domingo, abril 22, 2018

a primeira palavra

amor em espera pão da manhã

jardim em chamas hoje

verso buscando esperança

pombas sobre o piano esperam

lobo hesitante com duplo olhar

cortiço ouve a sirene da nova ordem

preso a preconceitos flauta paralisada

rumor de luz afundada dia seco

thriller cinzento tarefa peito silencioso

cães protestam por sangue

passeatas greves um dia comum

quero sentir ainda teu martírio de corpo sujo

da janela lembro do gramado verde

quando éramos inocentes 

Afonso Jr Lima

terça-feira, abril 17, 2018

Livro: "A ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro" - de Fernando Morais

Nesse vídeo Afonso Jr. apresenta o livro "A ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro - de Fernando Morais".


domingo, abril 15, 2018

Buffalo Bill está de volta

um céu púrpura os helicóptero sobre a cabeça

o corpo levado pelo povo

os exércitos descem das nuvens canto de guerra

a praga atingiu o Espírito da Cidade

essa pedra teu sangue por ela caminhos

da nação que morre raízes brotam

a lágrima é o primeiro ingrediente do entendimento

liberdade é um órgão que nenhuma opressão silencia

o monstro rasga a terra era voz não se cala e interrompe

a tempestade flor na correnteza o círculo do céu a treva

salve a coreografia divergente o rastro perfumado

ela dança com seu corpo singular amor

índio olhos verdes lutando a luz nasce


eu preciso da coisa concreta música

em círculo no salão branco homens de pedra andam

monstro coisa contrária à natureza rei louco

o absurdo inimigo do povo inocente criança olha o horizonte ruína

seus pais estendidos na terra um homem corre está ferida o fogo vem do céu 

corto com espada a pálida palavra, água verde, deixo o sol entrar

agora essa voz branca, voz da força, guerreiro sem alma

sempre preenche tudo sempre cala inundação

o menino bebe a água suja da calçada

a roupa imunda a mão estendida a noite 

eu monstro como flores e caminho azul-nascer

verso com dragão batalha, vazio e mundo nas mãos

corpos divergentes, o olhar que desmente fraude nos livros explicada

força como lei, amigo da paz amigo do povo na corrente

ódio são os lobos a toga os bárbaros os jornais

o preso observa o horizonte canto resiste em noite escura

o monstro grita a voz não se cala e geme

os soldados estendidos na terra, os soldados cruzes brancas

o sangue na calçada, lavado nasce o dia

sementes largadas no verde círculo do tempo

indestrutível verdade

mulheres dançam no choro as vozes

a madrugada me põe no seu colo

Alejandro: Un día alguien te va a abrazar tan fuerte,

que todas tus partes rotas se juntarán de nuevo 

do céu o ciclo, caminho pelo mar, deixo o sol entrar

Afonso Jr Lima

domingo, abril 08, 2018

Livro: "Os inventores do New Deal" - de Flávio Limoncic

Manuscript on Memory (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

"The relatively short life of tyrannies is due to the inherent weakness of systems that use force without the support of law." (Aristotle)

He found a Manuscript:

- Many inflamed hatreds of young people who were children when the worker was elected.

I was born when it was still a dictatorship. It was not good to have an opinion.

I saw how difficult it was for a mother to support three children and give them education.

But she gave them.

At that time it was very difficult to spend in public college. My dad said, "You were a grade A student and you did not go into the federal one."

And there were international institutions that warned of the danger of spending on the people. We heard politicians say that education cost a lot. Only 3% of Brazilians had a university because life was like this.

Suddenly all my friends came in. That was in 2003. Suddenly, luckily, the godson who could never afford a private school does Administration.

The privilege system is dangerous.

One of the dangers is that the spoiled child becomes authoritarian. Not always the best alternatives are chosen. The ignorant spoiled is not challenged in his certainties, he admits no divergence.

And since he's never questioned, he thinks he can talk any crap. That your speech is always important. That he can attack the divergent in the nets, while it is just a rabid fool.

Meenwhile problems accumulate and excluded people retain fair resentment.

If you live a system of privilege and oppression, you can, for a time, deny reality.

Create your child in a closed condominium, which avoids the violence planned by misery. Today, companies are even owned by shareholders, who do not respond directly to anything other than profit. And the best deal is no deal, papers and suck the state tax.

For a while.

But now I want to talk about the speech. From the danger that is the word without curiosity. From the danger of being involved by arguments sold by powerful and bought by lazy.

Before, dogma was the danger. Even our philosophers, preoccupied with eternal truths, were harsh critics of the truth that could "raise" a proposition above the others.

About one particular candidate, one commentator said that she "had no reading of the world". This is the most serious. While communication companies buy our thinking, consumerism has created a mass of people who think for "still".

And the old elite, who has always known more, has always studied more, has the law on the tip of the tongue and the maid without a signed license, these "opinion formers" have become accustomed to never hear.

Our privileged class has created a sophistical discourse, but it is strengthened and self-nourished in reiterated rhetorical arguments. Hatred has turned into a wave, and no questioning is welcome.

A lot of our economists, journalists and administrators are like this. And suddenly, the house of laws begins to respond to simplistic opinion, the law begins to respond to the wave of anger, the economy itself becomes an opinion based on arrogance. Now we see the danger of letting fear dominate us, the inheritance blind us.

Observing the coverage of large vehicles of communication, we realize that everything revolves around building the image of a villain, and anything that can contradict that image is denied. And so can also make the public officials accountable for tracking processes. Much worse if they are religious and see their carrer as a mission.

Part of our elite should not direct the nation because it does not respect human rights. Watching the channel Jovem Pan is scary. For social killers, who close schools, and children of lazy privilege, who do not know beyond TV, the progressive discourse that includes youth, black women, Indians, gays, descendants of the enslaved, offends. But, the truth wins in the end. We made a constitution in 1988.

I come from a time that was beautiful to be "neutral", to be impartial and diplomatic.

But the neutral is now only for those who have no morals.

Now the young man and the furious old man speak like robots, I can not hear, they are hysterical.

The poor man who thought to be rich, who collaborates with his oppression, thinking that when violence dominates, he will get away with a weapon; the rich who believe himself superior race, the rich unable to perceive the cause of what strikes him, fragmented thought.

Democracy suffocated by the wave of lies. And yet, there is resistance. "I want to invent my own sin," as the musisian Chico Buarque says.

It looks a lot like when people began to demand more of the political system in the early twentieth century. There was no way to ignore the arguments. The solution was advertising.

Society with a mentality of slave owner, the society that was the last to liberate the enslaved, does exactly the opposite of what mass capitalism thought: higher wages for more consumption. Consumption of luxury for few and police and train packed for many.

And, yes, the ignorant masses sometimes dominate everything. Yes, people can be deceived and even see violence as something justified. Because evil is now in do what everybody does. It is lack of discernment.

Looks like they changed the law in 2016 to arrest a person. That our leaders dream is to sell soy and buy things in Miami. And his children go to school there, as in the nineteenth century.

When Justice seems like a party, we live the paradox of an oligarchic-legislative tyranny, the diversity of information is lost, closing schools is the dominant policy, I have hope.

I also saw the young black women taking up the university. I saw the poor raise their heads and have opinions. So I know. I know that everything has a solution.

I come from a time when the worker was elected.

Afonso Jr Lima

sábado, abril 07, 2018

Manuscrito sobre a Memória

"A vida relativamente curta das tiranias se deve à fraqueza inerente dos sistemas que usam a força sem o apoio do direito." (Aristóteles)

Ele encontrou um Manuscrito:

- Muitos ódios inflamados de jovens que eram crianças quando o operário foi eleito.

Eu nasci quando ainda era ditadura. Não era bom ter opinião.

Eu vi o quanto foi difícil para uma mãe sustentar três filhos e lhes dar educação.

