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quinta-feira, abril 27, 2017

Ocupem Wall Street

A fila foi parada pelos guardas na sua vez de entrar. Lá dentro, 300 pessoas representando 11 milhões. 
Algumas pessoas insistiam, os guardas diziam que o telão iria transmitir. Era a última apresentação das metas da Prefeitura. Assistiram um pouco no telão. Toda a cidade em fúria. Mas que importava isso? A comunicação era pelas redes e pela mídia com a "massa". 
Foi tomar um café com um conselheiro de bairro, acabaram de se conhecer na fila.
- É chocante, será que não havia outro espaço? Tanta gente ficou de fora...
- Fizeram 39 audiências em 3 dias. 
- Eu penso no que aconteceu com a política. Os vereadores eleitos pela enxurrada de dinheiro e o prefeito, idem, parecem não se importar em nada com as demandas da sociedade. 
- O que aconteceu foi mercado financeiro. E parece que a elite percebeu que ninguém tem compreensão. A classe media virou tecnocrata, a maioria dos pobres trabalha demais ou se tornou novo rico. O discurso da TV e do jornal pode apagar qualquer alternativa, tudo é culpa da "gastança", da "farra social". 
- Tenho ouvido cada coisa... No grupo do bairro se diz que "cultura de verdade não precisa de investimento público", critica-se o "o vitimismo das minorias", ou se diz que "reduzir investimentos é essencial porque dinheiro não dá em árvores". Ouvi esse provérbio: "Em casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão".
- Enquanto isso... Paraísos fiscais. Quando se reduz muito os impostos, os governos ficam miseráveis, surgem bairros sem lei, nos quais o tráfico impera ou outra espécie de máfia.
- A impressão que eu tenho é que nossa sociedade cortou os vínculos. O soldado mata à distância como num jogo da morte. Os acionistas lidam com números, mas esses números são uma mata cortada ou uma barragem que destrói a água de cidades inteiras. A classe A, vivendo em seus palácios cercados, pode apoiar os políticos mais sorridentes na rede, sem ver o que significa o corte que aplicam nos investimentos públicos. 
- Eu estava em Nova Iorque na época do "Ocupem Wall Street". Eles falavam do "cartel dos bancos" e "senhores dos governos". "Eles colocam os seus no governo", "a dívida dos governos é aplicação". Uma jovem disse: "A nova ordem internacional imposta ao mundo foi uma conquista imperial pela abertura dos mercados de capital". As pessoas diziam na praça que cada um dos 28 grupos financeiros que mandam no mundo tem um PIB maior que o do Brasil. Nem Obama conseguiu recriar leis de regulação. O capital é global, o governo é local. Ouço uma mulher gritar para uma manifestante: "Bando de picaretas, vão procurar emprego". E a outra responde: "Eu tenho emprego, o que eu não tenho é uma vida".
Na rua, jovens negras de um coletivo saem da audiência conversando. 
Começava uma fina chuva, mas o sol ainda brilhava. Resolveram ficar mais um pouco.


Afonso Junior ferreira de Lima




segunda-feira, abril 24, 2017

Os quase miseráveis

Dan estava na parada de ônibus; estava preocupado porque tinham que conseguir um novo apartamento. A região havia ficado muito perigosa, a polícia descontrolada. Fora olhar um trailer, mas parecia muito velho. Além disso, o proprietário nunca fazia os consertos necessários. Seu irmão conseguira um novo trabalho, quem sabe podiam ficar num motel alguns dias.
Um rapaz lhe deu um panfleto.
- Queremos proteger as pessoas da globalização, ele disse. Do desemprego e da imigração massiva.
Ele lembrou da conversa que ouvira.
- Você não quer tomar uma cerveja?, perguntou ao rapaz.

