Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

A história tem dessas coisas. Aquele que sofre tanto preconceito por não ter diploma (num país onde é tão fácil estudar como na França, vejam só!) é homenageado pelos chefes do planeta como estadista global.
A história nossa, tem outras coisas mais: esse mesmo ex-operário foi constrangido pelo dono de um jornal com a pergunta: "o que vem estudando nos últimos 20 anos?" Poderia ser apenas uma pergunta, o que se espera de alguém que comanda um jornal plural, crítico, etc...

Flashback:

"Tempos da campanha de 2002, a direção da Folha convida Lula para um almoço nas belas dependências da empresa. Anfitrião, Octavio Frias de Oliveira. O filho, Otavinho, diretor da redação, chega atrasado. E mal toma assento, pergunta ao hóspede algo em torno da sua falta de diploma. Cabe ser primeiro mandatário do Brasil a quem carece de estudo? Não será exagerada, descabida, ousada além da conta, a sua pretensão?

A implicância fermenta, o convidado ergue-se e se retira, com passadas de metalúrgico. Pai Octavio, que conhece as regras de cortesia, segue apressadamente, constrangido, tenta levar o candidato ofendido de volta à mesa. É tarde, Lula está no elevador, e se vai."
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=361ASP008

Diz o jornalista:

"- Até lembrei que o ex-presidente americano Abraham Lincoln também foi um autodidata e que isso funcionou com ele. Na primeira vez em que fiz a pergunta, Lula disse que não iria responder porque achava a pergunta preconceituosa. Achei estranho ele não responder, porque, afinal, eu queria saber como o candidato que pode vir a governar 170 milhões de brasileiros está se preparando, o que vem estudando nos últimos 20 anos."
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp310720021.htm

Interessante como diploma vale menos que ouvido...

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Viva São Paulo!
Apesar da chuva, do trânsito e das pessoas na rua, essa ainda é uma linda, criativa e muderna cidade!
E a chuva que não para? Dizem que o aquecimento global (vulgo: Apocalipse) fez as chuvas irem para a Amazônia beber vapor antes de cair aqui!
Limitem os carros e melhorem os coletivos! Socuerro!

***
Lady Gaga realmente... Em geral eu sou resistente às novidades pop e pensei mesmo que seria uma nova Briney Produzida Spears... Não! Ela fez em Bad Romance uma síntese que engloba mãos de monstro do MJ, cultura pop de vampiros, o glamour do tech, a lição mude-o-tempo-todo de Madonna, o deboche das drags... Ela é uma drag hétero, afinal.
(Claro que Video Phone foi um erro: Lady B vestindo um quadro de Picasso P&B e Lady Gaga magrela com maiô branco não são propriamente contribuições ao repertório das duas... E que ideia foi aquela de efeito-Pokemon no treme-treme das cenas? Arminha de plástico colorida não é sempre uma boa. Eu, pessoalmente, sempre penso se a gostosona da Beyoncé precisaria tanta bund-ance.)

Reflexo de um mundo rude, suas crueldades irônicas refletem sim nossa refeição diária de meninos na rua, tiros e sangue.
E, além disso tudo, ela canta!

Nossa :




Salve a inovação!

***
BBB chega à 10 edição. É a prova de que os seres humanos precisam de modelos e perscrutar as camadas estranhas da nossa coisa-ser. (Por outro lado, tendo de ver um artigo bem chocante, percebo que a IC pode nos comer inteiros, nos chupar para a realidade paralela. Exclusivo é lixo).

Bem, dito isso: un dos personagenagens mais dramáticos me parece Marcelo Dourado. Ele entreou agressivo (em parte explica-se nossa herança cultural gaúcha: falamos na lata, somos mais quietos, desconfiados, etc.)
O que me chocou foi a edição feita pela Globo da sua cena de choro. Na web ele pareceu o Bam-bam e talvez não queiram dar a ele já o troféu. Na tela era um bobo.
Mais um exemplo de que vivemos o "realismo editado"...


(Só o Casoy não edita...)


PS: A tal Lena (Elenita, eu acho) é a prova científica que doutores podem ter 15 anos.
PS2: Essas provas de resistência, como ficar levantando e sentando em uma casa de madeira, deveriam ser consideradas tortura.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009


Sim. O Lula investiu 90 milhões em 2008 e 100 milhões em 2009/10 em bibliotecas, enquanto em 2002/30 foram investidos meros 7 milhões, sim, por aquele professor.

Este dado, fornecido por Fabiano dos Santos, da Diretoria do Livro e Leitura do Minc, foi uma das ações importantes debatidas durante o II Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias e o II Fórum Prazeres da Leitura, patrocinado pela Poiesis e pelo governo do Estado.

Justamente o secretário da cultura João Sayad gerou desconforto com suas colocações: os curadores de exposições seriam responsáveis por gastos com "mostras", enquanto o bom mesmo seria exibir o acervo dos museus.

Concordo que há alguns exageros, principalmente quando o "novo" não cabe no sentido didático para o público leigo, mas... será? Não é chato, sempre o mesmo? O curador seleciona um olhar, propõe uma narrativa.

Já, segundo o secretário, as Bibliotecas deveriam entrar na cultura "competitiva do século XX", tipo "jogo de futebol" (?), expor bem na frente Paulo Coelho e, quem sabe, a Playboy (?), e, mais atrás, Guimarães Rosa.
A platéia resmunga. Sim, deve haver alguma lógica. Tem que haver...

"Por que ler ao invés de ver um DVD"?

Sejam quais forem as vantagens de acessos múltiplos (é um absurdo, por exemplo a insistência da escola em fazer jovens de 18 anos ler apenas romances do século XIX, quando há tanta coisa leve e curta do Séc. XX!), soou maaaal.

Professora Lucia Santaella encantou o público explanando sobre as diferenças entre o leitor interiorizado do Renascimento, o leitor desatento da cidade, e o leitor implodido do Kindle. (O mestre de cerimônia, José Goldfarb, avisa que ela já foi twittada :)

Foram apresentados os lindos projetos da cidade de Medelín, do Ecofuturo, entre eles a criação de Bibliotecas Comunitárias, o ônibus Biblioteca do Município (que existe desde 1936, Mario de Andrade: vá em busca de seu público) , o Barganha Book de São Carlos, feira de trocas, (sem medo de "fazer o bom por causa do otimo") e o Instituto Pró-Livro, com sua visão ampla e o interesse que despertou pelo Brasil em sua curta existência.

O que mais me impressionou mesmo foi o trabalho do Programa Nacional do Livro e Leitura, que, como se disse, não criou praticamente nada (o que pode até ser bom nesse vai e vem de governos e ações), mas articulou, incentivou e deu resultado.

E é fácil começar obras de impacto:
a Biblioteca da Escola Municipal Maria de Lourdes Gonzaga, recebeu em 2008 os 6.000,00 que precisava para "Ter em mãos uma quantidade aproximada de 5.000 livros para a efetivação da primeira biblioteca escolar".

Como tudo no Brasil o mais incrível é o básico: um senhor nordestino contou-me que o Lula é um herói no rio São Francisco, pois colocou barcos a vapor por lá!

Moacyr Scliar fechou a noite com seu otimismo imbatível, dizendo que provavelmente ganhou o Jabuti porque souberam que ele ia falar para "pessoas tão importantes", contando de seu amor-tormento pelos livros e lembrando que o Brasil melhorou muito: "Nunca se falou tanto em livros! Não posso aceitar 1/3 dos convites que recebo para encontros sobre o livro!"

Todos nós saímos acreditando que ainda vale a pena guardar e trocar ideias.
Bonito Caetano, sua mãe ainda não é da elite,
nem quer puxar o saco...

Dona Canô vai pedir desculpas a Lula após Caetano chamá-lo de analfabeto

"
Vou me desculpar e dizer que, pelo que conheço de Caetano, sei que ele não quis ofender o presidente. Não é possível que ele chamasse Lula de analfabeto, aliás, ele nem teria o direito de falar assim. Ele é apenas um cantor", afirmou".

http://noticias.uol.com.br/politica/2009
/11/16/ult5773u2980.jhtm

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Apagar a verdade?


Em 2006, Alberto Dines escreveu sobre uma suposta "Onda antimídia" que estaria atormentando os jornalistas com mensagens críticas, certamente "enviadas por militantes petistas".

"Esta onda antimídia está ganhando proporções de verdadeiro linchamento... rancor jamais visto entre nós. Na quinta-feira (2/10), na Folha de S.Paulo, a colunista de política Eliane Cantanhêde denunciou a avalanche de e-mails ofensivos e ameaçadores que atulha a caixa postal de jornalistas e de veículos.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=405JDB021



Bem, eu não sou militante petista, mas não é difícil pensar que D. Eliane tem algum problema com Lula. Será que é o fato de ele ser o Brasil “verdade inconveniente”?


(Vide William Waak dizendo, como bem resumiu alguém no twitter, que o Brasil "não presta"...)


http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=20834

É que a grande mídia se distanciou do cidadão comum, a ponto de uma representante da Unesco confessar em palestra que os grandes jornais não enviam mais jornalistas à periferia por medo. Ou seja, trabalham em casa, no seu bairro...

Abaixo uma notícia bem feita, de Claudia Andrade, sobre o apagão, no UOL online que, como o G1, consegue superar a versão televisiva e "oficial" do grupo: informa o motivo; não tenta usar fatos para insinuar nada; aceita dados informados.


Vale a pena ser citada, pois demonstra imparcialidade cada mais rara. Comparemos com a Folha mesma abaixo:


***

Raios e ventos na região de Itaberá (SP) causaram apagão no país, diz ministro


Claudia Andrade*

Do UOL Notícias



A reunião realizada no fim da tarde de hoje reuniu mais de 40 pessoas, integrantes de órgãos ligados ao Ministério de Minas e Energia. "Todos chegaram à conclusão que foram descargas atmosféricas, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá (SP).

Houve uma concentração desses fenômenos atmosféricos ali. O que provocou um curto circuito nos 3 circuitos que levam a Itaberá, que vêm de Itaipu", disse Lobão. Nenhuma medida emergencial para evitar que o problema se repita ficou estabelecida. Ele classificou o fato de "ocorrência raríssima".

"Vejam que temos três linhas. Se caísse uma, as duas atuariam fortemente, caindo duas, a terceira sustentaria o sistema, não conseguiu sustentar, tão forte foi a incidência dos raios ali ocorridos", disse Lobão durante a entrevista no começo da noite.

De acordo com Zimmerman, nenhuma medida emergencial foi adotada porque a ocorrência foi considerada excepcional. Ele afirmou, contudo, que o encontro realizado hoje resultará em um relatório com propostas de melhorias no sistema.

Questionado se não haveria nada a ser feito para evitar um novo apagão em curto tempo, o ministro recorreu mais uma vez ao histórico de investimentos. "Há o que fazer fortalecendo o sistema. Isso nós fizemos. O sistema está fortalecido. Eu disse que temos três circuitos, não um, não dois", afirmou.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/11/11/ult5772u6082.jhtm

***

Dito isto, voltemos à Folha, nas manchetes:

MP abre investigação sobre apagão

Governo culpa "fenômenos climáticos" por apagão

Usina de Itaipu levou oito horas para voltar a funcionar após apagão



... É que, nesse caso, as linhas que levam energia para o país vizinho são de responsabilidade da paraguaia Ande (Administración Nacional de Eletricidad) e não de Furnas.

Isso foi usado pela direção da hidrelétrica para reforçar que o apagão não teve origem em Itaipu. "Em 15 minutos [após o início do apagão], o sistema paraguaio já estava sendo suprido por Itaipu, o que reforça o fato de que a causa do defeito foi externa", disse a direção, em comunicado oficial.

***


Escuridão na luz - Sérgio Malbergier (com destaque no site)

....
A teoria do raio de Bauru, obviamente, nunca foi comprovada. Procurado, São Pedro não retornou as ligações da Redação. Nossos dirigentes não estão interessados em dar satisfação aos cidadãos-eleitores, mas em nos enrolar para que possam seguir tocando seus negócios como sempre.


***

Vale lembrar do apagão FHC, este sim, por falta de investimentos:




"A crise ocorreu por falta de planejamento e ausência de investimentos em geração e distribuição de energia, e foi agravada pelas poucas chuvas. Com a escassez de chuva, o nível de água dos reservatórios das hidroelétricas baixou e os brasileiros foram obrigados a racionar energia [2].

Após toda uma década sem investimentos na geração e distribuição de energia elétrica no Brasil, um racionamento de energia foi elaborado às pressas, na passagem de 2000 para 2001".

http://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_apag%C3%A3o]




Só para lembrar, FHC recentemente pretendeu comparar seu governo ao de Lula, causando constrangimento aos tucanos:


"Como destacaram, em 1997, Cid Benjamim e Ricardo Bueno, no "Dossiê da Vale do Rio Doce", "o Brasil levou 54 anos para construir e amadurecer esse gigantesco complexo produtivo. O governo FHC pretende vendê-lo, recebendo no leilão uma quantia que corresponderá, mais ou menos a um mês de juros da dívida interna". Em maio daquele ano, a Vale foi vendida pelo governo federal por R$ 3,3 bilhões. Em 2007, seu valor de mercado estava em torno de R$103 bilhões."


http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16223


Então, jornalismo de laptop: alguém se lembra da entrevista de Itamar de Souza – um dos integrantes do MST que esteve acampado em Brasília em agosto? Pois é, só na Agência Brasil.


“Somos responsáveis por 95% da produtividade [daquilo que chega à mesa do brasileiro]. No entanto o dinheiro destinado para pequenos e médios produtores é de apenas R$ 15 bilhões, enquanto o dos grandes [produtores], que plantam principalmente para o mercado externo, é de R$ 45 bilhões. É preciso reverter esse quadro”, afirmou.


Agora a Folha fala que apenas menos da metade do orçamento para a energia foi utilizado, em 2009. Mas onde está o contexto?

Lá no meio se lê, bem depois do impacto da manchete, só para assinantes:


A Eletrobrás prevê que, até o fim de ano, executará de 70% a 80% do orçamento. Segundo a estatal, a execução depende de fatores como "procedimentos legais e ambientais que necessitam ser cumpridos".


Onde estão os dados sobre o investimento do PAC? Será que mídia agora é só a defesa de um ponto de vista privado?


http://www.brasil.gov.br/pac/.arquivos/8balanco_3Aenergetica12112009.pdf


Terça-feira, Novembro 10, 2009

Quando o Estado compensa sua ausência com força

by Michelle Amaral da Silva — http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/entrevistas/quando-o-estado-compensa-sua-ausencia-com-forca

"Para o professor do Departamento de Economia da Puc-SP Ricardo Gaspar, aumento do 'número de favelas e ocupações precárias' em São Paulo é preocupante

Como avalia essa intensificação de confrontos em São Paulo entre forças de segurança e moradores de comunidades pobres?

Ricardo Gaspar - Esse é um problema crônico de todas as cidades mais importantes do planeta hoje, que passam por uma transformação bastante profunda na sua estrutura econômica, diminuição de empregos industriais, aumento de empregos em serviços, precarização da força de trabalho e vulnerabilidade da moradia. São três elementos que eu queria destacar, esse é o primeiro.

O segundo é o fato de que os governos locais das cidades são, por si só, incapazes de resolver esse problema se não tiverem um apoio forte, uma institucionalidade regional e um apoio do governo federal para isso. Em terceiro lugar, apesar das cidades não poderem fazer muita coisa, [elas] podem fazer, sim, ações importantes, e a cidade de São Paulo não está fazendo isso, pelo menos na direção correta.

São ações não só no sentido de propiciar maior número de moradias, condições mais adequadas de moradia, como também planos para a cidade, planos mais democráticos, que prevejam maior mistura de usos, acessos mais fáceis à população de baixa renda aos serviços públicos e equipamentos públicos. Isso não está sendo feito pela atual administração".

***

Maioria dos alemães orientais sente que a vida era melhor no comunismo

Uol -Der Spiegel

A apologia da República Democrática Alemã está em alta, duas décadas
depois da queda do muro de Berlim. Os jovens e os mais ricos estão
entre os que desaprovam as críticas segundo as quais a Alemanha Oriental
era um "Estado ilegítimo". Numa nova pesquisa, mais da metade dos
antigos alemães orientais defende a RDA.
...

O resultado dessas pesquisas, divulgado na sexta-feira em Berlim,
revela que a glorificação da antiga Alemanha Oriental atingiu o cerne
da sociedade. Hoje, não é mais uma mera nostalgia eterna que chora a
perda da RDA. "Uma nova forma de Ostalgia (nostalgia pela antiga RDA)
se constituiu", diz o historiador Stefan Wolle. "A ânsia pelo mundo
ideal da ditadura vai muito além das antigas autoridades
governamentais." Até os jovens que quase não tiveram experiência com a
RDA a estão idealizando hoje. "O valor de sua própria história está em
jogo", diz Wolle.

As pessoas estão ignorando os defeitos da ditadura, como se as
críticas ao Estado fossem um questionamento de seu próprio passado.
"Muitos alemães orientais percebem as críticas ao sistema como um
ataque pessoal", diz o cientista político Klaus Schroeder, 59, diretor
de um instituto na Universidade Livre de Berlim que estuda o antigo
Estado comunista.

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2009/07/05/ult2682u1224.jhtm

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

"Prefeito Kassab (DEM) fecha bibliotecas em São Paulo

Sob a alegação de falta de demanda, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) determinou o fechamento de quatro bibliotecas infanto-juvenis em São Paulo.

Foram desativadas uma biblioteca que ficava no Alto da Lapa (Cecília Meireles), duas na Vila Mariana (Zalina Rolim e Chácara Castelo) e a última no Tatuapé (Arnaldo de Magalhães Giácomo).

Juntas, as unidades tinham um acervo de 165 mil livros que registraram o acesso de 58.842 pessoas de janeiro à setembro de 2007".

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/prefeito-kassab-dem-fecha-bibliotecas-em-sao-paulo


Menos bibliotecas

O prefeito fechou o livro

mas a mente é sempre fogo

Sem palavras e sem freios

corta, mostra, torna vivo

aquilo que está dentro


O homem odeia os livros?

torna o caminho tortuoso

nosso rosto fica torto

com a voz de um mundo rouco


nossa fala cria molduras
de futuro, o medo emudece
sem passado e sem olhar
o homem, só, adoece


sim, livros são pontes

sim, precisamos falar

sim somos um povo

de poetas naturais


aquilo que herdamos e somos

nos vem por invisíveis

pássaros que voam


tomar pé e chegar ao chão

a biblioteca é a grande avenida

palavra puxa palavra

inventa o mundo

e lê a vida


Senhor, senhor que tem a chave

abra a lingua para a passagem

de homens por dentro de si mesmos

só há um grande enredo

da guerra, do amor e do medo

sem forma o fogo de dentro

torna-se fogo de tormento

os livros contam a passageira

contagem





Afonso Jr. Lima

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

1 000 000 000


Preto turbinado: o carro

O astro australiano da semana

Ouro na noite

A semiótica a robótica a logológica

Pesado medido tese de doutorado

Explode a favela


Teu rosto machucado

Velho, pedindo comida

Teu cheiro repulsivo

- tua roupa imunda

Bêbado!

por tua sorte te culpam:

Chegaste tarde no albergue?

Não querias tomar banho?

Por que essa cara de espanto e de dor?

De onde vem esse roxo e esse sangue?

Tanto dinheiro e nenhum para ti

Tuas chagas são nada

Ouro e negro, a noite

A cidade se apaga


São Paulo UK:

viver

ou não

herança antiga

– abandonados

entregues

o frio

solidão

e a esperança?


fechado

o albergue

um fio de

projeto social

0 . 1 . 1 . 0

número

sem barriga

o mal no mundo racional


10 bilhões 100 bilhões

de euros de ações de bites

a fotinha a motinha celebridades

a Bolsa caiu, a Bolsa subiu

num instante

comentário na tela, economista

cabeça americana, transplante

formada, transformada, elite pensante

São Paulo mil favelas

1 bilhão de famintos


a tela, a visão

palavra feitiço

morreram nas chuvas

ficaram sem leite

perderam a mãe

sem casa: enchente


senhor cidadão

corre entra pula

dorme dorme dorme

- no domingo

somos os primeiros

prata corre: crescemos

tetra luxo meta super

bocas

insanos urbanos


- chamem

as deusas da floresta

para trazer o que interessa

um canto do lago, uma reza –


que tudo é isso?


- me chama de índio raiz e cobra

fala da Terra Sem Males

quero um sono de dormir e ser o mundo


Quero ir ao outro da lua

pelas pedras e estar com meu povo -


A arte a língua a vaga angústia

Bresson pop um som

internacional: eletro DJ o novo

gringo de 80 reais

a cidade a balada

a guerra, terror

O Chamado: bonde

entre empurre grite

usuário aguarde: gado


o eleitorado

metropoferrado


praça anti-mendigo

o velho bicho

o Isso

animal mestiço

- Não!

criança baleada na rua!

chegamos a um bilhão


socorro

de onde veio este homem

conhece Madonna? já viu Overdrive?

um novo CD de Amy Winehouse?


fome velho perdido sujo

na avenida na porta

mão gorda vermelha pedindo

de onde essa barba branca

sem nome, pele, ossos, sem cor

entrego comida. Jesus te: corro


São Paulo UK: a ciência

viver

ou não

mundo racional

uma pergunta

– é preciso

vidro aço aço metal

robô.dernidade

vencedora

a cidade

hoje ainda não

homem hematoma velho fome

paciência: ?


Afonso Jr. Ferreira de Lima

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

"Você mente!"

Recentemente a CNN criticou a FOX por, elevando o tom, como sempre, ter mentido sobre uma suposta falta de cobertura de sua parte a um protesto contra Obama. Ou seja, você planta uma bomba, mesmo que totalmente descabida, e a verdade demora tanto a aparecer que cria um efeito confusão na opinião pública.


O âncora da CNN disse: "A verdade é que nós, sim, cobrimos as notícias e nós cobrimos extensivamente esse evento nós não promovemos o evento. É isso o que as verdadeiras organizações de notícias deveriam fazer" "Você mente!" - ele completou, usando o slogam republicano.

Confesso que sempre acho contrangedor esses slogans como PIG (Partido da Imprensa Golpista), porque penso que, se chamamos de golpista um pensamento conservador, subimos o tom e ficamos sem referência no caso de algo mais grave.
Bem, mudei de opinião.Agora, é grave!
A capa da Veja me deixou boquiaberto. Por que fiquei com a impressão de que, se houvesse um golpe de Estado no Brasil...

Vamos retomar os acontecimentos: um presidente eleito foi deposto, com a justificativa de que iria fazer uma consulta não autorizada pelo Congresso.
A OEA, imediatamente, condenou o ocorrido.

"O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu a Honduras que 'respeite as normas democráticas e o Estado de direito'. A prisão de Zelaya também foi condenada pela União Européia".
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/06/090628_honduras_atualiza_rw.shtml

"Certamente nós achamos que Zelaya é o líder constitucional e
democrático de Honduras'- reiterou Ian Kelly,
porta-voz do departamento de Estado dos EUA".
http://www.camera2.com.br/noticia_ler.php?id=185576

Ou seja, o fato é totalmente anacrônico e violento. Neste contexto, a comunidade internacional deveria tomar medidas enérgicas, porque, afinal (mesmo depois de Bush), existe o direito internacional. Os países da América deveriam tomar medidas imediatas, ou parecerá que os órgãos internacionais estão falidos, só servem a usos instrumentalizados, para aprovar um projeto nacional, como a ALCA.

Depois disso, ladeira abaixo: a embaixada ficou sem luz, foi invadida por gases tóxicos, as pessoas sangraram...
Não é nada disso que se vê na imprensa.

A Veja puxou o cordão com "Imperialismo megalomaníaco". É uma pérola da criatividade!

Acabo de ouvir o Boris Casoy dando a chamada: "Representante americano na OEA diz que a volta de Zelaya foi irresponsável!" Continua afirmando que a volta do presidente "não ajuda a democracia."

Uma série de entrevistados do programa Canal Livre aparecem dizendo que "não houve golpe, apenas aplicação da regra constitucional que veda a reeleição", "Zelaya estava caindo no esquecimento e decidiu usar a Embaixada como escritório", etc.

Até Sarney (agora é autoridade?) surge para denunciar o "abuso", ainda que diga que "dar asilo era fundamental."
O jornalista ainda conclui com seu famoso comentário: "Nem o presidente deposto pediu nem o Brasil deu asilo, um instrumento sério". Teríamos de "condenar a irresponsabilidade da volta", que tranforma a embaixada no "QG" de Zelaya. A operação é uma "aventura picaresca."
No SBT, o comentário é: "O presidente Lula deveria demitir o ministro das relações exteriores." O fato é chamado de "lambança".

Bem, isso é, no mínimo, não comentar, não contextualizar, por exemplo, o AI5 Hondurenho, a gravidade da recusa à mediação, impedindo a entrada de membros da OEA.

Esquecer que "a OEA (havia dado) ao governo interino do país prazo até sábado (4) para que Zelaya voltasse ao cargo" e que, por exemplo, "os manifestantes, entre oito e dez mil, ocuparam uma faixa de cerca de 100 metros em frente ao aeroporto (...)"
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Isto soa como um tácito apoio ao golpe!

Como diz Luiz Carlos Azenha:

"O governo golpista só tem apoio na mídia brasileira, na Fox News e no Washington Times, ambos a serviço da extrema-direita dos Estados Unidos."
http://www.viomundo.com.br/opiniao/governo-golpista-de-honduras-tem-apoio-na-midia-brasileira/

Até a CNN afirma:

"Roberto Micheletti is in effect running the country, but he wasn’t elected. He assumed power by force!"
http://ricksanchez.blogs.cnn.com/

Lembro de ter lido:

"Há vários quadros da Fundação Victor Civita,
que é uma susidiária da Editora Abril, que
trabalharam na administração estadual e vice-versa.
Várias estatais estaduais de São Paulo tem investido
bastante em publicidade nas revistas da Editora Abril (...)

O problema é que a Veja, a revista 'informativa' da Abril
tem feito várias reportagens sobre Serra.
Não uma defesa ideológica do sujeito, mas basicamente
uma série de artigos defendendo a viabilidade
da candidatura do sujeito".
http://www.andrekenji.com.br/weblog/?cat=18

Engraçado, não ouvi, na TV, essa notícia:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve o prêmio Chatham House 2009,
concedido pelo Instituto de Assuntos Internacionais de Londres,
por sua contribuição à melhora das relações exteriores. (...)
Na esfera subcontinental, Lula foi reconhecido por ser uma "figura-chave na estabilidade e integração na América Latina e por desempenhar um papel destacado na resolução de crises regionais", e no âmbito local por "sua contribuição para a redução da pobreza no Brasil".
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u630353.shtml


É uma pena que nossa imprensa tenha tão pouco amor à democracia de fato. Depois dessa, eu só espero que o Brasil não tenha um golpe!


Sexta-feira, Setembro 18, 2009


BRUNO: dois coelhos com um consolo só

Vou contar uma história: depois de um ano de amizade, descobrimos que tudo sobre nosso amigo era mentira. Ele mentia o lugar que nasceu, a casa, o emprego. Tinha vergonha de ser "out".
Isso mostra que nossa sociedade adoeceu as pessoas, com seus padrões de "certo" e "errado". Todos nós estamos condenados a ser não-celebridades.

Sacha Cohen retorna com seu misto de documentário, roteiro e tentativa de suicídio.


Por um lado, ataca o padrão global "be a celebrity", e por outro, mostra a verdade que o politicamente correto encobre: o que pensam um político conservador e o povo do Alabama sobre os gays. (Esse é o povo americano real? A instrução pública não existe? Será que a "onda gay" é apenas um slogan "comprem, gozem, vivam sem limite como eles!?")

Sim, existem caras que se divertem dando tiros em lebres e que acham veados porcos, com o perdão da piada.

Bruno é um pensar, o que já é muito. Não é o clássico que é Borat, mas é uma comédia reflexiva genial.Não apenas pela tão falada cena em que traz um bebê africano, trocado por um iPod, em uma caixa (que idéia de solução da pobreza, essa de Hollywood!)

Mas também por aquelas menos comentadas, como a cena em que desfila na passarela De La Prada com roupas presas no seu modelito de velcro, sem sentirmos muita diferença entre seus pinduricalhos e as modelos, cheias de panos estufados...

As mães tantando vender (para uma sessão de fotos) seus filhos por qualquer coisa (animais mortos, pseudo-crucificação, roupa de nazista, etc.) Ser famoso é mais importante que estar à salvo.

Cantando uma canção de paz entre palestinos e judeus... (será que alguém vê essa situação de modo simplista?)

Paula Abdul falando sobre sua filantropia sonhadora sentada sobre um mexicano é um clássico! (Dizem que a equipe não esperava que alguém de fato aceitasse isso!) Sentar sobre latinos é constrangedor (Elton John, parece à vontade), mas, e vê-los como cidadãos de segunda classe?

Sem falar da cena em que ele, com um vidente, faz sexo oral com um espírito do rock, quando o cinema vem abaixo!

Pois é, ser gay é super "in", não? O mundo aceitou a divertidade? Não, somente os marketeiros das corporações. Vide os soldados da Guarda Nacional dos EUA na frente de um D&G.

Além disso, os recrutas estão proibidos de falar com seus oficiais. "Quando finalmente foram questionados se 'sabiam quem era aquele recruta', cadetes responderam com segurança: “Sim, senhor! Sacha Baron Cohen, senhor!” http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2939.

O filme mostra a rebeldia programada do mundo MTV/Fashion Week... Lembra quando Björk apareceu de Cisne no Oscar? Todas as revistas disseram que ela era doida... Mas a arte não era ousadia?

(Spoiler:
"O Conselho Italiano de Moda emitiu um comunicado aos estilistas,
alertando-os para a possibilidade de Baron Cohen tentar penetrar
em seus eventos; a instituição recomendava ainda a proibição
ao acesso da produção de “Brüno”.
(...) E a polícia de Milão declarou que ele seria detido no ato. (...)
O ator foi algemado pela polícia e levado preso,
enquanto os integrantes da sua equipe seguiam no encalço deles.
Embora ele tenha alegado que simplesmente cometeu um terrível engano
— ele simplesmente usou um macacão de velcro e saiu andando
— Baron Cohen foi revistado e interrogado por sete agentes da polícia."
http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2903

Viva a criatividade!)

Bruno tira o maior sarro também daquelas "músicas que salvam o mundo", o que eu já havia comentado sobre MJ. Parece vago e soa como anestésico para os conflitos reais.

Lembrei-me de Thom Yorque (vocalista do Radiohead, que falou sobre Bono:

"a diferença entre eu e Bono Vox é que ele fica
completamente feliz em elogiar pessoas para conseguir
o que ele quer, e ele é muito bom nisso,
mas eu simplesmente não posso fazer isso.
Eu provavelmente acabaria dando um murro na cara deles
em vez de apertar as suas mãos,
mas isso é melhor do que ficar fora do caminho deles.
Eu não posso simpatizar com esse nível de besteira.
É uma vergonha, verdade, e isso pode ajudar
se eu quiser, mas eu não posso.
Eu admiro o fato de Bono poder,
e poder caminhar através disso cheirando a rosas."


Walter Benjamim falava da embriaguez, da telepatia e da teologia contra a ideologia da técnica que se tornara desumana: hoje, a embriaguez é a técnica, mas é possível usar-se desse "limiar", o bizarro, para mostrar seu absurdo. Diversão é a alma do negócio, mas é uma pena que seja apenas uma nuvem de fumaça de alegria para o medo do mundo em pedaços.

Ou, seja, que fazer se todas as pessoas se tornaram tão banais quanto Bruno, o mundo é fútil, e o entretenimento o produto mais importante? "Se eu abrisse meu guarda roupa e só visse capas pretas, eu também me explodiria", diz ele sobre os homens-bomba.

Mas isso é homofóbico? Infelizmente, os gays se tornaram o símbolo de tudo que o prazer sem limites tem para oferecer.
-
Boa reportagem: http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2892

***

Susan Boyle está aí de volta, com seu single de estréia!



Ela comoveu o mundo por seu talento, força emocional (de todas as versões de Cry me a river que ouvi, nenhuma chega à sua paixão) e, principalmente, por ser uma cidadã "out-fashion".
O seu caso fala muito do nosso mundo, onde uma senhora tipicamente "inglesa" (da Escócia), com seu vestidinho poá está definitivamente fora de questão.

O jurado faz a cara mais feia do mundo quando ela diz sua idade; e, quando ela dança sua dancinha, dizendo "Mas esse é só parte de mim", o outro faz cara de "Ai, que nojo!". Claro que eles enfrentam muita gente doida e sem esforço que pretende ser um grande talento, mas a seleção do show provavelmente selecionou algo...

Enfim, fica a pergunta: quantas Susan Boyle estão perdidas no mundo onde o Estado desapareceu e as pessoas estão entregues a sua sorte, onde o homem é o lobo do homem? Que riqueza está perdida na favela? Em Dublin?

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Heliópolis quer falar

É realmente revoltante como o Jornal da Globo pode dar uma notícia como a queima de carros e ônibus em Heliópolis, devio a morte de uma inocente pela polícia: "Imagens sobre o vandalismo numa favela de São Paulo".
A jornalista Michelle Barros junta palavras como "selvageria", "confusão", "ônibus atacados", "vândalos" (mil vezes) e também conta o caso de uma mulher com deficiência visual em pânico (!) e dos católicos presos na Igreja por uma hora. "Entre atos de vandalismo uma palavra no chão: Justiça".
Depois fala-se longamente do pescado, de como o pré-sal será ma para quem usou FGTS para comprar ações da Petrobrás e da comovente despedida a um juíz, com "tristeza", "brilhantismo" e perda irreparável".

Lembro da manchete da Veja ironizando a responsabilidade social das Casas Bahia ao abrir uma loja:
"Pedágio para vender em Paraisópolis." No mínimo estranho considerando-se que a própria reportagem mostra famílias que perderam tudo e que receberam as doações através da associação de moradores. E também como foi preciso uma ligação da loja para iniciar os "planos" de saneamento...

A Folha anunciava, em fevereiro que "moradores faziam protesto em Paraisópolis" contra a morte de um morador e teve manchetes razoáveis como: "Favela está em zona campeã de desemprego." Já a Época falava em "baderna" etc. Muito da violência vem do não reconhecimento.
Um homem bem pobre e sujo, sem dentes, fedendo, falando alto, entrou no ônibus onde eu estava na região do centro. As pessoas ficaram ansiosas, ele dirigia-se a um e a outro. Perguntou sobre um ônibus. O rapaz oerto de mim respondeu, com a maior calma, que ele devia pegar outro etc. "Tá limpo. O que vale é o respeito. respeitou, tá limpo", ele disse, e desceu do ônibus.

Quem sabe algum dia nossos jornalistas e políticos persebam que somente o reconhecimento pode trazer a verdadeira riqueza, a criatividade humana. O resto, é apenas preconceito.

