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segunda-feira, dezembro 29, 2014

Ser

Não é incrível
que por cima e por baixo do espaço
azul vazio  passe a luz
que a pedra redonda barra em barco
Não é incrível
que das camadas leves de branco
esparso em veloz mutação
um grão caia e do chão
verde cresça e alimente
Não é incrível
depois de tudo somado
o animal alado sonha em ser bicho
quer cafuné, brincar na roda
e nenhuma razão tem fundação
se não mais vida
que todo ser merece
antes de ser molécula
acontece

Afonso Lima

domingo, dezembro 28, 2014

Aquarelas

O jovem Hans tinha um talento para aquarelas. Pelo menos foi o que lhe disseram, na praia, as tias animadas no almoço em frente ao mar. Ele passou aquela noite no quarto desenhando, e tiveram que chamá-lo duas vezes para o jantar. Entre um charuto e outro, seu pai deixou claro que isso seria impensável. “Temos um nome nessa cidade, não viverás com a renda de um artista”. Seus sonhos se despedaçaram mal formulados. Ele passou no vestibular, dedicou-se com afinco aos estudos de advocacia. Conquistou algumas meninas com suas camisas pólo de marca, aprendeu a dirigir bêbado, conheceu os meandros de Miami e já se via como herdeiro do pequeno império, confiante da sua superioridade. Adotou até o modo de falar de seus tios, ao referir-se aos “bárbaros inferiores”. Infelizmente, um ano depois de sua formatura, quando ia ser efetivado no escritório de um amigo do pai (“não podemos dar de bandeja uma posição”), caiu doente.
Pálido, febril, sem nada que pudesse ser diagnosticado, recomendou o médico da família que fosse para a casa de campo. Durou seis meses e cento e vinte aquarelas. Hoje elas estão na coleção do Museu Nacional.

Afonso Lima  

sábado, dezembro 27, 2014

A doutrina não escrita

No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Eloah, e era Eloah.
Ele estava com Eloah no princípio.
Todas as coisas foram feitas da Palavra; sem ela, nada do que existe teria sido feito.
Na Palavra estava a existência, e esta era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.
Surgiu um homem enviado por Eloah, chamado Fashi Yochanan.
Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens e retira dos vasos ocultos a luz neles presa. Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era de sua natureza, mas a ignorância os afugentou.

Contudo, aos que criam a justiça, aos que creram na paz, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Eloah.  Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu em nós cuidando dos fracos e seu fogo em nós era a compaixão, pois que disse: “Eu lancei fogo sobre o mundo, e eis que estou cuidando dele até que queime.” Vimos a sua glória, glória em nós como Unigênito vindo do Pai. Ninguém jamais viu a Eloah, mas o deus Unigênito, que está junto da Paz, o tornou conhecido.

Afonso Lima

terça-feira, dezembro 23, 2014

Mapas

Velha dama, dourada, poesia de

folhas secas nas calçadas de pedra

as nuvens sobre o lago, tic-tac

larga avenida onde punks tocam

Parangolé no bar, os grilos e as estrelas…

clientes antigos conversam no
sebo


Olhos que me assassinaram

Passear entre as árvores, na praça

pássaros que passarinham

ler jornal no café, na calçada

no centro, tomar sorvete no Mercado

os cristais e o sushi

até amanha se Deus quiser


Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 22, 2014

CENSURADO

Arte:
A peça já em ensaio. 
Cinco horas esperando o ministro. 
Vamos pintar o quadro da primeira dama.
Tem outras peças proibidas.
Vamos tirar alguns palavrões.
Ganhou os maiores prêmios.

"Acho que vi uma luz do outro lado do rio".


História:
O presidente decidiu quebrar a hegemonia das oligarquias que comandavam os principais meios de comunicações.

Apoiava a candidatura de JK para as eleições previstas para 1965.
Criticado por políticos e jornalistas favoráveis ao regime
Os aeroportos e a infraestrutura foram tomados pelo governo sem indenização.
Está no cemitério de La Batignolle, na zona metropolitana de Paris.

