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terça-feira, dezembro 03, 2019

Dráculas

A Rainha chegou na sacada do palácio. Colocou sua bolsa negra com dentes pontudos de ouro sobre a pedra. A multidão - inquieta depois dos ataques - ficou imediatamente calma. O Conde fez a saudação vampírica, a multidão respondeu com salvas e cantou "Dráculas forever".

No bar antigo da esquina, homem careca, pálido, de unhas grandes, bebia ao lado de uma mulher com uma capa negra e asas de morcego amarradas no pulso.
- Beba Batman, essa velha não vai calar a boca até chegarem filas de ônibus de turistas.
Ela pareceu não e importar. Estava pálica e distante.
- Eu fico imaginando como tudo isso começou. Tenho uma amiga lâmia que jura que teve um namorado vamp-soldado que lhe afirmou que tudo começou quando um político propôs criar impostos aos bilionários para ter educação e saúde grátis. A nobreza começou a criar "bailes do vício" e "desfiles das sombras", comentados nas revistas e noticiados nos telejornais.
O careca disse:
- O brilho do poder: você é um pobre aristocrata, os pobres abaixo de você devem morrer.

Lucas, um ghoul-urbano, chegou cansado com uma notícia:
- A Rainha foi assassinada! 

O pânico tomou conta do bar. Uma donzela-em-perigo desmaiou. Vampiros clássicos deram tiros para o alto e as cyber-vampiras teens conectaram seu visor à distância. 

A mulher morcego falou no ouvido do homem careca:
- Vamos embora daqui. Alguém pode avisar o serviço secreto que sobre o que acabamos de dizer.

Pelas ruas as pessoas corriam desorientadas, e a bolsa negra continuava em algum lugar do palácio. 

Afonso Junior Lima

quarta-feira, junho 05, 2019

A ilha dos vampiros

"Como se poderia negociar com o diabo sobre o mal?"
Saramago

*
Na torre, o homem já estava preso pelas correntes, deixando seu corpo livre para os predadores. A lua entrou pela janela, os famintos se aproximaram. As feridas ainda cicatrizavam.

Rochester era um jovem oficial vampiro designado para a guarda do Acusador. Seus escritos eram lidos em voz alta - um escravo os colocara no papel - para platéias de jovens - humanos escravizados, prostitutas e imortais na taverna. Seu pai, general, tinha medo de que quisesse publicar - e aprender a ler.

Os empresários e acionistas permitiram que a casta dos vampiros assumissem a primeira linha no governo das instituições.
Na ilha dos vampiros, os sócios vem sugar os presos na torre. Depois do banquete, havia música e conversa.
- Faremos com que eles paguem. Artistas traidores. Ninguém aguenta dois anos de processo.
- Nem mesmo o machado, a roda e a lança seriam mais deliciosos.

O presidente dava uma entrevista no Congresso. 
- Como o senhor se sente sendo o primeiro demônio a ser eleito democraticamente?
- Foram 2 mil anos de Deus de amor e acabamos no abismo. As pessoas perceberam que, numa guerra, é preciso perder o medo da força. Durante anos a elite globalista nos iludiu com a aliança dos Rothschild e de Mao. O povo percebeu que toda verdade é mentira, a palavra verdadeira é aquela que te dá segurança.

Rochester tinha um homem à sua disposição na mesa de sacrifício. O sangue escorria de suas feridas.
O homem parecia próximo da morte, mas teve força para dizer, sussurrando:
- Salve-me, e eu te ensino a escrever.

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, março 02, 2019

Monstros


Lorde Kevin odiava ter de limpar a sujeira. Era, afinal, um romano e tinha em seu sangue a visão de hierarquia e obediência, mas com decoro público. Os antigos, muitas vezes, viam o mundo dividido entre escravos e corte.
Chegou na escuridão da madrugada, na possível escuridão de metrópoles.
Pareciam ter perdido sangue.
Apareciam ao lado do metrô onde dormiam, sem que se pudesse saber a causa. Crianças sempre perturbavam a ordem, atraiam a opinião pública.
Precisava usar uma isca, deixou o cão sem cabeça na praça.
O tempo passava.
Finalmente percebeu. Observou de perto, sobre o cadáver,  minúsculos pontos brancos se moviam tão lentamente que pareceriam parados a um olho humano. O bicho havia escolhido o mais obscuro tipo de sugador, milhares de insetos que podiam passar desapercebidos.
Passou a mão sobre eles, conseguiu ver onde se escondia o mestre. Entrou no jardim da emissora de TV, num galho alto de uma árvore escura. O monstro das sombras dormia em completa imobilidade com suas garras fortes. Abriu os olhos vermelhos.
Lorde Kevin usou seu lança chamas, arrancou sua cabeça com um machado e recolheu os vestígios.
A civilização precisava de outro tipo de extermínio. 

