Páginas

domingo, agosto 17, 2008

Tente entrar

“Entrar no metrô que é uma parede humana e ser esmagada com um braço na tua cara, o prefeito acha nomral? A gente vive no limite do stress!” - quando uma amiga me disse isso, pensei que estava exagerando.
Hoje liguei para a Eletropaulo porque dois meses minha conta chega com atraso devido a um erro de CEP. “O senhor tem de ir na agência em horário comercial”. “Meu amigo, em horário comercial eu estou trabalhando”. “É assim, não há o que fazer”. Argumentei que se um ser humano fez esse sistema maluco, um ser humano era capaz de desfazê-lo. Ele concordou que eu não devia pagar multa por um erro deles, mas não havia o que fazer. Então, uma simples ligação faz você se tornar o Átila. Disse que iria reclamar para a agência reguladora caso atrasasse de novo e ele concordou em anotar minha reclamação. Cidadão - ninguém.

Lembrei-me de quando fui instalar internet em casa a primeira vez. O modem, o provedor e a banda larga eram de empresas diferentes. Cada um me mandava fazer uma coisa e nada funcionava, um colocava a culpa no outro... Descrevi mais de cem vezes os detalhes – coloquei X em Y, cliquei em N, plantei bananeira etc; "não, eu já coloquei aí; o provedor disse que era isso; não, isso eu já fiz". Nenhum primitivo mecanismo de registro, falei a mesma coisa para cada novo e novo e novo atendente. Quase uma semana para alguém entender, "ah, já clicou alí?"

(Aliás o que há além da Teleforçabiônica? 3G ainda não vale a pena, Net "não está disponível no seu bairro", bem central! Microhard-Monopólio!)

O que mais me assusta nessa sociedade “liberal-fascista”, criada à mídia insípida, é ouvir jovens que só tem respostas individuais para problemas sociais. Em São Paulo é ainda mais comum. Os quase-pobres arrumam algum emprego se tornam quase-mais que seus irmãos quase-nada e logo descobrem que “os pobres são pobres por que não trabalham” ou “a esquerda vitimiza essas malandros que só querem bolsa família”. São Paulo é uma bolha de consumo que isola a todos do Brasil e da outra São Paulo, logo ali, mas há anos-luz do cidadão da Paulista.

Nada mais normal nesse contexto, então, do que ver um homem-cadáver na rua, com seus ossos a mostra, dormindo no cimento, parecendo um fanstasma de Auschwitz, enquanto o governo fala alegremente em “higienizar” o centro porque afinal esses vadios só sabem fumar crack, o que nos envergonha e estraga a paisagem. Alguém falou no Estadão sobre por que motivo alguém fuma crack, quem são esses moradores de rua que chegam na farmácia pedindo fraudas para vender por R$ 2,00 na esquina e queimar seus neurônios? Não, é preciso falar da estética, a “Cracolândia” – nome entre o irônico e o simplista, que mascara um mundo todo, jogando-o para o lado do “outro sem volta”, com um adjetivo-estigma - veio do nada e volta ao nada. Uma amiga diz que em SP há o "status de bairro", quando chegou na sua faculdade no primeiro diz a primeira coisa que lhe perguntaram foi "Onde mora? Você pega metrô? E depois ônibus? Quanto tempo?"

(Urbe-caos... Mega-empresário quer Estado? Planejamento- além do próximo produto? Inclusão- além do seu nome na Fortune? Reforma- além de menos imposto? Cada um por si e todos por mim... Na democracia dos mega-empresários, do lobby corporativo e dos "compre-Batom!"- equalizador de mentes, o bem comum é passado. Se as pessoas passam fome é porque há outras prioridades... Não está tudo bem? Não será tudo resolvido? Não pode esperar? A distância geográfica de São Paulo cria a "dor distante" do nunca visto, a explicação "racional" do inominável. A depressão ultra-consumista da "psicose" fragmentadora do jornal-esquizo-bricolage. Verdrängung, recalque, empurrar o real incômodo. Quem não crê no poder devia ler sobre o Consenso de Washington, tanque que achatou os anos 90. O capitalismo, alguém já deve ter dito, é um sistema de pensamento que mata tudo que não é produtivo, cala os indecisos, suprime os fracos, afasta os possíveis contraditórios da política do progresso: sem reconhecimento do estranho, surge a crença e a conclusão fechada de uma experiência particular, sem diálogo há conflito.)

A elite de São Paulo tem uma forma “amistosa” de lidar com isso, é o lado da biopolítica clean que cria projeto social malandro, afinal são preguiçosos por natureza. A miséria é um fato histórico e social cientificamente explicado e complicado demais para resolver. O racismo novo é feito de caras “feias”, "da Zona Leste" gente “sem cultura” e “tapada”, que atrapalham a circulação fantástica de informação e capital do primeiro mundo, o eixo Paris-Londres- São Paulo. É a linha FHC, puramente consciente dos problemas do mundo -pensando em um plano técnico para elevar algum % em tantos anos que irá... - e capaz de falar as coisas mais fascistas, os discursos mais classistas contr a incompetência dos operários barbudos no poder.

A aceitação resignada de que são dois tipos de pessoa, que pena, alguns que não entendem, não falam bem, não são belos (e principalmente não se esforçam), e os que entendem, falam, sabem, são: o inverso da democracia, baseada na participação. Miséria é ruim, mas não é comigo e pode esperar. A elite gaúcha, hoje enredada em corrupção, é mais bruta e mais tacanha (financistas robóticos, empresários-coronéis com ambições "globais", generáis da Inquisição), e por isso, mais ridícula, simplesmente manda bater. Comte: a moral manda que todos trabalhem para o progresso, quem critica o progresso merece chumbo. A única cultura é a Veja. Para um estudante que foi agredido e preso pela polícia em manifestação pacífica, um senhor de meia idade diz "Bonito, heim?" Um amigo dizia: "A culpa é do povo, na Europa o povo sabe votar (será?)"...

(Em comum, a ilusão da felicidade solitária, filhos sem afetos, pais ganhando dinheiro: uma juventude linda, fanática, informática, celulática, malhática, trancada no quarto, bebendo, batendo o carro do papai, tomando ecstasy e "buscando diferencial" pela força. Epidemia de jovens damas- de -ferro executivas e mussolini-clintons. PS: Por sorte há também jovens espertos, que sabem que há vida além do video-game...)

Democracia agora é: marketing de massa, vender meu conceito ao povo. Jovens adultos que falam "objetivamente", querem resultado, rápido, toda dúvida atrapalha a venda. Não há nada de podre na Dinamarca. A classe média brasileira é esse animal estranho - "saí do buraco, seu pobre" é mais que "como vamos tapar o buraco?" – ouvi de um jovem de 18 anos: “Aqueles protestos contra uma represa na África, deviam matar todos, estão atrapalhando o desenvolvimento”- mesmo preso entre empresas déspotas e governos de direita, parece não ter o mesmo contingente informado e rebelde da classe média norte-americana e européia, ou pelo menos sai menos à rua, e pode dizer tranquilamente: “os nordestinos deviam voltar pro Nordeste” ou “se apanha da polícia é por que é baderneiro”.

segunda-feira, junho 16, 2008

Chico é pop?

“Você vai se distanciar de seu povo. Samba, daí, nunca mais.” É algo assim que Joana, a Medéia do morro, diz a Jasão para amaldiçoá-lo. Há alguma coisa dessa verdade na montagem de Gota d´Água que assisti ontem, em direção de João Fonseca,com Izabella Bicalho e Lucci Ferreira como protagonistas.

A peça começa com um samba legal, depois outro samba legal. Ok, é Chico Chic, microfone, palcão e tal. Outro samba legal, e outro. É tudo muito perfeito, mpb pra gringo ver, dá um incômodo. Ok, não é tão raiz quanto o outro Chico, mas vai ser bom.

Aí começam os sambas em que você não entende o som. Será o cara que não canta bem ou a acústica? Começam caras e bocas, marcação de cena marcadíssima, você começa a pensar se nessa favela chic precisa mesmo um negão com a camisa do Flamengo, uma negra com roupa de oncinha e troço na cabeça e umas mulheres vestidas de anos 50. (A princesa de Jasão é a Emília). Você enxerga, simplesmente, a sombra do holofote no cenário. Os rostos ficam na penumbra e a luz foca outra coisa. Tem um Creonte excelente que salva tudo, um bom Mestre (apagado pelo diretor), um Jasão bem forte e expressivo, mais vivo que o último que assisti. Dá o intervalo. Calma: nada pode arruinar a cena fantástica de Joana matando os filhos.

Eu dou nota sete, tem música colorida e boas dancinhas. Uma amiga, com cara assustada, diz: “Meu Deus, eles estão muito frios. É muito comercial”. Outro responde: “Estão completamente distantes desses personagens, não se identificam”. Parece realmente impossível imaginar essa Joana no morro e não no Shopping. Sim, ela tem um vozeirão. Em um dado momento da canção, quando diz: “ANIMAIS!!!!”, parece mesmo que estava ali com tudo. Só que, quando volta a escuridão, fica mais patente ainda a diferença entre essa Joana e a de Georgette Fadel. Georgette estava ali tanto e tanto, a ponto de eu pensar- seria melhor moderar em alguma cena, é tensão demais... Mas funciona!

Depois as coisas pioram: tem música cantada com emoção, cenas mexicanas com “não me bata meu amor!” (uma cena que se repete em ritmo mais rápido é legal, mas um chute coreografado do Machão na barriga da Pobrezinha torna-se cômico) e os “pobres” dançando com algo como boá de retalhos e chapeuzinho Panamá colorido. Não dá. O público delira com as cenas Broadway, a evocação de Ogun com uma saia de cigana-Carmen-Miranda, um samba “Vila da Alegria” que vira funk e bolero.

Que diabos deu de o microfone ficar achatado e mugindo quando os personagens se abraçam? Nada contra seu uso, mas, de alguma forma parecia que tornava tudo ainda mais premeditado, como uma gravação. (Não ajudam os “fazerrrrr”, “comerrrr”, tudo com um português que nem o Pasquale pode falar...) No final, morrem as crianças sem que tenhamos sentido quase nada. (Quando, na última cena entram gritando “PAAAI”, você começa a rir). Quem pode chorar a morte de um menininho de camisa branca e calção marrom e uma menina de vestidinho e laço (ou quase)? Entra uma “Cumadi” com um agudo de “Rainha da Noite”, será pra nos acordar?