Vale a pena ver P.H.A

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=17352

PS: O Secretário da insegurança de São Caetano já tinha dito que "não se tinha certeza se a bala veio do policial ou do bandido", mesmo tendo uma testemunha dizendo que não havia troca de tiros. O Jornal Nacional entrou ontem falando "Ainda de não se sabe de onde partiu a bala que matou a jovem."

Serra fez gracinha: chamou-se de "amigo dos pobres" e, em outra ocasião, mesmo afirmando que a polícia "entrou atirando dentro de uma favela", arrematou que "direito de protesto é algo que nós defendemos"... mas "vandalismo é outra coisa." Pois é, é que as pessoas estão cansadas de ir na Roda de Debate entre Polícia e Cidade, nos Fóruns da Prefeitura no Seu Bairro e no Orçamento Participativo. Povinho estressado.
Em Belém, mais um protesto: "cenas de vandalismo." Por que o povo dinamarquês gosta tanto de briga?
Vale a pena a cronicazinha humorada do Blog com Fel e Limão sobre a notícia "atingida por um 'suposto' objeto. "

http://comfelelimao.wordpress.com/2009/09/01/suposta-news-o-maior-jornal-do-mundo/

Domingo, Agosto 30, 2009

MJ: 1958- 1993

Eu era pequeno demais em 82, quando ele tornou-se o primeiro e último unânime do globo. Mas lembro do impacto de sua performance. Um caldo de tradições, black músic e disco, a síntese de uma história que começa com o jazz. Os descendentes tinham sua própria herança (soul, funk) e Elvis, filho bastardo.



Eu ainda penso se poderia haver algo mais grotesco do que o "tributo" a MJ ,17.500 pessoas, de corpo presente. Liz Taylor chamou de "um grande circo"... (Por piedade, enterrem logo esse corpo!)
O psicanalista Jorge Forbes afirmou na Globo News que cada um de nós tem um MJ. Lacan via, parece, a arte como aquela pintura de uma fruta coberta por um pano: uma tela branca para nós nos jogarmos.



Não podemos encarcerá-lo em uma personalidade patológica: ele dizer que sofreu é apenas uma opinião a mais... Talvez.

O tema é infinito. Por exemplo: Madonna conseguiu impor uma imagem oferecendo um "pacote" (vários) para a indústrial mundial do entretenimento que explodia nos 80.
MJ nunca conseguiu criar uma imagem única, nunca foi um bom narrador de si mesmo, ou nunca conseguiu uma personagem pública que fosse algo de si a ponto de mudar sem morrer, portanto é péssimo num mundo que precisa vender rápido para a massa. Nos anos 80 ele ainda conseguiu um estilo impressionante ("eu sou o homem impenetrável, que domino o mundo com minha dança"), que ecoou em milhões de Maycons e Maicous pelo Brasil afora.

Depois vai de um lado para outro, com o rosto em mutação, estranho, dançando com o Olodum e fazendo o egípcio. A pergunta surgiu: mas quem é MJ? Não aguentamos uma arte que não propõe um julgamento do mundo, nem que seja "seja ativa como eu", o que Madonna fez. A década de 90, com seu branco panos-quentes "politicamente correto" não ajudou alguém cada vez mais distante da comunidade (aliás, ela mesma, marcada pela desindustrialização, consumismo tele-produzido e violência das novas máfias, jogando tudo pra fora no hip-hop) a refazer o pop, que tornara-se replicagem.

Como o disco mais vendido do mundo, o mais caro contrato de propaganda, o Super Bowl e programa de entrevista mais assistidos da América (100 milhões) e o videoclip mais caro da história não tem identidade? "Thriller" foi o ápice e o último passo da revolução? Se você não criar um personagem, eles criarão, nem que seja o demônio.

(É notório como as tragédias, no mundo contemporâneo, são banais, pois fazem parte da vida dentro de um sistema organizadíssimo de economia, transporte, venda e produção de valores e desejos onde tudo é planejado e não há chão para pensar uma resposta: a alma de tantos artistas morre de falta de realidade).

Infelizmente, ao morrer, conseguiu ser sintetizado, como rei do pop. Mas mesmo assim:
cada um disse sobre ele algo e é notório que a MTV apenas conseguisse falar em uma sucessão de clips e a Época ficasse no blá-blá-blá nada convincente, a posteriori, que não consegue senão algo como "pobre criança rica". Pobre.

As imagens acabavam antes dos anos 2000. Tudo que o definia era Jackson Five, "Billie Jean" (1500), "Thriller" (1982), a Pepsi (1984). Ninguém conseguiu achar uma linha de explicação que fosse ao menos um cliché razoável. Sim, ele foi o "rei do pop", pelo menos isso se tinha certeza. Quem afirmava eram produtores, especialistas, músicos, sabiam de algo que ninguém sabia. Uma energia incrível, criação pura, e, ao mesmo tempo, uma pessoa desconexa, com frases inexplicáveis...

Outro ponto: quem quer que tenha ouvido o documentário de alguns anos atrás deve ter ficado impressionado com um homem carismático, dizendo coisas corretas e vivendo no mundo da lua, que fala com toda a sinceridade que não entende por que não pode dormir com uma criança. Ele tem toda a razão do mundo: a sociedade está doida de recalcar tanto o amor dos pais, etc. É bem claro que o mundo é que talvez seja doente, com todo seu ódio pelo contato... Mas custava um pouco de precaução? Você entende que o objetivo da "notícia" é criar uma pauta macabra ("tudo que você disser..."), não entende a inocência. (O Dr. Stan Katz, que o examinou em 2003 disse que teria a idade mental de 10 anos).

Ele falava como alguém que viveu dentro de um mundo de "sonho", que a indústria precisa. Aprendeu a vender o sonho e se tornou ele próprio uma fantasia. Diz no documentário que recebeu um cheque de 200 mil dólares do pai quando tinha algo como 15 anos... (que o jornalista é um babaca aproveitador, não há dúvida)

Além disso, sempre achei incrível que a mídia tenha ficado tanto tempo sem falar na sua aparência. O que eu via era chocante, mas a imagem de "rei" ainda era muito forte. Pareceu sim que há coisas das quais não se fala de um grande vendedor.

Mostra o quanto foi difícil mudar de canal para o próximo show e o quanto ele vacilou (por brigas com a Sony, por estresse dos processos, etc...) em oferecer uma substituição. Já "Black or White" soava para mim como enlatado (o que era aquele final: sempre penso que violência-tube é uma volta desesperada à realidade, assim como pegar no pinto fica estranho para alguém dessexualizado) e depois foi apenas mais do mesmo, baladas e clipes eróticos gelados (que idéia foi essa de chamar essa camuflagem de "In the Closed"?). Madonna também passou por um período indefinido entre o pop descarado até 90 e o novo dance-tecno dos 2000, (eu chamo, o fim lento da era disco, era Clinton, chove não molha, nem imperialismo de Bush, nem democracia de Jimmy Carter), mas MJ nunca pareceu ligado (a não ser ontem, com o Will. i.am)

Sabe, apesar da poesia impresssionante, e de não ser objetivo da música defender causas como um jornal, "Heal the World" sempre me causou algum mal estar. Parecia tão vinda em papel de indústria internacional, tão como um produto. Quem está falando do que e para quem? Precisamos de alguém que mantenha o sonho vivo, mas eu temo quando alguém fala "ame o mundo." É um passo para esquecermos que no outro lado da rua há algo concreto, um problema bem definido. (Bem, foi concreto "We are the World". Mas prefiro o ativismo realista de um Thom Yorque, que sabe quem são seus inimigos... ok, Thom não vive no país-entretenimento. MJ ficou, afinal, do lado de Reagan contra as drogas. Medo)

Forbes nos perdoe, mas, nós, pobres humanos que ainda precisamos de uma história pra nos contar, uma biografia mínima, mesmo que contraditória e aberta, queremos saber: foi o peso dos conflios internos, isolamento extremo, por exemplo, ser negro e talvez gay numa sociedade e época em grande parte racista e homofóbica? Freud disse certa vez, em entrevista, que as pessoas morrem quando querem morrer...

Enfim, chegamos ao funeral bizarro de um ícone que, só Deus sabe porque, acabou de mandar sua mensagem em 1993 (se fez algo notório, não chegou até mim) e passou a ser um "perseguido", caça-de-paparazzi.

Um homem com um sonho, mas nascido e criado dentro de uma indústria que não lhe permitiu ver (muito) que existe mundo lá fora. O fato de ganhar milhões de dólares por ano e morrer endividado é exemplo disso. (A cena em que compra a loja toda sem perguntar o preço é doida...)

Alguém que, em um momento, parece consciente de tudo que querem impor a ele e, no outro, afirma categoricamente que nunca fez mais que duas cirurgias no nariz.
Alguém que não é gay nem hétero, nem branco, nem negro. Alguém que casa para não deixar vir a tona boatos sobre sua sexualidade (quem foi o RP maluco que bolou isso?) e muda de aparência sem convencer jamais que isso não tem a ver com um sentimento de inferioridade monstruoso.
Alguém criado à porrada para ser "um show" e que, mesmo genial, mesmo criando um estilo, parece nunca ter encontrado um motor interno
para digerir o sucesso, recriar-se e resumir-se, impondo-se até o fim. E, ainda assim, uma lenda. Dito isso, ainda há a maravilha de "We are the World". Deus abençoe MJ.

Dicionário das Globalizações e An Altro Monde ist Possível, Fórum Social Mundial.



Sábado, Agosto 29, 2009

"O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) encaminhou ofício (nº 01244/2009) no dia 20 de julho ao prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). Na carta, após receber um e-mail com argumentos homofóbicos, o parlamentar pede ao gestor da capital paulista que faça um plebiscito para que os cidadãos paulistanos decidam se a Parada do Orgulho LGBT deve, ou não, continuar na avenida Paulista."

http://www.acapa.com.br/site/

Carta ao Senador:

"Caro Eduardo:

Recentemente o senhor defendeu todo o povo brasileiro no Senado, pela verdade inconveniente, mas necessária. Pela ética.

Mas lembremos que já foi "ético" aos imperialistas colonizarem a África em nome da raça superior. Já foi "ético" matar milhões de judeus em nome da melhoria racial da humanidade. Foi "ético", salvou as aparências, mas não foi correto, custou sofrimento, silêncio, vergonha, exclusão. Não foi moral. Nem sempre o que nos trouxe a tradição, a religião e até a ciência é a verdade completa. E somente uma verdade completa, que inclua gays, mulheres, negros, ricos, pobres, pode ser verdadeira. Odiamos o que desconhecemos, e o mal é fruto do desconhecimento.

Por que motivo os gays mostram-se tanto, beijam em público, por exemplo? (Os heterossexuais beijam muito mais, creia).

É como se dissessem: você me aceita como sou? Minha mãe preferia que eu não fosse assim, a polícia bate em gays e travestis, a religião fanática pede nossa cabeça, acusam-nos de não ter moral e de acabar com a família, culpam-nos pelo que nunca escolhemos, recebo piadas imorais e até agressões físicas de machões inseguros por aí, e eu até fiz com tudo isso uma vida feliz, mas hoje, hoje, você vai ter de me engolir. Me ver como um igual, alguém que quer amor, que sente o mesmo desejo e a mesma necessidade de toque e carinho que você. Hoje, eu sou o que sou.

Há um abismo entre a aceitação das camadas cultas, internaciolizadas (mas nem todos, como prova esse senhor dos Jardins), e as camadas populares, muitas vezes com uma visão restrita de família, religião e papéis sexuais. Restrita porque justifica censura e domínio, nega a realidade e o direito de fala, com argumentos como "Deus, pátria, família", nossos antigos conhecidos. Este caso mostra quanto é instável nosso país de direito: um belo dia decidem que você é imoral, depois criminoso, quem sabe doente.
Aí, pronto, a lei está ao lado do "ético" e do nazismo.

Se as pessoas ricas e com boa formação em geral vivem livremente (ninguém teme mais dizer que os maiores filósofos do século XX, Foucault e Wittgenstein, ou o criador do computador, Turing, eram gays, por exemplo) os menos favorecidos têm de esconder-se e temem a repressão policial.

A polícia negou-se a fazer um B.O., por exemplo, para jovens que estavam em frente ao shopping do ABC e que apanharam feio de um grupo homofóbico, o qual chegou batendo, pois disse que eles haviam "provocado". A simples presença do diferente é tida como ameaça, agressão. Medieval. Ainda tem gente querendo curar o desejo: o senhor quer ser curado de sua sexualidade?

O senhor, sempre ao lado das boas causas, não pode imaginar o sofrimento que representa o silêncio, pois é uma condenação velada, que leva ao ato criminoso, como uma bomba sobre uma passeata. Um povo assim, precisa ser educado, não apoiado com repressão simplista. Um e-mail fala muito de um povo que ainda pensa que pode colocar os que não são como ele de fora, mulheres, negros, pobres, gays, nordestinos; só faltou chamar de "vagabundo".

Se houvesse mais debates públicos sobre o tema, se as escolas aceitassem educação para o respeito sexual, se os jovens fosse ensinados que temos de respeitar nosso diferente e dar-lhe legitimidade, então provavelmente os gays não precisassem afirmar sua condição e jogar na cara de um país repressor sua alegria por ser como todos os outros.

Se os jovens soubessem que os jovens gays são mais iguais que diferentes, que tem os mesmos problemas que eles, e outros, por terem de viver com a ignorância, se esse senhor fosse educado para educar seu filho a aceitar que não apenas as pessoas como ele beijam, mas todas as pessoas, toda a diversidade imensa da vida, negros, brancos, mulheres, homens, travestis, senadores, roqueiros, americanos, então essa criança seria um cidadão melhor. Então não haveria medo e exagero.

O seu lugar sempre foi ao lado da liberdade. Se os gays puderem ter seus filhos, se a família for vista como laço de amor, esse cidadão indignado aprenderá que todos merecem o que ele tem (ou não). A felicidade."

Afonso Jr. Ferreira de Lima



Segunda-feira, Agosto 24, 2009

Legal, né? Agora o Sarney começou a roubar, é um coronel, etc... E se ele fosse a base do Lula? E se fosse melhor salvar os dedos? É incômoda e revoltante uma campanha tão descarada contra um problema tão velho... E a Veja? "PMDB" é cobra, é antro do fisiologismo... me poupe. Vale tudo para manter o PT longe.
Muitos jornalistas são simplesmente "condutores", mas há também os meramente "fechados em sua redoma". Afinal ética é algo bom, não?

Só para lembrar, uma carta de Chauí, que tem a coragem de ser intelectual e falar de política: porque FHC disse que ela não devia se meter no que não entende. Entendeu?


"Vocês sabem que, entre os princípios que norteiam a vida democrática, o direito à informação é um dos mais fundamentais. De fato, na medida em que a democracia afirma a igualdade política dos cidadãos, afirma por isso mesmo que todos são igualmente competentes em política. Ora, essa competência cidadã depende da qualidade da informação cuja ausência nos torna politicamente incompetentes.

Assim, esse direito democrático é inseparável da vida republicana, ou seja, da existência do espaço público das opiniões. Em termos democráticos e republicanos, a esfera da opinião pública institui o campo público das discussões, dos debates, da produção e recepção das informações pelos cidadãos.

E um direito, como vocês sabem, é sempre universal, distinguindo-se do interesse, pois este é sempre particular. Ora, qual o problema?

Na sociedade capitalista, os meios de comunicação são empresas privadas e, portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado; por conseguinte, não são propícios à esfera pública das opiniões, colocando para os cidadãos, em geral, e para os intelectuais, em particular, uma verdadeira aporia, pois operam como meio de acesso à esfera pública, mas esse meio é regido por imperativos privados.

Em outras palavras, estamos diante de um campo público de direitos regido por campos de interesses privados. E estes sempre ganham a parada.

Apesar de tudo o que lhes disse acima, fiz, como os demais (no mundo inteiro, aliás), uso dos meios de comunicação, consciente dos limites e dos problemas envolvidos neles e por eles."

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=347ASP012

Só pra lembrar: "45 escândalos que marcaram o governo FHC"
http://www.consciencia.net/corrupcao/documentos/fhc-45escandalos.html

Negócios de telefonia celular efetuados durante governo de FHC deixaram dívida de R$ 1,1 bilhão
http://www.consciencia.net/2005/1128-telefonia.html

Sábado, Agosto 22, 2009

Claude Régy - O Passador

"... Pode-se dizer que eu comecei na época do novo romance. Passei um pouco por Duras, um pouco por Sarraute. Através de Duras, tive algumas percepções de Blanchot, sobre a escritura. Podemos vê-las ainda hoje, apesar do retorno da narrativa.


Mas enfim, houve uma revolução da abstração, que se deu mais tardiamente em literatura do que em pintura, e suprimia a noção de personagem, e encarnação dos personagens, a noção de personalidade, de psicologia racional, de construção de uma personagem, que dissipava a noção de narrativa, ou seja, de ação. Todo mundo diz que o teatro é ação. Acho que tudo isso foi dissipado.


Tudo o que fazia parte da engrenagem do teatro, a progressão, a montagem de cada tirada e a progressão de ato em ato ou de cena em cena, tudo isso não existe mais. Ou não existiu mais durante algum tempo. Assim detendo-me a essas escrituras, precisei procurar um material para trabalhar.


Buscar um modo de dar vida às coisas em cena, sem passar pela encarnação dos personagens, psicologia ou narrativa. É assim que através dessas escrituras, por exemplo, de Sarraute, que é realmente abstrata, e cujos personagens não tem nome, é preciso que se recorra à escritura e pensar em tudo que a compõe, que a interpretação dos atores seja baseada na escritura, que a “mise em scène” seja também incluída no que é escrito e que os atores, ao invés de interpretar mal, ou seja, de encarnar, de imitar personagens reais e de dialogar entre eles, se entregue à escritura.

Ví duas coisas muito importantes.


É tentar sentir que, sem dúvida, a origem da fala é a mesma que a do gesto. Deve haver um centro em nós. Mas quando eu digo saber de onde nós falamos, penso tão profundamente, sinto por intuição. Mas não sei explicar onde fica. Não se pode dizer à alguém: “Você deve falar daqui!” É preciso achar em si próprio remetendo-se ao estado de antes da escritura, achar de si de onde vem a fala, como o autor encontrou de onde vem a escrita. Mas o gesto deve vir do mesmo lugar. Acho que só uma pessoa que escreveu o texto, e é preciso fazer com que se ouça uma única voz, por toda a trupe.


Tornando-se um monólogo, o que não quer dizer um discurso de uma pessoa, mas um único discurso. Volta-se então à origem do coro da tragédia grega. Então nesse momento, não há mais encenação, torna-se uma audição, uma audição do texto e uma forma de fazer circular... Uma forma de fazer circular o texto que carregamos com o contrapeso dessa matéria inconsciente, matéria que pereceu sua escritura, e deve então perecer nossa encenação e nosso sistema de imagens, plasticamente. É preciso ouvir e estar.


(...)


Penso que, mesmo escrevendo ou lendo, ouvimos sons. Se procurarmos de onde vêm, de alguma parte do inconsciente, então é preciso calar-se. É preciso calar-se e ouvir. É preciso ouvir o silêncio. Então percebemos que, no silêncio, de repente há a presença de homens e de mulheres... Uso “homens” num sentido geral. Essa presença é multiplicada – consideravelmente aumentada, mas é mais que isso – e que a imobilidade não é um pecado maior.


Que há na imobilidade, forças, trocas de forças que se atraem como um movimento. É preciso parar de se mexer, parar de falar, ouvir o silêncio e ficar imóvel. A partir daí, através de leituras feitas sem encenação, a partir daí começamos a descobrir como falar em sintonia com essa fonte interior. E é aí que o gesto se dá, ao mesmo tempo que a fala.


O movimento desacelerado é outra coisa. Ele vem da mesma coisa. (...)


E esta desaceleração adquire também um tipo de reflexão, na verdade, um tipo de atitude estática. Quer dizer, deixa vir a calma por si, que seja para falar ou para se movimentar. Sabemos que quando estamos a esse ponto relaxados, é uma relação com o universo, nós nos abrimos para o universo inteiro. Ou seja, estamos nos relacionando com o espaço da cena e os parceiros, ao mesmo tempo que com o universo, o cosmos inteiro, e estamos abertos a todas as dimensões. Assim o palco vai ser ocupado obrigatoriamente por algo invisível que não se pode analisar, que sentimos sem saber."


Sexta-feira, Agosto 14, 2009

"Devido ao grande sucesso de público, o espetáculo O MONTACARGAS, faz mais uma temporada no Espaço dos Satyros Dois. O texto - terceira obra escrita para o teatro por Harold Pinter (único dramaturgo premiado com o Nobel de Literatura em 2005) – apresenta-nos dois homens que se encontram num porão à espera de uma terceira pessoa, enquanto conversam sobre futebol e comentam as notícias dos jornais.

Aos poucos, sob a aparente banalidade dos diálogos, vai se revelando ao espectador um vasto conteúdo inconsciente, a partir das sutis indicações dos motivos que os levaram ao porão e a tarefa que ali irão realizar.

A encenação, fruto da pesquisa realizada desde o inicio de 2008 pelo grupo Na Cia. dos Homens, cuja principal referencia é a obra do cineasta francês Robert Bresson, constrói-se a partir de um acurado cuidado com a palavra, aliado ao minimalismo e à economia de meios, que permeiam os elementos que compõem a cena (cenários, figurinos, iluminação...) bem como o trabalho do ator que, utilizando-se do silencio e da imobilidade, busca conferir aos seus personagens uma dimensão arquetípica e simbólica".

O Montacargas, de Harold Pinter – tradução de Braulio Ferraz - direção de César Maier – Com Bráulio Ferraz e César Maier

Espaço dos Satyros Dois – Praça Roosevelt, 134 – Tel.: 11 3258.6345 – 01, 08, 15, 22 e 29 de agosto – Sábados, às 19 Horas

Ingressos: R$ 20,00, R$ 10,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt)

Classificação: 16 anos


Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Acabo percebendo que eu tenho muito a ver com essa cidade. Apesar de eu não querer admitir, e ainda me sentir perdido nos espaços amplos, na geografia nunca finalizada, na convulsão do centro, no anônimo das casas antigas, no barulho incansável. Eu sou São Paulo pela estranheza e pela invenção. Gosto de me ver como um “gaúcho” típico, nostalgia de um pouco de ordem, de um pouco de velhos vernizes aristocráticos, língua culta, política afiada. Nem somos tão nobres, nem a cidade é tão suja. Eu me misturo bem, lá eu era outsider.

Há o duro do comércio, ou seja, tempo. Há as atendentes sérias, os funcionários exaustos de tantos ignorantes, os carregadores de mala que em uma palavra -5178- sabem norte e sul. Tudo funciona. Não me canso de ver a miséria que é como uma ferida aberta nas avenidas, velhos, mulheres, cabeças e pés sujos em meio ao cimento e os carros importados. Eu abomino minha raça e tento ficar ligado ao chão, mas minha mente é turbilhão, como as flores e as folhas que caem. Eu sou essa impaciência. Meu olhar não fixa, mas capta, sou pouco sério. E, em meio a tanto plano e tanto sucesso, só penso em destruir, criar, em estar em outro lugar, será que as pessoas viram o vento levando pequenas folhas na Alameda Santos?

Saio da calçada, uma moto da polícia, emergência. Ao lado da colorida feira, um cadáver ainda vivo. Um celular com TV e GPS no jantar.

E como unir minimamente, sem comprar em bloco fósseis medíocres, quem é mais viajado, quem fala mais línguas, quem compra mais. Como perceber sem enredar-se? Em passagens, imagens, em manipulação. Em ser o melhor. Em ver Paris. Em ter lido muito. Moda. Carro. O Certo. O Pensamento. Bolsa, sapato.


Uma voz de Jornal invade minha casa do vizinho pelo ar. Toda a multidão com uma mesma mente. Tem um velho ao meu lado, evitar a mudez.
Este trem não prestará mais serviço, todos devem desembarcar, plataformas lotadas, empurra empurra, luta na porta, um homem força sua entrada, a porta fecha, desliza como um peixe para fora, a humilhação de senhoras esmagadas em pé em ônibus lotado. Natureza, mórbida resignação, sem jogo. Querer um bem que seja criar mil possibilidades.

A elite do país, a crítica do país, os blocos de poder em choque, fragmentos e destroços que se remontam, Baudelaireplus no entra e sai do chat, na obra da Paulista, funil de multidões, homem mal educado cospe no metrô, homem bem educado me atropela na calçada, acidadenãopodepararacidadenãopodepararacidadenãopodepararacidade. Vovó quebrou o telefone, mas não foi com você, tava estressada, não foi com você meu neguinho...

Cada um no seu blog, pelo msn, cada vez mais rápido, pela webcam, via satélite, sozinho. Informado, tolo. Inflexível. Tanto saber me tornou burro. Meu corpo, frio, não fala, eu o malho. Em busca de alguém. Abrindo a mata escura. Eu sei mais, você vai tirar meu lugar, não pense que me humilha. O pai não vê o filho, cada um no seu casulo. Eu sou o lobo da cidade, minha própria alma é seleção natural.


E ainda assim, eu nasci nessa teia sem nota de descanso que é beleza e perigo, sem Tábua, na quase-grade, percebendo coisas-em-si negras, potentes, que me puxam, um Deus sem resposta única e filho do amor e do gozo, pedra-Godô, é preciso ser único a cada gesto, único com cada pessoa. Busco ver, tocar, pegar espaços de percepção, para agir. O econômico é a igualdade rasa, transforma tudo, você e ele são mais um pouco.


Nem os artistas, nem os pensadores, os compradores de carro são os modelos da humanidade. O flâneur, o dândi, o marginal são os produtos mais vendáveis.
A disciplina da democracia sem igualdade. A cidade São Paulo mix-mundo das multidões secas, dos diamantes ouro micro chip.
Queda e esfacelamento, pensar depois de Auschiwitz.

Os elétrons do meu corpo, a distâncias siderais, correndo, guardam a geografia afetiva: cheiro, cinema, som do triângulo nordestino, viver prazeres na Consolação, a cidade quer arte. A matéria é música da poeira quark, música incerta.

No fim do conflito burgueses X marginais/artistas, os executivos são artistas de si mesmos e os artistas são comerciantes de sua imagem. Máquina que come tudo, e tudo fica igual a tudo. Selva germânica, ruas de vendeta. E ainda assim eu sinto o vigor da Feira da República, eu observo o belo na árvore negra em ondas contra o vão vermelho do MASP, a estranha glória do Viaduto do Chá soberano sobre cacos da metrópole. Algumas árvores no vidro azul da avenida. Olhares amigos.

Eu tenho a ver com essa cidade, porque nunca sou correto, nunca acabo, e e cada dia aprendo o prazer.


Afonso Jr. Ferreira de Lima

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Se iguais

O futuro do Brasil está na favela
Não nos filhos mimados da burguesia
intoxicados de video-games e mp5
cujo ideal de vida é voar à alta velocidade
entre o lixo e as armas
sem sapatos e sujas
sopranos, filósofos e cientistas
esperando atenção
nas praças, as crianças brincando
um pouco de ar, um pouco
de paz para a criação
livros abertos, as mentes
aprendendo, ensinando
o que cada um apenas sabe
o governo foi comprado
o poder não está com eles
estão sempre vigiando, vigiando sua mente
estão sempre ofertando, o que você não vai comprar
estão sempre falando, antes de você pare pra pensar
A revolução dos livros
a revolução em cada cidade, cada bairro
libertar o aparelho de pensar
contar o passado e abrir o posível
anjos da cidade
tragam uma ciência humana
cujo objetivo seja viver
o ser humano
não para julgá-lo, modelá-lo, torná-lo útil
mas para ampliá-lo, libertá-lo, torná-lo sábio
porque o conhecimento deve ser rebelde, mas simples
que seja também amor
sejam os melhores e lembrem-se
que a felicidade é coletiva
só há um mundo e ele é de todos
encham de flores a vida

Afonso Jr. Lima

Domingo, Fevereiro 08, 2009




Duas boas descobertas

"dentro de mim
morreram muitos tigres

os que ficaram
no entanto
são livres"

(Lau Siqueira- do livro, O Guardador de Sorrisos)
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

O inacreditável SSION:

http://www.youtube.com/user/thession

As regras do jogo

Li uma entrevista interessante de José Padilha, cineasta de "Tropa de Elite", onde fala da sua "teoria dos jogos". Seu ponto de vista é instigante, sobre o contexto do personagem...

Mas, antes:

Segundo a Folha de 4/02 /2209, no resturante Cracco de Milão um executivo negou-se apagar a conta de R$ 12 mil, por trufa branca ralada sobre (vulgo fungo sobre massa). Carlo Cracco, chef do restaurante, afirma: "As pessoas civilizadas pagam o que compram. Há pessoas que pagam 7.000 euros por uma garrafa de bom vinho, e este senhor não pagou o que consumiu".

Assim, não há limite para a ambição: mesmo que você pague R$ 6mil por um jantar - como de fato o executivo pagou, em busca de um acordo- sempre haverá um status maior a ser atingido.
E a sociedade brasileira é doente por status, discriminação por status, status como valor humano: pode não ser culpa de ninguém, mas podemos mudar as regras.

Fiquei espantado com a Festa de Aniversário de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, onde, com amigos, esperei quase 1 hora por Seu Jorge: o show, aberto, foi para uma multidão, mas os únicos policiais que eu vi ficavam na rua anterior, à mais de 200m do palco. Nos andaimes ao redor do palco, nada. Na frente do palco, onde mendigos, bêbados e nós nos apertávamos, nada, nenhum. Andei até o metrô com um amigo, subimos até o Municipal, somente os dois policiais no carro em frente as barracas da Fiesp. Ou seja: povo é povo, se der briga...

No site da Prefeitura se lê: "Cem homens, além do contingente da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar, farão a segurança do evento". E, na Folha: "A organização do evento espera receber cerca de 20 mil pessoas, a partir das 16h." Pode?

Da mesma forma, na Virada na Paulista - além do espantoso Daniel tocando sou berrante e do chatíssimo KLB cantando músicas de outros e Micheal Jackson em inglês!- o policial que me revistou parecia estar dando um passe: tapa na barriga, tapa nas costas, pronto! Eram 2 milhões e 400 mil de pessoas... Mas e daí? Na TV só sai flashes... (Ainda: os policiais ficavam dentro de "barricadas" que dividiam uma pista e outra da avenida: Se ocorria algo ficavam como barata tonta pensando em como sair do quadrado e tentando enchergar na multidão... Floripa é bem mais esperta: eles ficam em cima da escadaria da Igreja e saltam sobre o mínimo tumulto.)

Na casa de amigos, a empregada faz um discurso sobre como sua rua na Z.L. fica uma semana sem ser lavada e como a Paulista é lavada todo dia pela Prefeitura. "É que a Paulista chama os turistas" - diz uma amiga... Então vamos lavar a Z.L.!

O que eu mais temo é essa massa de explicações plenamente explicadas que as pessoas têm em mente; a defesa dos direitos humanos baseada em uma visão moralista ("bolsa família incentiva a vadiagem"), distorcida, fechada em um mundo microscópico onde o bem, o belo e a verdade já foram decididos, mas estão longe de tudo que é real. "Prefeitura trabalhando" é um slogam, mas na periferia não há lazer nem policiamento.

Assim, são essas simplificações- idéias pré-concedidas que geralmente culpam o excluído pela sua exclusão- que justificam manter as regras do jogo.

O próprio "Tropa de Elite" sofreu com muitas dessas reações tipo "bandido é bandido, mocinho é mocinho".
Uma série de preconceitos, por exemplo, o que confunde "filme de crítica sobre sociedade violenta" com filme de violência banal - como Jay Weissberg, para a "Variety" que fala de um "estilo Rambo" (há de ser muito ignorante para igualar um filme político como esse a Rambo) e fala de "uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas" (sic). Vamos filmar apenas Hollywood!

Por falar nisso, o "Hollywood Reporter" diz que a premissa do filme "é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades". Nossa que feio! Um provável esquerdista de elite do "Le Monde", Thomas Sotinel, cai no velho ditado chinês segundo o qual "quando o sábio aponta a estrela o tolo vê o dedo", pois pensa que o filme é "uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais." Como se precisássemos fazer apologia onde morrem tantos jovens -"mil pessoas assassinadas por policiais por ano", segundo Padilha.
Também vi a excelente entrevista da professora Jucileide Rodrigues da Silva, diretora da Escola Oliveira Viana, no Jardim ângela, em São Paulo. Vale a pena trans-Ctrl+V:

"E havia alunos de sua escola que eram membros dessas gangues?

Sim, havia. Os meninos do bairro não têm má índole. Mas pense bem: eles não têm o que fazer, não têm lazer nenhum, passam necessidade porque o desemprego é muito grande, vêem o pai desempregado, a mãe indo fazer faxina, se achar trabalho, comida faltando dentro de casa enquanto a mídia vendendo todo tipo de produto — o melhor tênis, roupas de grifes —, sem que tenham condições de comprar nada.

Daí vem o traficante e lhes oferece dinheiro para vender drogas. Os meninos começam vendendo e depois de um tempo acabam se tornando consumidores. Normalmente, quando eles entram no crack, é uma ida sem volta.

Eles têm a auto-estima muito baixa. Por morar no Jardim Ângela, automaticamente, você é bandido, é marginal, é vagabundo. Eles saem para procurar emprego e ninguém dá porque moram no Jardim Ângela. Tudo isso é que torna o bairro perigoso e esses meninos, marginalizados".
(www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0068.asp)

Idem : José Padilha para a DW-WORLD, no Festival de Cinema de Berlim, 2008:

"Por exemplo, no Brasil, por algum motivo, a maconha é ilegal. Poderia não ser, mas é. Então, o usuário da maconha e da cocaína, quando compra drogas, está comprando de um grupo armado que domina uma comunidade carente.

E ele sabe disso, isso está implícito na escolha dele. Ele está financiando as armas e as balas dos traficantes, sim. Ele está dentro do processo social que gera isso e está fazendo escolhas conscientes que alimentam esse processo. A classe média tem uma grande dose de hipocrisia no Brasil.

Um policial no Rio de Janeiro: quais são as regras às quais ele está subescrito? Ele recebe 400 dólares por mês, é maltreinado, é colocado numa estrutura corrompida de cima abaixo. E a gente pede que ele faça valer a lei em favelas com pessoas fortemente armadas, com grande risco de morrer durante um longo período de tempo.

A mortalidade de policiais no Rio de Janeiro é enorme. Qual é então o comportamento de uma pessoa, dadas essas regras do jogo? É natural que ela se corrompa. Por isso que temos na polícia 40 mil indivíduos e mais ou menos 30 mil são considerados corruptos pela população. O que é verdade".
(http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/02/15/ult3781u4.jhtm)

Quinta-feira, Janeiro 01, 2009


A mostra Jacques Tati, do HSBC, fez uma história do século com leveza. No século de Monsieur H. e Monsieur S., Monsieur Hulot aparece não como uma resposta, ou um antagonista (há contraponto para o indizível?), mas como uma flor do campo que insiste em ser apenas isso.

