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domingo, julho 15, 2018

Um mundo em perigo

"Liberdade para mim é isso: não ter medo". 
Nina Simone

"A gente não é violento apenas quando agride fisicamente. Tudo aquilo que a gente faz que restringe o outro pode ser percebido como violência. Quando me coloco numa posição em que estou no topo da hierarquia, eu só sei colocar limites de forma violenta". 
Brenda Pacheco, psicóloga 


Um rapaz universitário, de olhos claros, com suas postagens sobre o candidato fascista. O jornalista Leonardo Stoppa falando sobre a política do ridículo. Uma matéria afirmando: “O poder Judiciário custou aos cofres públicos R$ 84,8 bilhões” (Congresso Em Foco).


Um humorista conservador chama deputada de “cínica” e “nojenta”. 



Depois, tira foto ao lado de uma assistente negra e de um ovo de Páscoa e escreve: “de um lado esse maravilhoso chocolate de primeira que comerei o dia todo durante esse domingo tão especial. Do outro lado um ovo de Páscoa escrito meu nome".



O homem branco classe média de Trump quer deportação e prisão. 

Em manchetes, nós vemos jornalistas formados se prestando ao papel de ridicularizar uma senadora da república do Partido dos Trabalhadores. A campanha de ódio torna irrelevante a imprensa a não ser para a madame maluca e o universitário bozonazi.

Parece que a razão foi sendo tirada do sistema para não debater com o conjunto da sociedade ou seja, as pautas progressistas. Mas quando o pai é autoritário, o filho é fascista. 



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A ideia é que o pobre é inerentemente corrupto? 

Pessoas negras como objetos para satisfazer seu instinto? 

Toda a tribo isolada cria uma ideologia racista?

O sistema jurídico-policial só responde a um grupo. A polícia escolhe a lei a ser seguida. O juiz que discorda é punido. Sua rebeldia pode incentivar a indignação justa.

Há 100 anos, tanto o herdeiro do café (Lobato) quanto o imigrante racista (Kehl) pregavam segregacionismo e esterilização em massa. Refletir sobre instintivo sentimento de supremacia branca e indiferença que surgem numa crise sentida como perda de status.

"Nas décadas 1920 e 30, o pensamento eugenista cooptou muitos nomes influentes, como Júlio de Mesquita, proprietário do jornal O Estado de S. Paulo." 


Júlio de Mesquita falava da "massa impura de dois milhões de negros" com seus "sintomas de decadência moral". (Priscila Silva, 2015)


1964 - (Os) golpistas foram à embaixada perguntar qual seria posição de Washington caso fosse deflagrada uma guerra civil no Brasil. Segundo a revista Fortune, o diretor do Estadão, Júlio de Mesquita Filho era “um dos recrutas mais proeminentes” e “líder nominal do grupo”. (Operamundi)


(Lembro de um grupo de moradores de um bairro nobre no qual fui incluído; desesperado com a sensação de que o bairro não é parte da cidade, postei temas como fechamento de creches e  de centros culturais em bairros distantes. Um morador reclamou e a administrado me excluiu).


"A não análise do fascismo é um dos fatos políticos mais importantes dos últimos 30 anos. Isto permite que o fascismo seja usado como um significante flutuante, cuja função é essencialmente a de denúncia". (Michel Foucault apud. Paul Gilroy)


O perigoso jogo de tornar as ideias divergentes criminosas. Bilionários rentistas talvez prefiram fomentar a lógica do ódio até que loucos atirem contra lideranças progressistas. Isso pode sair do controle como ocorreu com o AI5, atacou seus gestores. 



Parece que numa sociedade de classes, desigual e injusta, é preciso implantar profundamente a ideia de desigualdade natural, de superioridade tribal, o invisibilizar normal, a ideia de "degeneração do outro". O crime estrutural da criação da injustiça e miséria, o instinto da indiferença.


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O Congresso como ditadura do dinheiro; a mídia hater; Justiça-Polícia como tropa de combate. Estamos vendo a falsa democracia, na qual a Constituição cidadã coabitava com um Congresso hostil, polícia-de-repressão, monopólio de mídia, falta de moradia e anistia a torturadores, deslizar para a tirania dos eleitos e sua força explícita baseada na alienação da massa. Ressurge a intimidação ao marginalizado.

O mundo da mídia é vazio de sentido. Os produtos são tudo. O tempo da comunidade se esvai, assim como ambientes públicos, porque tudo tem de gerar lucro. 

A sabedoria da democracia é que mais cabeças, geralmente, erram menos. 
Se saúde, parques, guerras, tudo são "oportunidades", como escolher apenas o que é melhor?

(Blackwater - Após os atentados de 11 de Setembro de 2001, a empresa expandiu sua atuação e obteve altíssimos lucros por meio de contratações públicas em meio à "Guerra ao Terror" deflagrada por George W. Bush. No Iraque e no Afeganistão, a Blackwater forneceu proteção a diplomatas, além de conduzir operações clandestinas da CIA - Operamundi - 22/10/2014). 

Desregulamentação. Mais prisões. Menos impostos no topo. Menos "gastos" nos serviços públicos. Venda de empresas públicas. 

"É vergonhoso que o presidente de um país se orgulhe de não ter pago os impostos por quase 20 anos... Os mais altos gestores das grandes corporações estadunidenses levam para casa cerca de 300 vezes o salário de um empregado médio." (Joseph Stiglitz - "A única prosperidade sustentável é a prosperidade compartilhada.")


O sistema evitou a crítica para poder governar sem participação: ninguém entende o que é capital improdutivo, a dívida pública, a tirana dos bancos. A incapacidade de pensar gera monstros. 


A cegueira do inimigo como pecado, guerra às drogas ou comunismo.

O juiz que, mesmo com uma legislação mais progressista, não reconhece a violência contra as mulheres e repete a prática patriarcal de culpar a mulher. 

Michelle Alexander: “Em 2013, vimos o fechamento de centenas de escolas de ensino fundamental em bairros majoritariamente negros. Onde essas crianças vão estudar? É um círculo vicioso que promove a pobreza, distribui leis que criminalizam a pobreza e levam as comunidades de cor para prisão” (LA Progresive)

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Um capital sem trabalhadores. O paraíso fiscal como ideal do individualismo máximo. Em parte isso é culpa do individualismo acumulador da nossa cultura - selecionar alguns escolhidos e que os melhores dirijam a todos. O homem super-rico se conecta com o trabalhador atomizado pelo desejo. Antigamente, a religião dizia que a hierarquia era divina. 