Mas ela lhes deu.

Naquela época era muito difícil passar na faculdade pública. Meu pai disse: "Você era aluno nota A e não entrou na federal".

E haviam instituições internacionais que avisavam do perigo dos gastos com o povo. Nós ouvíamos os políticos dizerem que a educação custava muito. Só 3% dos brasileiros tinham universidade porque a vida era assim.

De repente, todos meus amigos entraram. Isso foi em 2003. De repente, por sorte, o afilhado que nunca poderia pagar uma escola privada faz Administração. 

O sistema do privilégio é perigoso.

Um dos perigos é que o filho mimado se torna autoritário. Nem sempre as melhores alternativas são escolhidas. O mimado ignorante não é desafiado em suas certezas, não admite divergência.

E como nunca é questionado, acha que pode falar qualquer porcaria. Que sua fala é sempre importante. Que pode atacar o divergente nas redes, enquanto é só um bobo raivoso. 

Enquanto os problemas se acumulam e as pessoas excluídas guardam o justo ressentimento. 

Se você vive um sistema de privilégio e opressão, pode, por um tempo, negar a realidade. 

Criar seu filho num condomínio fechado, que evita a violência planejada pela miséria. Hoje, as empresas são até propriedade de acionistas, que não respondem diretamente a nada além do lucro. E o melhor negócio é negócio nenhum, papéis e sugar o imposto do Estado. 

Por um tempo. 

Mas agora eu quero falar do discurso. Do perigo que é a palavra sem curiosidade. Do perigo de sermos envolvidos por argumentos vendidos por poderosos e comprados por preguiçosos. 

Antes, o dogma era o perigo. Até nossos filósofos, preocupados com as verdades eternas, foram severos críticos da verdade que pudesse elevar uma proposição. 

Sobre uma determinada candidata, um comentarista disse que ela "não tinha leitura do mundo". Isso é o mais grave. Enquanto empresas de comunicação compram nosso pensamento, o consumismo criou uma massa de pessoas que pensam por still. 

E a velha elite, que sempre soube mais, sempre estudou mais, tem a lei na ponta da língua e a empregada sem carteira assinada, esses "formadores de opinião" se acostumaram a nunca ouvir. 

Nossa classe privilegiada criou um discurso sofístico, mas que se fortalece e auto-alimenta em argumentos retóricos reiterados. O ódio virou uma onda, e nenhum questionamento é bem-vindo.

Boa parte de nossos economistas, jornalistas e administradores são assim. E, de repente, a casa das leis começa a responder à opinião simplista, a lei começa a responder à onda de raiva, a própria economia se torna uma opinião baseada em arrogância. Agora, vemos o perigo de deixar o medo nos dominar, a herança nos cegar.

Observando a cobertura de grandes veículos e comunicação, percebemos que tudo gira em torno de construir a imagem de um vilão, e tudo que pode contradizer essa imagem é negado. E assim também podem fazer os funcionários públicos responsáveis por acompanhar processos.

Parte de nossa elite não pode mesmo dirigir a nação porque não respeita os direitos humanos. Assistir a Jovem Pan dá medo. Para os social killers, que fecham escolas, e filhos do privilégio preguiçosos, que não sabem além da TV, o discurso progressista que inclui jovens, mulheres negras, índios, gays, descendentes dos escravizados, ofende. Agora, a verdade vence no fim. Nós fizemos uma Constituição em 1988.

Eu venho de uma época que era bonito ser "neutro", ser imparcial e diplomático. 

Mas o neutro agora é somente para quem não tem moral.

Agora, o jovem e o homem velho furiosos falam como robôs, não posso ouvir, estão histéricos. 

O pobre que pensou ser rico, que colabora com sua opressão, pensando que, quando a violência dominar, ele vai se safar tendo uma arma; o rico que se achou raça superior, o rico incapaz de perceber a causa do que lhe atinge, pensamento fragmentado.

A democracia sufocada pela onda de mentira. E, ainda assim, há resistência. "Eu quero inventar meu próprio pecado", como diz Chico. 

Parece muito com quando os povos começaram a exigir mais do sistema político no começo do século XX. Não havia mais como ignorar os argumentos. A solução foi a propaganda. 

A sociedade com mentalidade escravocrata, a sociedade que foi a última a libertar os escravizados, faz exatamente o oposto do que o capitalismo de massa pensou: salário maior para mais consumo. Consumo de luxo para poucos e polícia e trem lotado para muitos. 

E, sim, as massas ignorantes às vezes dominam tudo. Sim, os povos podem se enganar e ver até a violência como algo justificado. Porque o mal agora é ir com os outros. É a falta de discernimento. 

Parece que mudaram a lei em 2016 pra prender uma pessoa. Que o sonho de nossos líderes é vender soja e compra coisas em Miami. E seus filhos vão estuda lá, como no século XIX. 

Quando a Justiça parece um partido, vivemos o paradoxo de uma tirania oligárquico-legislativa, a diversidade de informação é perdida, fechar escolas é a política dominante, eu tenho esperança.

Eu vi também as jovens negras tomarem a universidade. Eu vi os pobres levantarem a cabeça e terem opinião. Então eu sei. Eu sei que tudo tem solução. 

Eu venho de um tempo em que o operário foi eleito.

Afonso Jr Lima

domingo, abril 01, 2018

AS TRÊS ÖBIS - romance (trecho)



Os ratos brancos tinham usado todo o Mithan mental que lhes restava para erguer uma muralha de pedras altas ao redor de sua cidade. Mas agora, os guardas , o Demônio e as valquírias avançavam.
Os ratos sentiam forte dor de cabeça (usavam uma rede de fios negros sobre o corpo, com uma cabeça raspada de onde saíam três tranças negras), causada pelas ondas de vibração maléfica desses seres. 
Os guardas, que costumavam pintar com sangue seus corpos com desenhos de dragões e usavam uma tira de couro negro na boca, para representar sua obediência ao Alafim, e usavam a cabeça raspada, de onde saíam, na altura da nuca, amplos cabelos vermelhos. Neles, prendiam ossos de dedos de animais, os guardas erguiam agora com sua força mental enormes árvores milenares do solo, incendiavam-nas e as arremessavam contra a muralha.
As valquírias, armadas de chicotes venenosos, esqueletos humanos da cintura para cima, que acabavam no pescoço, e asas de morcego, acabadas por uma cabeça formada por um cérebro vermelho, e vasos sanguíneos, que usavam na cintura cintos de serpentes, iam agora próximas às muralhas, montadas em seus cavalos alados, para levar terror aos seres frágeis que as podiam observar, e colhiam os seres vivos que rastejavam na terra, para os arremessarem do céu.
O demônio branco de três cabeças, abria a terra com o movimento de sua cauda, e estremecia a terra com seus gritos.
Água deixava de ser propriedade coletiva e passava a ser propriedade dos nobres da terra. 


