sombrias. Porque apesar de tudo, Beckett nos convida a continuar, a rir, a falar.

A luz foge da "tradição" e a música é bela (ainda que, algumas vezes, entre de chofre). O cenário é o inevitável nada, mas com simplicidade digna, ou seja, não tenta ostentar um pré-fabricado mundo decadente, e os acessórios competentes, sincronizados (como o cachorro de pelúcia, simbolizando todo um universo humano impossível) O elenco está todo afinado, quando o excelente Pancho Garcia ri, nós pensamos em chorar. Waldo Franco (Clov), com sua gestialidade TOC e gritos, genial com o trágico e o cômico, deve ser um dos maiores atores da América Latina. O diretor, Carlos Celdrán fugiu do fácil e trouxe delicadeza ao tema. Podemos sonhar.

Afonso Jr. Lima

sábado, março 06, 2010

O metrô de Serra

sexta-feira, fevereiro 19, 2010


Ok... Sir Eljohn exagerou dizendo que Jesus era um gay caridoso... (Sabemos tão pouco dele...)
Mas quem explica isso, de um porta-voz da Igreja Anglicana:


"As reflexões de Elton John, de que Jesus nos convoca a amar e perdoar, são compartilhadas por todos os cristãos. Mas as reflexões a respeito de aspectos de Jesus como personagem histórico talvez devam ficar restritas aos acadêmicos".

http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1497734-7084,00-JESUS+ERA+GAY+SUPERINTELIGENTE+DIZ+ELTON+JOHN+EM+ENTREVISTA.html

???

quarta-feira, fevereiro 17, 2010



McKing

Que trágico início de ano para a moda...
Um dos mais contextadores ícones (sim, com "x", no contexto) se foi...



Herói do cenário, gênio da referência (Plato´s Atlantis!) e libertador da forma de sua prisão de comércio...


Existiria Lady Gaga sem o ar London-crash criado por ele?
Não se trata apenas da inovação, mas de um olhar certeiro. Existe Prada e Armany, mas ninguém tem 40 anos e essa liberdade tão grande para ser punk.

(Galliano também inovou,


mas nem sempre achei que estava correto, nem sempre soube se era fausto necessário, close puro, arte surreal total sem compromisso... Não entrei no seu jogo sempre, que me parecia bizarro, bobo ou sem ca(b)imento.

Certamente há momentos de verdadeira feminilidade em JG, mas deve haver uma piada macabra em chamar "ready-to-wear" algo como uma Emília egípcia vestida para festa junina... Talvez seja mais arte daliniana -ele viveu na Espanha- que moda...)

Bocas gigantes, pulseras hard com laços de plástico preto, tranças Star-Wars, vestidos bordados tão vitorianos como um sonho, o sapato com duas solas (uma delas grossa criando uma plataforma-monstro), o sapato Badromance vindo direto do espaço...

O desfile cambaleante, meia-luz, de modelos zumbis e carregadas da P/V-2004 reflete um clima angustiado da "Guerra do Iraque" onde toda a razão parece duvidar-se (onde as armas? o motivo?).



Ou seja, sua vanguarda tinha conteúdo, pesquisa, recriação (nascido e criado em Savile Row; essa precisão que aparece em tudo, em respeitar o clássico, principalmente).
Assim como Oasis e (a eterna) Viviane Westwood, fica claro que os Brit estão na vanguarda nos anos 90/00 por saber olhar para o passado. Há algo de aristocrático da Velha Inglaterra no que ele faz. E é isso que estamos buscando: um pouco de externalidade da pasteurização universal.



É a arte quando alguém interpreta seu mundo: todas essas estampas de cobra levam-nos direto para a natureza (seus homens com cabeça de cobra são futuristas e uma espécie de homem-bicho, afinal).

[Encontro agora uma entrevista legal:

"Não há melhor designer no mundo do que (a natureza) - [ele diz, no Rio de Janeiro]. A natureza sempre me fascinou. Como hoje quando cheguei ao Rio e vi uma borboleta de asas transparentes como o vidro, nas quais as linhas pareciam ter sido pintadas. É por isso que viajo: para ver o novo".]

http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1486887-7084,00-EM+VISITA+AO+RIO+ALEXANDER+MCQUEEN+SO+QUERIA+SABER+DE+PENAS+E+DE+CAIR+NA+NO.html

Num mundo onde perdemos tanto o contato com nosso corpo a ponto de se ler que 64% dos britânicos adultos com filhos admitiram estar sempre "muito cansados" para brincar com as crianças e 52% não tem energia para levar o cachorro para passear.

