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domingo, dezembro 17, 2006



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Porto Alegre talvez seja a única cidade do mundo com dois times campeões mundiais. Finalmente posso falar de igual pra igual com os colorados... :)

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Funk no metrô

Um bando de adolescentes invade um pobre banco do metrô, gritos e briga, querem sentar todos juntos; uma moça,ela deve ter doze anos, fica de pé, outra grita- "pega no ferro vai"; decidem tirar foto de celular com câmera, a maior, de uns quatorze anos, faz poses, agacha, quase senta no colo de um rapaz para tirar a foto; "desculpe", depois de deixar o menino encabulado; um pequeninho dança, enquanto os maiores cantam; a música é algo como:

"Tá quente vou pra praia
Vou pegar uma gatinhavem, fica de bruços
vou roçar na sua bundinha"

O pequeno mexe os quadris- isso é que é zona de desenvolvimento proximal, senhor Vigotsky, os grandes ensinam os pequenos. É, Paulo Freire, educação é meio-ambiente...

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Proponho criar os "graus humanos". Quando chega a 36° C. está "1000 graus humanos". Quando chega a 42, como anteontem, está "3000 graus humanos". Mas quando chega a 50, como é o que se sente aqui dentro, então romperam-se as barreiras do humano. Chega-se ao "grau-Bush-não-assinou".
Proponho também a criação de cinco lagos artificiais em Porto Alegre (um deles na área do antigo Beira Rio).
Competitivo
Sou um empresário vencedor
Hoje fiz com que um funcionário trabalhasse por seis
minha fortuna subiu de trinta trilhões novecentos bilhões
para trinta trilhões novecentos bilhões e um
Sou um empresário vencedor
Hoje consegui deixar de pagar impostos, com isenção, senão fugia do Estado
minha fortuna subiu de trinta trilhões novecentos bilhões (e um)
para quarenta trilhõesSou um empresário genial
Hoje fiz com que meus funcionários pagassem pela sua saúde, trabalhasem sem ar condicionado e fossem recontratados pela metade do salário
meu patrimônio cresceu, sou mais competitivo
também acabei com a água de graça; vai que faltatambém destruí uma floresta e paguei para meu filho ficar longe
Sou um empreendedor competitivo
meu patrimônio subiu de quarenta trilhões novecentos bilhões
para quarenta trilhões e 300 bilhõesdestruí a África, acabei com os pólos- devido a fumaça
a violência aumentou, o calor aumentou, gente pedindo comida aumentou
30 seguranças para meu filho, mas o negócio prospera
Sou um top of mind
eu tinha quarenta trilhões e 300 bilhões e agora tenho cinqüênta trilhões.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Que marca deixaste no mundo
Alma errante?
Um silêncio sem rosto agora pelo mundo
Um sangue antigo trouxeste ao nosso tempo
Um sangue arcaico, sangue ainda
Fantasmas, gemidos, frio cálice de ouro
Teus amigos não estão, falta gente e lembranças
De um tempo que não foi escrito

Os homens, pobres homens tão reais
Quando "o progresso" traz sua paz absurda
A paz é ameaçada agora e agora
Içar velas, velas à paz
Pelos corredores escuros há muitas razões razoáveis.
Estejam além da razão, homens de dia e pão
O medo abre conquistasMas o tempo é mar
Maldito cálculo que alça vôo- condor negro
subtraindo falas, cociente pessoas
Vitórias: que a própria carne estremece
Três filas de mil almas agora te aguardam
Sombrio "salvador"
Rosto sem olhar,
Que deixaste para nós?
O mundo de ti se despede
Estandarte de um banquete indigesto
Como se inferno e céu
Tendo gozado de tua força
Te fizesse cair no espaço nulo do indesejável
O mundo é silêncio agora, senhor
Ninguém chora tua morte.

ajr

sábado, dezembro 09, 2006

Afastado por negociar?

06/12/2006

JUSTIÇA AFASTA COMANDANTE DA BRIGADA

"Confusão à vista nas relações entre a Justiça gaúcha e o comando da Brigada Militar. A Justiça determinou nesta quarta-feira o afastamento do comandante geral da Brigada, coronel Airton Carlos da Costa.

O pedido para a saída do oficial foi feito pelo Ministério Público Militar. Segundo a promotoria, o coronel teria interferido na coleta de provas com testemunhas e intimidado subordinados no caso da desocupação da empresa Standard Logística em Esteio, durante um ato organizado pela Via Campesina.

Ele é acusado de ter descumprido a determinação judicial de desocupar a área. Naquela ocasião, a Brigada optou por negociar com os ocupantes para evitar um conflito que poderia ter conseqüências violentas. O promotor João Barcelos dos Reis vai solicitar também o afastamento de dois oficiais do Conselho Superior de Justiça, que receberam recentemente distinção do comandante."

http://rsurgente.zip.net/

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Memórias do mundo intermediário (entre a Novela e a favela)

Fiquei chocado ontem, ao ver Casseta e Planeta. A Folha havia comentado que a tendência seria perder o humor, perdendo Bussunda. Achei forçado, na época.

Mas convenhamos: primeira piada- o Lula de pé enfaixado com a faixa presidencial, perguntando se a faixa vai ficar com chulé; depois carros, barulho e um cara que diz fazer jardinagem como terapia, fala no divã com girassóis (está bem mais engraçado nesta linha); um campeonato de “adolescentes” baderneiros que cantavam “daqui para o Carandirú...” e por aí vai... Ah, teve também a que dizia que o sózia de Lula não teve permissão de pousar por causa dos controladores de vôo...

Piada sobre o Lula ainda, que saco! A Marinete também achou muito engraçado um monte de carne que cai no chão, “é cordeiro ao chão”. Huahaha.
Conversa simplificada, para o povo entender, claro. Meios de Comércio Social. Mas não exagerem...

(Povo, que povo? Fazendo como cidadão comum uma carteira de identidade descobri que se leva uma hora na fila; tem um cartaz que diz: "Para ser isento de taxa tem de comprovar renda de menos de 400 reais, não ter dinheiro na hora não significa ser carente". Como é? Para ser carente têm de estar de carteira assinada?)

Hoje, no Correio, uma senhora na minha frente dizia: “Quero zento”.“O que?”, perguntou a funcionaria. “Zento” “Ah, declaração de isento.”

A moça disse que seu nome no CPF não correspondia ao seu nome na identidade, era preciso ir na Receita Federal, ela saiu dizendo "eu lhe digo que tenho CPF desde antes de meu marido falecer, ora essa, não tenho CPF..."

Depois a moça comentou como é difícil lidar com as pessoas, “Eu não sabia que o povão era assim, levei um susto, esse é o mundo em que eu vivo? Eles não entendem que CNPJ e CPF é diferente, ou que Isento é diferente de Imposto de Renda. Era para ser algo simples, mas leva meia hora.”

Uma amiga minha, professora do Estado do RS, comenta que há quatro meses não recebe... Salário? Por que?
Conversa simplificada, formação simplificada, conversa simplificada.Vejo na TV:
“De acordo com a pesquisa da Universidade das Nações Unidas, Roger e Amanda – com um patrimônio de mais de US$ 500 mil – fazem parte dos 2% mais ricos do planeta. São pessoas que detêm mais de 50% da riqueza que está nas mãos das famílias”.
http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20061205-255759,00.html

Estamos fadados a viver entre uma aristocracia universitária, com suas fórmulas abstratas herdadas da tradição e incapaz de resolver coisas simples, com idéias simples e uma incapacidade brutal dos herdeiros da invasão de partilhar a cultura dos centros de poder e informação e de criar a sua própria?
Lembro que ao ver um filme francês absolutamente subjetivo, silencioso, “O Filho”, um cara disse na saída do cinema: “Foram os seis reais pior gastos em toda minha vida”.

ajr

quarta-feira, novembro 29, 2006

Noam Chomsky (MIT) e outros intelectuais eartistas em apoio a Oaxaca-Alarme entre comunicadores e artistas

Estamos extremadamente alarmados de ver que em vez detomar medidas severas contra os violentosparamilitares que têm lançado constantes ataquescontra o povo de Oaxaca, o presidente Vicente Fox usaos assassinatos como pretexto para escalar a violênciacontra a organização de base do povo.

Como companheiros trabalhadores da comunicação eartistas, honramos a memória do jornalista independente, documentarista e respeitado ativistaBrad Will, que foi brutalmente assassinado enquantofilmava o movimento popular em Oaxaca.

Junto com Brad,nessa última semana morreram ao menos outras seispessoas às mãos de agentes do ilegítimo governo deUlises Ruiz e as forças federais que agora ocupamOaxaca, entre elas, Emilio Alonso Fabián (professor), José Alberto López Bernal (enfermeiro), Fidel SánchezGarcía (pedreiro) e Esteban Zurita López. Finalmente, em solidariedade ao povo de Oaxaca somamosnossas vozes a estas demandas:

1. Ulises Ruiz fora de Oaxaca!
2. Retirada imediata das forças federais da ocupaçãode Oaxaca!
3. Liberdade imediata e incondicional a todos osdetidos!
4. Justiça para todos os companheiros assassinados ecastigo para todos os culpados em todos os níveis! 5. Justiça, liberdade e democracia para o povo deOaxaca!

Noam Chomsky, John Berger, Arundhati Roy, AntonioNegri, Naomi Klein, Howard Zinn, Eduardo Galeano,Alice Walker, Michael Moore, Tariq Ali, Mike Davis,John Pilger, Michael Hardt, Alessandra Moctezuma,Anthony Arnove, Bernadine Dohrn, Camilo Mejía, RoxanneDunbar Ortiz, Daniel Berger, Danny Glover, DavidGraeber, Eve Ensler, Francis Fox Piven, GloriaSteinem, Gustavo Esteva, Jeremy Scahill, Mira Nair,Oscar Olivera, Roisin Davis, Starhawk e Wallace Shawn.

terça-feira, novembro 28, 2006

CPI aponta que bandidos têm posse de 4 milhões de armas

O relatório do deputado Raul Jungman, um dos sub-relatores da CPI, é assustador.

Blog do Etevaldo Dias
http://z001.ig.com.br/ig/21/55/931191/blig/blogdoet/2006_49.html

"Os resultados desta investigação pioneira no país são devastadores, e em grande medida explicam porque morrem no Brasil uma média de 100 pessoas vítimas de armas de fogo por dia, colocando o país como campeão mundial em números absolutos quanto a mortes desta natureza, superando países em conflito bélico, como o Iraque, Israel/Palestina e a Colômbia.

-Segundo a pesquisa nacional “Brasil: as Armas e as Vítimas” (ISER, 2005), circulam no Brasil mais de 17 milhões de armas de fogo, 90% delas em mãos civis, isto é, não são pertencentes às Forças Armadas e às forças de segurança pública;

Desses 90%, mais de 50% são armas ilícitas, isto é, não registradas, das quais se calcula que 54% estão na posse de “cidadãos de bem”, e 46% na posse de criminosos: quase 4 milhões de armas nas mãos de delinqüentes.

sexta-feira, novembro 24, 2006

O caso está na novela.
Ana Cristina foi vítima de nosso elitismo.