Afonso Lima

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

A Mansão

Lorde Kevin adorava entrar na mansão como todos os mortais, observando as luzes acesas no andar superior, centralizadas entre as colunas brancas. Ela sempre o esperava na porta. 
- Meu amado! Mais um ano! - o beijou seu corpo frio. 
Sempre gostou da decoração século XVIII da mansão, a madeira das portas, os detalhes dourados do teto, os lustres de diamante. 
Ela fora uma criança que via fantasmas, morava na mansão em decomposição da avó e começou cedo a escrever as histórias que eles lhe contavam nos sonhos. Quando se conheceram, no dia do lançamento de seu primeiro livro sobre vampiros (ele queria tirar essa palavra cafona do dicionário), ela percebeu imediatamente quando olhou nos seus olhos cinzentos. Há vinte anos se encontravam na véspera do dia das bruxas; ela adorava ouvir seus relatos sobre o que viveu, principalmente sobre Roma antiga e Paris nos tumultos de 1848. 
Ela estava interessada em escrever um romance sobre imortais em meio a repressão sangrenta. 
- Oito mil pessoas foram no cemitério de Bordeaux dedicar um monumento a Flora Tristan, feminista falecida quatro anos antes. "A união operária" falava de emancipação das mulheres e união dos oprimidos. Não é fabuloso?
Ele lhe deu detalhes sobre a "boa esposa" esperada por todos, "a ordem e a disciplina que mantinham o calor do lar". 
- O historiador Michelet via a civilização como fruto da luta entre a razão, o espírito, o homem contra a matéria, o oriente e a mulher...
Jantaram na mesa com doze velas e seis cadeiras vagas, a luz branca da lua entrando pelas altas janelas. 
- Você me chama de idealista e romântica... Eu nunca entendi como um ser imortal pode aprovar o materialismo vulgar e a visão de mundo sem valores morais de um Bazárov. O ser humano deve ser apenas um animal - mas pode a humanidade ser estável com muitos animais assim? 
Há anos eles discutiam Turguêniev. Por trás daquilo tudo, o sonho nunca dito dela de morrer para essa vida, sua idealização do assassinato por necessidade, sua busca insana de intensidade. Por isso a amava. 
- Já disse que eu o conheci? Ele era vaidoso, amava uma mulher casada, andava elegantemente por Paris mas eu via seu olhar vazio. Eu o observei. Não podia acreditar na geração fraca dos anos 1840, mergulhados em palavras porque sua Rússia ainda era feudal... Sofria realmente pelos maus tratos que sua mãe impunha aos escravizados. Mas estava chocado com a ideia de que, nesse mundo novo, a glória significaria violência e não beleza. 
- Um jovem apaixonado diz: "Como regra, não se deve sentir saudade das pessoas"... O monstro sempre sofre nos filmes cinzentos. 
A lareira estava acesa, apesar do dia não muito frio. O barulho dos pássaros da noite e do violino. Ela não imaginaria pelo que ele havia passado. 
- Eu devo dizer que todo predador deveria temer pelo fim da humanidade, que seria o fim de sua raça. Sempre acreditei que os mais fortes deviam prevalecer, assim como qualquer aristocrata francês, mas estou vendo que a extinção completa é uma possibilidade. A classe trabalhadora admira aqueles que a desprezam, quer conquistar um aparelho novo, seu ideal é o vencer sozinho. A nova aristocracia não produz mais. Os cálculos são autônomos, não levam a nada senão ao irracional. No fim do plano burguês está um incêndio, quando cada um cuidou do seu jardim e ninguém olhou a tempestade vindo. 
Passearam pelo verde, a estátua de Ártemis no lago cheio de plantas. 
Kevin sentia-se na presença de uma versão feminina de si mesmo, podia ir com ela para a cama, podia fazer seu sangue jorrar por puro desejo de união. E, no entanto, ambos sabiam que isso jamais ocorreria. 
Sentaram no banco de sempre. Ela disse:
- O que eu mais gosto sobre o monstro, é que ele tem um coração ambíguo. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