O primeiro filme, de 53 conta sobre um mundo absolutamente em paz ("frescor infantil e terrível, suspenso sem rumo num vazio" depois das guerras, como, segundo Hannah Arendt, em "Homens em tempos sombrios", bem definou Sartre). As pessoas saem da cidade em busca daquilo que o mar oferece. Encontram Monsieur Hulot e uma porta aberta ao vento, uma vela dentro de uma dispensa com fogos de artifício às 4 da manhã e um LP que explode em jazz do nada, alvoroçando o descanso. Já o assisti duas vezes e não me canso. É o prazer incrível de não ser perfeito e rir de si mesmo.

O segundo filme, "Meu tio", de 1968, já tem outra cara. É uma crítica bem franca ao "modernismo", aos pais que não têm tempo para os filhos, às mulheres fúteis que vivem para a casa e as amigas, aos prazeres da riqueza que nada são sem alguém para compartilhar. Em tudo isso é realmente o clássico despretencioso sobre o despertar do "sonho" iluminista de que a tecnologia ia trazer a felicidade. Afinal, o homem não ia mesmo conquistar a lua? Pierre Cardin não criava roupas de astronauta e dizia: "as roupas que eu prefiro são aquelas que eu crio para (...) a vida de amanhã?"

Essa brincadeira de herói do deserto sideral fica ainda mais visível em "Traffic", de 1971. Depois de assistir uma noite toda a chegada, os homens caminham na garagem em câmera lenta. Agora a sociedade do consumo venceu (a máquina da liberdade ainda brilha, neste mundo novo, como um cigarro nas mãos dos atores dos anos 50), e o racionalismo cômico que já aparecia em "Meu tio" aparece aqui mais forte, mais enredo, mais o fluir do filme e menos o palhaço Tati.
Todos estão orgulhosos de seus carros, mas não podem andar, congestionados. (Profético! Devia ser passado no ensino fundamental em São Paulo...) O riso é mais cerebral, mais sarcástico, mas cheio de boas gags de circo como os hippies que substituem um cachorro por seu casaco "ovelha", levando a dona (histérica mulher-moderna profisional- american way chata) à loucura. Monsieur Hulot agora é um designer (!), vejam só, mas capaz de pensar num pára-choque (ou será que a nova regra já vale, parachoque) de assar bife...
A burocracia é ridicularizada, e a cena de Hulot pendurado de cabeça para baixo numa árvore, depois de pôr abaixo uma trepadeira enorme que cobria a fachada de uma casa, tentando não perturbar a conquista de um hippie, é a "prova" tatiana de que, no mundo planejado, o acaso sempre alcança...

"Parade", 1974, é o canto do cisne - mas um canto cheio de amor- por um mundo onde a inovação era possível, longe da "média" do "cidadão comum" da massa.
(Parêntese: em um bar ouço a um trecho de Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos. Os diálogos, que tentam naturalismo "sabe-o-que-eu-comprei-na-feira?", mostram uma diretora amadíssima pelos seus alunos, brincalhões e simpáticos, que aplaudem no final de seu discurso, incentivando o estudo. Sempre o medo dos conflitos reais, que salvaram as séries americanas como House. Reflexo do isolamento dos artistas, no mundo dividido?)

Aquilo que o cinema francês traz de mais importante, tão bem representado por Catherine Deneuve -uma ousada constante - e o "Conto de Natal" de Arnaud Desplechin, o confronto com nosso mal, as incompreensibilidades da vida, a rebeldia (sim, contra o "mercado" imperialista, no fundo, que hoje é um o mercado de idéias simplistas, a mediocridade, a arte-shampoo, ou a arte "arte" só para amigos artistas "alternativos").

Circo-filme (quem pode imaginar maior diferença com o Circus de Britney, essa menina triste de cordinhas que usa qualquer decalque do baú-do-mundo - os simulacros - que algum empresário cria para uma cara nova para o mesmo perfume?)
Tati faz uma ousada brincadeira com o que há de mais simples: a união de diversas pessoas fazendo coisas inúteis e que exigem talento, a lembrança do artesanato, da tradição do medieval, dos artistas bufões, da arte enquanto liberdade. Pode dar errado, e dá, em alguns momentos: há piadas que não entendemos, como na orquestra brigando pelas roupas, isso porque Tati é rápido, "tudo é perigoso..." Mas o prazer de uma obra de arte com erros é sempre infinitamente maior do que uma obra de não-arte perfeita.
Sinto hoje, nos artistas, um medo enorme de errar, uma imensa necessidade de afirmar-se e é isso que mata qualquer tentativa de criar uma linguagem de algum impacto, que só pode nascer da retirada completa da máscara (assustadora) e da identificação pela vontade de oferecer, anti-individualista de início.
E se Hulot é algo, esse algo é generosidade. Tati lembra-nos que a Commedia del’Arte - que literalmente significa a comédia dos artistas- ainda é possível. Disse Marcel Marceau:
"Bip não vive de lembranças. Seus combates são do mundo de hoje. Ele é como Dom Quixote, lutando contra os moinhos de vento da existência".

(MARCEAU, encarte do programa de sua turnê pelo Brasil, 1997
http://www.cialuislouis.com.br/tf-marceau.htm)

O filme é genial por transformar mágicos, mímicos, acrobatas, cantores, orquestras, hippies, crianças, cavalos, imagens, conceitos, fluxos de circo em filme, de 85 min. As crianças pequenas, no final, brincando com tinta -além de uma porta dizendo "o circo não acabará nunca"... - é uma lembrança do que é ser artista. Sempre haverá um coração aberto para ouvir nossa canção.
Fazer arte ainda pode ser divertido.

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Participando do Concurso on-line de contos da Livraria Cultura, percebo que os contos mais antigos não estão no meu perfil:será que há cota de autor?

Então republico aqui...

Abraços

Afonso jr.

Diamantes

São um milhão em São Paulo.
São 8 mil, eu li no jornal.
Um milhão. Mas não só mendigos de rua, “sem-teto”, como é politicamente correto. Os favelados estão no “milhão”.
São Paulo sustenta esse país. A gente que trabalha... eles vêm de onde?
De onde não tem comida.
Claro! Mas a cidade não dá conta.
Molhou a mão na psicina. Maldita hora seu pai a obrigara a ficar na festa com os amigos esnobes.
47%, sabia? 47% da renda. Com 10% da população.
Você quer casar comigo?
Não seja ridículo.
Metade queria, ser fraca.
Ok. Então, e os outros?
Outros?
Você nunca leu Lacan? Os outros, aqueles que você pensa que são você. Comprei na Cultura.
Não seja riículo.
A noite estava preto e branco, folhas e grilos.
O brasileiro é preguiçoso por natureza. O governo fica dando bolsa isso, bolsa aquilo... vão ficar acomodados só mamando...
Essa gente come torrão de açúcar e pede comida na esquina.
E adianta dar teatro pra essa gente? Se der comida vão jogar um no outro. Essa gente tem de dar passagem de volta pra sua terra.
Nazista.
Grilos, lua com pingos.
Somos jovens, precisamos de sexo.
Você não é tão jovem. Passou dos 30.
Mas preciso de sexo. E sai muito mais barato, para mim, pelo menos.
Tá bom.A água da pscina ficou cheia de bocas.

O Muro

- Fala inglês?
-Já leu Clarice Lispector?
- Passou no vestibular?
- É magro?
- Tem internet?
Essas eram as perguntas. Para entrar. Uma pessoa podia responder não a uma delas. O muro tinha 6 metros de largura. Chumbo em ambos os lados.
Quem passasse, chumbo. A cidade ia ficando mais cinza a cada dia. Lixo pelas ruas. Homens magros estendendo a mão. Carros prateados, impenetráveis.
Crianças negras dormem sobre o metal da Paulista.
No bairro pobre, milícias armadas tomam as casas. Grupos sem-teto protestam frente ao Banco de vidro, a polícia usa o gás fatal. O muro segue, dentro, pessoas nervosas votam no líder forte. Aceleram a construção, grupos protestam, são chamados "retrô" pelos jornais.
Cada pessoa, para entrar na Grande Loja do Dentro, deixa seu cérebro, depois sua língua, finalmente mãos e olhos e ganha jogo de futebol, seriado americano e DVD.
A marcha vai até a Livraria Cultura. Intelectuais pararam tentando impedir o muro.

Alameda Glete

Para Ana Maria Alfonso-Goldfarb

Acabara de sair da exposição do Einstein. Lembrara que matéria e energia são a mesma coisa e que a viagem no tempo é possível. Caminhando distraidamente pela São João, pensei que adoraria voltar ao glamour dos cinemas de gala, barquinho, violão. Minha intenção também era descobrir o segredo de Alexandre. Um cofre de ouro, com o segredo alquímico, que Alexandre Magno mandou ocultar no mosteiro de Amorium, na Frigia, segredo que Aristóteles aprendera de Apolônio, o qual o descobrira na Babilônia, onde Hermes I o escondera quando de um grande dilúvio. Se minha mente, por um segundo, lembrou de Caetano, pensou em ir na Sala São Paulo, não sei. Entrei na alameda Glete e não lembro. De repente vi por dentro todas as coisas e uma moeda tinha energia para iluminar a cidade. Vozes de amigos, multidão, Levo três horas todo dia até o Carrão, Esse povinho que mora na periferia, Acordo às cinco, trabalho doze horas, chego às oito e meia em casa, não tenho amigos, Não vou ao centro, só tem mendigo, gente feia e crakero, Se precisa de médico pra o bebê na madrugada, só tem à uma hora de distância, Por que os pobres se matam?, Eu cresci comendo todo dia mingau de fubá, era o que tinha, Eu comprei o vestido com saquinhos de pérolas da Vogue, Nordestino filho da puta volta pra tua terra! A alameda Glete não saia da minha cabeça. Vi tudo. Street viveu no Palácio, deu casa aos operários, os jovens estudaram na casa, a ditadura separou, apagou a memória, uma cidade do pensamento. Mundo abandonado. Cai em pedaços, as águias morreram, a água contaminada. Se o Sol dá vida a tudo, o ouro, seu similar, também dá vida e saúde. Eu vi. Só podia estar lá dentro. Ninguém percebeu ainda. Olhar página a página. Kafka, Platão, Bukowski, Borges. Decidi viver trancado. Livraria Cultura, vivo aqui, à noite busco o Tesouro.

Afonso Junior Ferreira de Lima, 2008

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008


Buscando na web uma tradução de Miss Saigon, só achei versões hiper-literais...

Como o que conta é cantar, tentei fazer a minha. Claro, precisa de algumas mudancinhas na hora de organizar as sílabas, mas acho que com treino (e dando um jeito no "...so diffeeerent...") tudo pode funcionar ;)


Kim

O sol, você, sou luar
Pela sorte unidos
No alto dia e no breu
Somos felizes, você é meu

Chris
Mistério você aqui
Meu lugar é tão outro
outro, outro, tão longe de você
Como a noite nos fez
tão longe estar, amor?
Kim
Surge lá fora o sol, não!
Chris
A lua no céu a brilhar!
Kim
Canta a manhã!
Chris
Estrelas se vão!
Kim
Ainda tremo...
Chris
... de paixão!

Estamos no céu!

Domingo, Dezembro 28, 2008

Bienal: sobre o vazio e outras coisas

***




(AS: O que está acontecendo com Israel? Alguém pode me explicar que atrocidade é essa?)



***




É com certa ironia que o destino coloca juntos um grupo que evoluiu até a sofisticada linguagem do vazio e outro que quer entrar, está tão fora que não sabe bem a etiqueta, odeia alguma coisa invisível e usa essa linguagem como quer... Claro que é irônico a linguagem da "participação"- nascida de uma sociedade dadaísta/"anarquista" anti-conservadora- de um mundo pós-super-moderno virar "agressão" num contexto tupiniquim de exclusão... A arte chama participação, temos jovens doidos para ser parte de alguma coisa...

"Tanto na Bienal, quanto na Belas Artes, fui só para ver o que ia rolar. Mas, quando percebi, a lata de spray já estava na minha mão"- diz a rainha do branco.
"Vândala" ou "heroína dos descamizados"? "Pega mata e come..."

Sim, na "Bienal do vazio" houve a polêmica (horrenda) prisão de Caroline Pivetta da Mota (que os jornais chamam de "a pichadora") por quase dois meses. Ao mesmo tempo, Cholla, um cavalo de 23 anos arrebata o Prêmio Internacional Arte Laguna, na Itália ganhando de mais de mil artistas do mundo todo.

Assim, começam as simplificações. Não é a deixa para falar mal da elite cultural e da falta de critérios da arte?

A Bienal começou com o tom da crítica. "Crise financeira da instituição, que não pagou grande parte dos gastos da edição passada, inclusive com curadores estrangeiros", anunciou a Folha (9/11/2007). "A atual presidência da Bienal esteve envolvida em várias polêmicas, neste ano, e chegou a assinar um ajuste de termo de conduta com o Ministério Público, por cometer irregularidades ..." (8/11/2007)

Então a proposta desde sempre foi bem interessante: um debate até sobre o formato, a gestão, o patrocínio desde o modelo pai-senhor americano, etc... (Lembro de um artigo de Ivo Mesquita sobre isso, mas não acho agora...)
A arte no mundo todo se encontra em crise, provavelmente, porque os artistas vivem dentro das bolhas de luxo -linguísticamentosas, claro- cada vez mais fechadas, e o "atrito" com o real da "massa" sumiu, desde que a política real desapareceu da "opinião pública", coberta de produtos paradisíacos e tele-jornalvela.

Foi esse um daqueles momentos em que a violência oculta vem a tona em toda sua feiura: como disse o Ministro Paulo Vannuchi , "Daniel Dantas ficou preso muito menos tempo".

A maioria das críticas caiu sobre a curadoria, mas não vejo claramente qual sua suposta "culpa" neste caso. "O parque Ibirapuera é uma área de preservação ambiental e o Pavilhão da Bienal é um prédio tombado e monumento histórico estadual (...) Há uma lei e transgredi-la implica risco" -diz Mesquita em carta à Folha em 18 de dezembro. Ele chamou o ato de "arrastão" e assim descreveu o evento:"40 jovens invadem o pavilhão da Bienal como um arrastão, derrubando tudo, agredindo pessoas fisicamente, com o objetivo de, segundo a convocatória pela internet de seu líder Rafael Augustaitz, pichar o segundo e o terceiro andar, destruindo todas as obras. "

Estranho foi a frase da curadora Ana Paula Cohen na entrevista coletiva que antecedeu a Bienal:
"Estão convocando gente da periferia da cidade para fazer isso, e essas pessoas não sabem no que estão se metendo." (13/12/2008) Ameaça? Constatação? Soa um pouco "nós e eles"- será o caso de negar que foi criado um abismo? A falsa idéia de que "todos são iguais" aqui pode esconder a oportunidade negada de muita coisa: somos iguais em tudo, com os mesmos direitos, mas:

"Pesquisa realizada na Zona Sul de São Paulo pelo Departamento de Serviço Social da PUCSP e citada pela mesma reportagem da revista Carta Capital, mostra que '81% dos bairros pesquisados não têm bibliotecas públicas, 98% não dispõem de teatros, em 96% não há cinemas. Bancas de jornal também são raras. Das famílias entrevistadas, 39% reclamam que seus bairros não contam com delegacias e 46% dizem que não existe ronda policial' e ainda 'das casas visitadas, 78% apresentavam mais de quatro bares nas proximidades (p.14)."

(Telma Falcão, 2003 - Núcleos de Apoio a Pesquisa da Universidade de São Paulo.
http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&task=view&id=809&Itemid=96)

Lembro-me de uma amiga que tentou falar sobre a situação das escolas da ZL de São Paulo (onde mora) e foi censurada por outros moradores que não querem falar mal da região. Será o caso de esconder que a polícia perdeu o controle sobre Ipanema, negando-se a responsabilizar-se pela festa de Ano Novo lá, para preservar o turismo?

Por outro lado, Pedro Alexandre Sanches e Ramiro Zwetsch , na Carta Capital fazem uma mistura fina transformando tudo numa questão de luta de classes, numa suposta rebelião contra uma "elite" egoísta. Como se Ivo tivesse culpa de ter uma história sofisticada. (http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=2947)

Como ele responde, na carta: "Contraditoriamente, o Estado não lhe assegurou uma moradia até agora, conforme se depreende da lei que a mantém na cadeia! "

O que há é sim uma contradição "do sistema" (mas quem assina?): o patrimônio recebe leis de proteção e as pessoas não tem onde morar.

Elite mesmo é, por exemplo, o tal Instituto "Liberdade"(sic). Empresários que não querem pagar imposto (e, portanto distribuir renda) e chamam isso de "liberdade de impostos", desejam ganhar com a saúde e perguntam "É o Estado o melhor provedor de saúde?", cria um think-thank para esparramar idéias contra o Estado com as leis do Estado e afirma: "Travamos uma disputa de idéias da sociedade contemporânea, uma disputa pelas idéias que irão favorecer os progressos da liberdade". (?)

Elite mesmo é quando "o volume de recursos que chega aos bairros ricos é em média 4 vezes maior que chega aos bairros pobres."

(http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/04/24/ult23u2015.jhtm)

O que percebo desse líder -citando Nietzsche- que comanda as pichações é que apropriou-se da linguagem "poser" da arte sem idéias (ou seja, arte que não representa postura perante a vida, e , portanto tem forma que não é "estética", não causa impressão aos sentidos) e da linguagem "pró-revolução" daqueles que já não vêem um diálogo possível (PCC, que leu seus 3 mil livros de esquerda, incluído). Talvez um caso de auto-promoção, como afirmou Mesquita, mas como dar-lhe crétido, afinal, não é um "membro da elite?" Isso tudo (uma rebelião confusa) enquanto a direita criminaliza qualquer reflexão contra a concentração de poder.

Salva o grupo o "pichador" Tatei que diz: “A gente não está de bobeira. Agora todo mundo está metendo o pau, mas ninguém quer saber como a gente vive". Caroline disse à Folha que picha “para o povo olhar e não gostar”. Então é isso: destruir o patrimônio é ir contra os direitos humanos do novo mundo, patrimonial.

"São manifestações de grupos que querem fugir do anonimato sinalizando sua existência, sua territorialidade" -diz o Ministro, evitando entrar no fácil comentário de um artista de que cita Jean-Luc Godard ("Cultura é regra, arte é exceção"): "A Bienal ao apagar os pichos está situad[a]e sitiad[a] no terreno da cultura, já os pichadores, eles estão no terreno da arte".

O picho "Abaixa a ditadura!" (sic) lembra o que o húngaro Ferecnzi dizia sobre o trauma na criança, uma "confusão de línguas": na linguagem da arte contemporânea, assim como do mundo contemporâneo, tudo entra em questionamento, menos a questão política da desigualdade; na arte-ataque da pichação tudo é política, já que não há espaços de diálogo na sociedade dita "aberta" (sonho do Instituto "Liberdade"). O trauma nasce não só da violência, mas da negação da violência, da sua "reação de desmentido".

É uma questão de distribuição, mais investimento público e não pode ser engolido pelo discurso, esse sim elitista, de uma arte do norte, pós-Estado de Bem-Estar Social, "o que é arte?"

E o cavalo? Se a arte contemporânea não tem mais nada a ver com o casamento hegeliano do "conceito" com a "forma" , "a individualidade" romântica do artista, mas apenas com seu intuitivo julgamento estético na escolha de formas, e se a arte está na recepção que "monta" o texto, já que até o lixo e a natureza podem ser belos, nada impede que o belo venha do acaso. Ou seja, fujam da estéril crítica ao vazio, simplificações e luta de classe falsa.

Terça-feira, Dezembro 23, 2008


Madonna esteve aqui

Para a minha geração ela representou um ícone de poder- soube sintetizar, principalmente para mulheres e gays um modelo de força, com a mensagem "express yourself", contra tradições mofadas, bom senso e puritanismo (claro, isso era também indúsria cultural num mundo pós 68).
O pop internacional era nosso ambiente cultural, nossa "tradição".
Para essa geração anos 2000, com house, Britney (que tenta ser o mesmo para adolescentes maluquinhas) e rap, a oferta é muito maior- e, graças a Deus, a música "étnica", a brasileira, ressurgem com força...
Os anos 2000 foram bons para Madonna: reencontrou-se no techo. De Bedtime Stories -94- até Ray of Light-98 ( uma luz no fim do túnel, mas difusa) - tudo fica confuso, são inclusive 8 anos sem turnê, em busca de um personagem.

Depois de tentar produzir reflexão na nação em pânico com American Pie ("grande fracasso de sua carreira"), em que ficava visível o cansaço da estética Erótica e a busca de um novo papel (inclusive no cenário pop: techno, neo-punk, romântico?), perguntando que país é esse e recontando o sonho primitivo norte-americano de ser rebelde, on the road, ironizando o "sonho" (e a arrogância), reencontrou seu caminho como entretenimento bom com Confessions on a Dance Floor, onde, para mim, lembra que era uma "disco". Quando ouvi "Hung up" percebi que não estavam vendendo apenas imagem: era delicioso!

No que deve ser uma auto-ironia, ela agora assume vender "doces", como numa loja. Busca modernizar-se com o hip-hop e o R&B, uma natural re-invenção, mas que anula até certo ponto a "descoberta" do "retrô" 80´s, estético, sonoro e coreográfico. Mais um período de transição...
Aqui os show foram considerados "mornos" (até os fanzíssimos do M.O.L. falaram de músicas "requentadas", , do último bloco "esquecível"...), teve até a Betty Lago dizendo que era um show "classe média", o que irritou quem, diferente dela, não pode ir a Nova York.
As versões que eu vi de "Vogue", "Express Yourself" e "Give it to me" -de um album que tem as chatas "She´s not me" e "Miles Away"(single fracasso)- gostei: realmente, ficaria tudo mais fácil se fosse um todo punk (retornando ao início em Nova York), ou techno, porque, como foi dito, até ciganos tocam guitarra, ela até aparece com fitinhas coloridas, la isla... (Ainda, em alguns momentos sua voz parece não existir- é estranho vê-la falando, voz desafinada...)

Imagino que o último show em São Paulo foi o mais animado, em que ela, sem resbalar num palco molhado, elogiou a platéia e saiu enrolada na bandeira do Brasil. E teve a capela de Like a Virgin, realmente emocionante. "Vocês são a melhor platéia que já tive".
Talvez tenha faltado, aquela re-invenção mais ousada. De qualquer forma faltou identidade no show, ela, a senhora em criar novas personalidades, como em Confessions, onde a era 80´s volta com tudo... (as malhas de Gaultier são históricas!)
Isso porque quando a mensagem da "sexualidade" é assimilada, e a política não é aceita (o clip sobre a guerra - Madonna deve se orgulhar da postura firme em um momento em que Bush ainda não é a piada de mau gosto que é agora- foi retirado do ar: medo de não vender ou respeito aos soldados?), que fazer?
Dançar! (E "Sorry" foi um momento de dança política!) Por que ela abandonou bons produtores e figurinista é um mistério... (Se alguém tem dúvida do estrondo de Confessions...)
O espetáculo parece ser um acordo entre a estética do já-visto (roupas pretas, dancinhas coreografadas, máscaras), tantando manter a linguagem e um pouco de remix, para celebrar o novo milênio. Também comentaram sobre o excesso de "marcação" e pouco espaço para manifestações espontâneas... O velho acordo capitalista: agradar ao público (vender bem, não mudar) e mudar (ser novo, agradar).

Mas Madonna tenta e sempre continua. Adorei ver ela se divertir no palco - mesmo com "fuck this rain!" Vendendo bons doces.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

Meu Mundo

Quem poderia dizer que aqueles dois simpáticos senhores, no café da Cultura, estavam pensando os destinos do mundo?
- Vocês deviam ser como nós! Vamos lá! Vamos transformar o mundo em uma ditadura sem limites. Acabamos de lançar o Centro Cultural Universal, investimento de 10 bilhões de dólares, aço escovado e vidro, teto removível, 6 bilhões de livros. Mas as reportagens políticas são retiradas.
- Não sei não... Aqui também é assim... Viu o caso do cartunista demitido por falar mal dos Bancos?- E nada de “poluição espiritual”. Erotismo e gente falando mal do passado são proibidos.
- Isso é estratégia antiga, custa caro. Deixe-os muito ocupados para sobreviver e estarão muito cansados para tentar entender. Tire deles qualquer ordem maior capaz de investir no bem comum, de modo que subir a escada seja tarefa de cada um. Da favela para a universidade.
- Isso vende bem, é “moral”, ética do trabalho... E vocês, no fundo, controlam também a informação, não? Digo, há empresas gigantes, diversificadas, que mandam em estados inteiros, não?
- Se fizeres bons acordos com super-poderes de informação, de modo que os conceitos, a linguagem, a cultura desapareça, e nada faça sentido, até que percam sua identidade e regridam até a animalidade, depressão e violência...
- É prático, até. Esse negócio de ter de abrir livros da Amazon, perseguir escritores piratas, cansa... Adoro como vocês criam uma identidade obcecada, o desejo, incentivam a frustração, o prazer individualista, até a solidariedade virar uma piada. A atriz famosa só pensa em cinzeiros de prata, carros importados, viagens e drogas e o cara da favela só pensa em ser a atriz famosa.
- Sim, claro... A violência se espalha no mundo abandonado. Deixe 25 anos Nova Orleans sem investimento e a própria natureza se encarrega de acabar com a pobreza...
- E a classe média?- Estarão endividados para comprar celular, roupas caras e pagar academias... O belo deve ser oferecido num contexto de a-pensamento. Quem dá a arte é quem dá a verdade. Mas, enquanto isso, deve retirar todas as limitações legais contra o poder das corporações, de modo a que se você poluir um rio, não tenha que pagar por isso...
- É, dá inveja desse mundo de vocês. Bem, vamos continuar nossa discussão no hotel. O Poder Global está todo lá.


Afonso Junior Ferreira de Lima
dez 2008Participando do Concurso da Cultura...
Mais em:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos_cultura/index.asp?autor=EJFDCC

Domingo, Outubro 19, 2008



"Já dentro do presídio, os trabalhadores foram postos com os rostos contra uma parede, ao lado de dois jovens negros, de chinelos de dedo e pés sujos de cal, algemados. Aos gritos e pauladas na parede, os dois foram levados primeiro. (...) O ambiente era digno de filmes de horror. Paredes podres, caindo sozinhas, tudo muito gelado e úmido. (...) Durante as revista, os homens eram obrigados a despir-se completamente, retirar todos seus pertences, inclusive alianças ou crucifixos. Nus, eram obrigados a agachar-se algumas vezes em frente aos policiais. (...)

Os dois primeiros presos políticos a ser encarcerados foram postos em uma cela comum com outros homens presos naquela noite. Apenas dois entre os 20 presos aparentava ter mais de 35 anos. A maioria negros. Todos, absolutamente todos, com rostos sofridos de trabalhadores pobres. (...)
Ambas as celas eram cubículos gradeados, escuros, úmidos e muito frios. Misturavam-se restos de pães, banana, urina e fezes, onde, por vezes, passavam ratazanas em busca de alimentos. (...)
Eles foram ainda trocados de cela uma três vezes durante a noite, passando também por identificações, fotografias, etc. (...) O mais duro durante a noite, porém, foi suportar o frio lancinante, que congelava seus corpos permanentemente tiritantes, sentados em uma bancada gelada, durante toda a noite. Dormir um pouco era um sonho impossível."

Relato de universitário preso durante manifestação pacífica em Porto Alegre, contra o desrespeito às leis trabalhistas e sonegação dos quais é acusada a Wal Mart




A miséria não existe.


Faz tempo! Nesse ínterim os Estados Unidos se tornaram uma nação democrática (conheço uma professora americana que dizia não votar porque Bush e Clinton eram iguais), a idéia absurda de que mercados mais-que-livres iam melhorar a vida de todo cidadão (como coloca Delfim Netto na Carta Capital) caiu bem fundo, e a Veja desandou (é um fenômeno da auto-superação) para as bordas do racismo chamando a cultura de Evo Morales de "pré-histórica".


Onde estará o sorrisinho da Época, que na sua revista de julho de 2008, dizia que havia um espécie de invasão de ideologia no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), claro, com a ala "heterodoxa", que defense mais presença do governo, dizendo que o debate de idéias não pode se transformar em embate de poder (como coloca Edmar Bacha, economista do Plano Real). Como se deixar de investir durante 25 anos nos diques de Nova Orleans não fosse também ideologia e poder. Vamos retomar da parte onde o chefe do mundo admite que tudo que se viveu nos anos 90 era ideologia?


"Em outras palavras, você descobriu que sua visão do mundo, sua ideologia não estava certa, não estava funcionando?", questionou Waxman. 'Exatamente, é exatamente isso que me deixou chocado, porque eu estava indo para 40 anos ou mais de indícios consideráveis de que isso estava funcionando excepcionalmente bem."
www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/10/081023_greenspan_errorg.shtml
(Provavelmente ele estava olhando só a mancha vermelha, e não Jupiter...)



Ainda, uma novidade: vou criar o termo assédio estomacal. Um homem me pára no Supermercado, pedindo arroz e feijão, sei que precisa para a família. Uma senhora ganha metade do meu sanduwishi na saída de outro Supermercado. Dou uma linguiça para outra mãe com fome na rua. Hei, alguém vai fazer alguma coisa com esses 50 milhões de pobres do Brasil? Há duas coisas que me revoltam: o nojo de pobre que nasce como filho indesejado (?) da publicidade num país dividido e falta de democracia. Na sociedade falsamente livre, a pobreza desapareceu, saiu da mídia, é "matéria non grata". A miséria não existe. Talvez essa seja toda a mensagem de "Ensaio sobre a cegueira": há coisas, ainda, essenciais...


Em São Paulo, ainda não me acostumei de ouvir como primeira pergunta "qual seu bairro?", como uma identidade.
"Onde você mora? Parelheiros? Onde fica isso?" - diz um personagem do Pânico. O que pode ser uma piada sobre gente se afogando com auto-ironia, acaba sendo o nojo de pobre que vem se alastrando na nossa sociedade... lembra dos "cajuzinhos", do Caco Antibes? Será que algum dia teremos vergonha de fazer humor com a classe social assim como temos- a duras penas- de fazer com cor de pele e gênero?


É a eugenia pós-moderna, eugenia do consumo, do bullying de "status", "padrão-TV", eugenia fashion: se alguém ainda duvida que isso exista...


"O Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul propôs sete Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADINs) contra leis orgânicas de municípios gaúchos que estimulam a eugenia em suas políticas educacionais. (...) Os municípios gaúchos que introduziram o estímulo à eugenia em suas leis orgânicas são: Barra do Quaraí, Uruguaiana, Passo Fundo, Riozinho, Muliterno, Ernestina e Ciríaco".http://www.rsurgente.net/2008/03/ministrio-pblico-combate-eugenia-no-rs.html


Se o capitalismo é dinheiro gerando mais dinheiro, os abismos crescem, desconhecer o outro é odiá-lo. Uma democracia com tão pouca voz do povo que qualquer fala do político vira verdade- e meus amigos repetem "essa polícia é um bando de vagabundos..." O Serra simplesmente desmoraliza a polícia colocando uma contra a outra e ainda dá uma da durão, apagando o rastro da não-democracia.


"Segundo Paulinho, a greve é justa porque os salários da corporação em São Paulo estão defasados e que o governador tem que negociar. 'Serra é quem quer fazer cortina de fumaça para esconder a responsabilidade [...]
Ele foi eleito para resolver problemas, não só para andar de helicóptero por aí", (...) Não planejei nada, ele que não negociou, é só ver os fatos. O problema é que o movimento tende a crescer caso as negociações não evoluam', disse". www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u457461.shtml



Enquanto isso meu estado afunda no lado negro da democracia- que não- quer- mostrar:


"Há quase um mês em greve, para os bancários do Rio Grande do Sul era só mais um piquete em frente a Agência Central do Banrisul. Ninguém poderia imaginar que o local seria palco para mais um exercício do Comandante-geral da BM. O sinal foi dado quando um policial militar, sem a presença de um Oficial de Justiça, como manda a lei, tentou abrir as portas lacradas pela greve.
Em poucos minutos pelo menos cinco viaturas com polícias da Patrulha Tática Especial com bombas de gás lacrimogênio, escopetas, escudos transparentes e cacetes reluzentes tomaram a entrada do Banrisul".
www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/10/431084.shtml


Eu não quero viver em um mundo onde a informação gera apenas depressão ou ansiedade. Em um encontro da UNICEF com grupos de toda Zona Sul de São Paulo fiquei por dentro de outras violências. Fiquei feliz de poder falar um pouco disso em contos no concurso da Cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos%5Fcultura/index.asp?autor=EJFDCC


Quarta-feira, Outubro 01, 2008

Fiz alguns poemas, seguindo proposta de "O Casulo": http://o-casulo.blogspot.com/

Primeiro exercício - Imagem

Se sou fragmento
como formar imagem?
Sou a renda perdida no espaço
a anatomia na sombra e no sonho
Por que motivo me acharia?
Quero ver o mundo e estar vivo
nesse selvagem correr de folhas
(Evoque o espírito da mata
a cabeça acha o corpo de barata)

Segundo exercício - Som

A cidade é moderna
A cidade se esconde dela
A cidade é outra e bela
Música do desassossego

Terceiro exercício - Buñel

Quem cortou o teu olhar ao meio?
Por que não pertencemos ao chão?
E se não fosse necessário?
Andar sem fim e sem paz
Produzir? Por que?
Arte, produtos, pessoas
há coisas vivas lá dentro
primavera em São Paulo
menos mais e mais melhor
por que sabemos tanto
que nos vale saber tudo?
Gênio saber perguntar
e se eu me perdesse vez em quando nas calçada
se achasse luz suave nas ramagens
silencia a morna música dos peixes
adeus ao olhar sem escuta
motores de dizer sem voz
vazio´ olhar a pele conhece
não o prazer fácil de um disparo químico
mas o prazer sujo de muitas vidas humanas
Sempre é crise um mundo novo
Mas se não o conhecemos, quem seremos?

Quarto exercício - Mulher com xale

Por entre nuvens desço até a cidade
vejo o Tietê que recebe carros, vidro e o lilás da tarde
Deus, meu Deus, que menina é essa, encolhida no chão?
Chão, chão, esse chão de pedra, fluxo e metal e Niemeyer
Por que existem homens invisíveis neste mundo em transição?
Por que comes esta gosma verde e buscas comida no lixo?
Por que um rato se move ao redor da cama de trapo onde dormes?
Por que dormes sobre papelão e tua barba é grande?
Por que tuas coxas largas estão riscadas de negro e cinza, e tu escondes a cabeça como um animal em panos?
Por que teus pés têm manchas escuras no frio?
Por que dormes sobre o degrau da escada, com tua cabeça sobre o papelão?
Por que meu olho já não te vê, eu que sou aranha da teia?
Se cada flor tem seu aroma e o mundo precisa de todas?
Onde está a poesia da liberdade que respira, vê e dá as mãos
Se a cidade quer subir e não há tempo que não seja pouco
Se mais e mais é infinito e cada ser dorme e duvida
Quem criou o certo e o errado, o valor zero do invisível?
Eu quero sentir o calor do teu corpo
teu corpo negro com vida e correndo comigo
E se pedirem a Alma, a lógica e a letra
eu as queimarei todas no meu beijo de terra
Saúdo a terra e tudo que há em ti
Anjo da noite, coração oculto, irmão vivendo da treva
Teu coração é um tesouro silencioso.

