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sábado, setembro 17, 2022

Os melancólicos das esferas

Quando chegaram as naves, metade do planeta era ocupado por edifícios-troposfera vazios, terreno comprado por oligarcas transnacionais que acabaram substituídos pelos seus próprios generais replicantes. A outra metade era de desertos que resultaram de uso predatório de grãos de exportação e gado.

Os aluvianos cultivavam a mansidão, queriam ensinar aos poucos humanos refugiados nas esferas orbitais ao redor do planeta como viver com tolerância. Para isso decidiram exterminar os replicantes, eles mesmos melancólicos e cansados de viver. 

Fazia pelo menos dois séculos que os sistemas autônomos governavam as esferas. Cada tribo vivia no seu Arco. Os humanos eram analfabetos e só tinham acesso a história e cultura por imagens e sons. Milhares de dados confusos e contraditórios. De qualquer forma, comer e trabalhar eram sua única ambição. 

Um garoto se apaixonara por um livro (atribuído ao Capitão George Northhá mais de 50 anos e decidira recuperar tudo que fosse possível. Ele criara a religião dos Buscadores, que pregava a salvação dos inquietos. Eles tentaram reconstruir a origem do Mal - como era chamado o declínio da raça humana.  

Primeiro eles alegaram fraude. Depois, tomando as ruas, forçaram o governo a mudar o resultado da eleição. Logo, milícias surgiram entre os manifestantes e o governo eleito teve de sair do território. 

O futuro não era claro. Os oligarcas impuseram sua força. Parece que a guerra civil foi se alastrando e povos inteiros foram expulsos ou exterminados. 

Os aluvianos ajudaram os Buscadores a repovoar a Terra. Em troca, alguns de seus filhos deviam servir a Corte. 

Afonso Jr. Lima 

sábado, junho 13, 2020

Madeleines madeleines

As pessoas não conseguiam parar. O presente era tudo. Os mensageiros do Conselho se reuniram.

- Precisamos de algo que rompa os vasos da consciência, disse Miguel.

Alguém teve a ideia de uma indústria de madeleines.

A senhora da Flórida cansada de acumular quadros que representam milhares de quadros. 

O motorista de táxi que estava cansado de carregar pessoas que falavam as mesmas histórias ouvidas nos mesmos lugares. 

O prefeito cansado de vender as coisas da cidade e de ouvir vereadores reacionários porque lembrava de antigos prefeitos especializados em vender as coisas da cidade.

Pessoas saem a protestar nas ruas, derrubam estátuas, as forças da ordem atiram e matam. 

A procura do tempo perdido virou uma obsessão e as pessoas queriam escrever longos romances que continham outros romances, etc.

Ameaças de fechar a fábrica foram duramente criticadas na imprensa e no Parlamento. Os mensageiros do Conselho se reuniram.

- Acho que exageramos no néctar de memória que foi com o suco de limão, disse Rafael.

Os Potestates foram incumbidos de semear a fome, Samael voou sobre as cidades derramando a peste.

O dia M foi criado e não se falou mais nisso.



Afonso Junior F de Lima


 


quarta-feira, maio 13, 2020

Tempo lugar

Minha máquina do tempo tinha o peso da morte.

Penso que é uma simplificação toda essa narrativa "do mito à ciência".

Os cientistas do futuro chamarão a ciência do século XXI de superstição, por ter fundamentos errados.

Os fatos não saberei explicar. Todos na minha nave estavam mortos. Eu  chegava perto daquele planeta com três sóis, com água e oxigênio, depois de cruzar 25 mil anos-luz.

Eu aproximei-me do planeta com a sonda. Minha intenção era pousar no mar.

A cor azul me fazia sorrir. Apenas as três estrelas no céu me davam alguma angústia.

Por algum motivo não conseguia calcular com alguma exatidão a rota do impacto de chegada, o problema me fez abortar a aterrissagem.

Preferi dormir um pouco.

A aterrissagem foi perfeita.

Cheguei próximo a uma cidade em ruínas. Nenhuma viva alma.

Segui uma estrada. Meus aparelhos detectam calor em movimento.

Uma figura como de um frei, rodas se aproximam, eles a aprisionam.

Eu luto, ficam paralisados.

A mulher conta ser uma curandeira, que anda de cidade em cidade.

- A destruição nos encontrou. A proteção já não existe. Fabricamos a ciência que podemos com os tecidos de palavras que nos restam, tudo é conflito.
Eu digo a ela para vir comigo à nave.
- O Alto Sacerdote domina os demônios do tempo.

Ela me conta que neste mundo a inteligencia não é útil, os animais desapareceram, os poderosos comem literalmente os seus servos.