Os gregos tinham consciência disso. A comunidade é um fato e não distribuir a renda é criar violência. Os liberais sem liberalismo agem como se o mundo fosse de proprietários rurais livres e empreendedores que querem "liberdade" do Estado Absolutista-Comunista, mas, com 2.000 favelas em São Paulo, como nos lembrou o governador Lembo no Jô, parece que seria impossível viver num mundo sem dar nada de graça a ninguém. Porque de fato, pelo menos o imigrante miserável ganhou a terra, e o escravizado perdeu a sua.

A violência do Estado mínimo – o RS deveria ter 11 mil policiais, mas tem a metade- se reproduz na violência de que os milionários estão isentos de impostos.“Quase 14 milhões de brasileiros passaram fome em 2004.”

Paulo Freire, quando foi secretário da educação de São Paulo, pensou que as escolas eram vítimas de depredação como uma resposta à violência quotidiana em que vive a população pobre deste grande centro urbano. Ele não falou da violência simbólica, não ter um lugar na vida conceitual nacional, mas ela está em tudo isso.

Ou seja, existe um fato real de violência constante: a violência da ausência, do elitismo, da concentração, da novela onde todo mundo é branco e anda de Mercedes (aliás a novela debate o caso, o Leblon se salva e “o resto da cidade faz promessa pra ver se chega vivo em casa...”), a violência da publicidade (todo morador de vila que conheço se sente o mais infeliz dos homens se não tem uma TV 29 polegadas ou um “som”, ou um celular de câmera- sem isso você é ninguém)...

É a força opressora da propaganda criando consumismo inútil que não melhora a vida de ninguém, e Estado mínimo onde as agora vítimas ganham isenções, o que faz faltar dinheiro para educação pública e conseqüente participação democrática... Como teremos controle público para que a democracia não se torne uma ditadura de comerciantes se o público é miserável?
Ausência simbólica, reação. O pobre se torna ignorante remediável ou explorado romântico, nunca alguém vivo e ativo, com todas as necessidades que tem a classe média, shampoo, caneta e livro.O revólver é sua marca de “entrada” como ator. O povo não existe.

Paulo Freire também nos lembraria da necessidade de uma moral de fundo que dê valor às nossas ações. Sem o cristianismo (longe das regras contra a carne) com sua idéia de caridade, não existiriam nem a vontade de vender, nem a redistribuição dos lucros, que mantém a paz. Se você não tem interesse pelas pessoas nem saberá o que elas querem comprar... É aí que a questão social se torna ética.

"Os presos ficam aí, ganhando comidinha de graça" -me diz um jovem de 16 anos. (4 mil em Charqueadas, onde poderia ter 1.500). "É bom pra nosa imagem ter uma grande empresa no estado, mesmo se não pagar impostos; gera empregos (?) e dá confiança a outros negócios (?)"- diz uma amiga. Não existe opinião pública.
Se ninguém tem interesse pelo povo quem vai gerar informação para o bem do todo?
Se não existe o “público” deixemos o país ao abandono, façamos a gritaria ao redor dos investimentos de Lula em infra-estrutura, salvação de estômagos, redistribuição periférica da verba de cultura.

Infelizmente o Brasil não percebeu o seu elitismo, seu europeísmo ridículo, a forma como um Mercedes Benz ML 500 afronte um miserável com bicicleta.Estamos fartos de teorias impostas hierarquicamente, de intelectuais sabe-tudo, de consultores de empresa, de gênios da nova era.
Se as pessoas estão reagindo ao abandono (“A bronca deles não é somente contra os atos da polícia, existe uma insatisfação social”, ou a guetização (“mataram 117 pessoas no Estado, o que dá uma média de 1,3 pessoas mortas por dia em ‘confrontos"), a questão volta a ser de postura, moral. A postura do medo do outro.

2- Ausentes

Parece outro assunto, mas não é.
O alinhamento no século XIX da religião com o estado absolutista e uma ordem moral conservadora nos levou agora a hiper-reação do anarquismo epistemológioco e do medo de propostas éticas: de deveres-ser provisórios, de algo que vem do trancedendente assim como a hipótese científica, de afirmações mesmo. Nosso capitalismo degenerou em guerra de todos por falta de coragem de se limitar, por falta de limitação exterior, eticamente colocando a sociedade como outro ator ao mercado.

Perdemos o interesse pala comunidade, pela cidade, pela família, como se o consumo do filho no seu quarto cheio de eletrônicos e do pai-carteira fosse nos tornar felizes. Esquecemos o velho estar aberto às pessoas, o interesse com responsabilidade, dizer ao filho “não você não vai sair hoje, porque eu sou seu pai e não quero; posso estar errado, tenho experiência e é melhor errar um pouco que errar muito; te amo e quero o melhor pra você!”

Interesse. Vida de trocas.
É preciso ter coragem não de ser autoritário, intransigente, mas dentro de uma relação de amizade e troca, defender seu amor com força, e se o perigo for grande, usar o poder econômico (por que não, antes isso que criar um profissional que não sabe limites, um mimado drogado): “se você insistir eu te ponho na rua”. Apatia medrosa, abandono ao marketing, amor demais, matam, sim.

O autoritarismo é pior quando vindo da “esquerda” ativista, sem vontade de ouvir ou com complacência moderninha, por faltar um compromisso de auto-revisão constante. Por exemplo, quanto a forma de implementação das disciplinas transversais nas escolas, dentro dos novos Parâmetros Curriculares Nacionais- um avanço enorme, principalmente na visão de o que é importante na escola, mas que requer cuidado. Como diz o professor Ulisses Ferreira Araújo: “Ele pega uma idéia que acha boa e impõe às pessoas, então, ou elas se adaptam ou estão fora do mercado de trabalho.”

Se realmente o objetivo da escola passa a ser a cidadania, o respeito às pessoas, não posso querer chegar aí pela via da Língua Portuguesa, como foi sugerido, cujo objetivo é a gramática, a não ser modificando o próprio sentido de currículo e pensando em modificar o vestibular, ou a integração no mundo do trabalho. Revisão pela metade só cria dualismo incontrolável. Confesso minha ignorância no assunto, pode ser que amanhã venham e me provem que dá certo... Transversal é "o professor de matemática vai ter que também trabalhar a sexualidade e a partir do seu conteúdo?"

A matemática tem uma estrutura própria, não se pode parar a todo momento para trabalhar com uma conta de luz e dái discutir a minha cidadania, como disse o educador.

Qualquer não-pedagogo pode ver o hilário do professor de matemática trabalhando sexualidade (“se uma adolescente tem três namorados e cinco ficantes, quantos parceiros ela teve por mês?” ou “quanto ela vai gastar de fraldas?”)

Essa pedagogia acaba sendo a velha disciplina foucaultiana criadora de normas rígidas, pelo menos no dia-a-dia: o sabe-tudo ético e politicamente correto vem e destrói qualquer opinião dos ignorantes antiquados.
Pois é, diálogo (principalmente o diálogo pelo diálogo, estéril, sem uma base real de informação, direção, sobre o que dialogar, num mundo sem informação- "o professor sem esquer seu papel" como diz o professor pernambucano) não pode ser uma imposição de modo que Paulo Freire se torne uma outra forma de "condução" e esquecimento do povo.

Que medo do idealismo (jornalismo, publicidade, pedagogismo...) que se torna dogmatismo.
Estar consciente da violência quotidiana flexível e mutável – na nossa casa, no nosso mundo- é o primeiro passo para que alguém não morra por ter demorado para entregar um relógio.
"A empresária de 58 anos teria demorado para entregar um relógio para os assaltantes, que abordaram o Mercedes Benz ML 500 com bicicletas.
Ana Cristina foi morta com um tiro no rosto, na noite de quarta-feira, dentro de seu carro, na zona sul da capital fluminense. O crime ocorreu na esquina da Rua General San Martin e Avenida Afrânio de Mello Franco, a 200 metros da 14ª Delegacia Policial, no Leblon, área nobre do Rio, onde também funciona a Divisão Anti-Seqüestro e da Delegacia de Proteção aos Turistas. "
-
"É demasiado fácil operar, pelo menos em nível inconsciente,
com um padrão de dois pesos e duas medidas, pelo qual pessoas que empregam a
violência em prol de causas que desaprovamos são "terroristas", enquanto as que
estão ao nosso lado são simplesmente "guerrilheiras", "soldados" ou "policiais".
A "palavra com T" (ou "palavrão que começa com T"), como poderíamos descrevê-la, tornou-se muito fácil de manipular para persuadir ou mesmo, ironicamente,
amedrontar as pessoas para que votem em governos que prometem ser duros contra o terrorismo....

Por outro lado, pode-se auferir um pouco mais de consolo de
outra generalização política, referente às situações nas quais ocorre o recurso ao terror. Um contexto recorrente desses atos é a resistência à ocupação estrangeira ou à ocupação que seja vista como sendo estrangeira -por exemplo, na Palestina, na Irlanda do Norte, no País Basco ou, voltando mais atrás no tempo, na Argélia sob a dominação francesa ou na França sob a ocupação nazista.

Quando a ocupação termina, a cortina se fecha sobre o teatro
da violência."

Peter Burke, FSP, Mais! São Paulo, domingo, 05 de novembro de 2006.
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FOLHA DE SÃO PAULOA polícia matou mais 22 suspeitos em todo o Estado de São Paulo e prendeu outros sete, subindo para 93 os casos classificados pelas autoridades como "enfrentamentos contra homens do PCC". Ou seja, em média, 15,5 por dia, desde sexta, quando a facção criminosa iniciou os ataques. No primeiro trimestre do ano, as polícias Civil (12) e Militar (105) mataram 117 pessoas no Estado, o que dá uma média de 1,3 pessoas mortas por dia em "confrontos". A média de assassinatos cometidos por policiais em janeiro, fevereiro e março é de 39 pessoas, em todos os municípios paulistas. A comparação das mortes de janeiro, fevereiro e março com as mortes causadas pelas duas polícias desde sexta-feira, aponta que, em seis dias, matou-se 79% do total dos três primeiros meses (pág. 1).

JORNAL DO BRASIL
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Quase 14 milhões de brasileiros passaram fome em 2004. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revela que 6,5% da população não têm o que comer. Quase 60% dos habitantes da região Nordeste não têm garantia de alimentação suficiente. No Sudeste, a desigualdade social supera a média registrada nos grandes centros. (pág. 1 e A6)
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Os ataques fazem parte da estratégia de guerra para desequilibrar. A bronca deles não é somente contra os atos da polícia, existe uma insatisfação social. Estão fazendo esses ataques [aos bancos] para criar desequilibrio social e econômico. Pode, daqui para frente, ter um cunho político. Existe uma série de situações que teremos de analisar", disse Bittencourt."(...) Eles não estão atacando o povo, tanto que os ônibus que foram queimados tiveram os passageiros foram retirados, eles atacam imóveis para demonstrar o poder", continou o delegado.

74 MORTES, 150 ATAQUES, 80 REBELIÕES Folha de S. Paulo 15/5/2006
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A maldição dos carros de som se espalhou desde as eleições...

