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sexta-feira, agosto 03, 2012


Fw:
Conselho dá aval à revitalização da Luz

Após briga jurídica e quase um ano de espera, Kassab obtém licença ambiental para um dos principais projetos da gestão

Licitação vai escolher empresa que tocará o plano, que prevê demolir quase 30% da área da cracolândia

EVANDRO SPINELLI

DE SÃO PAULO

A Nova Luz, projeto de revitalização da região da cracolândia, já tem licenciamento ambiental, o que permite à Prefeitura de São Paulo abrir a licitação que irá definir quem vai fazer as obras.
A licença foi aprovada ontem pelo Cades (conselho municipal do meio ambiente), onde tramitava desde setembro do ano passado.

O prefeito Gilberto Kassab (PSD) quer abrir a licitação rapidamente, assinar o contrato ainda este ano e "amarrar" o próximo prefeito, que assumirá em 1º de janeiro.
Com o contrato firmado, o futuro prefeito não poderá mudar ou revogar o projeto, pois o contrato prevê multas e prazos a serem cumpridos.

"É possível fazer neste ano [a licitação]. Mas vamos fazer com toda prioridade e com todo cuidado", disse o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem.
A Nova Luz é o principal projeto de revitalização urbana da gestão Kassab, mas levará 15 anos para ser concluído, prazo que começará a ser contado a partir da escolha da empresa que fará as obras.

Cerca de 30% da área construída do bairro -44 quarteirões- será demolida para dar lugar a prédios novos. A prefeitura irá bancar até R$ 355 milhões para viabilizar economicamente as obras, segundo os estudos do consórcio que elaborou o projeto.
BRIGA JURÍDICA

A elaboração do plano de revitalização da região custou R$ 14,6 milhões. Ele foi apresentado em agosto de 2011 e patinava no Cades e na Justiça, que concedeu várias liminares a pedido de moradores, Defensoria Pública e associação de lojistas da rua Santa Ifigênia, polo de comércio de produtos eletrônicos.

A última liminar contra o projeto foi suspensa pelo Tribunal de Justiça em junho. Sem empecilho jurídico, o Cades finalmente deu o parecer.
Bucalem disse que esses 11 meses de tramitação foram de "árduo trabalho de ambas as partes". O Cades exigiu o detalhamento de alguns programas, como os que serão feitos nas áreas social, de saúde e de resíduos sólidos, mas não será necessário modificar nenhum item do projeto.



Caros amigos da Santa ifigênia, alguns mais desavisados podem estar surpresos com esta afirmação do secretário Miguel Bucalem "não será necessário modificar nenhum item do projeto.", mas, o que poucos sabem é que:

1- A mesma empresa responsável pelo projeto, CONCREMAT, elaborou o estudo de impacto ambiental.
2- A composição do conselho nunca permitirá a efetiva participação da sociedade civil. Não há paridade.
         3- A área analisada foi a adicional, portanto, se mudado o gabarito legal dentro do plano diretor para a região do "nova luz"  o empreeendedor terá o céu  como limite para explorar comercialmente o espaço urbano e  a população paulistana.

Observem abaixo a relação dos integrantes do conselho...
CADES
Conselheiros 2012-2014

Secretaria de Governo Municipal – SGM
 Titular – Nilza Maria Toledo Antenor
Suplente – Benedito Goes Neto
Secretaria de Serviços - SES
Titular – Aruntho Savastano Neto
Suplente – Marina Merussi Neiva
Secretaria Municipal da Habitação e Desenvolvimento Urbano - SEHAB
Titular – Marcia Maria Fartos Terlizzi
Suplente – Pedro Luiz Ferreira da Fonseca
Secretaria Municipal de Educação – SME
Titular – Marco Aurélio Chagas Martorelli
Suplente – Ana Helena Val Groth
Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano – SMDU
Titular – André Luis Gonçalves Pina
Suplente – Olga Maria Soares e Gross
Secretaria Municipal de Transportes - SMT
Titular – Ivan Metran Whately
Suplente – José Carlos Andersen
Secretaria Municipal Infra-Estrutura Urbana e Obras - SIURB
Titular – Glaucio Attorre Penna
Suplente – Andréa Akissue de Barros
Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social - SMADS
 Titular: José Eduardo Rodrigues da Silva
Suplente: Milton Roberto Persoli
Secretaria Municipal da Saúde - SMS
Titular – Eunice Emiko Kishinami de Oliveira Pedro
Suplente – Eliana Sapucaia Rizzini
Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras - SMSP
Titular – Silmara Ribeiro Marques
Suplente – Marcelo Bruni
Secretaria Municipal de Cultura - SMC
Titular – Walter Pires
Suplente – Maria Letícia Maia Bandeira de Mello
Secretaria dos Negócios Jurídicos - SNJ
Titular – Helga M. da Conceição Miranda Antoniassi
Suplente – Marina Magro Beringhs Martinez
Ministério do Meio Ambiente - MMA
Titular – Murilo Reple Penteado Rocha
Suplente – Cinthia Masumoto
Secretaria de Estado do Meio Ambiente - SMA
 Titular – André Dias Menezes de Almeida
Suplente – Daniel Glaessel Ramalho
Câmara Municipal de São Paulo
Titular – Gilberto Tanos Natalini
Suplente – Francisco das Chagas Francilino
Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Est. S.P. - CREA
Titular – Roberto Paulo Valeriani
Suplente – Ulysses Bottino Peres
Ordem dos Advogados do Brasil – OAB/SP
Titular – Maria Cristina de Oliveira Reali Sposito
Suplente – Thais Maria Leonel do Carmo
Universidades
Titular – Eduardo Storopoli
Entidade – Universidade Uninove
Suplente – Adriano Monteiro de Castro
 Entidade - Universidade Presbiteriana Mackenzie
Setor Comercial
Titular – Jorge Jamal Ayad Badra
Entidade – Fecomercio SP
Suplente – Alessandro Luiz Oliveira Azzoni
Entidade – Associação Comercial de São Paulo
Setor Industrial
Titular – Marcio Esteves da Silva
Entidade – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - FIESP
Suplente – George Doi
Entidade – Sindicato da Micro e Pequena Indústria - SIMPI
Associações
Titular – Marta Amélia de Oliveira Campos
Entidade – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental - ABES
Suplente – Lucia Souza e Silva
Entidade – Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB
Centrais Sindicais
Titular – Ricardo Patah
 Entidade – União Geral dos Trabalhadores - UGT
Suplente – Heleno Benedito da Silva
Entidade – Força Sindical de São Paulo
Organizações Não Governamentais – ONGs com tradição na defesa do Meio Ambiente
Macro Região Norte 1
(Freguesia do Ó/Brasilância, Perus, Pirituba/Jaraguá)
Titular – Quintino José Viana
Entidade – Associação Beneficente Ousadia Popular
Macro Região Norte 2
(Casa Verde/Cachoeirinha, Santana/Tucuruvi, Jaçanã/Tremembé, Vila Maria/Vila Guilherme)
Titular – Octacílio de Oliveira Andrade Junior
Entidade – Associação Educacional Espaço Novo
Macro Região Sul 1
(Campo Limpo, M’Boi Mirim)
Titular – Beatriz Elvira Fabregues
Entidade – Espaço Múltiplo de Inclusão Social
Macro Região Sul 2
(Cidade Ademar, Jabaquara, Santo Amaro)
 Titular – Luiz Ferrua
Entidade – Sociedade Amigos dos Jardins Petrópolis e dos Estados – SAJAPE
Suplente – Cristina Antunes
Entidade - Ciranda
Macro Região Sul 3
(Capela do Socorro, Parelheiros)
Titular – Armelindo Passoni
Entidade – Instituto de Tecnologia Social - ITS
Macro Região Leste 1
(Cidade Tiradentes, São Mateus, Itaquera)
Titular – Ivo Carlos Valencio
Entidade – Câmara Regional das Sociedades Amigos de Bairros do Vale do Aricanduva
Suplente – Alexandre Falcão de Araujo
 Entidade – Associação Aliança Libertária Meio Ambiente
Macro Região Leste 2
(Aricanduva/Formosa/Carrão, Vila Prudente/Sapopemba, Emelino Matarazzo, Penha)
Titular – Antonio Abel Rocha da Silva
Entidade – Associação do Verde e Proteção do Meio Ambiente – AVEPEMA
Suplente – Dayana Bueno
Entidade – Associação Paulista das Empresas de Tratamento e Destinação Final de Resíduos Urbanos - APETRES
Macro Região Leste 3
(Guaianases, Itaim Paulista, São Miguel)
Titular – Ângelo Iervolino
Entidade – Sociedade Ambientalista Leste - SAL
Macro Região Centro-Oeste 1
(Butantã, Lapa, Pinheiros)
Titular – Ros Mari Zenha
Entidade – Associação Amigos do Jardim das Bandeiras – AAJB
Suplente – Maria Laura Fogaça Zei
Entidade – Associação Amigos e Moradores pela Preservação dos Bairros do Alto da Lapa e Bela Aliança - ASSAMPALBA
Macro Região Centro-Oeste 2
(Sé, Vila Mariana, Ipiranga, Móoca)
Titular – Heitor Margazão Tommasini
Entidade – Associação Moradores Jd. da Saúde
 Suplente – Iênidis Benfatti
Entidade – Viva Pacaembu por São Paulo
Guarda Civil Metropolitana - GCM
Titular – Vanderlei Bento Barbosa
Suplente – Richard Soares Mariano
Policia Militar Ambiental
Titular – Daniel Bassetto Jatobá
Suplente – Fernando Francisco Janez

Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente - SVMA
Departamento de Educação Ambiental e Cultura de Paz – UMAPAZ
Titular – Rose Marie Inojosa
Suplente – Cristina Pereira de Araújo
Departamento de Planejamento Ambiental e Ações Descentralizadas – DEPLAN
Titular – Rosélia Mikie Ikeda
Suplente – Hélia S. B. Pereira
Departamento de Parques e Áreas Verdes – DEPAVE
 Titular – Mário Roberto de Abreu
Suplente – Carlos Roberto Fortner
Departamento de Controle da Qualidade Ambiental – DECONT
Titular - Milton Tadeu Motta
Suplente – Maria Raquel Pacheco
Departamento de Participação e Fomento a Políticas Públicas / Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável CADES
Coordenadora Geral: Helena Maria de Campos Magozo
 
Secretária Executiva: Mary Lobas

sexta-feira, julho 27, 2012

Alterações, ironias e descalabros
com um Photoshop disponível :)

Divirtam-se!

Afonso Lima

































segunda-feira, julho 23, 2012


A sedutora

Amigo, temo que sua esposa, a boa Ida, esteja ocupando demais seu tempo e contar-lhe-hei meus avanços, saudoso de nossa antiga correspondência. Quantas vezes ouvimos melodramáticos casos de adultério, de segredos familiares e de desejos reprimidos? Vingança, revolta contra os pais, fantasmas que retornam, toda a onda dos teatros da fatalidade com cenários de papel crepom! Um homem contou-me que seu padrasto abusava dele no banho, ejaculava em sua boca, e que, quando contou à sua mãe, levou uma surra por ser “mentiroso”.

Sempre pensei que, no caso da mulher, a natureza é destino, pois lhe dá a bondade, o encanto e a beleza, as qualidades delicadas e a necessidade de proteção. A luta pela vida não combina com esse anjo doce e delicado, e, quando as misérias se abatem sobre ele, ainda mais na idade em que as flores desabrocham, sua alma de camélia adoece e murcha. Assim, recebi essa garota de dezoito anos em meu consultório, com, entre outros sintomas, tendências suicidas e convulções.

O senhor Philipp, pouco antes do fim do século, levou sua esposa e seus dois filhos para Merano, e nem mesmo o ar límpido e o verde brilhante da velha cidade italiana aplacaram a paixão infernal do seu sangue. Ele envolveu-se com a esposa de seu amigo Hans, uma tal Peppina. Ao saber do ocorrido, o marido traído foi de encontro à filha de Phillipp, Ida, de quatorze anos. A vingança é sedutora quando encarnada em um fruto fresco.

A menina inocente teve um beijo roubado, por pouco não foi violada e fugiu. O pai, ao saber da história, interpelou o marido de sua amante – que negou o fato, claro - e acusou sua filha de mentir. Peppina percebeu que era preciso dar mais consistência à ideia de que a menina mentira por estar na fase em que as paixões começam. Hospedou a garota em sua casa e dormiu no mesmo quarto que ela. Deu-lhe livros eróticos e lhe falou sobre sexo. Depois, reforçou a acusação que lhe haviam feito. Ida começou a ter enxaquecas, tosse compulsiva e afonia. Seus sintomas fizeram com que seu pai a trouxesse a mim, que o tratara de sífilis.

Ela contou um sonho: “A casa pegava fogo, meu pai me acorda, minha mãe quer parar e levar sua caixa de jóias, meu pai diz que não vai nos deixar morrer por causa de jóias e descemos correndo as escadas”. 

