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quarta-feira, agosto 30, 2017

O mundo

Ele já havia nascido sob o regime de segregação. Para eles, o medo era tudo. A lei do sangue. Mas ele a conheceu na rede. Uma perversa.
Lua falava de astrologia, tarot, mitologia e livros de fantasia.
"O Juiz estava furioso porque um promotor havia sido metralhado na rua. Alguém precisava pagar. Jesus foi condenado porque descobriu um pergaminho, a Sociedade o incriminou" - assim começava um post enigmático. Um exercício de imaginação, ela contou.
Jesus era o nome de seu irmão, condenado por não devolver um livro na biblioteca.
- Você não tem medo de nós - ela disse sorrindo para a câmara.
- Eu não acho que vocês sejam por natureza maus - ele disse a Lua. Eu suspeito que
isso tudo foi criado para que aceitemos o inferno. Para que alguém acumule ouro.
- Nem sempre foi assim. Quando eu era criança, nós não tínhamos tanques em frente à nossas casas. Nem havia militares dando aula nas escolas. Não havia tantos desaparecidos. Não se sabia de mulheres violadas dentro de casas invadidas.
- Podíamos nos conhecer - seus olhos cintilavam de desejo juvenil.
- Nem pense nisso. Sua família jamais iria aceitar. A Sociedade criou um sistema em que ninguém é culpado. As ordens devem ser cumpridas. E os livros dizem que, para nós, as leis são outras, não há direitos para os "perversos".
Ela abriu as cartas. Antes, ela já sabia o que seria. La Maison Dieu. 
- Plutarco também via o raio como gerador da vida. Aqui, tudo desaba.
Ele pensou no mundo que conhecemos como ilusão, ele precisava destruir.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, agosto 29, 2017

segunda-feira, agosto 28, 2017

Romance policial

Eu o procurei porque era um ex-escritor de romances policiais.
Eu havia sido estuprada. Dentro da minha casa. Eu oferecera um jantar para dez amigos e ficara bêbada o bastante para parar num divã semi-lúcida.
Ele era um advogado aposentado agora, convidou-me para jantar. Perguntou muito sobre cada um deles.
- Intelectuais. Todos - disse depois de um gole de vinho.
Ele parecia bastante desanimado.
Por fim, me disse que eu fosse pra casa, tomasse um banho e procurasse uma delegacia.
- Não vou pegar o caso.
- Mas houve um crime.
- É, existe um crime. O mundo todo é um crime.
- Eu quero uma investigação.
- Mas eu acho que esse não é o verdadeiro enigma - ele disse, enrolando o macarrão.
- O que quer dizer? - Eu estava irritada.
- Eu acho que você tem uma questão escondida que ainda não descobriu.
Eu tentei me concentrar. Era perfeitamente lógico aquilo tudo. Precisei ir no banheiro.
*
Como ele podia saber?, pensava enquanto passava o batom escuro. Toda sua vida quisera reescrever as narrativas, apagar as descrições que fizeram sobre ela. O mundo era mais complicado. Ela nunca se sentira de fato acomodada com a identidade que lhe haviam dado.
Retornou.
Ele colocou mais vinho na sua taça.
- E sobre a investigação? - ela tentava ser fria.
- Mas eu estou investigando. Onde está? Existe em algum lugar espaço para algo não previsto. Você gosta de ficção científica?, ele perguntou.
- Eu gosto. Um francês... Como é o nome? É sobre dois viajantes espaciais, em missão à um planeta distante são engolidos por uma máquina marinha.
- E seu amigos. O que acham disso?
- Eles sempre foram um tanto esnobes. Acho que sou o tipo introvertido.
- Como?
- Jung. O tipo que pensa mais na conexão de ideias do que nos fatos objetivos. E como criar condições objetivas para que subjetividades assim emerjam?
- Seus amigos querem lhe matar então.
Ela derruba a taça.
- Quem foi? Quem?
- Foram os criadores. Os gestores do congelamento. Eles criaram o processo de elucidação do mistério. Eles querem transformar você em detetive, na busca pela identidade. Fatal.
- Mas... o que desapareceu?
- Eu busco também. O real?
Ele pediu um táxi para ela.
Se despediram.
- Quando for à delegacia, fale sobre seu amigo André Fais.