O inferno das prainhas gaúchas, caso de polícia sonora!
Direito ao meu pensamento, não quero ser invadido por um vendedor que entra no meu cérebro!
Concurso: os piores sons das eleições

Primeiro lugar- MANOELA ELA ELA, o hit eleitoral, insuportável pela repetição 24h!

Segundo lugar- RIGOTO exit – com direito a coração em tudo, de novo!, com suas várias versões gaudéria, forró, samba, ele é um homem do povo!

Terceiro Lugar – Lula Povão: que diabos achar que todo povo do sul quer ouvir um baião!

terça-feira, novembro 21, 2006

FRONTEIRAS DO CONSERVADORISMO

Quando recebi o convite da palestra de Paul Kennedy, na UFRGS, pensei: "Oh, mais papo furado de celebridades globais!" Não foi fácil de esquecer minha decepção com Lévy, há alguns anos, quando sua maior novidade foi que um vírus de computador é um ser vivo.

Mas para que nenhuma irmã universitária viesse me acusar de parcialidade, lá fui eu, aberto ao mundo! Afinal, é sempre bom ouvir novidades: quando são novidades!

A síntese da conferência pode ser dada pelo seu conselho ao presidente Lula: "evite políticas que criem conflito de classe e afugentem o capital". Há uma escolha aí, o esquecimento de que política hoje é feita de poderosos conglomerados econômico-políticos, pressão de órgãos externos como o FBI e ume elite interna corrupta e politicável, pronta a reagir a distribuição de renda.

É por isso que, se essas são as fronteiras do pensamento, prefiro ficar em casa dormindo; com a concentração absurda de dinheiro no globo, pouco saberemos da opinião dos jornalistas e professores de Angola e Timor Leste, mas quem é lançado por um poderoso governo ou mídia, imediatamente se torna "ouvível", um profeta.

O problema é complicado pelo fato de que em geral essas encontros dão ênfase a "fala" da celebridade e a perguntas individuais, respondidas sem réplica. Ou seja, não é nada como uma troca de idéias, mas um espetáculo. Lembro-me que há alguns anos veio ao Brasil um famoso professor francês que começou sua palestra com "gostaria de debater esse tema com vocês".

Eu, ingenuamente, na verdade desconhecendo como ele era "importante", aceitei o convite e questionei seriamente seu ponto de vista superficial. A platéia ficou metade enfurecida, metade rindo. Importamos conceitos como importamos cultura. E importamos para 1.200 pessoas.

Por exemplo, Paul vê o crescimento da "mão-de-obra" ("se você trabalha em uma fábrica, mas não se você é um vendedor de galinhas no interior do amazonas") como ótima notícia para os trabalhadores dos países pobres, que se tornam consumidores: nada foi dito sobre seu rendimento que não paga três refeições diárias, ou sobre os abusos das empresas na vigilância e proibição de sindicalização. É o progresso, afinal.

O pensamento superficial sempre vê como solução jogar a bola para os países, enquanto seus reais poderes de decisão são enfraquecidos por regras globais de comércio, para dizer o mínimo; sempre gera falsos problemas e cria soluções parciais, sempre mostra os dados isolados do contexto geral. Sim, é verdade que os conflitos armados tendem a ser em áreas de baixa renda; sim, o aumento da população (velha idéia colonialista do controle de natalidade como solução final) tem a ver com guerra (e com muitas outras coisas); sim, um sistema eleitoral representativo, uma polícia e justiça eficientes e escolas, água e saúde podem garantir a paz.

E daí? A questão é: o que tem sido feito sobre dar chance às pessoas de participar quando os lucros das empresas nunca foram maiores e os países mais falidos. Como ensinou o velho amigo Kennedy, trabalhe pelo seu país e não encha o saco. Seria preciso falar muito mais de por que as economias ficam na periferia, vendendo grãos a preço de nada, quando royalties, dívidas, e uma democracia sem distribuição criam uma sociedade sem controle sobre suas elites ditatoriais em conflito.

Em alguns momentos Paul Kennedy chegou a beirar uma democracia "elitista" quando disse, por exemplo, que o sistema de soberania dos países foi criado no pós- guerra, quando não se imaginava que os conflitos maiores seriam dentro das nações. "Não há soberania se não há crescimento".

Depois brincou sobre os 192 países na ONU como uma surpresa para os supostos marcianos que deram a palestra com ele. Sua postura sobre imigração também disse tudo e nada: é ruim para os países de onde saem e bom para os países onde vão, se são ricos. No mínimo uma tautologia. Admitiu que os Estados Unidos é um dos países que menos gasta em termos de educação básica, mas insistiu na velha fórmula patética de "educação" para salvar o país. Claro, Sr. Paul, mas com que dinheiro se os ricos não pagam imposto? FHC foi responsável pelo apagão do sistema universitário.

Depois de tanta celebração das estrelas globais, fico pensando o que sairá dessas "fronteiras". É constrangedor ver uma lista de pensadores best-seller, sem que se sinta aumentar em nada o senso crítico e o questionamento. Foucault poderia dizer que um saber, nesse caso, gera uma série de sistemas de micro-poder, cria, literalmente ,"criam" países "em desenvolvimento" e submetem povos e conceitos. Os dados estão lá, os problemas estão lá, mas não levam a nenhuma forma de ação coerente com a realidade das pessoas que não estão numa Universidade americana.

E, por gentileza, acabem com essas listas chatérrimas – E LONGAS- de autoridades presentes, senhor diretor, senhor vice- isso, senhor ex-aquilo, o prefeito de Taquara... É vitoriano!

terça-feira, novembro 07, 2006

Conto ou Crônica?

É uma discussão perfeitamente anacrônica e descabida, eu creio.
Assim como "existe poema sem soneto"?
Então, digo logo: o título nada significa para mim. Poderia ser qualquer outro.
Como disse certa vez Ney Matogrosso, um artista primeiramente é artista, a forma de se expressar depende do momento.

Se não me engano foi meu editor que colocou este título "Alguns Contos" no meu livro. Possivelmente tentando controlar minha loucura, uma das minhas idéias era "Sobre a realidade e outras coisas". Poderia ser "Escrituras", mas seria derradiano demais, ou "Minhas Palavras", mas não diria muito. Poderia ser muitas coisas, principalmente algumas frases que sempre me impressionam em poetas.

Eu sabia que esse título - com a palavra "contos"- era provocador. São afinal "alguns contos": você leva alguns, mas leva outras coisas também. Cômico.

Achei interessante. Cada vez acho que faz menos sentido essas definições "acadêmicas" que só interessam aos que precisam falar sobre isso. É a velha perda de tempo terminológica, pois afinal, tudo são definições, tudo foi criado e pode ser descriado.

Se a coisa começa com as histórias curtas de Boccaccio (recolhendo narrativas do povo, juntando, criando), e toma forma no Século XIX, nos jornais, ganhando por número de páginas, criando séries - sempre me pareceu arcaico imaginar que, depois de Clarice Lispector, Borges, da palavra-conceito-de Kafka e das inovações linguísticas do Século XX, se possa pretender um "tamanho", como lí esses dias: "pode variar entre um mínimo de 1.000 e um máximo de 20.000 palavras."

Eu já fui impedido de inscrever textos em concursos, por exemplo, por serem narrativas maiores que "30 laudas" (conto) e menores que "130 laudas" (romance). Há textos com dois parágrafos que criam tensão e surpresa, quantas folhas faz um conto? Meia, uma, duas, mais de 30 não é mais conto? Teorias? Que interessa, se a reflexão for boa e colocada com decisão?

Gosto da coisa alemã daquele que "se utiliza das palavras". Escrever algo com um "tipo" rígido (médio, um ambiente, personagens limitados, um todo linear, início contextualizador, mudança de enfoque, final chave-de-ouro, etc.) , seguindo normas que deixam tudo com cara de "A Missa do Galo", seria ridículo. Os nomes surgiram em função dos textos, e o mundo gira. Que faria Boccaccio depois da Bomba Atômica?

Mas uma amiga comentou que seria bom para o leitor saber se afinal está lendo conto ou crônica. Então, acho que posso dar uma definição de segunda mão, que considero quase verdadeira, dada sua lógica estável.

Pessoalmente - muito de novo, se ainda valesse a pena classificar- eu diria que a crônica, para mim, como para metade da humanidade, está ligada ao cotidiano, a linguagem comum, o espaço crítico que a notícia descritiva não pode ser, a narrativa de fatos, mais pessoalizados, como "um jornalista": alguém que conta como entrou em um taxi e conversou com o motorista, ou como foi o aniversário de seu filho adolescente, seus percalços, sua invisibilidade. A linguagem é o meio para a narrativa simples e coerente, também ela passível de ser vivida por outros do mesmo contexto.

Mas sabemos que a crônica é também, na prática, um gênero que se adequa a necesidade de escrever uma coluna, que é sempre feroz e preemente. No Brasil, esse gênero de jornal engordou com muita poesia... Ela engloba então, não apenas o fato recém visto, mas pequenas narrativas "fantasiosas" que debatem o presente. Óbvio? É mesmo...

Já o conto, me parece, seria uma criação maluca- totalmente livre, um "objeto inovador"-baseada na estrutura, para remeter a uma questão oculta, moral, política, psicológica: os "Mistérios de Porto Alegre"de Moacyr Scliar, por exemplo, usam uma linguagem aparentemente simples, mas envolvem o inusiado, o trágico, o fantástico.

Por exemplo, no conto "Subterrâneos da Rua da Praia", os capitais fogem, como se fosse pessoas. É a fuga "dos capitais" e não DE capitais. Ou, em outro momento, um funcionário chamado Ego fica preso em seu escritório, ou um homem do interior fica preso no centro da capital, tenta sair do centro mas está cheio de obras, acaba vivendo alí, sem muita explicação racional. Pode tudo.

Kafka é o mestre disso: algo estranho não é compreendido, nunca será. Como o ser.
Eu acho que o conto define claramente um mundo outro, um mundo passado e em vistas de um conjunto de referências indepenentes: no meu trabalho, mesmo um conto simplíssimo, como "Filantropia", remete a um contexto, personagem e universo moral autônomos e inconfundíveis.

Por isso, se a questão fosse essa (e não como "será que a mulher deve casar virgem?")
eu ainda poderia dizer que há mais "contos" com cronicidade, que "outros" nesse livro. A linguagem mais livre para o efeito desejado. "A formiga pára em frente ao imenso mundo", poderia ser um conto. A dificuldade justamente é não ser Kafka, não ser Bukowisky, não ser Borges, nem Veríssimo, mesmo usando coisas herdadas.

Por exemplo, em "Ovelhas", sinto que a linguagem aparentemente simples dá a impressão de "cronicidade"; mas é uma escolha estilística criar uma narrativa com o modelo das manchetes, do entretenimento. Existe ainda essa liberdade de escolha das palavras, de sentido do efeito que a ocultação e o estranhamento causam.

