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sábado, abril 08, 2017

140

"Vendo uma menina de 13 anos e rapaz robusto que sabe cortar cabelos e uma Nitroan -X nova, cor vermelha, capaz de voar a 120 km/h". 
140 se lembrava de quando, criança, havia sido obrigado pelo senhor a espancar seu pai, de barbas grisalhas. Como tudo isso começara?
Seu avô contava que, na fábrica onde trabalhara, foram cortados 10 mil empregos em 20 anos. Os novos contratados, trabalhavam até 14 horas por dia e não tinham nem férias, nem salários plenos. As fábricas se separaram e propuseram "redução agressiva dos custos". Agora, seu avô dizia, começara a trabalhar em cinco máquinas ao invés de duas. Sua renda caíra de 25 draimas para 13 por hora. Com o novo acordo, não receberiam nem a metade da aposentadoria que planejara. 
Mas seu pai já foi considerado servo. A dívida pública precisava ser paga. As prefeituras não podiam mais arcar com serviços de lixo e luz nos bairros e aumentar impostos acabaria com as empresas, era o que se dizia. O governo alegou que os trabalhadores andavam deixando seus postos de trabalho e uma lei aprovada pelo Congresso deu às empresas a propriedade dos funcionários, desde que obedecido um código de responsabilidade social. Os juízes, entretanto, nunca foram muito exigentes. Logo, as empresas podiam infligir castigos corporais, e com o tempo os acionistas viram os servos como uma sub-raça, um estado natural dado por Deus. 
140 não podia se livrar da lembrança de seu pai chorando depois de ter sido espancado por ele. 
O presidente falou com a nação pela rede:
"Estamos criando o dia do banqueiro. E também faremos uma guerra Deus abençoe etc."
Nesse dia, ele usou suas habilidades de servo digital para mudar a frase:
"Estão canalhas criando dia do banqueiro porque eles tem milhares de servos hipotecados. E também nós servos faremos uma guerra deus abençoe"

Afonso Junior Ferreira de Lima

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