sexta-feira, abril 14, 2017

Ártemis

Ela não compartilhava seu ódio pela humanidade.
- Quando nos encontramos, seu pai tinha falido construindo um navio de 150 pés. Ele foi o mais digno rival de Demóstenes, mas teve de me entregar a filha virgem em troca de dinheiro. 
- O negócio é o seguinte: você está querendo que eu faça por você o mesmo que fui obrigada a fazer com você mil anos atrás. O que eu ganho com isso?
- Você queria que aquele escritor de histórias de aventura terminasse seu livro, que ele fosse publicado e que - quem sabe, virasse um filme. Eu quero que a Comissão nunca crie mais regulações. 
- Eu pensei que jamais tinha lido o manuscrito que lhe dei. Eu amei demais aquela vampira. 
- Eu preciso de alguém capaz de fazer lobby sem assustar demais o senador. Meus outros aliados preferem manchar as cortinas de sangue. 
Assim, Ártemis foi visitar o assessor do senador. 
- Trata-se de fraude, Lilian (era assim que os mortais a chamavam), e a lei, as agências, são patinhos nadando no lago para esse tipo de assassino. Ou algo parecido. 
Ela observava a espada árabe sobre a lareira. Como ele achara essa relíquia do ataque de 1098 aos bizantinos? Ela não estava lá, mas, mais grega que uma ilha, não aprendera apenas filosofia com os árabes. 
- Meu caro, blogueiros anarquistas não vão mudar o sistema. Ninguém pode. São mais de 3 mil lobistas. Nem entrou na pauta em seis meses. Os jornais falando dia e noite nisso. Aceite meu dinheiro e compre uma casa na praia. Em mais uma praia. 
- Eu sei quem vocês são. As pessoas desistiram do poder por causa de vocês. São pessoas que nada produzem. Investem em papéis. Não há governo global, ninguém segura esse monstro. 
- Aceite as coisas como são. Desmembrar os bancos que consomem a riqueza seria mudar preconceitos que nem Einstein imaginou. São predadores. Eles são imortais.
Seu amigo olhou para os prédios - cada andar levemente diverso do outro - e suspirou. 
- Eu quero escrever um livro sobre isso.
- Eu posso publicar.
Ela apagou as luzes.

Afonso Junior Ferreira de Lima




sábado, fevereiro 25, 2017

Whitby

Ele escreve.

A cena de Fausto em que Mefistóteles está numa montanha cercado de morcegos dera muito trabalho. O gerente do teatro chega a sonhar com aquilo.

Lorde Kevin chegou à pouco em Londres e decide ir ao teatro.

Ele tinha gostado bastante do Macbeth do Lyceum Theatre. 

Conversara rapidamente com o irlandês que o administrava. Um homem interessante. Contara do sonho.

Um mês depois, resolveu distrair-se em Yorkshire e caminhava pelas ruínas da Igreja de Santa Maria.

Toda aquela situação com a histeria da contaminação e o Zola o haviam abatido. Ele o encontrara em um pequeno hotel em Londres, tendo fugido enquanto a multidão no tribunal gritava: "Traidor! Volta para os judeus!"

Encontra o homem do teatro caminhando entre os túmulos. Faz anotações.

Pergunta se não tem medo, se gosta de histórias sobrenaturais.

Comenta com ele sobre a história de Lord Byron, sobre o soldado morto na Turquia a quem é prometido o retorno à vida. Evidentemente, ele não sabe nada sobre o lorde, mas seu rosto expressa um estranhamento inquisidor.

Passam a se encontrar todos os dias.

Ele anota um nome de um jovem marinheiro, morto aos vinte anos.
O irlandês diz que sempre o impressionou a história do poeta Dante Rossetti. Ele havia enterrado a jovem esposa com o manuscrito dos poemas dedicados à ela. Os amigos o convencem a abrir o túmulo para publicar o manuscrito. A glória do autor veio daí. Dizem que, abrir o caixão, um ano depois, a moça parecia deslumbrante como se estivesse ainda viva.
O lorde lhe conta sobre um servo que também morreu muito cedo.

- Eu o encontrei com quinze anos, nas sujas ruas do subúrbio. Era belo. Eu vi uma prostituta beijando seu pescoço. Provavelmente, estava doente de sífilis. Eu gritei: "Saia! Esse homem pertence a mim". A mulher fugiu como se tivesse visto um fantasma. De fato, eu a teria matado se não fugisse. Eu me apeguei ao rapaz, ele viveu praticamente preso no seu castelo, temia que outros o vissem. Ele se apaixonou por uma criada. Por sorte, a moça adoeceu e pediu demissão, desaparecendo.

O homem olha nos olhos de Lorde Kevin e tem um estremecimento.