Enfim, será que neste mundo onde todos queremos imitar as celebridades, pois afinal as celebridades nos são dadas como modelo, será que é tão difícil assim mostrar o coração? Será que não temos idéias novas, vivendo dentro dos Jardins, será que a última vez que vimos um pobre foi no “Alô Amigos?”, ao som de Tico-tico no Fubá? Esperamos da arte um mínimo de ousadia. A música é boa, os musicais são bons, mas custava tirar um pouco de tudo- por exemplo, para que uma música do gigolô falando do seu pau (depois ele mostra a bunda, claro)?
Chico virou Deus, quando? Pobre de oncinha é mais fácil que ver a humanidade em todos, ricos e pobres. Na saída leio no folder: “graças a ... consegui realizar este projeto...” Como Chico é chic! A capa mostra as pessoas com as mãos na testa, (na entrada você pensa que é um gesto melodramático de “Ai Meu Deus!”), mas é só um ritual de macumba. Ai, Meu Deus! As desgraças às quais o diretor se refere- caos aéreo, a crise do Senado, o mensalão, as balas perdidas, João Hélio- são todas midiáticas e mostram a distância de outras tão reais: salários baixos, trabalho temporário, estudo-pró-forma, ônibus lotado, polícia na favela... Muito tempo depois de que Chico e Paulo Fontes tenham se aproximado do povo. “Samba, daí, nunca mais.”

domingo, junho 15, 2008


Era uma vez a Disneylândia...

Minha tia disse ter visto pela TV (Band): "Manifestantes jogam pedras na polícia e são presos no RS..." Um conhecido que estava lá disse: "Eles vieram com tudo... Que estudante e professora ia atirar pedras na polícia assim, de graça? Jogaram balas de borracha em crianças de 4 meses..."

Bem, pra ser "diplomático" fui catar mais informações. Senão vejamos...


"FOLHA
12/06/2008
Manifestantes presos durante protesto contra Yeda são soltos

Os 12 manifestantes presos pela Brigada Militar após um protesto contra o escândalo de corrupção no governo de Yeda Crusius (PSDB), na quarta-feira, foram libertados na madrugada de hoje.

Eles integravam uma marcha composta por 400 ativistas sem-terra e de sindicatos que pretendiam fazer um ato em frente ao Palácio Piratini. Os presos foram indiciados pela Polícia Civil pelos crimes: lesão corporal, violação de domicílio, danos ao patrimônio e resistência à prisão.

"As acusações são arbitrárias, não houve tentativa de ocupação, eles foram encurralados pela Brigada", disse o advogado Matias Nagelstein, que defende os manifestantes.
Os militantes de movimentos sociais foram impedidos pela Brigada Militar, com bombas de efeito moral e balas de borracha, de chegar à frente do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, para fazer um protesto.
(...) "
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u411908.shtml

ZERO HORA

"Manifestantes pedem a saída de Yeda do governo
Movimento foi impedido pela BM de chegar ao Piratini

Depois de invadir área do supermercado Nacional nesta manhã, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, um grupo que manifestava contra o governo gaúcho foi impedido pela Brigada Militar de chegar ao Palácio Piratini. Capitaneado pela Via Campesina, o protesto juntou velhos conhecidos dos gaúchos, como os sem-terra, a personagens novos, caso dos universitários egressos dos movimentos. Ele se uniram em coro contra o governo de Yeda Crusius, abalado por uma crise política. "
zerohora.clicrbs.com.br/.../jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Pol%EDtica&newsID=a1963167.xml


BRASIL DE FATO

"O que era para ser um protesto pacífico acabou em violência, feridos e prisões em Porto Alegre. Cerca de 1,2 mil agricultores, trabalhadores urbanos e estudantes iniciaram uma marcha na manhã desta quarta-feira (11) em direção ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, para protestar contra o alto preço dos alimentos e a atual política de incentivo às empresas transnacionais.
O primeiro momento de violência aconteceu logo que os manifestantes saíram do Ginásio Tesourinha e se aproximavam do Supermercado Nacional, onde iria ocorrer um ato público denunciando a atuação da rede estrangeira Wal-Mart. Quando se aproximaram do local já havia um aparato da Brigada Militar e da tropa de choque."

Bem, gostaria de saber como o povo deve se comportar quando o acesso a verdade se torna tão difícil... Essa é uma sociedade complexa, o valor simbólico das coisas (foi notícia? poder de atingir, informar, atrair) supera qualquer realidade imediata: 100 crianças podem morrer de fome e isso influi menos que um minuto de comercial. Quem fez, o status de quem fez, o "reconhecimento" social, conta.

Uma manifestação onde pessoas são presas tem pouco poder de afetação: não atinge o "valor simbólico" que, talvez, mil panfletos atingiriam, modificando consciências.
Vivemos essa "realidade paralela" onde um conjunto de normas e idéias do bem são transmitidos pela força e pelo raciocínio simplificado (paz é boa, aceite tudo), matrizes de compreensão que saem dos canais de poder massivo de marca e informação (não apenas poder micro-físico foucaultiano, mas poder de fazer saber em escala masssiva, ideologia= alguém duvida, pergunte ao seu amigo o que tem a dizer sobre Hugo Chaves) e invadem as relações cotidianas com os escravos reproduzindo a opresão com outros subjugados - para receber reconhecimento, deve-se calar, identificar-se.
Pior, na sociedade em que tudo é bom e vai melhorar, cria-se a sensação de que criticar é "chato", "imoral", "ignorância", bom é lutar sozinho... Querer mudar é coisa de criança! Depressão individualizante que separa o eu do outro, o eu do mundo, o eu do eu (do corpo, do entendimento, do sonho...)

Os ambientes de diálogo acabaram depois da concentração de renda brutal ocorrida desde o capitalismo do séc. XIX, depois pelo poder da mídia de massa e pelo fim dos empregos na era tecnológica: sem troca não há mais consciência coletiva. O sentimento de dignidade a priori, que legitima o outro, foi perdido na avalanche fim da metafísica.

O ser da modernidade vale pela informação útil, não mais pela relação de classe. Se a coletividade grega buscava a honra e o sacrifício de uma sociedade militar, a cristã buscou a contemplação a bondade e a humildade e a industrial- com sua democracia do papel- buscou a eficácia, a informação transformadora e a renovação, a sociedade pós-industrial, feita da democria passiva das tribos, valoriza a manipulação do marketing, a superioridade e a agressividade da produção. Nada disso tem a ver com protestos.

Os seres sem palavra estão confinados em seus pequenos mundos: a "palavra que puxa palavra" , de Machado, que traz o mundo imediato, depois o imaginável, depois o pensável, tornando o raciocínio complexo e abrangente, foi roubado pelo preço dos livros (privatizados) e pelo poder da ligação simplista da publicidade (compre=seja feliz) e da mídia (informação by Méc Donald sem compreensão).

O reconhecimento social, no conceito de Axel Honneth, não chega agora a nenhuma camada da sociedade. Todos podem ser fagocitados pelo símbolo que lhes fala.
Então, se o eu é apenas "o pedido que vem de fora", um EU no sentido de Lacan, todos vivem uma convivência artificial, onde nada de revolucionário e honesto pode surgir. Quem brinca de pensar pode sair ferido.



domingo, abril 27, 2008


Senhora dos Afogados


Nelson Rodrigues é sempre assim. Primeiro ficamos encantados com a história, acreditamos que será uma tragédia grega. Depois, lá pelo meio, pensamos que seria melhor vê-la como um Eugene O'Neill da Mangueira, misturando sangue e zombaria para criar uma espécie de Absurdo tropicalista. Aí, subitamente, no último segundo, tudo se encaixa e pensamos que sim, ele é um gênio.

Nesta montagem de Antunes Filho, o diretor preserva essas ambigüidades do texto. Tudo começa dark, como o folder em preto e preto, lembrando as muitas meninas japonesas de cabelos compridos dos filmes de terror. Você antevê um cinema noir ou um Hitchcock, ainda mais que a programação (preto e branco) explica "casa soturna numa ilha, família cercada de assasinatos, etc...".

De repente, o juíz que deveria ser um homem malvado e mau aparece como um tio do Pato Donald, falando com uma voz esquisita e de óculos fundo de garrafa. A vovó chora um choro de cachorro. O noivo marinheiro violento fortão aparece fantasiado de Fred Mercury, com direito a quepe e blusa de sede. As piadas de Nelson desconcertam, ironizam, buscam o ridículo.

Algumas frases explodem revelando o eu dos personagens, mudanças bruscas, "eu também me vingo", diz a heroína supostamente vitimada.

Assim como os personagens-ideogramas de Nelson- que começam como caricaturas e tornam-se caixas de surpresa- não têm uma evolução linear, dão saltos, para ter alma, um "saiba por que é assim", novos problemas, novas dimensões e novas ironias, a direção também não é contínua. Há partes das quais gosto mais, que puxam a peça como um vácuo de buraco negro. Paulo, o quase Orestes, por exemplo, repete um "choro" muito demais. Parece no meio que a peça vai acabar, "marido mata mãe de seus filhos", mas ela consegue se salvar com novas e surpreendenetes melotragedias nelsonianas...

Ficam nos olhos- e ouvidos- os lindos contrastes criados com máxima simplicidade, uma mulher de vestido branco num grupo negro, cadeiras brancas que formam jogos de montar, um coral de vozes masculinas que preenche o espaço no tempo certo e com unidade perfeita. A sineta incomoda um pouco, até que uma boa atriz a transforma em símbolo (lembramos nossa escola, seu catolicismo que pode ser castrador).

Valentina Lattuada, como D. Eduarda, mãe e esposa, e Angélica di Paula, como Moema, a filha electriana, levam do começo ao fim a tragédia. Pode parecer pouco, mas há momentos - aqueles em que, nas palavras do próprio Antunes, tudo pode virar dramalhão -em que elas fizeram o impaciente homem a minha frente permanecer sentado. São atrizes que salvam qualquer espetáculo. Aí vemos como Stanislavski pode encontrar linguagens mais "falsas" e como pode-se fazer um realismo não ortodoxo.

Eu talvez bem quisesse uma tragédia mais lisa, negra e com fio metálico. Mas isso talvez seja impossível para o Brasil 8ª economia do mundo que vê no jornal "seguranças do metrô espancam gays" ou ouve numa fila de teatro, tragicomédia pura- "tio tem moeda?- não- aceito nota", impossível para o teatro contemporâneo e e certamente é impossível em Nelson.

É magistral como Antunes salva tudo nos 44 do segundo tempo e vamos pra casa com um sorriso de "isso é a arte". Como "bem está o que bem acaba", o coro cantando com drinks na mão, uma mulher chorando com e pelas mãos e outra sem, sim, é muito bom. Enfim, entre as ondas do fogo e do éter, Eurípedes e Diário Popular, momentos de genialidade e outros que são tragados por estes, é uma linguagem própria, pessoal, o que no mundo de hoje é algo impressionante.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008



Elisabeth já deve ter entrado para a história- pelo menos como um filme que não é continuação de outro, mas "dentro". É mais denso que o outro, mais realista e mostra a rainha mais verdadeiramente ela: mais dominadora, tensa e perigosa. O que dá a uma atriz shakesperiana um texto para ser shakesperiana. E só uma atriz como Cate Blanchett, com mundo interior vasto pode dizer como ela diz. Ela já ganhara um Oscar e mereceria outro se não fosse a Piaf viva em folha.
O filme valeria só pelas imagens: fotografia perfeita, figurino rico sem ser falso, paisagens, luzes, tudo impecável. É um filme para os olhos e eles não conseguem esquecer a cena em que a rainha, esvoaçante, vê a armada incendiando sobre um escarpado. Alguns truques de câmera, segredo de quem conhece.

