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terça-feira, novembro 07, 2006

Conto ou Crônica?

É uma discussão perfeitamente anacrônica e descabida, eu creio.
Assim como "existe poema sem soneto"?
Então, digo logo: o título nada significa para mim. Poderia ser qualquer outro.
Como disse certa vez Ney Matogrosso, um artista primeiramente é artista, a forma de se expressar depende do momento.

Se não me engano foi meu editor que colocou este título "Alguns Contos" no meu livro. Possivelmente tentando controlar minha loucura, uma das minhas idéias era "Sobre a realidade e outras coisas". Poderia ser "Escrituras", mas seria derradiano demais, ou "Minhas Palavras", mas não diria muito. Poderia ser muitas coisas, principalmente algumas frases que sempre me impressionam em poetas.

Eu sabia que esse título - com a palavra "contos"- era provocador. São afinal "alguns contos": você leva alguns, mas leva outras coisas também. Cômico.

Achei interessante. Cada vez acho que faz menos sentido essas definições "acadêmicas" que só interessam aos que precisam falar sobre isso. É a velha perda de tempo terminológica, pois afinal, tudo são definições, tudo foi criado e pode ser descriado.

Se a coisa começa com as histórias curtas de Boccaccio (recolhendo narrativas do povo, juntando, criando), e toma forma no Século XIX, nos jornais, ganhando por número de páginas, criando séries - sempre me pareceu arcaico imaginar que, depois de Clarice Lispector, Borges, da palavra-conceito-de Kafka e das inovações linguísticas do Século XX, se possa pretender um "tamanho", como lí esses dias: "pode variar entre um mínimo de 1.000 e um máximo de 20.000 palavras."

Eu já fui impedido de inscrever textos em concursos, por exemplo, por serem narrativas maiores que "30 laudas" (conto) e menores que "130 laudas" (romance). Há textos com dois parágrafos que criam tensão e surpresa, quantas folhas faz um conto? Meia, uma, duas, mais de 30 não é mais conto? Teorias? Que interessa, se a reflexão for boa e colocada com decisão?

Gosto da coisa alemã daquele que "se utiliza das palavras". Escrever algo com um "tipo" rígido (médio, um ambiente, personagens limitados, um todo linear, início contextualizador, mudança de enfoque, final chave-de-ouro, etc.) , seguindo normas que deixam tudo com cara de "A Missa do Galo", seria ridículo. Os nomes surgiram em função dos textos, e o mundo gira. Que faria Boccaccio depois da Bomba Atômica?

Mas uma amiga comentou que seria bom para o leitor saber se afinal está lendo conto ou crônica. Então, acho que posso dar uma definição de segunda mão, que considero quase verdadeira, dada sua lógica estável.

Pessoalmente - muito de novo, se ainda valesse a pena classificar- eu diria que a crônica, para mim, como para metade da humanidade, está ligada ao cotidiano, a linguagem comum, o espaço crítico que a notícia descritiva não pode ser, a narrativa de fatos, mais pessoalizados, como "um jornalista": alguém que conta como entrou em um taxi e conversou com o motorista, ou como foi o aniversário de seu filho adolescente, seus percalços, sua invisibilidade. A linguagem é o meio para a narrativa simples e coerente, também ela passível de ser vivida por outros do mesmo contexto.

Mas sabemos que a crônica é também, na prática, um gênero que se adequa a necesidade de escrever uma coluna, que é sempre feroz e preemente. No Brasil, esse gênero de jornal engordou com muita poesia... Ela engloba então, não apenas o fato recém visto, mas pequenas narrativas "fantasiosas" que debatem o presente. Óbvio? É mesmo...

Já o conto, me parece, seria uma criação maluca- totalmente livre, um "objeto inovador"-baseada na estrutura, para remeter a uma questão oculta, moral, política, psicológica: os "Mistérios de Porto Alegre"de Moacyr Scliar, por exemplo, usam uma linguagem aparentemente simples, mas envolvem o inusiado, o trágico, o fantástico.

Por exemplo, no conto "Subterrâneos da Rua da Praia", os capitais fogem, como se fosse pessoas. É a fuga "dos capitais" e não DE capitais. Ou, em outro momento, um funcionário chamado Ego fica preso em seu escritório, ou um homem do interior fica preso no centro da capital, tenta sair do centro mas está cheio de obras, acaba vivendo alí, sem muita explicação racional. Pode tudo.

Kafka é o mestre disso: algo estranho não é compreendido, nunca será. Como o ser.
Eu acho que o conto define claramente um mundo outro, um mundo passado e em vistas de um conjunto de referências indepenentes: no meu trabalho, mesmo um conto simplíssimo, como "Filantropia", remete a um contexto, personagem e universo moral autônomos e inconfundíveis.

Por isso, se a questão fosse essa (e não como "será que a mulher deve casar virgem?")
eu ainda poderia dizer que há mais "contos" com cronicidade, que "outros" nesse livro. A linguagem mais livre para o efeito desejado. "A formiga pára em frente ao imenso mundo", poderia ser um conto. A dificuldade justamente é não ser Kafka, não ser Bukowisky, não ser Borges, nem Veríssimo, mesmo usando coisas herdadas.

Por exemplo, em "Ovelhas", sinto que a linguagem aparentemente simples dá a impressão de "cronicidade"; mas é uma escolha estilística criar uma narrativa com o modelo das manchetes, do entretenimento. Existe ainda essa liberdade de escolha das palavras, de sentido do efeito que a ocultação e o estranhamento causam.

Em um mundo tão acelerado pela produção de entretenimento e pela venda frenética de produtos culturais, notícias, mas também celulares e formas de ser, a narrativa deve ser livre para fazer tudo que pode e quer. Reflexão, acima de tudo: façamos nossos conceitos - sempre e só - aceitar a realidade.

ajr

2 comentários:

Varanda Cultural disse...

Isso aí Afonso, bom blog ! E como é que foi o resto lá da oficina de HQ? É o César, do jornal Varanda Cultural

Varanda Cultural disse...

Isso aí Afonso, bom blog ! E como é que foi o resto lá da oficina de HQ? É o César, do jornal Varanda Cultural