Agora, meu amigo, mostro-lhe como estou descobrindo as leis ocultas da mente. Considero histérico aquele a quem a excitação sexual causa repulsa. Serei eu um dia, como o criado Damiens, que ousou ferir o Rei Luis XV, grande sedutor, para trazê-lo à razão, o qual mergulhou na melancolia e extinguiu-se, acusado por romper para sempre a invisível prisão?

Dr. Charcot havia mostrado a importância dos traumas: sustos, ofensas, frustrações. A mente, como um manuscrito repleto de emendas, palavras anuladas e trechos ilegíveis, estende-se como uma catedral que vai além das três dimensões e toca o tempo. A busca de esquecimento, a inibição de uma intenção ou ideia, fazem com que entrem em segundo estado de consciência: sua lembrança retorna em ataques, muito comuns em pessoas de elevadas aspirações estéticas, religiosas (as “monjas convulsivas”) ou adolescentes de “boa educação”. Um desejo violento, em conflito com as aspirações morais.

Eu lhe falei de sua prática masturbatória infantil. Ela sentia um desejo incestuoso pelo pai e desejara sem saber seu sedutor. Nós sabemos que alguns corpos encontrados em Pompéia mostram pessoas gritando ou erguendo as cabeças em gestos de dor. Nem sempre a arqueologia revela o que nos agrada. Deveria ter demonstrado alguma espécie de afeto, tão distante do que cabe à um médico? A jovem em flor havia ido embora.

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segunda-feira, julho 16, 2012

Pesadelo

Aquela Igreja escura e (seria minha imaginação?) úmida me dava arrepios, mas minha irmã teve um surto de fé e quis batizar meu sobrinho seguindo a tradição da família. Por algum motivo eu estava sentada sozinha no banco, olhando aquela imagem de dor que tanto tinha significado em minha infância. Parecia tudo frio, e as velas iluminando rostos distantes me davam arrepios. Incrível como certas crenças ficam fincadas na alma da gente: os protestantes eram rebeldes, Deus é homem, Cristo realmente é o Filho Único e a Bíblia errou ao afirmar “irmãos de Jesus, existem pecadores por default. Eu era simplesmente à favor da liberdade. Estava distante quando ouvi um choro abafado em um bando atrás de mim. Pensei em ignorar, mas a moça parecia desesperada e acabei levantando e oferecendo um lenço. Obrigada, ela disse. Ficamos sentadas lado a lado em silêncio e eu ia levantar-me quando ela falou: - Você acha que existe mesmo pecado? - era uma pergunta retórica, graças a Deus – Eu trabalho numa clínica de abortos. Nós trituramos bebês de três meses em liquidificadores e jogamos no vaso sanitário. Damos fetos de cinco e seis meses para os cães do canil - Eu mesma comecei a tremer involuntariamente. Tentei desviar o olhar – Estou entrando em depressão. Ouvi um barulho vindo da sacristia. Levantei-me um pouco contrangida e fui em direção à minha irmã. Ela saía animada com o padre. Voltei-me. A moça não estava mais no banco. Olhei rapidamente pela Igreja, havia desaparecido. Aquela noite, tive pesadelos.

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segunda-feira, julho 02, 2012

Dois metros de neve
Exercício – aula de Ricardo Marques – Afonso Lima

1 - (Uma mansão vazia. Livros pelo chão, taças de champanhe e garrafas vazias. Um grupo com roupas retrô dança algo coreografado sem música.)

Atuante 1 – Senhoras e senhores. Daremos início à nossa celebração. Mestre Um, por favor.
Mestre Um – Celebramos hoje a morte. Do desejo. Tudo escureceu, a neve soterrou nossos amigos. Somente a contemplação da arte. Aplaca o desejo. Tudo escureceu, as árvores secaram. Desejar é inútil, a neve cobriu tudo, tudo acaba em nada. O mundo lá fora é frio e triste.

Mestre Dois – Vencerá o Super-homem. O melhor. O sol não se levanta. Um bebê está morto no berço. Um homem corre nu em círculos. Lágrimas frias. Desmorona o castelo. Um show de horrores começa. A ética é uma bobagem, para reprimir os melhores. Senhores, vamos homenagear o niilismo. Começa agora o happening: como não fazer nada.

(Todos se sentam no chão e ficam imóveis. Música de Wagner sobe).

2 - (Um grupo de pessoas – homens e mulheres- com terno e gravata sobre a grama de um jardim).

Homem 1 – Cena 1. Eles estão no jardim e desistem.
Mulher 1 – A essência do mundo? O absurdo. Nós somos a coisa-em-si. Mergulhemos.
Mulher 2 – (Cavando o chão com um utensilho de cozinha). Dizer o quê? Para quê?
Mulher 1 - Eu poderia contar a queda de um grande homem, como Lúcifer, um fidalgo honesto, usou a Constituição contra seu Monarca absolutista. Não.
Mulher 2 – Cantemos. Conhecer a verdade da vida, o sofrimento. Um pesadelo. A verdade da tragédia, a abdicação da vontade de viver.
Homem 1 – Quadro branco sobre fundo branco. Vamos esperar por ele. “Sou o império no fim da decadência”. As estrelas pararam, frias, metálicas. A sombra mama nos seios da virgem. Um homem morreu na neve. Um espelho melancólico congela. A vida é um pesadelo. Vocês estão vendo a essência.
(Coro faz gestos de espanto e medo)
Mulher 1 - A loucura como essência. O anseio de não viver. Impulso cego, força obscura, irracional, insconsciente. Cegos, andamos sem guia, com o frio sob nossos pés.
(Coro tira pedaços de grama do jardim).
Homem 1 – Onde enterramos o corpo? Abrace-me.
Mulher 2 – A razão é uma sombra sobre abismos e horrores.
Mulher 1 - Onde enterramos? A razão é um órgão como qualquer outro.
Mulher 2 – Paisagem deserta. Do sofrimeto ao tédio. Só tédio ao sofrimento. Uma coisa é bela quando não nos interessa. “Sou o império no fim da decadência”

3 – (Uma tempestade é vista através de uma grande janela em uma casa antiga. Uma lâmpada à óleo).

Mulher 1 – Ela já morreu?
Mulher 2 – A tempestade acalma. O mundo é impotente para nos dar qualquer satisfação.
Mulher 1 – Será que ela vai demorar para morrer?
Mulher 2 – Odeio a arte que é bela. Arte pelos olhos. Arte é uma posição.
Mulher 1 – Palha, pedras, lama, metal. O aqui e agora. Será possível viver sem significar?
Mulher 2 – Devíamos buscar um médico? Devíamos colocarum pano úmido na sua testa? Devíamos tentar entender?
Mulher 1 – Tudo é inútil. Está morta (Apaga a lâmpada).