Afonso Junior Ferreira de Lima

Porto Alegre, 2005

sexta-feira, março 30, 2018

nullo tempore putrescit (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

Shadows we were. No attic and not even a basement. It was always night inside. In this house, there were at least nine rooms, always yellow lights that created many points of shadow.
The city had been out of electricity for three days. The storm also interrupted the communications of the islands with the mainland.
Who were those four strange women who looked soulless and endowed with incredible intellectual energy?
Why did we seem to sleep all day?
Why did we only serve to do homework and receive "visitors" from time to time?
I could not even tell you how long that had lasted. I tried to watch our position from the windows, but the mist always seemed to bring a gray scenery, neither day nor night. Or maybe it was my mind that had a permanent veil over it. It was like a hallucination that never ended.
"Time depends on where you are" - our servant - practically blind - said once.
One day, or would it be a night?, I would clean one of the bedrooms and find a baby, about three days old, curled up on the bed.
My cry drew the attention of one of the women, who told me only:
- Get out of here. It's a curse you carry for all future generations.
I decided I needed to get out of the house.
I thought about not eating my first food - my bread and tea.
I passed the storage room, full of glasses with animals in the formaldehyde, and I went to the door to the garden.
I opened the door, even though I had always been aware of the danger involved.
I went up the muddy steps to a place where I had already been with the first woman.
It was a kind of greenhouse, covered with a glass ceiling and a net that created shadows. I frightened myself with the servant.
"Look at those plants. They were combined. It's not just with the time they play. These women know how to handle living things for centuries, he told me.
There beside it, many stones sharpened in rows like a plantation. A heavy rain began. It seemed to me to see something on earth. I dug with my hands.
I went back to the house in fear.
The third woman looked at me with hatred and dragged me through the hair. I was placed in a dark, narrow room and stayed there for a long time.
In my dream, a woman showed me a fruit of green bark - she would take her seed with a knife and put a small insect inside. Many bees out of a beehive.
So I get it. They would decimate the whole race.
I woke up to the sound of the door. The servant had opened it, with a candle in his hands,
- Run away now.
I ran as the man set fire to himself to set the house on fire.

Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, março 29, 2018


O Brasil decidiu fechar as fronteiras. Mais de 3 milhões de russos, dinamarqueses, alemães e ingleses haviam chegado desde o “Domingo Branco”, quando Paris chegara a 20 graus negativos.
Há algum tempo atrás a Itália processara a Inglaterra pelo uso do nome “Londres” (de Londinium) e pela “falsa paternidade do futebol”; a China processara a Itália pelo copyright da massa e Bagdá a Europa pelo copyright do Renascimento; foi um passo pequeno até a África requerer direitos de imagem sobre Les demoiselles d´Ávignon.
Por um lado a direita européia dizia que o “mundo em desenvolvimento” não tinha direito aos solos quentes da Terra, agora que o frio se espalhava porque a água doce dos icebergs, aquecidos pela fumaça, acabara com a corrente do Golfo. O governo brasileiro dizia que milhares já haviam imigrado quando das Guerras Mundiais.
As flores e árvores dos jardins escoceses foram engolidas pelo inverno. A imagem de um campo de futebol congelado em Paris passou a circular na rede com o seguinte dizer: “Todos tem direito a um raio de sol.” Um carro bomba explodiu perto do Parlamento onde a Comissão para Imigração Européia se reunia. O salmão, era uma vez, passou a fazer propagandas na Noruega exigindo “tolerância e abertura de fronteiras”.
Grupos de direitos humanos brasileiros começaram a mostrar fotos de meninos jogando na terra, para defender que, num mundo com distâncias tão grandes, receber imigrantes é “imoral”. A Câmera de Comércio Européia ofereceu 2 bilhões de dólares para restaurar cortiços putrefatos em São Paulo, tetos e paredes mofadas, e um plano de “reinserção de moradores de rua”. O clipe da campanha no Tube mostrava multidões caídas, enroladas em cobertores e com potes de plástico para sopa, no cimento da cidade.
Quando as escolas e os transportes entraram em colapso devido ao congelamento, os presidentes da Alemanha, França e Inglaterra vieram ao Brasil, e falou-se em uma ameaça velada de guerra.
Os primeiros imigrantes europeus chegaram na Amazônia em dezembro de 2060. Celebrou-se um jogo amistoso em nome da “a união intercontinental”.

Afonso Jr. Ferreira de Lima - 2010

quinta-feira, março 22, 2018

nullo tempore putrescit

Sombras nós éramos. Nenhum sótão e nem mesmo um porão. Era sempre noite lá dentro. Nessa casa, haviam pelo menos nove quartos, as luzes sempre amarelas que criavam muitos pontos de sombra.
A cidade estava sem luz elétrica há três dias. A tempestade interrompera também as comunicações das ilhas com o continente.
Quem eram aquelas quatro mulheres estranhas, que pareciam sem alma e dotadas de incrível energia intelectual?
Por que nós parecíamos dormir o dia todo?
Por que apenas servíamos para fazer os trabalhos de casa e receber "visitantes" de vez em quando?
Eu nem era capaz de dizer há quanto tempo isso durava. Eu tentava observar pelas janelas nossa posição, mas névoa espeça parecia trazer sempre um cenário cinzento, nem dia nem noite. Ou talvez fosse minha mente que tinha um véu permanente sobre ela. Era como uma alucinação que nunca tinha fim. 
"O tempo depende de onde você está" - nosso servo - praticamente cego - disse, uma vez.
Um dia, ou seria uma noite?, eu limpava um dos quartos e encontrei um bebê, de aproximadamente três dias, enrolado sobre a cama.
Meu grito chamou a atenção de uma das mulheres, que me disse apenas:
- Saia daqui. É uma maldição que você carrega por todas as gerações futuras.
Decidi que precisava sair da casa.
Pensei em não comer meu primeiro alimento - meu pão e chá.
Passei pelo depósito, cheio de vidros com animais no formol, e cheguei até a porta para o jardim.
Abri a porta, mesmo tendo sido sempre avisada do perigo envolvido.
Subi os degraus embarrados até um lugar em que já fora com a primeira mulher. 
Era uma espécie de estufa, coberta de um teto de vidro e uma rede que criava sombras. Assustei-me com o servo.
- Veja essas plantas. Foram combinadas. Não é apenas com o tempo que eles brincam. Essas mulheres sabem manipular as coisas vivas há séculos, ele me disse.
Ali ao lado, muitas pedras afiadas em fileiras como uma plantação. Uma chuva forte começou. Pareceu-me ver algo na terra. Eu cavei com as mãos.
Voltei para a casa assustada.
A terceira mulher olhou-me com ódio e me arrastou pelos cabelos. Fui colocada em um quarto estreito e escuro e lá fiquei por muito tempo.
No meu sonho, uma mulher me mostrava um fruto de casca verde - ela retirava sua semente com uma faca e colocava lá dentro um pequeno inseto. De uma colmeia saiam muitas abelhas. 
Então eu entendi. Iriam dizimar a raça toda. 
Acordei com o barulho da porta. O servo a abrira, com uma vela nas mãos gritou:
- Fuja agora. 
Eu corri, enquanto o homem ateava fogo a si mesmo para incendiar a casa. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, março 21, 2018

Entropy (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

I leave in this personal diary something that will only come to the public perhaps after my death. I do not know what happened, nor how everything had such a precise result. But I must record here what happened. I know how to write.
I woke up on my birthday with the gray autumn light. My mother gave me a happy hug, we was going to the caves to do the walk I wanted.
Our slave made the coffee and wished me good luck.
The receptionist at the inn said they were a little afraid, there had been an accident with a memory a few days before. No one knew the cause yet.
The white-bearded man smiled at us.
"There was a time," he said, "in which you engraved your soul on stones and soft surfaces. Now, it's us. What do you want to know about?"
"The origin of the slave corpses," I said.

I woke up with a kind of buzzing in my ear, an autumn wind. It took me a while to see what was around me. The walls, the floor, the furniture. I jumped up. Should not I be in the hostel room?
I put on my clothes and went downstairs.
- Mother? This is a dream...
- What my love? - she said.
I went to my room again - unwittingly I broke the eastern vase near the stairs - and looked at my calendar. It was one day before my birthday.

The eastern vase was in perfect state.
My father comes to visit me.
"I will not be here in your day."
"Dad, have you heard of an accident with a memory?"
"You need to stop this obsession with the past. It's no use. What produces are the numbers. You will end up in prison as subversive".
Our corpse slave turned on the TV.
- Accident kills a memory on the beach 9-200.
"That did not happen," I said.