O lado "ruim" era que no topo estava Deus, o ser imaterial, e os seres humanos (quase todos) tinham uma alma e, portanto, havia limites (a ideia de que "posso fazer" é porque alguma lei grupal legitima). Com o fim da metafísica, a "inferioridade" é inerente, e tem a ver com a situação de não colono. 

Bad boss: predador é herói. Você não é um zé ninguém humilhado pelo mundo, eu te darei essa suposta força se você aderir a esse grupo (contra eles). A função da presa é alimentar o predador (o macho patriarcal fala em "comer" a mulher".) Predador, do latim "praedatōre", "ladrão".

Segundo a feminista Amelinha Teles: "O terrorismo sexual foi uma característica da ditadura. O torturador diz 'sou dono da sua vida, do seu corpo, eu venci e faço do seu corpo o que quiser... Eles achavam que as mulheres queriam superar os homens". (Opera Mundi - 08/06/2016)



Nosso mundo dá prêmios aos que trabalham para consumir; o trabalho do pensar é precarizado. Até mesmo o governador falou da Sociologia como algo "inútil" (algo que lembra o ódio nazista à pureza teórica). A curiosidade despertada pelo input social precisa de vácuo, não saber - nada bom, no mundo de empreendedores, com a grande utopia do aumento do número de acionistas no país, tentando oferecer jobs emocionais e jobs sociais (muito além de um simples produto), na linda jornadas pelos mercados de capitais e no qual se vende "ideias de sugestões de investimentos".  

Não admira que as famílias considerem fracassos as pessoas que não vivem para ter dinheiro - e o resto virá depois. Ou os playboys herdeiros achem fácil agredir as mulheres que se negam a ser objetos. 


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O homem branco ressentido que se sente roubado de sua ascensão planejada não culpa as estruturas de poder da elite/imperialismo (com quem se identifica), mas as figuras públicas, movimentos e ideias populares que conseguiram relativo sucesso. "Eu mereceria estar nesse lugar, não é justo". São pontos em comum com Himmler, a frustração de um agrônomo no pós-guerra, sua formação de um clube exclusivo. Ele queria "subir na vida"e precisava da legitimação de uma perseguição moralista - assim como, guardadas as proporções, nossas corporações (algumas lideradas por messias bíblicos) precisam de pautas "direitos humanos contra corrupção". 

Toda a vez que pensamos que todos são parte do jogo, a mentalidade da exclusão opera: agora a direita odeia as "minorias". Diferencialismo como prevenção de ameaças e paranoia de controle baseado na inércia do conservadorismo, na objetificação e no discurso totalitário: anticomunismo, homofobia, antissemitismo, islamofobia, classismo, misoginia. 

Foucault analisou esse mecanismo de domínio do bem e caça ao a-normal - a perseguição de elementos de "desordem", seja o louco, o operário "imoral e revoltoso", o "pederasta doente" ou o "judeu que quer adulterar a revolução para o marxismo" - como escreve Himmler em carta.  


Agora, a programação-fluxo da TV (propaganda e conteúdo) cria o sentimento de “você não tem valor”, é um “zé ninguém”: depois é oferecido o modelo de vida do luxo, uma meta para organização do tempo – segundo Kempf, essa comparação competitiva, procurando uma “diferença simbólica em relação às pessoas com quem vivemos”, estão mesmo fazendo com que a dilapidação da oligarquia sirva de exemplo a toda a sociedade. (Kempf, 2007)

O contágio de um ambiente em que ideias fascistas são incentivadas. 





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A sociedade de controle precisa do pensamento de sub-cidadão (a produção é ser incluído) para a mitologia e o maquinário de opressão. Não se aplica a Convenção de Genebra nos conflitos coloniais. Lula não pode ser julgado pela Constituição. As "espécies inferiores sem o apoio das leis" (Ellis, 1993) podem ser sindicalistas ou russos. Intolerância com a ampliação da igualdade. O truque de fazer o “outro”não se sentir capaz, ou se sentir culpado por uma revolta justa, crer que é “ressentido”. 

Como mostram os economistas Yanis Varoufakis e Joseph Stiglitz, o povo não pode nem entender de Economia - o FED se vendeu sempre como "independente", (até o socorro trilionário aos bancos), a Economia suprema está em outra esfera que nunca a Política, que brinca de democracia. Os herdeiros que lucram com rentismo são sempre muito mais inteligentes. 

"A ONG acusou o governo inglês de 'agir como um braço de pressão da indústria de combustíveis fósseis". (Jornal do Brasil 20/11/2017)  


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O ódio do herdeiro que chama de “esquerdismo toda demanda como forma de deslegitimá-la. Sua certeza prepotente.

O fascismo corporativo e o novo político showman que deixam a população sem serviços públicos e os torna fonte de renda privada. 


Fundamentalismo do sistema financeiro e corporações que quer se livrar do "intermediário" governo. O banco que impediu Clinton de fazer seu "É a economia, estúpido!" (dizem) e hoje é o comando no golpe do dólar. Quando ele começou?

João Pedro Stédile: “É revelador o grau de  de dependência que a humanidade começa a ter de algumas empresas que controlam a vida. Vira uma centralização que eles controlam tudo. A compra é um absurdo. A Bayer passa a controlar o mercado de adubos, insumos, fertilizantes, venenos agrícolas e sementes".


O caso mais dramático da vida como lucro é a privatização da saúde: não apenas o legislativo impede investimentos públicos como empresas terceirizadas ganham recursos (muitas vezes gastos em grande parte com "pessoal, uma forma de destinar verbas da saúde para a classe média), com poucos mecanismos de transparência e controle social, e sem foco na prevenção (menos lucrativa).

Além disso, o estresse da privação de recursos materiais pelo abandono gera mortes. Para o advogado Pedro Affonso Hartung, coordenador do programa Prioridade Absoluta do Instituto Alana, "...sem a política de restrição de gastos, nos próximos 12 anos poderiam ser evitadas 124 mil internações e 20 mil mortes de crianças até cinco anos de idade]". (Redação RBA - 17/07/2018)


O mercado imobiliário também considera um "mau exemplo" qualquer gasto com moradia. Afirma a urbanista,Ermínia Maricato: "Na gestão municipal passada houve um cadastro chamado Geosampa e vimos que 1% dos proprietários detém 46% do valor dos imóveis na cidade. Esse cadastro mostrou que há juízes que possuem dezenas de imóveis na cidade e ainda têm auxílio moradia. A especulação imobiliária é que cria a exclusão". (Redação RBA - 03/05/2018)


Por que você ouviria se eles são tão diferentes de você e só querem roubar o que é seu ou será?