Economia:
- programas humorísticos 
- programas de esportes
- líder de audiência na cidade de São Paulo.
grandes cantores
- inovou no telejornalismo
[Podia ser que houvesse um golpe.

"Acho que vi uma luz do outro lado do rio".


Política:

A peça já em ensaio. 
Ele fez com que o presidente voltasse em um avião de sua companhia. 
Cinco horas esperando o ministro. 
Podia ser que houvesse um golpe.
Líder de audiência na cidade de São Paulo.
Era exportador, mas apoiava Jango.
Programa censurado, tela negra.
A TV foi destruída. Todos os funcionários demitidos.  
O artista ganhou os maiores prêmios.

Afonso Lima



quarta-feira, dezembro 17, 2014

Infinitos

A inteligência da pedra
a matemática da sombra 
e da folha de chuva 
sofrer com o sofrido
amanhecer de leve
negro como terra
eu casca e inseto
pisar o mundo no ato
em rede saber como peixe 
pensar como pensa o mato
calcular no estômago
nunca silenciar
viajar para outras mentes
e utopias coletivas
e água nas sementes
nada já acabado
mente-fogo mente-mar
colher frutos espalhados
para que seja progresso 
esperança de alvorada
pensar do eu desunido, revirado
racional úmido
saber que é ato e lugar
coragem de imaginar
saber na raiz na plana água
para tudo continuar canto
no espelho do olho
riqueza é circular
distribuição sagrada
comum sede e comum som
antes da divisão
para que seja alegre a soma
o volume de vida aumentado
não há lei nem passado
onde tudo recomeça
para que seja mais e mais espaço
de festa
pedra negra é fundo 
pedra pedra pedra coração
do mundo

Afonso LIma

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Versos à mais

Cadê o certo que tava aqui?
Estar aberto que o mundo anda
canta cada coisa cada começo
nem tem tanto à ver saber estar desperto
é mais espero e olhar direito
com mais coragem a coisa da
malandragem que tudo se faz do tempo
e sem perfeito tudo é 
do momento
sangue novo se mistura
membrana rompida sem margem
fruta mais crua 
e eu e nós somos fora, mais além 
conceito vem conceito vai 
o dia cobra o dia cospe
o cimento se desfaz
pilares foram ao chão
transição transborda
é a vida pega no ar
a gente fica e quer mais 
quem carimba sim e não
no bicho coração?
desmonte confuso
um caso de estudo
e tudo era linguagem acordo
vivo não fica morto
O cool com as calças 
também era montagem

Afonso Lima

domingo, dezembro 14, 2014

O duplo

Ele achara que estava sendo perseguido quando tomou um coche para ir embora da Ópera.
Estava assustado, no fundo, eu iria ganhar uma distinção que meu pai nunca tivera.
Quando o conheci? Num café de Viena, onde se discutia fervorosamente a lenta decadência do demônio de Laplace, do objetivismo da ciência que se considerava indestrutível. Freud parecia nervoso naquele dia.
Eu subi no palco, recebi o diploma, tive a impressão de vê-lo na plateia e desmaiei como o mais tolo animal criado pela evolução.
A culpa sempre é um duplo - escreveu o médico no seu escritório.
O império mais antigo do mundo, antissemitas agredindo pessoas, industria florescente, bancos, a "dissociação", a dança, a música, o teatro: os homens se reuniam no seu clube para debater lógica e epistemologia.
Cruzo uma rua, entro numa viela escura, aquele homem tem um aspecto sombrio, veste-se com desalinho, mas no entanto. No entanto. Serei eu?
Eu fui assistir sua conferência, eram umas vinte pessoas ouvindo alguém que, como Musil, falaria das "secretas existências no homem", e ele falou: os genitores seriam os primeiros objetos dos desejos eróticos da criança, incitada pelos próprios pais; os sentimentos seriam de hostilidade, tanto o como de ternura. Saldo: duas mulheres de chapéu saem entre cochichos, homem alto de terno cinza parece dormir, três homens com jeito de estudantes aplaudem em pé e silêncio.
Agora eu tenho certeza. Ele existe e está neste café. Olhou nessa direção? Eu o convido a sentar-se? Ele está se levantando, se aproxima, estou gelado.
...Na espreguiçadeira do convés, o doutor semidormia: via ao longe o fantasma de sua irmã morta e, mais perto, uma jovem em vestido de verão, que parecia chamá-lo para a vida.  - Primeiros rascunhos.
Uma máscara, seu rosto parecia ter se transformado.
"Muito prazer. Arthur. Também tenho consultório. Podemos ser amigos".