Foram. Ele chamou uma amiga, também do partido. Enquanto os ouvia, sua mente divagava. 
Como chegara a isso se trabalhara a vida toda? Não tinha dinheiro para morar com dignidade. Sua mulher só pode fazer metade do tratamento dentário e andava com medo de ter outra crise. Não podia pagar por sua saúde. Acreditava que o esforço de uma pessoa era o que fazia a diferença. Só que teve de aceitar aquele emprego de merda porque quase enlouquecera quando fora demitido - os novos contratados ganhavam ainda menos. Mas... Alguém devia estar ganhando muito com os serviços pelos quais que ele pagava. Começava a pensar que cada vez comprava coisas mais baratas e ganhava menos. Que as escolas públicas estavam fabricando semianalfabetos. 
Naquele dia, voltava de uma loja, pedira folga no serviço. Fora obrigado a comprar uma cama há uma semana. A empresa não entregou uma peça do móvel. Foi reclamar. Alguém ia lhe procurar. Ele lembra que sua imobiliária não conserta o interfone há dois anos. Não tem porteiro. Mas a pessoa não irá lhe ligar, não pode ligar para avisar que está na porta. Essas pequenas humilhações e a sensação de injustiça, de ser uma vítima sem julgamento, o angustiavam. 
Saiu da loja e foi num restaurante barato, tinha 50 pratas na conta. O cara do restaurante debita duas vezes seu almoço. Ele vai no banco e tira um extrato. Não aceita quando lhe mostra o erro. É preciso aparecer o nome da loja, só no outro dia. "O senhor me fará pagar duas passagens para vir aqui reclamar?". 
Ele passa por um sinal estragado, carros não param, as pessoas não conseguem atravessar. "Estragou, consertaram, roubaram, está assim há dois meses". Passou por outro cruzamento. Desligado há dez dias. 
Outra vez abriu a porta do prédio para uma empresa terceirizada de energia, que religaria a conta de um vizinho. Os rapazes nervosos porque a parede era velha e podia haver explosão. O chefe ordena por telefone que faça, caso contrário pagarão multa. "Não se importam se o funcionário morrer", disse um deles. 
Ele começava a sentir que perdia o controle. Quando os filhos ficavam doentes ou a mulher lutava para fazer um miojo diferente, ele se sentia muito mal. Uma vez, quando uma sombra demoníaca passou em sua mente no meio da sujeira e do caos, chegou a pensar que podia livrar os filhos daquilo tudo. Foi apenas um lampejo, um momento em que perdeu a esperança. Por sorte lembrou de seu pai, bêbado e desesperado, e retornou a lucidez. Não podia ser como ele. Mas isso o havia assustado. Ninguém era assim tão forte. 

A amiga do rapaz dizia:
- Eu trabalho para pagar meus estudos. Eu dou duro, mas os estrangeiros recebem do Estado comida e dinheiro. Não quero acordar amanhã e ver que tudo mudou, que nossa cultura mudou.
Contou a conversa que ouvira. A loja faturava 400 mil por semana, ele ganhava 140 pratas em duas semanas.
- Será que não estamos desviando o foco?
Eles pagaram a conta, se despediram, e ele colocou o panfleto no lixo.

Afonso Junior Ferreira de Lima




sexta-feira, abril 21, 2017

Mundo imaginário

- É uma nova era de irracionalismo, parecida com a do fascismo...
Elas estacionaram e caminhavam em frente à Prefeitura, no viaduto, tumulto do meio-dia.
Sentaram no café do centro cultural. Ela iria dar uma palestra sobre seu novo livro.
- Sabe, como escritora, eu sempre desejei que as pessoas entrassem no meu mundo de imaginação. Que as pessoas deixassem suas convicções e mergulhassem no meu sonho. E agora... Parece que a capacidade de analisar a realidade desapareceu.
- Você que dizer... o prefeito?
- Sim, medo.
- Mas ele parece tão enérgico. Tinham muita crítica contra o outro, né?
- Ódio pode ser criado... O plano é reduzir, modificar, vender...
- Ele pode ter feito coisas boas, como na saúde...
- Não podemos ter uma autocomplacência que se deixa enganar... as coisas estão em retrocesso, os planos desmontados, parece que nas reuniões as ideias da população "não interessam".
Estaria sendo injusta? Lembrou de sua vó dizendo: "Não sou democrática com fascistas".
- Quem sabe? Nem conseguimos entender o que está acontecendo tamanha a guerra de propaganda.
A moça trouxe o café. Ela lembrou de quando era jovem e diziam que ocorriam torturas, mas ninguém sabia...
- O que me assusta é que começaram pelas campanhas de rádio e na internet esses fanatismos... Deputados e vereadores foram encurralados pelos moradores. Os meios institucionais não valem, os políticos sérios podem fazer reuniões e falar de números e os jovens vereadores cheios de ódio vão dizer que tudo é comunismo, e fazer uma transmissão ao vivo; você não vai saber a verdade... O dinheiro vai levar a sociedade para seu barco.
Ela pensou sobre toda a filosofia de que a arte tem um espaço próprio, toda linguagem é estilização, dizia um professor. Por outro lado, percebia que a mente havia se fragmentado de forma incrível, blocos de ideias opostas podiam conviver juntos.  De modo geral, ela achava que arte e política eram dois níveis distintos, a imaginação era também algo político, a subjetividade era libertar-se do poder oficial, seja a propaganda, seja o partido, mas não estava certa de nada. Um debate que já existia na Rússia de Dostoiévski. É preciso um certo idealismo para um romance acontecer? É melhor menos reflexão e ações firmes de homens capazes de alterar a realidade? De que modo podíamos nos relacionar com o mundo sem criar uma submissão ou empobrecimento?
- Eu concordo com você no sentido em que acho exagerada essa promoção pessoal. Realmente, parece que a democracia virou isso. Eu tenho aquela amiga que trabalha na Câmara. Havia muita discussão, dinheiro no orçamento para projetos. Para dizer que está fazendo, tem de negar e refazer tudo o que já foi pensado. É uma marca de grande força, o "trabalho e competência".
-  E se, apesar de tudo, ele for menos competente? E se essa gente estiver propagando uma mentira involuntariamente? Eu te juro que nada do que eu vejo parece apontar o contrário. Numa cidade tão injusta, o plano do executivo é reduzir investimentos. Até livros das bibliotecas estão sendo triturados, de humanidades, sobre ditadura... A moça que escreveu um texto denunciando o abandono do plano municipal do livro recebe visita do chefe para intimidá-la. Talvez tenhamos esquecido o quanto é importante sínteses de vida para nos guiar na escuridão.
Alguém veio pedir um autógrafo. Um mundo imaginário que é um sistema de mentiras. Ela pensava que seu mundo imaginário sempre respondeu ao anseio de terra.

