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quinta-feira, agosto 10, 2017

Na colônia: a zona de mineração

No vice-reino do Afeganistão, Alexandra era funcionária da companhia que governava a zona mineral.
Colocou o café sobre a mesa, tirou a arma da cintura, observou o horizonte. Havia tido um sonho estranho. Sua roupa se desfiara, depois seu corpo se desfiara e ela acordara quando sua cabeça caíra sobre o monte de fios que era ela.
- Bom dia querida, disse seu colega Lucius. Pronta para a guerra?
Ela detestava o tom eugênico das conversas desse homem. "Os arianos são superiores, você sabe. Italianos, judeus e poloneses são merda", parecia dizer sem usar as palavras.
Ela foi para a sala de reunião. O clima era tenso.
- Nós podemos agora partir para uma guerra pouco lucrativa - disse o chefe, mandando os comerciantes todos para a prisão, quem sabe transferindo todo mundo para campos no deserto, ou fazendo esterilização em massa, para que não se reproduzam.
Ela não riu.
As negociações entre a companhia e o vice-rei começaram a degringolar quando houve uma rebelião dos moradores do bairro comercial.
Novos impostos para alimentar o exército contratado indignaram a população e soldados foram mortos por terroristas.
O vice-rei tentou uma pacificação através de banimento das lideranças e diminuição dos impostos para a elite, mas um segmento da milícia da companhia atacou com gás venenoso uma vila da fronteira matando mulheres e crianças. O chefe do exército privado queria retaliar a milícia.
- Nós deixamos a zona na mão de loucos? - teria exclamado o vice-rei.
Alexandra achava que o presidente era responsável por aquilo tudo. Como fora possível deixar o exército na mão de uma empresa e dizer: "Façam o que acharem melhor"?
- A companhia não pode deixar sua imagem ser manchada - disse o chefe ao comandante.
Alexandra não estava se sentindo bem. Observou sua mão tremendo, enquanto tentava tocar a tela. Lembrava quando era criança, ninguém usava essas palavras tão duras. Ela não sonhara em ser uma agente da submissão de outros povos.
- Se nós executarmos os milicianos que fizeram isso, estaremos dando para o povo a ideia de que perdemos o controle, que não viemos aqui levar paz e ordem e racionalidade, mas somos só um povo conquistador.
- O vice-rei pode exigir do governo uma atitude. Liberais vão questionar nos jornais da metrópole nosso método de controle sobre povos inferiores. Pode ser que questionem a zona mineral independente e cheguemos mesmo a ter de ser defendidos pelos subcontratados do governo.
Mas Alexandra não estava mais presente. De repente, ela entendeu. Estava numa realidade imaginada. Ela era o personagem de algum jogo na ficção de alguém. Se isso era verdade, era como acordar de um sonho.
Ela caminhou pela sala observada por todos.
Apontou a arma para o chefe.

Afonso Junior Ferreira de Lima

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