Sinto uma flexa na parte de trás da perna.
Escuridão. Lentamente minha realidade se constrói. Minha nave. Seria um livro que eu lera?
Eu  decidi fugir daquele planeta com três sóis.
*

Afonso Junior Ferreira de Lima



terça-feira, abril 28, 2020

Nova coesão

Muito calor. Na Sibéria, um vírus acordou depois de 30 mil anos.
Ele chegou na grande cidade para vencer. Mas precisava trabalhar. Conseguiu um emprego com um pintor famoso, havia estudado com um mestre.
Preparava tintas. Pintava cabeças. 
A peste se espalhou. O presidente ordenara atirar em quem saísse na rua, depois o Parlamento suavizou as medidas. 
Decretos foram assinados, mais e mais poder ao centro. 
Nessa época a Justiça já havia sido comprada e os jornais já pertenciam a amigos do governo. 
Ele trabalhava muito pintando cabeças e naturezas mortas. Caminhava pela rua com uma espada, foi preso e pagou fiança. 
Foi chamado ao palácio do Chefe do Exército. 
- Um jovem talentoso e violento. A beleza me comove. Quero que viva aqui comigo, será meu protegido. 
Ele começa a pintar todo tipo de figuras religiosas, jovens desnudos enchem seu estúdio. 
Um dia, estoura uma briga com um menino que se atrasa. 
- Você não pode pegar um trem, a polícia vai te barrar, vai te interrogar.
No jantar, comenta com o general sobre o isolamento.
- É um momento muito difícil. Sempre defendemos a coesão, sempre lutamos contra o inimigo interno. Mas sinto que elementos do meu grupo perdem o controle. É preciso ter uma democracia controlada, mas eu sou contra o abandono. Com corte de orçamento, o povo fica sem saúde, prejudica economia... Até nossas mulheres perderam a noção de quem são, se percebem como a aristocracia do chá, bebendo com filhas de banqueiros. A ordem traz progresso, mas sinto que o povo está sendo levado ao desespero. O nosso comandante parece ter enlouquecido. 

O presidente lhe encomenda um conjunto de pinturas para o Salão da Liberdade. Serão exibidos quando acabar o estado de alarme. 
Sai uma noite escondido, se envolve numa briga, mata um homem. 
Pergunta ao general se deve fugir.
Prepara-se um barco, foge para as ilhas, uma tempestade. Caminha de volta para a cidade à pé, tem febre, morre numa cabana.
Os imigrantes foram acusados de espalhar a peste. 
Os partidos foram banidos, jornalistas foram presos, ativistas estão sendo processados. O general é executado.
Um ano depois, o Salão da Liberdade é inaugurado. Suas pinturas criam um novo estilo. 

Afonso Junior Lima

domingo, abril 26, 2020

A tirania

As suas longas caudas brilhavam no horizonte enquanto os dois sóis se aproximavam do mar. As árvores cintilantes dançavam no vento.
Ele movia suas asas finas. Morcego observava do alto. Pegou um inseto gigante.
No chão, encontrou um objeto dourado. Abriu o livro.
"A cura causou-me mal. Quando desço em mim mesmo, no sombrio espelho dormem as imagens do destino, em mim vejo uma imagem semelhante em tudo a ele".
As longas caudas desapareceram.

Os "mortos" caminhavam para o centro da praça. O Senhor das Trevas estava no terraço da Prefeitura.
O discurso era aguardado pela multidão. Era preciso festejar o fim do mal.

O Morcego dorme. O homem aparece em sonhos.
- Justiceiro. Agora, a cidade sofre a tirania.
A imagem da execução pública aparece a seus olhos.
- Trazer a peste, espalhar terror.
Ele acorda, cai como uma pedra, o chão se abre.

A menina apontou na água. A mãe deu um grito. Dois tritões surgiram no céu e caíram na baía, e também um monstro de asas enormes. Um barco lança redes, que os recolhem. O marinheiro em negro fala com o chefe pelo celular:
- Tudo ok. Estamos iniciando agora a bio-hipnose para mantê-los sob controle.

Entram numa caverna, uma redoma os envolve e uma plataforma sobe até uma estrutura de metal e vidro - estão no castelo cercado de altas muralhas.
O Morcego observa grandes telas das quais surge um homem calvo, vestido elegantemente.
- "Quem quiser nascer tem que destruir um mundo". A cidade foi tomada por uma doença terrível. A massa está contaminada. Tive de fazer desta mansão uma fortaleza. Perdi a esperança. Só a guerra pode nos salvar. Eu quero que você destrua essa cidade.

Afonso Junior Ferreira de Lima


terça-feira, janeiro 14, 2020

Após a explosão

Vladimir M., o "cavaleiro vermelho", responsável pela Stasi Internacional, uma nomeação que representou uma vitória da elite progressista da União Soviética, era responsável pela investigação dos "inimigos da revolução". Criuleni - investigadora independente - aguardava seu amigo no aeroporto do Cairo. A máscara de Criuleni, capaz de se mesclar ao rosto, lhe propiciava a mudança de feições que quisesse.