Afonso Junior Ferreira de Lima

Domingo, Agosto 17, 2008

Tente entrar

“Entrar no metrô que é uma parede humana e ser esmagada com um braço na tua cara, o prefeito acha nomral? A gente vive no limite do stress!” - quando uma amiga me disse isso, pensei que estava exagerando.
Hoje liguei para a Eletropaulo porque dois meses minha conta chega com atraso devido a um erro de CEP. “O senhor tem de ir na agência em horário comercial”. “Meu amigo, em horário comercial eu estou trabalhando”. “É assim, não há o que fazer”. Argumentei que se um ser humano fez esse sistema maluco, um ser humano era capaz de desfazê-lo. Ele concordou que eu não devia pagar multa por um erro deles, mas não havia o que fazer. Então, uma simples ligação faz você se tornar o Átila. Disse que iria reclamar para a agência reguladora caso atrasasse de novo e ele concordou em anotar minha reclamação. Cidadão - ninguém.

Lembrei-me de quando fui instalar internet em casa a primeira vez. O modem, o provedor e a banda larga eram de empresas diferentes. Cada um me mandava fazer uma coisa e nada funcionava, um colocava a culpa no outro... Descrevi mais de cem vezes os detalhes – coloquei X em Y, cliquei em N, plantei bananeira etc; "não, eu já coloquei aí; o provedor disse que era isso; não, isso eu já fiz". Nenhum primitivo mecanismo de registro, falei a mesma coisa para cada novo e novo e novo atendente. Quase uma semana para alguém entender, "ah, já clicou alí?"

(Aliás o que há além da Teleforçabiônica? 3G ainda não vale a pena, Net "não está disponível no seu bairro", bem central! Microhard-Monopólio!)

O que mais me assusta nessa sociedade “liberal-fascista”, criada à mídia insípida, é ouvir jovens que só tem respostas individuais para problemas sociais. Em São Paulo é ainda mais comum. Os quase-pobres arrumam algum emprego se tornam quase-mais que seus irmãos quase-nada e logo descobrem que “os pobres são pobres por que não trabalham” ou “a esquerda vitimiza essas malandros que só querem bolsa família”. São Paulo é uma bolha de consumo que isola a todos do Brasil e da outra São Paulo, logo ali, mas há anos-luz do cidadão da Paulista.

Nada mais normal nesse contexto, então, do que ver um homem-cadáver na rua, com seus ossos a mostra, dormindo no cimento, parecendo um fanstasma de Auschwitz, enquanto o governo fala alegremente em “higienizar” o centro porque afinal esses vadios só sabem fumar crack, o que nos envergonha e estraga a paisagem. Alguém falou no Estadão sobre por que motivo alguém fuma crack, quem são esses moradores de rua que chegam na farmácia pedindo fraudas para vender por R$ 2,00 na esquina e queimar seus neurônios? Não, é preciso falar da estética, a “Cracolândia” – nome entre o irônico e o simplista, que mascara um mundo todo, jogando-o para o lado do “outro sem volta”, com um adjetivo-estigma - veio do nada e volta ao nada. Uma amiga diz que em SP há o "status de bairro", quando chegou na sua faculdade no primeiro diz a primeira coisa que lhe perguntaram foi "Onde mora? Você pega metrô? E depois ônibus? Quanto tempo?"

(Urbe-caos... Mega-empresário quer Estado? Planejamento- além do próximo produto? Inclusão- além do seu nome na Fortune? Reforma- além de menos imposto? Cada um por si e todos por mim... Na democracia dos mega-empresários, do lobby corporativo e dos "compre-Batom!"- equalizador de mentes, o bem comum é passado. Se as pessoas passam fome é porque há outras prioridades... Não está tudo bem? Não será tudo resolvido? Não pode esperar? A distância geográfica de São Paulo cria a "dor distante" do nunca visto, a explicação "racional" do inominável. A depressão ultra-consumista da "psicose" fragmentadora do jornal-esquizo-bricolage. Verdrängung, recalque, empurrar o real incômodo. Quem não crê no poder devia ler sobre o Consenso de Washington, tanque que achatou os anos 90. O capitalismo, alguém já deve ter dito, é um sistema de pensamento que mata tudo que não é produtivo, cala os indecisos, suprime os fracos, afasta os possíveis contraditórios da política do progresso: sem reconhecimento do estranho, surge a crença e a conclusão fechada de uma experiência particular, sem diálogo há conflito.)

A elite de São Paulo tem uma forma “amistosa” de lidar com isso, é o lado da biopolítica clean que cria projeto social malandro, afinal são preguiçosos por natureza. A miséria é um fato histórico e social cientificamente explicado e complicado demais para resolver. O racismo novo é feito de caras “feias”, "da Zona Leste" gente “sem cultura” e “tapada”, que atrapalham a circulação fantástica de informação e capital do primeiro mundo, o eixo Paris-Londres- São Paulo. É a linha FHC, puramente consciente dos problemas do mundo -pensando em um plano técnico para elevar algum % em tantos anos que irá... - e capaz de falar as coisas mais fascistas, os discursos mais classistas contr a incompetência dos operários barbudos no poder.

A aceitação resignada de que são dois tipos de pessoa, que pena, alguns que não entendem, não falam bem, não são belos (e principalmente não se esforçam), e os que entendem, falam, sabem, são: o inverso da democracia, baseada na participação. Miséria é ruim, mas não é comigo e pode esperar. A elite gaúcha, hoje enredada em corrupção, é mais bruta e mais tacanha (financistas robóticos, empresários-coronéis com ambições "globais", generáis da Inquisição), e por isso, mais ridícula, simplesmente manda bater. Comte: a moral manda que todos trabalhem para o progresso, quem critica o progresso merece chumbo. A única cultura é a Veja. Para um estudante que foi agredido e preso pela polícia em manifestação pacífica, um senhor de meia idade diz "Bonito, heim?" Um amigo dizia: "A culpa é do povo, na Europa o povo sabe votar (será?)"...

(Em comum, a ilusão da felicidade solitária, filhos sem afetos, pais ganhando dinheiro: uma juventude linda, fanática, informática, celulática, malhática, trancada no quarto, bebendo, batendo o carro do papai, tomando ecstasy e "buscando diferencial" pela força. Epidemia de jovens damas- de -ferro executivas e mussolini-clintons. PS: Por sorte há também jovens espertos, que sabem que há vida além do video-game...)

Democracia agora é: marketing de massa, vender meu conceito ao povo. Jovens adultos que falam "objetivamente", querem resultado, rápido, toda dúvida atrapalha a venda. Não há nada de podre na Dinamarca. A classe média brasileira é esse animal estranho - "saí do buraco, seu pobre" é mais que "como vamos tapar o buraco?" – ouvi de um jovem de 18 anos: “Aqueles protestos contra uma represa na África, deviam matar todos, estão atrapalhando o desenvolvimento”- mesmo preso entre empresas déspotas e governos de direita, parece não ter o mesmo contingente informado e rebelde da classe média norte-americana e européia, ou pelo menos sai menos à rua, e pode dizer tranquilamente: “os nordestinos deviam voltar pro Nordeste” ou “se apanha da polícia é por que é baderneiro”.

Segunda-feira, Junho 16, 2008

Chico é pop?

“Você vai se distanciar de seu povo. Samba, daí, nunca mais.” É algo assim que Joana, a Medéia do morro, diz a Jasão para amaldiçoá-lo. Há alguma coisa dessa verdade na montagem de Gota d´Água que assisti ontem, em direção de João Fonseca,com Izabella Bicalho e Lucci Ferreira como protagonistas.

A peça começa com um samba legal, depois outro samba legal. Ok, é Chico Chic, microfone, palcão e tal. Outro samba legal, e outro. É tudo muito perfeito, mpb pra gringo ver, dá um incômodo. Ok, não é tão raiz quanto o outro Chico, mas vai ser bom.

Aí começam os sambas em que você não entende o som. Será o cara que não canta bem ou a acústica? Começam caras e bocas, marcação de cena marcadíssima, você começa a pensar se nessa favela chic precisa mesmo um negão com a camisa do Flamengo, uma negra com roupa de oncinha e troço na cabeça e umas mulheres vestidas de anos 50. (A princesa de Jasão é a Emília). Você enxerga, simplesmente, a sombra do holofote no cenário. Os rostos ficam na penumbra e a luz foca outra coisa. Tem um Creonte excelente que salva tudo, um bom Mestre (apagado pelo diretor), um Jasão bem forte e expressivo, mais vivo que o último que assisti. Dá o intervalo. Calma: nada pode arruinar a cena fantástica de Joana matando os filhos.

Eu dou nota sete, tem música colorida e boas dancinhas. Uma amiga, com cara assustada, diz: “Meu Deus, eles estão muito frios. É muito comercial”. Outro responde: “Estão completamente distantes desses personagens, não se identificam”. Parece realmente impossível imaginar essa Joana no morro e não no Shopping. Sim, ela tem um vozeirão. Em um dado momento da canção, quando diz: “ANIMAIS!!!!”, parece mesmo que estava ali com tudo. Só que, quando volta a escuridão, fica mais patente ainda a diferença entre essa Joana e a de Georgette Fadel. Georgette estava ali tanto e tanto, a ponto de eu pensar- seria melhor moderar em alguma cena, é tensão demais... Mas funciona!

Depois as coisas pioram: tem música cantada com emoção, cenas mexicanas com “não me bata meu amor!” (uma cena que se repete em ritmo mais rápido é legal, mas um chute coreografado do Machão na barriga da Pobrezinha torna-se cômico) e os “pobres” dançando com algo como boá de retalhos e chapeuzinho Panamá colorido. Não dá. O público delira com as cenas Broadway, a evocação de Ogun com uma saia de cigana-Carmen-Miranda, um samba “Vila da Alegria” que vira funk e bolero.

Que diabos deu de o microfone ficar achatado e mugindo quando os personagens se abraçam? Nada contra seu uso, mas, de alguma forma parecia que tornava tudo ainda mais premeditado, como uma gravação. (Não ajudam os “fazerrrrr”, “comerrrr”, tudo com um português que nem o Pasquale pode falar...) No final, morrem as crianças sem que tenhamos sentido quase nada. (Quando, na última cena entram gritando “PAAAI”, você começa a rir). Quem pode chorar a morte de um menininho de camisa branca e calção marrom e uma menina de vestidinho e laço (ou quase)? Entra uma “Cumadi” com um agudo de “Rainha da Noite”, será pra nos acordar?

Enfim, será que neste mundo onde todos queremos imitar as celebridades, pois afinal as celebridades nos são dadas como modelo, será que é tão difícil assim mostrar o coração? Será que não temos idéias novas, vivendo dentro dos Jardins, será que a última vez que vimos um pobre foi no “Alô Amigos?”, ao som de Tico-tico no Fubá? Esperamos da arte um mínimo de ousadia. A música é boa, os musicais são bons, mas custava tirar um pouco de tudo- por exemplo, para que uma música do gigolô falando do seu pau (depois ele mostra a bunda, claro)?
Chico virou Deus, quando? Pobre de oncinha é mais fácil que ver a humanidade em todos, ricos e pobres. Na saída leio no folder: “graças a ... consegui realizar este projeto...” Como Chico é chic! A capa mostra as pessoas com as mãos na testa, (na entrada você pensa que é um gesto melodramático de “Ai Meu Deus!”), mas é só um ritual de macumba. Ai, Meu Deus! As desgraças às quais o diretor se refere- caos aéreo, a crise do Senado, o mensalão, as balas perdidas, João Hélio- são todas midiáticas e mostram a distância de outras tão reais: salários baixos, trabalho temporário, estudo-pró-forma, ônibus lotado, polícia na favela... Muito tempo depois de que Chico e Paulo Fontes tenham se aproximado do povo. “Samba, daí, nunca mais.”

Domingo, Junho 15, 2008


Era uma vez a Disneylândia...

Minha tia disse ter visto pela TV (Band): "Manifestantes jogam pedras na polícia e são presos no RS..." Um conhecido que estava lá disse: "Eles vieram com tudo... Que estudante e professora ia atirar pedras na polícia assim, de graça? Jogaram balas de borracha em crianças de 4 meses..."

Bem, pra ser "diplomático" fui catar mais informações. Senão vejamos...


"FOLHA
12/06/2008
Manifestantes presos durante protesto contra Yeda são soltos

Os 12 manifestantes presos pela Brigada Militar após um protesto contra o escândalo de corrupção no governo de Yeda Crusius (PSDB), na quarta-feira, foram libertados na madrugada de hoje.

Eles integravam uma marcha composta por 400 ativistas sem-terra e de sindicatos que pretendiam fazer um ato em frente ao Palácio Piratini. Os presos foram indiciados pela Polícia Civil pelos crimes: lesão corporal, violação de domicílio, danos ao patrimônio e resistência à prisão.

"As acusações são arbitrárias, não houve tentativa de ocupação, eles foram encurralados pela Brigada", disse o advogado Matias Nagelstein, que defende os manifestantes.
Os militantes de movimentos sociais foram impedidos pela Brigada Militar, com bombas de efeito moral e balas de borracha, de chegar à frente do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, para fazer um protesto.
(...) "
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u411908.shtml

ZERO HORA

"Manifestantes pedem a saída de Yeda do governo
Movimento foi impedido pela BM de chegar ao Piratini

Depois de invadir área do supermercado Nacional nesta manhã, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, um grupo que manifestava contra o governo gaúcho foi impedido pela Brigada Militar de chegar ao Palácio Piratini. Capitaneado pela Via Campesina, o protesto juntou velhos conhecidos dos gaúchos, como os sem-terra, a personagens novos, caso dos universitários egressos dos movimentos. Ele se uniram em coro contra o governo de Yeda Crusius, abalado por uma crise política. "
zerohora.clicrbs.com.br/.../jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Pol%EDtica&newsID=a1963167.xml


BRASIL DE FATO

"O que era para ser um protesto pacífico acabou em violência, feridos e prisões em Porto Alegre. Cerca de 1,2 mil agricultores, trabalhadores urbanos e estudantes iniciaram uma marcha na manhã desta quarta-feira (11) em direção ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, para protestar contra o alto preço dos alimentos e a atual política de incentivo às empresas transnacionais.
O primeiro momento de violência aconteceu logo que os manifestantes saíram do Ginásio Tesourinha e se aproximavam do Supermercado Nacional, onde iria ocorrer um ato público denunciando a atuação da rede estrangeira Wal-Mart. Quando se aproximaram do local já havia um aparato da Brigada Militar e da tropa de choque."

Bem, gostaria de saber como o povo deve se comportar quando o acesso a verdade se torna tão difícil... Essa é uma sociedade complexa, o valor simbólico das coisas (foi notícia? poder de atingir, informar, atrair) supera qualquer realidade imediata: 100 crianças podem morrer de fome e isso influi menos que um minuto de comercial. Quem fez, o status de quem fez, o "reconhecimento" social, conta.

Uma manifestação onde pessoas são presas tem pouco poder de afetação: não atinge o "valor simbólico" que, talvez, mil panfletos atingiriam, modificando consciências.
Vivemos essa "realidade paralela" onde um conjunto de normas e idéias do bem são transmitidos pela força e pelo raciocínio simplificado (paz é boa, aceite tudo), matrizes de compreensão que saem dos canais de poder massivo de marca e informação (não apenas poder micro-físico foucaultiano, mas poder de fazer saber em escala masssiva, ideologia= alguém duvida, pergunte ao seu amigo o que tem a dizer sobre Hugo Chaves) e invadem as relações cotidianas com os escravos reproduzindo a opresão com outros subjugados - para receber reconhecimento, deve-se calar, identificar-se.
Pior, na sociedade em que tudo é bom e vai melhorar, cria-se a sensação de que criticar é "chato", "imoral", "ignorância", bom é lutar sozinho... Querer mudar é coisa de criança! Depressão individualizante que separa o eu do outro, o eu do mundo, o eu do eu (do corpo, do entendimento, do sonho...)

Os ambientes de diálogo acabaram depois da concentração de renda brutal ocorrida desde o capitalismo do séc. XIX, depois pelo poder da mídia de massa e pelo fim dos empregos na era tecnológica: sem troca não há mais consciência coletiva. O sentimento de dignidade a priori, que legitima o outro, foi perdido na avalanche fim da metafísica.

O ser da modernidade vale pela informação útil, não mais pela relação de classe. Se a coletividade grega buscava a honra e o sacrifício de uma sociedade militar, a cristã buscou a contemplação a bondade e a humildade e a industrial- com sua democracia do papel- buscou a eficácia, a informação transformadora e a renovação, a sociedade pós-industrial, feita da democria passiva das tribos, valoriza a manipulação do marketing, a superioridade e a agressividade da produção. Nada disso tem a ver com protestos.

Os seres sem palavra estão confinados em seus pequenos mundos: a "palavra que puxa palavra" , de Machado, que traz o mundo imediato, depois o imaginável, depois o pensável, tornando o raciocínio complexo e abrangente, foi roubado pelo preço dos livros (privatizados) e pelo poder da ligação simplista da publicidade (compre=seja feliz) e da mídia (informação by Méc Donald sem compreensão).

O reconhecimento social, no conceito de Axel Honneth, não chega agora a nenhuma camada da sociedade. Todos podem ser fagocitados pelo símbolo que lhes fala.
Então, se o eu é apenas "o pedido que vem de fora", um EU no sentido de Lacan, todos vivem uma convivência artificial, onde nada de revolucionário e honesto pode surgir. Quem brinca de pensar pode sair ferido.



Domingo, Abril 27, 2008


Senhora dos Afogados


Nelson Rodrigues é sempre assim. Primeiro ficamos encantados com a história, acreditamos que será uma tragédia grega. Depois, lá pelo meio, pensamos que seria melhor vê-la como um Eugene O'Neill da Mangueira, misturando sangue e zombaria para cirar uma espécie de Absurdo tropicalista. Aí, subitamente, no último segundo, tudo se encaixa e pensamos que sim, ele é um gênio.

Nesta montagem de Antunes Filho, o diretor preserva essas ambigüidades do texto. Tudo começa dark, como o folder em preto e preto, lembrando as muitas meninas japonesas de cabelos compridos dos filmes de terror. Você antevê um cinema noir ou um Hitchcock, ainda mais que a programação (preto e branco) explica "casa soturna numa ilha, família cercada de assasinatos, etc...".

De repente, o juíz que deveria ser um homem malvado e mau aparece como um tio do Pato Donald, falando com uma voz esquisita e de óculos fundo de garrafa. A vovó chora um choro de cachorro. O noivo marinheiro violento fortão aparece fantasiado de Fred Mercury, com direito a quepe e blusa de sede. As piadas de Nelson desconcertam, ironizam, buscam o ridículo.

Algumas frases explodem revelando o eu dos personagens, mudanças bruscas, "eu também me vingo", diz a heroína supostamente vitimada.

Assim como os personagens-ideogramas de Nelson- que começam como caricaturas e tornam-se caixas de surpresa- não têm uma evolução linear, dão saltos, para ter alma, um "saiba por que é assim", novos problemas, novas dimensões e novas ironias, a direção também não é contínua. Há partes das quais gosto mais, que puxam a peça como um vácuo de buraco negro. Paulo, o quase Orestes, por exemplo, repete um "choro" muito demais. Parece no meio que a peça vai acabar, "marido mata mãe de seus filhos", mas ela consegue se salvar com novas e surpreendenetes melotragedias nelsonianas...

Ficam nos olhos- e ouvidos- os lindos contrastes criados com máxima simplicidade, uma mulher de vestido branco num grupo negro, cadeiras brancas que formam jogos de montar, um coral de vozes masculinas que preenche o espaço no tempo certo e com unidade perfeita. A sineta incomoda um pouco, até que uma boa atriz a transforma em símbolo (lembramos nossa escola, seu catolicismo que pode ser castrador).

Valentina Lattuada, como D. Eduarda, mãe e esposa, e Angélica di Paula, como Moema, a filha electriana, levam do começo ao fim a tragédia. Pode parecer pouco, mas há momentos - aqueles em que, nas palavras do próprio Antunes, tudo pode virar dramalhão -em que elas fizeram o impaciente homem a minha frente permanecer sentado. São atrizes que salvam qualquer espetáculo. Aí vemos como Stanislavski pode encontrar linguagens mais "falsas" e como pode-se fazer um realismo não ortodoxo.

Eu talvez bem quisesse uma tragédia mais lisa, negra e com fio metalico. Mas isso talvez seja impossível para o Brasil 8ª economia do mundo que vê no jornal "seguranças do metrô espancam gays" ou ouve numa fila de teatro, tragicomédia pura- "tio tem moeda?- não- aceito nota", impossível para o teatro contemporâneo e e certamente é impossível em Nelson.

É magistral como Antunes salva tudo nos 44 do segundo tempo e vamos pra casa com um sorriso de "isso é a arte". Como "bem está o que bem acaba", o coro cantando com drinks na mão, uma mulher chorando com e pelas mãos e outra sem, sim, é muito bom. Enfim, entre as ondas do fogo e do éter, Eurípedes e Diário Popular, momentos de genialidade e outros que são tragados por estes, é uma linguagem própria, pessoal, o que no mundo de hoje é algo impressionante.

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008



Elisabeth já deve ter entrado para a história- pelo menos como um filme que não é continuação de outro, mas "dentro". É mais denso que o outro, mais realista e mostra a rainha mais verdadeiramente ela: mais dominadora, tensa e perigosa. O que dá a uma atriz shakesperiana um texto para ser shakesperiana. E só uma atriz como Cate Blanchett, com mundo interior vasto pode dizer como ela diz. Ela já ganhara um Oscar e mereceria outro se não fosse a Piaf viva em folha.

O filme valeria só pelas imagens: fotografia perfeita, figurino rico sem ser falso, paisagens, luzes, tudo impecável. è um filme para os olhos e eles não conseguem esquecer a cena em que a rainha, esvoaçante, vê a armada incendiando sobre um escarpado. Alguns truques de câmera, segresod de quem conhece.

Mas o enredo peca em algumas coisas. Primeiro, como uma mulher que inclusive mandou matar o amante- sem dúvida devido ao contexto terrível- torna-se uma solterona virgem - que só quer um beijo do namorado da amiga- e quase meiga? Segundo: será que anda estamos na idade em que só heroínas boas nos comoviam? Terceiro: será que seria possível ser menos nacionalista e deixar pra lá esse papo de "a Inglaterra, terra da Liberdade" versus "Os Espanhóis, senhores da Inquisição?" Não havia tanta razão como desrazão tanto no espaço absoluto de Newton quanto em Henrique VII ou Felipe II- guardadas as proporções, claro. Política e fé sempre foram armas que se ajudaram.

Não seria mais humano um combate entre nações que têm ambas interesses comerciais e políticos?

Por isso, de algum modo, o filme perde um pouco do imenso fascínio que poderia ter. Fica com cara de "versão do vencedor". Logo de quem: houve tempo em que produzir sal era crime. Seria talvez interessante pensar por que motivo o sangue latino do Brasil deixou mais espaço para "adúlteros e anormais" que aqui viveram, enquanto o puritanismo tomou conta da Inglaterra a ponto de preenderem Oscar Wilde. fazer Elisabeth uma mulher sem amantes é apenas parte disso.


***

Turma da Mônica – Uma aventura no tempo - no Sesi SP- poderia ser bom e a abertura dá a entender que será ótimo.



"Produção de Diller Trindade, o filme conta uma história com ares de ficção científica em que a Mônica e seus amiguinhos transitam entre passado e futuro em busca dos quatro elementos (Ar, Fogo, Terra e Água) que acidentalmente escapam do laboratório do Franjinha."http://www.achanoticias.com.br/noticia.kmf?noticia=5810389

Muitos enredos é bom; computação gráfica misturada com tradicional também; todos gostam dos personagens. Algumas atualizações legais, como Cebolinha e Cascão dançando rap), piadas e músicas fazem parecer que será -sim -ótimo.

O problema é que já vimos isso tudo antes. (Tá certo a malvada Cabelera Negra quase salva tudo). E, para melhor ou pior, o ritmo das coisas é outro em desenhos pós- Pokemon: o menino fantasma, as super-poderosas, tudo corre num ritmo alucinante. Não é apenas ação: um bom vilão e ruptura ainda são importantes. Pode ser simplesmente que o cérebro das crianças-viedo-game seja outro. Pode ser que queiramos tudo mais depressa. O problema é que perdemos logo o interesse quando sabemos que um elemento sumiu no mundo e depois de aventuras mônica vai resgatá-lo. Não dá.

Domingo, Fevereiro 03, 2008

La ley del deseo. O que tem de interessante em um Almodóvar 1986? Tudo. Os excessos estão previamente depurados, as travestis aparecem em toda sua humanidade, o incesto está confundido numa trama bem feita...
O humor está perfeito, "para ser um policial não basta não ter caráter, é preciso ter também algum senso de humor..."

A trama está menos artificial do que muitos posteriores, ou seja, usa com perícia o lado exagerado do melodrama mas nos ocupa com dores reais. O melhor de Almodóvar é sua sede por sangue, onde o filme norte-americano tudo limpa e media, ele mostra o que quer;
e nos faz pensar que coragem e que renovação foi esse filme há 20 anos... BrokeBack Montain duas décadas antes e mais forte...


Entendo agora porque Antônio Bandeiras se tornou famoso, antes de, como afirmou, virar "latino" e ter de enfrentar Zorros, bandidos e amantes românticos...

***


O Signo da Cidade me deixou perplexo. Mesmo que não queiramos, temos sim preconceitos com mulheres bonitas: pensamos que chegaram lá por seu rosto e não por sua competência. Bruna Lombardi já provou muita coisa, que entrevista como ninguém, escreve e atua muito bem, mas nada me fazia esperar o que vi neste filme....
Mas para não sermos levianos, vou falar logo do que não gostei: não precisava Eva Wilma confessar uma vida secreta, o porquê odeia o pai de Bruna, tudo em 5 minutos depois de ter repetido mil vezes "não fale com ele..." Tudo bem, em uma trama super bem bolada, fica discreto...

Também é estranho o filhão malhado que não encaixa nos minutos poucos que tem para chorar, é bom, num contexto de notas 10. Tudo bem, família é família...
A trama é algo surpreendente. Bruna tinha tudo para ser uma dondoca: está há tempo na mídia (com idas e vindas), bela, etc. Mas incorpora os sofrimentos dos humildes, falando da cidade em tons claros e escuros, mas sem deprê: sempre há janelas, amizades, cores que damos às coisas...
É a cara de SP onde a alegria vem da humanidade, dos contatos e criações humanas.
Muitos filmes estrangeiros não chegam aos pés deste. E a Bruna provou que tem mesm carisma, a ponto de querermos saber mais dela, dessa astróloga maluca que aos 50 pode namorar vizinho malhadão...
***

Meu nome não é Johny revela um Selton Melo carismático, perfeito na papel. Tirem a última legenda ("è a prova de que alguém pode se recuperar") e um cartaz com cara de comédia Disney (óculos escuros: ele tinha tudo, menos limite) e o filme fica perfeito.
Algum crítico disse que a Espanha estava presa em três estereótipos: drama social, comédia de costumes e não me lembro mais o que. Este filme, assim como Signo da Cidade, mostram que é possível contar outras histórias.

O roteiro é brilhante na sua inteligente comédia. A cara do Rio: "fuck you, fuck tu, fuck a porra do caralho!". O personagem dizendo "aquela loira era um amigo meu que virou travesti" é histórico. Não precisava aquela última "moral de história" depois de ter contado a vida de uma pessoa de modo integral, nos fazendo amar esse Johny maluco e "sem limite" (suaviza um pouco pra ele, claro, parece que não sabia o que era tráfico), deixando claro que nem havia uma maldade suprema nele, que parecia natural agir mal.

Este é o maior ponto de reflexão: sem os parâmetros que faltam em nosso universo filosófico, somos levados com "leveza" aonde não planejamos. O filme não mostra nenhuma tese sobre a imoralidade dos ricos, a família nem nada (que sono...), e também é de uma época em que tráfico, pelo menos na Zona Sul, ainda era muit menos perigoso e malvado... Filme brasileiro sem cara de estrangeiro.

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007


O artista moderno estará tão impossibilitado de contatos, a não ser com seus amigos espelhos, tão sem ouvir as histórias dramaticas (ou cômico-trágicas) do seu povo, tão repetititivo em falar de si e de seu "vazio" existencial que não compreende (porque, afinal, comprenderia, se aprende com a publicidade e a grande mídia quem é e por que) que todo o esforço do século XX em quebrar o patriarcado e a disciplina acabou em reflexões sobre a masturbação e meus 11 anos?

Bem, algumas linguagens que vi recentemente podem ajudar o debate.

Para melhorar pra quem não viu vou copiar e colar:

"Com 17 cenas desconexas e personagens anônimos, a peça apresenta descrições contraditórias de personagem ausente: Ann. Fio condutor da montagem, ela representa as várias facetas de uma mesma identidade. Assim, é citada como uma terrorista em ação, uma doce filha de pais aflitos, uma artista que transforma suas tentativas de suicido em arte e uma mãe que teve os filhos mortos numa guerra civil. " http://www.dicadeteatro.com.br/attemptsof.htm


(A)tentados, a gente não entende tudo. De alguma forma fala de pessoas muito certinhas, de artistas muito inteligentes, de genete que odeia bichas e negros, etc. Não, não entendemos tudo, mas gostamos. O inglês Martin Crimp, pela Cia de Teatro em Quadrinhos e Beth Lopes, possivelmente critica a sociedade de consumo, o entretenimento como vida, a religião para criar pessoas boas e livres. No final, entretanto, a peça vai crescendo, em especial pelos atores inteligentes, pelo humor (moça vestida de fada, cantor com brega emocionado e um final assombroso, com os atores fora do teatro).
O Grupo Boa Companhia faz com um conto de dois parágrafos- de Kafka (Na Galeria) quase uma hora de peça. A direção de Verônica Fabrini traz a discussão de o que o teatro pode ser afinal: a dissimcronia entre texto e ação, o texto como elemento a ser desconstruído, a performace corporal como foco de interesse, o uso da tecnologia, etc. O resumo do século. Adorei, mas acho que se fossem três contos de Kafka, haveria mais elementos para instigar o espectador. Afinal, ainda queremos saber algo que não sabemos. Também vamos ao teatro para compreender mais o mundo, a nós mesmos, para refletir, mesmo se isso seja a partir de Artaud.


"Caminhos", do dramatugo Rubens Rewald, professor do curso de Audiovisual da ECA/USP, com o Núcleo Experimental do Teatro Popular do SESI-SP e direção de Cristiane Paoli Quito, Mezanino do Centro Cultural Fiesp, basedo na improvisação textual dos próprios atores, não me comoveu. Fiquei feliz em ver um grupo ousando um espaço novo, um tipo de fala novo (o texto é o mesmo, mas na hora se vê quem vai falar a seqüência), mas, sinceramente, eu estava em alguns momentos pensando na vizinha nordestina sentada ao meu lado, que saía com tiradas como "vamos, ninguém vai falar nada? estão esperando que alguém se manifeste..." ou "beijo na boca nem eu dou..." Como será a vida tão concreta dessa mulher... Não sei, todos ficavam com uma cara de "tenho de gostar, é teatro!"


Não era a vida de ninguém e sim de um "todo mundo" abstrato, o velho paulistano que pega metrô, caga (deixemos bem claro, como ele deixou), quer ser amado e trabalha... Não, isso é concreto demais... é preciso dizer que ele pensa sobre o futuro, a falta de água, a Xuxa, sobre o vazio, o budismo, e questiona (em coro) o tempo todo "existo? existe? morte? morre? ser? sim?...
Voltando ao assunto, talvez em Itapitiringa do Sul os questionamentos sejam: como pagar minha faculdade? como criar meus 9 filhos? por que o ônibus é tão lotado... Vivemos dentro de um sossego tão bom -e somos marxistas- o que nos faz de vez em quando termos crises sérias contra o "consumo", e precisamos de um pouco de realidade urgente, cagada, merda, poder, porra, essas coisas tão sutis para lembrar que não, não perdemos a reflexão sobre a realidade...

Bem, o texto traz alguns momentos criativos, engraçados, deliciosos até ( e os atores, bem sinceros), mas não senti realmente um "eu" mas apenas essas jovens vozes (quando soube do processo, muita coisa se exclareceu) falando o que devíamos falar, nós existencialistas, nós esquerdistas, nós revolucionários...

Precisamos agora de uma postura ética que julgue o agora, e now!




Segunda-feira, Novembro 19, 2007

o


Educação Sentimental do Vampiro




Sim: Guilherme Weber faz a diferença. Dalton Trevisan tem tudo que a contemporaneidade- e o clima sulino- pede: pessoas que não se encontram, crueldade, um sorriso irônico sobre as sombras da cidade. A cidade podia ser qualquer uma: o que importa são as pequenas vidas, esquecidas pela publicidade turística, os infelizes, os explorados, os solitários. Mas com uma asa de morgego, outra de pássaro. O nosso vampiro sabe nos fazer rir. (Sempre tive medo de lê-lo, não sei se agüento as coisas como são)


Fui assistir três vezes. Queria pegar as sutilezas dese grupo, sua linguagem entre Brecht e o naturalismo, queria rever as confusões em que o autor nos coloca narrando coiss simples. Por exemplo: uma menina é estuprada por quatro dizidores diferentes.

Na primeira noite acho que entrei tanto na estética preto-branco proposta, tinha tanta expectativa quanto ao lado negro do autor, que tudo me pareceu meio denso, triste, quase estomacalmente perverso. Achei, por exemplo, nojenta a cena da criatura prostituta sem dentes agarrando o magricelo branco, longa e tediosa a cena do pai sem família vendo filme na noite do Jingle- Bell, quebrada e repetitiva a cena da dita "negrinha" mil vezes estuprada. Depois eu entendi. Faltava Guilherme Weber.

Com o mesmo elenco, o mesmo cenário e os mesmos atores- aliás, todos excelentes- tudo se iluminava com sua presença. Não que o outro ator fosse mal, era ótimo. Coisa que Freud explica, doutro mundo. A peça passou de uma crônica depressiva para uma piada sobre a verdade. Talvez isso se deva ao seu olhar leve e sorridente dos percalços humanos, suas caretas remetiam mais ao fabulesco do que ao sem saída, sua fala marcava com delicadeza cada tempo, suavizando o nudez do texto.