I ran to the news station.
I explained to half a dozen people that I had a "bomb." Finally I sat in the room of the thin, sickly-looking man.
- There will be an accident on the beach 9-200 tomorrow. You need to cover the event, "I said.
The reporter looked nervous:
"Boy, we're investigating a series of bomb attacks and a kidnapping. Do not come...
- From who?
- A scientist.
I got up and stood at the door.
"It's the ideas, you see? If humans do not have memories, they will be weak." I left thinking about who would want revenge.

I woke up four days before my birthday.
Before my mother came into the room, I asked our slave: "Do you hate human beings?"
He looked disturbed.
"Personally, I think you were once a sublime race. You have fallen long after that... Well, you only use images and sounds now."
He turned off the boiling water.
"Do you remember last year, when the corpses staged a petition calling for citizenship?" There was a massacre.

I woke up and went to the ruins. A cement building, several leaves with symbols no one could read.
In the yellowed pages, the illustration of a giant with fire. That is it! We need to blow up the conspiracy.
"You must know something, something from your animal intuition, you have to tell me something. The slave revolt will occur" - my slave seemed very frightened.
"If you do not help me, I'll have you put to second death."

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, março 20, 2018

The killer (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

His theory was that each person lived a murderer.
That's how it all started.
Panic gripped the city.
Police began to search for the origin of these creatures who seemed insensitive to any human appeal. Two homeless people beheaded, three children drowned in fetid rivers, three prostitutes hacked to pieces, a politician impaled.
The only one captured was sedated by absolute uncontrol.
Momai was summoned to help, delayed to arrive due to the chaos in the traffic that still persisted two days after a frightening storm.
A search for network systems began; with the help of the hacker JM, searched the comments, messages and emails about these episodes.
One of them said: "Finally leftists and losers will be crushed."
Another: "It was already mimimi, the blindness of the communists will end up in blood."
From a certain date, the change of government, increase the expressions:
leftists get sick
humiliated lefties
lefts dumb
leftists blood

Found on the channel of the biggest conservative youtuber, famous for recording videos in political demonstrations mocking their participants, a comment: "TIF: ended the binge."
In groups of digital fascism and channels of youtubers who distilled hatred under the cover of freedom of expression, the constant interaction of three expressions:

Assault Troop
Combat League

Messages exchanged by the group WhatsBomba - "TIF General Assault Troop"
"Human rights prevent the arrest of bullies"
"Stopped in traffic because of fire. TIF to bring peace."

JM said:
"It seems that something has freed the groups from a previous containment. The code inherent in this system appears to be violence / repression. The system is organized by the force / morality torque pair. Does anything allow morale to become the force?
JM thought about tracking the data in resonance with "TIF." There was no clue as to what it was.

"Assault Troop" and "Combat League" were expressions used by digital activists for groups of "moral murder" through false reports of alleged Communists. It would seem that "TIF" would be an extreme form of "extermination combat".

The thing seemed to be an urban legend to some extent.
Finally, Momai can enter a hidden site called "Total Instinct Field".
The players remained within stiff walls, there were carcasses of animals and bones everywhere.
"Total Instinct Field" had been created by economist and experimental scientist Cesar Kurt.
"Your experiment allowed you to free the killer in every person," JM said. With a device that shook the brain, it was possible to completely paralyze the instinct containment systems.
The storm generated a crash in the system, there was escape.
Momai watched the city as it listened to "Blue Moon."

Afonso Jr. Fereira de Lima

segunda-feira, março 19, 2018


Deixo neste diário algo que só virá à público talvez depois de minha morte. Não sei o que ocorreu e nem como tudo teve um resultado tão preciso. Mas devo registrar aqui o que ocorreu. Eu sei escrever.
Acordei no dia do meu aniversário com a luz cinzenta do outono. Minha mãe me deu um abraço toda contente, íamos até as cavernas fazer aquele passeio que eu tanto queria.
Nosso escravo preparou o café e me desejou boa sorte.
O recepcionista da pousada disse que estavam com um pouco de medo, havia ocorrido um acidente com um memória alguns dias antes. Ninguém sabia ainda a causa.
O homem de barbas brancas nos recebeu sorridente.
- Havia um tempo, ele disse, em que se grafava a alma em pedras e superfícies macias. Agora, somos nós. Sobre o que você deseja saber?
- A origem dos cadáveres escravos, eu disse.

Acordei com uma espécie de zumbido no ouvido, um vento de outono. Demorei para ver o que estava ao meu redor. As paredes, o chão, os móveis. Levantei com um pulo. Eu não deveria estar no quarto da pousada?
Coloquei minha roupa e desci.
- Mãe? Isso é um sonho?
- O quê meu amor? - ela disse.
Eu fui até meu quarto de novo - sem querer quebrei o vaso oriental perto da escada - e olhei meu calendário. Faltava um dia para meu aniversário.

O vaso oriental estava inteiro.
Meu pai chega para me visitar.
- Não poderei estar aqui no seu dia.
- Pai, você ouviu falar de algum acidente com um memória?
- Você precisa parar com essa obsessão com o passado. Não serve pra nada. O que produz são os números. Você vai acabar preso como subversivo.
Nosso escravo cadáver ligou a TV.
- Acidente mata um memória na praia 9-200.
- Isso não aconteceu - eu disse.

Eu corri até a estação de notícias.
Expliquei para meia dúzia de pessoas que tinha "uma bomba". Finalmente sentei na sala do homem magro e de aparência doentia.
- Amanhã ocorrerá um acidente na praia 9-200. Vocês precisam cobrir o evento - eu disse.
O repórter parecia nervoso:
- Menino, estamos investigando uma série de atentados com bombas e um sequestro. Não venha...
- De quem?
- Um cientista.
Eu levantei e parei na porta.
- São as ideias, percebe? Se os seres humanos não tiverem lembranças, serão fracos. Saí pensando em quem desejaria vingança.

Acordei quatro dias antes de meu aniversário.
Antes de minha mãe chegar na sala, perguntei ao nosso escravo:
 - Vocês odeiam os seres humanos?
Ele pareceu perturbado.
- Pessoalmente, acho que já foram uma raça sublime. Vocês decaíram muito depois que... Bem, vocês usam apenas imagens e sons agora.
Ele desligou a água, que fervia.
- Você lembra ano passado, quando os cadáveres fizeram uma manifestação pedindo direito à cidadania? Houve um massacre.

Acordei e fui até as ruínas. Um prédio de cimento, várias folhas com símbolos que ninguém sabia ler.
Nas páginas amareladas, a ilustração de um gigante com fogo. É isso! Precisamos explodir a conspiração.
- Você deve saber algo, algo pela sua intuição animal, você precisa me dizer alguma coisa. A revolta dos escravos vai ocorrer - meu escravo parecia muito assustado.
- Se você não me ajudar vou fazer com que te coloquem em segunda morte.

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, março 18, 2018

Livro: "101 dias em Bagdá" - de Åsne Seierstad

The bridge (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

The general was called to the lab.
He received information from Dr. Alves himself.
He remembered the legend told by the old general. He sent the men to fetch him.

After his death, L. was placed in a sack.
Inside the brass, cement, bottoming in the Tietê river.

The old general went to the wall, opened a safe.
The iron ball seemed inscribed with ancient symbols.
He pressed a kind of button.
The mechanism opened.
- We need a strong magnetic field.

The body on the asphalt in the rain.
He knew he'd seen this before.
He went back to his office. He looked for the files.
The bullet is the same.

"Our best men are dead," said the general. "At that time, the Police and Army had only one tactic. War of low intensity. We knew how to use torture, informants, vigilantes in search of information, neutralizing, disarticulating the opposition. Now, let's get this information again. Einstein-Rosen."

The French agents had studied with the Germans.
In the forest, secret area, they developed their theory.
Von Rotten imagined how to convey information.

- Simulate running over. Throw the body in front of the truck.
I took care of him in the last night.
He knew he would be killed, four agents will kill him in the morning. We can not repent.
The people we fight for are in power.