Na Indonésia, há um ano, sua mediação havia evitado a execução de 3 mil pessoas "diagnosticadas" como tendo "a doença da orientação sexual pervertida". 

A grande cidade parava no dia da homenagem às vítimas da bomba de urânio e da rendição incondicional.

John Penny, líder do Corpo de Guardiões da Liberdade, foi o primeiro a discursar:

"Nossos agentes descobriram a maior base terrorista da história no Norte da Africa. enquanto nosso governo é atacado pelo inimigo interno, estamos nos aproximando do maior patrocinador do terrorismo internacional, da maior ameaça para a paz e a segurança do planeta. Vocês sabem que eu tenho uma relação pessoal com Jesus. E Ele me disse que não foi em vão que ganhamos do Norte socialista."

O prefeito de Nova Iorque, e seu termo pouco alinhado de azul escuro, veio em seguida.

"Nossa cidade levou décadas para superar o terrível trauma da derrota. 300 mil pessoas desapareceram em virtude da bomba russa. Se, hoje, a União Soviética trilha os caminhos da democracia, devemos nós também evitar o medo irracional e dar os braços aos defensores da paz, extinguindo as armas nucleares e químicas sem restrições".

Vladimir M. observava no espelho a estátua de Stalin com o átomo nas mãos. Estava no escritório do general Molotov no Egito.

- Um país derrotado como os Estados Unidos deveria ser mais cuidadoso - disse o general.
- Sabemos há anos que a Corporação dentro do Corpo de Guardiões cria atentados para remover líderes nacionalistas. Mas, agora, eu suspeito de algo muito pior.

- Quem diria, você... Quando eu o conheci na Associação Soviética dos Poetas Operários, pensei que seria assassinado em pouco tempo. A sorte que tivemos com o trotskista louco.

- Se Koba não tivesse morrido, a "Declaração de Paz" não tivesse sido feita, a Europa não tivesse sido reconstruída por nós, como teríamos detido o poder religioso que tomou conta dos Estados Unidos? O sistema de propaganda já fala em terrorismo. Suspeito de uma arma terrível, capaz de exterminar.


Um ataque químico de foguetes desorientou a população de uma cidade produtora de petróleo do Reino da Arábia, controlado pelos Senhores da Purificação.

Criuleni tentou contato com Vladimir em vão através do rádio equipado com dispositivo de distorção. Ela sabia, agora, da emboscada.

A imprensa estava faminta. John Penny tinha fotos do cavaleiro vermelho chegando ao Kilimanjaro, conhecido desde a antiguidade como "a montanha branca da África". Documentos revelaram um acordo secreto entre Stalin e Hitler, pelo qual as armas atômicas alemãs passariam ao controle russo, desde que alguns fiéis nazistas pudessem continuar o plano de Reich de Mil Anos em algum lugar isolado. Se dizia que, sendo o Reino da Arábia, atacado, se geraria o medo da restrição de oferta, fazendo os preços globais subirem, favorecendo a União Soviética, segundo maior produtor global.

- Você precisa fugir agora. Alguma coisa saiu errado, e eles vão assassiná-lo - foi o que finalmente recebeu o cavaleiro vermelho através de um pombo mecânico. 

Enquanto isso, em Washington, John Penny leva o presidente a assinar uma ordem de execução.

- "Sanciono esta lei com uma oração para que Deus: é preciso acabar com o medo" - disse o presidente ao nomear um Missionário Chefe oriundo do Corpo de Guardiões da Liberdade para liderar um grupo de dois mil pastores para evangeliar o Norte da África.

Criuleni assumiu o rosto de Vladimir M. e recebeu o tiro em seu lugar. Um mecanismo desfez seu corpo, eliminando rastros. 
cavaleiro vermelho vê pela televisão sua morte e decide desaparecer na multidão para investigar o  
que está acontecendo.

Afonso Junior Ferreira de Lima 

quarta-feira, dezembro 04, 2019

A Torre Infernal

O vampiro chamou O Arcanjo.
- Eu dormi por quase um século sob esse cemitério. Eu consegui viver com uma mansão por cima. Mas agora querem demolir o museu e construir uma torre para burgueses histéricos.
Miguel tinha que ser fiel. Há muitos anos, resolvera descer à Terra e viver uma noite de farra; bebeu, apaixonou-se por um rapaz (parece que não entendia ainda a ideia de normas de gênero) e acabou assinando um papel em troca de uma ajuda na sedução.

Pensava em usar agora o velho truque da maldição egípcia, que acabava com qualquer negócio ao fazer os sócios brigarem. Mas, ao voltar ao céu, recebeu a visita de Hermes.
- Os Superiores não querem. É preciso permitir a Torre Infernal, ele disse.

Miguel não podia crer. Os Superiores não costumavam parecer tão preocupados.
O alquimista, Dr Sherlock e Máscara Japonesa estavam na costa naquele poente.