Claro que tudo o mais era bom: Erica Migon simplesmente deve ser uma das melhores atrizes do Brasil, com seus pés que brincam com o texto, suas caretas impossíveis, sua prostituta saciada que fuma e põe as mãos nos cabelos, uma das mais comoventes fotos de gente que já vi; Luiz Damasceno nem se fala, aliás já disse tudo que penso; Maureen Mirandame surpreendeu com sua presença intensa e mutante; além disso Magali Biff sabe dar um tom de dor e humor a cada frase de uma mulher violentada ou uma estudante que mora me pensão e não para de falar nem quando masturba um amigo; Jorge Emil faz os tipos mais cômicos como o narrador de um impotente contínuo e o tal amigo - "agora não fale, veja como é quentinho"; Zeca Cenovicz é também o mais perfeito curitibano comum, com sotaque e suicida. Maravilhoso ainda é o uso das linoalgumacoisagravuras do expressionista alemão Raul Cruz, tão perfeitas no tema.

Tenho ainda a comentar o fato de que me descobri do "sul" ao perceber como a platéia ri em São Paulo; sei que ser generalista é o início do nazismo, como diria um amigo, mas não pude deixar de notar a diferença da recepção do público: em Porto Alegre as pessoas com certeza iriam prontas a assisit uma reflexão de um autor sério sobre a mordidez do devir contemporâneo, Deleuze incluído, etc. e talvez não gargalhassem assim de tiradas como "você é feia, mas é de graça", ou rissem só no fim do espetáculo. Acho que o meu prazer no segundo e terceiro dias se deveram a uma platéia adolescente, disposta a cair da cadeira.
Felipe Hirsch eu pensava que me apresentaria algo cerebral e germânico sobre a vid dura; achei fundamental sua sacanagem erudita ininterrupta.

Fico bem feliz (expressão de gáucho, me dizem) por ver o quanto é possível contar em outra linguagem um conto, se formos safados o bastante para não seguir nenhuma escola, e sérios o bastante para rir delas.






Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Prêt-à-Porter 8

Fui ao Sesc Consolação assistir a famosa saga do mestre Antunes. O prêt-à-porter ("ready to-wear", traduzido como "pronto-a-vestir" em Portugal") surgiu quando a moda de alta costura -baseada em uma aristocracia que gostava de ser aristocracia- foi se desfazendo e a nova sociedade que não exigia exclusividade se desenvolveu. Hoje, pelo movimento estranho do tempo, a exclusividade ja está de volta, seja na customização, seja na marca "moderninha". As cenas do grupo de Antunes remetem a uma dessacralização semelhante do teatro, e, ao mesmo tempo a diálogos possíveis em tempos de silêncio.
Digo isso porque, como já comentei, em POA parece que tudo tem de ser muito sério, a prova de alguma teoria, algum conceito, e, em alguns momentos, sentimos que somente valeria um teatro com todos nús, gritando e recitando algum texto beckettiniano. A leveza desse Prêt-à-Porter vem a calhar. Experimentos.
Ponto sem retorno, com Emerson Danesi e Marcelo Szpektor, mostra a quase-relação de dois homens, encontrando-se depois de 10 anos de colégio. A naturalidade dos atores é bem construída e reflete o desprendimento do cenário, básico. (Essa é a versão que Antunes dá ao trabalho com Stanislavski). Como Danesi consegue nos transmitir um amor abafado e Szpektor o medo do homem contemporâneo em não ser o que deve. O diálogo é vovo e corrido, natural. Eu sugeriria maior tempo entre as falas, para criar maior tensão. Também seria mais interessante se tivéssemos uma certeza, qualquer, seja de que eles se amaram e se amam ou de que foi apenas uma coisa do passado e passou. Fica um pouco entre o armário e a Parada.
Exiladas é o melhor texto, com Marília Simões e Aline Filocomo. A personagem "avoada" vai mostrando o quanto somos tolos em nossa produtividade. São grandes atrizes. É a cena mais profunda e chega a tocar o tema da morte, com muito humor.
Velejando na Beirada, com Marcelo Szpektor e Pedro Abhull retrata uma divertida partida verbal sobre a partida, dois amigos falando da morte. A proposta é hilária e o texto agradável, mas ficaria ainda melhor se depois do "discurso de corpo presente" fosse mais curta, o tempo, neste caso acaba sendo devorador. O diabo está nos detalhes e, too much, veste Prada.
O mais interessante desse espetáculo é que o "pós-moderno" aparece francamente: o representar está representado pelo "ser" e "estar", dialogar, e não pelo fingir. Tudo é feito ao vivo. Quando a moda vira tam´bem um modo de excluir por ser "in" e cria pessoa fora do "novo", falar com um amigo é revolução. Cada vez mais parece-me que atuar hoje é viver, viver com sinceridade, num mundo onde todos estão de alta costura. E "estar" hoje é o próprio processo da individuação, que Antunes gosta, é estar humano entre humanos quando tudo é pose e afetação. Pronto à vestir e a desvestir.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Corrupção Era PSDB

Engraçado, alguém lembra de ter ouvido falar disso? Com um bandido que sabe fazer frases pra mídia e pouca informação, isso parece pouco com uma democracia...

"Sua Excelência Robert Rubin, Presidente do Brasil
Greg Palast

Quando era menino, o secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, sonhava em ser presidente do Brasil. Em 1999 o seu sonho se realizou. É claro que, como tem endereço em Washington e nacionalidade americana, Rubin conquistou o controle do Brasil da única maneira que podia: por intermédio de um golpe brilhante.

Em outubro de 1998, o presidente nominal do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, foi reeleito para o cargo por um único motivo: tinha estabilizado o valor da moeda brasileira e, portanto, contido a inflação. Na verdade, não tinha. O real brasileiro estava ridiculamente supervalorizado.
Mas, com a aproximação das eleições, sua taxa de câmbio contra o dólar simplesmente desafiava a gravidade. Esse milagre levou Cardoso à linha de chegada com 54% dos votos. (...)

Por que aquele homem estava cortando árvores? Para obter lenha para cozinha. Ele não pode comprar gás engarrafado. O preço aumentou 150% em um ano.

E por que? Porque o governo FHC. Eliminou os subsídios e controles do gás engarrafado.
Por que aumentou o preço do gás do país? Para que os que podem pagar prefiram o gás encanado ao engarrafado.

Por que o governo não promoveu o gás encanado? Para tornar a privatização da companhia estatal, Comgás, mais interessante aos investidores estrangeiros.

Por que vender a Comgás? Cardoso precisava de dez bilhões de dólares por mês só para pagar os empréstimos para salvar a moeda.

Quem a comprou? A Shell Oil e a British Gás.
Quando? Em 1997, pouco depois que Tony Blair mandou seu principal assessor em visita ao presidente Cardoso.

PALAST, AMelhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar, Francis.

http://www.doutrina.linear.nom.br/historia/Hist%F3ria_Sua%20Excel%EAncia%20Robert%20Rubin,%20Presidente%20do%20Brasil.htm

Quarta-feira, Agosto 22, 2007

Luiz Damasceno em Porto Alegre: vanguarda + mundo

O ator Luiz Damasceno esteve no SESC de Porto Alegre neste dia 20 de agosto para palestra e aula aberta com o grupo do Centro de Pesquisa Teatral do Ator (do qual participo), coordenado pelo ator Alexandre Vargas. Luiz é professor da EAD da USP e ator de larga experiência, tendo trabalhado 16 anos com Gerald Thomas em peças tão importantes como "Nowhere Man" (1997), "Carmem com Filtro" (1990) e "The Flash and Crash Days" (1991).


Na seqüência: "The Flash and Crash Days", Luiz em "Nowhere Man" e "Fim de jogo", claro

Com sua simpatia e bom humor dirigiu-se à nossa platéia de atores um tanto aflitos e receosos perguntando sobre o cenário atual da cidade, contando sobre o momento em que mudou-se para São Paulo em 1969, quando "os espetáculos duravam uma semana em cartaz e os grupos não conseguiam se unir". Ouviu que, apesar de evoluções significativas, a cidade continua com fama de "cemitério dos espetáculos", e os grupos tendem a se desfazer por brigas internas. "Mas qual a postura de vocês perante isso? Vocês se reúnem, debatem o tema?" Um silêncio constrangido mostrava que talvez ainda não.

O ator continuou falando sobre a necessidade de comunhão em um grupo (comunicação entre os membros para que isso chegue ao público), da imperativa entrega, da espontaneidade que o trabalho com criação pede. Falou da importância da abertura a outros campos, buscando experiências em todas as áreas do saber e das artes, refletindo, debatendo. Em suma, da humanização do ator. Nisto retomava a questão da ética do grupo, proposta pelo diretor Jerzy Grotowski. “Não podem ter medo de errar”- diz Damasceno. “Temos e respeitar a diversidade, e se ela é, por exemplo, mais prolixa que eu, tenho de respeitar essa diferença”.

Sabemos que um dos principais problemas hoje ao se trabalhar com atores é justamente readquirir a capacidade de errar, olhar nos olhos uns dos outros e interagir de forma cooperativa e espontânea. De certa forma a concentração de poder no mundo de hoje e a violência que disso resulta (a empresa absolutista, a publicidade criando padrões globais, as relações de micro-poder contaminadas por essa desigualdade que descambam para a “exclusão” contínua, etc.) geram esse medo e essa frieza. Damasceno indagou e comentou também sobre a “técnica que liberta”, ou seja, o momento em que a questão formal (como a questão do modo de segurar o pincel para um pintor) se torna tão natural que cede lugar à expressão de uma verdade.

Podemos ver aí uma reflexão sobre o papel da vanguarda no século e sua transformação. Em entrevista a Gerald Thomas (quase uma “conversa de comadres” como brinca o diretor) na TV Uol, o artista falava também de seu estranhamento com obras absolutamente vanguardistas, que exploram o limite da abertura do espectador, em especial um trabalho de Peter Brooke. “A vida não é igual, tem mudanças, quando um espetáculo...quando uma coisa estabelece uma tranqüilidade absoluta em todas as coisas, me dá sono...”

Este ponto é profundamente interessante, e remete ao papel da arte entre a quebra do naturalismo midiático global na inovação e o isolamento. Damasceno aponta para o mundo, mas com uma “visão pessoal”, como ele propôs. O primeiro modernismo (que podemos situar de modo arbitrário entre o fim do séc. XIX e a primeira metade do século XX) queria simplesmente romper com o naturalismo da classe média (liga perfeita entre filosofia idealista, religião medievalista e cientificismo mecanicista), mostrar que as visões de mundo estavam se esfacelando em diferentes grupos (capitalistas, operários, artistas, religiosos, filósofos, etc.) e não havia mais a unidade instável que imperara do Iluminismo até então.

Nesta fase histórica anterior, a problemática social estava totalmente acomodada a uma ética individualista e conservadora: a fórmula de acabar com a fome prevista era, não distribuir a renda, mas, segundo Malthus, ensinar a população (mas não a si mesmo, três filhos em quatro anos) a praticar o “controle” e limitar o aumento da população. (Teoria sempre atual no empresariado local.)
Para Hegel, o Estado era a realização de uma viva eticidade da comunidade (Marx, bem depois, irá propor que é apenas (e ainda) expressão de eticidade dilacerada). Os problemas sociais oriundos da rápida usurpação de privilégios dos camponeses que iam perdendo – no Séc. XVIII com mais rapidez- a terra comunal e migrando para as grandes cidades, para trabalhos miseráveis e super-explorados, ainda estavam ocultos para uma elite cuja filosofia era a de que o mundo caminhava para o progresso geral, e a de que o liberalismo (a liberdade absoluta dos agentes sociais) nascido na era pequena propriedade rural e do trabalho manual, ia salvar o mundo.

Unidade, portanto, ordem e progresso. Como coloca Terry Eagleton, “O positivismo crasso da ciência do séc. XIX ameaçara roubar o mundo de toda subjetividade, e a filosofia kantiana docilmente seguira o mesmo caminho” (Eagleton, Teoria da Literatura, Martins Fontes, p. 80)Neste mundo automatizado, os artistas se voltam para a redescoberta da subjetividade sem a unidade, entre a dor e a crueza das guerras e do industrialismo, primeiro com o último romantismo, depois com a vanguarda. Há uma ligação entre eles quando tentam destruir o “jugo das categorias mecanicistas-utilitaristas sobre nossa vida” pela “rejeição da hegemonia da razão desprendida e do mecanicismo” (Taylor, As Fontes do Self, Loyola, p. 589)

Rimbaud, que acaba com o romantismo e o realismo, irá escrever sobre os políticos opostos à Comuna de Paris que “com petróleo pintam Corots” em “Canto da Guerra Parisiense”; Beckett, no pós-guerra, escreverá sobre o próprio pensamento prisioneiro, pois "Nosso tempo é tão excitante que às pessoas só pode chocar o aborrecimento.” (http://es.wikiquote.org/wiki/Samuel_Beckett.)

Não existe “o homem” eterno romântico, mas há uma sensação de estar vivo em um mundo, talvez grande e poderoso demais, e é preciso resgatar o direito a ver esse mundo de formas novas. Quanto mais o indivíduo se torna intelectual/ou braçal pela divisão do trabalho (resgatando os sentidos no entretenimento bobo ou na academia pelo medo de ser excluído), mais o teatro busca mostrar um homem vivente, ir mais fundo em percepções inusitadas, mostrar o ser imerso em sua carne e sangue.

Máquina de guerra, homem que morre. Adorno chamou o teatro de Beckett de "estado pós-psicológico", talvez um tempo da presença física, onde as palavras em nada ajudam- "So little to say, so little to do, and the fear so great", diz Winnie em "Happy Days". A violência do mundo aparece na violência da forma, complexa e paradoxal.

No decorrer do século, o sujeito sem oportunidades de "ver arte" (cada vez mais pessoas, na crescente concentração de renda) percebe a inovação como mera fuga quando os problemas parecem crescer mais e mais.

“Beckett está ligado a uma linguagem formal muito forte” diz Gerald Thomas na mesma entrevista. Ou seja, o estado existencial do sujeito europeu que sofre curvado sob o peso incompreensível do mundo na longa virada do século (até 1945) reage com uma nova forma de expressar a si mesmo e o mundo onde a individualidade desapareceu. (Esse duelo entre o significado existencial individual e o contexto social, aparece também entre as visões diversas de teologia, entre vaticanismo e teologia da libertação).

Entretanto o formalismo da vanguarda guardava um secreto medo do mundo. (Não é a toa que a Alemanha – marcada pelo idealismo, industrialismo acelerado e totalitarismo- tornou-se quase sinônimo de vanguarda.) Essa nova diversidade de perspectivas marca o século XX e torna-se tradição sobre a qual os artistas necessitam se debruçar.

Como comenta o filósofo alemão Habermas no seu clássico "Mudança estrutural da esfera pública”:

“restou a vanguarda como instituição a ela corresponde a crescente distância entre as minorias críticas e produtivas dos especialistas e dos amadores competentes, que estão atualizados com o processos de elevada abstração na arte, na literatura e na filosofia, com o envelhecimento específico no âmbito da modernidade (...) e o grande público dos meios de comunicação de massa por outro lado.” (Ed. Tempo Brasileiro, p. 207)

O medo do “referente” (medo da velha visão absolutista da burguesia), que tanto assusta o filósofo Derrida, e o eterno retorno ao significante –debate sobre a linguagem- gerou o silêncio sobre o mundo, e a concentração de renda ia isolando os artistas e intelectuais da massa miserável.

Enquanto isso o século avançava, o aquecimento global começava a nos perseguir e Collin Powell, ex- secretário de Estado de Bush ia afirmando na Cúpula de Québec:

“Talvez a conquista mais conhecida da Cúpula das Américas seja o lançamento das negociações para a Alca. Nós poderemos vender mercadorias, tecnologia e serviços americanos sem obstáculos ou restrições dentro de um mercado único de mais de 800 milhões de pessoas, com uma renda total superior a US$ 11 trilhões, abrangendo uma área que vai do Ártico ao Cabo Hornn”.

(Folha de S. Paulo, 22/04/2001, apud http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=1631).

“Hoje a gente pode fazer unplugged, tendo vivenciado isso”- diz Gerald Thomas. O próprio Damasceno coloca um certo amadurecimento no trabalho do diretor, da preocupação com a estética como primeiro plano, para a vivência de um ser humano mais concreto em “No Where Man”, onde se podia “ver uma pessoa em conflito procurando um caminho” e ele teria “se permitido tocar no humano, contar coisas de um ser humano”. (Recentemente parece ser o caso em "Um Circo de Rins e Fígados" (2005), sucesso de público, que não assisti, mas trata-se de comédia onde se fala de 1964, imperialismo e crimes políticos)

Quando, hoje em dia, a cultura da mídia do entretenimento e a cultura da imprensa são nossos maiores formadores de opinião e reflexão, se o intelectual não se debruçar sobre essa e outras vidas cotidianas, falará de quê? Como diz o sociólogo Boaventura dos Santos hoje superestrutura é infra-estrutura e infra-estrutura é superestrutura... (Não só porque os meios culturais tomam a forma industrial e há a produção do simbólico como mercadoria, mas porque forma opinião política e cultural). A "ideologia" vem em forma de "cultura" (glamour para poucos, seja um deles) pela TV e pela revista, e se não for criticada, forma nossa visão de mundo e nossa visão de arte...

Precisamos achar nosso corpo, viver de instinto (e mais nós, os artistas, feitos para "pensar", inclusive em ser "sensório"), mas readquirir a visão coletiva e comunicação com o todo, frente ao poder que se condensa e mata (solução para a crise da Argentina, em 2001, segundo o Banco Mundial, "aumentar a flexibilidade da força de trabalho", ou seja, reduzir o valor real do trabalho e corte nos programas de emprego. Palast. Amelhor Democracia que o dinheiro pode comprar, Francis, 2004)

Luiz Damasceno tem a coragem de discutir o excluído “referente” (o mundo), horror da filosofia pós-moderna, sem cair na tolice de esquecer a tradição da vanguarda.

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

CANSEI

Não adianta nada cansar dos pequenos problemas e não entender o todo; sem cansar das causas, as conseqüências continuam... Todos nós estamos cansados, mas alguns mais que outros.

Comenta Barros Filho, que da Escola de Comunicação e Artes da USP e na Escola Superior de Propaganda e Marketing ao Terra:

"Existem aí indícios muito claros de que o episódio de Congonhas está, digamos, sendo instrumentalizado. De um lado um movimento de deslegitimização do Estado, orquestrado pelo mundo corporativo, através do discurso da ineficácia, que tem como contrapartida a responsabilidade social e outras baboseiras.

Tudo o que mostra a ineficácia do Estado interessa a certas políticas, a serviço de quem a mídia costuma estar".
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1803758-EI6578,00.html

Então tá, vamos cansar de tudo que merece isso:

- CANSEI da corrupção empresarial http://www.comciencia.br/200405/resenhas/resenha2.htm

- CANSEI da política anti-social do FMI http://www.bbc.co.uk/portuguese/economia/020807_donmpc.shtml

- CANSEI da educação privatizada, cara e de má qualidade
http://www.cefetsp.br/edu/eso/acordofmi98.html

- CANSEI da "abertura econômica" da desregulamentação dos capitais que leva à instabilidade global
http://blog.controversia.com.br/2007/06/30/a-mundializacao-do-capital/

- CANSEI do trabalho oprimido e inseguro
http://diplo.uol.com.br/2003-06,a656

- CANSEI do imperialismo das transferências Sul-Nortehttp://resistir.info/varios/divida_externa.html

- CANSEI da classe média alienada
http://www.nossacasa.net/recomeco/0027.htm

Como coloca Mino Carta em seu blog:

"O sátrapa da OAB paulista, Flavio Borges D’Urso, inspirado pelo promoter João Dória Jr, também conhecido como o Iconoclasta-Mor por ter destruído a pauladas um monumento em memória do jornalista Claudio Abramo, revidou (a proibição de usar a Igreja da Sé pelo bispo) com outro comunicado, em que transfere a manifestação do Cansei para a própria praça, com início marcado para o meio-dia.

Aconselha-se os organizadores a não promoverem na escadaria da catedral um desfile de cachorrinhos de madame, especialidade de João Dória Jr. Poderiam ser transformados em churrasquinho, em um piscar de olhos, pela plebe fartamente."

http://z001.ig.com.br/ig/61/51/937843/blig/blogdomino/2007_08.html

Quinta-feira, Agosto 16, 2007




Tá bem , Lula, não precisava:

“O governador pediu que a maioria do público que o aplaudia vaiasse os manifestantes. O presidente brincou com Cabral e pediu que ele não se importasse com o grupo, ‘que é tão jovem e desprovido de consciência política, que usa nariz de palhaço".

Quando 40 pessoas de um Movimento chamado Luto Brasil (que nem são os parentes das vítimas) saem em cadeia nacional porque vaiaram o ministro (em si um ato perfeitamente democrático, mas sem relevância para estar no Jornal Nacional) , é natural um político temer “narizes de palhaço”.

Puxa, mas, segundo a Agência Estado, que dá a notícia, a qual se vê copiada e colada em todos os sites, “eles pediam concurso para novos professores”.

A relevância não acompanha mais o destaque. A manchete não é "Grande grupo aplaude Lula, enquanto alguns vaiam", como fica claro no vídeo do You Tube. Também não interessa entrevistar com cuidado e detalhar o que queriam os manifestantes, debater qual a possibilidade de atendê-los, o que vem sendo feito na área...

Na verdade, tratava-se de inauguração, conforme comenta no seu blog o engenheiro Roberto Morais:

"Estas três escolas fazem parte fase 1 do Plano de Expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, que prevê a construção de 64 unidades e investimentos de R$ 98 milhões.(...) Serão destinados, pelo governo federal, R$ 750 milhões para obras e R$ 500 milhões, por ano, para custeio e salários de professores e funcionários".
http://robertomoraes.blogspot.com/

Não eram "nem meia dúzia, nem uma multidão" e incluíam "alunos da Uenf que reivindicavam bandejão para a universidade junto com mais alguns poucos do sindicato dos servidores públicos federais".
Por que nos passam a idéia, de que o presidente teria sido vaiado por jovens que lutam por mais professores e é, portanto, anti-democrático ou, como coloca a Veja on-line, "demoniza seus adversários"?

Senão, vejamos, onde você leu?

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Educação, Fernando Haddad, assinaram hoje (20) portaria criando 1.170 vagas para professores de 1º e 2º graus e 1.363 para técnicos administrativos nas instituições federais de educação tecnológica.”

Então joga no Google ["1.170 vagas para professores" + "1º e 2º graus" + Lula ] e compara com [Lula e Cabral se irritam com vaias no RJ].

Dá 6 por 374.

Reinaldo Azevedo, na mesma Veja, vai fundo: "Lula é dirigente sindical desde 1975. Poderia ter estudado. Mas sempre teve aversão aos livros. Acha que sabe tudo. Sua fala é um absurdo lógico." http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/08/lula-demoniza-os-adversrios.html

A mesma Não-Veja que financiou os tucanos:
"Dados do TSE mostram que Editora Abril, proprietária da Veja, financiou campanhas de candidatos tucanos em SP, entre elas, a de Alberto Goldman. Nada ilegal, mas não custa avisar ao leitor. Ajuda a entender a linha editorial".
Marco Aurélio Weissheimer
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=340ASP001

Lembro-me de um artigo de Marilena Chauí sobre o governo FHC e o Programa Especial de Treinamento (PET), da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes). Comentava ela:

“Assim, um programa institucional com a tradição de 20 anos (...) com a avaliação positiva de especialistas não envolvidos em suas atividades, está destinado a ser extinto com a alegação de que seus custos são muito elevados (R$ 14.504.922,47) e que sua ação é elitista!

Isso quando, em qualquer madrugada, o governo federal despeja milhões num banco qualquer para "salvá-lo" ou usa recursos públicos para financiar uma ‘privatização"...


http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_1_1.htm

Mas como surge essa classe média indignada, que, de modo tipicamente falso “Liberal” acaba defendendo acaba defendendo seu direito imediato e não seu direito mais amplo, porque vê apenas um lado da situação, uma verdade parcial? Da falta de circulação de idéias e da concentração de poder e renda (vide o poder de “CTRL+C” de todos os sites com a Agência Estado).

O capitalismo selvagem atual não consegue renovar suas fontes de riqueza, conhecimento e inovação, gerando novas trocas pela distribuição de renda. Com o excessivo peso no lado lucro, a suposta "liberdade", a sociedade se deteriora, a riqueza diminui.

Quem se lembra daqueles dados do Exame Nacional de Desempenho (Enade) 2006. , segundo os quais os acadêmicos estudam e lêem pouco?



- 43,6% dos universitários brasileiros estuda entre uma e duas horas por semana além do horário de aula

- 34% lêem no máximo dois livros por ano, excetuando os escolares

- 41,3% se informam mais pela televisão.


“A justificativa para a pouca dedicação à leitura e ao estudo está na falta de tempo dos alunos.

Segundo o Enade, 68,2% dos universitários brasileiros estudam à noite e 73,2% trabalham durante o dia.

‘É importante lembrar que o ensino superior brasileiro é essencialmente noturno, privado e pago”, segundo o diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), Dilvo Ristoff.” (Agência Brasil)


Acontece que estuda quem pode, paga (e de novo, e de novo) quem deve.


Lembremos o acordo FHC/FMI:

“No entanto, (...) a participação da União em Programas de Garantia de Renda Mínima e no Apoio ao Combate ao Trabalho Infantil, por exemplo, sofreu significativos cortes na versão final do Projeto de Lei Orçamentária.


O Programa de Renda Mínima foi reduzido em cerca de 80%, enquanto o Combate ao Trabalho Infantil sofreu cortes de 50%, impactando gravemente a Educação."”

http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/fmirev.pdf


Sob a ação dos poderosos agentes "políticos", a democracia dos palhaços desinformados, todos nós, luta contra si mesma. Não precisava o "jovem e desprovido de consciência política", mas que existe, existe...

Castigas rindo e mordes


Foi surpreendente para mim ontem o tom das brincadeiras de Jô Soares com relação ao presidente. É o momento em que se sai de uma ironia ao excesso para uma espécie de crítica sistemática, o que dá a impressão de desmontagem da imagem, pela ridicularização quase próxima à mágoa.

Citando uma frase do presidente segundo a qual no momento que o mundo conhecer a cachaça brasileira vai abandonar o uísque, frase boba, mas parte da espontaneidade lendária do personagem, o apresentador comentou: “Ao contrário do que se diz, ele não entende nada de bebida”. Um silêncio pesado chamou a vinheta.

No debate com “as meninas”, ao elogiar o modo durão e ar de competente do ministro Jobim, aproveitou para completar “não sei se vai agradar ao presidente”.

Ainda mais algumas: “Não faz Pilates, mas fez-se de Pilatos, lavando as mãos”. E, comentando uma frase de Lula segundo a qual seus assessores não iriam ir até Washington a cada tremor no mercado, como teria feito o antigo governo, soltou o verbo sobre ser esse um comentário desnecessário e só adequado ao papel de oposição, etc, etc, etc.


O denso do comentário soou como se, mais que rir dos excessos e deslizes do presidente, estivessem escavando uma a uma das suas falas a procura de qualquer coisa que rendesse um comentário crítico.
Logo de Jô, de quem sempre aguardamos uma amplitude intelectual além de todo sectarismo. Tudo começou com o projeto de “classificação etária” na TV, pobre Austrália, país primitivo, que também usa...

Terça-feira, Agosto 14, 2007


"No vão da escada": Beckett com magia


A linguagem é a substituição do mundo. O formalismo modernista, pai do estruturalismo e avô do derridadismo, era talvez uma fuga do mundo complicado demais, depois que Napoleão subiu ao poder e estourou a Segunda Guerra. Os autores da guerra pareciam cercados por cinzas e ruínas. “Não vejo qualquer traço de qualquer lógica em parte alguma” – diz Beckett.

Foto de Fernando Pires.

O medo aos “sistemas” iluministas e nazi-stalinistas que propunham um cientificismo único, lógico, abria para a liberdade absoluta, o que deixou a nós, artistas, sem modos de entender o mundo político e econômico. Hoje, entre o “naturalismo” do mercado que prega bom-mocismo (no fantástico mundo TV, a vida como “posição credora” ou “posição devedora”), força de vontade individual e o totalitarismo dos modelos de ser que nos penetram, e a violência que ocupa o espaço de um Estado abandonado pelos ricos para montar a fábrica na Indonésia, lutamos para ver alguma lógica em algum lugar.


O que isso tem a ver com “No Vão da Escada”, do Grupo Teatral Falos & Stercus?


Acho que estamos, de algum modo, passando (se pudéssemos supor um certo movimento insinuado nessas contradições que somos nós) da idade modernista e pós-modernista para uma fase de realismo complexo (vide texto de Fernão Pessoa Ramos, hoje, na Folha, sobre documentários e narrativas na primeira pessoa) uma fase em que as conquistas são mantidas e se supera os excessos. (Recentemente vimos filmes sobre Berlusconi, a rainha e Lady Di, aquecimento global e a Guerra de Bush.)


Sempre gostei do trabalho do Falus (se é que me entendem), mas, assim como ocorreu com “Cassandra em Progress”, da bi-décade Terreira, acho que aqui texto, direção e atuação simplificam e ganham. Luciana Paz mostra que uma grande atriz está presente sempre. Quando falo grande quero dizer grande, pois ela humanizava as frases mais "contadas" do personagem e mantinha o olhar para cada pessoa do público. Também o trabalho com o corpo que marcou a trajetória do grupo é retomado em um movimento difícil e coeso.Marcelo Restori criou um texto beckettiano, falando do fim do mundo, um mundo sem portas, nada novo para esse grupo que luta por teatro inovador enquanto invade uma ala abandonada de um Hospital Psiquiátrico e lá se apresenta.


A geração que foi à rua no início dos anos 90 era marginal porque- diferente do que dizem os falsos liberais que tiveram o “pai” lhes dando proteção antes de “fazerem por si mesmos”- não dá para primeiro crescer e estudar para depois viver: a arte era (é?) lixo no mundo privatizado. O grupo jogou na cara do mundo (reconstruída) essa violência que é ter só FunProArte para financiar, o peso da cidade (o frio que vem do tempo em que se degolava inimigos) e nossa ultra-intelectualização, que muitas vezes vai de Derrida a Tchecov, mas tem medo do novo. (Marília Pera uma vez disse: "Sei como é o público de Porto Alegre: em um primeiro momento mais quieto, não reage tanto quanto o de outros lugares, mas no final é muito caloroso"- Zero Hora, 2ºC, 20/05/06)


Voltando à dramaturgia, achei um texto mais concreto e sensível do que, por exemplo “In Surto”, mais fragmentado e desesperançoso, e mais maior. Aqui algumas narrativas se juntam ao metafísico, suavizando a linguagem. (Gosto da comunicação "essaéminhavida", provavelmente ainda quero mais “o que eu fiz e por que”).


Nietzsche, Foucault, AIDS e Collor faziam parte de uma escuridão absoluta nos anos 90. Nada saiu de cena, mas soubemos fazer nosso espaço, afinal existe o Carnaval, João Gilberto e a Cidade Baixa (dizem que o gaúcho é bairrista, para quem é off-POA, significa Quartier Latin+Copacabana sem água). Esse grupo marcou a história de Porto Alegre por ir ao extremo, por ser puro fogo.


Agora sinto que é o momento em que as conquistas são valorizadas como poesia: sabemos nossos limites, mas sabemos o que somos e podemos. Começam a aparecer esperanças, dentro de um novo realismo.




Classe Média desesperada

Sim, eu fiquei 2hs esperando o avião em Guarulhos. Que drama! Um local limpo, amplo, envidraçado, com café, suco e cadeiras confortáveis (era só subir a escada rolante, mas teve gente, muita, que preferiu ficar sentada no chão não sei por que, vai que aparece a televisão).
Cinco dias depois do desastre, o Aeroporto de Cumbica normal, tranqüilo, vem um velhinho com uma mala, o repórter “pula” nele e pergunta: “como o senhor se sente?” (entenda-se: estressado, desesperado, a beira de um ataque de nervos). O velhinho apenas olha para os lados (tudo vazio) e pergunta “como?”

Entrevistei dois profissionais do aeroporto, um deles que há 20 anos lá trabalha. “Esse acidente não tem nada a ver com a pista. Decolam vinte aviões por hora. Qualquer um sabe que foi falha da máquina, mas isso significaria dizer que a empresa não faz manutenção.” E sobre os atrasos: “Todos sempre fizeram overbook, mas antes outra empresa arrumava esses passageiros. Agora todas fizeram ao máximo, faltou vagas.” Não seria óbvio?

Depois, no Salgado Filho, uma mulher vestida de executiva de nariz de palhaço. Lembrei de meu tio que sempre falou de atrasos em aviões, há décadas.
Na TV, um pai (compreensivelmente) confuso diz: “Meu filho foi sacrificado!” Pela ANAC? Uma senhora distinta, deitada no chão no Portão de embarque: “Nunca saí para reclamar nada, (um francês diria, mesmo, sem 68, sem auxílio desemprego) mas agora CHEGA!”

A mudança na malha aérea que o novo Ministro propôs vai “fazer o consumidor pagar mais” o segundo o JG. Os 40 integrantes do Movimento Luto Brasil (não foi fundado pelos familiares das vítimas) que "vaiaram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre" (Terra) saíram em cadeia nacional, no maior Jornal do país.

Seguindo o JN hoje:

“A CPI cobrou da TAM por que não seguiu uma instrução da Anac de janeiro que recomenda o uso dos reversos no máximo, quando a pista estiver molhada no aeroporto de Congonhas. Para surpresa dos deputados, a TAM disse que nunca recebeu a instrução. (...)

Mais surpresos ficaram quando o presidente da Anac, Milton Zuanazzi, reconheceu, por telefone, que a instrução, publicada no site da agência, não tem valor porque não chegou a ser regulamentada.”

Alguém podia me esclarecer o que a ANAC pode fazer, na realidade? Ela pode bater na porta da TAM e fechá-la? O que significa “Não pode ser regulamentada”? A TV não quer esclarecer isso?

Se nosso país, é bom lembrar, está o que está é justamente porque, como um colonialista no Haiti, houve quem ajudasse grupos minoritários a tomar o poder e evitar a distribuição de renda que ocorreu em parte na Europa e EUA, e não porque a maioria votou em um barbudo operário em 2002.

***
Desesperadamente Fiel

Assistindo às primeiras cenas da mini-série que estréia amanhã, Donas de Casa Desesperadas, ficamos pensando o que a Rede TV trouxe de novo além das fofocas. O seriado se passa em um mundo de casas com jardim (Arvoredo), onde mulheres “desesperadas” cuidam das flores, dos filhos na piscina, jantam em salas enormes, etc. Muito bem, para se começar no ramo do entretenimento é preciso se valer do que já existe. (Hei, têm alguns dramaturgos brasileiros aqui!)

Claro que essa série é uma das mais inteligentes dos últimos tempos, porque a competição exigem sim qualidade nos EUA e a classe média que sai cada vez menos de casa porque alguém não pagou o imposto para investir na Bolsa e não temos segurança, precisa e adora.