A forma política que fez com que, ao se retirar um executivo progressista, tudo tenha ruído.  Trinta anos depois, o Congresso ainda é quase indiferente ao conjunto da população. 
A ponto de colocar veneno na comida. As pessoas desistem de votar. 
Legislativo autônomo.

(Lobby nos EUA movimenta US$ 3,3 bilhões - Liderando essas despesas no ano passado, as farmacêuticas despejaram US$ 234 milhões nessa finalidade...
Nesta categoria também estão lobbies tradicionais, como o conservador pró-Israel, que no ano passado desembolsou US$ 3,5 milhões... Os grupos a favor das armas de fogo gastaram US$ 6 milhões em lobby no ano passado, 25 vezes mais que os grupos a favor do controle delas.)

Não gosto de ser alarmista, a não ser quando a situação exige alarme.

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Por acaso, olho páginas fora do meu círculo. SD, PHS, Pode, PRB, PRP, PEN, PSL... Os candidatos da "nova direita" que defende "a intervenção limitada do Estado na economia e a defesa radical dos valores cristãos e da família tradicional (direita religiosa)". (Carta Capital)

O “livre comércio” que produziu miséria econômica e indigência intelectual vê seu espaço roubado pela mentalidade de guerra, talvez o estado perfeito do capitalismo (planejamento da acumulação e exclusão contínua).

- "A mídia não é 'inocentezinha' quando faz a defesa engajada do desarmamento civil. Assim, como Hillary Clinton e Barack Obama, eles seguem a Agenda Globalista, algo comum aos maiores ditadores e facínoras da história humana, para te manter desarmado e suscetível ao arbítrio do mais forte. E, quem pode ser mais forte que um Estado tirano?"

- A receita do sucesso do candidato, é simples: evitar a política, apesar de ser político profissional. “Tenho fotos de flores com 180 mil curtidas. Se puser que o Lula ou o Temer não prestam, o povo não quer saber. O que eu busco é criar uma amizade com o eleitor”, justificou. Para chegar aos 7,6 milhões de seguidores ele recorre aos impulsionamentos, o pagamento para ampliar a veiculação de postagens nas redes sociais.

- "O deputado não terá qualquer dificuldade para demonstrar que não é racista... Foi exatamente o que fez no Clube Hebraica, ao defender que todos devem trabalhar para seu próprio sustento, inclusive quilombolas e indígenas, ao invés de serem sustentados pelo Estado.”


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Que sistemas operam para que metade do Congresso não seja de mulheres, metade do Ministério não seja de mulheres e metade do salário seja das mulheres?

É mais fácil criar um heroísmo "conservador", ridicularizar o que ameaça seu sistema cristalizado de crenças. 

Por que o gay é uma afronta? O sonho patriarcal de que a mulher é frágil. William Summers, professor de Yale, no século XIX, usou esse conceito de extinção do mais "frágil" quando disse que só havia a opção entre liberdade com desigualdade ou estado opressor e sobrevivência do mais fraco. 

E o gay teria necessariamente que mudar de gênero, inverteria a hierarquia. Parece que a multiplicidade de masculinidades e o feminino homem é uma "perversão" do signo macho, cuja função é o controle, preservar a tradição e o patrimônio. O desejo fluído precisa ser eliminado através do objeto desejado. Perda de "status", quando até mesmo a biologia binária e funcionalista de Darwin parece contestada - vide a tese da bióloga Joan Roughgarden. 



Talvez a lógica seja a agressão - expansão do "espaço vital" (para expandir é preciso unificação), uso, conquista, exploração (assédio significa também alguém que vai perder dinheiro/espaço se não aceitar se tornar objeto usável). Parece tão sagrada a missão do homem branco de ganhar seu dinheiro que qualquer crueldade é apenas "fazer seu dinheiro". 

Criando a professora de Direito que diz na TV que a "Bolívia é insignificante",  o empresário que fala em "países de merda" e o pastor político que acredita que os africanos sofrem de "uma maldição" (fazendo a população negra sem formação negar sua identidade). Isso chega ao cúmulo de criar histeria de medo contra todos os muçulmanos, aqueles que levaram a herança grega à Europa feudal. 

Os povos escravizados, depois abandonados, agora perdem suas terras, como está ocorrendo na Colômbia, como explica Francia Márquez, uma ativista afro-colombiana, ganhadora do Prêmio Goldman de Meio Ambiente de 2018 :

"Nos últimos anos, o governo tem concedido ao nosso território concessões a grandes empresas transnacionais, como a AngloGold Ashanti, a Cosigo Resources, a Pan American Limited, mas também a pessoas de fora que solicitaram em 2009 uma licença de mineração e uma ordem de despejo. para a nossa comunidade, que está no território desde 1636." (DemocracyNow, 12/05/2018)


Belgas aplicaram a teoria das raças para usar os tutsis contra os hutus, que antes conviviam em relativa harmonia. 



Nenhum tipo de regulação para empresas predadoras que pagam salário de fome e usam agrotóxico. Leis antitrabalhadores.



Nenhum limite para os agressores verbais e físicos, nenhuma educação de gênero 

(educação significa autocontenção para ouvir o outro). Acordo nacional de impunidade com Supremo.

Sou forte, vendo vitória, posso fazer tudo "grande" de novo - sou forte porque ataco esse inimigo. 

Uma vez que ativos ("ações" são "ativos"; salários, que fazem viver pessoas, são "passivos") não fazem parte de comunidades, é o vale tudo por dinheiro. O lucro tóxico e o ouro sangrento são "sucesso".  No totalitarismo comercial, não há pensamentos independentes. 

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A urgência como tática de gestão dos oprimidos. 


Para que não se mude o status quo, viver em estado de crise com a angústia da sobrevivência, aliviada pelo impulso-consumo (você não vai querer mudar nada se está vendo sua cenoura logo lá apontada pelo marketing; e não vendo que ela se afasta). As pessoas falam de trabalho como de um "corre".
Quando a sobrevivência é ameaçada, se coloca o "eu na frente". Quando tenho pressa, não quero ninguém no meu caminho.


No nosso tempo está tudo nos livros. Mas ninguém mais tem tempo de ler livros. 