Afonso Jr. Lima




domingo, agosto 20, 2017

fome

Fome da minha palavra
de achar o método entre
dizer a boca e tocar
o nervo

fome de ser gente
que silencia
reconhecimento

[nuvens no céu
o relevo da palavra
exata rio comum
parada

nuvens no céu
seu anzol no tempo
chão rio
as sombras]

risco
e desse gesto solto
viver no fluxo
regras

palavra corpo
caminho
ritmo
palavra árvore

matar o que em mim já sabe
recriar
fome de pele trocada

[nuvens
pintura de parede
exata flecha
no tempo]


Afonso Junior ferreira de Lima

sábado, agosto 19, 2017

Música

O silêncio interrompido da parede de música, vida cinzenta, ramos encolhidos, dentro do vidro, o turbilhão do fim dos tempos, um avião que desaparece entre as nuvens, ondas de som e o carro fúnebre que desliza, na pedra pingos de chuva no painel oceânico, policiais deslocados pelas notas, o pensamento sente o impacto da intensidade presente, pensa sem regra, capta a liberdade opressora da estrutura, aquele mundo cinzento de luxo, vidro, metal, o resultado é o caminho, é preciso se especializar, é preciso produzir, pensamento calculado, nada de metáforas, nada de cruzar fronteiras, houve uma guerra na rua, o poder criou uma ilha, o método é parte do fato.
Ontem, nesse espaço, a partitura voz-espaço beckett, um tambor ao fundo no azul escuro da queda, movimento da consciência, o piano, giram máquinas amarelas, as duas vozes - o pão de queijo duro que se come poucas moedas, pão da tarde, laranjas roubadas na noite, estudante humilhado, o turbilhão desmoronando, sopro, fim do tempo, não ser necessário, não precisamos de textos autoritários, lembra, eu não posso, não o real em pedra, nem o silêncio, a comunidade em algum lugar, entre o fluxo de imóveis móveis, não posso branco quase branco espaço zero, frio branco, explosão, ruína, gero em mim um vazio, buscar algo, escorre nas raízes, invadem o palco, os particulares autônomos chegam ao diretor, arte como forma do mundo, disposição, proposta de síntese, olhar para trás, questionar o método, ouvir as vozes, um velho ouve suas memórias, eu mesmo pingo de água, flor laranja, aqui me movo para aquele homem, como andávamos pelo parque, chove, amigos que param para fotografia, abrem os braços, um deles se atira nos braços de outro, tudo acabou tão mal, não é fácil romper, heranças, lama que arrasta, dique que rompe, pensamento-ação catástrofe do eu-natureza, fim do movimento. 
Aqui amanhã na parede foto de amigos. 


Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, agosto 10, 2017

Na colônia: a zona de mineração

No vice-reino do Afeganistão, Alexandra era funcionária da companhia que governava a zona mineral.
Colocou o café sobre a mesa, tirou a arma da cintura, observou o horizonte. Havia tido um sonho estranho. Sua roupa se desfiara, depois seu corpo se desfiara e ela acordara quando sua cabeça caíra sobre o monte de fios que era ela.
- Bom dia querida, disse seu colega Lucius. Pronta para a guerra?
Ela detestava o tom eugênico das conversas desse homem. "Os arianos são superiores, você sabe. Italianos, judeus e poloneses são merda", parecia dizer sem usar as palavras.
Ela foi para a sala de reunião. O clima era tenso.
- Nós podemos agora partir para uma guerra pouco lucrativa - disse o chefe, mandando os comerciantes todos para a prisão, quem sabe transferindo todo mundo para campos no deserto, ou fazendo esterilização em massa, para que não se reproduzam.
Ela não riu.
As negociações entre a companhia e o vice-rei começaram a degringolar quando houve uma rebelião dos moradores do bairro comercial.
Novos impostos para alimentar o exército contratado indignaram a população e soldados foram mortos por terroristas.
O vice-rei tentou uma pacificação através de banimento das lideranças e diminuição dos impostos para a elite, mas um segmento da milícia da companhia atacou com gás venenoso uma vila da fronteira matando mulheres e crianças. O chefe do exército privado queria retaliar a milícia.
- Nós deixamos a zona na mão de loucos? - teria exclamado o vice-rei.
Alexandra achava que o presidente era responsável por aquilo tudo. Como fora possível deixar o exército na mão de uma empresa e dizer: "Façam o que acharem melhor"?
- A companhia não pode deixar sua imagem ser manchada - disse o chefe ao comandante.
Alexandra não estava se sentindo bem. Observou sua mão tremendo, enquanto tentava tocar a tela. Lembrava quando era criança, ninguém usava essas palavras tão duras. Ela não sonhara em ser uma agente da submissão de outros povos.
- Se nós executarmos os milicianos que fizeram isso, estaremos dando para o povo a ideia de que perdemos o controle, que não viemos aqui levar paz e ordem e racionalidade, mas somos só um povo conquistador.
- O vice-rei pode exigir do governo uma atitude. Liberais vão questionar nos jornais da metrópole nosso método de controle sobre povos inferiores. Pode ser que questionem a zona mineral independente e cheguemos mesmo a ter de ser defendidos pelos subcontratados do governo.
Mas Alexandra não estava mais presente. De repente, ela entendeu. Estava numa realidade imaginada. Ela era o personagem de algum jogo na ficção de alguém. Se isso era verdade, era como acordar de um sonho.
Ela caminhou pela sala observada por todos.
Apontou a arma para o chefe.