Fim

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domingo, julho 01, 2012

D. João


- Vovó, conta de novo a história da família?
- Sim, sim. Sentem aqui. Era uma vez um Rei Magnífico chamado D. João, o Sexto. Ele estava melhorando o país, criando estradas, correios, embelezando as cidades, criando Tribunais. Mas havia gente ambiciosa e malvada querendo acabar com o Bom Rei. Em Caracas, Buenos Aires, em toda a América, todos queriam agora governar. Um bandido caudilho chamado Artigas, na Banda Oriental, acabou libertando os escravos. Louco! O Bom Rei do Brasil precisava de terras para plantar café. Havia ainda muitos índios na terra. D. João mandou que se fizesse uma guerra para limpar o país dessa gente selvagem. A avó da sua avó era uma jovem índia filha do cacique. Ela foi presa e trazida para a fazenda do avô do seu avô. O maior traficante de escravos havia dado uma quinta ao rei e ganhara um cargo importante. O negro dava muito dinheiro. Muitos escravos compravam escravos - nos dias de folga, trabalhavam para si. O avô do seu avô conseguiu um cargo também por intermédio desse homem. Cada dia aumentava mais o número de negros. Mas sempre há os dissolutos e desordeiros. O rei de Espanha foi preso pelo demônio de Napoleão e se criou uma Assembleia para os representantes da América Espanhola irem - a plebe rude no poder. Em Pernambuco, que vendia algodão à Inglaterra e aos Estados Unidos, surgiu uma rebelião contra a corte do Rio de Janeiro. Os malvados fizeram Assembleia para aprovar leis, fizeram governo deles por três meses, gente ingrata. Eles estavam perto de Portugal, mas agora estavam longe do Rio. Os mineiros uma vez haviam planejado uma República Mineira, por causa dos revoltosos norte-americanos; os bahianos haviam falado como os radicais franceses, que cortaram a cabeça do rei. Agora Pernambuco estava sendo atrevido, rebelde, muito mais radical. O avô do seu avô lutou contra eles comandando as tropas da Bahia. Todos parecem agora ambiciosos, ociosos e devassos. A Era de Ouro, na qual reinava a paz e os homens eram trabalhadores e disciplinados, terminou. Por fim o Bom Rei D. João tem de voltar para Portugal e se submeter aos rebeldes de lá: as Cortes queriam controlar o Monarca. Uma Constituição! São contra a lei natural, dizem que todos são iguais! Nossa família começa a lutar contra a abolição dos negros, que é contra a lei e a propriedade. Cabe a vocês defender a liberdade. 

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quinta-feira, junho 07, 2012


Pego um pouco de surpresa, nem tão formal...
Mas valeu :)


CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO 

COMISSÃO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
PRESIDENTE: ALFREDINHO

TIPO DA REUNIÃO: AUDIÊNCIA PÚBLICA

DEBATE SOBRE AS OBRAS NO PARQUE ÁGUA BRANCA
E TOMBAMENTO DO CINE BELAS ARTES

LOCAL: Câmara Municipal de São Paulo
DATA: 30 de junho de 2012


OBSERVAÇÕES: Notas taquigráficas sem revisão


Passo a palavra ao representante do Movimento do Tombamento do Cine Belas Artes. Ele me pediu se poderia explicar, inicialmente, um vídeo e, em seguida faria a sua exposição.

O SR. AFONSO LIMA – Boa tarde. Gostaria de passar o vídeo antes. Poderíamos começar com o vídeo. Sou historiador, mestre em filosofia pela PUC de Porto Alegre, portanto, sou um estrangeiro, mas muito bem acolhido por esta cidade. O que mais me chamou a atenção em São Paulo, e um dos motivos pelos quais estou aqui, realmente, é a cultura. Como as pessoas dizem: o que salva São Paulo é a cultura. Esse caso do Belas Artes tem sido uma das coisas mais interessantes que já vivenciei na Cidade porque é uma unanimidade. Temos um manifesto que fizemos – vocês verão, pelo vídeo, depoimentos de pessoas de todas as idades, classes – com mais de 120 personalidades, entre elas o ex-Ministro da Educação,

Fernando Hadad, o FHC, Zé Celso, celebridades, pessoas do meio artístico, dizendo que temos de salvar o Belas Artes. Então, não é uma coisa de moleques, de estudantes, de pessoas desocupadas, como muitas vezes nos tratam. Agora temos uma CPI ocorrendo na Casa porque os vereadores entenderam a importância para a memória e para a identidade. Temos um Facebook com mais de 90 mil apoiadores. 

Apenas uma das listas que temos tem mais de 20 mil assinaturas. Rolaram muitas listas. Ficamos uma semana no Conjunto Nacional juntando assinaturas e foram mais de 7 mil assinaturas em uma semana. Realmente é uma demanda muito grande da Cidade e enfrentamos o problema: como fazer a população ser representada e ser ouvida. Não é por falta de clamor popular. Desde o FHC. Um dos problemas que gostaria de levantar é que esta é uma discussão muito intrincada, muito complexa e que envolve muitos aspectos: urbanismo, educação, patrimônio cultural, uma série de questões que temos de ter coragem de entrar.

A Constituição e as leis municipais defendem com muita força o patrimônio cultural. Está nas leis, está no Estatuto da Cidade e na Constituição. É dever do Estado proteger o patrimônio cultural. Novamente caímos nisso: como fazer com que essas leis aconteçam. Uma das coisas que diz a Constituição é que a parte material integra o patrimônio cultural. Então, este copo não está aqui (como materialidade, a materialidade integra um patrimônio cultural). Se ele está dentro do patrimônio cultural, se ele se refere a um patrimônio cultural ele integra o patrimônio cultural. Uma das grandes discussões que se levanta é: o que adianta? A gente não pode tombar porque a parede já foi muito reformada. Mas o pensamento não é este. Existe um objeto que é um patrimônio cultural, existe uma atmosfera, toda uma história.

 O Belas Artes começou em 1947. Em 1967 foi reinaugurado com esse nome de Belas Artes, foram empresários super-vanguardistas como Dante Ancona Lopes, o Llorente.

Eles tinham uma visão de que São Paulo tinha de ser uma cidade internacional, não podia ter só cine de Holywood, só a coisa comercial. Eles queriam transformar São Paulo em uma capital internacional, trazendo filmes europeus. Realmente, o Belas Artes cumpriu, durante décadas, fez parte da formação de milhares de pessoas. 