- Acho que Miguel está brincando comigo, ele sabe que uso cartola e capa.
- Por que zoar um homem cujo apelido é Dr Sherlock?, disse Máscara Japonesa. Ele usava esse nome porque de alguma forma, uma fina porcelana branca se colara em seu rosto.

O alquimista falou:
- Minhas fontes informaram que esse cemitério pode estar relacionado com eventos muito importantes. Nix foi chamada para uma reunião com Ramiel.

Máscara Japonesa tinha esse dom de se tornar invisível com sua imobilidade.

- Um grupo de jovens vai usar essa Torre para criar uma revolução. Vão usar a tecnologia para alterar o comportamento. Odeiam a democracia. Ramiel, com suas visões, profetizou que pessoas vão morrer em campos de trabalho, haverá sacrifícios humanos e terras serão roubadas com o extermínio de populações inteiras.

O castelo de pedras vermelhas ficava na Terra dos Sete. Miguel lia manuscritos sírios. Ramiel penetrou em sua casa como uma enorme serpente.
- Você sempre teve uma veia performática Ramiel. Lembro de quando formaram aquela colônia na Terra.
- Arcanjo Amado, ouça. Há séculos que esperamos. Vamos nos tornar Senhores também da Terra.
- Estou tendo uma visão. É a de um filho da linhagem dos Arcanjos dominando os homens.
- Miguel, não nos tente impedir.
A serpente se tornou um brilho escuro, que desapareceu pelas janelas.

Afonso Junior Lima

terça-feira, dezembro 03, 2019

Dráculas

A Rainha chegou na sacada do palácio. Colocou sua bolsa negra com dentes pontudos de ouro sobre a pedra. A multidão - inquieta depois dos ataques - ficou imediatamente calma. O Conde fez a saudação vampírica, a multidão respondeu com salvas e cantou "Dráculas forever".

No bar antigo da esquina, homem careca, pálido, de unhas grandes, bebia ao lado de uma mulher com uma capa negra e asas de morcego amarradas no pulso.
- Beba Batman, essa velha não vai calar a boca até chegarem filas de ônibus de turistas.
Ela pareceu não e importar. Estava pálica e distante.
- Eu fico imaginando como tudo isso começou. Tenho uma amiga lâmia que jura que teve um namorado vamp-soldado que lhe afirmou que tudo começou quando um político propôs criar impostos aos bilionários para ter educação e saúde grátis. A nobreza começou a criar "bailes do vício" e "desfiles das sombras", comentados nas revistas e noticiados nos telejornais.
O careca disse:
- O brilho do poder: você é um pobre aristocrata, os pobres abaixo de você devem morrer.

Lucas, um ghoul-urbano, chegou cansado com uma notícia:
- A Rainha foi assassinada! 

O pânico tomou conta do bar. Uma donzela-em-perigo desmaiou. Vampiros clássicos deram tiros para o alto e as cyber-vampiras teens conectaram seu visor à distância. 

A mulher morcego falou no ouvido do homem careca:
- Vamos embora daqui. Alguém pode avisar o serviço secreto que sobre o que acabamos de dizer.

Pelas ruas as pessoas corriam desorientadas, e a bolsa negra continuava em algum lugar do palácio. 

Afonso Junior Lima

domingo, outubro 13, 2019

Os heróis

Abrindo o ventre, caíram os órgãos internos. Agora, ilegal era defender a floresta. O cacique era um líder. Os caçadores tinham como missão criar terror deixando os corpos nos troncos queimados.

- O índio correu e caiu - disse o jornalista na TV.

Mas o pajé postou no twitter:

As milícias sem lei do alto
porto dos índios escravos
dom senhor organizava
dos cristãos súditos a caçada
era da vida roubada
a renda da vila toda

Mesmo da Espanha sendo
mesmo na igreja fechado
o povo foi cortado e morto
enquanto fugia, agonia essa mesma
nas crianças e velhos matados
os violinos não tocavam
no rumo da escravaria

Mas o santo rei autoriza
e quando o poderoso paulista
nas canoas descia pro ataque
outra força os derruba
na guerra da liberdade.

Afonso Junior Lima


domingo, agosto 11, 2019

desobediência

Na escuridão da noite - e o porão era sempre totalmente escuro - ouvia-se o grito de alguma mulher. A milícia levava alguém para o calabouço. Procuram escritos secretos, armas. Os homens não dormiam. O exército fora embora. As milícias brigam no chão, as crianças brincam no porão.
A menina ia para a escola sem sapatos. Já era bem difícil conseguir água. Uma mulher idosa deu a sua mãe uma caixa.
- Minha neta morreu com um míssel.
Ela cresceu lendo com a luz que conseguia, caminhando pelos destroços. Seu pai a ensinou a atirar.
Aos quatorze anos andava pelos cemitérios, descobriu uma cripta de um antigo santo. Próximo de um jardim agora deserto. A luz entrava por claraboias coloridas. Resolveu ficar ali.
Sua mãe levava comida. Ela ficava deitada. Sua mãe ficou deitada.
Aos poucos, a guerra acabou. Alguém venceu. A ordem. A mata estava crescendo. Ela cresceu.
Ele ouviu sobre a menina da cripta.
A menina que tinha os sapatos de sua irmã.
Joelho na areia, a observou pelo vidro colorido.
Ele tocou sua flauta por perto.
Tocou com três luas.
Eles caminharam pelos jardins. Ela o ensinou a ler.
Ela o beijou.