A grande mentira. Achar a informação correta exige oportunidade de formação intelectual, um meio social progressista ou plural e meios para adquirir instrumentos intelectuais. A ditadura nunca acabou porque os torturadores não foram punidos e a mídia nunca foi democratizada. O recontar e apagar da história (Jango é a principal vítima) se vê até mesmo na recente entrevista do ex-presidente argentino Fernando De la Rúa, depois de ter declarado estado de sítio, sugerido ao povo que ficasse em casa e surgiram protestos contra medidas de abandono do FMI e o fato de os bancos proibirem os argentinos de sacar seu dinheiro (Naomi Klein - "Não basta dizer não", Bertrand do Brasil, 2017). O presidente teve de fugir de helicóptero  Ele diz que "foi derrubado pelos peronistas". 

Depois de décadas de discurso de monopólio que cria outra lógica para conter a revolta, f
azer passar austeridade cruel, direcionar o medo para alvos políticos, de "saber científico" usando "autoridade" para criar oprimidos subservientes (quando o juiz Favreto divergiu, era um ato de "questionar a autoridade" da versão oficial), quando toda essa propaganda cai sobre uma população na qual metade dos adultos não tem ensino médio, não apenas surge uma mentira bio-política inquestionável como a fúria pode fugir ao plano neoliberal de terceirização do mundo.   

A opressão discursiva chegou à repressão física dos cultos afro-brasileiros, os vizinhos pedem ao juiz proibição de casas religiosas e os espaços públicos privatizados não aceitam os ritos ancestrais. 

A religião como organização de baixo-para-cima e forma de elevar a auto-estima, auto-consciência e a percepção da própria dignidade. As comunidades provavelmente desenvolveram formas de conter a insolência e a agressividade. Não parece acaso que Nietzsche (1844-1900), o gênio capaz de perceber a ascese como escravização, apontar o obedecer incondicionalmente como o "sentimento alemão" e abrir todo um novo campo de reflexões sobre a subjetividade da razão, não sendo um antissemita, tenha sido defensor da vontade de poder como valor máximo, com seu "além-do-homem" com instintos não limitados, e desprezado a solidariedade como "moral dos escravos" (sintoma de um tempo de senhores da indústria alemã nascente?) 

Se é libertador perceber o jogo de inferiorização que existe na atribuição de uma verdade fixa baseada em certo e errado, sem espaço para a subjetividade da autoridade, a "lei do mais forte" parece contrariar o que hoje sabemos ter sido essencial para a sobrevivência desse ser frágil num mundo de animais ferozes: a cooperação. 

Não é por acaso que nossa elite classe média (que nasceu em ambiente marcado por tanto desprezo sedimentado, racismo e parasitismo econômico) tem o filósofo como uma revolução alternativa a serviços públicos de qualidade - apresentando mesmo o grande metafísico como o grande democrata. 

É claro que, na sua estante, Hitler tinha livros com frases assim: 

"A diminuição dos instintos hostis e que despertam desconfiança... representa apenas uma das consequências da perda de vitalidade"... (Crepúsculo dos Ídolos - 1888)
"O homem livre é não-ético, porque em tudo quer depender de si e não de uma tradição". (Sobre os preconceitos morais - 1880)
"Há fantasistas políticos e sociais que com fogo e eloquência exortam a uma subversão de todas as ordens... O socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo..." (Humano, demasiado Humano, 1878)

É preciso lembrar que Nietzsche nunca viu o Holocausto nem as bombas no Japão. 

*

Os povos tradicionais admiravam a regularidade da natureza e sabiam respeitar suas forças, mas o homem moderno pensa controlar o mundo.
No Egito dos faraós, Maat é uma deusa que representa ordem cósmica e ética que
sustenta o mundo; o cosmos é um processo não um estado.

Maat era um princípio superior à lei que unificava o rei e o camponês – obrigava proteção aos fracos, e condenava o vício da ganância (“cupidez do coração “). Essa ordem global do mundo ao mesmo tempo recomenda ao governante que providencie “mantimentos e vestiário para todos” e critica a insensibilidade do funcionário corrupto - “não há festa para o ganancioso” dizia um discurso de sabedoria.

Quem diminui a mentira e fomenta a verdade (maat),
quem fomenta o bem e afasta o mal,
como a sociedade mata a fome,
vestido cobre a nudez,
como o céu está sereno depois da tempstade brava,
de modo a aquecer os que tem frio,
como fgo coze os alimentos crus,
como água apaga a sede.
(Carreira, 1994)


O povo hebreu também absorveu esse conceito na figura da Sabedoria, “pessoa e princípio”, por exemplo em “Provérbios” (p. 90) O twahid (unidade divina) dos muçulmanos também dizia respeito a essa unidade do mundo humano e divino, interior e exterior, que deveria refletir a justiça de Deus, com respeito à comunidade, evitando que os irmãos brigassem entre si ou vivessem na opressão. A própria jihad (luta) diz respeito a um esforço interior para corrigir os maus hábitos. (Armstrong, 2001)

Se Lutero (1483 -1546) libertou a comunidade de uma hierarquia, do academicismo e devoção exteriorizada medieval (exige do papado a renúncia a exigência de dominar o mundo e centra a autoridade na Bíblia), como decorrência colocou as obras em segundo lugar e tornou também o mundo um lugar manipulável (Santo Agostinho - 354-430 - lembra, em suas "Confissões", de um Deus que enche "o céu e a terra" e a linguagem aristotélica de ato e potência, forma e matéria, substância e acidente cede ligar a categorias pessoais como Deus misericordioso, homem pecador, fé, confiança), fronteira livre para a ciência, desprovido do valor intrínseco de reverência (como forças de vida) (Küng, 2002) Como aponta Weber: "O mundo existe para servir a glorificação de Deus e só para esse propósito". (2002, p. 85)

Em 1563 o protestante Pierre Viret escreve que, para os deístas, "somente existe um Deus que criou talvez o mundo, mas desde então ele é indiferente". (Minois, 156)

Se no centro do protestantismo (também complexo, variado e contraditório) está uma convicção igualitária, já que o elemento fundamental da sociedade é o indivíduo e o que torna alguém um individuo pode ser encontrado de modo igual em todos, seu duplo sombrio é a ideia de que é preciso um centro de controle, a razão, na jornada de transformar todos em personalidades éticas com motivos morais constantes e tecnicas de auto-regulação - porque o rico parece estar predestinado ao céu (Leites, 1986). Controlar a sexualidade - essa força móvel que se esconde e apresenta ao redor da consciência, se espelha na mulher-desejo.