Tomaram chá com a mulher do gerente e sua filha mais tarde. Sua esposa era belíssima, mas fria, fora cortejada por Oscar Wilde. Conversavam sobre as viagens do lorde. Ela perguntou-lhe:

- É verdade, senhor, que na França, os radicais começam a exigir o controle do exército pelo governo republicano?

- Sim, o caso todo os está marcando como reacionários. Eu mesmo vi um clérigo na rua distribuindo panfletos nos quais se lia: "Sua mãe e sua irmã têm em você uma barreira. Você é a defesa da nação contra a infâmia da invasão estrangeira!" Mas... É o mesmo em todo o lugar. Na Rússia, na Alemanha, na França, aqui, todos querem a energia da expansão e louvam a guerra como força purificadora.

O gerente do teatro sonha.

Está sendo beijado por uma mulher.

- Saia! Esse homem pertence a mim.


Afonso Lima


terça-feira, fevereiro 14, 2017

Calendários

O lorde sentou em sua mesa e escreveu.

A sombra entrou na torre na qual os astrólogos conversavam. Um deles, percebendo, tentou chegar perto de seu amuleto para evocar uma fórmula de proteção.

O sangue caiu sobre mapas, instrumentos e papiros.

O imortal roubou a pequena esfinge dourada, supostamente resultado do amadurecimento do metal baixo, conseguida por eles. E notas escritas.

Agora podia embarcar em um veleiro que retornava da Itália depois de levar toneladas de trigo para a sábia Alexandria. Lá, César queria achar um matemático capaz de reorganizar o calendário, alguém que não manipulasse o tempo de forma a aumentar o ano dos altos funcionários amigos.

Mas isso dizia respeito a passar desapercebido pela astuta rainha, que tinha espiões por toda a parte.

E, de fato, ele foi preso.

A rainha queria saber a origem daqueles papiros e da esfinge.

Ele foi trazido à sua presença enquanto sentava no trono dourado, cercada pelos sacerdotes de Serápis.

A estátua do deus tinha a cabeça de ouro e olhos de pedras preciosas, que brilhavam até mesmo no escuro.

- O senhor conhece a lenda de Ônfale, que vestiu roupas femininas em Hércules e o manteve cativo por três anos? - perguntou a rainha levantando-se.

- Eu vim em nome de César em busca de um matemático - disse o imortal.

- Entendo... César prefere não ter de perguntar à sua vassala... Ouvi dizer que o calendário lunar está em desacordo com as estações.

Seus olhos negros brilharam.

- Mas existe algo no senhor que me deixa intrigada... Será que o senhor conhece o segredo do espírito do mundo capaz de preservar a vida?

Nesse momento, o prisioneiro rompeu as correntes e, como um vento furioso, fez jorrar o sangue de todos os sacerdotes.

Cleópatra ficou pálida e sentou-se. Ele teria preferido não mostrar-se.

- Parece que os imortais de fato existem. Sogístenes, meu melhor matemático será enviado com o senhor. Ele vem estudando o Sol há décadas. Se estou certa, um jovem de lábios grossos, cabelos ondulados e traseiro grande será bem-vindo em seu quarto. Aqui, a penetração não impede a cidadania de nenhum jovem. Eu nunca mais andarei sem um Tyet.

Ela fez sinal para que as servas limpassem aquilo tudo. 

Dois dias depois, ele voltava para Roma com o matemático.

Afonso Lima
 

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Um conto Steam-punk - Afonso Jr. Lima

PARTE 1

A ira

Aqui eu criei uma fábula steam-punk, de um mundo onde os vampiros dominam. Eu tenho um sonho.
Lorde Kevin

Eles haviam me colocado no cargo de primeiro-ministro de Gondal. Era assim que chamavam agora o Império. (As pessoas votavam essas coisas insignificantes... Compras, máquinas, shows... é a liberdade!) Também me chamaram de Azazel, aquele que ensina a lutar.

Com certeza o mito do vampiro romântico nos ajudou a criar nossa identidade. O Conde, Vlad Tepes, foi morto por um de nós para evitar que continuasse sua linhagem mostruosa e algo selvagem: percebemos antes de todos, a importância da sedução.
Se nossa história começara a ser divulgada no século XVIII com os relatórios dos médicos enviados pelo imperador austríaco às vilas próximas ao Danúbio e ao Morava, que confirmavam a suposta onda de ataques vampíricos, e mais tarde pelo padre Calmet, que, tentando criar um método crítico para analisar o assunto, fez, na verdade, um best-seller detalhado, coube a mim a maravilhosa missão de manipular um jovem médico vaidoso, em disputa com seu famoso empregador, Lorde Byron, e fazer com que ele usasse o homem para criar um modelo aristocrático, lascivo, de acordo com o desejo oculto dessa sociedade hedonista em vias de abandonar a carolice. Eu criei minha lenda.