Mas o enredo peca em algumas coisas. Primeiro, como uma mulher que inclusive mandou matar o amante- sem dúvida devido ao contexto terrível- torna-se uma solteirona virgem - que só quer um beijo do namorado da amiga- e quase meiga? Segundo: será que anda estamos na idade em que só heroínas boas nos comoviam? Terceiro: será que seria possível ser menos nacionalista e deixar pra lá esse papo de "a Inglaterra, terra da Liberdade" versus "Os Espanhóis, senhores da Inquisição?" Não havia tanta razão como desrazão tanto no espaço absoluto de Newton quanto em Henrique VII ou Felipe II- guardadas as proporções, claro. Política e fé sempre foram armas que se ajudaram.
Não seria mais humano um combate entre nações que têm ambas interesses comerciais e políticos?
Por isso, de algum modo, o filme perde um pouco do imenso fascínio que poderia ter. Fica com cara de "versão do vencedor". Logo de quem: houve tempo em que produzir sal era crime. Seria talvez interessante pensar por que motivo o sangue latino do Brasil deixou mais espaço para "adúlteros e anormais" que aqui viveram, enquanto o puritanismo tomou conta da Inglaterra a ponto de preenderem Oscar Wilde. fazer Elisabeth uma mulher sem amantes é apenas parte disso.

***
Turma da Mônica – Uma aventura no tempo - no Sesi SP- poderia ser bom e a abertura dá a entender que será ótimo.


"Produção de Diller Trindade, o filme conta uma história com ares de ficção científica em que a Mônica e seus amiguinhos transitam entre passado e futuro em busca dos quatro elementos (Ar, Fogo, Terra e Água) que acidentalmente escapam do laboratório do Franjinha."http://www.achanoticias.com.br/noticia.kmf?noticia=5810389
Muitos enredos é bom; computação gráfica misturada com tradicional também; todos gostam dos personagens. Algumas atualizações legais, como Cebolinha e Cascão dançando rap), piadas e músicas fazem parecer que será -sim -ótimo.

O problema é que já vimos isso tudo antes. (Tá certo a malvada Cabelera Negra quase salva tudo). E, para melhor ou pior, o ritmo das coisas é outro em desenhos pós- Pokemon: o menino fantasma, as super-poderosas, tudo corre num ritmo alucinante. Não é apenas ação: um bom vilão e ruptura ainda são importantes. Pode ser simplesmente que o cérebro das crianças-video-game seja outro. Pode ser que queiramos tudo mais depressa. O problema é que perdemos logo o interesse quando sabemos que um elemento sumiu no mundo e depois de aventuras Mônica vai resgatá-lo. Não dá.

domingo, fevereiro 03, 2008

La ley del deseo. O que tem de interessante em um Almodóvar 1986? Tudo. Os excessos estão previamente depurados, as travestis aparecem em toda sua humanidade, o incesto está confundido numa trama bem feita...
O humor está perfeito, "para ser um policial não basta não ter caráter, é preciso ter também algum senso de humor..."

A trama está menos artificial do que muitos posteriores, ou seja, usa com perícia o lado exagerado do melodrama mas nos ocupa com dores reais. O melhor de Almodóvar é sua sede por sangue, onde o filme norte-americano tudo limpa e media, ele mostra o que quer;
e nos faz pensar que coragem e que renovação foi esse filme há 20 anos... BrokeBack Montain duas décadas antes e mais forte...


Entendo agora porque Antônio Bandeiras se tornou famoso, antes de, como afirmou, virar "latino" e ter de enfrentar Zorros, bandidos e amantes românticos...

***


O Signo da Cidade me deixou perplexo. Mesmo que não queiramos, temos sim preconceitos com mulheres bonitas: pensamos que chegaram lá por seu rosto e não por sua competência. Bruna Lombardi já provou muita coisa, que entrevista como ninguém, escreve e atua muito bem, mas nada me fazia esperar o que vi neste filme....
Mas para não sermos levianos, vou falar logo do que não gostei: não precisava Eva Wilma confessar uma vida secreta, o porquê odeia o pai de Bruna, tudo em 5 minutos depois de ter repetido mil vezes "não fale com ele..." Tudo bem, em uma trama super bem bolada, fica discreto...

Também é estranho o filhão malhado que não encaixa nos minutos poucos que tem para chorar, é bom, num contexto de notas 10. Tudo bem, família é família...
A trama é algo surpreendente. Bruna tinha tudo para ser uma dondoca: está há tempo na mídia (com idas e vindas), bela, etc. Mas incorpora os sofrimentos dos humildes, falando da cidade em tons claros e escuros, mas sem deprê: sempre há janelas, amizades, cores que damos às coisas...
É a cara de SP onde a alegria vem da humanidade, dos contatos e criações humanas.
Muitos filmes estrangeiros não chegam aos pés deste. E a Bruna provou que tem mesm carisma, a ponto de querermos saber mais dela, dessa astróloga maluca que aos 50 pode namorar vizinho malhadão...
***

Meu nome não é Johny revela um Selton Melo carismático, perfeito na papel. Tirem a última legenda ("è a prova de que alguém pode se recuperar") e um cartaz com cara de comédia Disney (óculos escuros: ele tinha tudo, menos limite) e o filme fica perfeito.
Algum crítico disse que a Espanha estava presa em três estereótipos: drama social, comédia de costumes e não me lembro mais o que. Este filme, assim como Signo da Cidade, mostram que é possível contar outras histórias.

O roteiro é brilhante na sua inteligente comédia. A cara do Rio: "fuck you, fuck tu, fuck a porra do caralho!". O personagem dizendo "aquela loira era um amigo meu que virou travesti" é histórico. Não precisava aquela última "moral de história" depois de ter contado a vida de uma pessoa de modo integral, nos fazendo amar esse Johny maluco e "sem limite" (suaviza um pouco pra ele, claro, parece que não sabia o que era tráfico), deixando claro que nem havia uma maldade suprema nele, que parecia natural agir mal.

Este é o maior ponto de reflexão: sem os parâmetros que faltam em nosso universo filosófico, somos levados com "leveza" aonde não planejamos. O filme não mostra nenhuma tese sobre a imoralidade dos ricos, a família nem nada (que sono...), e também é de uma época em que tráfico, pelo menos na Zona Sul, ainda era muit menos perigoso e malvado... Filme brasileiro sem cara de estrangeiro.

segunda-feira, dezembro 03, 2007


O artista moderno estará tão impossibilitado de contatos, a não ser com seus amigos espelhos, tão sem ouvir as histórias dramaticas (ou cômico-trágicas) do seu povo, tão repetititivo em falar de si e de seu "vazio" existencial que não compreende (porque, afinal, comprenderia, se aprende com a publicidade e a grande mídia quem é e por que) que todo o esforço do século XX em quebrar o patriarcado e a disciplina acabou em reflexões sobre a masturbação e meus 11 anos?

Bem, algumas linguagens que vi recentemente podem ajudar o debate.

Para melhorar pra quem não viu vou copiar e colar:

"Com 17 cenas desconexas e personagens anônimos, a peça apresenta descrições contraditórias de personagem ausente: Ann. Fio condutor da montagem, ela representa as várias facetas de uma mesma identidade. Assim, é citada como uma terrorista em ação, uma doce filha de pais aflitos, uma artista que transforma suas tentativas de suicido em arte e uma mãe que teve os filhos mortos numa guerra civil. " http://www.dicadeteatro.com.br/attemptsof.htm


(A)tentados, a gente não entende tudo. De alguma forma fala de pessoas muito certinhas, de artistas muito inteligentes, de genete que odeia bichas e negros, etc. Não, não entendemos tudo, mas gostamos. O inglês Martin Crimp, pela Cia de Teatro em Quadrinhos e Beth Lopes, possivelmente critica a sociedade de consumo, o entretenimento como vida, a religião para criar pessoas boas e livres. No final, entretanto, a peça vai crescendo, em especial pelos atores inteligentes, pelo humor (moça vestida de fada, cantor com brega emocionado e um final assombroso, com os atores fora do teatro).
O Grupo Boa Companhia faz com um conto de dois parágrafos- de Kafka (Na Galeria) quase uma hora de peça. A direção de Verônica Fabrini traz a discussão de o que o teatro pode ser afinal: a dissimcronia entre texto e ação, o texto como elemento a ser desconstruído, a performace corporal como foco de interesse, o uso da tecnologia, etc. O resumo do século. Adorei, mas acho que se fossem três contos de Kafka, haveria mais elementos para instigar o espectador. Afinal, ainda queremos saber algo que não sabemos. Também vamos ao teatro para compreender mais o mundo, a nós mesmos, para refletir, mesmo se isso seja a partir de Artaud.


"Caminhos", do dramatugo Rubens Rewald, professor do curso de Audiovisual da ECA/USP, com o Núcleo Experimental do Teatro Popular do SESI-SP e direção de Cristiane Paoli Quito, Mezanino do Centro Cultural Fiesp, basedo na improvisação textual dos próprios atores, não me comoveu. Fiquei feliz em ver um grupo ousando um espaço novo, um tipo de fala novo (o texto é o mesmo, mas na hora se vê quem vai falar a seqüência), mas, sinceramente, eu estava em alguns momentos pensando na vizinha nordestina sentada ao meu lado, que saía com tiradas como "vamos, ninguém vai falar nada? estão esperando que alguém se manifeste..." ou "beijo na boca nem eu dou..." Como será a vida tão concreta dessa mulher... Não sei, todos ficavam com uma cara de "tenho de gostar, é teatro!"


Não era a vida de ninguém e sim de um "todo mundo" abstrato, o velho paulistano que pega metrô, caga (deixemos bem claro, como ele deixou), quer ser amado e trabalha... Não, isso é concreto demais... é preciso dizer que ele pensa sobre o futuro, a falta de água, a Xuxa, sobre o vazio, o budismo, e questiona (em coro) o tempo todo "existo? existe? morte? morre? ser? sim?...
Voltando ao assunto, talvez em Itapitiringa do Sul os questionamentos sejam: como pagar minha faculdade? como criar meus 9 filhos? por que o ônibus é tão lotado... Vivemos dentro de um sossego tão bom -e somos marxistas- o que nos faz de vez em quando termos crises sérias contra o "consumo", e precisamos de um pouco de realidade urgente, cagada, merda, poder, porra, essas coisas tão sutis para lembrar que não, não perdemos a reflexão sobre a realidade...

Bem, o texto traz alguns momentos criativos, engraçados, deliciosos até ( e os atores, bem sinceros), mas não senti realmente um "eu" mas apenas essas jovens vozes (quando soube do processo, muita coisa se exclareceu) falando o que devíamos falar, nós existencialistas, nós esquerdistas, nós revolucionários...