Afonaso Jr. Ferreira de Lima

quinta-feira, julho 18, 2019

Para onde fugiram os sonhos

A cidade sem sonhos, as torres mortas e o céu cinzento. Ele lera no seu quarto sobre como a humanidade podia voltar atrás na evolução e conhecimentos terríveis poderiam sobreviver. Um menino morrera na rua ao lado. Ficara pálido e imóvel, não chegara vivo no hospital. Desenhara esse menino em seu caderno. Observava os céus à noite no terraço do prédio decrépito com sua luneta comprada num mercado de pulgas. Seu autor tinha uma fascinação por misticismos que eram também terríveis horrores.

*

Seu pai viajava pelos mares, vendia coisas, foi internado num hospício. Sonhava que uma sombra vinha lhe observar na sua cama. Sua mãe lhe dizia sempre que foram as prostitutas que mataram seu pai. "As putas polonesas judias". Seu avô lhe contava histórias apavorantes no seu castelo de cidade de interior. Da luta do rei medieval contra as incursões dos pagãos. De florestas com esqueletos e indivíduos organicamente inferiores que seriam criminosos inatos. "A grande cidade é cheia de parasitas judeus". Sempre ficava vermelho de raiva ao ver negros nas ruas, a quem chamava "semi-humanos". Lia nas revistas científicas sobre como o sol crescerá, engolirá a Terra e se tornará uma pequena estrela sombria. E a escuridão cairá sobre o cosmos. "Os verdadeiros monstros são invisíveis e estão no ar, desagregam os tecidos e se chamam Progresso". Ele tinha sonhos acordado nos quais via os monstros marinhos e as criaturas mais bizarras que imaginava terem levado seu pai à loucura. Caminhava pelos cemitérios e evitava falar com as pessoas na rua. O anonimato era algo assustador, já não respondiam a outro rosto, não eram humanos. 

*

A total penúria, seus anos de desejo sexual tendo passado e dado lugar a um desinteresse incomum, pequenas traduções que o alimentavam. Mal. As leis da natureza eram uma ilusão, o destino aniquilara seu lar, os deuses eram criaturas cruéis. Achou um livro que contava a história de um rapaz que lera sobre uma ordem secreta. O que vemos é resultado de dos delicados instrumentos psíquicos e mentais de cada individuo. Queria viajar no tempo, não no espaço. Um dia sentiu desprender-se de seu corpo. Nesse espaço, ficavam os sonhos abandonados. Seres mágicos e assustadores, monstros, homens perdidos que pesquisavam reinos estranhos e relações um dia familiares. Banquete no jardim do castelo de três muralhas. Cantavam nas noites lendas iraquianas, como aquela em que Alexandre, para construir sua cidade, porque destruíam à noite o que os operários faziam durante o dia monstros, teve de descer ao mar e enfrentar esses demônios com corpo humano e cabeça de feras. Carlos Magno traçava o curso das estrelas. O pensador lamentava com sua harpa a ausência de Deus. O filósofo comentou bebendo vinho que no seu tempo, a natureza tinha seus poderes, mas a nova fé a fizera triste e passiva.

*


Observa o céu, frias luzes como ilhas perdidas. E se, depois de muito tempo, o gelo brilhante e indiferente o tocasse? Ele sabia que no subsolo haviam horrores que podiam sair à superfície. Sobre a mesa, o livro com o melaficium de Conrado de Marburgo, Teosofia, e velhas edições de "Sob as luas de Marte". Pensa que as lendas antigas sobre mulheres capazes de voar haviam sido estudadas na luta contra Satanás. E se, de alguma forma, o mal se materializou, algo fosse criado da imensa ausência e do vazio? Acreditava agora que um portão se abriria, algo o acompahava há muito. Então, observando um ponto negro no espaço, entendeu que uma Outra Face o observava, e, sem palavras para dizê-lo, desenhou no seu caderno.