Para
Sarah Dauncey, diretora da Nutfield Health:
"Comida pronta, controles remotos e até compras pela internet estão contribuindo para uma Grã-Bretanha preguiçosa e ociosa. A nação caiu em um ciclo vicioso de preguiça que precisamos interromper."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2009/08/090810_lazyness_britain_mv.shtml


A cara feia na saída do enterro de sua descobridora Isabella Blow mostra mais raiva que tristeza, talvez seja apenas um gesto a mais de defesa-agressão contra a injusta -porque certa- perda de quem nos ama.
McQueen soube traçar o belo com um olhar dark. São poucos os criadores que sempre acertam.



Quando o passado e o futuro não dizem nada
Ainda há Alexander McQueen
Um pobre garoto, um menino violento
E nós o amamaos com todo o mal de nosso coração

Há algo de gótico no mundo
Há algo tech, escuro
Uma mulher nua, com penas, metalizada
Ainda há gente por ai

Há uma guerra no céu
Alexander vestirá Miguel.

PS: MJ

Não dá a impressão, no "We are the World" Again, que estava no ar reviver o mito e aproveitar o tsunami MJ? Tanta gente nova e boa para cantar que não ficou na história? Sei lá...

sexta-feira, janeiro 29, 2010

A história tem dessas coisas. Aquele que sofre tanto preconceito por não ter diploma (num país onde é tão fácil estudar como na França, vejam só!) é homenageado pelos chefes do planeta como estadista global.
A história nossa, tem outras coisas mais: esse mesmo ex-operário foi constrangido pelo dono de um jornal com a pergunta: "o que vem estudando nos últimos 20 anos?" Poderia ser apenas uma pergunta, o que se espera de alguém que comanda um jornal plural, crítico, etc...

Flashback:

"Tempos da campanha de 2002, a direção da Folha convida Lula para um almoço nas belas dependências da empresa. Anfitrião, Octavio Frias de Oliveira. O filho, Otavinho, diretor da redação, chega atrasado. E mal toma assento, pergunta ao hóspede algo em torno da sua falta de diploma. Cabe ser primeiro mandatário do Brasil a quem carece de estudo? Não será exagerada, descabida, ousada além da conta, a sua pretensão?

A implicância fermenta, o convidado ergue-se e se retira, com passadas de metalúrgico. Pai Octavio, que conhece as regras de cortesia, segue apressadamente, constrangido, tenta levar o candidato ofendido de volta à mesa. É tarde, Lula está no elevador, e se vai."
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=361ASP008

Diz o jornalista:

"- Até lembrei que o ex-presidente americano Abraham Lincoln também foi um autodidata e que isso funcionou com ele. Na primeira vez em que fiz a pergunta, Lula disse que não iria responder porque achava a pergunta preconceituosa. Achei estranho ele não responder, porque, afinal, eu queria saber como o candidato que pode vir a governar 170 milhões de brasileiros está se preparando, o que vem estudando nos últimos 20 anos."
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp310720021.htm

Interessante como diploma vale menos que ouvido...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Viva São Paulo!
Apesar da chuva, do trânsito e das pessoas na rua, essa ainda é uma linda, criativa e muderna cidade!
E a chuva que não para? Dizem que o aquecimento global (vulgo: Apocalipse) fez as chuvas irem para a Amazônia beber vapor antes de cair aqui!
Limitem os carros e melhorem os coletivos! Socuerro!

***
Lady Gaga realmente... Em geral eu sou resistente às novidades pop e pensei mesmo que seria uma nova Briney Produzida Spears... Não! Ela fez em Bad Romance uma síntese que engloba mãos de monstro do MJ, cultura pop de vampiros, o glamour do tech, a lição mude-o-tempo-todo de Madonna, o deboche das drags... Ela é uma drag hétero, afinal.
(Claro que Video Phone foi um erro: Lady B vestindo um quadro de Picasso P&B e Lady Gaga magrela com maiô branco não são propriamente contribuições ao repertório das duas... E que ideia foi aquela de efeito-Pokemon no treme-treme das cenas? Arminha de plástico colorida não é sempre uma boa. Eu, pessoalmente, sempre penso se a gostosona da Beyoncé precisaria tanta bund-ance.)

Reflexo de um mundo rude, suas crueldades irônicas refletem sim nossa refeição diária de meninos na rua, tiros e sangue.
E, além disso tudo, ela canta!

Nossa :




Salve a inovação!