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, agosto 06, 2017

A festa da coruja

- Numa jangada vamos pela mata
Disse a coruja Jane, que ficou acordada
Pra falar com a onça-pintada
- Vamos ver o deus das águas

Também se interessa o boto palhaço
Pra o saguá-coleira deram um telefonema
- Estou nessa, vou chamar o acari-zebra
O arco-íris foi convidado

Era uma festa colorida, o karaokê não para
O coro dos jacarés fazia companhia
A harpia era um Apolo tocando a guitarra
Sapo ao piano, o mico-leão guia

A doutora real, de chapéu amarelo:
- Não é legal! A lei invisível proíbe invasão!
- Vacas demais, deixem em paz o solo!
Canta Ana, a serpente soprano

Bee Gees das aranhas boca de sino
- Sai, vampiro, sai!
Trator não é destino
Stayin' Alive!

Muito romance teve nessa jornada
As estrelas deixaram cair uma lágrima
No casamento da anta com a garça
Chegaram na fronteira, chuva na entrada

- Você está vendo? Vende-se o verde
Da oração pela pele, do respeito
Já vai longe o tempo, o rei medonho
O deus das águas vestiu seu manto de sonho

Os deputados sentiram os ossos gelados
Se os olhos fechavam, o coro dos jacarés
Mordia os pés, a formiga picava
A harpia colocou as cabeças numa estaca

Meio mês sem ter dormido, saíram fugindo
A coruja Jane e a onça-pintada
Executando bem e dando deferimento
Os papagaios presidiram o Parlamento

Sapo ao piano, o mico-leão guia
É uma alegria os jacarés cantando ABBA
A harpia era Queen tocando a guitarra
Festa colorida, a tal democracia

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, agosto 02, 2017

Olhe através de mim

O hall do hotel (?) está tendo as vidraças quebradas e corremos para um terraço. Lá estão barracas coloridas e as pessoas ouvem música. Um desconhecido me diz alguma coisa, que não entendo.
Acordo agitado.
Quero ir ao banheiro. Percebo que o chão está frio. O que houve com meus pés? Estão invisíveis. Eu os sinto, mas não os vejo. Mesmo assim, vou.
Parque - chão cheio de lixo e folhas. A administradora não trabalha sexta, nem sábado, é a folga dela. A administração só tem um cão na porta.
Pergunto o que aconteceu. "Não tem mais manutenção, nem limpeza. Só uma tiazinha que limpa os banheiros". Uma moça chega para reclamar que "tem mendigo bloqueando a passagem". Eram 9 seguranças, agora vejo três.
Comento com ela que provavelmente o parque está sendo abandonado para ser vendido. "Camisa vermelha, sei, comunista".
Eu compro um livro na frente do metrô. Percebo que meus dedos estão ficando invisíveis.
"Sim, voltamos, demorou um pouco pra prefeitura autorizar" - diz o vendedor.
"Espero que sobre alguma coisa".
"Nós sustentamos o país inteiro".
Eu não vejo mais minha mão, tento ocultar com a manga do suéter.
Uma moça diz para a amiga, bebendo cerveja na calçada: "Eu sou solteira, posso me vestir como eu quiser".
Um homem jovem caído no chão, bem no meio, separando o fluxo do fim da tarde em dois.
Numa TV, a votação dos deputados.
Lembro o que o desconhecido falou. "Não somos uma comunidade, somos indivíduos em luta uns com os outros".
Fico pensando, se eu desaparecer, verão apenas minhas roupas?
A votação acabou.
"E esses palhaços na rua?" - diz uma mulher.
"Agora é entre mercado e políticos" - diz um homem.
Eu penso: "O que eu tenho a oferecer? Qual a minha utilidade?"
Eu digo novamente pra funcionária o que preciso. Eu percebo que precisava ter vestido uma camisa melhor.
"O senhor não tem braços"?
"Como"?
Eu não tinha reparado que meus braços também estavam invisíveis.
Sentei num banco um pouco apavorado.

Afonso Junior Ferreira de Lima