Von Rotten was walking in the woods with the young officer.
"In theory, two particles created together end up having a connection that seems to ignore the realism of spacetime. A paradox, or classical intuition does not correspond to physical reality. What if two singularities were entangled and separated from each other?

No clothes. Helpless.
"There never was. No rape" - the policeman told the priest.
The bishop went personally to visit the Battalion. He was there.
"After giving the wolf the taste of blood, it will not be civilized."

The ship comes back from Paris.
Algeria was research.
Lessons with foreign teachers.
- He's dangerous. A religious fanatic", the policeman said of the businessman.
He organized groups to fight the war - the strange internal war.

The ancient torturer is now a minister.
Research with the Germans has been shelved.
"We now know that it is possible to send a signal from the present to the past by changing a tangled particle. It would be dangerous for the French people, the minister said.

- Argentines are the worst. They like to learn.
In Chile the information leads to hunting.
The businessman wanted to use torture in his own people.

- I know where it is. The old general went to the wall, opened a safe.
"Von Rotten wanted to send information through space-time to train the men in the colonies. He told us that in the future we would know how to handle the entanglement of particles, causing a connection tube to be created.

Afonso Junior Ferreira de Lima

A ponte

O general foi chamado ao laboratório.
Recebeu as informações do próprio doutor Alves. 
Ele lembrava da lenda contada pelo velho general. Enviou os homens para buscá-lo. 

Depois de morto, L. foi colocado num saco. 
Dentro do latão, cimento, caindo fundo no rio Tietê.

O velho general foi até a parede, abriu um cofre. 
A bola de ferro parecia inscrita com símbolos antigos. 
Ele apertou uma espécie de botão. 
O mecanismo abriu-se. 
- Precisamos de um campo magnético forte. 

O corpo no asfalto sob a chuva. 
Ele sabia que já tinha visto isso antes.
Voltou ao escritório. Procurou os arquivos. 
A bala é a mesma. 

- Nossos melhores homens já morreram - disse o general. Naquela época, Polícia e Exército tinham uma só tática. Guerra de baixa intensidade. Sabíamos como usar tortura, informantes, vigilantes em busca de informação, neutralizando, desarticulando a oposição. Agora, vamos ter essa informação de novo. Einstein-Rosen.

Os agentes franceses haviam estudado com os alemães.
Na floresta, área secreta, desenvolviam sua teoria. 
Von Rotten imaginava como transmitir informação. 

- Simular atropelamento. Jogar o corpo em frente ao caminhão. 
Tomei conta dele na última noite.
Sabia que seria morto, quatro agentes vão matá-lo. Não podemos nos arrepender. 
As pessoas que nós combatemos estão no poder. 

Von Rotten caminhava pela floresta com o jovem oficial.
Em teoria, duas partículas criadas juntas acabam tendo uma ligação que parece ignorar o realismo do espaço-tempo. Um paradoxo, ou a intuição clássica não corresponde à realidade física. E se duas singularidades fossem emaranhadas e separadas uma da outra?

Sem roupa. Indefesa. 
- Nunca houve isso. Estupro não - disse o policial ao padre. 
O bispo foi pessoalmente visitar o Batalhão. Ele estava lá. 
- Depois de dar ao lobo o gosto de sangue, ele não será civilizado. 

O navio volta de Paris. 
A Argélia era pesquisa. 
Aulas com professores estrangeiros.
- Ele é perigoso. Um fanático religioso - disse o policial sobre o empresário. 
Ele organizou grupos para combater a guerra - a estranha guerra interna. 

O antigo torturador agora é ministro.
A pesquisa com os alemães foi arquivada. 
Agora sabemos que é possível enviar um sinal do presente para o passado, alterando uma partícula emaranhada. Seria perigoso para o povo francês, disse o ministro. 

- Os argentinos são os piores. Gostam de aprender. 
No Chile as informações levam à caça. 
O empresário queria usar a tortura no seu próprio povo. 

- Eu sei onde está.  O velho general foi até a parede, abriu um cofre. 
- Von Rotten queria enviar informações pelo espaço-tempo para treinar os homens nas colônias. Ele nos dizia que no futuro saberíamos manejar o emaranhamento de partículas, fazendo com que um tubo-de-conexão se crie.

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, março 17, 2018

The mansion (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

Lord Kevin loved entering the mansion like all mortals, watching the lights on upstairs, centered among the white columns. She always waited at the door.
- My love! One more year! She kissed his cool body.
Always liked the eighteenth century decor of the mansion, the wood of the doors, the golden details of the ceiling, the diamond chandeliers.
She had been a child who saw ghosts, lived in the decomposing mansion of her grandmother, and began to write the stories they told her in dreams. When they first met, on the day of the release of their first book on vampires (he wanted to get that nasty word out of the dictionary), she realized immediately when she looked into his gray eyes. Twenty years ago they were on the eve of Halloween; she loved to hear his accounts of what he had lived, especially about ancient Rome and Paris in the tumults of 1848.

She was interested in writing a novel about immortals amid bloody repression.
- Eight thousand people went to the Bordeaux cemetery to dedicate a monument to Flora Tristan, a feminist who died four years earlier. "The workers' union" spoke of emancipation of women and union of the oppressed. Is not it fabulous?
He gave her details about the "good wife" expected by everyone, "the order and discipline that kept the warmth of the home."
- The historian Michelet saw civilization as the fruit of the struggle between reason, spirit, man against matter, the Orient and woman ...
They dined on the table with twelve candles and six vacant chairs, the white moonlight streaming through the tall windows.

- You call me idealistic and romantic ... I never understood how an immortal being can approve the vulgar materialism and the worldview without moral values ​​of a Bávárov. The human being should be just an animal - but can mankind be stable with many animals like that?
They had been discussing Turgenev for years. Behind it all, her dream of to die for this life, her idealization of murder out of necessity, her insane quest for intensity. That's why he loved her.
"Did I tell you I met him?" He was vain, he loved a married woman, he walked elegantly through Paris, but I could see his blank stare. I watched him. He could not believe the weak generation of the 1840s, plunged into words because his Russia was still feudal ... He was actually suffering from the ill-treatment his mother imposed on the enslaved. But he was shocked at the idea that in this new world, glory would mean violence, not beauty.
- A young man in love says: "As a rule you should not miss people" ... The monster always suffers in the old films.

The fireplace was lit, despite the not too cold day. The noise of the night birds and the violin. She would not have imagined what he'd been through.
"I must say that every predator should fear for the end of humanity, which would be the end of his race. I have always believed that the strongest should prevail, just like any French aristocrat, but I see that complete extinction is a possibility. The working class admires those who despise it, wants to conquer a new apparatus, its ideal is to win alone. The new aristocracy does not produce more. The calculations are autonomous, lead to nothing but the irrational. At the end of the bourgeois plan is a fire, when each one took care of his garden and nobody watched the storm coming.
They walked through the green, the statue of Artemis in the lake full of plants.
Kevin felt himself in the presence of a feminine version of himself, could go with her to bed, could make his blood spurt out of pure desire of union. And yet they both knew it would never happen.
They sat on the bench as usual. She said:
"What I like most about the monster is that it has an ambiguous heart".

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, março 12, 2018

Elizabeth Costa Spiel (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

I do not think it's funny. No. The rain began at eight o'clock in the morning, at noon it was a storm, a hurricane at three o'clock. The light fell. I looked for a candle, the light was fading. Without moon. The pool, a black spot down there. The view of the valley was a black stain. I walked in the dark. My cell phone ran out of battery power, I could not read, I could not hear music, I could not fuck anyone. I thought knock on the neighbor´s door, I gave up in a second. Night was coming. And I thought it worked, when I married the right guy. He paid me a whiskey, bought me a car, and took me to his house in the mountains. Yesterday, I had television. I remembered the strange things in my life. A long fascinating life with all sorts of strange things and people. My character could talk like that.