Precisamos agora de uma postura ética que julgue o agora, e now!




segunda-feira, novembro 19, 2007

o


Educação Sentimental do Vampiro




Sim: Guilherme Weber faz a diferença. Dalton Trevisan tem tudo que a contemporaneidade- e o clima sulino- pede: pessoas que não se encontram, crueldade, um sorriso irônico sobre as sombras da cidade. A cidade podia ser qualquer uma: o que importa são as pequenas vidas, esquecidas pela publicidade turística, os infelizes, os explorados, os solitários. Mas com uma asa de morgego, outra de pássaro. O nosso vampiro sabe nos fazer rir. (Sempre tive medo de lê-lo, não sei se agüento as coisas como são)


Fui assistir três vezes. Queria pegar as sutilezas dese grupo, sua linguagem entre Brecht e o naturalismo, queria rever as confusões em que o autor nos coloca narrando coiss simples. Por exemplo: uma menina é estuprada por quatro dizidores diferentes.

Na primeira noite acho que entrei tanto na estética preto-branco proposta, tinha tanta expectativa quanto ao lado negro do autor, que tudo me pareceu meio denso, triste, quase estomacalmente perverso. Achei, por exemplo, nojenta a cena da criatura prostituta sem dentes agarrando o magricelo branco, longa e tediosa a cena do pai sem família vendo filme na noite do Jingle- Bell, quebrada e repetitiva a cena da dita "negrinha" mil vezes estuprada. Depois eu entendi. Faltava Guilherme Weber.

Com o mesmo elenco, o mesmo cenário e os mesmos atores- aliás, todos excelentes- tudo se iluminava com sua presença. Não que o outro ator fosse mal, era ótimo. Coisa que Freud explica, doutro mundo. A peça passou de uma crônica depressiva para uma piada sobre a verdade. Talvez isso se deva ao seu olhar leve e sorridente dos percalços humanos, suas caretas remetiam mais ao fabulesco do que ao sem saída, sua fala marcava com delicadeza cada tempo, suavizando o nudez do texto.

Claro que tudo o mais era bom: Erica Migon simplesmente deve ser uma das melhores atrizes do Brasil, com seus pés que brincam com o texto, suas caretas impossíveis, sua prostituta saciada que fuma e põe as mãos nos cabelos, uma das mais comoventes fotos de gente que já vi; Luiz Damasceno nem se fala, aliás já disse tudo que penso; Maureen Mirandame surpreendeu com sua presença intensa e mutante; além disso Magali Biff sabe dar um tom de dor e humor a cada frase de uma mulher violentada ou uma estudante que mora me pensão e não para de falar nem quando masturba um amigo; Jorge Emil faz os tipos mais cômicos como o narrador de um impotente contínuo e o tal amigo - "agora não fale, veja como é quentinho"; Zeca Cenovicz é também o mais perfeito curitibano comum, com sotaque e suicida. Maravilhoso ainda é o uso das linoalgumacoisagravuras do expressionista alemão Raul Cruz, tão perfeitas no tema.

Tenho ainda a comentar o fato de que me descobri do "sul" ao perceber como a platéia ri em São Paulo; sei que ser generalista é o início do nazismo, como diria um amigo, mas não pude deixar de notar a diferença da recepção do público: em Porto Alegre as pessoas com certeza iriam prontas a assisit uma reflexão de um autor sério sobre a mordidez do devir contemporâneo, Deleuze incluído, etc. e talvez não gargalhassem assim de tiradas como "você é feia, mas é de graça", ou rissem só no fim do espetáculo. Acho que o meu prazer no segundo e terceiro dias se deveram a uma platéia adolescente, disposta a cair da cadeira.
Felipe Hirsch eu pensava que me apresentaria algo cerebral e germânico sobre a vid dura; achei fundamental sua sacanagem erudita ininterrupta.

Fico bem feliz (expressão de gáucho, me dizem) por ver o quanto é possível contar em outra linguagem um conto, se formos safados o bastante para não seguir nenhuma escola, e sérios o bastante para rir delas.






segunda-feira, setembro 17, 2007

Prêt-à-Porter 8

Fui ao Sesc Consolação assistir a famosa saga do mestre Antunes. O prêt-à-porter ("ready to-wear", traduzido como "pronto-a-vestir" em Portugal") surgiu quando a moda de alta costura -baseada em uma aristocracia que gostava de ser aristocracia- foi se desfazendo e a nova sociedade que não exigia exclusividade se desenvolveu. Hoje, pelo movimento estranho do tempo, a exclusividade ja está de volta, seja na customização, seja na marca "moderninha". As cenas do grupo de Antunes remetem a uma dessacralização semelhante do teatro, e, ao mesmo tempo a diálogos possíveis em tempos de silêncio.
Digo isso porque, como já comentei, em POA parece que tudo tem de ser muito sério, a prova de alguma teoria, algum conceito, e, em alguns momentos, sentimos que somente valeria um teatro com todos nús, gritando e recitando algum texto beckettiniano. A leveza desse Prêt-à-Porter vem a calhar. Experimentos.
Ponto sem retorno, com Emerson Danesi e Marcelo Szpektor, mostra a quase-relação de dois homens, encontrando-se depois de 10 anos de colégio. A naturalidade dos atores é bem construída e reflete o desprendimento do cenário, básico. (Essa é a versão que Antunes dá ao trabalho com Stanislavski). Como Danesi consegue nos transmitir um amor abafado e Szpektor o medo do homem contemporâneo em não ser o que deve. O diálogo é vovo e corrido, natural. Eu sugeriria maior tempo entre as falas, para criar maior tensão. Também seria mais interessante se tivéssemos uma certeza, qualquer, seja de que eles se amaram e se amam ou de que foi apenas uma coisa do passado e passou. Fica um pouco entre o armário e a Parada.
Exiladas é o melhor texto, com Marília Simões e Aline Filocomo. A personagem "avoada" vai mostrando o quanto somos tolos em nossa produtividade. São grandes atrizes. É a cena mais profunda e chega a tocar o tema da morte, com muito humor.
Velejando na Beirada, com Marcelo Szpektor e Pedro Abhull retrata uma divertida partida verbal sobre a partida, dois amigos falando da morte. A proposta é hilária e o texto agradável, mas ficaria ainda melhor se depois do "discurso de corpo presente" fosse mais curta, o tempo, neste caso acaba sendo devorador. O diabo está nos detalhes e, too much, veste Prada.
O mais interessante desse espetáculo é que o "pós-moderno" aparece francamente: o representar está representado pelo "ser" e "estar", dialogar, e não pelo fingir. Tudo é feito ao vivo. Quando a moda vira tam´bem um modo de excluir por ser "in" e cria pessoa fora do "novo", falar com um amigo é revolução. Cada vez mais parece-me que atuar hoje é viver, viver com sinceridade, num mundo onde todos estão de alta costura. E "estar" hoje é o próprio processo da individuação, que Antunes gosta, é estar humano entre humanos quando tudo é pose e afetação. Pronto à vestir e a desvestir.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Corrupção Era PSDB

Engraçado, alguém lembra de ter ouvido falar disso? Com um bandido que sabe fazer frases pra mídia e pouca informação, isso parece pouco com uma democracia...

"Sua Excelência Robert Rubin, Presidente do Brasil
Greg Palast

Quando era menino, o secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, sonhava em ser presidente do Brasil. Em 1999 o seu sonho se realizou. É claro que, como tem endereço em Washington e nacionalidade americana, Rubin conquistou o controle do Brasil da única maneira que podia: por intermédio de um golpe brilhante.

Em outubro de 1998, o presidente nominal do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, foi reeleito para o cargo por um único motivo: tinha estabilizado o valor da moeda brasileira e, portanto, contido a inflação. Na verdade, não tinha. O real brasileiro estava ridiculamente supervalorizado.
Mas, com a aproximação das eleições, sua taxa de câmbio contra o dólar simplesmente desafiava a gravidade. Esse milagre levou Cardoso à linha de chegada com 54% dos votos. (...)

Por que aquele homem estava cortando árvores? Para obter lenha para cozinha. Ele não pode comprar gás engarrafado. O preço aumentou 150% em um ano.

E por que? Porque o governo FHC. Eliminou os subsídios e controles do gás engarrafado.
Por que aumentou o preço do gás do país? Para que os que podem pagar prefiram o gás encanado ao engarrafado.

Por que o governo não promoveu o gás encanado? Para tornar a privatização da companhia estatal, Comgás, mais interessante aos investidores estrangeiros.

Por que vender a Comgás? Cardoso precisava de dez bilhões de dólares por mês só para pagar os empréstimos para salvar a moeda.

Quem a comprou? A Shell Oil e a British Gás.
Quando? Em 1997, pouco depois que Tony Blair mandou seu principal assessor em visita ao presidente Cardoso.

PALAST, AMelhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar, Francis.

http://www.doutrina.linear.nom.br/historia/Hist%F3ria_Sua%20Excel%EAncia%20Robert%20Rubin,%20Presidente%20do%20Brasil.htm

quarta-feira, agosto 22, 2007

Luiz Damasceno em Porto Alegre: vanguarda + mundo

O ator Luiz Damasceno esteve no SESC de Porto Alegre neste dia 20 de agosto para palestra e aula aberta com o grupo do Centro de Pesquisa Teatral do Ator (do qual participo), coordenado pelo ator Alexandre Vargas. Luiz é professor da EAD da USP e ator de larga experiência, tendo trabalhado 16 anos com Gerald Thomas em peças tão importantes como "Nowhere Man" (1997), "Carmem com Filtro" (1990) e "The Flash and Crash Days" (1991).


Na seqüência: "The Flash and Crash Days", Luiz em "Nowhere Man" e "Fim de jogo", claro

Com sua simpatia e bom humor dirigiu-se à nossa platéia de atores um tanto aflitos e receosos perguntando sobre o cenário atual da cidade, contando sobre o momento em que mudou-se para São Paulo em 1969, quando "os espetáculos duravam uma semana em cartaz e os grupos não conseguiam se unir". Ouviu que, apesar de evoluções significativas, a cidade continua com fama de "cemitério dos espetáculos", e os grupos tendem a se desfazer por brigas internas. "Mas qual a postura de vocês perante isso? Vocês se reúnem, debatem o tema?" Um silêncio constrangido mostrava que talvez ainda não.

O ator continuou falando sobre a necessidade de comunhão em um grupo (comunicação entre os membros para que isso chegue ao público), da imperativa entrega, da espontaneidade que o trabalho com criação pede. Falou da importância da abertura a outros campos, buscando experiências em todas as áreas do saber e das artes, refletindo, debatendo. Em suma, da humanização do ator. Nisto retomava a questão da ética do grupo, proposta pelo diretor Jerzy Grotowski. “Não podem ter medo de errar”- diz Damasceno. “Temos e respeitar a diversidade, e se ela é, por exemplo, mais prolixa que eu, tenho de respeitar essa diferença”.

Sabemos que um dos principais problemas hoje ao se trabalhar com atores é justamente readquirir a capacidade de errar, olhar nos olhos uns dos outros e interagir de forma cooperativa e espontânea. De certa forma a concentração de poder no mundo de hoje e a violência que disso resulta (a empresa absolutista, a publicidade criando padrões globais, as relações de micro-poder contaminadas por essa desigualdade que descambam para a “exclusão” contínua, etc.) geram esse medo e essa frieza. Damasceno indagou e comentou também sobre a “técnica que liberta”, ou seja, o momento em que a questão formal (como a questão do modo de segurar o pincel para um pintor) se torna tão natural que cede lugar à expressão de uma verdade.