Afonso Junior Ferreira de Lima





quinta-feira, abril 20, 2017

A entrevista

Ele pensava se teria imaginado tudo.

Deitado em seu quarto, tentando ler, ele ouviu um menino na janela. Tentou achá-lo, ele corria já longe. Ninguém sabia informar nada sobre os massacres. "A Paixão segundo Mateus" era seu trabalho agora. Ele morava em Marte há mais de cinco anos, tinha a impressão de que mesmo o "inimigo" não existia mais na linguagem.

- Foram duas décadas de apagamento de mentes - finalmente um homem disse.

Reeleito sete vezes. Lembra do que pensou naquela época.

W. Berren. Seria um animador de auditório ou um jornalista?

O que ele estava dizendo? Era preciso derrubar o presidente de outro país para evitar o "perigo chinês" e o "não-alinhamento que disfarça a estatização e os altos impostos"? O nosso presidente ia visitar o país. Depois ia começar testes nucleares na lua.

Entrevista o músico que faria São Mateus para a elite local.

Acabam conversando meio bêbados sob a lua.

- Eu me lembro da rádio falando dia e noite sobre os socialistas, radicais, antipatrióticos e muçulmanos. Como a democracia pode se defender da lavagem-cerebral dos bilionários?

Ele lembrou da época em que resolveu perguntar sobre Berren ao seu velho mestre, jornalista aposentado.

- Você sabe, os herdeiros de castas antigas acabam acreditando que sua casta é superior, e os outros são desumanos - ele acertava a bola robótica no nível 3 no buraco. Ninguém mais era perdedor, depois daquilo.

Observavam os drones de controle sobre suas cabeças. Seu volume estaria ajustado para captar o som de conversar no jardim? O músico continuou:

- São os políticos contratados para evitar que as coisas aconteçam e mudar as leis em favor das empresas.

Uma vez, no campo de golf, ele havia indagado:

- Mas você acha que vamos promover um massacre?

- FMI e o Banco Mundial foram expulsos. Lembra? Passaremos os nomes dos principais líderes inimigos - disse o mestre. E morreram um milhão de pessoas.

Estrelas no céu. O músico tocou Bach. Então, era isso. Passaram-se vinte anos. Ele chegava ao país e não havia impressões digitais em nada.