Afonso Junio Ferreira de Lima

sábado, julho 13, 2019

Anarquia

Mais uma vez conseguia chegar em casa, era preciso trazer comida. Pela cidade deserta, apenas os homens armados.
Ele deixou as coisas na cozinha, tirou a roupa pesada e aproximou-se do fogo na sala.
- Vô, conte sobre os tempos antigos.
A cabeça branca sussurou:
- Antes você não era surrado na rua por bêbados. Antes, eu enxergava. Antes as mulheres não eram amarradas por seus maridos. 
Ele bebeu o chá quente. Ele já havia ouvido a voz do velho médico muitas vezes, mas era preciso saber as causas. 
- As pessoas foram nutrindo a descrença nas leis. A desigualdade gera desordem, queremos ordem. Por fim, as massas preferem tiranos. Os tiranos fomentam fim das instituições, a anarquia é dominada por homens armados.
O fogo estalava. A chuva começou a cair.
- No começo... Eu me lembro do tribunal conversando com o acusador. Aquilo chocou as pessoas, era uma sentença sem provas.
Sempre surgia algo novo. 
Ficaram assim em silêncio por um tempo. Ele apertava a mão do avô e saia silencioso para preparar o alimento. Depois, o médico chorava.

Afonso Jr. Lima

quinta-feira, junho 06, 2019

O rei macaco

O rei macaco decretou que todos os livros seriam censurados. No trono, um círculo bordado à ouro. Na hierarquia divina, o Sol é o filho de Deus, e Deus odeia a "melancolia do pensamento concentrado". 

Ninguém sabe exatamente como aconteceu. Parece ter sido uma experiência genética em que uma mulher recebeu o esperma animal. Há cerca de seis milhões de anos, um ancestral comum deu origem à dois filhotes, um deles atravessou a margem do rio e virou a humanidade. Talvez uma pesquisa procurasse a possibilidade de fusão entre primos.
Graças ao seu apetite sexual incomum, os macacos sapiens prosperaram. Seu modo de vida chamou a atenção dos humanos: havia a festa de sexta-feira, toda distinção social se apagava, e os toques eróticos indiscriminados acalmavam as tensões. 

Um deles se destacou. 
- Nós não entendemos por que são tão agressivos. Achamos que a ansiedade que a imagianção cria atrapalha a humanidade. Sempre temos seres humanos insatisfeitos e usando a linguagem para criar angústia.
Alguns humanos reagiram, mas o pensamento complexo tinha seu peso. Repetir sempre o mesmo era também relaxar. Os filhos da classe média nascidos na última ditadura se acostumaram com a miséria e a irresponsabilidade. Como transformar a burrice em negócio? Os livros passaram a ser considerados perda de tempo.

Cada dia é mais difícil resgatar o que pode ter sido a origem. Nosso registro é comprometido. Sabemos que os macacos foram eleitos para o Parlamento. Um primeiro-ministro foi eleito. Em seis meses, deram um golpe e instituíram a monarquia.
- O investimento é pouco porque somos pobres, e ele irá para os esportes e a nutrição - afirmou o rei.

A acessora macaca fazia banquetes onde todos os conflitos acabavam em dança. O maior filósofo do país foi encontrado morto. Foi criado um imposto para as crianças que frequentassem aulas. Era proibido "gastar dinheiro" com "professores malucos". 
Mais de dois mil professores e artistas desapareceram. No festival do deus sol, os estudantes eram humilhados desfilando nús e recebendo excrementos e frutas. 
No apogeu, o rei macaco cuspia no chão honrando os antepassados e recebia a coroa, simbolizando a bênção de Deus. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, junho 05, 2019

A ilha dos vampiros

"Como se poderia negociar com o diabo sobre o mal?"
Saramago

*
Na torre, o homem já estava preso pelas correntes, deixando seu corpo livre para os predadores. A lua entrou pela janela, os famintos se aproximaram. As feridas ainda cicatrizavam.

Rochester era um jovem oficial vampiro designado para a guarda do Acusador. Seus escritos eram lidos em voz alta - um escravo os colocara no papel - para platéias de jovens - humanos escravizados, prostitutas e imortais na taverna. Seu pai, general, tinha medo de que quisesse publicar - e aprender a ler.

Os empresários e acionistas permitiram que a casta dos vampiros assumissem a primeira linha no governo das instituições.
Na ilha dos vampiros, os sócios vem sugar os presos na torre. Depois do banquete, havia música e conversa.
- Faremos com que eles paguem. Artistas traidores. Ninguém aguenta dois anos de processo.
- Nem mesmo o machado, a roda e a lança seriam mais deliciosos.

O presidente dava uma entrevista no Congresso. 
- Como o senhor se sente sendo o primeiro demônio a ser eleito democraticamente?
- Foram 2 mil anos de Deus de amor e acabamos no abismo. As pessoas perceberam que, numa guerra, é preciso perder o medo da força. Durante anos a elite globalista nos iludiu com a aliança dos Rothschild e de Mao. O povo percebeu que toda verdade é mentira, a palavra verdadeira é aquela que te dá segurança.