Mas, convenhamos, qual a vantagem de se ter o mesmo seriado dublado? Você tem de olhar duas vezes para perceber que não é uma gringa e sim Lucélia Santos. Percebemos o quanto o modelo de família, homem, mulher norte-americanos se torna “global-normal”, quando nossos atores de 1,90 e malhados e nossas mulheres dos outros falam em português. Parece outro assunto, mas não é: é sobre alguns viverem NY-SP enquanto outros vivem favela-Tv aberta. Prefiro a Grande Família...

***
PS: Depois do fato, seguem as mesmas opiniões: ruas impecáveis, com postes antigos, meninos de sete anos em camisa social para ir ao enterro, mulheres em roupões no meio da rua segurérrima à noite vendo a mansão da amiga ser salva pelos bombeiros (você já viu uma cena assim no seu bairro?)... A série acaba fazendo pensar que existe um grupo de pessoas- talvez como a própria Gimenez, que parece passar o fins de semana em Nova York- vivendo sim naquele mundo "de plástico", em condomínios fechados em qualquer lugar do mundo, sem compreender o mínimo dos "surpreendentes" momentos como um ataque terrorista ou uma crise no mercado imobiliário fantasma porque simplesmente passaram tempo demais sem a realidade.
O que mais choca é a naturalidade das "piadas": chega-se a um enterro com uma cesta de pães de mel, toma-se café em bules de porcelana, leva-se grandes buquês de lírios na mão. O exagero das regras da Disney chega ao cúmulo quando, tendo por algum motivo sido gravado em Buenos Aires (equipe mais "entrozada com os métodos de produção" hollywoodianos? mais barata? autorizada?), uma atriz é forçada a fazer uma cena com um vestido de seda num frio de 3 °C (frio que toda a equipe comenta na festa de lançamento), outra fica nua um dia inteiro na cidade cenográfica. Se foi feito na Argentina (vimos isso antes em Chiquetitas, mas aí era ridículo sem comentários), por que esse calor Californiano?
(As atrizes, maravilhosas, souberam dar um jeito brasileiro no meio de tanta estética publicitária. Isadora Ribeiro disse que não assistiu os episódios para não copiar- e está mesmo uma das melhores.)
Onde está a mulher brasileira, solteira, trabalhando três turnos, presa no trânsito e com tendinite? A naturalização do padrão americano de ser rico. A síntese desse agradável clone foram os filhos dublados. Dublados mesmo! Vozes enlatadas como os motoqueiros do Casseta e Planeta, trocando sílabas. Isso que dá tantas normas para filmar, regras em contrato: técnica perfeita, mas não é a nossa.

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

CRISE AÉREA OU CRISE ÉTICA DA MÍDIA?
A invenção da crise aérea - Marilena Chauí
...

"Do ponto de vista da operação midiáticapropriamente dita, é interessante observar que a mídia:

a) não dá às greves dos funcionários do INSS a mesmarelevância que recebem as ações dos controladores aéreos, embora os efeitos sobre as vidas humanas sejam muito mais graves no primeiro caso do que no segundo. Mas pobre trabalhador nasceu para sofrer e morrer, não é? Já a classe média e a elite... bem, é diferente, não? A dedicação quase religiosa da mídia com osatrasos de aviões chega a ser comovente...

b) noticiou o acidente da TAM dando explicações comose fossem favas contadas sobre as causas doacontecimento antes que qualquer informação segurapudesse ser transmitida à população. Primeiro, atribuiu o acidente à pista de Congonhas e à Infraero;
depois aos excessos da malha aérea, responsabilizandoa ANAC; em seguida, depois de haver deixado bem marcada a responsabilidade do governo, levantou suspeitas sobreo piloto (novato, desconhecia o AIRBUS, errou navelocidade de pouso, etc.);
passou como gato sobre brasas acerca da responsabilidade da TAM; fez afirmações sobre a extensão da pista principal deCongonhas como insuficiente, deixando de lado, por exemplo, que a de Santos Dumont e Pampulha são menosextensas;

c) estabeleceu ligações entre o acidente da GOL e o daTAM e de ambos com a posição dos controladores aéreos,da ANAC e da INFRAERO, levando a população aidentificar fatos diferentes e sem ligação entre si,criando o sentimento de pânico, insegurança, cólera e indignação contra o governo Lula. Esses sentimentos foram aumentados com a foto de Marco Aurélio Garcia ea repetição descontextualizada de frases de GuidoMântega, Marta Suplicy e Lula;

d) definiu uma cronologia para a crise aérea dando-lheum começo no acidente da GOL, quando se sabe que hámais de 15 anos o setor aéreo vem tendo problemas variados; em suma, produziu uma cronologia que faz coincidir os problemas do setor e o governo Lula;

e) vem deixando em silêncio a péssima atuação da TAM,que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes,desde 1996, três deles ocorridos em Congonhas e umdeles em Paris – e não dá para dizer que as condiçõesáreas da França são inadequadas!

A supervisão dos aparelhos é feita em menos de 15minutos; defeitos são considerados sem gravidade e a decolagem autorizada, resultando em retornos quase imediatos ao ponto de partida; os pilotos voam mais tempo do que o recomendado; a rotatividade da mão de obra é intensa; a carga excede o peso permitido (consta que o AIRBUSacidentado estava com excesso de combustível por haverenchido os tanques acima do recomendado porque ocombustível é mais barato em Porto Alegre!); etc.

f) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que Congonhas, entre 1986 e1994, só fazia ponte-aérea e, sem mais essa nemaquela, desde 1995 passou a fazer até operações internacionais. Por que será? Que aconteceu a partirde 1995?) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que, desde os anos 1980, aexploração imobiliária (ou o eterno poder dasconstrutoras) verticalizou gigantesca e criminosamente Moema, Indianópolis, Campo Belo e Jabaquara.

Quando Erundina foi prefeita, lembro-me da grande quantidade de edifícios projetados para esses bairros e cuja construção foi proibida ou embargada, mas que subiram aos céus sem problema a partir de 1993. Por que? Qual a responsabilidade da Prefeitura e da Câmara Municipal? "

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/446501-447000/446655/446655_1.html

Domingo, Julho 08, 2007

Da Folha: Censura?

... Segundo o diretor do departamento de Justiça e Classificação, José Eduardo Romão, "inventaram um novo significado para censura, mais conveniente aos interesses que esses "críticos" representam"."
Será que, agora, devemos encarar como censura toda ação legítima do Estado que possa causar prejuízos à audiência do negócio, ou melhor, à lucratividade do programa?", pergunta, em texto enviado à Folha.
"As pessoas que trabalham na TV facilmente enxergarão a classificação indicativa tão somente como uma garantia fundamental contra a baixaria quando conseguirem olhar para as câmeras e ver, do outro lado, as necessidades e os direitos dos telespectadores que são crianças e adolescentes."...
São Paulo, domingo, 08 de julho de 2007, Ilustrada

Terça-feira, Julho 03, 2007

Festival CineEsquemaNovo 2007.

Numa noite pra lá de fria topei o desafio pra lá de doido de assistir uma maratona de filmes da meia noite até as 4 da manhã- uma pequena amostra dos muitos curtas, longas e filmes dos convidados exibidos do dia 25 de Junho ao dia 1º de Julho em Porto Alegre- e depois desafiar a névoa forte que era rompida pelos românticos lampiões amarelos da Andradas.

Aliás, idéia de acabar tão tarde devia ser adaptada: com alguns intervalinhos de 10 minutos e um bar servindo café, se tornaria uma agradável convivência até as 6h, quando a vida volta à cidade.

O Festival ocorre desde 2003, promovido pela Prefeitura, e enfrentou desde o início críticas as mais diversas sobre a seleção, a real experimentalidade dos trabalhos selecionados e outras.

O site do Festival se propõe a dar vazão a "Todos os suportes imagináveis, do 35mm e suas variações até uma produção feita em um telefone celular". Pelo menos no pacote que assisti, nada realmente me surpreendeu pela novidade, apesar de nada desagradar.

Preocupou-me um pouco o fato dessa produção artística parecer não falar muito do Brasil-Cão, pelo menos não nos temas tão mega-abrangentes como os problemas sociais e o trabalho, mas arte é arte e é melhor que um monte de roteiros socialistas pra inglês ver. Reflexo, talvez, do abismo que nos separa dos problemas "reais", vivendo dentro da "bolha de consumo" e do isolamento do artista contemporâneo.

(Vale lembrar que esta seleção foi para filmes de pessoas de alguma forma ligadas a organização do festival e que, portanto, não participaram em mostra competitiva).

De qualquer forma se o objetivo é "A SURPRESA, a EXPERIMENTAÇÃO, a CRIATIVIDADE e a INOVAÇÃO", como anuncia o site, pelo menos na mostra da madrugada, fico esperando mais loucura. Não que toda inovação deva ser obrigatoriamente "uma mosca na parede", claro. Acompanhe a minha premiação de 1 a 5.

**** SKETCHES, de Fabiano de Souza, RS, tem uma mistura de Bekett com Entre Quatro Paredes e conquista pela forma como o roteiro é montado, bem interessante. Um homem se encontra em uma cela branca, ou será o inferno? Vamos descobrindo seu passado. Fernando Kike Barbosa age com espantosa naturalidade nesse meio que não é o seu de origem -o teatro- e Nelson Diniz vai se soltando no docorrer da trama, para ganhar emoção no final. Sandra Dani - sempre impressionante em papéis de mulheres fortes e rancorosas- e Liane Venturella completam o elenco, com maestria.
***** A DOMICÍLIO, de Nelson Diniz, RS, conquistou meu primeiro lugar pela simplicidade e humor do roteiro. Bandidos confundem a casa de um moderno budista com a de um inimigo a ser apagado. Fico sempre chocado com a variedade e energia de Heinz Limaverde e contente em ver Álvaro RosaCosta, muito bom no dramático Boca de Ouro, como um ótimo comediante.

*** PEQUENOS TORMENTOS DA VIDA, de Gustavo Spolidoro, RS, mostra o cotidiano de uma sala de aula de classe média em Porto Alegre. É interessante, mas me pareceu faltar algo, pois um ensino onde todas as crianças são loiras e de olhos azuis parece estranhamente com a Suiça.

**** PORTO ALEGRE DE QUINTANA, de Fabiano de Souza e Gilson Vargas é um dos especiais feitos pela RBS para os 100 anos de nascimento do poeta. è sempre difícil conciliar o literário com o comercial -como falar para um público tão amplo como o da Tv- o que aqui foi conseguido com imagens poéticas.
De alguma forma, entretanto, fico em dúvida sobre a possibilidade e até a necessidade de se tentar "pôr em imagens" poemas; claro que a voz está na origem da idéia de poesia, mas acho um tanto complicado a rapidez da imagem poder acompanhar a reflexão do verso. Seria talvez mais adequado um documentário histórico, entrevistas ou quem sabe um mergulho alucinado em inovações, como em "A Pedra do Reino" (correndo deliciosamente perigo de não servir ao propósito do meio), mas o trabalho é interessante e delicado.

*** SANTA DE CASA, de Allan Sieber, RJ, é um desenho animado realmente carioca, baseado em conto de Aldir Blanc, divertido, mas um pouco longo talvez. Crônica despretenciosa. O cansaço da madrugada também começa a bater...

** GINÁSTICA, de Mariana Xavier, RS, é uma montagem com cenas de academia, música eletrônica e tal. tem um ritmo frenético, que acorda o espectador. Divertido.
** *COMO TATUA PELE, de Manga Campion, RS, mostra um ritual das ilhas alguma coisa-supomos- quando os jovens recebem tatuagens com aqueles "garfinhos", ao som de um locutor sádico que fala suavemente sobre a beleza. Justamente aqui se vê um pouco da badalada "inovação", pois as imagens da família volta ao mundo ficam recontadas com essa roupagem debochada.Bem criativo, mas bastante ocidental, já que cada louco tem seu motivo.

**** ASAS, SOMBRAS, BICOS E UNHAS DE SONHOS, de Beto brant, SP, é o mais inovador de todos, com imagens do quadro “Asas, Sombras, Bicos e Unhas de Sonho”, enquanto Kuta, pintor angolano exilado no Brasil, narra o poema homônimo de Pablo Neruda. Belíssimo.
***** O HORLA, de Igor Natusch e Marcelo Oliveira, RS, merece destaque pela idéia original -um conto de Guy de Maupassant- e pelo ator Rafael Régoli que vence sozinho os diversos estados do personagem oprimido pelo misterioso ser. Muito bom.

**** QUINTANA INVENTA O MUNDO (...com muito sono tentamos ouvir mais poesia), de Camila Gonzatto e Frederico Pinto, RS, é rico em fotografia, roteiro e montagem, seguindo a idéia de televisionar os poemas de Quintana. Dentro de um Hotel se passam várias cenas que remetem ao mundo de Lili, a menina do poeta. Criativo, dentro daquilo que já dise sobre o poema em imagens. Coragem, a madrugada já vai acabar...

*** É PRA PRESENTE, Camila Gonzatto, RS, traz uma delicada história de amigos em uma livraria. Bem narrado, merecem destaque a direção de arte, que recria o ambiente intelectual da cidade e a atuação de Sissi Venturin , como uma suave livreira. Só não entendo o que tem a ver com o esquema novo, já que não me pareceu de modo algum uma "experimentação".

*** OLHANDO O CÃO, de Eduardo Wannamacher, RS, é um making off do filme Cão sem Dono. Com depoimentos e reflexões ajuda a desvendar o universo melancólico, pós-industrial e intelectual- pessimista do filme, onde o protagonista parece perdido em um mundo em ruínas, e entre livros. Mostra o processo de criação do longa, baseado em improvisações e trocas com os atores. Morfeu, saia desse corpo!

* DIÁRIO DO VIRALATA, de Júlio Andrade, "só no" celular, é o mesmo processo visto pelos olhos do ator principal. Interessante mostrar o convívio e o processo do elenco, mas um tanto longo e "doméstico" para ser exibido.

** CLIMAX, de Gurcius Gewdner, SP, animação feita para o grupo goiano de rock de garagem MECHANICS, é curto e criativo. Basicamente paint brush animado, mas bem rápido. Acabou! Estamos em dia com a arte da capital e as três pessoas da sala saem na noite gélida, em busca de um taxi. Acabou! Estamos em dia com a arte da capital e as três pessoas da sala saem na noite gélida, em busca de um taxi. A espera também de alguma solução entre o experimentalismo metafísico vão e a linguagem agradável, mas que não desafia tanto.

Quarta-feira, Junho 27, 2007



Mais uma para minha coleção FOLHA X LULA...

Merecia capa?

Ai, mais um dia de Jô Soares, agora com a mega-conservadora Lúcia Hippólito, comparando a classificação indicativa com ditadura... Aquela tarjazinha pequena é o início do stalinismo? Jô, com todo respeito que tenho por você, que coisa mais exagerada...
Seria esquecer que o Estado é também a representação do público contra os interesses privados dos poderosos... Alguém esses dias falou em ONGs, que vão vigiar a imprensa. Qual a ONG que pode definir o conteúdo da Veja?

A situação é bem diferente de um mundo ideal onde os pais ficam o dia todo com os filhos regulando o que assistem - uma mãe amiga minha disse que mesmo quando ela proibe, as coleguinhas do colégio falam tanto que a sua filha se sente fora da sociedade...

Na Austrália o Estado até exigiu programas infantis em horário nobre, e isso não foi visto como ditadura, mas como defesa da maioria.
Um senhor amigo de nossa família uma vez disse, em almoço de domingo, enquanto desligava a TV: "Não dá mais nem pra almoçar com os filhos vendo TV..."
Interessante lembrar:

* ..."Aprovada a coalizão, cabe ao presidente integrar o partido ao governo', disse o presidente do Senado, RENAN CALHEIROS (AL), da ala que apóia Lula desde 2003. "

* ... "Os preconceitos da elite são refletidos pela revista. Além dos movimentos sociais, há quem relate que um dos bordões de Tales Alvarenga, atual diretor de publicações, em sua fase à frente da revista era: 'Não quero gente feia'.

Por gente bonita, referia-se não apenas a padrões estéticos de magreza, mas também aqueles ligados à cor da pele. Segundo colaboradores próximos, fotografar negros seria quase certeza de material desperdiçado. "
Dossie Veja -http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=330

* ... "Na minha avaliação, o problema da crise está relacionado à falta de relacionamento existente entre os controladores de vôo e o comando da Aeronáutica.
Essa falta de diálogo, a quebra da confiança que há na hierarquia é que tem propiciado de um lado o preciosismo de por parte dos operadores, na operação do sistema, pressionando inclusive o comando da Aeronáutica e, por outro, na minha avaliação, uma falta de iniciativa por parte da aeronáutica para minimizar essa situação. "

Marco Maia, CONTROLADORES FAZEM A CRISE. EQUIPAMENTOS NÃO -
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/439501-440000/439633/439633_1.html

***

Depois dessa viagem pelo tempo, podemos pensar se não é verdade a seguinte notícia do Conversa Afiada...

Paulo Henrique Amorim – Entendi. A mídia se irritou porque o Lula deu certo.

Marcus Figueiredo – E ela dando certo significa a possibilidade de uma alternância de poder substituindo as velhas lideranças, as velhas oligarquias, a velha elite que sempre comandou o país e sem conseqüências drásticas. Apenas, evidentemente, uma mudança de rumo na política.

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/439501-440000/439982/439982_1.html

Sábado, Junho 23, 2007

O diretor inglês Luke Dixon esteve aqui em Porto Alegre com sua oficina Playing with Shakespeare, de 11 a 22 de Junho, em projeto do Departamento de Arte Dramática da UFRGS e do FINEP. Trabalhamos "Sonho de Uma Noite de Verão". Foi acompanhado dos excelentes atores Jean Pagni e Victoria Gillmon, ambos muitos simpáticos e generosos.

O que mais aprendemos com ele foi que trabalho significa diversão. Ele nos contou como Shakespeare tentava chamar a atenção de uma platéia de 3 mil pessoas, à céu aberto, que pagavam algo como 10 centavos para assistir comédias e tragédias em uma linguagem pouco conhecida para a época. os atores tinham de prestar muita atenção pois só recebiam suas falas e as "deixas". Resultado: tudo tinha de ser divertido.

Perder o ranço do século XIX, quando Shakespeare foi identificado com a mitológica visão de um classicismo movido a donzelas rimadas e tragédias solenes, era seu propósito. Disso faz parte também as traduções que, de modo geral, tendem ou a perder toda a rima, sendo traduzidas em prosa, ou simplificar totalmente os versos apresentando uma poesia banal, em geral feita não por poets, mas por estudiosos. O que acontece? Shakespeare parece ou chato ou simplista. Assim, tentei traduzir alguns trechos trabalhados.

Luke Dixon também incentivou bastante a subversão, com roupa de baixo, palavras indecentes e até um consolo de plástico. Tudo para chegar ao real sentido do texto- ou àquele que nos parece mais provável hoje- a flor mágica como o desejo sexual dos jovens, ardente, mutável, ilógico. Com direito às fadas dançando "funk" e dizendo "Chinelona!" para a rival de Titânia, a rainha das fadas.

Seu método dá ênfase à imaginação, ao despertar da criatividade no ator. Ou seja, um trabalho também individual e interno, mas quenão abandona o ritmo do coletivo ou o corpo. O que não deixa de ser um pouco diverso do que se está acostumado aqui no estado, muito influenciado pela corrente da Terreira da Tribo, um dos mais importantes e antigos grupos, que vai pela estrada de Artaud, Brecht, o dionisíaco, o ritual e a nudez.

Outra característica é o trabalho em cima da cena. Dentro dessa tendência de popularizar Shakespeare e trabalhar com a criatividade, os exercícios se dirigem para uma cena específica, como preparatórios para determinada função (ao invés de simplesmente abrir espaços de sensibilidade no corpo, como estamos mais acostumados por aqui).

Apesar de sabermos da importância do texto para essa escola, acabamos improvizando mais que o razoável, mas apresentamos um quadro bem variado e criativo de possibilidades de Oberons, Titânias e Bottons. Enfim, Luke nos ensinou a arte de ter prazer.

___

Algumas reflexões que pude fazer a partir da experiência me remeteram aos processos centrais de um evento cênico. Pareceu-me poder falar de quatro linhas de força, que colocamos heuristicamente.

1) Ação. Os atores são naturalmente seres que gostam de agir, ou o desejam. Até por nervosismo, se vêem obrigados a ocupar o espaço, a mover-se, a chamar a atenção. em geral gostam de subverter e de ver o retorno da platéia. Então, em primeiro lugar o evento cênico é sobre algo interessante acontecer. Esperamos ser surpreendidos. A primeira obrigação do ator é ser interessante.

2) Adequação. Entretanto, é muito comum percebermos em um grupo de atores quando o overacting atrapalha a encenação. Mesmo que precisemos de subversão, a ação não pode se tornar uma luta de indivíduos cada qual tentando chamar a atenção para si. Achar o equilíbrio entre explosão e respeito ao grupo, entre inovar e seguir a narração, entre ser critivo e ser generoso, é um delicado processo. Sempre percebi que o bom senso é uma das características básicas dos bons atores- falar no tempo certo, às vezes até subverter o texto. Na comédia bom senso é a base de tudo.


Uma das dificuldades maiores entre atores ultimamente (aliás, entre todas as profissões) é o trabalho em grupo. Como funcionar como um corpo único, sem parecer um balaio de egos procurando o holofote? Alguns exercícios de percepção do grupo ajudaram a trabalhar isso, por exemplo, quadros com os atores que se moviam em conjunto para criar outras cenas e o trabalho de espelho, em duplas e em grupo.
A oficina também foi sobre contar histórias. Fizemos inclusive um exercício de "escutar na escuridão", e, relacionando com Shakespeae, soubemos que sua época se falava "ir escutar uma peça". Talvez tenhamos perdido algo aí, quando passaos a "ver peças". Yoshi Oida nos fala, em seu livro "O Ator Invisível", de dois atores de kabuqui: um deles aponta a lua e as pessoas admiram o seu virtuosismo naquele gesto; outro aponta a lua e as pessoas vêem a Lua. "Eu prefiro esse tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se mostrar invisível", diz ele. O que está em primeiro lugar é a deliciosa contação, mesmo que seja um clima, um momento humano, um enredo sem falas.


3) Comunicação. A comunicação entre o grupo e entre este e a platéia é o verdadeiro objetivo da ação cênica. Entre o grupo isso significa estar aberto ao outro, ajuda-lo a expandir seu potencial, não criticar severamente, ter auto-estima suficiente para ir além da competição e dos papéis sociais que nos cobram produção, eficiência, correção, controle, força. Temos de a todo momento buscar essa comunicação, o prazer de estarmos juntos, a ponto de Grotowski chegar a dizer que, no seu grupo, tudo tratava-se de relações humanas. Em primeiro lugar é preciso acabar com o "certo e errado" e focar no "possível". Todo ser humano carrega um potencial de emoções, memórias e gestos capaz de usar em ações cênicas, e que podem ser potencializados com algum treinamento. Não se trata de julgar o outro, mas de acolhê-lo.

O público também deve ser acolhido. A peça não pode ser um ato de impor ao público uma bela arte, mas antes de usara reflexão do coletivo para dar a ele um texto que possa ser aceito. E ele é aceito quando fala algo que a todos interessa e com o que concordam. Assim o ato cênico é algo que "todos gostariam de ter dito" e cria um efeito de comoção. Passamos aos espectadores o sentido de que todas as pessoas são importants, e que estamos aqui e agora vivendo com eles uma relação humana.


4) Diversão. Aparentemente a diversão - além do prazer visual, sonoro e cinestésico- é tido como algo menor, abaixo da capacidade crítica e do senso estético. Mas sem ela nehum grupo pode sobreviver. A diversão pode ser até com o fato de sefalar de emoções profundas, causas sociais ou problemas que precisam ser debatidos. Essa característica significa também ter prazer com a própria conteção, por exemplo, um ator que tem uma veia cômica ligada a improvisação manter-se mais concentrado e introspectivo em determinado contexto.

Quando o ator como indivíduo perde essa capacidade de se divertir, de experimentar e de errar, se leva tão a sério que acaba entrando em jogos e poder- eu devo te agradar, inclusive querendo parecer informal, aberto e livre. A diversão pode ser mantida quando nos permitimos valorizar os outros e estabelecer com eles trocas criativas pressupondo que todos são interesantes. Quando estabelecemos essa comunicação além das hierarquies e comparações podemos nos divertir e o público percebe que ele também faz parte dessa grande aventura prazerosa e inovadora, ainda que a peça seja Hamlet.

Algo que considero fundamental é a generosidade. Significa desfazer o mundo como ele está, quebrar o medo e o autoritarismo do mercado. A competição da sociedade está minando nossa capacidade de criar e ser ator tornou-se ser "boneco" radical, falar frases de efeito para parecer rebelde e seguir todos os métodos antigos (principalmente a vanguarda, Grotowski e a desconstrução) para ser aceito e fingir para saber quem será o ator mais brilhante. Isso não tem nada a ver com arte.

Quarta-feira, Maio 23, 2007

JG

"... manifestantes também interromperam serviços públicos e tumultuaram o trânsito...

...A violência foi o método escolhido por manifestantes que tentavam, em São Paulo...

Um grupo radical de militantes – entre eles alguns ligados ao mesmo movimento que já invadiu laboratórios de pesquisa e atacou empresas privadas do agronegócio – tomou de assalto a sala de controle da segunda maior hidrelétrica do país, a de Tucuruí, com uma extensa lista de reivindicações. "
http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20070523-282732,00.html

CUT

"A campanha da Fiesp, com o apoio da OAB-SP e da Rede Globo é de que fiscal não é juiz. A CUT, a CGTB e o conjunto dos movimentos sociais estão aqui para dizer que o trabalhador não é empresa, que quer acesso aos direitos constitucionais e à CLT, e que não vamos admitir qualquer tentativa de extinção ou flexibilização de direitos", afirmou o presidente nacional da CUT, Artur Henrique da Silva Santos.

O líder cutista frisou que "é preciso que a sociedade saiba o que é a emenda 3, e parar isso é necessário que os companheiros se comprometam a fazer assembléia em suas bases, ampliar a comunicação e a informação".

A verdade, como registraram os manifestantes, é que a emenda 3 agride o mais elementar, o mais primário, o mais primitivo direito que um trabalhador pode ter: simplesmente, o de ser reconhecido como trabalhador. A emenda transforma o empregado da empresa em "pessoa jurídica", o chamado "pj", "empresa de uma pessoa só", prestador de serviço sem registro em carteira e, portanto, sem acesso a nenhum direito.

Ou seja, em vez de relações trabalhistas, teríamos relações entre empresas, onde não haveria mais patrões, mas "clientes"; nem empregados, mas "prestadores de serviço".

O problema é que uma das "empresas" é composta por um único trabalhador, colocado à mercê da outra, a quem é dado o direito de ignorar os direitos do trabalhador, pela negação de sua existência, ou seja, pela farsa de considerá-lo uma "pessoa jurídica".
http://www.cut.org.br/

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Festival Palco Giratório do Sesc Porto Alegre

Desde quando a arte é apenas isso?
Vida, o Filme, é o meu favoritíssimo livro de Neal Glaber, jornalista americano, que coloca em foco a política do entretenimento, uma sociedade em que todo mundo se diverte e poucos governam.

A peça, Vida, o filme, do grupo "Os Desequilibrados" faz uma adaptação deliciosa do tema. Alguém disse que achou um besteirol. Não, na verdade é sobre o besteirol. É criativa a forma como essa nova e quase única "cultura" global - os filmes que todos vimos, o único assunto que nos une- penetra na cena causando choque, riso e reflexão. Tudo bem, tem gente que não vai entender, mas a arte vai salvar o mundo. Pelo menos não todo o mundo.

Sim, eles repetem a bendita frase "Eu sou Adam, príncipe de Etérnia" mil vezes.
Mas a brincadeira sobre realidade ficcional ou ficção real é retratada de mil formas inteligentes: num debate sem fim sobre filmes, tantos que já misturamos esses estereótipos todos, em um debate entre "Ficção-Nietzsche" e "Realidade-Platão", numa falsa cena de Beckett, num reality-show sobre ninguém, num telão mixando cenas real e fictícias, etc... Soluções técnicas interessantes, desde o palco nu, até luzes de camarim na roupa e um uso muito razoável do telão, como na seqüência "a- vida- é- um- clichê" do amor fracassado.

Os atores, Cristina Flores, Saulo Rodrigues, José Karini e Ângela Câmara brincam de modo consciente e dão o tom certo do deboche no pop.
Hoje, quando todos ainda querem fazer Beckett, e quando o movimento de Grotowski se tornou
um efeito mecânico sem alma, é essencial esse arejamento de cena e de texto. Salve e salve Daniela Pereira de Carvalho e Ivan Sugahara por escrever algo tão crítico e divertido.
O final, com uma música de Sandy e Junior, é hilário.
***
Macbeth, do grupo Amok foi recebido com entusiasmo pelos porto-alegrenses. Os textos clássicos são quase uma obrigação de se gostar no meio cult e Lady Macbeth é mesmo um dos personagens mais queridos, e mais atuais. Parece que será deputada.
O grupo usa um figurino deslumbrante, oriental, movimentos trabalhados, um som no palco que cria um ambiente mágico. Ainda assim o início da peça é lento.
Nosso ritmo hoje é outro e é um desafio nos clássicos manter a atenção do público. Numa era de compreensão imediata, Shakespeare precisa de um Dj.
Em alguns momentos não se entende bem o que os atores dizem, em especial o protagonista Stephane Brod, francês (vale ressaltar que sou português é bom, parece português).
Mas do meio para o fim- um pouco pela qualidade do texto de correr a ação após a coroação- a peça ganha ritmo e tudo chama atenção.
Então os elementos todos que o grupo traz- som, roupas, corpo- se unem e fazem um final dos mais interessantes.
Grande destaque para Ludmila Wischansky, a Lady. A direção poderia ter modernizado alguma coisa na sua atuação, que é a de um ator só em cena, mas a atriz tira disso o melhor.
A peça foi aplaudida de pé e é viva e interessante, mesmo eu achando que poderia ousar mais, principalmente na desnaturalização da ação e na velocidade.
Entretanto montar Macbeth de modo integral, colorido e sem nos deixar dormir é por si só um sucesso.

***
Esse Gota d´Água do grupo Breviário eletrizou o público de Porto Alegre. Apesar do erro técnico de não explicar que os lugares não seriam numerados, e de encher o teatro com mais pessoas do que as que poderiam ver bem.
Todo o elenco é protagonista e nos prende desde o início: a macumba ganha de cara a atenção do público.
O texto é o que é e os atores retiram dele toda a graça. Georgette Fadel é uma das maiores atrizes que já vi em cena. Sua Joana faz movimentos de umbanda e aparece como uma estátua da depressão na primeira cena. Suas últimas falas bombásticas com o fraco Jasão acabam sendo repetitivas, mas talvez seja um excesso do texto. Ficamos do lado dela, o tempo todo.
Algo incrível acontece quando os atores estão presentes. E, num mundo onde todos qureem agradar, alguém presente é cada dia mais raro.
***

Valsa n. 6 é o tipo de peça que todos querem ver. Uma clássico, uma ousadia dentro do teatro nacional.
Mas não basta hoje fazer algo correto. O corpo contemporâneo é dominado por movimentos de comprar, trabalhar, teclar e gozar. O palco exige algo novo.
O corpo no palco tem de se livrar da vontade de agradar. Tem a ver com ética, com abertura e generosidade para com o público e- se tiver- com o grupo. Porque a idéia mesma do ator é de se expor, expor sua fragilidade, e para isso vence suas resistências.
Infelizmente se faz hoje muito teatro para. Para fazer um clássico, para ser ator, para ser belo.
Marina Oliveira tem sensibilidade e, principalmente no final da peça, cresce.
Sentimos que ela ficou um pouco sem tempo, precisava de mais tempo para falar e para penar em cena sobre essa coisa esquisita que se chama Nelson.
O palco é outra vida do texto. Um texto que está em vida precisa de cores novas.
Valsa n. 6 agradou o público na sua estréia nacional. Mas esperamos mais.

***

Quinta-feira, Maio 10, 2007

Papa, palco e papa

"Vamos aclamar o Paaaaapa! Ele está descendo do papa-móvel!!!!"

Celebridade total.
Qualquer europeu ficaria envergohado de ver na sua TV essas pessoas dizendo "É um milagre! Viajei 300 mil quilômetros para ver esse santo!"

Fico um pouco assustado quando vejo essa histeria toda em 40 mil jovens no Pacaembu... Onde foi parar a "igualdade" cristã?

***

O Festival Palco Giratório ocorre aqui em POA logo antes do Porto Alegre em Cena. Para todo mundo que soube de outros estados e países isso é um ponto para a cidade, significa diversidade e aceitação do público. Mas vários grupos têm dito que "quem vai no Palco não consegue ir no POA em Cena..." Ou ainda: tenta-se uma inscriçaõ e não se consegue, nem por e-mail, nem por telefone...
Uma pena, quando o lado grosso do gaudério supera o bebedor de chimarrão em roda.

***

Por uma bênção do Bom Deus, está acabando a papa televisiva do Profeta: até a última cena dramalhão (agora com uma mãe morrendo do coração...)
O que levou a esse humor de caipira na lama (onde a coisa mais emgraçada era um cara falando Gizéli) temperado de "Deus nos deu um dom para fazer o bem" deve ser anos e anos de má educação pública e política comercial de jornal... Mas sempre tem a vida eterna...

Quarta-feira, Maio 09, 2007

“Agora o Papa desce as escadas! Agora o Papa entra no salão!”
10 minutos esperando subir no helicóptero...

Quando o comentarista Padre tenta explicar algo sobre o contexto, o jornalista- robot corta: "Agora o helicóptero decola!"

Segundo o comentariasta o Papa está desejando “estar mais junto das pessoas”. Bem, talvez por isso a Globo tenha escolhido esse tom bajulador, monocórdio, em que todo o Brasil se torna católico E praticante...

Nem de leve se pode pensar que a verdade é tentar estancar a sangria de fiéis, botar a Teologia da Libertação como fora da lei e a Globo odeie a evangélica concorrente...
De repente Ratzinger deixoude ser o conservador que assusta a todos nós, mais ou menos cristãos...

Seu discurso sobre a família só não foi mais tedioso porque contou com o apoio incondicional do presidente: o que significa? Que todos devemos voltar ao século XIX e viver uma vida toda juntos fazendo papai e mamãe para procriar?

Domingo, Maio 06, 2007

Desesperados padrões

Legal: vamos ter nossas próprias donas de casa desesperadas, em versão para o brasil da série americana de sucesso "Desparete Housewives".
Isso levante aquela velha questão: a Tv terá ainda menos espaço para criação inteligente?
Lebro-me de uns anos atrás um diretor comentar que tentou mudar um cenário de um sonho (que era ridículo na versão brasileira, pois, para começar, ninguém ia comprar pasta de amendoim na esquina) e quae foi processado.

Há anos vem o "perigo" de que as novelas (ruins, mas nossas) sejam substituídas sem volta pelas séries (ruins e deles). Claro, teoricamente o mercado está aí e ganham os mais aptos.
Mas se perde em diversidade...