Podemos ver aí uma reflexão sobre o papel da vanguarda no século e sua transformação. Em entrevista a Gerald Thomas (quase uma “conversa de comadres” como brinca o diretor) na TV Uol, o artista falava também de seu estranhamento com obras absolutamente vanguardistas, que exploram o limite da abertura do espectador, em especial um trabalho de Peter Brooke. “A vida não é igual, tem mudanças, quando um espetáculo...quando uma coisa estabelece uma tranqüilidade absoluta em todas as coisas, me dá sono...”

Este ponto é profundamente interessante, e remete ao papel da arte entre a quebra do naturalismo midiático global na inovação e o isolamento. Damasceno aponta para o mundo, mas com uma “visão pessoal”, como ele propôs. O primeiro modernismo (que podemos situar de modo arbitrário entre o fim do séc. XIX e a primeira metade do século XX) queria simplesmente romper com o naturalismo da classe média (liga perfeita entre filosofia idealista, religião medievalista e cientificismo mecanicista), mostrar que as visões de mundo estavam se esfacelando em diferentes grupos (capitalistas, operários, artistas, religiosos, filósofos, etc.) e não havia mais a unidade instável que imperara do Iluminismo até então.

Nesta fase histórica anterior, a problemática social estava totalmente acomodada a uma ética individualista e conservadora: a fórmula de acabar com a fome prevista era, não distribuir a renda, mas, segundo Malthus, ensinar a população (mas não a si mesmo, três filhos em quatro anos) a praticar o “controle” e limitar o aumento da população. (Teoria sempre atual no empresariado local.)
Para Hegel, o Estado era a realização de uma viva eticidade da comunidade (Marx, bem depois, irá propor que é apenas (e ainda) expressão de eticidade dilacerada). Os problemas sociais oriundos da rápida usurpação de privilégios dos camponeses que iam perdendo – no Séc. XVIII com mais rapidez- a terra comunal e migrando para as grandes cidades, para trabalhos miseráveis e super-explorados, ainda estavam ocultos para uma elite cuja filosofia era a de que o mundo caminhava para o progresso geral, e a de que o liberalismo (a liberdade absoluta dos agentes sociais) nascido na era pequena propriedade rural e do trabalho manual, ia salvar o mundo.

Unidade, portanto, ordem e progresso. Como coloca Terry Eagleton, “O positivismo crasso da ciência do séc. XIX ameaçara roubar o mundo de toda subjetividade, e a filosofia kantiana docilmente seguira o mesmo caminho” (Eagleton, Teoria da Literatura, Martins Fontes, p. 80)Neste mundo automatizado, os artistas se voltam para a redescoberta da subjetividade sem a unidade, entre a dor e a crueza das guerras e do industrialismo, primeiro com o último romantismo, depois com a vanguarda. Há uma ligação entre eles quando tentam destruir o “jugo das categorias mecanicistas-utilitaristas sobre nossa vida” pela “rejeição da hegemonia da razão desprendida e do mecanicismo” (Taylor, As Fontes do Self, Loyola, p. 589)

Rimbaud, que acaba com o romantismo e o realismo, irá escrever sobre os políticos opostos à Comuna de Paris que “com petróleo pintam Corots” em “Canto da Guerra Parisiense”; Beckett, no pós-guerra, escreverá sobre o próprio pensamento prisioneiro, pois "Nosso tempo é tão excitante que às pessoas só pode chocar o aborrecimento.” (http://es.wikiquote.org/wiki/Samuel_Beckett.)

Não existe “o homem” eterno romântico, mas há uma sensação de estar vivo em um mundo, talvez grande e poderoso demais, e é preciso resgatar o direito a ver esse mundo de formas novas. Quanto mais o indivíduo se torna intelectual/ou braçal pela divisão do trabalho (resgatando os sentidos no entretenimento bobo ou na academia pelo medo de ser excluído), mais o teatro busca mostrar um homem vivente, ir mais fundo em percepções inusitadas, mostrar o ser imerso em sua carne e sangue.

Máquina de guerra, homem que morre. Adorno chamou o teatro de Beckett de "estado pós-psicológico", talvez um tempo da presença física, onde as palavras em nada ajudam- "So little to say, so little to do, and the fear so great", diz Winnie em "Happy Days". A violência do mundo aparece na violência da forma, complexa e paradoxal.

No decorrer do século, o sujeito sem oportunidades de "ver arte" (cada vez mais pessoas, na crescente concentração de renda) percebe a inovação como mera fuga quando os problemas parecem crescer mais e mais.

“Beckett está ligado a uma linguagem formal muito forte” diz Gerald Thomas na mesma entrevista. Ou seja, o estado existencial do sujeito europeu que sofre curvado sob o peso incompreensível do mundo na longa virada do século (até 1945) reage com uma nova forma de expressar a si mesmo e o mundo onde a individualidade desapareceu. (Esse duelo entre o significado existencial individual e o contexto social, aparece também entre as visões diversas de teologia, entre vaticanismo e teologia da libertação).

Entretanto o formalismo da vanguarda guardava um secreto medo do mundo. (Não é a toa que a Alemanha – marcada pelo idealismo, industrialismo acelerado e totalitarismo- tornou-se quase sinônimo de vanguarda.) Essa nova diversidade de perspectivas marca o século XX e torna-se tradição sobre a qual os artistas necessitam se debruçar.

Como comenta o filósofo alemão Habermas no seu clássico "Mudança estrutural da esfera pública”:

“restou a vanguarda como instituição a ela corresponde a crescente distância entre as minorias críticas e produtivas dos especialistas e dos amadores competentes, que estão atualizados com o processos de elevada abstração na arte, na literatura e na filosofia, com o envelhecimento específico no âmbito da modernidade (...) e o grande público dos meios de comunicação de massa por outro lado.” (Ed. Tempo Brasileiro, p. 207)

O medo do “referente” (medo da velha visão absolutista da burguesia), que tanto assusta o filósofo Derrida, e o eterno retorno ao significante –debate sobre a linguagem- gerou o silêncio sobre o mundo, e a concentração de renda ia isolando os artistas e intelectuais da massa miserável.

Enquanto isso o século avançava, o aquecimento global começava a nos perseguir e Collin Powell, ex- secretário de Estado de Bush ia afirmando na Cúpula de Québec:

“Talvez a conquista mais conhecida da Cúpula das Américas seja o lançamento das negociações para a Alca. Nós poderemos vender mercadorias, tecnologia e serviços americanos sem obstáculos ou restrições dentro de um mercado único de mais de 800 milhões de pessoas, com uma renda total superior a US$ 11 trilhões, abrangendo uma área que vai do Ártico ao Cabo Hornn”.

(Folha de S. Paulo, 22/04/2001, apud http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=1631).

“Hoje a gente pode fazer unplugged, tendo vivenciado isso”- diz Gerald Thomas. O próprio Damasceno coloca um certo amadurecimento no trabalho do diretor, da preocupação com a estética como primeiro plano, para a vivência de um ser humano mais concreto em “No Where Man”, onde se podia “ver uma pessoa em conflito procurando um caminho” e ele teria “se permitido tocar no humano, contar coisas de um ser humano”. (Recentemente parece ser o caso em "Um Circo de Rins e Fígados" (2005), sucesso de público, que não assisti, mas trata-se de comédia onde se fala de 1964, imperialismo e crimes políticos)

Quando, hoje em dia, a cultura da mídia do entretenimento e a cultura da imprensa são nossos maiores formadores de opinião e reflexão, se o intelectual não se debruçar sobre essa e outras vidas cotidianas, falará de quê? Como diz o sociólogo Boaventura dos Santos hoje superestrutura é infra-estrutura e infra-estrutura é superestrutura... (Não só porque os meios culturais tomam a forma industrial e há a produção do simbólico como mercadoria, mas porque forma opinião política e cultural). A "ideologia" vem em forma de "cultura" (glamour para poucos, seja um deles) pela TV e pela revista, e se não for criticada, forma nossa visão de mundo e nossa visão de arte...

Precisamos achar nosso corpo, viver de instinto (e mais nós, os artistas, feitos para "pensar", inclusive em ser "sensório"), mas readquirir a visão coletiva e comunicação com o todo, frente ao poder que se condensa e mata (solução para a crise da Argentina, em 2001, segundo o Banco Mundial, "aumentar a flexibilidade da força de trabalho", ou seja, reduzir o valor real do trabalho e corte nos programas de emprego. Palast. Amelhor Democracia que o dinheiro pode comprar, Francis, 2004)

Luiz Damasceno tem a coragem de discutir o excluído “referente” (o mundo), horror da filosofia pós-moderna, sem cair na tolice de esquecer a tradição da vanguarda.

sexta-feira, agosto 17, 2007

CANSEI

Não adianta nada cansar dos pequenos problemas e não entender o todo; sem cansar das causas, as conseqüências continuam... Todos nós estamos cansados, mas alguns mais que outros.

Comenta Barros Filho, que da Escola de Comunicação e Artes da USP e na Escola Superior de Propaganda e Marketing ao Terra:

"Existem aí indícios muito claros de que o episódio de Congonhas está, digamos, sendo instrumentalizado. De um lado um movimento de deslegitimização do Estado, orquestrado pelo mundo corporativo, através do discurso da ineficácia, que tem como contrapartida a responsabilidade social e outras baboseiras.

Tudo o que mostra a ineficácia do Estado interessa a certas políticas, a serviço de quem a mídia costuma estar".
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1803758-EI6578,00.html

Então tá, vamos cansar de tudo que merece isso:

- CANSEI da corrupção empresarial http://www.comciencia.br/200405/resenhas/resenha2.htm

- CANSEI da política anti-social do FMI http://www.bbc.co.uk/portuguese/economia/020807_donmpc.shtml

- CANSEI da educação privatizada, cara e de má qualidade
http://www.cefetsp.br/edu/eso/acordofmi98.html

- CANSEI da "abertura econômica" da desregulamentação dos capitais que leva à instabilidade global
http://blog.controversia.com.br/2007/06/30/a-mundializacao-do-capital/

- CANSEI do trabalho oprimido e inseguro
http://diplo.uol.com.br/2003-06,a656

- CANSEI do imperialismo das transferências Sul-Nortehttp://resistir.info/varios/divida_externa.html

- CANSEI da classe média alienada
http://www.nossacasa.net/recomeco/0027.htm

Como coloca Mino Carta em seu blog:

"O sátrapa da OAB paulista, Flavio Borges D’Urso, inspirado pelo promoter João Dória Jr, também conhecido como o Iconoclasta-Mor por ter destruído a pauladas um monumento em memória do jornalista Claudio Abramo, revidou (a proibição de usar a Igreja da Sé pelo bispo) com outro comunicado, em que transfere a manifestação do Cansei para a própria praça, com início marcado para o meio-dia.