Em um mundo tão acelerado pela produção de entretenimento e pela venda frenética de produtos culturais, notícias, mas também celulares e formas de ser, a narrativa deve ser livre para fazer tudo que pode e quer. Reflexão, acima de tudo: façamos nossos conceitos - sempre e só - aceitar a realidade.

ajr

domingo, novembro 05, 2006

Fui convidado a escrever um texto sobre o centro, em época de Livro:

Quartir Latin caipirinha

"Minha vó está nos Bancos". Todo mundo achava umagracinha quando eu dizia isso, com 4 anos, e os Bancos eram no Centro. Não havia nada mais chique do que irbem arrumado "cuidar da vida" ou tomar um sorvete, euna mão de minha avó, perfumada e com broche brilhante (Uma vez comi um Pijama Havaiano, com 12 bolas e orgulho gaúcho - aliás, só comi 11).

Sinto um pouco a nostalgia pelo centro de Mário Quintana, aliás, comodizem os franceses, quem mora no centro têm mesmo devez em quando essa "nostalgia da lama", uma necessidade de grama e árvore, nada que o Gasômetro ea Redenção não amenizem.

Hoje o centro mudou, aliás, tudo. "No brasil, tudo brilha", "Tudo está em movimento", "nunca vi tanta gente junta" me disseram alguns amigos estrangeiros. ACidade Baixa é um "Quartier Latin".Quem sabe? Sorbonne com caipirinha. Claro, eu também tenho meus momentos de irritação comesse borburinho. Com o alto imposto para empresas médias e a tecnologia, 60% dos brasileiros vive de"bicos", e o camelô é a cara do Centro, queiramos aonão.

Há algo de poético em fazer uma caipirinha com olimão que Deus te deu. Quando, na era Positivista, o Centro foi"higienizado", segundo o modelo europeu, os pobresforam afastados dos tradicionais "becos" para a zonada Independência, a Colônia Africana. Agora voltam, numa vingança alegre e triste, no "Jesus te ama" e no"fábrica de calcinha". Hitler quis fazer de Berlin umacidade modelo, grega, e quem sabe não está aí a origemdos fornos para judeus, nossa mais infame herança doséculo recém ido.

Por falar nisso, os Voluntários da Pátria (hoje, a ruada Muvuca informal), foram cidadãos que seapresentavam para lutar na Guerra do Paraguai, ao ladodo mal armado Exército Brasileiro, a maioria escravose negros alforriados, que pensavam em ganhar aliberdade ou reconhecimento.Morreram ou voltaram sem nada, muitos tornando-se trabalhadores braçais.

Que coincidência irônica! Mesmo assim, eu penso que um dos lugares mais interessantes do mundo (diz alguém, "para o gaúcho oRS é Delphos, o Umbigo do Mundo") deve ser essecruzamento Centro-Cidade Baixa. Quem aqui mora estámais próximo da realidade de maioria, mas vive aindaum clima de “cidade do interior” e tem oportunidades ímpares de viver a cultura. A maioria das lembranças boas que eu tenho têm a ver com esses bairros; nascino Centro, vivi quase toda a vida na Baixa City (cadavez mais alta, novos prédios).

Um conjunto colorido de jovens universitários,jacarandás, mendigos, pastel na República,intelectuais, Feira do Livro, feira livre, SantanderCultural (salve Nossa Senhora do Dízimo!), skate eTheatro São Pedro. Uma das emoções maiores que eu játive foi ver a Lua imensa sobre o Guaíba, depois deaberta a orla do cais. Não é, apenas, o melhor pôr-do-sol do mundo, por ser o meu."
ajr

sexta-feira, outubro 27, 2006

Democracia?


"Copiar livro é direito.

Nossa intenção com esse manifesto não é prejudicar os autores ou as editoras de livros, mas sim de trazer à discussão as dificuldades enfrentadas por estudantes, professores e pesquisadores impossibilitados de fotocopiar livros por conta de ações arbitrárias e abusivas colocadas em prática desde 2004. Nunca se viu algo assim: a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, uma associação representando apenas parte das editoras do país, está determinada a incutir o terror na comunidade acadêmica e científica brasileira.

Estudantes de todo o Brasil enfrentam agora não só a dificuldade perpétua de se encontrar livros de ensino e pesquisa nas livrarias, como também o grave problema de não poder mais ter acesso a trechos de livros utilizados em material didático. É impossível para a maioria das bibliotecas universitárias dispor de uma quantidade de livros suficiente para todos. Sem a possibilidade da fotocópia, a academia fica com seus trabalhos comprometidos, e um direito assegurado a todos é violado.

Uma vez mais: copiar livro é direito. Essas não são palavras de ordem, mas sim um direito concedido pela lei, pela Constituição e pelos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte, neles incluso a cartilha de direitos fundamentais da ONU, que da mesma forma que a Constituição brasileira, prevê o acesso de todos os cidadãos à cultura, à informação e ao conhecimento, independente de consulta prévia a titulares de direito (sobretudo associações de editores de livros).

Por isso mesmo a lei de direitos autorais, seguindo a norma internacional adotada por todos os países membros da Organização Mundial do Comércio, expressamente possibilita a cópia livre de pequenos trechos, com vistas ao uso privado e pessoal do solicitante, sem intuito de lucro."

Signatários:
Centro Acadêmico Direito GV (FGV-SP)
Centro Acadêmico Nove de Setembro (São Judas/Administração)
Centro Acadêmico XI de Agosto (USP/Direito)
Centro Acadêmico 22 de Agosto (PUC/Direito)
Centro Acadêmico Visconde de Cairu (USP/FEA)
Diretório Acadêmico de Administração FGV – Rio
Diretório Acadêmico Eugênio Gudin (Mackenzie)
Diretório Acadêmico Getulio Vargas (FGV-SP/EAESP e EESP)
Diretório Acadêmico Ibmec – RJ
Representantes Discentes da USP

Resposta do Presidente da ABDR, sr. Enoch Bruder:
Caros amigos,
Acompanhamos esta movimentação, tanto na USP como na FGV. O que vimos foi um incitamento aos calouros, programado pelos veteranos, que in loco, teve pouca adesão de pessoas e, os poucos ouvintes, assistiram a várias palestras e uma delas versava sobre direito autoral e suas formas, para a qual ninguém prestou atenção porque não entenderam nada!!! Até aí, tudo bem. Acontece que os presidentes de DA’s estão tentando se articular eletronicamente e isto pode ser contaminador.

Nossos advogados estão levantando os nomes dos signatários e apoiadores, pois serão, em breve, notificados a esclarecer sobre o incitamento ao descumprimento e ao desrespeito à LEI. Estamos avaliando a possibilidade jurídica de acionar criminalmente os responsáveis, bem como iniciar ações de reparação de perdas e danos monetários contra os DA’s signatários às empresas editoras associadas da ABDR.

Tudo é uma questão política que está sendo avaliada no contexto geral. Há também uma matéria no jornal “O Globo” de sábado dia 29 de março, que é bastante esclarecedora de quem a favor das cópias e suas pérolas explicativas, dos pontos de vista econômicos, sociais e culturais. Teremos turbulência!!

Fonte: Notícias UOL

http://www.camaradolivro.com.br/noticias.asp?id=331

terça-feira, outubro 24, 2006

Tempos de Esquecimento
O poeta na era da TV

Estou lendo Rilke. Ele fala de uma ampla solidão.

Vivo na era em que muitas pessoas egoístas impõe seu eu, repetindo automaticamente slogans simples, "progresso", "indústria", "tecnologia", deslocados das necessidades primárias da vida.

Uma aristocracia ridícula, grosseira e gentil, dócil, opressora, se considera raça superior: olhos azuis te tornam competente, belo, promissor.

O escritor tem de "impor seu eu", a imagem de escritor torna alguém escritor.

Não há maior contradição com a natureza do poeta do que ter de "vender sua poesia".
Justamente porque não fez isso por depender da compaixão, do poder exercido por outra pessoa, não quer, nem merece, ter de "promover" nada. Ele quer uma solidão repleta, abandonando tudo que é demais, ficando com as coisas simples e produtivas, em primeiro lugar a gentileza.

Entretanto, parece agora uma questão de olhar, a mais simples empiria: seu trabalho nem sequer chega às mãos das pessoas sem o uso da propaganda.

O livro é um artigo de luxo, para a aristocracia.

Tem de levar então em conta a utilidade, sabe do prazer em entender um pouco esse mundo invisível e real- essa alma cheia de tristeza, medo, paixão desgovernada, que é o hábito do ser, a castração da tradição, a ignorância da informação e também os poderes econômicos, ou será um "entretenimento".

"Dizer o que vê e vivencia e ama e perde", diz Rilke. O artista contemporâneo tem de saber de uma realidade que envolve poderes globais, Estados, tecnologia e manipulação de mentes. O real.

Contra o pensamento inercial, vago, contra o pensamento produtivo sem resultado, abstrações econômicas e ideologia desgovernada. A vida, dia a dia.

As notícias comerciais são fotografias sem nexo; não há conversa em espaço livre, a restrição do diverso, evolução. Os políticos "do progresso" falam "slogans" para simplificar a realidade, já que as mentes estão atordoadas de informação sufocante, pois, de alguma forma, a informação serve para agir, e informação demais, genérica, mata. Desesperadas por um caminho, as mentes aceitam.

A poesia pertence ao barro- aos sentidos que libertam o pensar. Tornar a mente mais flexível para um mundo em mutação. Arte, objetividade: não àquela inflexível, mas capaz de "abarcar a vida" como quer o poeta. O nome não dito dos dias que virão.

A ética é a base de qualquer verdadeira arte; aquela que vai de encontro às idéias desaclopladas, aos sentidos intoxicados, a ação brutal dos olhos, com compreensão variável, se um ramo vem, abaixe-se! Não uma ética do dever; as cores são abrir os olhos para o prazer da vida, olhar pela coisa da vida, querer que a vida floresça, e caminhos de bosque e água.

Não se aplica à vida o Alto (que esquece o particular), nem o "baixo" (como hedonismo ou consumismo), mas a vida de todos com todos. O mundo político, o mundo das paixões ocultas, o mundo espiritual, o mundo profundo.

A arte busca a experiência comum do sentir, o saber comum, a linguagem verificável de um referencial humano; a filosofia é linguagem de outra linguagem, o referencial é distante, baseado em um mundo de autor. Hoje, com o desaparecimento da realidade, do sofrimento, da exploração, da dor, ela tem de ser vendida pasteurizada em filmes de Hollywood: sofrimento drops, notícias, terror bizarro.

Lindas flores, lindas praças, cultura, lindos carros, mas alguém é ferido de morte: "não toca na criança, nega suja!" - diz alguém no supermercado para a mãe morena de uma filha loira.

A arte pela arte também é arte pela vida. Hoje: abundância de palavras sem a vida, eus em desconexão com suas partes; até o governo tem de dar lucro e o bem comum é um estorvo. As únicas forças ativas são os vendedores globais, de idéias, de projetos, de cultura.

Um tempo de grande ansiedade, de entrega do eu, incompreensão.

Talvez toda a morte seja a dependência do que não dependemos. O pior tipo de dependência é a
dependência da ação dos outros. Dependência de reconhecimento.

O poeta não quer que ninguém o tenha como guia. Se tiver ajudado a criar uma personalidade única, terá bastado.