Isso nos leva, quase 500 anos depois, à possível condenação do homem pobre em variações contemporâneas:

Para Edin Sued, sociólogo da religião da PUC-SP, na teologia da prosperidade, surgida nos Estados Unidos nos anos 1930, “se você foi fiel, dando dinheiro e tendo um comportamento respeitável, tem o direito de cobrar Dele as promessas de um retorno material”. (Taís Laporta IG economia - 16/08/2016)

Dez membros do gabinete de Trump participam de um grupo de oração com reuniões duram de 60 a 90 minutos guiado por Ralph Drollinger, um ex-jogador de basquete. Entre suas posições conservadoras, estão a de que "as escrituras não apoiam o comunismo", e seus desejos de "fazer discípulos de Jesus Cristo na arena política em todo o mundo".
(BBC - 10/04/2018)

O coração do constitucionalismo na França foi a necessidade de se aceitar várias religiões num mesmo estado. 

Essa involução fica ainda mais perigosa quando o Philip Alston, coordenador de um relatório da ONU sobre a fome, afirma que:
A política adotada ao longo do último ano parece destinada a acabar, deliberadamente, com as proteções fundamentais destinadas aos mais pobres, punir os que não têm emprego e até transformar em privilégio o acesso a serviços básicos de saúde” (RFI -02/06/2018)

Nós vemos um homem branco fundamentalista armado (também através de polícias, guerras e ocupações) se pensarmos no financiamento da indústria de armas a Trump e em suas ideias de mudar leis, num pais que teve mais de 300 tiroteios em escolas nos últimos cinco anos. Dos 435 representantes eleitos, foram 215 congressistas republicanos, de 240, que receberam dinheiro da NRA (National Rifle Association): 3.534.294 dólares (Esquerda.net – 03/10/2017). 

Tanto o fundamentalismo como projeto de poder ("derrotar essas abortistas" como diria o deputado Malafaia) quanto o individualismo sem voto nascem desse ambiente.


...esses indivíduos (adultos norte-americanos membros de seitas) são alienados por participarem de grupos que demandam absoluta lealdade e uma distância maior do mundo que os cerca. Grupos religiosos fervorosos, dogmáticos, com uma dinâmica interna exclusivista, tendem a minimizar a participação de seus membros em outras áreas da sociedade civil... grupos que se caracterizam por uma hostilidade maior à cultura dominante, que mantêm uma ideologia religiosa voltada para o mundo do além, e que possuem uma liderança carismática, têm constantemente levado seus filiados a se alienarem culturalmente dos padrões e valores de vida da população norte-americana. (Cavalcanti, 1998).


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O isolamento do planejamento urbanístico cria solidão.

Solidariedade faria todos crescerem. Mas o militarismo possibilita governar sem povo. 

Sem a maioria do povo. Planejamento da exclusão. A população negra foi sempre segregada. Como continuar com a escravidão depois da abolição? As habitações sem hospitais, escolas, áreas de lazer. Universidade e saúde são nos centros. O investimento público virou pecado. O jovem negro aparece na TV como perigoso; depois a guerra contra o negro o mata. O salário é miserável. Juízes brancos julgam racismo com pessoas negras.

"Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor". (Huffpost Brasil) Essa mulher foi retirada da presidência anos depois após uma campanha de difamação em capas de jornal, na televisão e na internet.


 “O Lula será apresentado como ‘não-leitor’”... Em relação à Dilma, 'vemos o eco da forma de descrição estigmatizada do perfil feminino de mulheres leitoras de romances”, afirma a pesquisadora Luzmara Curcino, professora da Universidade Federal de São Carlos, que analisou a representações dos presidentes na mídia brasileira. (RFI Brasil)

Parece que tudo que importa à pequena elite é mercado financeiro, e deixa-se o país ao crime e fundamentalismo religioso. Existe o negócio Gzus e o Banco de Notícias.

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Esse homem branco rico ofendido por não poder ser agressivo, criado na ilha de riqueza sem oportunidade de ser questionado, não tem intuição ética e percepção de injustiça que fazem criticar senso comum herdado. O "medo da esquerda" serve como impossibilidade de conhecimento, exclusão de causas progressistas e leva ao uso do fascismo como explicação rápida, denúncia do "grupo vítima". 


Tanto a guerra civil contínua da reativação dos fragmentos estagnados do poder de Foucault, quanto a comunidade de pensadores debatendo a melhor alternativa de Adam Smith e da Declaração de Independência dos Estados Unidos - "esfera pública definida pela palavra impressa" como diz Al Gore ("O Ataque à Tazão, 2008) - cedem espaço para o medo e a defesa do ataque. 

Minha vida é boa, mudar é ruim (mas, como justiça é paz, esse pensamento é um erro). O eleitor da Bavária e aquele que se sentiu ofendido pela energia limpa de Obama têm em comum o medo à mudança. A verdade é a coerência com o todo. Reforçando sua crença sem diálogo, chega-se ao mal. 

Vivem no mundo pós-Muro. No mundo da "classe Davos", super-ricos que decidem o mundo na torre de marfim, seus acordos internacionais capazes de processar governos por “receita perdida”, ainda que tenha sido uma revolta contra a água privatizada. 

"Grandes corporações como ExxonMobil e MasterCard já financiaram a Atlas. Mas o grupo também atrai grandes figuras do libertarianismo, como as fundações do investidor John Templeton e dos irmãos bilionários Charles e David Koch, que cobriam a Atlas e seus parceiros de generosas e frequentes doações. 

'O Instituto de Assuntos Econômicos – (IEA) possibilitou o governo de Margaret Thatcher – Da mesma forma, o desenvolvimento desse tipo de pensamento nos EUA possibilitou o a implementação das políticas de Ronald Reagan”, disse Milton Friedman uma vez. (Lee Fang, The Intercept, ago 2017) 


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O sentimento de ser elite, superego de dominação, elimina a intuição: é meme do crime, a vontade de resolver pela força, a culpabilização automática, de uma herança feita de sonhos de esterilização em massa e linchamentos. "Crianças negras são muito mais castigadas..." - diz Maristela Rosa, uma youtuber negra. 


Essa mesma minoria dona do discurso ainda detém os meios de violência do Estado e sua ciência jurídica - com a diferença de que, com a crítica do colonialismo e violência gerada na Segunda Guerra, a linguagem que cria a opinião pública (sendo tão caro o acesso à educação) é a primeira opção. Ela criminaliza. É a diferença entre militar e judicial, repressão física e mental. O poder produtivo do não-dito. 