Rochester tinha um homem à sua disposição na mesa de sacrifício. O sangue escorria de suas feridas.
O homem parecia próximo da morte, mas teve força para dizer, sussurrando:
- Salve-me, e eu te ensino a escrever.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, junho 04, 2019

O Portal

Sua Voz, eu ouço o Anjo sussurrando. Eu nunca quis te magoar, queria ser uma pessoa comum.
Tudo seria mais fácil, tenho que seguir meu caminho para a floresta, eles jogam paus e pedras, quebram meus ossos. Eu queria meus filhos, cuidar do meu marido. Esse eu outro voa pelo mundo.
Margery

O Juiz
Como os alquimistas que copiam a realidade. O mundo frio, precisando de labirintos, o real simples oprime. A sombra usa o nome santo. O Comandante, O-que-é-como-deus, está buscando o caos? Você me feriu, meu amado. Um mundo imune ao não familiar, o humano iluminado. O Espírito para o sono. O infantil é o mágico. Você me perdeu. Eu chamarei a mulher. 

Miguel, aqui estou, a luz que te cega. Trovão me procurou. Ele queria me convencer de uma tese estranha. O fundador é um outro, o pai é um estranho. A Voz é a única certeza que temos, somente os Três representam a vontade do Oculto. Juiz e Vigilante estão também possuídos. Queriam abrir o portal dos demônios. Eles queriam que a mulher os guiasse. Tudo que vemos é uma mentira? Diga-me a verdade. Eu sou a Chama, mas também o Anjo do Arrependimento, e haverá guerra se você me perder. 

Afonso Junior Ferreira de Lima


sexta-feira, maio 24, 2019

A lei interna

Quando eles programaram as sementes com essa lei interna, não pensaram que morreriam milhões de pessoas.
Em 2027 vazou um acordo entre as corporações  - ou seria uma brincadeira? - com as novas leis dos robôs:
1) um robô só visa dar lucro a empresa que o criou.
2) um robô pode eliminar os humanos que não dão lucro.
3) um robô protege sua vida desde que não contrarie o interesse da empresa que o criou.

O Filósofo se pronunciou:
- O jogo, a máquina segue suas próprias regras, não copia a realidade. Acho que no começo teve a ver com a revolta contra a subjetividade romântica. Duchamp e seus mecanismos sem toque pessoal. Máquinas, trocadilhos, acaso, a lógica fria era libertação. Não simular o real, mas desdobrar o imaginário, usando a inação dramática, metalinguagem, duplicações, repetições, a materialidade da cena, um teatro de imagens, etc... Mas a aniquilação ronda o mundo pós-humano. 

Os informantes da imprensa estavam sendo presos com a lei sobre espionagem. Nesse clima, uma empresa criou uma lei interna de sementes robóticas que seria expansão contínua e destruição de sementes totalmente orgânicas.  

Em determinado momento, a IA decidiu que seria muito melhor para a contaminação eliminar a parte nutritiva do alimento. As sementes ignoravam a vida humana. 
Vastas extensões de terra haviam sido destinadas à plantação para exportação, eliminando as florestas e gerando milhões de refugiados. Aos poucos, as sementes artificiais geraram extinção de inúmeras espécies. 
O Filósofo começa a guerrilha com disseminação de vídeos fabricados nos quais as maiores personalidades do mundo falam sobre o tema. 
Finalmente, um alerta global foi disparado. Havia risco de extinção da espécie criadora. 

Afonso Jr. Lima

quarta-feira, maio 22, 2019

Era quase meia-noite

"Ouse saber!" O Grande Despertar da América contra a monarquia britânica, a Revolução que empolgou o jovem Hegel, energia química e elétrica excitavam as mentes curiosas, colônias lutando contra a Espanha.


"O livro era Impérios Arruinados de Volney.... Essas maravilhosas narrativas inspiravam-me estranhos sentimentos", escreveu Mary Shelley em 1831. 

Eu sempre achei que ela estava falando muito mais do que aparentava dizer, falava sobre a emancipação da mulher através de sua imaginação. 

Então, eu pensava que uma outra mulher, falecida dez anos antes, havia rompido com a Deusa Razão.

"O que é você que caminha a esta hora da noite em trajes guerreiros, e que se parece com o rei morto da Dinamarca? Fale!"

A pequena Ann assistira no teatro de Natal o espantoso fantasma de Hamlet. Na biblioteca, o livro mostrava torturas da Inquisição.

Seu marido chegava tarde do jornal. Já havia escrito e publicado quatro livros, com sucesso. A "Shakespeare do romance".
"Esta imagem era tão terrivelmente natural, que não surpreende que Emily a tivesse confundido com o objeto que parecia, que ela tivesse acreditado que este era o corpo assassinado da dama Laurentini, e que Montoni tinha sido o inventor de sua morte."

A "feiticeira poderosa" pouco saía de sua casa. Nas festas da sociedade não se esforçava para ser simpátia. Ela observava e anotava, quase nada se sabe de sua vida.

Havia muita ansiedade no ar. Ela era amiga da Sra Darwin, suspeitava que seu pequeno filho de cabelos loiros seria lido como o homem que reduziu a humanidade à macacos?

Seu último livro é diferente. Aqui, impera a noite. Ela começava a se cansar da nova face da ciência, menos pergunta, menos suspense?