Os artistas reais- sim, pois os artistas burgueses são aqueles preocupados em afirmar que a vida é menor que o que parece- são contra idéias parciais, direita hoje é ver parte do todo, soluções antigas, esquecer pessoas, poder, sofrimento. Os meninos param de ir a aula porque não tem passagem de ônibus, as meninas trabalham de segunda a domingo no comércio e não podem estudar.

Se nos prometem tudo, o conforto perfeito, não temos paciência com a realidade. Queríamos nosso mundo fácil de filhos, trabalho, carros, parques, repressão familiar, filmes, livros, ambição intelectual, filhos, queríamos que essas dificuldades do nosso eu íntimo e de nosso ambiente fossem as únicas, pois são imensas.

Para nós, a minoria privilegiada, há tanto barulho, tanta novidade, o pensamento se angustia. Não responde ao mundo lento. Um mundo pequeno, 5 autores, 5 amigos, 5 ruas, 5 programas de TV, a realidade foi soterrada.

É por isso que para Joyce, "nenhuma vivência foi ínfima demais": seu detalhismo também é "uma visão mais simples, uma fé mais profunda" a partir da demolição da realidade pré-fabricada, fábrica, família, procriar, religião regrada.

A arte é adaptação à vida, com alegria. Tornar a mente flexível para o real que se apresenta, não usar a cultura para uma arrogante rigidez.

mergulham n´água os barcos
eu, em mim mesmo
nada há lá que se acha
revelação, interesse
a não ser experiência
coisas-pássaros
o reino das coisas, não falável
a realidade que nos move, muda
concretude
o mistério além do misterioso
solidões
deixe-me viver, na´tureza, e serei agora


ajr

segunda-feira, outubro 23, 2006

Acabo de ler um ótimo depoimento sobre a violência contra a mulher, da Desembargadora Maria Berenice Dias.
http://www.mariaberenice.com.br/

Chocante, terrível.

Como sou uma pessoa muito metida, resolvi comentar. :)

(as mulheres vêem mais, haja paciência com os homens!)

Para mim- é óbvio isso?- a violência contra a mulher começa na violência contra o homem.
(mas como diz a juíza, a culpa é de todos mas a vítima é uma só: a mulher!)

Não há dúvida alguma de que a voz da mulher tem de ser valorizada e de que o infrator deve ser responsabilizado perante a lei com todo rigor e não como se "fosse coisa de mulher".
Bater em mulher não pode ser "bobagem": é crime, e agora recebeu o devido peso.
Mas o homem dessa mulher sofre todo dia, toda hora, o estigma de ser um fracasso, de não poder sustentar essa mulher.

O homem negro é visto como "ladrão" e não lhe dão espaço social. A mulher é criada para apanhar, para aceitar; o homem para ganhar, se perder, para ser ativo, batendo. A violência é "simbólica", é essa rede de normas que, roubando a informação, a possibilidade de criação, a liberdade de crítica, escraviza como consumidor e, pior, ser irremediável, lixo.
Quem TV?

O que observei nesse trabalho na Lomba do Pinheiro - Instituto popular de Arte- Educação- é que se as mulheres sofrem vítimas de uma cultura que as via como passivas, os homens sofrem como vítima dessa mesma cultura que os vê como ativos: devem manter o lar, ter emprego, sucesso, etc. A falta disso os leva à bebida, e, adivinha?

Também descobri que é muito fácil e barato corrigir uma pessoa: A Rosa Lopes, do Banco do Brasil assiste uma infinidade de creches por Porto Alegre pegando 10 reais por mês de alguns funcionários. Ela descobriu que se não desse padaria, curso de bijouteria, marcenaria para os homens, as criançlas seriam espancadas.

claro que para nós que vivemos num mundo de idéias, parece até ridículo falar em pulseirinhas de bijouteria: entretanto o que quero dizer é que nem toda idéia é faraônica, as necessidades são imediatas e bem simples de serem resolvidas.

Lembro me de um caso chocante. Um rapaz negro chegou lá e não tínhamos mais cestas básicas para dar. Eu deu do nosso rancho pessoal um kilo de arroz. No próximo mês ele voltou, completamente drogado, dizendo que os filhos estavam passando fome e que ele, como iso, caiu no crack, tremia todo; chorou dizendo que seus filhos precisavam de comida. Perguntei pra Marta, que é de lá: você acha que ele está mentindo. - Não Afonso, é verdade. Quem vai dar emprego para analfabeto e ainda mais negro?

Ou seja: mulher apanha de marido sem vergonha, mas antes disso, sem saída.
Uma coisa leva à outra: teremos de englobar a violência contra o homem" no debate da "violência contra a mulher. Economia é feminismo.

Por outro lado hoje me contaram de um rapaz negro que namorou uma moça loira em Santa Cruz, ambos com 15 anos; a moça engravidou e a mãe denunciou o menino como estuprador; ele ficou um ano todo preso até que a menina confessou que agiu por vontade própria. Que juiz é esse?

Ficamos com Rilke :

"A grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos equivocados e de todas as contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportarem juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles".

Rilke, Cartas a um jovem poeta.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Os norte-americanos nunca erram?

Passado o choque começamos a notar, nesse domingo, que:

A) se o jato foi testado antes de decolar e estava novinho e funcionando. Foi testado na base de Cachimbo e estava funcionando.
B) se o avião da Gol nunca deixou de se comunicar nem saiu da rota
C) entre a "batida" e o pouso, 30 minutos depois, o jato não reporta aos controladores de vôo o acidente.

A culpa deve ser mesmo dos pilotos norte-americanos. Um especialista comentou que os pilotos tendem a mudar a rota para gastar menos combustível, mas devem avisar os controladores.

Agora surge a notícia de que teriam voado a 37 mil pés, quando deveriam ter mudado a rota para 36 mil após Brasília. Mas eles afirmam que foi culpa da torre, que não teria respondido. Só que neste caso, deveriam ter mantido a rota original, como manda a regra. Tudo indica, ainda, que o transponder, que avisa possíveis colizões, estava desligado.

Ou seja, tudo indica que não só foram responsáveis, como podem ter mentido.

Agora o que a imprensa norte-americana está falando? O jornalista em todas as TVS, esse país das bananas que não sabe nem controlar aviões...

Sam Meyer, presidente da divisão nova-iorquina da Allied Pilots Association chega a dizer, antes de informações seguras:
"ninguém vai querer ir para um lugar onde, após sofrer um acidente, você pode ir parar na cadeia e alguém jogar a chave fora''

Apesar da Aeronáutica afirmar que não há zonas sem controle ou "de sombra"na área, o repórter preconceituoso diz:
"Não sei se os pilotos tiveram alguma culpa", acrescentou o repórter. "Talvez a culpa seja do sistema de controle de tráfego aéreo deficiente sobre a Amazônia, que é um fato bem conhecido na aviação."

E deputados americanos preoscupados se um cidadão norte-americano vai responder pelos seus atos.A discussão é antiga e diz respeito a um tribunal internacional.
Que patriotada!

O presidente da ANAC disse ser "insana" esse tipo de afirmação...

Sorte que: "a Fundação Internacional de Segurança de Vôo, com sede nos Estados Unidos, divulgou uma nota em que elogia os métodos de investigação de acidente aéreos do Brasil. Segundo o Jornal Nacional, a nota ressalta a tradição de investigações independentes, sem interferência do governo".

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1178707-EI7792,00.html

Ainda é cedo para qualquer coisa, mas como todos sabem, os norte-americanos nunca erram...


Crianças selvagens

Um menino, numa propaganda da Renault, pergunta para seu pai sobre os novidades do seu automóvel novo. Quer contar para seu padrasto. A criança deve ter menos de dez anos. Um novo tipo de propaganda selvagem, que tornam explícita a mensagem da propaganda "se você não comprar não será alguém", anda envolvendo crianças que falam como adultos em termos de consumismo. "Você é um zero a esquerda sem um Renault," seria horrível até para um adulto.

Há algum tempo a propaganda do Mac Donalds´s foi desagradával ao fazer uma criança olhar com piedade para seu avô que só brincava de pião, enquanto ele, dava-se a entender, podia ser divertir no parque temático do hamburguer...

Que triste isso de fazer as crianças falarem o texto que os adultos mais fúteis falam. E de colocá-las na situação de quem "mostra quem é" pelo poder do dinheiro.
"Eu vou humilhar o novo esposo de mamãe mostrando que ele não tem essa grana..."
Depois a gente não sabe por que as crianças andam esses tiraninhos...

PS:
3 nov. 06

Apesar de tudo, nada justifica o tom desdenhoso da imprensa norte-americana, estilo "brasileiros são incompetentes!"

ajr
FAB confirma que controle errou no acidente da Gol


ELIANE CANTANHÊDE
Colunista da Folha de S.Paulo

FÁBIO AMATO da Agência Folha, em São José dos Campos

A Aeronáutica confirmou ontem que o controlador da torre de controle de tráfego aéreo de São José dos Campos (SP) autorizou o jato Legacy, que veio a se chocar com o Boeing da Gol, matando 154 pessoas, a voar na altitude errada de 37 mil pés até o aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. Segundo a Força Aérea, essa autorização está gravada nas fitas da própria torre, que dá o "clearance" (autorização) para a decolagem dos aviões, e não na caixa-preta do Legacy, que era pilotado pelos americanos Joe Lepore e Jan Paladino.(...)

Em entrevista, pela manhã, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, não confirmou nem desmentiu a informação do erro da torre de São José dos Campos, que pode ser um dado fundamental nas investigações e foi publicada ontem pela Folha. Ele observou, porém, que, se houve erro da torre, ele não justificaria, isoladamente, o choque das aeronaves. "O piloto, quando perde a comunicação, deve seguir o plano de vôo." (...)

Para Lepore, não havia motivos para desobedecer a orientação recebida do controle de São José dos Campos. Segundo um piloto aposentado especialista em segurança de vôo, o diálogo revela que o plano de vôo original foi desconsiderado pela autoridade aérea. (...)

quarta-feira, outubro 04, 2006

Isso não tem nada a ver com o Amor.

O Santander, dentro de uma programação do “circuito mundial de cinema de arte”, trouxe Jean-Pierre e Luc Dardenne e Thomas Vinterberg.

É patente a diferença nas abordagens.
Dogma do Amor, (um trocadilho infeliz do título I´s all about love- já que o diretor era um fundadores do manifesto Dogma 95), é, assim como o filme cowboy de Win Wanders, estrela Solitária, algo que fala fala e não se explica. Assim como aquele, a bela direção de arte, a boa câmera, alguns momentos de ator e texto, escondem a falta de assunto e de seriedade.

Fica-se com a impressão de que muitos temas são insinuados, mas nenhum deles debatido: o clima, as corporações, a mercantilização da vida. Parece que os criadores vivem dentro de um mundo fechado, talvez o culto mundo da vanguarda – quem sabe aquele mundo corporativo que parece ser antagônico ao circuito alternativo- onde nada pode ser realmente questionado para não irritar algum patrocinador, político, artista.