Praticamente toda a pessoa que eu falo isso, se tem uma certa idade fala: “ah, passei a minha juventude no Belas Artes”. Se é uma pessoa mais jovem diz: “o Belas Artes que era barato e que eu podia ir.” Então, faz parte da história da Cidade, cumpriu o papel de trazer Bergman e todos os cineastas europeus que não tinham espaço em São Paulo. Quando a gente lê o que o Llorente propunha, por exemplo, em 67, em entrevista à Folha de S.Paulo é incrível. 

“Nós queremos que São Paulo tenha um centro cultural, tenha uma biblioteca, que tenha exposições de arte, que tenha várias salas de cinema.” Ficamos pensando, o que aconteceu com a cidade que em 30, 40 anos regrediu. Hoje estamos em uma situação em que André Sturm, que foi o último explorador do cinema, tem uma fala no Valor Econômico esses dias em que ele diz o seguinte: “o problema que essas salas enfrentam não tem a ver com público. O público para esse tipo de filme de arte não diminuiu. 

O que mudou foi a lógica comercial de exploração das salas.” Ou seja, eles estão falando que tem muitos filmes que eles compraram em Cannes que não vão poder passar em São Paulo porque tem pouquíssimas salas. Os filmes estão ficando um mês em cartaz. Ele comenta que o filme da Pina Baush tinha público, muita gente querendo sair e teve de sair de cartaz porque começa Cannes, outro circuito e não tem mais onde ser exibido em São Paulo. É um problema para o cinema brasileiro também que é onde o Belas Artes cumpria o papel de explorar o cinema brasileiro.
Gostaria de dizer e seguinte: temos uma lei, do Vereador Macena, de 2007, que contempla o patrimônio imaterial. O que seria isso? 

Se refere a identidade, aos modos de viver. Não é uma lei, como se diz, registra em um livro: a cidade de São Paulo tem isso como cultura. Não é só isso. Também existem as medidas de salvaguarda, tentar preservar materialmente as instâncias que fazem ocorrer, como ocorreu em Atibaia, por exemplo. Se protegeu uma rua onde ocorria uma dança, a Congada. Então, como é importante para a identidade local se protegeu também o material. Que é outra discussão que se levanta. “Ah, mas então, vou só anotar no livro que o Belas Artes foi importante” Ou então, como o Condephaat nos colocou: Poe uma placa na frente. Não é por aí. Surreal. Sabemos que primeiro precisamos aprovar
esta lei, do Vereador Macena que foi sancionada mas não regulamentada. Então, isso é grave, ou seja, a lei existe mas o departamento histórico – que aliás, fez um parecer favorável ao tombamento, mesmo com todas essas questões – não pode usar a lei porque não foi assinada.
Sabemos que a Prefeitura deu 620 milhões de reais em consultoria e projetos, 420 milhões para o Corinthians. 

Então, a Cultura, que movimenta 40 bilhões de reais na Cidade, por ano, merece um investimento. O certo seria comprarmos, sem discussão, mas o tombamento também existe por motivos históricos e afetivos. Isso está na lei.

O que desejamos inverter nessa discussão é o seguinte: não cair direto no aspecto técnico, porque aí caímos em lei de 1930 e não sei quantos onde parece que São Paulo ainda está vivendo essa época de trinta e poucos onde patrimônio cultural era só parede. Se não tiver uma parede do fulano de tal não pode tombar. Isso é muito primitivo, é muito provinciano. Por exemplo, o prédio da MTV foi tombado porque tem uma parede que é importante. Mas um patrimônio de 68 anos onde mais de 1800 pessoas iam cada dia do final de semana e nos dias de promoção, que atende a uma demanda de aposentados, de jovens, não sei se vocês perceberam quanto está custando o cinema em São Paulo. Fui esses dias no Reserva Cultural e meia entrada são 12 reais! Imaginem para o aposentado o que isso significa. 

Os aposentados lotavam o Belas Artes que tinha, inclusive o Cineclube em que se pagava 60 reais por ano. Então, aposentados poderiam ir todos os dias de graça, simplesmente apresentavam a carteirinha. A meia entrada era cinco reais para seis salas de cinema. Então, realmente, é uma questão que envolve educação porque esses jovens da periferia caem na Paulista, pagam cinco reais e assistem filmes internacionais. É uma questão educativa muito forte. A média do cinema em São Paulo está em 25 reais, ou seja, não sei se os senhores tiveram o prazer de chegar a um shopping e o cinema estar a 28 reais. Na verdade, temos hoje duas ou três salas de cinema de arte, que seriam o Cine Sesc e o Unibanco Augusta. Sabemos que no Cine Sesc passam vários festivais continuamente e não há essa circulação com os produtos que estão chegando de fora.

Eu fui com minha mãe ao cinema esses dias a 28 reais por pessoa, ou seja, duas pessoas pagam 56, três pessoas pagam 84. Imaginem o que significa isso em uma família de classe média.
Outra questão importante é com relação ao metrô. Como há representantes do Estado, pelo que me disseram, o metrô teve um impacto muito grande na valorização da região. Portanto o que estamos discutindo não é somente se tomba ou não tomba, mas há várias soluções que podemos pensar em conjunto, mas estamos falando também de qual Cidade queremos. Queremos uma Cidade em que todos vivam trancados em casa baixando vídeo pela internet? Queremos que as pessoas circulem pelas ruas, como o Rio de Janeiro está fazendo?

O Rio de Janeiro está reabrindo seis salas de cinema de rua com incentivos. O Cine Paissandu, por exemplo, foi tombado e está sendo reaberto com quatro ou cinco salas porque se entende que isso faz parte da cidade e é importante que as pessoas frequentem a rua. A nossa discussão é muito mais ampla do que um prédio.
Queremos também discutir a questão da identidade. Vamos preservar a nossa memória? Vamos preservar a nossa identidade? Ou tudo será continuamente destruído? O que mais me entristece, eu sendo gaúcho, de fora, é que as pessoas em São Paulo dizem que São Paulo sempre foi assim. É como se tivéssemos desistido da democracia. 

Existem leis e representantes para nos representar, mas é como se disséssemos que sempre foi assim, a burocracia sempre dominou. Isso é muito triste de se ouvir. É como se disséssemos que é uma ditadura, é o absolutismo.
Com relação ao tombamento, especificamente, eu penso que temos de abrir a discussão. Podemos, sim, tombar por motivos históricos efetivos e, depois de salvar o bebê que está morrendo na nossa frente. Primeiramente, é não deixar o prédio ser derrubado e virar Lojas Pernambucanas ou Lojas Bahia e, depois, talvez, criar uma comissão que, talvez, fará uma licitação, tentar negociar com o proprietário e explicar a importância. O proprietário negou um aluguel de mais de 130 mil reais por mês, não é?
- Manifestação fora do microfone.