A poor and crazy mother, who left the girl with a crazy and deaf grandmother to dance around. They dance in the dark. I never understood the whiskey, she says. Yesterday, some people died, he says. There were more than a few people, in fact, she says. I tell him, that's not enough. Can speak. That alone is not enough. As long as they stay in place, he says. My job demands a lot from me, he says. Let the best win, he says. The government said it was not going to pay wages. He has other plans. Cops do not work for free. My character could talk like that. A father died very early. The mother cried little and put flowers for three years, then tired. He, I knew him where I was working. They danced in the dark. Thinking well. I can not write in the dark. The cops do not work for free, I say. Now, we, we know. He has other plans. He needs the crisis. Then the deaths began.

Yesterday, I had television. My character could talk like that. We got along, me and her. I never missed the cutlery. We bought pearl bags together. I've never asked the wrong questions, his mother never asked the wrong questions, we're happy. The night has come. A strange feeling. Experiment cover the head with the comforter. Yesterday, some people died. They were more than a few people, actually. It's not that bad, he says. He's driving around and there's not a single cop in town. Life always finds a way, he says. Maybe I did not deserve it, my mother says. Experiment stretching, dancing in the dark. I try to eat something in the dark. Experiment to take a deep breath. I look out there. I do not see anything. Now I have to stay here alone, I thought, alone in my bed in a complete darkness in the world. Still a storm. All kinds of strange things and people. A fascinating long life.

Afonso Jr Ferreira de Lima

domingo, março 11, 2018

terça-feira, março 06, 2018

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

42.8 J - (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

My3-II descended first on the unknown planet. She could see M.V.2.M.D-I sweating.

The Freedom Mission was concerned about the ways of life that could exist there.

Bright rock crystals, a mist on the floor of silvery rocks, insects with an unpleasant buzz.

My3-II and his team advanced through a grove that looked more like a network of intertwined beings.

"How disgusting," said HCE 4.

They went into a cave. The last message said that an intelligent life form should inhabit the place, because an AI could be seen.

Ten years later, HUK-7 came down on the same planet. An army was prepared. In the meantime, a war had begun on Earth and a manned mission exploded in space. People never been able to go back to the planet, and there was a serious debate in Congress about the need to avoid new missions.

HUK-7 featured an alien life expert, an artificial intelligence specialist, diplomats and telepaths.

The commotion had lasted for many years. A trauma in the expansion of democracy. Since he was a child he had heard stories about the missing mission. Many thought that bacteria could have decimated the crew, others who might have been imprisoned as animals. He drew in the training forces of occupation that would arrest the alien criminals and defeat imperial forces.

As they entered the cave, they heard Mozart's Piano Concerto # 14. HUK-7 recognized his favorite music.

- Welcome to Earth beings. We have received you solar 1/3 of a year. We will ask the same question we asked years ago. Do you want to see it?

HUK-7 said no.

"Then you can hear what your friends left as the last message. This is My3-II, captain of the ship 42.8 J.
- My3-II talking. We find an artificial life form that can show the truth.
Nothing left of my colleagues. I smothered them with poisonous gas. I'll commit suicide myself then. When I discovered what Freedom Mission was, I decided to end it.
My3-II was next to his colleagues.

Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

o novo dia

os fascistas tomam o poder
ninguém acreditava que a primavera
pelo sombrio inverno podia ser coberta
em tão rápido declínio

aquela democracia, construção e luta
sempre pelo medo e pelo império ameaçada
eles não respondem mais ao povo
a esperança se esconde como um sol cinzento

o pote se quebra
a criança se perde
o frio toma conta da floresta
o mundo cheio de perigos solidão recomendada

o poço escuro
o animal se debate
a raça imperial afia sua faca
sozinho, o soldado vai para o escritório

o ódio dominou os homens letrados
o que será de todos nós, viajante?
as unhas compridas de um animal
seus pés pretos de sujeira e barba grande

escravos e senhores, os demônios governam
você é muitos, sai da igreja para lugar nenhum
homem livre está calçado, escravo sem sapato
raça dominante servida por negros e imigrantes

só as vozes do inferno, liberdade acorrentada
um sono nos homens de bem - dizem
"ninguém deveria ser tributado contra sua vontade"
“o despotismo pode ser ser a única alternativa”

o plano de decadência
minha poesia frescor da montanha
reta como cimento, descrição do cinza, agora
dura na indignação - espadas, lama, caos e silêncio

aquela democracia, pássaro abatido
um corredor escuro, administração científica do trabalho
portos abertos, indústria morta, grão e fuzil
destruindo todos os sistemas

o homem comum é nosso tesouro
o homem comum é o melhor investimento
de todos a primavera
preparar o dia em que todos os seres florescem 

não queremos homens-fortes
queremos voz e movimento, ouvir cada história
despertar do pesadelo povo forte, povo belo
os erros, para um novo dia de luz, são a ponte 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Blood Rituals (English version)

(This is a rush translation. Version may not be in its final form.)

- I'm shocked. She's a lawyer, and she's never looked fragile, "I said.
"The city of São Paulo was considered the worst metropolis in sexual violence against women in the world" - that was the topic of the conversation.
"Have not you heard of Artemisia Gentileschi?" Lyslei told me at the mall.
I was taken by surprise between a sip and another of cappuccino.

I went running to search.
The Renaissance rediscovered Aristotle. "As regards animals, the male is by nature superior and domineering and the female inferior and dominated. And the same must necessarily apply to the human world. "
The teacher of drawing and perspective.
As the woman is a sensual being connected to irrationality and matter, she seduces, betrays and lies.
It seems that both Eve and Pandora were a punishment for mankind. And since the Original Sin's guilt comes from the First Lady, she must be submissive, says Augustine.
In the fifteenth century, the Malleus Maleficarum made it clear that, having Eve born from a curved rib, "contrary to man's righteousness," she is always "an imperfect animal."
The priests of the Church cite cases of cross-dressing, women dressed as monks since, as Eusebius of Emessa said, holy priest of the year 300, "in virgins lust is dead, the body, nailed to the cross with its vices and desires, the body is a stranger to them. "

But in 1593, her father gave her the name of the hunting goddess. Surrounded by lions, "Lady of the beasts" for Homer, worshiped by eunuch priests, she remembers the ancient time of rituals in caves and trees, when the hunter hung the animal's skin on a trunk and made a prayer. If a sacrifice precedes the battle, if warm blood is offered to the gods, if the seers read fate in the viscera, Artemis is present, just as in Halai in Attica, by wiping a young man's neck with a knife, in Orthia, Sparta, when the Efebos are lashing at the altar.

She does not find suffering natural. "He put a cloth in my mouth so he would not scream. I scratched his face and plucked his hair."
It is said that the painter was tortured so that the complaint could be withdrawn.

The criminal's exile lasted four months. She had to live with the reputation of being seductive.
In the Greek vases the blood covers the altars; here it is spurting from the neck.
In Caravaggio's own painting, in which the Assyrian general loses his head, Judith seems a chaste and fragile girl. In Botticelli, she can fly at any moment like a nymph. The Judith of Artemisia is a strong and brutal avenger.
Nothing of the beloved ideal of the twelfth century, when the woman begins to have property in the south of France, the perfect beloved that demands works of the knights like proof of love, the world of Lancelot, the Knight of Carreta (1177) of Chrétien de Troyes . The criminal's face is on all the villains.

In 1649 she writes:

"Today I discovered that ... having executed a drawing of the souls in Purgatory for the Bishop of S. Gata, the latter, to spend less, gave the work to another painter, to paint it according to my drawing. If I was a man, I doubt that it would have happened ... I must warn you that my prices do not obey the custom of Naples, where it is customary to order thirty and sell for four. I am Roman and as Roman I will always act. "

Afonso Jr. Ferreira de Lima

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

The smell of meat (English version)

(This is a rush translationt. Version may not be in its final form.)