Para Luis Nassif, os recentes eventos "comprovam que um dos pontos centrais da crise brasileira é a ausência de figuras públicas referenciais. Não existe a figura pública que se guia por princípios, pela obediência à doutrina. A onda obscurantista abriu espaço para três tipos daninhos de caráteres públicos: a) Os espertos b) Os medrosos c) Os convictos."

Eugênio Aragão: "Quanto mais se exibem as entranhas desse poder, mais truculento esse poder vai ficando. Como pra ele o voto popular não vale nada, ele tem que se apegar na sua 'autoridade'; toda tentativa de desnudar-lo é um desafio a sua autoridade... O que a corporação quer é continuar no topo da cadeia alimentar do serviço público". 

*

Continuamente a TV fala da "insegurança", essa que o fascismo promete resolver dando milhões de armas para os cidadãos. O medo do outro como arma da opressão, a ideia de que não haverá grande fortuna e corporação vigiada por todos os outros, mas dividismo – “o sul é meu país”, “pardos versus negros”, “gays versus trans”, "centro versus periferia", “gays versus mulheres”. Isso é muito diferente da diversidade de singularidades necessária a qualquer processo democrático. 

A democracia (uma palavra levemente nostálgica na distopia capitalista que se tornou o Brasil, o país da agiotagem e do paraíso fiscal) está ameaçada. 

Eleições que se tornam pantomima. 
Sistema anti-população. 
A aceitação popular da classe política foi substituída pela classe judiciária não-eleita de filhos que tinham dinheiro para estudar como diz Aragão. 
O perigo da rebelião bolchevique parece distante. A miséria que gerou o fascismo também.
O desmonte da democracia propicia a acumulação selvagem. São décadas de uma cultura de lucros irresponsáveis e corporações imorais sem rosto. 

Quando o governador Brizola foi atacado sistematicamente pela TV mesmo tendo feito 508 Cieps com alimentação, preparava-se o golpe com Dilma. 

Investimento é dívida produtiva e pode criar desenvolvimento, mas enfraquece os títulos dos investidores. 

Stiglitz: “Pode-se cortar o dinheiro que se gasta na guerra do Afeganistão. Pode-ser cortar várias centenas de bilhões de dólares desperdiçados no setor militar. Podem se reduzir os subsídios ao petróleo. Há muitas coisas que podem ser cortadas. E é preciso aumentar o gasto em outras áreas como a pesquisa e o desenvolvimento, a infraestrutura e a educação, todas elas áreas nas quais o governo pode obter uma boa rentabilidade de seus investimentos”. (Carta Maior, 19/06/2010)

Agora o deputado fascista declarou que a TV “defende bandidos”. Outro também criticou teledramaturgia.

Pode parecer, às vezes, apenas um fundamentalismo religioso cristão que vai dominar o corpo das mulheres e expandir o modelo de submissão pela ambição empresarial do pobre 

Existe luta e existe a maioria que quer apenas ser Beyoncé; política do desejo e foraclusão da democracia também pelo poder que a marca dá - é um clube. 

Mano Brown: "No governo Lula, a pessoa comprou um carro, uma moto, um celular caro, agora ela quer trancar tudo com um cadeado e colocar a polícia na porta para defender. Eu converso com as pessoas nas ruas. Tem quem diga que não leva o filho no CEU (Centro Educacional Unificado) porque é onde estão as 'piores crianças'. É a mentalidade elitista do brasileiro." (Rádio Brasil Atual - 12/12/2017)

O espaço público apropriado está representado na nova TV Pública de SP: um show de horrores estilo Fox News. O inimigo não deve abrir a boca. 

Depois de ditaduras ferozes, a América Indígena parece viver um ciclo de criação de crise e violência repressiva (a "doutrina de choque" de Klein).  

O Judiciário parece ser o dispositivo muito bem pago pelo 0,1% mais rico - que ganha em um mês o mesmo que quem recebe salário mínimo ganha em 19 anos (Oxfam) - para operar o acúmulo de patrimônio e o sistema de criminalização (encarceramento e medo). 
(Já foram entregues o petróleo, a Embraer, e se propõe entregar água e saneamento). 


Alexis de Tocville, enviado pelo governo francês para estudar as prisões nos Estados Unidos, apontara para esse fato em 1835: O juízes, nos Estados Unidos, é uma das principais forças políticas”. 

Alexander Hamilton, primeiro Secretário do Tesouro da nova nação, afirmava que “todas as comunidades se dividem entre uma elite e uma multidão... o povo é turbulento e cambiante raramente faz julgamentos corretos”. (apud. Limoncic, 2009). No ano de 1806 um tribunal usa a doutrina da conspiração contra uma organização de trabalhadores.

Mas nem toda presa se sente tão desigual – o congressista americano de Ohio, John Milton Goodenow (que frequentou escolas públicas e se formou em Direito) dizia em 1829: “Eu devo respeitosamente advertir ao poder legislativo para não sustentar estes déspotas (juízes), imitadores da tirania do velho mundo”.
(Ohio é agora o lar de Tammy Tomas, ativista negra americana que nasceu em uma vibrante comunidade multicultural na zona leste de Youngstown nos anos 1960, e se tornou um bairro devastado eminentemente negro, “de vazios e silêncios”, pessoas sem emprego e execuções hipotecárias - Packer, 2014, p. 49)

Quando o presidente Roosevelt – no contexto do “National Industrial Recovery Act” de 1933 - fala que numa ação cooperativa da indústria” (pois “sem uma ação conjunta... pagarão salários de fome e insistirão em longas horas de trabalho”), pressupõe que a comunidade puniria a empresa que agisse de modo não coperativo através da reprovação – o “selo” Blue Eagle criado como peça de propaganda.
A lei de Rossevelt representou um “importante deslocamento do Poder Judiciário para os poderes Legislativo e Executivo”. (Limoncic, 136).

Uma lei é um reconhecimneto de igualdade relativa, um diálogo – que a ideologia da desigualdade torna imoral por não operar na formação da classe - você faz parte do esquema se tem alguém abaixo de você, você é um gerente, defende seu status relativo numa sociedade hierarquizada.

A solução de transferir o trabalho para países nos quais não opera a plena democracia operou a clivagem entre mercado interno com salários altos e e comunidade política – o trabalho indigno está na China, os consumidores nos Estados Unidos.