O SR. AFONSO LIMA - Negar o aluguel de um milhão é algo que representa muito sobre a estrutura da Cidade. Será que a Cidade não tem ninguém que regule? É simplesmente a selva? Os poderosos, os peixes grandes vão comer todos os pequenos e acabou? Não tem lei na Cidade? Essa é a impressão que nos passa.
Por fim, gostaria de dizer que como o metrô teve esse impacto muito grande de valorização, o Estatuto da Cidade obriga o Estado a ter contrapartidas, a defender o patrimônio cultural porque senão todo o lugar onde houver metrô será péssimo para a população.

Se os senhores analisarem, verão – inclusive o UOL já publicou – que o comércio caiu muito, o Micheluccio está vendendo pastel para sobreviver porque os aluguéis têm uma valorização incrível, a rua está completamente deserta, cheia de moradores de rua, não há iluminação, não tem gente circulando, está perigoso, aumentaram os assaltos. É toda uma questão de urbanismo.
Por aqui podemos começar uma discussão não tanto por tomba ou não tomba, mas precisamos salvar esse lugar, é essencial, e a partir disso vamos pensar como.
Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Carlos Neder) – Agradeço a sua participação, Afonso, representando o Movimento pelo Tombamento do Cine Belas Artes, pela preservação da memória.

Passo a palavra ao promotor Dr. Washington e lembro que há duas pessoas do plenário inscritas, uma de cada movimento, que falarão logo em seguida.

O SR. WASHINGTON LUÍS LINCOLN DE ASSIS – Bom dia a todos. Infelizmente,
teremos pouco tempo para discutir assuntos tão relevantes para a Cidade.
Os dois assuntos são correlatos. É evidente o total descaso com o patrimônio cultural que existe nesta cidade, para não falar neste Estado como um todo. Essa é uma realidade. Para melhorar esse quadro, já que estamos numa casa de leis, eu já queria propor aos Vereadores presentes que apresentassem um projeto de lei para regulamentar a atuação do Conpresp. (Palmas) 

Infelizmente, os dois órgãos de proteção do patrimônio cultural, da Capital e do Estado, não têm cumprido suas finalidades, com o devido respeito ao Sr. Walter Pires, que tem prestado relevantes serviços, e nem sempre a solução depende dele.

Uma das questões é a composição dos órgãos exclusivamente por políticos e pessoas desvinculadas da atividade cultural. Não é porque é um político ou de pessoa notoriamente conhecida na Cidade que se trata de pessoa que detém algum conhecimento desses setores. 

A questão do cinema, inclusive, é extremamente complexa e depende de conhecimento especializado. Eles deveriam ouvir pelo menos um mínimo de pessoas especializadas na área e trazê-las para os processos de análise que não vêm sendo feitos. Nós já levamos a questão para o Judiciário e temos o desprazer de saber que, assim que caiu a liminar que obrigava a reabertura dos processos de tombamento, o Conpresp já arquivou o processo com uma celeridade inusitada, ficando demonstrando que realmente não se fez um aprofundamento do estudo sobre a complexidade que envolve esse cinema para a cidade de São Paulo e para o Estado, o que, aliás, foi muito bem expressado pelo palestrante que me antecedeu.

Tudo isso é questão estrutural da cidade de São Paulo, que demonstra descaso com a cultura, descaso com a Cidade e falta de compromisso público com a Cidade. São Paulo está sendo sucateada pelo mercado imobiliário, não há política urbana, não há política de desenvolvimento urbano, estamos ainda discutindo o Plano Diretor. Desculpe-me minha sinceridade, e não é pela atuação do senhor, que é um Vereador muito atuante – e mesmo antes, como Deputado -, mas a Câmara Municipal tem se omitido muito na defesa dos interesses da Cidade, na fiscalização do Executivo. 

Um dos casos mais clamorosos e obscuros da história da cidade de São Paulo é o projeto Nova Luz, que foi aprovado nesta Casa de Leis. É um dos casos que deveriam estar nas páginas policiais, porque envolve diversas administrações da Cidade, não só a atual. Os problemas, então, são muito abrangentes.

(...)

O SR. O SR. WASHINGTON LUÍS LINCOLN ASSIS – Isso está nos livros que tratam dos assuntos a que estou me referindo.
Sobre o Belas Artes, a questão é bastante profunda, porque envolve uma questão cultural, de mercado, de política pública e cultural, que, infelizmente também, é tratada com total descaso pela Cidade.

A Secretaria de Cultura do Estado fornece anualmente a ONGs cerca de 400 milhões de reais, sendo que a Prefeitura de São Paulo tem um orçamento de quase 300 milhões de reais para a Cultura. Mesmo assim, eles não têm capacidade de desapropriar um prédio para terceirização e exploração de um cinema de arte nacional e internacional, um polo de difusão de artes visuais e de formação de público. 

Enquanto o dinheiro é canalizado para atividades de pouquíssima ou nenhuma repercussão popular e cultural, para atividades que não revertem em nenhum benefício para a Cidade, como essas Viradas Culturais, que são de discutível repercussão e importância cultural, parece que falar em desapropriação de um prédio, de valor irrisório em relação a esses orçamentos para o Estado e Município, é um absurdo.

Não sabemos o porquê dessa esquizofrenia, Ros Mari, mas dá a impressão de que,
se não partir da ideia do Administrador de plantão, nada serve simplesmente por não quererem dar o braço a torcer por alguém ter dado alguma ideia. Não compreendemos como podem relegar certas situações a segundo plano em detrimento do privilégio de outras situações. Isso tudo é uma distorção do mercado cultural que temos presenciado.
O cinema é uma das maiores indústrias do mundo; é a segunda fonte de renda dos Estados Unidos, só perdendo para a indústria da Aeronáutica. O governo americano investe anualmente de 1,8 a 2 bilhões de euros em atividades de produção cinematográfica, sendo que 70% são destinados à formação e 10 a 15% à distribuição e exibição, privilegiando salas.

Saibam os senhores que a reserva de mercado de salas para cinema é de 3% só nos Estados Unidos. É o contrário do que ocorre no Brasil: diversos cineastas de diversas obras nacionais não têm espaço de exibição e não há nenhuma política.
Aliás, sobre esses modelos de cinema Multiplex e outros cinemas, estou interessado em investigar, porque desconfio que há até capital estrangeiro envolvido nessas atividades, tamanho o interesse econômico envolvido.