Afonso Junior Ferreira de Lima 
 




sexta-feira, abril 14, 2017

Ártemis

Ela não compartilhava seu ódio pela humanidade.
- Quando nos encontramos, seu pai tinha falido construindo um navio de 150 pés. Ele foi o mais digno rival de Demóstenes, mas teve de me entregar a filha virgem em troca de dinheiro. 
- O negócio é o seguinte: você está querendo que eu faça por você o mesmo que fui obrigada a fazer com você mil anos atrás. O que eu ganho com isso?
- Você queria que aquele escritor de histórias de aventura terminasse seu livro, que ele fosse publicado e que - quem sabe, virasse um filme. Eu quero que a Comissão nunca crie mais regulações. 
- Eu pensei que jamais tinha lido o manuscrito que lhe dei. Eu amei demais aquela vampira. 
- Eu preciso de alguém capaz de fazer lobby sem assustar demais o senador. Meus outros aliados preferem manchar as cortinas de sangue. 
Assim, Ártemis foi visitar o assessor do senador. 
- Trata-se de fraude, Lilian (era assim que os mortais a chamavam), e a lei, as agências, são patinhos nadando no lago para esse tipo de assassino. Ou algo parecido. 
Ela observava a espada árabe sobre a lareira. Como ele achara essa relíquia do ataque de 1098 aos bizantinos? Ela não estava lá, mas, mais grega que uma ilha, não aprendera apenas filosofia com os árabes. 
- Meu caro, blogueiros anarquistas não vão mudar o sistema. Ninguém pode. São mais de 3 mil lobistas. Nem entrou na pauta em seis meses. Os jornais falando dia e noite nisso. Aceite meu dinheiro e compre uma casa na praia. Em mais uma praia. 
- Eu sei quem vocês são. As pessoas desistiram do poder por causa de vocês. São pessoas que nada produzem. Investem em papéis. Não há governo global, ninguém segura esse monstro. 
- Aceite as coisas como são. Desmembrar os bancos que consomem a riqueza seria mudar preconceitos que nem Einstein imaginou. São predadores. Eles são imortais.
Seu amigo olhou para os prédios - cada andar levemente diverso do outro - e suspirou. 
- Eu quero escrever um livro sobre isso.
- Eu posso publicar.
Ela apagou as luzes.

Afonso Junior Ferreira de Lima




quinta-feira, abril 13, 2017

Porto Alegre antiga

Porto Alegre cidade aberta

na luz vermelha da ponta do rio

mergulho com um finlandês perdido

clarões de um céu inteiro fonte invisível

menino tropeçando nos degraus

mercado marcado explodo a bolha dourada

recebo todos os deuses com minha espada

nas árvores da Redenção

ele odeia comida indiana, ela usa turbante azul

vento na rua solitária de pedras

no sofá com Legião, a geometria judaica

hormônios florescidos na dança da metrópole

rambô toma chimarrão na grama

a sombra do aço lembra

1752 açorianos um rumo novo âncoras 

protesto contra o fluxo dos tiranos de ar

Porto Alegre a paixão descendo a lomba

onde canta o sabiá do samba

e o punk à cavalo Noll de memórias

só eu sozinho solidão simulada sussurros de mata

artista perdido refletido em vidro

na roda do dia da festa 

a água se enfeita de lua

o beijo no cruzamento do Ocidente roubado

o sol do verão me ensinou filosofia 

Buda nos campos do exército imperial e farrapos 

aqui morou o capitão érico, ecoa um riso de poeta

desenho anjos no cais e colo flores fantasiadas

minimalismo e choro naquele banco transfigurado

o alemão grita com a bandeira 

telefonemas suicidas e paixão impossível mais uma

debates e terra, chamado da floresta

jogo de branco em preto e contar moedas pra estudar

a indústria francesa nos degraus, escadas da 24 onde nasci

Porto Alegre cidade vermelha

Porto Alegre os índios do Pará

a árvore milenar da esquina, casario baixo

amor que não dura, o eterno, a separação

o meu mundo interior clarões

os mortos em cada fachada colorida e rococó

nunca adaptado, acreditado herói trovador

espelho caminhando no Beira-Rio

ninguém pode parar 

essa tempestade em que falo com o céu

olhando os aviões e a saudade calculada

coloco a máscara que diz a verdade

Porto Alegre na rua da praia

águas levam à todos os mares

louca fria sereia do inverno

Ofélia afogada, lembrança desregrada 

Porto Alegre cidade sonhadora


Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, abril 11, 2017

poesia pós-industrial

à mão as peças da modernidade quebradas
minha arte não tem propriedade definida
a metáfora está em pedaços
a poesia brasileira assim tão pouco brasileira
srta. krupp agora casa-se com o pilar nazista

meu olhar busca o corpo, as flores pintadas
eu ainda acho que temos de viver
com alguma liberdade no tempo de liberdade

sr. krupp gosta de um olhar produtivo
mas a indústria dorme, camponeses escravos
minha época materialista
crime contra a humanidade
é sair das coisas práticas 

roubo uma canção de água em rocha
populismo digital, trabalhador
sai do consumo e se torna apenas produção
o dragão Ying e a inutilidade de um dia incerto