Os nova-iorquinos caem pelo chão de ataque do coração, os africanos ficam sem gravidade e voam, neva no verão, mas e daí? A mágica é que não saiamos da sala se tudo isso vai acabar em “ele trabalha de mais e precisamos amar uns aos outros.” É a mesma ética do “viva o momento, ame” de Rent, que pode ser bela até um certo ponto, mas deixa um gostinho de “o amor somente, não vai salvar o mundo, é preciso política, visão global, ação; ‘viva o agora’
O filme de Win Wnders passa a mesma ética pasteurizada. Então é isso, devemos parar de trabalhar e dar valor á família?

Já “A criança” mostra todo um mundo por detrás da trama principal, um mundo de franceses jovens sem emprego, de trabalhos mal pagos e escravizantes (de certa forma o mesmo trabalho enbrutecedor do dogmático, mas muito mais brutal), um mercantilismo cínico mudo, uma redenção natural.


O melhor da visão francesa de mundo: política subliminar, personagens ambíguos, trama escondida, causas e conseqüências e não moral de parque de diversões.
Já “Dogma do Amor” parece o avesso do Dogma 95: uma criação artificial com um enredo artificial, uma espécie de “Mágico de Oz” pseudo-crítico. É a diferença, dizem, de Peraut e dos Grimm: cada ato carrega sua responsabilidade, não é necessário “dogma”.

PS O Filho

Idem idem idem. Maravilhoso. de repente a gente acorda com um cinema onde as pessoas trabalham, fazem barulho, onde nunca se sabe qual reação o personagem pode ter, onde tudo são relações humanas, toda a tensão é jogada naquele tempo infinito em que nada acontece e nada é dito. de uma forma maravilhosa a França (é chauvinista, mas é assim que eu sinto), a frança retoma a sua herança artesanal, de novo, cria corpos com densidade e contexto, nos leva a temer até o último segundo sem nada esclarecer.

Comentário de um espectador ao sair do cine: "foi os seis reais pior gastos da minha vida". Quase levei um susto, eu acabara de pensar exatamente o oposto, quanta ousadia!

Isso, sem querer ser frankfurdiano, me mostra como nosso mundo fez tantas pessoas perderem a capacidade de ler coisas "conotativas", de observar os invisíveis sentimentos.
lembrei de uma professora que dizia que muitos alunos tinham dificuldade em ler Lya Luft, pois não entendiam sua abordagem sobre as pressões sutis da criação germânica.

Não deixa de ser interessante que O Filho cause essa reação, pois, contra muita coisa "pseudo-tudo" que se vê por aí, esse filme francês tem cabeça corpo e membros, e te dirige exatamente - cada cena pode te passar aquele ponto de tensão ótimo, se você ler bem a situação- para o objetivo (talvez com um olhar a mais no último encontro dos protagonistas).

Eu, fiquei tenso até o último minuto.

domingo, setembro 24, 2006

PAPA: A VOZ DA RAZÃO

Sobre gays
"Embora a inclinação particular de uma pessoa homossexual não seja um pecado, é mais ou menos uma tendência que vem de um mal moral intrínseco, e, portanto, a inclinação em si pode ser vista como uma desordem de objetivo." (1986, na carta aos bispos da Igreja Católica sobre o cuidado pastoral de gays)

(...)

Sobre judeus
"Que os judeus são ligados à Deus de uma maneira especial e que Deus não quer que essa ligação fracasse é inteiramente óbvio." "Aguardamos o momento em que Israel vai dizer 'sim' a Cristo, mas sabemos que tem uma missão especial na história agora."(em livro de sua autoria, publicado em 2000) (...)

Sobre rock
"Um veículo anti-religião."(em 1988) (...)

Sobre a entrada da Turquia na União Européia

"A Turquia sempre representou um continente diferente, em contraste permanente com a Europa".(em entrevista ao jornal francês Le Figaro, em 2004)

(...)

http://noticias.terra.com.br/mundo/novopapa/interna/0,,OI517260-EI4832,00.html

ALEMANHA

"A declaração decisiva neste argumento contra à conversão violenta é isso: não agir de acordo com a razão é contra a natureza de Deus. O editor Theodore Khoury observa: para o imperador, enquanto um bizantino moldado pela filosofia grega, esta declaração é auto-evidente. Mas para o ensinamento muçulmano, Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está presa a nenhuma das nossas categorias, mesmo àquela da racionalidade.

Neste momento, até onde diz respeito à compreensão de Deus e portanto à prática concreta da religião, nós estamos diante de um dilema inevitável. A convicção de que agir desarrazoadamente contradiz a natureza de Deus é meramente uma idéia grega, ou isso é sempre e intrinsecamente verdade?"
---

Qual é a relação entre o papa e o mundo islâmico?

Este não foi o primeiro atrito entre o papa e os muçulmanos. Na época em que era cardeal, Joseph Ratzinger foi contra a entrada da Turquia na União Européia, dizendo que o país fazia parte de uma esfera cultural muito diferente.

Ele disse que o ingresso turco seria um erro na corrente da história. Em 1996, ele chegou a escrever que o Islã tinha dificuldade de se adaptar à vida moderna. No ano passado, ele acusou líderes muçulmanos na Alemanha de falharem na tarefa de afastar os jovens da "nova barbárie".

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2006/09/060918_papa_faq_dg.shtml

quinta-feira, setembro 21, 2006

Sr. Hans-Christian MaergnerPresidente da VolkswagenOuvi suas declarações sobre “uma decisão responsável dos empregados e dos representantes sindicais” para uma cordo na mais “tradicional fábrica do país”. Para que serve uma empresa? Para servir e fazer a comunidade feliz. Ela nasce em uma comunidade, quem compra é uma comunidade, se o todo não estiver feliz, um diamatarão seu filho dentro de um carro novo.

As empresas não estão no planeta (?) Plutão. Estãosendo observadas, estão sendo “julgadas”, serão punidas em cada centavo ganho sem generosidade. A ética de cada vez menos consumidores, cada vez menos bairros seguros, cada vez menos pessoas com bons salários, nos sufocará dentro de vidas pasteurizadas, simplistas, onde todos são iguais e não há criatividade, inovação, convívio, ou seja, a morte. Sim, para ter lucros também, mas ninguém quer sentar num carro com cheiro de sangue.

Fomos educados paraobter lucro mesmo passando por cima de pessoas, árvores, nossa mãe, mas hoje, no Século XXI, os acionistas serão cobrados pelos seus atos. Os acionistas serão éticos, ou serão ridículos. Ambição eum planeta devastado não combinam com carro novo. De nada adianta toda essa teoria sobre "ouvir ocliente", se na realidade a empresa é uma abstração completa, sem terra, um monte de números que ignora aquantidade de trabalho, esforço, criatividade e tempodispensados para adquiri-los.

No século XXI queremosmais que "propaganda simpática" e "marketingecológico": queremos empresas responsáveis, que ganhamsempre, com respeito e paguem decentemente, que vejam a comunidade como parte integrante de si mesmas e quepor isso ofereçam bons produtos, tenham funcionários satisfeitos e clientes fiéis. O lucro numérico - mesmo que nossa ética reformistatenha aliado capital e salvação, capital e vitória, capital e capital - não significa nada; satisfação éviver em comunidade. Espero sinceramente que esse tenha sido um prólogo para um respeito constante e global.

Um abraço, AJR. POA-RS.
O PAPA TEM RAZÃO?

Queridos Amigos deste Boletim FIRGS

A seguir, venho comentar o artigo de Marx Golgher, sobre a fala do papa, no Boletim de 21/09/2006, que me causou mal estar.


Tenho a maior admiração pela comunidade judaica de Porto Alegre, responsável por tanta cultura, vida e trocas. O Israelita é parte da nossa vida, como comunidade, e somos gratos a todos vocês, desde sempre. Eu mesmo, provavelmente, tenho sangue judaico, português. Também não tenho nenhuma ligação com a comunidade árabe, seja em termos de religião, política ou mesmo cultura, a não ser alguns quibes e tabules na hora do almoço.
Aliás, como a maioria das culturas do Brasil, podemos ser diferentes e próximos; ao valorizarmos nossos ancestrais e nossas fontes culturais, e a dos outros, todos nós vivemos um mesmo espírito, e não faz muito sentido nos "marcarmos" com uma única nomenclatura, como se houvesse grupos fechados: O Bom Fim é judeu, e é meu também.

De qualquer modo, não há um único tipo "judeu", assim como não há um único tipo "cristão", "árabe", "chinês". No mundo cosmopolita que nos cerca, vivemos cercados de diversidade, o que aumenta a riqueza e a beleza da vida.

Eu não poderia admitir que ninguém falasse mal da cultura judaica, pois, se não fosse por dignidade, a Bíblia é parte essencial da cultura cristã greco-latina européia, que tanto nos influenciou. Como cristão, eu devo aos judeus meu Livro e meu Mestre, e, claro, a bela Espanha, e devo ao Islã a teologia, a cultura grega, o gótico, a Espanha.

Devemos, nós cristãos, ao islamismo, uma “herança esquecida”, segundo o medievalista Alan de Libera, pois em Bagdá, na Idade Média, “traduzem-se e explicam-se textos” (da literatura hebraica, da grega, siríaca, persa, hindu, latina), e há “um público que aprecia instruir-se”, “os latinos se esforçam para manter sua cultura, enquanto, no mesmo momento, o mundo muçulmano conserva, produz e desenvolve a sua cultura e a dos outros”. (de Libera, Pensar na Idade Média, p. 100)

Se a etnia de origem judaica trouxe ao Ocidente a vasta contribuição de médicos, intelectuais, artistas e reformadores, assim também os povos orientados pela ética de Maomé, que reformularam e ampliaram as mesmas áreas da medicina, filosofia, artes e religiosidade. Jesus, um judeu, como nos mostraram os testes baseados em análises genéticas, teria a barba, tez escura, a face de um oriental, de um homem do Oriente Médio, de um islâmico. O judaísmo e seus filhos – Salomão, Marx, Rosa Luxemburgo, Freud, etc.- possibilitaram que nossa cultura pensasse na justiça, desejasse a verdade, valorizasse o homem e criasse opções de sociedade onde o dia-a-dia fosse satisfatório.

Da mesmo forma, o Islã, essa cultura que envolve milhares de modos de ser, é parte importante da cultura oriental e tem uma longuíssima história - que começa em 600- de escolas de direito, mística, filosofia, teologia, tendo o próprio Renascimento começado em Bagdá.
Foi graças ao Islã que surgiu a escolástica medieval; eles "preservaram" um local de tolerância para judeus na Espanha por 700 anos, foram os cristãos que (n)os expulsaram. O livro "O Islã", de Karen Armstrong mostra isso.