Infelizmente, o Conpresp e o Condephaat deixam de analisar essa questão da importância cultural do cinema. Falando nisso, recomendo um livro especializado no assunto, do Observatório Itaú Cultural, que aborda todos esses problemas. Acho que temos o dever de buscar elementos especializados sobre o assunto que estamos defendendo.

Esses dois casos são bastante emblemáticos da falta de compromisso dessas autoridades ou mesmo do interesse público, mas vamos defender isso, em último recurso, buscando o Poder Judiciário, denunciando todas as falhas, os prejuízos e os danos que vêm causando à comunidade paulistana.
Como não há tempo suficiente para aprofundar muito as questões, vou encerrar por aqui. Obrigado.

(..)

segunda-feira, maio 21, 2012

Educação

[dramaturgia - fragmento]


A peça se passa em três tempos: presente, onde estão a prostituta Andrômeda, a transexual Julia e Mateus, um cliente; 1970, onde estão Ariel, estudante de Engenharia, e seu pai, e Iaema, sua namorada; 1989, onde estão Andressa e Eveline, um casal de lésbicas e George e Paulo, um casal gay.


Vozes em off – Neste ano nossa peça vai falar. A nossa escola. É uma experiência.

- Filho, como eu vou te ver de mão dada com outro homem. Prefiro ver você morto.

- Você é feia, fala errado, mora no fim do mundo e é pobre. Não pode entrar nesse grupo.

- Nordestino filho da puta, volta pra tua terra.

- Gente sem educação! Eles não esperam as pessoas saírem do vagão pra entrar!

- Sou contra bolsa. Eu não vou estudar na mesma universidade que marginal da periferia.

- Tudo bem ser morena, mas alisa esse cabelo, vai. Gerente com cabelo ruim afasta o cliente.

- Professora o caramba, você é uma velha e é meu pai que paga teu salário.


Andrômeda: Então eu penso: O que é educar. Senão. Saber como lidar com os outros? Como abrir espaço. Para.

Andrômeda e uma funcionária na loja.

Funcionária - Olha moça, crediário não dá.

Andrômeda - Eu tenho residência fixa.

Funcionária - A senhora. Tá na sua cara que a senhora não trabalha.

Andrômeda - Senhorita.

Funcionária - Senhora, senhorita, o caralho.

Atuante - Vemos duas mulheres num carro, um homem aponta uma arma para uma delas. A outra reage e leva um tiro. Estamos em plena epidemia.

Vemos um jardim, um cachorro e uma mulher que passeia por ele. Agora. O cachorro desenterra um osso. Humano.

Vemos um homem em um hospício, recebendo choques. Em plena Copa.

Atuante 2 - Os dois trens bateram exatamente às 10h. O presidente do sindicato diz que foi falha mecânica. Que há vinte anos não se investe no sistema. Teve gente caindo no chão e indo pro hospital. Se fosse sem maquinista, como na linha privatizada, os trens teriam batido à 80 km por hora. Seria uma tragédia. É preciso aprender.

Se ouve apenas as vozes de Andrômeda e Júlia, esta enfaixa o pé daquela. Num telão, ou em um faicho de luz, os pés e mãos.

Andrômeda - Eu saí tão doida que nem.

Júlia - Fica quieta. Vou deixar tão apertado que amanhã. Amanhã nem vai sentir dor.

Andrômeda - Cuidado com minha circulação. O que seria de mim sem minha traveca velha.

Pai de Ariel - Com isso você vai viver com dignidade. E essa criança.

Paulo - Eu só queria viver com dignidade. Até morrer.

Júlia - Essas porcas eu não cuido. Essas aidéticas. E olha que já botei muito macho pra correr.

Andrômeda - Elas tem é inveja de você. Você lê muito.

Andressa – Eu queria um filho com minha namorada. Meu pai me ensinou a mentir.

Iraema - Você lê muito. Duas faculdades...

Andrômeda - Você lê. Às vezes, eu penso: sem cultura o ser humano vira bicho, um verme enorme e branco, com um buraco para encher de comida, um ponto saliente que dá prazer e solta gosma, outro buraco para expelir o lixo. Sem educação a gente.

Ariel - Meu sonho é a educação. Só assim esse país vai pra frente. Tantos miseráveis..

Júlia - Minha linda, você tem bom coração. Procure sempre progredir. Mantenha sua mente viva.

Andrômeda - Eu queria sumir da face da Terra.

Ariel - Gosto de ensinar. Esses caras tão aí porque as pessoas querem só isso. Querem segurança e nada mais.

Júlia - Progredir, gata. Dá logo um golpe nesse sujeito e foje com a grana dele.

Andrômeda - E meu filho, gata? Quem vai ficar com minha cria? Quero ter dignidade. Me diz como. Não é fácil.

Atuante - Passageiros aumentam, mas governo reduz investimentos no metrô.

Pai de Ariel - Com isso você vai viver com dignidade. E essa.

Iraema - Dignidade? E o pai dele? Velho escroto.

Pai - E esse. Bem ou mal.

Iraema – Mal. Você é um velho escroto. É por isso que vou ficar com seu dinheiro. Vou te ensinar que você não sabe nada.

(...)

Afonso Lima

quarta-feira, maio 09, 2012

País novo

O novo rico não quer nada no seu caminho
Agride o que não é seu olhar
Ele sabe, ele pode, ele incendeia céus e terra
Cria eclipses para seu carro de ouro
Edmundo era novo rico - um réptil faminto
O novo rico é o meu ou o seu
É o mais inteligente -
Ele odeia o capitalismo, a novela - um pouco - e a miséria
Ele sabe que os chefes são corruptos e aprendeu o jogo
Ele nasce de decisões e exibe seu troféu
O novo rico pode tudo porque não esteve presente
quer conhecer, quer fugir, tem medo
são velhos ódios num brilho novo
O novo rico não pode envelhecer -
porque envelhecer é mudar valores
O novo rico não quer livros, mas seu efeito
O novo rico perde o parceiro, mas não o produto
Ele pensa globalmente, abstratamente - transforma
Não lhe interessa amanhã uma natureza
Explode depois de conversa e um sono doce
São as paixões da ambição, rapidez de julgamento
Odeia a senhora pobre, odeia a criança frágil
O novo rico é bom de coração
Não há certo, nem errado
- nietzscheanamente feios e belos
Matar pai e mãe - vergonha - chamando por Jesus
O sucesso não é para todos
A velha elite derruba os pomares para fazer fábricas
a nova classe média sonha em ter suas árvores
Os novos ricos odeiam o tempo e inovações
porque pensar atrapalha as normas ancestrais
Nobres e revolucionários se dão as mãos
E nada de novo nasce sobre a terra.