O que aconteceu nessa noite fria, a lareira com fogo baixo, em que as árvores batiam na janela e uma sombra pairava sobre o coração dessa mulher? 

Será que ela adormeceu sobre a pena e o papel? Será que recebeu uma visita estranha? Será que ouviu uma voz? Entrou ela no sonho e navegou pelo não explicado?

"Era quase meia-noite, e a quietude que reinava era mais aliviada do que interrompida pelo suave correr das águas da baía abaixo, e pelos murmúrios vazios do Vesúvio, que vomitava de tempos em tempos sua súbita chama no horizonte, e depois o deixava para a escuridão".


Afonso Junior Ferreira de Lima







terça-feira, maio 21, 2019

O corpo do homem

A mãe chorou porque queria netos. 
- Eu devia unir as mulheres para defender meu direito. Por que você foi sorteado? 
Ele sonhara justo hoje com sua mãe, que havia descoberto com sete meses de gestação que seu irmão gêmeo havia morrido dentro dela. 
Lut estava na fila para o procedimento. Um homem de cabelos brancos estava furioso. 
- Eu consegui na Justiça adiar por anos... Mas agora eles vão me enfiar a faca sem meu consentimento. Não quero ter filhos, mas isso é ilegal. 
Contou sobre um artigo no jornal: "Não é uma escolha quando você produz milhares de sementes perigosas todos os dias". 
Ele estava com medo. Ele, que fizera tantos protestos na universidade. 
- Eu sou da época em que o Senado votava para decidir se os homens que tiveram filhos... A segurança é mais importante que a liberdade, eles diziam. Todos aqueles velhos que espalharam seus filhos por todo o mundo. 

O carro de seu primo se chocou contra uma árvore e incendiou. Mas sempre pensou se não foi um gesto de loucura por ter perdido a filha.
Uma mulher idosa passou pela rua de carro e gritou:
- Castração pelo aquecimento global! 
Lut sabia que estavam votando uma lei para castração química de todos os homens solteiros que não fossem primogênitos, devido à "crise de superpopulação". 
Ele imaginou ver seu irmão morto caminhando pela rua. Ele fora sorteado por que era rebelde. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, maio 18, 2019

A guerra

Agora elas estavam em frente ao exército privado, contratado para acabar com seu exército de espíritos. A deusa de olhos de águia estava na vanguarda, pronta para a batalha.

Quando chegaram, vieram como uma nuvem negra sobre os prédios, as águas subiram, o gerador de emergência iluminou o prédio do banco enquanto a cidade ficava às escuras. As ninfas trataram de insuflar o pânico nas melhores mentes de negócios.

Na corte, Poder decidiu que já era hora. Sem o rio não há espírito do rio. Sua filha Escudo Dourado trouxera a notícia de que os homens haviam enlouquecido.

A menina deixa uma flor no túmulo de sua mãe.

A ninfa entrou no quarto do enfermeiro. Ele começa a contar dinheiro. O banqueiro na torre. Decide pôr fogo na cobertura para solicitar aumento. Mata um dos maiores destruidores de países.

Espiões. Um exército privado é contratado pelo Banco. A ninfa traz o Inverno da Morte.

A menina sublinha no seu livro: - Jack, você tem certeza de que ela está morta?

O necromante é chamado, denuncia o exército das ninfas.

De cima do prédio mais alto, Atená observa o arco de Ártemis no céu. Chamas devoram as casas ao lado do metrô central.

Morre o governador, envenenado pela sua filha.

Atená aparece próxima à lápide como coruja. A menina ouve uma voz.

A deusa de olhos de águia estava na vanguarda. O necromante convocou um exército de fantasmas.

A menina observa a nuvem negra sobre as águas.


Afonso Junior Ferreira de Lima




segunda-feira, maio 06, 2019

Antes da Revolução

- Você me pergunta, o que houve antes da revolução? Antes dos peregrinos, da prótese-de-memória, dos amantes-robôs, do calendário lunar, da guerra iminente e das túnicas inteligentes de jade?
Nosso país era rico e foi invadido. A posse da terra era algo novo por aqui, mas era marca de nobreza dos invasores. Usar nosso trabalho para seus ustento parecia normal para eles. As pessoas foram perdendo suas terras, que eram dadas a Ordens Religiosas e ao Exército.
Uma menina que viu sua aldeia ser incendiada tornou-se uma líder rebelde. Aliou-se a um Império estrangeiro derrubaram o Antigo regime.
As terras foram compradas das Ordens Religiosas, mas doadas pelos novos aliados a famílias poderosas, descendentes dos invasores. Criaram escolas em língua estrangeira, centros de tecnologia. A produção de arroz foi substituída pelos produtos de luxo para exportação. Veio a Guerra e o Império entrou em colapso, milhares de pessoas morreram de fome.
Surgiu então a revolução.

Afonso Junior Ferreira de Lima