Karen Armstrong diz que “Jihad”, no Alcorão, significa "esforço interno para corrigir os maus hábitos". Assim como as Cruzadas - túmulo dos europeus, que marcharam em direção à fome e ao saque - os exageros de pessoas de origem árabe tem motivos políticos circunstanciais. Muito que se vê hoje, segundo a autora, é uma reação a "modernidade" que veio em cinqüenta anos no Oriente Médio e parecia disposta a destruir tudo, hábitos, moral e fé. De Cristo e sua ética do amor, partiram tanto Frederico II, criador da Inquisição, quanto Madre Tereza. Segundo a autora, a palavra islam está etimologicamente relacionada a palavra salam (paz) e significava a coesão e concórdia. (ARMSTRONG, p. 66) A autora comenta que “o anti-semitismo é um vício cristão”. Diz ainda:

“...alguns muçulmanos agora citam passagens do Corão que se referem a luta de Maomé com as três tribos judaicas ... retirando esses versos do contexto, eles distorcem tanto a mensagem do Corão quanto a atitude do Profeta, que, ele próprio, não tinha ódio ao judaísmo”. (p. 63)

Ninguém pode ver o terrorismo sem pensar em quão frágil é a vida humana e quão terríveis as idéias que enrijecem a vida. Pessoas e povos que se consideram ofendidos e invadidos reagem de forma violenta, há milênios, pela história da humanidade. Ainda que eu nada tenha de árabe ou a favor especificamente do Islã, não poderia querer negar o impacto das citações papais, pois se dissessem que Cristo é responsável pelas Cruzadas por que disse “eu vim trazer a espada”, eu, como cristão, me sentira ofendido.

A citação do Papa, vinda de um homem de sua importância e posição, foi tão estranha que causou uma rápida reação, tendo ele próprio se escusado, de modo informal.

Nenhum homem público está livre de um mal entendido, e cada um entende como quer até uma frase escrita, mas nós ficamos mais serenos se soubermos que o Papa não prega a guerra santa. Os judeus do mundo todo nos legaram sua luta pela tolerância e respeito à diversidade, entre outras coisas, por um princípio ético de igualdade no seio do Iluminismo. Não podemos simplificar as coisas, mesmo que “as coisas” nos atinjam de cima. O medo nos faz agir, mas o medo não é bom juiz.

O Papa, por outro lado, não é a Igreja (ainda que, por tradição, respeitemos seu simbolismo) assim como não o é Santo Agostinho, nem Inocêncio III ou Gregório VII, criadores da monarquia papal, uma inovação "romana" do século XII. A Igreja é o amor à comunidade, e é a comunidade. O Papa é o "supremo servo". Assim também muitos israelenses, mesmo vivendo sob o medo e a insegurança, protestam contra a ação de alguns governantes. Os governantes devem ser sempre "nossos servos", não senhores.

Não teria sentido nenhum começarmos agora uma guerrinha por quem estava certo em 1200; nossa cultura evolui e, se a ética da Bíblia, de Maomé, de Jesus deram linhas gerais de ação ética, qualquer tentativa de reviver frases de outros contextos e aplicá-los hoje sem crítica seria mero fundamentalismo.
Em um momento onde a concentração de dinheiro possibilitou que 5 ou 6 empresas no mundo todo nos abasteçam de cultura, informação e debate, e nossos governos não podem dar á democracia aquela parcela de distribuição de renda e de pressão aos políticos e empresas que mantém a democracia, a simplificação pode ser trágica. Caminharemos para sociedades fechadas, feitas de condomínios fechados, de carros fechados, de crianças fechadas? Os produtos são todos iguais, as pessoas são todas iguais, as idéias são todas iguais: vivemos a simplificação global, com ela, a pobreza da vida.

Assim como a nossa Bíblia Sagrada, cada povo viveu momentos de paz e guerra e cabe a nós compreendermos o todo da ética como um chamado à compreensão e ao amor.
O Alcorão pode afirmar: "Não discuta com os seguidores de uma revelação mais antiga (cristãos e judeus) senão da maneira mais amável possível... pois o nosso Deus e o vosso são um único." (p. 49).

Dialogar é difícil, às vezes exasperante. Não podemos aceitar tudo, e não podemos entender a verdade do outro de modo completo. O medo nos domina, o medo nos leva a ver menos, mas, vendo menos, a realidade se vinga, as conseqüências são mais violência e eterno medo. A Revolução Verde, por exemplo, foi boa para aumentar a quantidade de produtos mais baratos, mas hoje convivemos com os danos ecológicos, muitos deles irremediáveis.

Em um plano muito mais trágico e vergonhoso, foi a simplificação que levou os judeus ao forno, e, com eles, nós todos. O século XX nunca se recuperou desse golpe, e a humanidade, quem sabe, nunca se recuperará. Percebemos, então, que há “vida”, algo que transcende culturalismos, ciências, formas, aparências. Há vida.

O Holocausto marca o horrível e forçado “fim” da realidade, marca o momento em que idéias abstratas, preconceitos, simplificação e condescendência, e, em primeiro lugar, a ambição movida por desejos irrealistas, consomem e própria chama da vida, feita de tons e semi-tons.

(Toda a ação tem alguma "generalização" ou simplificação, mas só com elas, o caos toma conta; no mundo de hoje, em que queremos reconhecimento, trabalho, lucro, poderíamos ficar todos em nosso cantinho, mas isso levará à guerra, que é a falta de conhecimento, de opinião pública, de controle mútuo).

É preciso escutar, sempre: a vida é maior que nossos hábitos. Maior até do que nossa compreensão. Devemos, todos os sábios o disseram, antes de tudo, cuidar da vida; a vida, tão frágil, e tão diversa, mesmo que não a compreendamos, mesmo que não seja nossa. Cuidar da vida resume todas as leis. E, se não bastasse tudo, o bem é, no fundo, nosso desejo de continuar vivendo, a força que nos impede de cair no mero caos de vontades violentas, e, para isso, os outros precisam viver.

Como diria Salomão: “A resposta branda aquieta a ira; e a palavra dura, incita ao furor”.

quarta-feira, setembro 20, 2006

POA EM CENA- Calamidade - direção Cláudia de Bem

Tenha fé. Você vai conseguir dizer o nome dela. Manoela WSXIKWJKSNKJYWLKNXWSY, abreviado como Sawitzki.
(Os poloneses, sempre conseguiram vencer os alemães nesse pormenor, nomes). As pessoas adoram dizer de quem não têm 40 primaveras que são “jovens”, e como se não bastasse, “promissores”. Manoela não é, nesse sentido complacente, “jovem”, nem “promissora”: é uma artista, pronta, excepcional. E vai melhorar, porque vai amadurecer, mas aí já é lucro.
É daqueles momentos em que o teatro gaúcho brilha.

Liane Venturela sempre sabe escolher bem seus textos. (Ela sabe, também ter uma linguagem contemporânea, aberta, radical, sem ser pura forma; mesmo que ela não seja a produtora, cenógrafa ou figurinista, todo trabalho que vejo dela é marcado por essa beleza inovadora).
Sandra Dani dispensa qualquer inútil tentativa de elogiá-la com palavras. Está no alto patamar de um Paulo Autran, de uma Norma Alejandro.

O cenário, do português José Manuel Castanheira, é feito de latas, e um telão, que realmente está integrado a tudo que acontece na peça, tecnologia a serviço da estória.
A luz, desenhada por Cláudia e executada por Taylor, muito muito diferentemente do que foi em Ricardo, o Terceiro, marca emoções, colabora, cria. Os contrastes de claro-escuro, vermelho, azul, são deliciosos. O figurino é bem acabado, um retrô a ver com o resto, maravbilhoso. Zoe Degani, sempre maravilhosa, também é assistente de cenografia.

E o texto, sim, é novo e fresco. É sobre rancor, perda, mais rancor.
O personagem da mãe “polonesa” é fantástico: só quem tem alguns genes poloneses (no meu caso, bem escondidos, é verdade, pelo indígena, negro, espanhol e português) pode saber o quanto tudo é real.

Sandra Dani, como sempre, brilha: é puro fogo, é tragédia pura, sem destino, deuses ou reis, contemporânea, mas sensata e honesta.
Já o personagem da filha, interpretado por Liane, não me pareceu tão claro. As filhas polonesas podem ter ódio, e ter também elas sua dose de veneno, misturado a cuidados, amor e delicadeza. Nada que comprometa a qualidade, a visceralidade, a força do texto, claro. Mas, quando ela diz, por exemplo,
“minha mãe é uma puta”, poderia continuar “eu, eu queria ser essa puta, eu queria muito”. O personagem não ganha vida própria, não porque seja pequeno, mas porque sua antagonista é realmente grande.

Seu passado com o namorado, seu amor-ódio pela mãe, a razão de sua confusão, não são tão definidos. Qual o conflito, afinal? Mesmo assim, a força cênica de Liane transforma tudo em um todo coerente e agradável.
Em um dos momentos de enfrentamento, quando a mãe ataca a filha, mesmo sendo mais frágil, vemos duas grandes atrizes em um duelo triunfal.
Enfim, uma das raras ocasiões em que você sai do teatro pensando: que turma inteligente!
ajr

PS: A dramaturga comenta que o texto teve uma adaptação para caber no tempo previsto para apresentação.

link:
calamidade-teatro.blogspot.com/

terça-feira, setembro 19, 2006

Othelo – Eimuntas Nekrosius, Lituânia

Nekrosius, Nekrosius, Nekrosius!!!!

Será que fazemos arte só para libertar nosso gesto para os gestos possíveis?
Para criar, para agir, para mostrar que a vida é ação?

Será que queremos dar voz às paixões, mostrar o resultado do eu violento, da excessiva ingenuidade, e, no fim, amamos a força da vida, mesmo se nefasta? Amamos Iago, odiamos Othelo.

Em contraste flagrante com o Shakespeare que acabei de falar, está Othelo, numa produção da Lituânia. Ah, a liberdade!


Tire todo o texto excesivo, não siga a linearidade textual, mas a do sentimento, esqueça o texto e o traduza.
Iago era uma criança brincalhona e malvada, e o cenário era cheio de sugestão, movimento, criatividade!
Algo realmente contemporâneo. Movimentos novos, que dão base a falas bem direcionadas, precisas.
E o melhor de tudo! Othelo é o personagem principal....
Em Shks Othelo é um dos personagens mais chatos já criados... Harold Bloom mostra que ele é pura consciência, honra, dever, depois, puro instinto... (Dizem que, no conto original, Othelo simplemente matava a mulher fazendo cair o dossel sobre ela, portanto, evoluiu...)

Mas, nessa montagem!
Ele é o centro, realmente!
Sensível, dividido, sofredor!
Desdêmona não é aquela quase-chata boazinha, capaz de perguntar se as mulheres seriam capazes de trair seus maridos, mas viva e cheia de nuances!

A cena de sua morte sinteteza tudo que é teatro hoje: um ballet de abraços, uma mulher arrastada, três vezes, um homem que chora e rega vasos de morto.

O famoso "Não me mate agora, mate-me amanhã!" é doce e instintivo.
Que direção!
A luz é precisa, chegamos a ver a manhã, o mar, as gaivotas... Com elementos inusitados, uma porta solta, cabaças de fazer churrasco (hehehe), tinas d´água, chamas, todo um univeso de Chipe é criado.

A música é sensível, exata... o piano, tudo!
Nada de grotesco descabido, de caos forçado, nada de pobreza cênica, nem arrogância...
Simplicidade, mas forte.

As quatro horas são preenchidas com batalhas, barcos, tumultos, uma Emília viva e divertida, um Cássio dentro do razoável... os atores- ah, esses pequenso deuses loiros!- são dirigidos pela compreensão do seu papel, o que sempre é raro!