Agora um novo Azazel (porque este era também o nome do “bode expiatório” do Levítico) parecia estar surgindo. Era um rapaz inteligente, que adorava latim e grego e começava a reunir membros da sua comunidade. O governo havia decidido “revitalizar” uma área da cidade. Ficava fora do cinturão das ferrovias, que embelezavam o centro com colunas de bronze galvanizado e arcadas transversais. Mas era próxima o bastante para atiçar a cobiça. Na verdade, ela havia sido degradada (foram mesmo fechados alguns bares e festas) de modo que, deserta, se tornasse morada dos viciados. Assim o governo pretendia remover os moradores do local e dar direito a empresas amigas de ganhar com as novas construções.

Nosso Azazel foi procurado uma noite pela Condessa Z. Ela tinha a mesma idade de Vlad e havia se mantido afastada, considerada até mesmo louca pela nova geração de não-mortos. Ninguém poderia acabar com a Condessa sem levantar de suas tumbas Os Anciãos, que ficaram quietos até mesmo com o fim de Drácula. Eu enviara um espião obour para ouvi-los, através do qual eu via a cena.

- Não tema. Sou uma vampira decidida a ajudá-lo. Isso já foi longe demais. Eles o chamam de Azazel. Eu conheci o verdadeiro demônio Azazel e posso assegular-lhe: ele não é parecido com você.
O rapaz tremia na rua deserta.
- Você já deve ter ouvido falar da lendária cidade de Angria. Ela não é história para assustar crianças, nem, como dizem, uma cidade-manicômio. O povo está já insatisfeito, pois lá a dominação foi mais implacável.
O rapaz olhava para a bela vampira, que aparentava quarenta anos, com misto de pânico e atração.
- Ouça. Esse poder que eles defendem, a hegemonia da burguesia, o império, o patriarcado, está apodrecendo. Eles culpam os judeus, os artistas, os homossexuais e as mulheres liberadas por isso, mas o que eles não podem entender é que as pessoas estão cansadas da metafísica cientificista do universo mecânico. Que a magia quer ressurgir. Que, desde os gregos, a natureza é chamada “divina”. Como queria Plotino, um ser belo que se espalha por tudo, do qual participam todos os seres sensíveis. Eles insistem em dizer que a sífilis, a depravação sexual e a revolta política vêm dos estrangeiros...

Ele parecia estar imaginando que a vampira era realmente louca.
- O que a senhora quer de mim? - ele pode por fim dizer.
- Eles contratarão os maiores especialistas do país para justificar os projetos de demolição e as expulsões. Um informante me contou que eles pretendem iniciar uma onda de assassinatos misteriosos, de prostitutas, vagabundos, imigrantes, e acharão uma forma de incriminá-lo. Usarão a imaginação fervilhante das pessoas, reprimidas por uma vida de produtividade exaustiva, para falar do seu bairro como antro de homens-monstro e sugadores cheios de luxúria, seres das catacumbas a céu aberto, labirintos negros e canais putrefatos.
- Quem são “eles”?
- Plano antigo. Começou com alguns assassinatos. Em 1872, desapareceram, em circunstâncias desconhecidas, os dois censores do Estado russo, os quais haviam censurado "Ética" de Spinoza, o "Leviatã" de Hobbes, o "Ensaio sobre a história geral" de Voltaire, mas que pretendiam aprovar a publicação de um livro de 674 páginas, que consideravam inofensivo por ser difícil, falar do muito diverso “sistema capitalista inglês” e ser estritamente “científico”: O Capital. Os novos censores vetaram o livro. Logo em seguida foi assassinado, nas mesmas circunstâncias, o nobre de ideias liberais Ilia Ulyanov, que deixou um filho, o pequeno Lenin, o qual nunca ouviu suas histórias sobre a negra exploração dos servos nos campos. Sem um “terror demoníaco”, não haveria porque pensar em mudanças.

Tendo descoberto algumas das revoluções científicas em curso, assassinaram seus pesquisadores e decidiram restringir o conhecimento humano ao vapor, à "eletricidade animal", ao eletrofluído dos carros, aos balões e à transmissão sem fios, porque perceberam que a tecnologia, democratizada, faria ruir a sociedade aristocrática. Evitaram também grupos fascistas, percebendo que uma grande guerra, com a destruição dos antigos valores e falta de mão-de-obra, faria refluir o evolucionismo que dava legitimidade à competição desenfreada.
(...)