Senão, dá uma olhada:

"Há, contudo, desvantagens na padronização. A filha da divorciada atrapalhada Susan, que no Brasil é Susana (Lucélia), vai à escola com saia de prega xadrez, malha com gola "V" sobre camisa branca, sapato de couro e meia curta, uniforme tipicamente argentino."

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0605200706.htm

Sábado, Maio 05, 2007

Carina Martins desaparecida...

Eu li essa nota em um jornal local:

"Permanece o mistério quanto ao sumiço de Carina Martins, a colunista do site Zapeatrix, um dos mais lidos na internet. Seu carro teria sido achado no dia 2, na cidade de São Francisco de Paula, na Serra gaúcha, mas a polícia não confirmou o caso. Um morador afirma ter visto um enorme adesivo da série House no vidro.

Carina havia desaparecido após transferir seu blog do Ig para o Uol. Os internautas, nervosos, levantaram a hipótese de que ela poderia estar sofrendo de depressão.

Boatos surgiram em diversos blogs sobre seu desaparecimento, inclusive um boato sobre seu envolvimento com o estilista Ralph Lauren. Outras fontes sugeriam que ela passara a ser investigada pela CIA, por ameaça a segurança nacional com ‘reflexões inapropriadas’, segundo um suposto relatório.”

Lembrei do boato que li na rede:

"Segundo se diz, os dois se conheceram em um evento promovido pela marca para os jornalistas brasileiros, no lançamento de seu novo perfume. Ralph Lauren estava trabalhando com a Disney para uma série de TV onde se ensinaria as pessoas a viverem felizes. Mas a mensagem subliminar seria bem outra. A série começaria com os personagens em férias em Miami dizendo: 'Então, cabe a nós acabarmos com os ditadores do mundo e possibilitar a todos entrar na Caverna do Dragão'.

A publicidade de lançamento, na TV, conteria a seguinte narração: 'você precisa de um cenário novo para sua vida: lojas. Você precisa saber usar essas coisas de cinema: colunistas. Crie sua vida como um desenho animado.' Carina Martins teria descoberto que o estilista tivera encontros secretos com elementos do governo americano."

Eu me lembrei de uma entrevista que vi da Carina no You Tube:

"Sabe, temos de nos defender contra a idiotice global. Será que todas as pessoas vão ficar iguais? os caras fizeram uma guerra de ficção, uma não, duas. A Union Oil da Califórnia está construindo um oleoduto ligando Turcomenistão ao Afeganistão.

No jornal The Guardian de 26 de dezembro de 2001, foram divulgados detalhes específicos de um plano de uma guerra contra o Talibã, que seria tirado da gaveta depois do 11 de setembro. O NYT de 26 de maio de 2007 diz que Clinton queria acabar com o Talibã para enfraquecer a influência iraniana na região".

Será que os caras pegaram ela?

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Vamos matar Vinícius

Não sou um grande fã de Gal Costa, mas ela brilhou no especial Som Brasil Vinícius, uma pérola do bom mocismo que a Globo Apresentou em um horário de alta madrugada, depois de uma semana com divulgação maciça. depois de tanto anúncio, pensamos que podia abrir uma porta na programação de Ibope para algo de qualidade. Não mesmo.

Arriscar é coisa do passado. Fomos presenteados com Chico Pinheiro, um belo rapaz que deve ser apenas muito tímido, mas contou mornamente dois atos e, no terceiro, pareceu se comover, mas quase nada se ouviu. "Desafinado", se isso significou voz de sussurro amoroso, é pouco. Sua camisa punk-fina era o símbolo de tudo que foi esse show: um alternativo minguado.

Cris Delano e o grupo BossaCucaNova ou algo assim, apresentaram uma roupagem toda moderninha, que parecia pronta para empolgar, mas então ela soltou meia dúzia de "tik-tim-tá" e ponto. Parece que faltou mesmo aquecimento para todos, e só implacou também na terceira música, para dizer apenas "she doesn´t see" meia dúzia de vezes, com um Eddy Motta salvador da noite, sendo ele mesmo de novo, pelo menos original. Era “alternativo”, mas faz muito tempo.
A tal Tatiana Parra fez uma pequena apresentação, mas estava ótima. Algo aconteceu com essa nova geração, talvez seja Xuxa demais ou Mortal Kombat. Estão todos mortos.

Mas aí alguém lembrou que chamar a favela é sempre legal, e colocaram lá um grupo formado pelo bonito Terra Negra, o animado Pael da Rima e Criolo Doido, ou algo parecido. A roupagem rap funcionou bem quando cantaram Vinícius, só que de repente alguém puxava um "as pessoa não se falam/ e dizem que/ nem Cristo agradou/ todo mundo (mano!)/ saca só a rima/ você acha mesmo que é igual ao Salvador?" Bizzarro. (A graça da noite ficou com uma frase auto-irônica do Doido alguma coisa: "Só a arte pra me fazer vir aqui".)

Teve mais alguém? Ah, o filho do Baden Powell, ele também um belo e talentoso jovem. E foi isso.Ficamos com a voz sempre sempre Gal, só que com uma verdade que faltou no resto. Tristezinha verdadeira para dizer: "eu ameeei."

Por um lado, somos como que "educados" a gostar desse "gênio da nossa música", por outro a esterilizarão do "bom gosto" urbano nos dá a sensação de deja vú, de "de novo Vinícius?"
Até o cenário era dessa gélida modernice: raios que lembravam violão (raios!) e uma luz ambiente"lounge".
Muito chic, como os vestidinhos de estampa de vovó das gurias backing-vocal-almost-famous de Pinheiro.

Sem falar de uma Patrícia Pillar, claro, em panos coloridos, apresentando o non sense de "hoje temos Gal Costa" : "trizteeeeza não tem fiiiiinnnn", "rap" :"aí galera, o morro não tem vez!", "e Bossa NovaCuca": "pa-ra-ra-rááá!!!", "e como eu ia dizendo"....
Ficamos com a impressão de que nada de novo e autêntico se faz no Brasil, ou que não chega na TV, só o que é novo e (e fica) velho. Pelo contrário, um politicamente correto desagradável e comestível.

Algo como o "Novo Festival Brasileiro" de uns anos atrás que só tinha baião, rap e um cafona-MuitoProdutorBrasil. Festa estranha, com gente esquisita. Talvez seja a coisa paulista de ir sempre na mesma cidade e nos mesmos lugares, ou a nobreza carioca do "Tijuca music circus".

Lembrou um pouco o fato de não ter aparecido a morte de Elis no super super especial especial "Elis, a super rainha do rock", segundo o produtor porque "todo mundo já sabia dessa história desagradável", parecendo, entretanto, que estrela morrendo de overdose era "real" demais para os novos "deuses" e o público "médio". Será?

Respeito demais dá nisso.
A arte só vive de ressurreição, é sempre um “em potência”. O poetinha também é um gênio “em potência”. Infelizmente, Vinícius permaneceu bem morto.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Adeus ao Urso...

Em mais um furo de reportagem o Jornal da Globo acaba de mostrar o "mais divertido político do século XX", Boris Yeltsin...

Entre uma explicação inacreditável de que ele estava fadado ao comando porque na URSS uma vez é dos cabeludos outra dos caecas (não é piada!) e toneladas de imagens sobre um presidentes "capaz de fazer os outros rirem", foi falado da "maior rapinagem com empesas públicas" que deu lugar a uma "oligarquia".

Ai, ai, assim como a Vejam Só, a euforia da "capitalização" impede que se fale sério... é a nova política: feita de informações banais...
ajr

2-
É uma atrás da outra, na linha duríssima do JG. Quando parecia impossível ser mais neoliberal, hoje se ouve:
"a GM foi vítima de um coquetel de exigências trabalhistas" e perdeu a liderança mundial para a Toyota mesmo tendo demitido "70.000" americanos em 2006. Rapidamente se comenta sobre o fato da empresa japonesa criar carros "menores e mais econômicos" além de um modelo híbrido (elétrico-à gasolina) que agradou a nova mentlidade dos consumidores...

A culpa? "Custos trabalhistas..."
Ou seja, a visão é tão dura que não muda um centímetro, mesmo quando a relidade parece contradizê-la... Qualquer busca na internet mostraria outra coisa. Por exemplo:

"As grandes firmas nipônicas vêem-se mais como comunidades do que como propriedade dos acionistas. Esta comunidade compreende os acionistas, é óbvio, mas também os empregados, os clientes, os fornecedores e os credores.

Antes de maximizar o valor “líquido” – credo americano – os proprietários pretendem equilibrar o interesse comum da comunidade, a fim de assegurar o sucesso da empresa no longo prazo."


Crescimento sem ortodoxia, Sanford M. Jacoby

http://diplo.uol.com.br/2006-05,a1303

Ou querem nos esconder coisas, ou não quer fazer buscas... jornalismo....

- Ah, teve ainda a "CPI" do "caos aéreo"... e
"a reforma da educação proposta pelo governo é um consenso nacional (um elogio?)
blábláblá o PAC - que ainda não saiu do papel (ah, não, era só introdução...)

ajr

Quinta-feira, Abril 19, 2007

A forma errada de resolver um problema


Entradas sejam reforçadas, com guardas de segurança e detectores de metais: impossível ou eficaz nos centros educacionais que tentaram a medida.
Longas filas de espera para assistir as aulas, guardas com pouca formação, que muitas vezes são agressivos, maior sentimento de hostilidade.
Presença de seguranças quase decorativa.

Será que o fim da proibição do porte de armas de fogo, como sugeriu a "Liga da Defesa dos Cidadãos da Virginia" seria mais eficaz? Duvido...
O fato é que nosso assasino tem um manifesto.

- "Tão logo ele começou a ler, toda a turma começou a rir, a apontar para ele e a dizer, 'volte para a China"

-"Só existiam alguns que realmente perseguiam ele, eram maus, derrubavam ele no chão e riam"

-"Ele realmente não falava bem o inglês e eles faziam piadas."

Não seria o caso de se perguntar por que motivo os estudantes são tão infelizes?
Não seria preciso tentar evitar a competição, incentivar um convívio igualitário, tentar aproximar os "diferentes" numa sociedade cada vez mais multicultural?
Seria preciso rever a ética individualista e/ou dos grupos por classe?
Não, melhor mais estereótipos...

Zbigniew Brzezinski, ex assessor de Carter para Assuntos de Sugurança Nacional, em 1997 já recomendava:

"uma ameaça exterior direta de proporções verdadeiramente maciças e escancaradas". (Gore Vidal, 2002)

Lembremo-nos do "manifesto" dos intelectuais europeus, entre eles Salman Rushdie, segundo o qual

"O islamismo é uma ideologia reacionária que mata a igualdade, a liberdade e o secularismo em qualquer lugar onde está presente"...

Há quem discorde:
"A lógica desses críticos é que os americanos primeiro incentivaram governos ditatoriais seculares, que por sua vez sufocaram a oposição. Agora que os americanos começam a forçar essas mesmas nações a promover uma abertura política, o único movimento que sobreviveu com força para reagir foi o religioso."

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2006/02/060224_islamismoocidenters.shtml

Terça-feira, Abril 17, 2007

Tiros, de novo...

Uma coisa que sempre me assusta nesses "crimes na escola" é a surpresa dos envolvidos. Um entrevistado atrás do outro diz: "Não compreendo..."

"O senador Jim Webb, do Estado da Virginia, disse que o tiroteio foi um 'ato sem sentido".

Uma vida "suave e saudável" de subúrbio como diz Luiz Fernando Veríssimo no prefácio do livro de Gore Vidal (Sonhando a Guerra, 2002). "(A Associação Nacional dos Rifles -NRA) é responsável por mais mortes de americanos do que qualquer inimigo do país".

Outra coisa incrível é a confusão e despreparo dessa Universidade, dessa polícia. Será que no mundo perfeito nada vai acontecer?

"Alguns alunos reclamaram que não foram alertados pela universidade até receberem um e-mail mais de duas horas depois do primeiro incidente.

Não foram feitos anúncios no sistema de alto-falante, disseram. O estudante Billy Bason, de 18 anos, disse: 'Eu acho que a universidade tem sangue nas mãos por falta de ação depois do primeiro incidente."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/story/2007/04/070417_virginiashootingg.shtml


Tirando o Jabor, que conseguiu dizer que a "a razão é uma frescura francesa como escargot, se finit", e pregou que "loucura não se explica", esses horrores mostram as contradições que a sociedade não consegue esconder: Bush, financiado pela NRA diz que "Quando tais santuários são violados, o impacto é sentido em toda sala de aula americana e em toda comunidade americana".

Sempre me impressionou também a violência silenciosa de um mundo onde os "inteligentes" e os "ricos" são glorificados, a solidão dos estudantes, a competição, etc.

Segundo Ballone GJ - Depressão na Adolescência -

"Algumas pesquisas também mostram que cerca de 20% dos estudantes do 2º grau sentem-se profundamente infelizes ou têm algum tipo de problema emocional.

Talvez seja porque o mundo moderno esteja se tornando cada vez mais complexo, competitivo, exigente, e muitos adolescentes têm dificuldades para lidar com as necessidades de adaptação que se deparam diariamente. "

in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2004

Ainda:

“Os europeus se mostraram relativamente felizes e nenhum país ficou abaixo da nota cinco em termos de felicidade ou de satisfação com a vida. A pesquisa mostrou que a confiança na sociedade é muito importante”, afirmou Luísa Corrado, coordenadora da pesquisa na Universidade de Cambridge. (...)

“Os países com índices altos de felicidade também obtiveram os melhores níveis de confiança em seu governo, suas leis e sua sociedade”, disse ela."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/04/070417_felicidade_am.shtml
Hedonismo pós-cristão de "Roma"

Diz Contardo Calligaris na Folha dessa quinta, comentando a série de TV "Roma": "somos demasiado preocupados com nossa sobrevivência para sermos hedonistas."É verdade: seríamos hedonistas se não estivéssemos pensando em ganhar pra viver, em pagar educação, saúde e cultura, privadas, agora.

Nascí quando Madonna era a Nova Nossa Senhora.

Saturado, portanto. Prazer para minha geração é também servidão a produtos"mentais" de uma empresa...

O problema não é o prazer, claro (de que serviria a vida sem ele?) mas esquecer que participe você ou não existe uma estrutura no mundo, e alguém está decidindo algo sobre seu futuro. Sobrevivência significa: alguém não está cumprindo o que devia cumprir-seja o governo, dominado por grupos minoritários, seja empresários, com isenções de 900 milhões como a Gerdau, seja a ONU, no Iraque, etc.

"Somos higienistas, isso, sim. Mas não hedonistas." As nossas empresas querem de nós uma moral bem rígida, controle e produtividade. Roupas adequadas, aparência, para entrar no "mercado". Não se trata de um marxismo chato, onde primeiro vem a revolução, depois a vida, nem de catolicismo medieval, onde o sexo destrói o mundo, mas de lutar pela capacidade de entender a raíz do hedonismo sem paz.

O bom hedonismo, para mim, surge do prazer do convívio- com outros, com paz, com sexo.

O mau hedonismo é uma repetição compulsiva que esconde um medo e uma paralização de compreensão, ação, criação. "No logo", urgente!

Não se trata de uma moral cristã asfixiando a vida, mas de uma ética prática e diária de preservação e cuidado, quando nosso poder se tornou grande demais e nosso anonimato mútuo permite atropelar sem ver (quase me pegam esses dias!), queimar índio e atirar em 33.
(Um desses atiradores de 15 anos passou a vida toda ouvindo de seu pai "você é um perdedor, porque tira notas baixas- era depressivo- e quando matou sua mãe disse- "para você não ter vergonha de mim").

Podemos criticar a religião pela castração, mas uma educação para a sociabilidade fez e faz falta. Se não somos nada para ninguém- no ninguém da massa metropolitana- queremos nos sobressair pela competição, pelo exibicionismo, quremos roubar a atenção pela excelência compulsiva. Se ninguém me pára, eu posso tudo. Viva o hedonismo comunitário!

Segunda-feira, Abril 16, 2007

E-mail para uma artista...

"... Um artista nunca pode perder o centro, ou seja, a percepção do que realmente importa na vida, a delicadeza, o contato com as pessoas, a simplicidade, a ternura. Você sempre foi uma menina sincera, estudiosa e sensível.

Todos nós, artistas temos o desafio constante de desenvolver nossa sensibilidade e criar uma linguagem própria nossa, única, um canto autoral. Quando uma individualidade se forma, um universo se abre, todos percebem que podem mais.

Para isso, você sabe, temos de alimentar o espírito sempre, limparmo-nos da repetição e da distração ativa, tornarmo-nos maiságeis e mais sensíveis, com outros artistas, filmes, estranhos, poemas, gente nova, principalmente gente fora do nosso contexto. O que sente uma menina da Cidade de Deus?

Recomendo ardentemente Cartas a Um Jovem poeta do Rilke, pela questão da sensibilidade; qualquer coisa da gravadora Fayga Ostrower, que nos fala da arte como retomada do humano; Memórias, sonhos e reflexões de Gustav Jung, um relato da luta de "um homem consigo mesmo", e também Clarice Lispector, qualquer coisa... Um intelecto que é molhado e quente. Pensar ventre.

A arte, exige recolhimento, reflexão, pois tem de entrar para sair. Temos de vencer a barreira da máscara social, do querer agradar, para mostrar nossa fraqueza, nossa verdade, é só aí que pegamos o outro. A arte é, antes de tudo, uma postura ética perante a vida, um criticar, um propor. Precisamos ser ousados, pois o mundo nos exige, mas precisamos ter uma voz única, isso leva tempo mas é o único caminho- para dentro.

Semessa construção não formamos um eu, e tudo vai com a onda. Um artista só permanece se ele falar com um gesto inédito: isso significa, dobrar-se sobre si mesmo e o mundo.

Como as pedras ou as amplas paisagens, isso leva tempo, silêncio, espera. Um mestre da dança Butoh japonesa, Kazuo Ohno, veio a Porto Alegre: olhava no olho de todas as pessoas.

Eu vejo que você está lidando muito bem com todo esse barulho da necessidade de colocar-se, e sei que compreende o que eu digo. Dentro de você existe uma coisa verdadeira, e não deixe que o turbilhão faça lhe evitar o ato verdadeiro.

Eu não falaria isso se você não fosse uma artista. Uma grande artista, porque tem olhar.

Espero que perdoe esse meu lado conselheiro, mas me senti à vontade por compartilhar desse difícil caminho que é enfrentar nossos medos e por isso poder ter uma alegria verdadeira, que contagia o público.

À luta, companheira :)
! beijão enorme.
ajr

"Eu penso que há algo em comum entre a energia de nascimento de uma vida e a do nascimento do Universo. Existe uma força centrípeta entre mãe e filho , como entre o Sol e os planetas do sistema Solar. Tudo oque existe nesse mundo é ligado profundamente com o Universo. "

Kazuo Ohno
Kill Bill

Bem, começo minha saga pelo KB - que a Globo fez o favor de me entregar em casa- vendo uma moça usar uma caixa de cereais para lançar uma faca e ser morta por outra. Eu acho que a grande sacada para se assistir a esses filmes é estar preparado para uma "piada" ensanguentada atrás da outra, uma espécie de fecho pelo sangue de toda cena. Personagem é ação. Gente é figurante. Diálogo, ação, morte. Eu não estava preparado.

Se fosse apenas lixo, como Power Rangers ou filme de kung-fu, ninguém ficaria tímido para dizer que achou pretensioso e banal.

Mas vejam bem, não é siplesmente trash! É um diretor "brilhante" trabalhando com elementos da cultura de massa, que ele bebeu na mamadeira, é um símbolo cult da minoria chamada nerds-todo-mundo que sabe de cor os episódios da Jornada nas Estrelas. Claro, todos nós vivemos de seriados e novelas, isso que nos permeia de todos os lados. Não é pecado a diversão,
mas até a diversão merece um pouco de distanciamento.

O filme parece ser uma série de "referências", permeadas pela bela fotografia e um enredo frágil, mas didático, que corre fácil. Antes de ser uma originalidade em cima de elementos pop é mais um, sem muita novidade. A novidade é a roupagem "rica". É um filme, no fim, de imagens, um filme onde cor e contraste são o roteiro.

Como disse Michel Laub - BRAVO! edição nº 78 (março de 2004):

"Um certo esteticismo já dá o tom aqui: com sua ausência de referências políticas, reflexo do fim da era das ideologias, e sua dedicação à metalinguagem e às paródias, resposta ao make it new moderno, o pós-modernismo chegava às telas em larga escala. Cães de Aluguel se abstém de traçar painéis e julgar." http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=783

A cultura de massa deixa de ser culpada e passa ser a "cultura" de onde se tira a cult-ura. Um mundo sem trocas, sem grupos, mas com Tvs e internet. Quando não há como sair da redoma, você se fecha ainda mais nela. Uma incapacidade total de entender, relacionar, refletir, politizar, mudar... Adolescência eterna...

QT é o mestre das artes que parece conhecer todos os diretores, todos os filmes banais da história. Talvez seja só a mídia e os "intelectuais" querendo um "novo nome"...

Os filmes originais de kung-fu, têm algo de humor que é a velha fórmula oriental da harmonia dos opostos: é bom um pouco de açúcar no sal e um pouco de verduras na carne, pois eles se misturam e formam umtodo mais completo. Humor (sem graça) no drama é uma das coisas que mais me irritava nos animes no início...

Os "seriels killers" asiáticos, assim como os animes, são desenhados com um tamanho "deboche" que não se pode ter neles mais do que um rascunho zen ou uma máscara Kabuki: é a essência, mas caricaturizada, simplificada, tornada geometria.

Você não pode levar a sério, mas ele também não se leva a sério (sou cultura de massa, e ponto!)... (Ou talvez, na nossa cultura secular liberal, cínica, o que é aceito como "arte" por outros grupos seja impossível, como as cenas mitológicas de serpentes e homens musculosos do palácio de Saddam Hussein, para nós, horror kitsch!)

Mas Tarantino parece fazaer as coisas com ar de "arte" (nos EUA, muita coisa já foi levada á sério....) Ou, pior, assim como juntar milhões de sacos de lixo em uma esquina, não é simplesmente arte, mas "arte pós-moderna", explicada por Foucault.

A diferença para "Pequena Miss Sunshine" é evidente. Ele "vê de fora"... Cortar a cabeça de um membro da reunião, um braço, 450 galões de sangue falso, parecem uma piada ou uma reflexão? Não sei ...

Referências pop fazem parte de nossa vida no mundo-ficção, mas elas precisam- mesmo que desordenados, mergulhados no caos - de um material ético, crítico, ou caem na mesmice...

Talvez depois do 11 de setembro, a violência tenha entrado na vida cotidiana dos consumidores de entretenimento de forma a redesenhar a contúnua fagocitose do "marginal" pelo "estético"...

O diretor disse em entrevista a Bravo:

"Sempre gostei de filmes sobre vingança, da simplicidade deles, sejam westerns, filmes de kung fu, policiais, filmes de samurai, de detetive.Você estrutura o filme conforme a lista de desafetos que o vingador irá eliminar.
(...)

Na minha opinião, violência é aquilo de mais cinematográfico e divertido que você pode fazer num filme. Não agrada a todo mundo. E nem precisa. Mas, por mais que se discuta isso, para mim as seqüências de ação são as que mais se aproximam do cinema em seu estado puro."

http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=783

Se você vive a cultura de massa e reflete sobre ela, bom para você. Se você é cultura de massa, péssimo para nós...

Quarta-feira, Abril 11, 2007

Orgia, coro e populismo...

Revendo um ótimo site com entrevistas sobre teatro,
http://www.teatrobrasileiro.com.br/
deparei com a explosão do Zé Celso.

Uma pessoa totalmente consciente, percebendo tudo, o tempo todo.
Na entrevista ele fala da época da ditadura, de como criou suas peças, mostrando por que é tido como um revolucionário que fez Artaud e Brecht cantarem o tropicalismo. Quando ele detona a elite industrial e intelectual de São Paulo, "não estávamos educando o povo...", me lembrei do meu amigo inglês que acha os brasileiros pedantes e questiona afinal porque a USP é tão francesa e a Bienal by "Internacional"...

Dá o que pensar pensar que hoje quase ninguém tem coragem...
Há um mundo de cópias, cópias de cópias, e uma linguagem pessoal é raro...
Como diz um amigo meu, você vai ao teatro e vê o estilo Antunes, Zé Celso, Terreira, Butoh...
Não deu pra não copiar alguns trechos:

****


Folha - Exceto pelas drogas, os tabus contra os quais seu teatro se insurgiu foram destruídos. A família patriarcal não existe mais, a repressão sexual é tênue, o capitalismo é quase consenso. Você não vê o risco de estar arrombando portas abertas e, por outro lado, estar dando murro em ponta de faca?
Zé Celso - Não estão abertas. Eu sinto uma censura enorme.

Folha - Pelo lado econômico. Mas que censura moral existe?

Zé Celso - Mas é evidente. Nenhum banco vai financiar uma peça em que uma pessoa do público é ''estraçalhada''. Não faz.

Folha - Mas por razões muito mais econômicas do que morais.

Zé Celso - Não, imagina. Por que financia uma peça qualquer? A peça não existe, passa. Vai ficar a marca do banco. O importante é a marca, e a marca está ancorada numa visão tradicional. Existe uma censura nítida. ''Não, não condiz com a imagem da nossa empresa.'' E a imagem da empresa condiz com alguma coisa. Com uma noção de Deus, de bem, de ordem. E as pessoas colocadas, empregadas, numa sociedade em crise social como esta, é evidente que farão tudo para se manter. E isso implica acreditar que é eterna esta situação. E não é eterna.


Jornal: Folha de São Paulo. Domingo, 31 de agosto de 1997.
Cadernos: Mais! Pág. 5-4, 5-5, 5-6, 5-7 e 5-8.
Entrevista Concedida para Nelson de Sá e Otávio Frias Filho.

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Des-controladores

Existe uma coisa que anda me incomodando faz tempo...
O estardalhaço da mídia sobre o caso "aeroportos" e o silêncio sobre a versão dos controladores...
Até agora não ouvi em lugar algum uma boa explicação sobre isso, parece que a TAM fez overbooking, mas não fica claro...

Senão vejamos: o Jornal Nacional de Hoje teve uma super manchetona de "depois de promover o caos no país..." e a ZH passou um mês com o tema na capa...
(Lula na reta? Pode crer.)

Alguém que leia isso daqui há alguns anos vai jurar que foi o pior problema de década de 2000...
Sei que isso envolve autoridade militar, e uma porção de coisas que não entendo e não estou disposto a buscar agora no google, mas quem sabe há mesmo trabalho extra, stress do vôo caído, ou baixa remuneração, etc... não ficamos sabendo nem de perto quais as reais exigências dos controladores. Será que uma máfia quer derrubar o país? É isso que se insinua, mas será?

E tudo acabou com uma revolta geral, com Lula dizendo "fui traído!" e simplesmente trindo quem ouviu a promeça de não punição.

O caso todo é muito estranho, mas mais estranho é a abordagem da mídia, que nos deixa sem nenhuma informação coerente ao mesmo tempo que insiste no assunto.
Parece querer dizer que a culpa é do Lula, mas obviamente isso insulta nossa inteligência, pois um presidente não governa tudo pessoalmente.
Não sei, só sei que fica a impressão de que algumas pessoas da mídia não andam a pé faz tempo, e tomam um caso sério, mas pontual, como a nova Queda da Bastilha.
Curtas: Inferno Tropical e a Cultura Popular
(já que alguém disse que blog tem de ter título!)

Acabo de assistir meu primeiro capítulo inteiro da novela Paraíso Tropical. Não sei se ela andou mudando de romance bahiano para cinismo urbano, mas achei muito bom. Uma prostituta que não quer voltar a dormir na praia, um pai rico que casa o filho gay, mauricinho que odeia a Lapa, etc.
Pelo menos é um refresco depois do catolicismo militante da "Páginas..." O máximo que a indústria do lazer pode chega rda crítica social...

***

Hoje ou amanhã (quem se importa) vai acabar a Amazônia. (A outra, dizem que é em 2081, e, com isso, eu me importo!) Bem entendido, a trama... constrangedora.

A idéia cafona de fazer um "floresta melhores momentos", em linha reta, mais reta que comercial de margarina... foi incrível ver como, de tão previsível, didática e estereotipada, conseguiam resumir em 30 segundos de comercial... Você assistia o capítulo e não havia nada, nada que fosse acrescentado... "Eu vou lutar pela liberdade" acho que ouvi alguém dizer. Um sacrifício total da forma, da sutileza, da inteligência do espectador... Os anos 70 vieram um dia, mas já era tarde demais...
Como já disse Carina Martins, a TV está mais covarde do que nunca, vide O Profeta (um moralismo alucinante, mas que ganha um pouco pelo enredo estruturado, um alívio depois de "Páginas" e "América", ainda que as falas sejam pobrérrimas, "mamãe, você não vai me deixar, vai?"...)

Mas Amazônia foi cansativa, pedante, positivista, um mar de água doce, se me permitem o trocadilho... Parece que entre o "agradar milhões" e o "cult TV- ainda podemos criar" ficamos tristemente com a segunda opção mesmo onde era um paraíso autoral... ai, ai...
***

Estou relendo com prazer Peter Bruke, Cultura Popular na Idade Moderna...
ele fala sobre o momento em que a cultura de elite se distancia do povo, Reforma, Contra reforma, e acabam os laços comunitários, festas, rituais coletivos, Carnaval e desperdício...
E não dá para não pensar o quanto isso se acentuou com o capitalismo industrial, dinehiro fazendo mais dinheiro e comprando mais "inteligência", tanto que agora há toda um cultura de vanguarda, com gente se "mascarando" de rebelde quando na verdade é pura conformidade, mediocridade e medo de não ser alguém...
Esses dias eu olhava o sinal amarelo e pisei a faixa, onde normalmente ficam carros estacionados, um carro enorme e prateado deu duas businadas enquanto vinha em minha direção, alucinado.

O cara estava com um olhar feroz, tipo "perdi 2 segundos, porra!!!!!!!!!!"

Vi, chocado, um vídeo da cantora (?) Tati Quebra Barraco em apresentação ao vivo na TV pernambucana, onde, quando o apresentador diz "mais uma Tati!" ela responde "Não, valeu!" e vai embora no mais...
É, adeus ao Carnaval...

ajr

Quarta-feira, Abril 04, 2007

Foram artistas, associações, jornalistas, todos dando "apoio" a Sobel. Mas o que significa um "apoio" desses? Ou se trata de um desequilíbrio momentâneo, ou foi cleptomania, ou... ouu... não, não pode haver "ou", afinal ele foi contra a ditadura... ou... não, não ele defende a tolerância... ou, ou... falei! foi um desvio de caráter, sim, porque falar em democracia não é vivê-la.

(E, naquela manifestação de 9 horas pela paz que ele participou com certeza havia muita gente fazendo pose de "classe média ofendida" que quer mais segurança, mas nunca pensou como e por que o governo não tem dinheiro, ou separa o povo feliz do profissional liberal feliz. )

Claro que essa seria a menos agradável, a que mais nos toca, pois será que todos nós temos um vilãozinho alí dentro, louco por Gucci e Louis Vuitton transviados? Será que somos assim tão precários?

Essa foi das pequenas coisas que mostram grandes coisas: alguém falou das pobres crianças que também roubam motivadas não por "desequilíbrio" mas pela sociedade (humm, o mesmo esquerdismo que odeia tudo que não vem da USP...) ; depois, que o próprio Sobel disse ser a favor da pena de morte (mas voltou atrás) e criticou o filme "A Queda" por retratar Hitler como um ser humano (o que é pior é que ele ERA um ser humano! Dormiríamos melhor se fosse um marciano!)
Então, constrangidos por termos sido pegos em nossa fraquesa, e solidários a um homem que teve uma postura ética a vida toda, só nos restaria um silêncio triste. Porque falar, às vezes, estraga tudo:

"Questionado, ainda de acordo com o boletim de ocorrência, Sobel negou ter pego a peça, mas, depois, chegou a se oferecer para pagar pela gravata antes de admitir o furto."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u133615.shtml
FSP, domingo, 01 de abril de 2007

"Na quarta, dez universitários de Guiné Bissau sofreram um ataque em um alojamento do campus da UnB, quando portas de três apartamentos que ocupavam foram incendiadas. O reitor, Timothy Mulholland, não associou o episódio à fala da ministra."

ÃHÃ... então a Ministra incitou o racismo ao dizer: "A reação de um negro de não querer conviver com um branco ou não gostar de um branco, acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso..."
Sinceramente, a Folha parece perder todo o senso quando se trata do governo Lula... Que coisa!

Terça-feira, Abril 03, 2007

Fui assistir o último filme de Woody Alen, Scoop. Não sei qual teria sido minha impresão se não tivesse lido a bendita crítica no mural do cinema. "EntretenimentoX Cinema Cabeça". Bem, sentei na sala sabendo que essa era uma produção menor, uma derrapada do gênio, que muitos não haviam gostado... Prazer culpado, enfim...

Uma das coisas que me fez comprar o ingresso, depois da leitura, foi a conexão com "Assassinato em Manhatan", um filme em ue simplesmente tive de virar de costas para a tela, tamanho o acesso de riso...

A história é simpática, singela, lá está o falante americano agora como mágico. Mas não tem a mesma graça de "Assassinatos". enquanto aquele representava tão bem a briga de casal "sonhadoraX realista" este protagosnista masculino não convence com seu bom senso, apesar de tiradas engraçadas... sim, e ele tem graça suficiente para fazer uma cena no barco grego dos mortos, com Caronte e tudo .... (A mesma maravilha do coro em "Descontruindo Harry"...)

A grande graça é justamente essa, a arte como brincadeira, a liberdade de rir de si mesmo, de escrever "A tempestade" depois de ter escrito "Hamlet". dizem que o último espetáculo de Pina Bausch que veio a Porto Alegre foi criticado por ser pouco Pina Bausch, ser leve, divertido, despretencioso... é aquilo, hoje você compra uma personalidade consumindo os "artistas" do momento... deixem Woody tirar meleca do nariz!

ajr

Quinta-feira, Março 08, 2007

Um Passe de Mágica

"Em todo mundo surge, de vez em quando o desejo de matar, ainda que não a vontade de matar." Essa frase de Poirot em "Cai o Pano" surge como um brilhante resumo dos métodos da grande escritora inglesa Agatha Christie.

Existe um preconceito de fundo romântico que diz que todo livro que não falar de um eu ou dos
sofrimentos de um eu é bobo; outro, de origem modernista, que supervaloriza a linguagem, em
detrimento de o que dizer. Por eses dois motivos o livro de crime sempre é visto como um gênero menor, pois além de tudo gera um prazer real, com a sensação de caso explicado! Amargo para quem pensou sempre que a literatura era uma forma de ganhar status, pelo sofrimento até.
Ou ainda, o assassinato pode parecer aquele gancho fácil, muitas vezes utilizado em novelas, para criar um enredo que parece se sustentar pelo simples "quem matou?". Mas o que poucos percebem é que o texto, de 180, 200 páginas, não atrairia pela simples estratégia do crime. Aliás, em muitos casos, como os dois citados, o crime propriamente dito ocorre apenas em determinado momento no meio da trama. O resto é relações humanas.