Afonso Lima

domingo, maio 06, 2012


Porto Alegre – cena teatral 



Um homem soterrado por uma montanha de livros, somente com a cabeça de fora. O cenário representa uma cidade alemã em miniatura, com trens e montanhas. Muitos objetos fálicos em madeira e pedra ficam no chão, onde tem terra e estão os atuantes.
Um mapa de São Petersburgo é projetado.

OFF: Algumas cidades têm uma ligação muito forte com a água.
Neva.
Homem: Eu nasci dia 27, num hospital chamado Femina. Homem. Não estava na cidade sua avó. Meu pai acabara de chegar de viagem, a gravidez de minha mãe foi um pouco solitária. Sua mãe tinha um bom emprego, vinha do interior, e perdera o pai há pouco.

OFF: Um parque famoso. Um passeio de barco. Uma Catedral. O museu orgulhoso. Jacarandás floridos. Galpões e cavalos. Filosofia. Arte contemporânea. Nudez e crueldade. Palas Athena verde na praça. Blues. O Mercado. Dois poetas no bronze.

Um homem amarrado em camisa de força grita enquanto se diz o texto.

Atuante 1 – Mario traduziu Proust. Lya traduziu Virgínia. Marcelo traduziu Marx e Kafka. Donaldo traduziu Homero, Heráclito, Joyce e Sófocles. Jesus traduziu Deus.

OFF: Um gaúcho com os pés na terra. Vento. Raízes profundas. O sol no domingo nas árvores do parque. Calor infernal. Pássaros com frio e vamos ao cinema. As casas antigas, o calçamento de pedra.

Parente: Você tem de ganhar dinheiro.
Atuante 2 - Os italianos ficaram perdidos na selva.
Professora: Falta leitura. Você não tem concentração.
Atuante 3 – Os alemães fizeram a Disneylândia da Bavária. Founde e cinema.
Ator: Você é filósofo, muito cabeção. “Foi a razão que me perdeu”.
Atuante 4 – Existem, sim, nordestinos, eles trouxeram o charque. Ninguém se lembra.
Professor: Meu amigo, você com quinze anos... Antes dos trinta, ninguém escreve literatura...
Parente: Você tem de ganhar dinheiro. Um elefante preso pela pata.
Atuante 1 – No mercado Municipal se encontra todos os artigos para rituais africanos, tem aqueles colares dos orixás que os turistas adoram.
Homem: É a única cidade brasileira onde todos são europeus.

OFF: HOMENS FAMOSOS – fotos de estátuas de cemitério em um mosaico mutante.
Homem – Eu coloquei a primeira flor no caixão do grande poeta.
Atuante 2 – A maior romancista leu seus textos e disse que “gostou imensamente”. Nunca mais falou com ele.
Homem – Andei uma quadra e meia com o Cyro, um telefonema na convalescença, ele faleceu em 1995, uma semana depois.
Atuante 3 – 17 emais e duas orelhas de livro com o imortal. Lágrimas.

Atuante: Em “Le tout Paris”, de Charles Castellani, se pode ver antes de tudo a Ópera, símbolo da cidade moderna; o boulevard des Capucines, o Café de la Paix, a avenue de l´Opéra, o Louvre, o Grand Hôtel; as carruagens, as cartolas, as barbas, as bengalas, os vestidos, as belas lâmpadas públicas; os poetas, os pintores, os escritores, os cavalos, os atores, os músicos e as celebridades que o público adora; emfim, tudo se pode ver, pesquisar e saber, como convém à nossa era científica.

Homem: Consumidores de notícias. Consumidores de cultura. Consumidores de inteligência. Consumidores de gaúchos. Nenhuma paciência para gênios.

Música ao vivo: jazz. A música não permite a compreensão plena, o texto é projetado com “delay”.
OFF: Aquela foto terrível de um soldado negro degolando prisoneiros.
Dançarino: Eu sou um personagem. Eu sou o bailarino negro que trabalha de barman na boate chamada “Doce Vício”.
Judeu: Sou um marceneiro, judeu polonês, cheguei no Bom Fim em 1934.
Oficial: Eu sou o militar de “perfil grego” que ofendo as pessoas chamando-as de comunistas!
Roqueiro: Dezoito, faço educação física, gosto de mangás e tenho uma banda de rock que canta em francês.
A música para.
Homem: Acabo de encontrar uma lata de leite condensado no armário. Foda-se o trânsito, os terroristas e o vazamento no banheiro. Orgulho.
A música volta.
Militante: Marxista. Vim para o Fórum Social, casei com uma gaúcha, trabalho na periferia numa ONG.
Estudante: Minha avó foi uma índia laçada, presa no laço, eu estudo ikeana no centro cultural japonês. Coleciono fotos de Hiroshima.
Filósofo: A relação entre Levinas e a Lebenswelt de Husserl e a Lebensform de Wittgenstein. Também coleciono objetos eróticos da antiguidade.
Psicanalista: Eu sou a psicanalista da serra gaúcha, que casou com um hindu e converteu-se ao islamismo.
Poeta: Poeta. Fico no banco da velha praça sem querer ser incomodado.

Homem: Totalmente civilizados. Totalmente educados. Totalmente objetivos. Totalmente elegantes. Totalmente belos. Totalmente trabalhando. Totalmente criativos. Totalmente globalizados. Totalmente um sucesso.

OFF: MORTES – projeção, idem.
Homem – 2000 - A mulher que me criou.
Atuante 2 – 2001 – Grande amor perdido 1.
Atuante 3 – 2003 – Grande emprego perdido.
Atuante 4 – 2004 – Grande amor perdido 2.
Homem: 2005 – Minha avó, morta.
2006 – Vazio encontrado.
OFF: 2007 - Cidade perdida.

Música. Homem sai debaixo dos livros. São projetadas fotos do mar.

Homem: A estrela mais brilhante se chama Antares. Ela guiou os navegantes. Não é a mais brilhante de todas. Mas, com ela, se poderia fazer dez sóis. Dizem que Antares é habitada por três tipos de seres: guerreiros, homens vermelhos com espadas em fogo; sábios gregos, que filosofam entre as colunas; e os rebeldes, que tem sangue e são invisíveis.

Projeções de um eclipse. 

Afonso Lima


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