Aconselha-se os organizadores a não promoverem na escadaria da catedral um desfile de cachorrinhos de madame, especialidade de João Dória Jr. Poderiam ser transformados em churrasquinho, em um piscar de olhos, pela plebe fartamente."

http://z001.ig.com.br/ig/61/51/937843/blig/blogdomino/2007_08.html

quinta-feira, agosto 16, 2007




Tá bem , Lula, não precisava:

“O governador pediu que a maioria do público que o aplaudia vaiasse os manifestantes. O presidente brincou com Cabral e pediu que ele não se importasse com o grupo, ‘que é tão jovem e desprovido de consciência política, que usa nariz de palhaço".

Quando 40 pessoas de um Movimento chamado Luto Brasil (que nem são os parentes das vítimas) saem em cadeia nacional porque vaiaram o ministro (em si um ato perfeitamente democrático, mas sem relevância para estar no Jornal Nacional) , é natural um político temer “narizes de palhaço”.

Puxa, mas, segundo a Agência Estado, que dá a notícia, a qual se vê copiada e colada em todos os sites, “eles pediam concurso para novos professores”.

A relevância não acompanha mais o destaque. A manchete não é "Grande grupo aplaude Lula, enquanto alguns vaiam", como fica claro no vídeo do You Tube. Também não interessa entrevistar com cuidado e detalhar o que queriam os manifestantes, debater qual a possibilidade de atendê-los, o que vem sendo feito na área...

Na verdade, tratava-se de inauguração, conforme comenta no seu blog o engenheiro Roberto Morais:

"Estas três escolas fazem parte fase 1 do Plano de Expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, que prevê a construção de 64 unidades e investimentos de R$ 98 milhões.(...) Serão destinados, pelo governo federal, R$ 750 milhões para obras e R$ 500 milhões, por ano, para custeio e salários de professores e funcionários".
http://robertomoraes.blogspot.com/

Não eram "nem meia dúzia, nem uma multidão" e incluíam "alunos da Uenf que reivindicavam bandejão para a universidade junto com mais alguns poucos do sindicato dos servidores públicos federais".
Por que nos passam a idéia, de que o presidente teria sido vaiado por jovens que lutam por mais professores e é, portanto, anti-democrático ou, como coloca a Veja on-line, "demoniza seus adversários"?

Senão, vejamos, onde você leu?

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Educação, Fernando Haddad, assinaram hoje (20) portaria criando 1.170 vagas para professores de 1º e 2º graus e 1.363 para técnicos administrativos nas instituições federais de educação tecnológica.”

Então joga no Google ["1.170 vagas para professores" + "1º e 2º graus" + Lula ] e compara com [Lula e Cabral se irritam com vaias no RJ].

Dá 6 por 374.

Reinaldo Azevedo, na mesma Veja, vai fundo: "Lula é dirigente sindical desde 1975. Poderia ter estudado. Mas sempre teve aversão aos livros. Acha que sabe tudo. Sua fala é um absurdo lógico." http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/08/lula-demoniza-os-adversrios.html

A mesma Não-Veja que financiou os tucanos:
"Dados do TSE mostram que Editora Abril, proprietária da Veja, financiou campanhas de candidatos tucanos em SP, entre elas, a de Alberto Goldman. Nada ilegal, mas não custa avisar ao leitor. Ajuda a entender a linha editorial".
Marco Aurélio Weissheimer
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=340ASP001

Lembro-me de um artigo de Marilena Chauí sobre o governo FHC e o Programa Especial de Treinamento (PET), da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes). Comentava ela:

“Assim, um programa institucional com a tradição de 20 anos (...) com a avaliação positiva de especialistas não envolvidos em suas atividades, está destinado a ser extinto com a alegação de que seus custos são muito elevados (R$ 14.504.922,47) e que sua ação é elitista!

Isso quando, em qualquer madrugada, o governo federal despeja milhões num banco qualquer para "salvá-lo" ou usa recursos públicos para financiar uma ‘privatização"...


http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_1_1.htm

Mas como surge essa classe média indignada, que, de modo tipicamente falso “Liberal” acaba defendendo acaba defendendo seu direito imediato e não seu direito mais amplo, porque vê apenas um lado da situação, uma verdade parcial? Da falta de circulação de idéias e da concentração de poder e renda (vide o poder de “CTRL+C” de todos os sites com a Agência Estado).

O capitalismo selvagem atual não consegue renovar suas fontes de riqueza, conhecimento e inovação, gerando novas trocas pela distribuição de renda. Com o excessivo peso no lado lucro, a suposta "liberdade", a sociedade se deteriora, a riqueza diminui.

Quem se lembra daqueles dados do Exame Nacional de Desempenho (Enade) 2006. , segundo os quais os acadêmicos estudam e lêem pouco?



- 43,6% dos universitários brasileiros estuda entre uma e duas horas por semana além do horário de aula

- 34% lêem no máximo dois livros por ano, excetuando os escolares

- 41,3% se informam mais pela televisão.


“A justificativa para a pouca dedicação à leitura e ao estudo está na falta de tempo dos alunos.

Segundo o Enade, 68,2% dos universitários brasileiros estudam à noite e 73,2% trabalham durante o dia.

‘É importante lembrar que o ensino superior brasileiro é essencialmente noturno, privado e pago”, segundo o diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), Dilvo Ristoff.” (Agência Brasil)


Acontece que estuda quem pode, paga (e de novo, e de novo) quem deve.


Lembremos o acordo FHC/FMI:

“No entanto, (...) a participação da União em Programas de Garantia de Renda Mínima e no Apoio ao Combate ao Trabalho Infantil, por exemplo, sofreu significativos cortes na versão final do Projeto de Lei Orçamentária.


O Programa de Renda Mínima foi reduzido em cerca de 80%, enquanto o Combate ao Trabalho Infantil sofreu cortes de 50%, impactando gravemente a Educação."”

http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/fmirev.pdf


Sob a ação dos poderosos agentes "políticos", a democracia dos palhaços desinformados, todos nós, luta contra si mesma. Não precisava o "jovem e desprovido de consciência política", mas que existe, existe...

Castigas rindo e mordes


Foi surpreendente para mim ontem o tom das brincadeiras de Jô Soares com relação ao presidente. É o momento em que se sai de uma ironia ao excesso para uma espécie de crítica sistemática, o que dá a impressão de desmontagem da imagem, pela ridicularização quase próxima à mágoa.

Citando uma frase do presidente segundo a qual no momento que o mundo conhecer a cachaça brasileira vai abandonar o uísque, frase boba, mas parte da espontaneidade lendária do personagem, o apresentador comentou: “Ao contrário do que se diz, ele não entende nada de bebida”. Um silêncio pesado chamou a vinheta.

No debate com “as meninas”, ao elogiar o modo durão e ar de competente do ministro Jobim, aproveitou para completar “não sei se vai agradar ao presidente”.

Ainda mais algumas: “Não faz Pilates, mas fez-se de Pilatos, lavando as mãos”. E, comentando uma frase de Lula segundo a qual seus assessores não iriam ir até Washington a cada tremor no mercado, como teria feito o antigo governo, soltou o verbo sobre ser esse um comentário desnecessário e só adequado ao papel de oposição, etc, etc, etc.


O denso do comentário soou como se, mais que rir dos excessos e deslizes do presidente, estivessem escavando uma a uma das suas falas a procura de qualquer coisa que rendesse um comentário crítico.
Logo de Jô, de quem sempre aguardamos uma amplitude intelectual além de todo sectarismo. Tudo começou com o projeto de “classificação etária” na TV, pobre Austrália, país primitivo, que também usa...

terça-feira, agosto 14, 2007


"No vão da escada": Beckett com magia


A linguagem é a substituição do mundo. O formalismo modernista, pai do estruturalismo e avô do derridadismo, era talvez uma fuga do mundo complicado demais, depois que Napoleão subiu ao poder e estourou a Segunda Guerra. Os autores da guerra pareciam cercados por cinzas e ruínas. “Não vejo qualquer traço de qualquer lógica em parte alguma” – diz Beckett.

Foto de Fernando Pires.

O medo aos “sistemas” iluministas e nazi-stalinistas que propunham um cientificismo único, lógico, abria para a liberdade absoluta, o que deixou a nós, artistas, sem modos de entender o mundo político e econômico. Hoje, entre o “naturalismo” do mercado que prega bom-mocismo (no fantástico mundo TV, a vida como “posição credora” ou “posição devedora”), força de vontade individual e o totalitarismo dos modelos de ser que nos penetram, e a violência que ocupa o espaço de um Estado abandonado pelos ricos para montar a fábrica na Indonésia, lutamos para ver alguma lógica em algum lugar.


O que isso tem a ver com “No Vão da Escada”, do Grupo Teatral Falos & Stercus?


Acho que estamos, de algum modo, passando (se pudéssemos supor um certo movimento insinuado nessas contradições que somos nós) da idade modernista e pós-modernista para uma fase de realismo complexo (vide texto de Fernão Pessoa Ramos, hoje, na Folha, sobre documentários e narrativas na primeira pessoa) uma fase em que as conquistas são mantidas e se supera os excessos. (Recentemente vimos filmes sobre Berlusconi, a rainha e Lady Di, aquecimento global e a Guerra de Bush.)


Sempre gostei do trabalho do Falus (se é que me entendem), mas, assim como ocorreu com “Cassandra em Progress”, da bi-décade Terreira, acho que aqui texto, direção e atuação simplificam e ganham. Luciana Paz mostra que uma grande atriz está presente sempre. Quando falo grande quero dizer grande, pois ela humanizava as frases mais "contadas" do personagem e mantinha o olhar para cada pessoa do público. Também o trabalho com o corpo que marcou a trajetória do grupo é retomado em um movimento difícil e coeso.Marcelo Restori criou um texto beckettiano, falando do fim do mundo, um mundo sem portas, nada novo para esse grupo que luta por teatro inovador enquanto invade uma ala abandonada de um Hospital Psiquiátrico e lá se apresenta.


A geração que foi à rua no início dos anos 90 era marginal porque- diferente do que dizem os falsos liberais que tiveram o “pai” lhes dando proteção antes de “fazerem por si mesmos”- não dá para primeiro crescer e estudar para depois viver: a arte era (é?) lixo no mundo privatizado. O grupo jogou na cara do mundo (reconstruída) essa violência que é ter só FunProArte para financiar, o peso da cidade (o frio que vem do tempo em que se degolava inimigos) e nossa ultra-intelectualização, que muitas vezes vai de Derrida a Tchecov, mas tem medo do novo. (Marília Pera uma vez disse: "Sei como é o público de Porto Alegre: em um primeiro momento mais quieto, não reage tanto quanto o de outros lugares, mas no final é muito caloroso"- Zero Hora, 2ºC, 20/05/06)


Voltando à dramaturgia, achei um texto mais concreto e sensível do que, por exemplo “In Surto”, mais fragmentado e desesperançoso, e mais maior. Aqui algumas narrativas se juntam ao metafísico, suavizando a linguagem. (Gosto da comunicação "essaéminhavida", provavelmente ainda quero mais “o que eu fiz e por que”).