The strike was because the workers complained that the meat served in the factories was "green."
Some people had felt bad. One of them was hospitalized. "The bourgeoisie needs to defend its sense of superiority, which is why we need to eat rotten meat," said a popular leader. The repression was brutal.

Since the government had brought back some factories, offering even lower wages and freedom from regulation, and after it became clear that workers were unable to pay their own food at such wages, there had been a regulation for food that "suited costs and needs "; in practice the workers were more exhausted and fed worse.

In the beginning they ate only rice and "identical to natural" flavor sauce, but they got protein after a negotiation. However, gradually, complaints about the smell, the appearance and the taste of the meat appeared. "If you try to look in the kitchen, the smell looks like a dump, everything seems to have been hours without refrigeration," a worker told a local radio station.

On TV an expert talked about the fact that between his "consumption climate" and its degeneration, there was a time when the meat was healthy, but presented a bad appearance. It would be a waste to lose all that protein, he said.

The workers gathered and began to produce birds for their own consumption. Leader Manuele Ornan has unveiled fast-growing breeding methods. Small producers have raised enough to meet 1/3 of the demand through Food Houses. They planned a Manifesto and the inauguration of a house in the center, but their leaders were arrested the day before.

A journalist challenged censorship by publishing the interview with a political scientist who said that politicians could not see in the workers anything other than something "dangerous and subversive" because they lived in luxury: "In the elections, you win the candidates with more money. It is not representative system. The successful candidates have invested 20 times more than those who have lost. "

The newspaper was closed. Manuele committed suicide in jail.

The publicity, the use of infiltrators, the support of the university finally calmed the moods. The food did not please, but the prosecution demanded new spices and more pleasant odor. Finally, the daily use of a drug that avoided the more dramatic effects of a greenish meat was agreed upon.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

domingo, fevereiro 18, 2018

Bone Man (English version)

(This is a rush translationt. Version may not be in its final form.)

- Can you hear me?
He walked at the speed of light.
And it was just beginning.
The light travels in a year nine trillion, four hundred and sixty billion and eight hundred million kilometers.
You had to find a new planet. The time was running out.
The media already called him Bone Man. There was only one side effect.
He would lose his affective memories, keeping only functions linked to planning and action with the help of implants and nano-robots.

He tried to write what he knew. Maybe it was already a lot of mixed cliches and anguishes. Maybe it was science fiction already.
"Money, invested in science, produces progress" - Zola's phrase was the president's slogan. It was not an investment, but a "freedom to starve," as one journalist put it. Since democracy had been abolished, for "security reasons", after protests, all universities "without practical use" lost funding. Those who focused on humanities studies had closed.
The government basically functioned as a police force to contain revolts and as a bank lender in the event of market turmoil.

The bomb that ended New York was only the first tragedy.
Storms that killed thousands, lack of potable water, wars that generated a mass of immigrants were used to propose the changes.

The old downtown buildings were swept by condos-skyscrapers that linked to cities in the stratosphere and wide avenues of shopping in space.
Most of the population, in agriculture, managed by machines, disputes the semi-polluted streams to wash clothes, feeds on insects and instant noodles and has no access to the remedies after the end of public service.
The reform of education ended with "victim words." The "new ecology" was the main focus, that is, money for space research. Quantum physics had its mysteries.
"To say is to invent."He began to forget who his relatives were in the vacuum transmissions, until they noticed his indifferent smile.
His dreams, then, were all with things he did not know.
But they were full nightmares. He would enter underground areas of a house and see people sleeping there, among corpses and wretches.
- Can you hear me? - he said.
Someone was coming after him with a knife.
He woke up sweating.
Every day her body generated movements to maintain its function. He was even forgetting why he had decided to do that.
He began to feel trapped. He looked at the emptiness, the risk that the stars formed in their unpublished run. Pieces of him were also falling behind.
He saw one just like him, they talked.
- Fate, I should not have accepted. The future has already happened to you.
The other one drew a fish. He remembered his childhood when there were fish in the lakes. At night, they slept in their arms.
M 101 came close, a black hole of 20 million suns inside it, but it was not swallowing anything around.
- You are a star. These atoms have somehow lived 13 billion years ago.
He opened the door.

Afonso Junior Ferreira de Lima

Bone Man

- Você pode me ouvir?
Ele andava na velocidade da luz.
E apenas começava.
A luz viaja em um ano nove trilhões, quatrocentos e sessenta bilhões e oitocentos milhões de quilômetros.
Era preciso achar um novo planeta. O prazo se esgotava.
A mídia já o chamava de Bone Man. Havia um único efeito colateral. 
Ele perderia suas memórias afetivas, mantendo apenas funções ligadas ao planejamento e ação com a ajuda de implantes e nano-robôs.
Ele tentava escrever o que sabia. Talvez já fosse um monte de clichês e angústias misturados. Talvez já fosse ficção científica. 
"O dinheiro, investido na ciência, produz o progresso" - a frase de Zola era o slogan do presidente. Não se tratava, entretanto de investimento, mas de "liberdade para morrer de fome", como disse um jornalista. Desde que a democracia havia sido abolida, por "motivo de segurança", depois de protestos, todas as universidade "sem utilidade prática" perderam financiamento. Aquelas que focavam nos estudos de humanidades haviam acabado fechadas.
O governo basicamente funcionava como polícia para conter revoltas e como financiador de bancos, em caso de caos no mercado.

A bomba que acabou com Nova Iorque foi apenas a primeira tragédia. 
Tempestades que mataram milhares, a falta de água potável, guerras que geraram uma massa de imigrantes foram usadas para propor as mudanças.

Os prédios antigos do centro foram varridos por condomínios-arranha-céus que se ligavam a cidades na estratosfera e largas avenidas de compras no espaço.
A maioria da população, na agricultura, gerenciada por máquinas, disputa os riachos semi-poluídos para lavar roupa, alimenta-se de insetos e macarrão instantâneo e não tem acesso à remédios, depois do fim do serviço público.
A reforma da educação acabou com "palavras vitimistas". A "nova ecologia" era o principal foco, ou seja, dinheiro para a pesquisa espacial. A física quântica tinha seus mistérios.
"Dizer é inventar". 
Ele começou a esquecer quem eram seus parentes nas transmissões pelo vácuo, até que eles perceberam seu sorriso indiferente. 
Seus sonhos, logo, eram todos com coisas que não conhecia. 
Mas eram pesadelos completos. Ele entrava em áreas subterrâneas de uma casa e via pessoas dormindo ali, entre cadáveres e miseráveis. 
- Você pode me ouvir? - ele dizia.
Alguém vinha atrás dele com uma faca.
Acordava suando.
Todo dia seu corpo gerava movimentos para manter sua função. Ele ia esquecendo até mesmo por que decidira fazer aquilo. 
Ele começou a se sentir aprisionado. Olhava o vazio, o risco que as estrelas formavam no seu correr inédito. Pedaços dele também estavam ficando para trás. 
Ele viu um igual a ele, conversaram.
- O destino, não devia ter aceito. O futuro já aconteceu para você.
O outro desenhou um peixe. Lembrou de sua infância, quando ainda haviam peixes nos lagos. À noite, dormiam abraçados. 
M 101 chegava perto, um buraco negro de 20 milhões de sóis dentro dela, mas não estava engolindo nada ao seu redor.  
- Você é uma estrela. Esses átomos de alguma forma vivem há 13 bilhões de anos.
Ele abriu a porta. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Rituais de sangue

- Estou chocado. Ela é advogada e nunca me pareceu frágil - eu disse.
"A cidade de São Paulo foi considerada a pior metrópole em violência sexual contra mulheres no mundo" - esse era o tema da conversa.
- Você nunca ouviu falar de Artemisia Gentileschi? - Lyslei me disse no shopping.
Eu fui pego de surpresa entre um gole e outro de capuccino.