***
BBB chega à 10 edição. É a prova de que os seres humanos precisam de modelos e perscrutar as camadas estranhas da nossa coisa-ser. (Por outro lado, tendo de ver um artigo bem chocante, percebo que a IC pode nos comer inteiros, nos chupar para a realidade paralela. Exclusivo é lixo).

Bem, dito isso: um dos personagenagens mais dramáticos me parece Marcelo Dourado. Ele entreou agressivo (em parte explica-se nossa herança cultural gaúcha: falamos na lata, somos mais quietos, desconfiados, etc.)
O que me chocou foi a edição feita pela Globo da sua cena de choro. Na web ele pareceu o Bam-Bam e talvez não queiram dar a ele já o troféu. Na tela era um bobo.
Mais um exemplo de que vivemos o "realismo editado"...


(Só o Casoy não edita...)


PS: A tal Lena (Elenita, eu acho) é a prova científica que doutores podem ter 15 anos.
PS2: Essas provas de resistência, como ficar levantando e sentando em uma casa de madeira, deveriam ser consideradas tortura.

segunda-feira, novembro 16, 2009


Sim. O Lula investiu 90 milhões em 2008 e 100 milhões em 2009/10 em bibliotecas, enquanto em 2002/30 foram investidos meros 7 milhões, sim, por aquele professor.

Este dado, fornecido por Fabiano dos Santos, da Diretoria do Livro e Leitura do Minc, foi uma das ações importantes debatidas durante o II Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias e o II Fórum Prazeres da Leitura, patrocinado pela Poiesis e pelo governo do Estado.

Justamente o secretário da cultura João Sayad gerou desconforto com suas colocações: os curadores de exposições seriam responsáveis por gastos com "mostras", enquanto o bom mesmo seria exibir o acervo dos museus.

Concordo que há alguns exageros, principalmente quando o "novo" não cabe no sentido didático para o público leigo, mas... será? Não é chato, sempre o mesmo? O curador seleciona um olhar, propõe uma narrativa.

Já, segundo o secretário, as Bibliotecas deveriam entrar na cultura "competitiva do século XX", tipo "jogo de futebol" (?), expor bem na frente Paulo Coelho e, quem sabe, a Playboy (?), e, mais atrás, Guimarães Rosa.
A platéia resmunga. Sim, deve haver alguma lógica. Tem que haver...

"Por que ler ao invés de ver um DVD"?

Sejam quais forem as vantagens de acessos múltiplos (é um absurdo, por exemplo a insistência da escola em fazer jovens de 18 anos ler apenas romances do século XIX, quando há tanta coisa leve e curta do Séc. XX!), soou maaaal.

Professora Lucia Santaella encantou o público explanando sobre as diferenças entre o leitor interiorizado do Renascimento, o leitor desatento da cidade, e o leitor implodido do Kindle. (O mestre de cerimônia, José Goldfarb, avisa que ela já foi twittada :)

Foram apresentados os lindos projetos da cidade de Medelín, do Ecofuturo, entre eles a criação de Bibliotecas Comunitárias, o ônibus Biblioteca do Município (que existe desde 1936, Mario de Andrade: vá em busca de seu público) , o Barganha Book de São Carlos, feira de trocas, (sem medo de "fazer o bom por causa do otimo") e o Instituto Pró-Livro, com sua visão ampla e o interesse que despertou pelo Brasil em sua curta existência.

O que mais me impressionou mesmo foi o trabalho do Programa Nacional do Livro e Leitura, que, como se disse, não criou praticamente nada (o que pode até ser bom nesse vai e vem de governos e ações), mas articulou, incentivou e deu resultado.

E é fácil começar obras de impacto:
a Biblioteca da Escola Municipal Maria de Lourdes Gonzaga, recebeu em 2008 os 6.000,00 que precisava para "Ter em mãos uma quantidade aproximada de 5.000 livros para a efetivação da primeira biblioteca escolar".

Como tudo no Brasil o mais incrível é o básico: um senhor nordestino contou-me que o Lula é um herói no rio São Francisco, pois colocou barcos a vapor por lá!

Moacyr Scliar fechou a noite com seu otimismo imbatível, dizendo que provavelmente ganhou o Jabuti porque souberam que ele ia falar para "pessoas tão importantes", contando de seu amor-tormento pelos livros e lembrando que o Brasil melhorou muito: "Nunca se falou tanto em livros! Não posso aceitar 1/3 dos convites que recebo para encontros sobre o livro!"

Todos nós saímos acreditando que ainda vale a pena guardar e trocar ideias.