Em "Um passe de Mágica" a escritora inglesa cria uma atmosfera de egos em conflito, onde a
ambiguidade humana está toda presente, onde todos poderiam ser e querem ser assassinos. Somos jogados em diferentes direções quando os personagens parecem mostrar uma nova face sempre. A cada página uma nova mudança torna tudo ainda mais desafiador. E, estranhamente, remete justamente ao uso da linguagem tão enfatizado pelo modernismo: quais palavras serão ditas e quais não, para criar esse clima de ambiguidade.
Suas observações críticas - até mesmo ridicularizando os personagens- levantam questões como o sistema das instituições psico-sociais, a rebeldia da juventude, entre outros, que formam o contexto, e aumentam o interesse, para o crime ele mesmo.

Também seria importante compará-la com o método de Sir Arthur Conan Doyle. Parece-me que Sherlock Homes sempre inclui algo que não estava a disposição do leitor que, com razão, sente-se um pouco traído. Então aquele lodo do sapato era das altas montanhas da Escócia? O que nos surpreeende é um segredo bem guardado, mas toda a descrição se dá no exterior. Quando, por exemplo, em "O vale do terror" e "Um estudo em Vermelho" há momentos de romance, isso se dá fora do enredo da história, fora da trama do crime.

A escritora ganhou a Ordem do Império Britânico, merecidamente, já que desvelou as redes de intriga em que estamos mergulhados. Aconteceu comigo de "lembrar" de diversos momentos de dor em minha vida ao ler "Cai o Pano". E, ainda, como diria Umberto Eco, temos a deliciosa sensação de que a vida tem sentido, entendemos melhor o comportamento humano.

Há muito o que se falar da técnica, tão clara no livro em questão, de te envolver com os conflitos humanos até que o crime pareça mesmo desaparecer, herança, quem sabe, de Jane Austen. Porém, esse breve relato é suficiente. Devo confessar que eu havia suposto o truque de "Um Passe de Mágica". Mas o brilhantismo da autora é esse mesmo: você lê até a última página.

ajr

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Bem, acabo de ler sobre a revista ex-gay! Curaram a revista Vênus!

Chegamos a um momento- momento de empresas globais de comunicação captando a atenção de milhões- em que falar, ainda, é melhor do que não dizer: o poder de penetração de um filme de mel Gibson de estragar corações e mentes é fenomenal...

Os argumentos - como o das guerras - ganham pela força simples da repetição...


Vide por Tino Monetti:

"Toda a história começa 13 anos atrás, quando a norte-americana Charlene Cothran, lésbica assumida e militante, resolveu criar a Venus, revista em defesa da comunidade gay afro-americana nos Estados Unidos. (...)


“Mas agora, tenho que sair do closet outra vez. Experimentei recentemente o poder de mudança que vem uma vez que o indivíduo se rende completamente aos ensinamentos de Jesus Cristo. Como crente na palavra do bem, aceito e sempre soube que as relação sexuais entre pessoas do mesmo sexo não são o que Deus pretendia para nós”, completou a editora."


http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/4_149_58105.shtml



Quando a concentração de renda acaba em miséria de continentes inteiros (porta de entrada para a violência e terrotismos), e a super-mídia vende cultura cada vez mais menos, pois temos de agradar todos (videnovelas), a reação é religião de fanatismo.

Se a Igreja resolveu no século XIX lutar contra a modernidade (seja a individualidade, a abertura crítica, a transparência, o diferente, etc.) e retomar um modelo de religião medieval da fé pela fé, justificada pela Razão com R, podemos esperar que as pessoas abdiquem de sua vida para querer seguir regras simples e ter "O Simbólico", algo que liga as letrinhas num texto.

Ao invés da fé absorver a liberdade, retormar ao seu modelo ético de amor, mas sem pensar em regrar todos os modos de vida, reforça-se o terror simbólico contra o caos consumista.

Nada mais sintomático do que isso acontecer nos EUA onde, se a distribução de renda possibilitou troca cultural e riqueza de debates, a "esquizofrenia" simbólica explodiu pela força da "individualidade" empresarial em telejornais "publicitários", produção incessante de modelos universais, mídia conservadora e politicamente cada vez mais presa entre o preto do corporativismo anti-povo e o branco do militarismo anti-verde.

Um hedonismo sem ética do pôrno-pop (Britney Spiers era uma menina triste afinal, metabolizada por comércio de bunda) e um conservadorismo que pretende retroceder ao "vamos fazer por você", são ambos péssimas idéias.

ajr

Gente, o que aconteceu com a novela brasileira?
'Páginas da Vida' foi ainda mais inacreditável do que 'América'...
Eu confeso que quis acreditar, mesmo incomodado pelo excesso de "burguesia" da trama, mas vá lá, ver o Rio em Photoshop é bonito e saber das fofocas das pessoas é legal...

Eu gosto e não gosto do estilo Manoel Carlos, a quem muito respeito: o que gosto é a cronicidade (que às vezes descamba para a tragédia da gritaria sem explicação), ele relata o que vê entre amigos, parentes, etc; o que não gosto são os diálogos de supermercado (me dá duas caixas de leite) e lições de moral (temos de ajudar os pobres e não ter preconceito), além, é claro, do "leblonismo" ao qual me referi...

Algumas pessoas comentaram que o autor estava com problema na coluna, parava a todo instante para se alongar... Isso explicaria a criança que só serve para ficar o tempo todo odiando negros...
Pode ser: a verdade é que nesta novela somente as imagens do Rio convenceram... provavelmente tudo já foi dito por Carina Martins, mas há que se falar dos personagens...

A Sandra de Danielle Winits (mostrando que pode... atuar) foi um caso para Aristóteles descobrir: o primeiro personagem que chega em um lugar e começa e dizer coisas como "vocês não merecem minha presença, devia ter nascido na casa do patrão, eu tenho um marido casado e vou roubá-lo". Um personagem a procura de um autor, portanto... Danielle Winits está de parabéns, pois interpretou o própria falta de lógica, 2+2 são 30.

Lília Cabral se tornou um nome na história da dramaturgia televisiva, mas Ana Paula Arósio foi também liberta dos modelos de linda inocente que lhe prendiam. Pude acreditar nela, pela primeira vez. Pena simplesmente seu personagem não existir além de uma modernice que acabava boba.

Natália do Vale, maravilhosa, teve mais sorte, fazendo a dondoca violenta e mesquinha. Foi ela que mostrou o que é interpretar, ao lado de regina duarte, sim, com minúsculas coitada, esta, coitada, presa nos tais diálogos de café da manhã, coitada. E revira o olho, e mexe o pescoço, ai, estou apaixonada...

Caco Ciocler e Vivianne Pasmanter tiveram de levar um enredo para dois dias durante nove meses... Um problema geral do texto...
Aconteceu que os personagens perderam qualquer lógica, eu te amo mas não te quero... Ana Furtado, com sua personagem quero quero quero um cara que me odeia conseguiu algumas vezes igualar o personagem Sandra no quisito sou maluca-luca-luca e azar o teu. Freud, urgente!
O namoro do aviador e da artista plástica ganhou o prêmio "passeando pela praia e falando que linda lua". Inacreditável. Sônia Braga devia fazer aula de fonoaudiologia, leva uma hora para dizer eu te amo, e acaba com qualquer cena...

A cronicidade virou inutilidade, o enredo virou só motivo, os personagens simples figurantes de sentimentos rabiscados, mais de 100... Fica difícil tentar uma pós-escola de Frankfurdt tentando acreditar em cultura dos elétrons.

O contraste com "Vidas Opostas" é chocante: texto que mostra o contato com a realidade, subversão mostrando policiais envolvidos no crime, o lado do povo, etc., mesmo que eu ache a violência fácil uma isca fácil pra um suposto ibope que não veio...

Disse a musa da TV: "a opção narrativa é tão pobre, paupérrima mesmo, que mina as duas pretensões do folhetim – a dramaturgia e o merchandising social."
http://zapeatrix.blig.ig.com.br/

Infelizmente, apesar do respeito que se tem pela equipe técnica, o resultado foi um país das maravilhas do estereótipo com fios (reciclados) que não se encontram...

Bem, voltei a ler Agatha Christie e Sherlock para relaxar...
Nós que recebemos a cultura das corporações ás toneladas, ficamos na esperança de que possamos ganhar na mega sena ou ver um programa de qualidade. Às Lotéricas, gente!

ajr

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

Mega-mensalão FHC

O Conversa Afiada de PHA está se destacando como um dos blogs mais bem contextualizados e informados sobre política. franco, claro, dando sempre dois lados... Um alívio ao mar de "dinheirismo" que toma conta até da boa velha mídia...

***
PRIVATIZAÇÃO DE FHC PODE DAR 12 ANOS DE CADEIA


Paulo Henrique Amorim

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/413001-413500/413345/413345_1.html

"O jornal Folha de S. Paulo, de sábado, pagina B4, “escondeu” uma reportagem de Janaina Leite...
....

Quem lê a reportagem assim, rapidinho, pode achar que isso se tenha passado no Governo Rodrigues Alves. Não, foi no Governo FHC...

A irregularidade foi na concessão de financiamento sem a análise adequada das garantias concedidas. Posteriormente à concessão do empréstimo foram realizadas outras operações, e renegociação e transferência de ações – tudo isso com prejuízo para o patrimônio público, no caso, o BNDES.

A operação original foi com a Light Gás – foi ela quem deu as garantias ao BNDES para privatizar a Eletropaulo. Depois, a americana AES adquiriu a Eletropaulo da Light Gás.
Quem lê a reportagem assim, rapidinho, pode achar que isso se tenha passado no Governo Rodrigues Alves. Não, foi no Governo FHC.

. Os réus são: Luiz Carlos Mendonça de Barros, Jose Pio Borges, Andréa Calabi, Francisco Gros, e Eleazar de Carvalho Filho.

Paulo Henrique Amorim – E o mesmo padrão de irregularidades, ou seja, conceder empréstimos sem as respectivas garantias se reproduziu mais tarde, depois da compra original, pela Light?

Exatamente. Foi mantido o mesmo padrão de irregularidade. Nas renegociações, o BNDES poderia ter exigido novas garantias. E não exigiu: continuou com aquele padrão inicial. Por isso, várias diretorias do BNDES foram denunciadas, porque tiveram novas oportunidades para exigir novas garantias na renegociação das dividas e não fizeram isso.

Paulo Henrique Amorim – Foi possível calcular os prejuízos que o BNDES teve?

Na época que foi feito o relatório o prejuízo chegava a R$ 3 bilhões. Além disso, por um longo período houve inadimplência. E porque esse dinheiro não entrava, o BNDES ficava sem esse dinheiro para financiar outros projetos. "

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007



Há muito tempo se comenta que a Folha é anti-lulista, que as manchetes adoram ridicularizar o PT, já ouvi falar de alguns colunistas com uma "arrogância de intelectual paulista" que parece saber tudo e odeia pontos de vista "vindos debaixo". (Claro, a Folha é complexa, e temos de amá-la, é o cérebro do país...)

Mas o que tem me irritado é o fato de toda foto do Lula ter um ar cômico, mostrando-o doido, triste ou ridículo. Lula molusco. A última edição pinga mais ainda no copo cheio...

Essa é uma forma antiga de demonstrar postura política - O New York Times achou até uma foto do Lula sério e dark- mas fica muitochato para o leitor, que se sente desrespeitado. Aqui dois exemplos. Tem algum motivo para mostrar o mais alto funcionário do país assoando o nariz? Seria tão bom ter uma foto apenas de um presidente...
Fidel na boca do outro

É, esse é um caso tão caricato como um inimigo de James Bond. Para ganhar só mesmo a capa da Época com o título "Caloteiros da Fé", onde manchete substituiu documentação...Atualmente sobre a batuta de Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo, e tendo Erick Brêtas como editor chefe, há anos que o último Jornal da noite da Globo nos presenteia, com o nome de "informação", com sua impermeável editorialização não assumida, sua visão conservadora, fechada em seu mundo teórico "liberal" (?) e surda à realidade mais ampla.

Cada edição começa com o inigualável "editorial", sendo os casos mais notórios aquele em que ironizaram a oferta da Argentina ao FMI- e tiveram que ficar com o sorriso ultra-amarelo quando o órgão aceitou no dia seguinte- e a narrativa melodramática do caso Aracruz, na manifestação das trabalhadoras rurais, que não apresentava absolutamente nenhuma tentativa de explicação, mesmo sendo o caso do eucalipto um dos maiores desastres ecológicos do estado.

Tem mais... A mais que hilária foi a crônica do colunista Carlos Alberto Sardenberg – o gênio preso na lâmpada- sobre Thomas Friedman, "pai da globalização": "Já foi perdoado?", "Claro! Já foi perdoado..." Ah, e tem o pornô-mal-informado-tão-esquerda-que-é direita- do- Jabor... bizarro! Aliás o Jornal conseguiu demitir Franklin Martins, esse oásis de independência no jornalismo brasileiro, porque um trambiqueiro qualquer - alguém que faz “ficção política” e nunca dá a fonte para poder inventar sem ser cobrado, que enfrenta processo pelo próprio sindicado dos jornalistas- lançou um blefe contra ele... Em terra de opinião, prova não é nada...

Isso todo mundo sabe, e eu acho que já comentei iso aqui... Mas ontem o Jornal da Globo subiu um ponto mais na "ocupação" da notícia pela política: Fidel Castro foi vítima de uma deprimente ridicularização, doente como estava. Enquanto sites na rede falavam de uma "melhora visível" e a Record mostrou as mesmas imagens com a expressão "um aspecto melhor", o Jornal começou falando em "o ditador" que fala "palavras incompreensíveis" e no final "não fica claro se fala" de sua saúde ou de Cuba quando promete que "não é uma luta perdida" (quando ficou bem claro para a Record; esse ponto também é irônico: os bispos são mais liberais?)... Além de sempre falarem em "câncer", razão apenas sugerida como hipótese...

Não somos obrigados a gostar de Fidel Castro, mas temos de lembrar que ele não é nenhum bobo. Ele é capaz de dizer, por exemplo, na entrevista que deu a Fernando Morais para a Veja em 1977: "Uma política conseqüente de direitos humanos teria de colocar em primeiro lugar o fim da corrida armamentista, o estabelecimento de um clima de paz no mundo, a resolução dos problemas de milhões e milhões de pessoas que vivem no subdesenvolvimento". (A arte da Entrevista, org. Altman)

E, sobre as questões de direitos humanos que levam os EUA a continuar com o bloqueio total a Cuba, condenado pelo Papa como imoral e pela ONU 26 vezes: "A cada mês ocorriam dezenas de desembarques clandestinos de armas (da CIA) em Cuba (mas) desde nossa luta nas montanhas contra a ditadura de Fulgêncio Batista inculcamos em nossos combatentes uma consciência de ódio a tortura". Em geral resisto ao tipo de comentário “a mídia quer derrubar o Lula”.

Mas depois dessa “campanha” pelo 2º turno, malas que duraram meses, dossiês de primeira página, “montanhas” vistas de baixo...Hoje, para melhorar, Lula diz no Jornal Nacional que "vamos ter de contratar mais professores, mais engenheiros, mais pessoas para cuidar o meio ambiente..." e a jornalista o introduz com "presidente fala em mais gastos". Ah, a gente não quer só política.
Vide verso: BBC Brasil “Com boa aparência, Fidel reaparece com Chávez”
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/01/070131_fid
tags: Porto Alegre

Domingo, Janeiro 28, 2007

O Fórum Social Mundial surgiu como uma assembléia de ativistas de diversas áreas que pensavam em dar visibibilidade a causas que consideravam negligenciadas nos debates do Fórum Econômico em Davos, dirigido por empresas e governos e em criar um espaço aberto de críticas, sugestões e trocas de idéias. As edições anteriores em Porto Alegre e Mumbai, na Índia, mereceram destaque na imprensa internacional, como no New York Times.

Este ano o Fórum reuniou mais de 1200 eventos, entre encontros e palestras, mas foi criticado pelo patriocínio privado e pelo alto custo da comida oferecida aos participantes, além de ter gerado um Fórum paralelo-o Fórum Social dos Pobres- daqueles que reclamam do valor da inscrição: o mesmo necessário para iniciar um pequeno negócio e sustentar uma família. Uma inovação foi a sistematização unindo grupos a fins para criação de propostas, dividida em 21 temas, trabalho, migrações, paz e guerra, habitação, mulheres e dívida.

Para Flávio Aguiar, da Agência Carta Maior " Os debates têm sido muito qualificados - esta é a informação que este colunista tem recebido e ele mesmo testemunhado na medida do possível. Mas há uma multiplicação de mesas completamente fechadas sobre si mesmas (...)"

O ator americano Danny Glover, da organização Transafrican Fórum, compareceu e afirmou: “Fico muito feliz ao ouvir todos estes depoimentos. Temos que ter espaço para contar nossas histórias, e para avaliar fracassos e vitória”.

***
Claro, o Fórum foi para nós, poas, uma novidade incrível! Egoistamente queríamos aqui todo ano...
Mas eu continuo achando que realizar o Fórum em um lugar definido pode ajudar na organização e no progresso do movimento... Quando foi para a Índia, milhares de grupos espalhados recomeçaram do zero... e nós ficamos a ver navios! Houve um aborto das ligações, dos mecanismos de criação...

Há, claro a vantagem de proporcionar aos ativistas locais parcipação (fundamental!) e de se mostrar aos europeus esses lugares, mas não sei.. talvez ter criar somente aqueles Fóruns continentais e prêmios para ativistas irem e virem! Quando leio um trecho como o de Flávio Aguiar, fico pensando se sistematização, como em Davos, não levaria as discussões adiante...


"As condições de trabalho no belo estádio de atletismo e futebol são muito precárias: a internet não funciona em boa parte do tempo, há notícias de furtos em todas as partes, mesas mudam de horário, é muito difícil tomar decisões diante dos imprevistos, porque a estrutura de funcionamento do Fórum é muito hierarquizada.

Uma pessoa que seja responsável por um setor num dado momento não se sente com autonomia suficiente para tomar uma decisão diante de um imprevisto - por exemplo, realizar-se uma entrevista numa sala onde há espaço mas não havia previsão dela, que foi o caso que aconteceu comigo, para entrevistar membros da Via Campesina africana."

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/index.cfm?home_id=74&alterarHomeAtual=1
Ótimo Festival Brasileiro no Santander.

"Soy Cuba": um Mamute Siberiano é daqueles filmes em que se sai do cinema com um sorriso. É a história de algo que não funciona, mas você entende o por que e o como... E há o prazer de ver pessoas falando de algo que gostam, fazendo algo que gostam...
Não concordo de modo algum com a crítica feroz de Bernardo Barcellos no site Contracampo, que fala de "algumas histórias sem importância, aliadas a comentários extremamente pessoais" do diretor.

Um dos passos importantes do filme é mostrar um sonho, um ideal, sem ser claramente político: falar de liberdade fora do método empresas-globais e governos corporativistas. Mostrar que, como diz Noam Chomsky, o medo é ter alternativas...

As imagens de Mikheil Kalatozov, o diretor enviado pela URSS a Cuba para filmas sobre sua revolução, mostram-se na sua poética pura, e nós as adoramos. Somente no fim as vemos pelo olhar dos cubanos, um olhar marcado pelo orgulho da ação, da posição política, um olhar, portanto, longe do romantismo inspirado pelo cinema mudo (sempre grandeloqüênte), do catolicismo e da monarquia, cheias de símbolos eternos e simbólicos...

Uma grande esperteza do filme é isso, é um filme sobre percepções humanas. A percepção do criador sobre Cuba, tão diferente do inferno pobre que a mídia grande nos passa; a visão de um diretor do frio sobre um mundo anti-imperial que, querendo mostrar sua importância, a transmitiu num estilo europeu, velhusco, mas hoje, depois do cansaço das modernidades, captável em sua singularidade original; a visão dos criadores que se viram imersos em um fracasso e agora são reconhecidos mundialmente. Bendito o filme sobre percepções...


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Outro filme brilhante é "Cinema, Aspirinas@ e Urubus". Para ser sincero o filme foi tão comentado na época que eu perdi o tesão. Sabe, aquele tipo de filme cult que você tem de gostar para estar "inn". Nem o programa me seduziu, "vão pelo sertão vendendo remédio milagroso!" Que novidade!

Mas fiquei surpreso com a simplicidade do filme.
Claro, há uma ou duas cenas a mais, uns lances que mostram que é cinema... (Por exemplo, quando o emigrante conta sua aventura na cidade, fica meio novelinha...)
Já foi dito que os programas de hoje são sobre losers; a Tv americana passou a falar dos conflitos internos (!) em um mundo sem segurança... E nossa TV tão cheia de pessoas resolvidas! Aqui eles estão ótimos.

"Ô diabo de alemão que acha tudo interessante", diz o personagem nordestino a certo ponto.
O que é mais comovente é a atenção que um tem pelo outro, sem sexo, sem interesse... O respeito humano que nasce dali.
Gostaria de comentar principalmente a diferença deste para Árido Movie, também na mostra. Se este mostra todo o drama do sertão nas faces, no solo, nas plantas, o outro é didático e sua história não passa de um meio para um slogan pronto "como usam a água de forma política"!
Ou seja, a norma é sempre válida: arte é reflexão disfarçada!

ajr
Casa de Cultura fechando?

Acabou um patrocínio, o Unibanco rapou: a arte depende disso...O que se pode dizer do iminente colapso do Cinema da Casa de Cultura Mário Quintana?
Foi lá que muitas boas experiências eu tive, o local representa um oásis na loucura urbana, na avalanche de imagens globalizadas. Um espaço de fôlego, reflexão.

Todas as capitais do mundo têm sua pequena câmara de salvar da opressão, opressão da mesmisse e do medo do mundo contemporâneo. Sem isso, que seria a vida? Nossa vida de asfalteiros vivos? A criatividade é o que as cidades têm de bom, ainda.

Porto Alegre, sem mar, sem mata, sem São Paulo, tem na força dos criadores sua salvação. E, sem um diferente que entra entre outras coisas pelo pensamento em telas grandes, acabamos morrendo por dentro. É uma vergonha que nossos empresários, políticos, intelectuais, pensem tão pouco na necessidade de vida a ponto de deixar acontecer algo como isso...

É uma pequena tragédia para a cidade. 4 mil pessoas já pediram ajuda, mas o Estado está em cortes de orçamento... Quem sabe se alguém toma para si essa responsabilidade?

A CINEMATECA PAULO AMORIMESTÁ EM BUSCA DE APOIO.COLABORE, DIVULGANDO A TODOS!Desde janeiro de 1996, a Cinemateca Paulo Amorim contou com a parceria do Instituto Moreira Salles – Espaço Unibanco de Cinema. O patrocínio, infelizmente, chega ao fim em dezembro de 2006. Sem esse apoio, fundamental para a manutenção das suas três salas, a Cinemateca corre o risco de fechar suas portas. Abaixo, o comunicado.

A ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DA CINEMATECA PAULO AMORIM ESTÁ EM CAMPANHA PARA SALVAR OS CINEMAS DA CASA DE CULTURA MARIO QUINTANA. LIDERADA POR LUIZ PIGHINI, DIRETOR E PROGRAMADOR DAS SALAS, A INICIATIVA VEM BUSCANDO O APOIO DO GOVERNO, IMPRENSA, EMPRESÁRIOS E DO PÚBLICO.

AGRADECEMOS A TODOS PELAS MANIFESTAÇÕES DE SOLIDARIEDADE E PARTICIPAÇÃO NESSA CAMPANHA, EM ESPECIAL À RBS E À ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO CENTRO DE PORTO ALEGRE.NA BILHETERIA DA SALA EDUARDO HIRTZ, UM ABAIXO-ASSINADO PEDE AO NOVO GOVERNO ESTADUAL QUE GARANTA O FUTURO DA CINEMATECA. PARTICIPE!

PRIMEIRA COLABORADORA

Assistindo ao Jornal do Almoço, DENISE ARGEMI, especialista em Direito Internacional Público e Privado, sensibilizou-se com as dificuldades da Cinemateca Paulo Amorim e resolveu ajudar.De dezembro a abril, vai colaborar com R$ 1.000,00 (mil reais mensais), do próprio bolso, na tentativa de salvar as salas. É insuficiente em relação ao que a Cinemateca precisa para se manter funcionando (R$ 15 mil por mês), mas um gesto significativo, sobretudo por se tratar de uma iniciativa individual e de um exemplo de solidariedade e preocupação com a cultura do Estado.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

ZAPPACIDADE:
MINI-HISTÓRIA EM QUADRINHOS DIGITAL.

grande loucura, montagem com fotos da web. leia de cima pra baixo, comece no próximo.
Publicação simultânea com Overmundo.
Grande, Amorins....

A BATALHA AMORIM X MIRIAM LEITÃO
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/410501-411000/410659/410659_1.html

Paulo Henrique Amorim

Hoje, no Bom Dia Brasil, a propósito da reunião de presidentes do Mercosul, ela preferiu fazer uma longa exposição sobre o fracasso do Mercosul e a vitória retumbante da “Alca do B”, conduzida com talento e pertinácia por este grande estadista, George W. Bush.
. Em seguida, entrou o coadjuvante. O chanceler brasileiro Celso Amorim.

. Amorim mostrou, com elegância, que Leitão tinha acabado de oferecer ao espectador um conjunto de bobagens.

. Por exemplo, o fato de a Argentina recorrer à OMC para reclamar do Brasil não significa que o Mercosul seja insignificante. Mas, sim, que se trata de expediente usual, inaugurado, aliás, pelo Farol de Alexandria, que iluminou Miriam Leitão: o Presidente Fernando Henrique Cardoso.
. A relação do Brasil com a Venezuela não é um desastre, Miriam. Dos US$ 3 bilhões do fluxo comercial, US$ 2,5 bilhões são de exportações brasileiras!

. Quantos trabalhadores brasileiros sustentam a famílias com o trabalho que realizam na Venezuela? - hein, Miriam?

. Ou seja, não estivesse ali o Ministro das Relações Exteriores, e o espectador de uma tevê aberta, concessionária de um serviço público teria sido submetido a informações erradas – revestidas da “proficiência” de uma colunista “especializada”.

CONVERSA AFIADA- IG

Coli e Bishop: além da aparente contradição


No caderno Mais! de 14 de janeiro de 2007, Jorge Coli fala sobre uma entrevista de Claire Bishop, crítica e professora inglesa, sobre a Bienal, em dezembro. Ela havia levantado o tema da curadoria do alemão Alfons Hug: "minha sensação (...) é que o Brasil teve duas exposições conservadoras”.

O crítico rebate: “Conservador' torna-se não um conceito analítico ou classificatório, mas insulto supremo”.
Entretanto parece-me que a professora se referia à preponderância de expressões artísticas “clássicas”, ou, como explica, “pinturas, fotografias de grandes dimensões e esculturas objetuais”.
Coli e Bishop têm mais em comum do que admitiriam. Ambos falam do abandono da dimensão artística, em função do artístico-marketeiro-político. O autoritarismo que coloca como critério de arte o poder do dinheiro, curadoria ou patrocinador.

Bishop argumenta que vem criticando trabalhos que “(...) em nome do engajamento político direto- não enfrentam a questão de sua própria representação para outros públicos”. Coli fala de um autoritarismo modernista institucionalizado: “Servem-se de pressupostos indiscutidos. Valem-se das convicções próprias a um grupo que compartilha das mesmas idéias. Basta, nesse caso, a opinião por ouvir dizer.”

O que é mais criticável na arte contemporânea é sua intelectualização (nos temas) e sua banalização (na realização, na recepção). Arte como entretenimento, discurso, abandono.
A vanguarda do tédio aponta para o pior mal que a arte pode sofrer: desinteresse.

Porque também olhamos para arte pare perceber a presença de alguém, um julgamento sobre o mundo, que torna mais complexo nosso próprio parecer. Mas se tudo se torna um mar de "bons sentimentos", significa que tudo se tornou um bloco único de crítica deslocada do particular, desfocada, ou, pior, que a avalanche de informações destruiu nossa visão compreensiva do mundo.
Nosso mundo feito de gavetas isolou artistas e críticos fisicamente, enquanto percepção de tons e semi-tons cotidianos, das tragédias mais fortes do mundo (favelas, danos ecológicos, corporações...) e lhes deixou apenas com filosofia e textos, que substituem e recriam o mundo. A realidade foi recalcada. Volta como imagem simplificada e global. A arte é reflexo disso, apenas.

A arte representa, claro, uma reflexão e um ponto de vista sobre o mundo, que se apresenta de forma mais ou menos clara e dirigida (uma defesa da moral aristocrática na Grécia Clássica, uma defesa da Igreja militante na Contra-reforma barroca, um impulso de reforma dos valores burgueses do dinheiro e da religião, no modernismo).

O que ocorre algumas vezes é que o tema se sobrepõe ao efeito, e isso submerge a arte ao moral, ao lúdico ou ao falso político.
A atual proliferação, quando funciona ou não, é retomada do conceito do mundo como tema. Justamente o modernismo propôs um olhar autônomo para a arte, a preocupação plástica como suprema reflexão, depois do exagero, no contexto europeu, do projeto político Iluminista-Napoleônico do Neoclasicismo, do político-libertário do Romantismo ou de uma arte realista de denúncia da miséria.

O que banaliza é perda de referência nos meios propriamente plásticos, a invasão dos conceitos em camadas de realidade diversos: a política deve ser feita em opiniões públicas e em atos de urna e manifestação; a crítica em letras, a ciência no laboratório. Isso não breca o inevitável contágio das áreas na era da informação, mas faz pensar sobre o autoritarismo do "político" em âmbitos autônomos- todos os chineses em tûnicas azuis, como Mao Tsé-Tung.

O medo difuso de um mundo dominado cada vez mais por grupos anti-democráticos (religiões, impérios, crime organizado, hiper-corporações e indústrias globais de mídia) e o medo sem rosto da insegurança total de um Estado-mínimo, a invasão da indústria do entretenimento- que utiliza os efeitos estéticos com projeto de induzir a um modo de vida e ao consumo- a inércia da crítica modernista à tradição, a falta de um conceito ético que se oponha e debata um capitalismo que dominou os desejos, tudo isso nos leva a uma arte mais conservadora e também mais “revolucionária”, para nada.

Mas toda a arte acaba sendo "lixo" vanguardista? Não, obviamente.
Quando idéia e plástica conseguem transmitir algo sem impor, o cotidiano, a solidão, os problemas urbanos, ambientais, de minorias, podem se tornar arte utilizando novos meios e tecnologias. É o drama de Tolstoi (mas que já se faz presente no debate Voltaire X Diderot): a arte deve ensinar, ou representa nossas crises ocultas, nossa incompreensão, nossa fragilidade?
Como o imaginário foi dominado pelos desejos corporativos e uma política conservadora, um simples re-arranjo de imagens pode significar, às vezes, criação, e, portanto, reflexão.

Como coloca Coli:

“O álibi das intenções éticas e intelectuais não consegue substituir o interesse da criação(...)”
O impacto da multiplicidade de imagens, sem necessariamente um contexto ou narrativa que os ligue, reflete-se na arte como descritivismo sem nexo, abundância nula. Um vago "bom mocismo" une toda a filosofia -distante do ativismo real das escolhas políticas ou do trabalho nas comunidades- mas que se contenta com um "discurso" de abertura ao novo, ao outro.

A postura de Tony Blair, de criticar o racismo presente no Big Brother inlglês, ao invés de discutir o racismo presente na sociedade inglesa, faz um triste espelho da arte vã como substituição do político. O mundo pode explodir, porque a imagem o substituiu.

Afonso Junior Ferreira de Lima

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Bem, vamos falar de BBB...

(A força de penetração da mídia acaba colocando o tema em pauta, em jornais e web até... mas, o que adiou tanto esse post em esperança vã, parece que nada vale a pena ser comentado, um tédio só!)
O que ficou claro nessa edição, além de, como diz Carina Martins "os bonzinhos acabaram", é que é sexo! O que existe é só sexo!

(O Jean Pierre se salvou até agora falando um pernambuquês imcompreensível e usando seus óculos absurdos. Mas é vivo, parece de verdade, num museu de cera. )

Tudo bem que, na verdade, bundas e músculos sempre estiveram lá... Mas a Globo optou agora por apelar - bem, mais que isso, declarar- mesmo... Legal, agora vamos ver TV para substituir a Playboy.

O que podia até ser uma opção de exercitar nossa angústia humana por comportamentos e relações humanas, tornou-se apenas um bando de garanhões dizendo coisas como "quero esse bombom pra mim" ou espetando garfo na bunda de mocinhas semi-desnudas-tímidas. Olhando um pouco mais para tentar entender o banal múltiplo, percebo muitas variações: "fazer sexo aqui dentro é natural..." (Seleção: quem sabe menos palavras?)

Claro, o excesso de edição transformou o caso em bonzinhos e mauzinhos, as pessoas extavam todas boazinhas e nada aconteceu -Bial foi o personagem do último- agora eles nos prometem emoção... Mas coo se todos são iguais???? E tão diferentes do Brasil... É o BB Suiça!
Imagine um Big Brother com Fernanda Montenegro, MV Bil, Lenine e Lino Linaventura....
Respeitem a inteligência sapiens sapiens!

***
Pena, de morte...

A Execução de Sadam pareceu tanto com uma vingança tribal...
Mate o cara: temos que justificar essa guerra...

***

AiInda dela, minha musa. Carina Martins - do Blig Zapeatrix- merece um post só dela pois sabe que estamos há mil anos luz da escola de Frankfurdt, pis nacemos dentro do mundo do entretenimento e mesmo assim, queremos qualidade mínima!
A TV pode ser um meio, e apenas isso! Carina é a mais viva, crítica e livre jornalista que eu vejo faz tempo...

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

falou e disse Mitch... (tô antigo?)

No site InformationWeek, sobre notícias de economia e tecnologia, o colunista Mitch Wagner critica o casal por protagonizar a cena picante em público e depois tentar bloquear as imagens na Justiça.
"Se você não quer que multidões vejam você fazendo sexo, por que você faria isso na praia com outras pessoas por perto?", escreve Mitch.

"Plataformas abertas - como YouTube, MySpace, Blogger e Facebook - oferecem muitas oportunidades de se expressar livremente, conectar com pessoas, criar arte e promover discussões políticas, e não devem ser ameaçados por censura - especialmente para proteger os direitos de uma modelo boba que deveria ter mais noção - ainda mais porque o vídeo já está em toda a Internet."

bbc-co.uk

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007


Tiro?

"O ministro da Defesa, Waldir Pires, anunciou, nesta sexta-feira, que as Forças Armadas já colocaram à disposição do governo do Rio de Janeiro cinco mil soldados para conter a onda de violência no Estado".