Nietzsche, Foucault, AIDS e Collor faziam parte de uma escuridão absoluta nos anos 90. Nada saiu de cena, mas soubemos fazer nosso espaço, afinal existe o Carnaval, João Gilberto e a Cidade Baixa (dizem que o gaúcho é bairrista, para quem é off-POA, significa Quartier Latin+Copacabana sem água). Esse grupo marcou a história de Porto Alegre por ir ao extremo, por ser puro fogo.


Agora sinto que é o momento em que as conquistas são valorizadas como poesia: sabemos nossos limites, mas sabemos o que somos e podemos. Começam a aparecer esperanças, dentro de um novo realismo.




Classe Média desesperada

Sim, eu fiquei 2hs esperando o avião em Guarulhos. Que drama! Um local limpo, amplo, envidraçado, com café, suco e cadeiras confortáveis (era só subir a escada rolante, mas teve gente, muita, que preferiu ficar sentada no chão não sei por que, vai que aparece a televisão).
Cinco dias depois do desastre, o Aeroporto de Cumbica normal, tranqüilo, vem um velhinho com uma mala, o repórter “pula” nele e pergunta: “como o senhor se sente?” (entenda-se: estressado, desesperado, a beira de um ataque de nervos). O velhinho apenas olha para os lados (tudo vazio) e pergunta “como?”

Entrevistei dois profissionais do aeroporto, um deles que há 20 anos lá trabalha. “Esse acidente não tem nada a ver com a pista. Decolam vinte aviões por hora. Qualquer um sabe que foi falha da máquina, mas isso significaria dizer que a empresa não faz manutenção.” E sobre os atrasos: “Todos sempre fizeram overbook, mas antes outra empresa arrumava esses passageiros. Agora todas fizeram ao máximo, faltou vagas.” Não seria óbvio?

Depois, no Salgado Filho, uma mulher vestida de executiva de nariz de palhaço. Lembrei de meu tio que sempre falou de atrasos em aviões, há décadas.
Na TV, um pai (compreensivelmente) confuso diz: “Meu filho foi sacrificado!” Pela ANAC? Uma senhora distinta, deitada no chão no Portão de embarque: “Nunca saí para reclamar nada, (um francês diria, mesmo, sem 68, sem auxílio desemprego) mas agora CHEGA!”

A mudança na malha aérea que o novo Ministro propôs vai “fazer o consumidor pagar mais” o segundo o JG. Os 40 integrantes do Movimento Luto Brasil (não foi fundado pelos familiares das vítimas) que "vaiaram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre" (Terra) saíram em cadeia nacional, no maior Jornal do país.

Seguindo o JN hoje:

“A CPI cobrou da TAM por que não seguiu uma instrução da Anac de janeiro que recomenda o uso dos reversos no máximo, quando a pista estiver molhada no aeroporto de Congonhas. Para surpresa dos deputados, a TAM disse que nunca recebeu a instrução. (...)

Mais surpresos ficaram quando o presidente da Anac, Milton Zuanazzi, reconheceu, por telefone, que a instrução, publicada no site da agência, não tem valor porque não chegou a ser regulamentada.”

Alguém podia me esclarecer o que a ANAC pode fazer, na realidade? Ela pode bater na porta da TAM e fechá-la? O que significa “Não pode ser regulamentada”? A TV não quer esclarecer isso?

Se nosso país, é bom lembrar, está o que está é justamente porque, como um colonialista no Haiti, houve quem ajudasse grupos minoritários a tomar o poder e evitar a distribuição de renda que ocorreu em parte na Europa e EUA, e não porque a maioria votou em um barbudo operário em 2002.

***
Desesperadamente Fiel

Assistindo às primeiras cenas da mini-série que estréia amanhã, Donas de Casa Desesperadas, ficamos pensando o que a Rede TV trouxe de novo além das fofocas. O seriado se passa em um mundo de casas com jardim (Arvoredo), onde mulheres “desesperadas” cuidam das flores, dos filhos na piscina, jantam em salas enormes, etc. Muito bem, para se começar no ramo do entretenimento é preciso se valer do que já existe. (Hei, têm alguns dramaturgos brasileiros aqui!)

Claro que essa série é uma das mais inteligentes dos últimos tempos, porque a competição exigem sim qualidade nos EUA e a classe média que sai cada vez menos de casa porque alguém não pagou o imposto para investir na Bolsa e não temos segurança, precisa e adora.

Mas, convenhamos, qual a vantagem de se ter o mesmo seriado dublado? Você tem de olhar duas vezes para perceber que não é uma gringa e sim Lucélia Santos. Percebemos o quanto o modelo de família, homem, mulher norte-americanos se torna “global-normal”, quando nossos atores de 1,90 e malhados e nossas mulheres dos outros falam em português. Parece outro assunto, mas não é: é sobre alguns viverem NY-SP enquanto outros vivem favela-Tv aberta. Prefiro a Grande Família...

***
PS: Depois do fato, seguem as mesmas opiniões: ruas impecáveis, com postes antigos, meninos de sete anos em camisa social para ir ao enterro, mulheres em roupões no meio da rua segurérrima à noite vendo a mansão da amiga ser salva pelos bombeiros (você já viu uma cena assim no seu bairro?)... A série acaba fazendo pensar que existe um grupo de pessoas- talvez como a própria Gimenez, que parece passar o fins de semana em Nova York- vivendo sim naquele mundo "de plástico", em condomínios fechados em qualquer lugar do mundo, sem compreender o mínimo dos "surpreendentes" momentos como um ataque terrorista ou uma crise no mercado imobiliário fantasma porque simplesmente passaram tempo demais sem a realidade.
O que mais choca é a naturalidade das "piadas": chega-se a um enterro com uma cesta de pães de mel, toma-se café em bules de porcelana, leva-se grandes buquês de lírios na mão. O exagero das regras da Disney chega ao cúmulo quando, tendo por algum motivo sido gravado em Buenos Aires (equipe mais "entrozada com os métodos de produção" hollywoodianos? mais barata? autorizada?), uma atriz é forçada a fazer uma cena com um vestido de seda num frio de 3 °C (frio que toda a equipe comenta na festa de lançamento), outra fica nua um dia inteiro na cidade cenográfica. Se foi feito na Argentina (vimos isso antes em Chiquetitas, mas aí era ridículo sem comentários), por que esse calor Californiano?
(As atrizes, maravilhosas, souberam dar um jeito brasileiro no meio de tanta estética publicitária. Isadora Ribeiro disse que não assistiu os episódios para não copiar- e está mesmo uma das melhores.)
Onde está a mulher brasileira, solteira, trabalhando três turnos, presa no trânsito e com tendinite? A naturalização do padrão americano de ser rico. A síntese desse agradável clone foram os filhos dublados. Dublados mesmo! Vozes enlatadas como os motoqueiros do Casseta e Planeta, trocando sílabas. Isso que dá tantas normas para filmar, regras em contrato: técnica perfeita, mas não é a nossa.

sexta-feira, agosto 10, 2007

CRISE AÉREA OU CRISE ÉTICA DA MÍDIA?
A invenção da crise aérea - Marilena Chauí
...

"Do ponto de vista da operação midiáticapropriamente dita, é interessante observar que a mídia:

a) não dá às greves dos funcionários do INSS a mesmarelevância que recebem as ações dos controladores aéreos, embora os efeitos sobre as vidas humanas sejam muito mais graves no primeiro caso do que no segundo. Mas pobre trabalhador nasceu para sofrer e morrer, não é? Já a classe média e a elite... bem, é diferente, não? A dedicação quase religiosa da mídia com osatrasos de aviões chega a ser comovente...

b) noticiou o acidente da TAM dando explicações comose fossem favas contadas sobre as causas doacontecimento antes que qualquer informação segurapudesse ser transmitida à população. Primeiro, atribuiu o acidente à pista de Congonhas e à Infraero;
depois aos excessos da malha aérea, responsabilizandoa ANAC; em seguida, depois de haver deixado bem marcada a responsabilidade do governo, levantou suspeitas sobreo piloto (novato, desconhecia o AIRBUS, errou navelocidade de pouso, etc.);
passou como gato sobre brasas acerca da responsabilidade da TAM; fez afirmações sobre a extensão da pista principal deCongonhas como insuficiente, deixando de lado, por exemplo, que a de Santos Dumont e Pampulha são menosextensas;

c) estabeleceu ligações entre o acidente da GOL e o daTAM e de ambos com a posição dos controladores aéreos,da ANAC e da INFRAERO, levando a população aidentificar fatos diferentes e sem ligação entre si,criando o sentimento de pânico, insegurança, cólera e indignação contra o governo Lula. Esses sentimentos foram aumentados com a foto de Marco Aurélio Garcia ea repetição descontextualizada de frases de GuidoMântega, Marta Suplicy e Lula;

d) definiu uma cronologia para a crise aérea dando-lheum começo no acidente da GOL, quando se sabe que hámais de 15 anos o setor aéreo vem tendo problemas variados; em suma, produziu uma cronologia que faz coincidir os problemas do setor e o governo Lula;

e) vem deixando em silêncio a péssima atuação da TAM,que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes,desde 1996, três deles ocorridos em Congonhas e umdeles em Paris – e não dá para dizer que as condiçõesáreas da França são inadequadas!

A supervisão dos aparelhos é feita em menos de 15minutos; defeitos são considerados sem gravidade e a decolagem autorizada, resultando em retornos quase imediatos ao ponto de partida; os pilotos voam mais tempo do que o recomendado; a rotatividade da mão de obra é intensa; a carga excede o peso permitido (consta que o AIRBUSacidentado estava com excesso de combustível por haverenchido os tanques acima do recomendado porque ocombustível é mais barato em Porto Alegre!); etc.

f) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que Congonhas, entre 1986 e1994, só fazia ponte-aérea e, sem mais essa nemaquela, desde 1995 passou a fazer até operações internacionais. Por que será? Que aconteceu a partirde 1995?) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que, desde os anos 1980, aexploração imobiliária (ou o eterno poder dasconstrutoras) verticalizou gigantesca e criminosamente Moema, Indianópolis, Campo Belo e Jabaquara.

Quando Erundina foi prefeita, lembro-me da grande quantidade de edifícios projetados para esses bairros e cuja construção foi proibida ou embargada, mas que subiram aos céus sem problema a partir de 1993. Por que? Qual a responsabilidade da Prefeitura e da Câmara Municipal? "

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/446501-447000/446655/446655_1.html

domingo, julho 08, 2007

Da Folha: Censura?