meu olhar busca o passado, o fruto caído
eu ainda acho que temos de sonhar
com alguma verdade no tempo da certeza
das nove às cinco para ser respeitado
as fronteiras devem ser fechadas ele diz

meu olhar busca o invisível, as flores esperadas
eu ainda acho que temos de viver
com alguma suavidade no tempo do medo

comprar suas roupas
comprar sua saúde
comprar sua comida
comprar seus filmes
comprar seu colchão

havia um tempo em que se podia decidir o espaço
os direitos humanos não cabem no orçamento
a metáfora está em pedaços
os direitos do consumidor

meu olhar busca o que não sei
eu ainda acho que temos de viver um novo tempo
com alguma humanidade desconhecida

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, abril 10, 2017

Um novo céu

Uma vez, parecia valer a pena
acabar com o abrigo inimigo
as folhas se desfizeram em cinzas
as chamas alertaram a rebeldia

Essa gente fugia por caminhos
sem a esperança que os caminhos trazem
rumos de ruínas, futuro de fome
sobre as cabeças os aviões lançam morte

O amigo do presidente
recebeu ajuda no cozido tóxico
hoje aliados, amanhã quem sabe?
por ninguém o efeito foi ouvido

Essa gente fugia com seus filhos
sem a esperança que os caminhos trazem
rumos de ruínas, futuro encontro fatal?
sobre as cabeças os aviões lançam morte

Fósforo branco e o urânio empobrecido
Estão na luta contra o mal
por ninguém o efeito foi ouvido
Hiroshima não faria melhor

Precisamos proteger inocentes
mas se não são os nossos
pura propaganda e silêncio
sobre as cabeças os aviões no novo dia


Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, abril 08, 2017

140

"Vendo uma menina de 13 anos e rapaz robusto que sabe cortar cabelos e uma Nitroan -X nova, cor vermelha, capaz de voar a 120 km/h". 
140 se lembrava de quando, criança, havia sido obrigado pelo senhor a espancar seu pai, de barbas grisalhas. Como tudo isso começara?
Seu avô contava que, na fábrica onde trabalhara, foram cortados 10 mil empregos em 20 anos. Os novos contratados, trabalhavam até 14 horas por dia e não tinham nem férias, nem salários plenos. As fábricas se separaram e propuseram "redução agressiva dos custos". Agora, seu avô dizia, começara a trabalhar em cinco máquinas ao invés de duas. Sua renda caíra de 25 draimas para 13 por hora. Com o novo acordo, não receberiam nem a metade da aposentadoria que planejara. 
Mas seu pai já foi considerado servo. A dívida pública precisava ser paga. As prefeituras não podiam mais arcar com serviços de lixo e luz nos bairros e aumentar impostos acabaria com as empresas, era o que se dizia. O governo alegou que os trabalhadores andavam deixando seus postos de trabalho e uma lei aprovada pelo Congresso deu às empresas a propriedade dos funcionários, desde que obedecido um código de responsabilidade social. Os juízes, entretanto, nunca foram muito exigentes. Logo, as empresas podiam infligir castigos corporais, e com o tempo os acionistas viram os servos como uma sub-raça, um estado natural dado por Deus. 
140 não podia se livrar da lembrança de seu pai chorando depois de ter sido espancado por ele. 
O presidente falou com a nação pela rede:
"Estamos criando o dia do banqueiro. E também faremos uma guerra Deus abençoe etc."
Nesse dia, ele usou suas habilidades de servo digital para mudar a frase:
"Estão canalhas criando dia do banqueiro porque eles tem milhares de servos hipotecados. E também nós servos faremos uma guerra deus abençoe"

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, abril 02, 2017

Sem nome

Eu a encontro depois de algum tempo. Não está morta.
Carrega duas sacolas.
Pergunto se está dormindo no albergue.
[Brasil tem 12,9 milhões de analfabetos]
- Vou ver se entro, albergue não é a casa da gente.Dou algumas bananas. Qual é mesmo seu nome?
[Moradores de rua estão jogados à própria sorte]Deixei as compras na porta do prédio.
- Vai dar tudo certo, tudo de bom.
[Ação da prefeitura remove itens de moradores de rua no centro de SP]Pego as chaves e penso que podia ter dado mais. Penso nos servos da Rússia, como ainda estamos nisso?
[Casal de moradores de rua é morto a tiros na Zona Norte]
Qual é mesmo seu nome? 

Afonso Jr. Ferreira de Lima