Se o empresário imoral é o modelo (como aponta Klein) porque “vencer a competição é tudo”, quando a competição é vendida como valor máximo através da propaganda para um trabalhador que fica sem entender o que acontece preso no mundo do consumo e na difícil vida segregada (consciência coletiva: “não é essa a narrativa, é mentira o que vocês estão contando, a verdade é outra”) – o direito ao trabalho digno desaparece na rivalidade e a “jornada de trabalho legalmente limitada”, que estabeelece um tempo fora do lucro (de Marx) pode ser substituída pelo contrato individual de trabalho – “que poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito – pela qual o trabalhador se compromete a prestar serviços a um empregador, sem garantia de continuidade, de jornada pré-estabelecida nem de remuneração fixa, sempre que for convocado com pelo menos três dias de antecedência.” (Agência DIAP/25/06/2018) 

Como pensou Marx:

Para se proteger contra 'a serpente de suas aflições (Heine), os tabalhadores tem de se unir e, como classe, forçar a aprovação de uma lei, uma barreira social intransponível que os impeça a si mesmos de, por meio de um contrato voluntário com o capital, vender a si mesmo e às suas famílias à morte e à escravidão”. (David Harvey, 2013) 

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A paz não interessa aos grupos que querem substituir o processo eleitoral (com a mobilização crescente das comunidades) por modelos elitistas de política. "Na paz, os movimentos populares crescem", diz o ativista Héctor Mondragón. 
A Colômbia tem se tornado um símbolo do processo de uso da violência (e da Justiça) para calar o contraditório (estranhamente o pastor Malafaia diz que quem não aceita seu ponto de vista rígido “não aceita o contraditório”).

Os camponeses colombianos historicamente foram expulsos para as montanhas, depois as leis trabalhistas foram modificadas, os trabalhadores foram obrigados a cortar muitas toneladas de cana para se manter. Recentemente, as populações se organizaram e conquistaram as eleições e buscaram retomar o controle de territórios historicamente reconhecidos. 

Em 2017, 142 lideres populares e defensores de direitos humanos foram assassinados no país. Durante décadas, empresas extrativistas, que tem interesses em áreas indígenas ocuparam essas terras depois que grupos paramilitares executam assassinatos. Os ativistas erguem cartazes com os dizeres: “Não nos matem para que possamos lutar por nossos direitos” e “Não é crime defender nossos direitos”.

"Onde existe a luta contra a mineração ilegal, contra o extrativismo, é onde os líderes estão sendo assassinados", afirma Maria Consuelo Tapias, delegada do Exército de Libertação Nacional (ELN). "Os líderes sociais do [departamento de] Chocó... vêm denunciando que estão em seus territórios mais de 200 paramilitares uniformizados e protegidos pelo Exército" (Brasil de Fato - 04/122017)

Há um modelo de terror no qual religiosos pela guerra, políticos corruptos e paramilitares se aliam (Israel sem palestinos tem algo a ver com a volta de Jesus, a guerra e a venda de processos de controle é um negócio bilionário).

Segundo o Mondragón, também a homofobia e misogenia do combate contra a “ideologia de gênero” mobilizou os eleitores para vencer um candidato progressista, o primeiro a chegar ao segundo turno sem ter sido assassinado em décadas, Gustavo Petro, em 17 de junho de 2018. 

Existe toda uma campanha para que os direitos humanos sejam vistos como algo ruim.

Isso se estende à guerra de conquista acadêmica de Samuel Huntington, professor de Ciências Políticas da Universidade de Harvard, que transforma o conflito entre as transnacionais e comunidades expropriadas em “choque de civilizações" (Olavo de Carvalho, pai da extrema-direita jovem, seria um exemplo nacional?)

Ele "(apresenta) a cultura anglo-saxônica como superior e a identifica com o individualismo, na mesma medida em que a vê ameaçada pelas culturas que enfatizam os direitos coletivos. O indígena, como berço desses direitos, seria, segundo Huntington, o fundamento do atraso na América Latina". (Mondragón, 2012)


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Foram décadas de doutrinação e bloqueio comunicativo, o jornal-bilionário (que produz a reinformação, narrando fatos de forma a desmobilizar pela dúvida moral movimentos e lideranças), com "polêmicas" sobre cigarros, aquecimento global, etc., por rádio (o rapaz que conhece Miami, mas não o Capão Redondo à 60 km do centro), TV (toda noite o trabalhador senta no sofá depois do trabalho e assiste a oligarquia) e agora - sem o papai! - a perigosa bolha do ódio da internet. 


O "livre mercado" é o produto mais vendido e sua brutal desigualdade é fragmentada em mil ideias desconexas. 

Não há revolução em vista para assustar os poderosos. 
Talvez a filosofia por trás do capitalismo seja apenas darwinismo social. 

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As pessoas votam na candidata nova.

As pessoas recebem Trump com protestos bem-humorados. 

As pessoas ouvem música na rua.

As pessoas leem livros.


As mulheres lutam contra a tirania denunciando deputados fundamentalistas. 

Diz Angela Davis:

"Nós resistiremos. Em todos os dias da administração Trump, resistiremos. Resistiremos ao racismo, à exploração capitalista, ao hetero-patriarcado, à islamofobia e ao preconceito contra pessoas com deficiência. Defenderemos o meio ambiente dos ataques insistentes e predatórios do capital... Nós sabemos que as transformações históricas sempre começam pelas pessoas... as mulheres negras sempre se engajaram nas lutas de outros grupos – por vezes, ao ponto de se excluírem (subjugando suas próprias lutas). Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. (RBA - 26/07/2017)

*

A nobreza era quem protegia as pessoas – a defesa é o melhor controle.

A sociedade do dinheiro – que organiza tempo, desejo e pensamento funcionando com a sociedade da guerra, controlando dissidentes, doutrinando pela mídia, criando precarização e criminalização.

Luther King Jr. falou do monstro de três cabeças: militarismo, racismo, materialismo. 

Enquanto toda a natureza não for protegida da ambição, não podemos perder a esperança. 

Enquanto houver um grupo de pessoas vivendo sem dignidade, a libertação do pensamento não estará completa. 

No fim, a luta contra a opressão é eterna.

O lucro é relativo, a vida é absoluta. 

O sentimento de que merecemos - todos e cada um de nós, os animais e todos os seres  - uma boa vida é mais forte.

Solidariedade é revolução.