... Segundo o diretor do departamento de Justiça e Classificação, José Eduardo Romão, "inventaram um novo significado para censura, mais conveniente aos interesses que esses "críticos" representam"."
Será que, agora, devemos encarar como censura toda ação legítima do Estado que possa causar prejuízos à audiência do negócio, ou melhor, à lucratividade do programa?", pergunta, em texto enviado à Folha.
"As pessoas que trabalham na TV facilmente enxergarão a classificação indicativa tão somente como uma garantia fundamental contra a baixaria quando conseguirem olhar para as câmeras e ver, do outro lado, as necessidades e os direitos dos telespectadores que são crianças e adolescentes."...
São Paulo, domingo, 08 de julho de 2007, Ilustrada

terça-feira, julho 03, 2007

Festival CineEsquemaNovo 2007.

Numa noite pra lá de fria topei o desafio pra lá de doido de assistir uma maratona de filmes da meia noite até as 4 da manhã- uma pequena amostra dos muitos curtas, longas e filmes dos convidados exibidos do dia 25 de Junho ao dia 1º de Julho em Porto Alegre- e depois desafiar a névoa forte que era rompida pelos românticos lampiões amarelos da Andradas.

Aliás, idéia de acabar tão tarde devia ser adaptada: com alguns intervalinhos de 10 minutos e um bar servindo café, se tornaria uma agradável convivência até as 6h, quando a vida volta à cidade.

O Festival ocorre desde 2003, promovido pela Prefeitura, e enfrentou desde o início críticas as mais diversas sobre a seleção, a real experimentalidade dos trabalhos selecionados e outras.

O site do Festival se propõe a dar vazão a "Todos os suportes imagináveis, do 35mm e suas variações até uma produção feita em um telefone celular". Pelo menos no pacote que assisti, nada realmente me surpreendeu pela novidade, apesar de nada desagradar.

Preocupou-me um pouco o fato dessa produção artística parecer não falar muito do Brasil-Cão, pelo menos não nos temas tão mega-abrangentes como os problemas sociais e o trabalho, mas arte é arte e é melhor que um monte de roteiros socialistas pra inglês ver. Reflexo, talvez, do abismo que nos separa dos problemas "reais", vivendo dentro da "bolha de consumo" e do isolamento do artista contemporâneo.

(Vale lembrar que esta seleção foi para filmes de pessoas de alguma forma ligadas a organização do festival e que, portanto, não participaram em mostra competitiva).

De qualquer forma se o objetivo é "A SURPRESA, a EXPERIMENTAÇÃO, a CRIATIVIDADE e a INOVAÇÃO", como anuncia o site, pelo menos na mostra da madrugada, fico esperando mais loucura. Não que toda inovação deva ser obrigatoriamente "uma mosca na parede", claro. Acompanhe a minha premiação de 1 a 5.

**** SKETCHES, de Fabiano de Souza, RS, tem uma mistura de Bekett com Entre Quatro Paredes e conquista pela forma como o roteiro é montado, bem interessante. Um homem se encontra em uma cela branca, ou será o inferno? Vamos descobrindo seu passado. Fernando Kike Barbosa age com espantosa naturalidade nesse meio que não é o seu de origem -o teatro- e Nelson Diniz vai se soltando no docorrer da trama, para ganhar emoção no final. Sandra Dani - sempre impressionante em papéis de mulheres fortes e rancorosas- e Liane Venturella completam o elenco, com maestria.
***** A DOMICÍLIO, de Nelson Diniz, RS, conquistou meu primeiro lugar pela simplicidade e humor do roteiro. Bandidos confundem a casa de um moderno budista com a de um inimigo a ser apagado. Fico sempre chocado com a variedade e energia de Heinz Limaverde e contente em ver Álvaro RosaCosta, muito bom no dramático Boca de Ouro, como um ótimo comediante.

*** PEQUENOS TORMENTOS DA VIDA, de Gustavo Spolidoro, RS, mostra o cotidiano de uma sala de aula de classe média em Porto Alegre. É interessante, mas me pareceu faltar algo, pois um ensino onde todas as crianças são loiras e de olhos azuis parece estranhamente com a Suiça.

**** PORTO ALEGRE DE QUINTANA, de Fabiano de Souza e Gilson Vargas é um dos especiais feitos pela RBS para os 100 anos de nascimento do poeta. è sempre difícil conciliar o literário com o comercial -como falar para um público tão amplo como o da Tv- o que aqui foi conseguido com imagens poéticas.
De alguma forma, entretanto, fico em dúvida sobre a possibilidade e até a necessidade de se tentar "pôr em imagens" poemas; claro que a voz está na origem da idéia de poesia, mas acho um tanto complicado a rapidez da imagem poder acompanhar a reflexão do verso. Seria talvez mais adequado um documentário histórico, entrevistas ou quem sabe um mergulho alucinado em inovações, como em "A Pedra do Reino" (correndo deliciosamente perigo de não servir ao propósito do meio), mas o trabalho é interessante e delicado.

*** SANTA DE CASA, de Allan Sieber, RJ, é um desenho animado realmente carioca, baseado em conto de Aldir Blanc, divertido, mas um pouco longo talvez. Crônica despretenciosa. O cansaço da madrugada também começa a bater...

** GINÁSTICA, de Mariana Xavier, RS, é uma montagem com cenas de academia, música eletrônica e tal. tem um ritmo frenético, que acorda o espectador. Divertido.
** *COMO TATUA PELE, de Manga Campion, RS, mostra um ritual das ilhas alguma coisa-supomos- quando os jovens recebem tatuagens com aqueles "garfinhos", ao som de um locutor sádico que fala suavemente sobre a beleza. Justamente aqui se vê um pouco da badalada "inovação", pois as imagens da família volta ao mundo ficam recontadas com essa roupagem debochada.Bem criativo, mas bastante ocidental, já que cada louco tem seu motivo.

**** ASAS, SOMBRAS, BICOS E UNHAS DE SONHOS, de Beto brant, SP, é o mais inovador de todos, com imagens do quadro “Asas, Sombras, Bicos e Unhas de Sonho”, enquanto Kuta, pintor angolano exilado no Brasil, narra o poema homônimo de Pablo Neruda. Belíssimo.
***** O HORLA, de Igor Natusch e Marcelo Oliveira, RS, merece destaque pela idéia original -um conto de Guy de Maupassant- e pelo ator Rafael Régoli que vence sozinho os diversos estados do personagem oprimido pelo misterioso ser. Muito bom.

**** QUINTANA INVENTA O MUNDO (...com muito sono tentamos ouvir mais poesia), de Camila Gonzatto e Frederico Pinto, RS, é rico em fotografia, roteiro e montagem, seguindo a idéia de televisionar os poemas de Quintana. Dentro de um Hotel se passam várias cenas que remetem ao mundo de Lili, a menina do poeta. Criativo, dentro daquilo que já dise sobre o poema em imagens. Coragem, a madrugada já vai acabar...

*** É PRA PRESENTE, Camila Gonzatto, RS, traz uma delicada história de amigos em uma livraria. Bem narrado, merecem destaque a direção de arte, que recria o ambiente intelectual da cidade e a atuação de Sissi Venturin , como uma suave livreira. Só não entendo o que tem a ver com o esquema novo, já que não me pareceu de modo algum uma "experimentação".

*** OLHANDO O CÃO, de Eduardo Wannamacher, RS, é um making off do filme Cão sem Dono. Com depoimentos e reflexões ajuda a desvendar o universo melancólico, pós-industrial e intelectual- pessimista do filme, onde o protagonista parece perdido em um mundo em ruínas, e entre livros. Mostra o processo de criação do longa, baseado em improvisações e trocas com os atores. Morfeu, saia desse corpo!

* DIÁRIO DO VIRALATA, de Júlio Andrade, "só no" celular, é o mesmo processo visto pelos olhos do ator principal. Interessante mostrar o convívio e o processo do elenco, mas um tanto longo e "doméstico" para ser exibido.

** CLIMAX, de Gurcius Gewdner, SP, animação feita para o grupo goiano de rock de garagem MECHANICS, é curto e criativo. Basicamente paint brush animado, mas bem rápido. Acabou! Estamos em dia com a arte da capital e as três pessoas da sala saem na noite gélida, em busca de um taxi. Acabou! Estamos em dia com a arte da capital e as três pessoas da sala saem na noite gélida, em busca de um taxi. A espera também de alguma solução entre o experimentalismo metafísico vão e a linguagem agradável, mas que não desafia tanto.

quarta-feira, junho 27, 2007



Mais uma para minha coleção FOLHA X LULA...

Merecia capa?

Ai, mais um dia de Jô Soares, agora com a mega-conservadora Lúcia Hippólito, comparando a classificação indicativa com ditadura... Aquela tarjazinha pequena é o início do stalinismo? Jô, com todo respeito que tenho por você, que coisa mais exagerada...
Seria esquecer que o Estado é também a representação do público contra os interesses privados dos poderosos... Alguém esses dias falou em ONGs, que vão vigiar a imprensa. Qual a ONG que pode definir o conteúdo da Veja?

A situação é bem diferente de um mundo ideal onde os pais ficam o dia todo com os filhos regulando o que assistem - uma mãe amiga minha disse que mesmo quando ela proibe, as coleguinhas do colégio falam tanto que a sua filha se sente fora da sociedade...

Na Austrália o Estado até exigiu programas infantis em horário nobre, e isso não foi visto como ditadura, mas como defesa da maioria.
Um senhor amigo de nossa família uma vez disse, em almoço de domingo, enquanto desligava a TV: "Não dá mais nem pra almoçar com os filhos vendo TV..."
Interessante lembrar:

* ..."Aprovada a coalizão, cabe ao presidente integrar o partido ao governo', disse o presidente do Senado, RENAN CALHEIROS (AL), da ala que apóia Lula desde 2003. "

* ... "Os preconceitos da elite são refletidos pela revista. Além dos movimentos sociais, há quem relate que um dos bordões de Tales Alvarenga, atual diretor de publicações, em sua fase à frente da revista era: 'Não quero gente feia'.

Por gente bonita, referia-se não apenas a padrões estéticos de magreza, mas também aqueles ligados à cor da pele. Segundo colaboradores próximos, fotografar negros seria quase certeza de material desperdiçado. "
Dossie Veja -http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=330

* ... "Na minha avaliação, o problema da crise está relacionado à falta de relacionamento existente entre os controladores de vôo e o comando da Aeronáutica.
Essa falta de diálogo, a quebra da confiança que há na hierarquia é que tem propiciado de um lado o preciosismo de por parte dos operadores, na operação do sistema, pressionando inclusive o comando da Aeronáutica e, por outro, na minha avaliação, uma falta de iniciativa por parte da aeronáutica para minimizar essa situação. "

Marco Maia, CONTROLADORES FAZEM A CRISE. EQUIPAMENTOS NÃO -
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/439501-440000/439633/439633_1.html

***

Depois dessa viagem pelo tempo, podemos pensar se não é verdade a seguinte notícia do Conversa Afiada...

Paulo Henrique Amorim – Entendi. A mídia se irritou porque o Lula deu certo.

Marcus Figueiredo – E ela dando certo significa a possibilidade de uma alternância de poder substituindo as velhas lideranças, as velhas oligarquias, a velha elite que sempre comandou o país e sem conseqüências drásticas. Apenas, evidentemente, uma mudança de rumo na política.

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/439501-440000/439982/439982_1.html