Os personagens utilizam todo o humor disponível no texto e o melhoram: esse é o negócio, Shks é feito de enchimentos, interpretações...
Só há o que elogiar quando uma peça atinge o sagrado espaço da verdade forte e vital:
ato criador, gesto, ousadia. Parabéns!
ajr
POA EM CENA- Ricardo III


A afirmação de Harold Bloom de que Shakespeare inventou o eu, pode parecer muitas vezes a fantasia de um erudito que esquece que todo gênio dá forma a uma fala de sua época, dos contos, cantigas e fábulas do povo, e que tudo era parte da brincadeira chamada cultura. Mas não seria falso afirmar que sim, os dramas de Shakespare são dramas de “eu”, não se referem a normas sociais e contextos como no mundo grego, ódio, ruptura e violência, não se referem às coisas que acontecem a um indivíduo, mas são o indivíduo: o que fala, o que conta a si mesmo.
Em nenhum das peças que eu conheço isso fica mais claro do que em Ricardo III.

A única coisa que interessa na peça é a forma como os personagens falam de si mesmos. Ele está preso em modelos históricos, parece que não houve interesse humano além do papel de “irmão que é morto” ou “rainha que é destronada”. Sem pensar, o personagem é nada.
Aí entram todos os recursos mais típicos do autor, imagens fortes, repetições, metáforas sobre metáforas, ênfases, artificialismo. Salvam os assassinos, humanos e divertidos.
Shakespeare, claro, é texto, mas como Hegel sabe, arte é conceito em forma, portanto, precisamos dos olhos, precisamos de movimento e de luz. Infelizmente essa não foi a peça que assisti, de Roberto Lage.
As pessoas ao meu lado se mexiam, bocejavam, falavam. Ninguém hoje, na era de tudo aquilo que sabemos, consegue entrar na “viagem” abstrata de Shakespeare se a luz for de garagem, os atores estáticos e só as bocas mexendo. A ironia que a direção achou para certas falas é positiva, mas em alguns momentos a platéia acaba rindo do que não era para rir.
Mas se há algo nessa peça são os atores, todos excelentes. (São atrapalhados, claro, pelo tradionalismo da luz, ora de palco cheio, ora em focos comuns, e também por uma escolha errada de “texto integral” que obriga a usar todos os erros do autor, todos os recursos mais antigos de “quatro ingleses conversando sobre a morte do rei e a sucessão”).

Aliás, para uma peça de um ator, como essa, em que todos os outros personagens só repetem o que já sabemos, só linguagem agindo, levando o verbalismo shakesperiano ao absurdo, é impressionante que lembremos de outros atores. Celso Frateschi é brilhante em tudo.
Mesmo com sua força, há momentos em que desejamos que o dramaturgo não tivesse escrito tanto, primeiro porque o texto é, como quer aquele crítico, uma paródia de Marlowe, e só assim pode ser levado a sério.

Falar tudo também não ajuda. Como disse, hoje se pode trabalhar o sutil, o contexto, pode-se brincar com o texto e o cenário... Os motivos para irmos ao teatro mudaram, e, portanto, deve mudar o corpo dos textos. Senti muito a falta de movimento, originalidade e contemporaneidade.
Como diz o crítico, sobre um trecho da peça, “Não consigo me lembrar de outro trecho (...) em que Shakespeare seja tão inepto”. Representar isso, ai sim, é, os atores que me perdôem, ser inepto.

ajr

domingo, setembro 03, 2006

As pessoas têm me comentado sobre o conto "Um porto-alegrense" (que aliás poderia ser "um francês" ou um "sul africano" ou "um brasiliense" -botando fogo no índio- )

Infelizmente, baseado em dados reais...

(graças a Deus, há nessa cidade um baita ambiente cultural, muitas pessoas de todas as classes adoram ler, e há muito trabalho social, claro!)

A origem do conto está ligada a dois fatos que ocorreram comigo...

Eu estava bem tranqüilo comprando uma fruta na esquina e quando vou dar o dinheiro, entra na minha frente um rapaz alto, de terno e diz: quero uma maçã, uma pêra, um...

Eu, normalmente ficaria quieto, mas achei educativo dizer: "Moço, eu estou na frente"

(deve ser filho de pais que jamais olharam para ele, preocupados em comprar algum novo carro ou colocar botox...)

O cara deu um pulo! Senti que realmente não havia feito "por mal", ele simplesmente não me viu...

Ele não sabia que existem pessoas ao redor.

Fiquei bastante impressionado.

Depois, outro dia, eu estava mais uma vez pacatamente comprando fósforos na mercearia e o dono foi se abaixar para pegar os benditos...

Uma moça do meu lado gritou: "moço, eu estou com pressa!"

Eu, preticamente um jesuíta, disse: "Amiga, eu também estou com pressa. Todo mundo tem pressa hoje em dia". As pessoas estão ficando loucas, pensei.

Um belo dia meu pai vai fazer uma curva e um rapaz simplesmente joga o carro sobre ele.

Desce do carro e começa a dizer mil palavrões, "vou te fazer pagar isso, quem tu pensa que tu é!"

Meu pai percebeu que ele pensara: "vou fazer esse coroa pagar o arranhão que dei no carro de meu pai". Daí reverteu a coisa e começou a dizer que era doutor em direito e, aos berros, que ia processar ele por calúnia, injúria, conduta indevida e mau hálito. O cara murchou e chamou o pai... (mais um pai comprando carro no domingo...)

Então...

Depois, tudo junto, veio a notícia:

"O professor Antônio Carlos Stringhini Guimarães, pró-reitor de extensão da UFRGS, 53 anos, morreu na manhã do dia 22 de outubro, vítima de um acidente de trânsito, em Porto Alegre. Triatleta, Guimarães andava de bicicleta pela Avenida Beira-Rio, quando foi atropelado por um Corolla."

O cara tem um Corolla e não tem a mínima educação?

Ainda: a cena da prostituta foi assim- eu passava na rua, perto de um prstíbulo de luxo, e

ouvi uma menina falando no telefone: "olha, mamãe te ama, filho!"

Claro que a maioria das pessoas não são assim- ainda bem que temos colégios católicos, grupos de Igreja e missas- se fossem nem valeria a pena escrever...

Se o mundo anda muito inseguro e não sabemos a causa política disso, acabamos hiper-estressados... (E as pesoas reclamavam da castidade...)

Mas lembra? Aristóteles disse que o ser humano é social, não há vida sem comunidade, isolados adoecemos e precisamos de mais "eletrecidade" para nos levar serotonina... coisa que uma boa conversa resolvia...

Sabe como é, sem complicar, a comédia mostra que não precisamos ser nada, e nos alivia; a tragédia que existe gente que sofre, e nos interessa.

É o que meu pai chama de "crise moral".

Acho que as pessoas gostam quando se fala o que elas sentem, no fundo, quando

reforçam os valores delas... (bem grego isso, de criar identidade coletiva, concordância, democracia)

Isso nos ensinou também Érico Veríssimo, entre outros, pois seu "Olhai os Lírios do campo"

foi contra um modernismo elitista (...o clux do isso no fluxo do nexo...) e era possível de se gostar.

O que mais me emociona é que as pessoas de fora da Bolha numero 1 (a Universidade) dizem: li e gostei!

Puxa, isso é o máximo!

ajr

sábado, setembro 02, 2006

O jornal do Grupo Sommos- comunicação, saúde e sexualidade, em entrevista, formulou esta questão :)


Há literatura de gênero, literatura feminina, literatura gay, negra?

Há nossa condição -biológica, social, os discursos que nos comandam, os medos particulares- mas ela não pode virar individualismo, há de haver acordo ou a democracia acaba.

Na pós-modernidade, com esse excesso de informação, sem espaço mental pra criar a si mesmo, e insegurança social, as identidas trocam a cada dia; não há identidade estável, porque não há realidade estável.

Foucault diria que nos Estados Unidos, há identidade de gueto porque existe exclusão forte, puritana; aqui não há exclusão matriz para isso, ninguém casava na Colônia, sodomia era comum, mas todo mundo era súdito, a lei era imposta.

Com 47% da renda do brasil na mão de 10% da população, hoje há a censura das identidades livres e identidades elitistas criadas pelo marketing, dentro da bolha de consumo.

As marcas globais, que mandam no mundo, querem o lucro, algo abstrato e infinito; trabalhamos 18 horas por dia e nossas praças, onde as pessoas namoravam, estão cheias de mendigos; temos de ser objetivos, trepamos pra relaxar. Não tem a censura do cacetete e da castidade, mas tem a censura dp desemprego e a sexualidade é vendida enlatada.

ajr

domingo, agosto 27, 2006

Música para ouvir


Acabo de vir do Festival Contemporâneo RS, com música elétroacústica (seja o que isso signifique), no Instituto Goethe.
Sem fazer revisão bibliográfica...

Como dizer o que é bom depois que todos os conceitos caíram?
Se nem mais os conceitos de "agradar" e "desagradar" parecem soar adequados?
Nós percebemos quando algo "funciona".

É simplesmente incrível como qualquer pessoa leiga -ou a maioria- diante de um quadro, percebe se está sendo enganado. (A menos que também queira enganar. Miró dizia que Picasso fazia muita coisa "para vender". )

Sendo Aristotélico, há construção, é uma forma que está ordenada, há um objeto um "ser", porque é independente.
Imita os ritmos da vida, cheios de imperfeições, segue caminhos improváveis, diversos, contraditórios. Pode ter ruptura, irritação, mas não pode ser artificial.

É algo "sincero", que parte de uma reflexão-percepção concreta, algo que não foi feito em função de status ou de aprovação alheia.
diz algo sobre seu tempo, claro, fala de coisas sutis demais- e cada nota ataca uma parte do cérebro, lembrando um momento- para serem ditas, ou tão presentes que só a música pode concretizar.

Eu fui recentemente a outro concerto contemporâneo. Havia coisas simplesmente chatas, coisas como ruídos sem um contexto, simplesmente descuidados. Até mesmo o que desmancha deve ter um cenário, ou vira apenas lixo. Até mesmo Warhol tinha o cuidado de explicar sua obra, ou seja explicar a si mesmo- talvez mais do que ninguém- ou seria apenas mais ruído.

Veja bem, existe o bom ruído. Existe o ruído que significa, aquele momento em que sabemos que o caos e a ordem tem um casamento tênue. Parece que é assim também nos padrões da natureza, nos fractais e tal, a ordem e a desordem equilibradas criam.
Todas as peças eram sensacionais: usavam sons inusitados em um todo em harmonioso, enquadrado, interessante, significativo. É maravilhoso ver que tem gente usando a liberdade com verdade.
Como não sou da área quero apenas citar o diretor geral Januibe Tejera; o diretor dos concertos de eletroacústica, Rafael Oliveira, os autores (claro, nem todos gaúchos), José Mannis, Igor Stravinsky, Fernando Mattos, Bruno Angelo, Rodrigo Avellar, Takemitsu, Martinez Nunes, Rafael Oliveira.
Mais uma vez o Goethe tornando a cidade melhor!
É isso que se pode dizer da inovação resultado de uma elaboração interna: foi um prazer.