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- Congresso: o índice de reeleição pode chegar a até 90%...os 0,09% que estão no topo da pirâmide – aqueles que ganham mais de 320 salários mínimos –, poderão doar em torno de R$ 760 mil ao seu candidato ou partido político. Enquanto isso, aqueles que ganham até dois salários mínimos, os 11,6% dos declarantes na base da pirâmide, poderão doar cada um R$ 854,00, em média.
http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/07/sem-teto-para-doacoes-de-pessoas-fisicas-ricos-elegerao-a-maioria-em-2018


Um salário mínimo: com essa remuneração se precisaria trabalhar por 19 anos seguidos para receber o mesmo que o 0,1% mais rico da população brasileira ganha em um mês. Para reverter o quadro de desigualdade, a Oxfam Brasil propõe alterações no que chama de “sistema tributário amigo dos super-ricos”, que onera principalmente os mais pobres e a classe média, maiores gastos sociais e maior formalização no mercado de trabalho. “As desigualdades não são inevitáveis. Elas são escolhas políticas”, afirma Katia

https://forbes.uol.com.br/colunas/2017/09/brasileiro-que-recebe-salario-minimo-levaria-19-anos-para-ganhar-renda-mensal-de-super-ricos/


Guardiões de sementes resistem ao monopólio das multinacionais
“Para quem não sabe, o guardião de sementes é aquela pessoa que mantém as sementes crioula e preserva a diversidade que o mundo precisa”. 

https://www.brasildefato.com.br/2018/06/08/guardioes-de-sementes-resistem-ao-monopolio-das-multinacionais/

Ladislau: e os bancos sugam a riqueza do mundo  - Não é o fim do capitalismo, mas o fim do capitalismo democrático. Antes eles precisavam de milhares de pessoas, hoje a regra mudou e são as próprias corporações quem decidem o que pode e o que não. Isso porque o sistema financeiro é global e o controle dos bancos centrais são nacionais”, frisa.

https://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/ladislau-como-os-bancos-sugam-a-riqueza-do-mundo/




Xadrez do golpe na era da hipocrisia – 2, por Luis Nassif
https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-golpe-na-era-da-hipocrisia-%E2%80%93-2-por-luis-nassif
'Cidade de São Paulo é submetida à dinâmica de busca enlouquecida por poder'
Para o coordenador da Rede Nossa São Paulo Américo Sampaio, gestão de João Doria na prefeitura "sequestrou" agenda legislativa da Câmara em função de seu interesse em se candidatar a outros cargos

http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/07/cidade-de-sao-paulo-esta-submetida-a-dinamica-da-busca-enlouquecida-por-poder

“Na verdade, a ideia inicial do projeto era estudar experiências positivas de cooperativismo ou economia solidária”, revela a pesquisadora. “Entretanto, acabei conhecendo o grupo de Mulheres Artesãs da Enseada da Baleia, ligado ao turismo, que participa de feiras de Economia Solidária feminista. A partir dessas feiras, conheci outros grupos de economia solidária formados somente por mulheres. Então, percebi como o tema de gênero não é muito estudado na academia”, comenta.

https://paineira.usp.br/aun/index.php/2017/11/29/grupos-femininos-de-economia-solidaria-dao-autonomia-para-a-mulher/

Angela Davis na Bahia: 'Mulheres negras são a esperança da liberdade'
Rádio Brasil Atual - 12/12/2017

http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/07/angela-davis-na-bahia-mulheres-negras-sao-a-esperanca-da-liberdade



Gilroy, Paul. Entre campos: nações, cultura e o fascínio da raça. São Paulo: 2007. 
Harvey, David. Para entnder O Capital, São Paulo: Boitempo, 2013. 
Kempt, Hervé. Como os ricos estão destruindo o mundo. in: Bava, Silvio caccia (Org). Thomas Piketty e o segredo dos ricos. São Paulo: Venetta; Le Monde Diplomatique, 2014. 
Klein, Naomi. Não basta dizer não:Resistir à nova política de choque e conquistar o mundo do qual precisamos. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2017
Packer, George. Desagregação: por dentro de uma nova América. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 
Leites, Edmund. A consciência puritana e a sexualidade moderna. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987
Limoncic, Flávio. Os inventores do New Deal: Estado e sindicatos no combate à Grande Depressão. Rio de Janeiro: Civilizaçao Brasileira, 2009. 
Longerich, Peter. Heinrich Himmler: Uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. 
Mondragón, Héctor. EMPRESA COLONIAL, ONTOLOGIA E VIOLÊNCIA. Agrária (São Paulo. Online), [S.l.], n. 17, p. 6-41, nov. 2012. ISSN 1808-1150. Disponível em: . Acesso em: 17 july 2018. doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.1808-1150.v0i17p5-40.
Silva, P. E. (2016). Um projeto civilizatório e regenerador: análise sobre raça no projeto da Universidade de São Paulo (1900 -1940). Tese de Doutorado, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo. doi:10.11606/T.48.2016.tde-01072016-104831. Recuperado em 2018-07-17, de www.teses.usp.br

TUTAMÉIA entrevista professor Ladislau Dowbor
https://www.youtube.com/watch?v=ujkV5XTzNu8&t=9s

Naomi Klein, "No Is Not Enough"
https://www.youtube.com/watch?v=GSKtv125CN8

Violências contra a mulher
https://www.youtube.com/watch?v=IW5CWs0vkeg

Intolerância Religiosa - Vagner Gonçalves da Silva

https://www.youtube.com/watch?v=GwrDFErc760

Capitalism will eat democracy -- unless we speak up | Yanis Varoufakis
https://www.youtube.com/watch?v=GB4s5b9NL3I

Gipuzkoa Talks: Joseph Stiglitz
https://www.youtube.com/watch?v=0uJc65fWAkk&t=1536s

American Identity in the Age of Trump with George Packer
https://www.youtube.com/watch?v=aiJTUwAV-vc&t=3368s

Entrevista com Eugênio Aragão - Jurista, ex-ministro da Justiça
https://www.youtube.com/watch?v=_Y-pEikUQrs


Fonte: Economia - iG @ http://economia.ig.com.br/financas/meubolso/2014-08-16/rico-vai-para-o-ceu-e-pecado-
cobrar-juros-a-lei-das-religioes-sobre-o-dinheiro.html

http://br.rfi.fr/americas/20180602-onu-alerta-que-ascensao-de-trump-aumentou-pobreza-extrema-nos-eua

https://www.youtube.com/watch?v=cMow_C7fMBQ

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43699303

https://www.brasildefato.com.br/2017/12/04/por-que-continuam-matando-lideres-sociais-na-colombia/

https://www.esquerda.net/artigo/eua-os-politicos-que-recebem-dinheiro-da-industria-de-armamento/51215

http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2018/07/pec-do-corte-de-gastos-vai-aumentar-ainda-mais-a-mortalidade-de-criancas-no-brasil


http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2018/05/culpar-as-vitimas-do-desabamento-e-desfacatez-diz-erminia-maricato