Fui correndo pesquisar.
O Renascimento redescobriu Aristóteles. “No que respeita aos animais, o macho é por natureza superior e dominador e a fêmea inferior e dominada. E o mesmo deve necessariamente aplicar-se ao mundo humano".
O professor de desenho e perspectiva.
Como a mulher é um ser sensual ligado á irracionalidade e a matéria, ela seduz, trai e mente.
Parece que tanto Eva como Pandora foram um castigo para a humanidade. E já que a culpa do Pecado Original vem da Primeira Dama, ela deve ser submissa, diz Agostinho. 
No século XV, o Malleus Maleficarum deixava claro que, tendo Eva nascido de uma costela curva, "contrária à retidão do homem", ela sempre é "um animal imperfeito". 
Os padres da Igreja citam casos de travestismo, mulheres que se vestiam como monges já que, como disse Eusébio de Emessa, santo padre do ano 300, "nas virgens a luxúria está morta; o corpo, pregado na cruz com seus vícios e desejos, o corpo é um estranho para elas".

Mas, em 1593, seu pai lhe deu o nome da deusa da caça. Cercada de leões, "Senhora dos animais" para Homero, cultuada por sacerdotes eunucos, ela lembra o tempo antigo de rituais em cavernas e árvores, quando o caçador pendurava a pele do animal num tronco e fazia uma prece. Se um sacrifício precede a batalha, se o sangue quente é oferecido aos deuses, se os videntes leem nas vísceras o destino, Ártemis está presente, assim como, em Halai, na Ática, ao se raspar com uma faca o pescoço de um jovem ou em Ortia, em Esparta, quando os Efebos levam chicotadas no altar. 

Ela não acha o sofrimento natural. "Pôs um pano em minha boca para que não gritasse. Eu arranhei seu rosto e arranquei seus cabelos."
Dizem que a pintora foi torturada para que a queixa fosse retirada.

O exílio do criminoso durou quatro meses. Ela teve de conviver com a fama de sedutora. 
Nos vasos gregos o sangue cobre os altares; aqui, está jorrando do pescoço.
Na própria pintura de Caravaggio, em que o general assírio perde a cabeça, Judite parece uma moça casta e frágil. Em Botticelli, ela pode sair voando à qualquer momento como uma ninfa. A Judite de Artemísia é uma vingadora forte e brutal. 
Nada da amada ideal do século XII, quando a mulher começa a dispor de propriedade no sul da França, a amada perfeita que exige trabalhos dos cavaleiros como prova de amor, o mundo do Lancelote, o Cavaleiro da Carreta (1177) de Chrétien de Troyes. O rosto do criminoso está em todos os vilões. 

Em 1649, ela escreve:

"Hoje mesmo descobri que (...) tendo executado um desenho das almas no Purgatório para o Bispo de S. Gata, este, para gastar menos, entregou a obra a outro pintor, para a pintar segundo o meu desenho. Se eu fosse homem, duvido que o mesmo tivesse acontecido (...) Devo alertar Vossa Ilustrissima Senhoria para o facto de os meus preços não obedecerem ao costume de Nápoles, onde é hábito pedir-se trinta e vender por quatro. Sou romana e como romana hei de sempre agir."

Afonso Junior Ferreira de Lima




domingo, fevereiro 11, 2018

Uma fotografia

"Eu não me lembro dessa foto", ele disse.
Ele trabalhava na universidade, sua função era ler os artigos dos pós-doutores e criar resumos que iriam para o público geral, alimentando editoras e jornais.
Algumas vezes pensava se não se tratava de uma estratégia política.
Mas, um dia, depois do almoço de domingo, quando sentou no sofá com sua mulher e começaram a ver fotos antigas, percebeu.
Ele não lembrava de ter tirado a foto, tinham se conhecido em outro lugar, tinha outra versão. Ele esquecera o real desse dia ou a lembrança desse dia era uma sombra?
Ele ficou obsessivo com isso e, no meio da noite, decidiu subir as escadas até o sótão e começou a vasculhar os arquivos, jogando no chão o que havia nas estantes, tirando todos os documentos de seus lugares, todos os antigos vestígios. Parecia que tudo ao seu redor havia sido montado para ele, fabricado como um cenário. Eram atores.
Por fim, exausto, enquanto a manhã trazia um gélido azul para o cômodo, ele viu numa parede, riscado com um canivete: "Dia Liberdade".
Ele dirigiu durante seis horas para a zona das montanhas, para encontrar seu chefe aposentado.
A luz criava efeitos maravilhosos no verde e os cavalos corriam com o vento.
- Eu pensei muitas vezes em te contar - disse o homem, depois que fez um chá e sentaram. A coisa funciona assim...
Pelo que ele contou, o outro criou um enredo; entendeu que no "Dia da Liberdade", aquele dia em que, uma vez por ano, o cidadão é levado a dormir numa sede de uma empresa contratada pelo governo para propiciar um relaxamento completo - descobrira-se, foi dito, que isso melhorava o desempenho do trabalho em 41% no período a seguir - nesse dia, as pessoas tinham seu cérebro vasculhado em busca de ideias "potencialmente instáveis", ideias que pudessem "ameaçar a segurança nacional". Nesse sentido havia sido aprovada uma lei para modificar levemente algumas memórias a fim de apagar os vestígios de revolta e indignação. Começou com um sentimento muito forte, uma humilhação muito profunda, um momento de histeria, tudo era suavemente envolto em névoa com choques elétricos. O perigo era o apagamento de algumas memórias importantes. Outras vezes o cérebro "refabricava" o todo, tentando criar sentido. Mas parece que haviam testado também a instalação de identidades paralelas. Mesmo desmentido pelos fatos, a crença artificial prevalecia. O custo de mudar todo o campo social, da mentira em conjunto no trabalho e na família, entretanto, levou ao abandono do projeto.
- Acho até que já falamos nisso. Você foi testado. A pessoa que você acha que é não fecha mais com a pessoa que os outros pensam que você é - disse o homem mais velho, fixando nele placidamente seus olhos azuis.
- Quem sou eu então? - ele disse chegando até a janela.
Nesse momento, segurando na cortina, tombou no carpete.

Afonso Junior Ferreira de Lima

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

O homem atômico

Os tanques chegaram ao palácio às quatro da manhã, uma névoa tomava conta do pátio.
O presidente e sua esposa foram levados à prisão.
A primeira declaração pública do novo chefe de Estado - um tanto incomodado com o púlpito cheio de microfones - falava de guerra atômica.
As pessoas coçavam a cabeça.
- Por que desenterrar essa história tão antiga?

Do outro lado do mundo, o líder do mundo livre imediatamente respondeu falando em "guerra atômica". Precisava de mais de um trilhão de dólares.
Os jornais falaram nas reduções governamentais no financiamento para a ciência. 
A mídia conservadora na internet bombardeou sobre o efeito positivo da saúde fiscal. 
Jornalistas lembraram do vexame nas instituições internacionais, ataques à justiça nacional, o novo imposto sobre universidades e cortes fiscais para os ricos e para as suas corporações.
O presidente disse à sua mulher:
- Não precisamos negociar. Democracia é publicidade. 
Ele promoveu um baile de gala e tuitou:
- Os inimigos do povo usam sofismas para colocar o Mundo Livre em perigo.
Um jornalista levantou a suspeita, sugerida por uma fonte, de que o presidente pacifico do outro lado do mundo fora derrubado com apoio das agências de inteligência, já que o governo recebeu muito dinheiro do complexo industrial-militar. 
Um senador propôs uma investigação, recebeu visitantes na sua sala. "Socialismo democrata" no muro.
O alarme soou preparando os cidadãos para a guerra atômica.

Afonso Junior Ferreira de Lima