Afonso Lima

sexta-feira, dezembro 12, 2014

OBAN 1972

Ele desistiu de dar aulas. Um aluno o ameaçou: "Ou me dá dez ou te mato na saída".
Foi visitar o pai. Virara alcoólatra depois da tortura.
 - Pai, estou querendo sair do Brasil. Contou como seus alunos não sabiam ler.
O pai olhava a piscina. Onde a mãe tentara se matar uma vez, depois de tomar muitos remédios.
Um fio elétrico no ânus. A mulher estuprada na sua frente.
O avô tirava as capas dos livros, colocava outras capas, riscava os trechos com doutrina comunista ou erotismo, escrevia ao lado "terroristas" ou "pornográfico".
O pai foi atrás do coronel para perguntar por que o filho, que não ser envolvido com nada, fora preso. "Ele está levando socos na barriga, mas isso na faculdade também acontece. Choques, mas é mais psicológico".
 - Eu acho que você deve ir.
Inverno quando o avião decolou.

Afonso Lima

terça-feira, dezembro 09, 2014

Worstward Ho./PiorporVir! - traduzindo Beckett

Worstward Ho (1983)

On. Say on. Be said on. Somehow on. Till nohow on. Said nohow on.

Say for be said. Missaid. From now say for missaid.

Say a body. Where none. No mind. Where none. That at least. A place. Where none. For the body. To be in. Move in. Out of. Back into. No. No out. No back. Only in. Stay in. On in. Still.

All of old. Nothing else ever. Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.


PiorporVir!

Vai. Dizer vai. Ser dito vai. De algum modo vai. Até sem como vai. Dito sem como vai.

Dizer para ser dito. Mal dito. Por agora dizer para ser mal dito.

Dizer um corpo. Onde não. Sem mente. Onde não. Isso ao menos. Um lugar. Onde não. Para o corpo. Para estar. Andar lá. Fora de. Para lá. Não. Não fora. Não voltar. Só lá. Ficar lá. Em lá. Quieto.

Todo o velho. Nada mais nunca. Nunca tentado. Sempre falhado. Não importa. Tentar ainda. Falhar ainda. Falhar melhor. (...)

(versão Afonso Lima)


quinta-feira, dezembro 04, 2014

2050

"Toda organização que não seja do indivíduo para o indivíduo é uma forma de servidão" - diz a epígrafe. 
O livro é dividido em três partes:
Visão de mundo.
Hábitos mentais.
Eliminando outras formas de pensamento.

No primeiro capítulo, muito técnico, em cada subtema foi escrito um comentário à mão:

memória - os melhores livros são os que dizem o que você já sabe
desejo - é a sua alma que está sob planejamento
linguagem - os fatos não têm importância.

Sabemos que os membros afiliados - milhares, quase um estado inteiro - eram refratários a quaisquer fatos ou dados que contrariassem suas convicções. Já foi observado que a substituição dos professores por robôs pelo governo da cidade-estado (a aliança com o Partido foi provada há tempo) foi um dos processos que mais colaboraram (ou foram mais eficazes) na limitação de conceitos indesejados. (“um intelecto seria preciso para uma revolta”).
Uma espécie de poema acompanha a sessão sobre linguagem:
Você sabe, eles são perigosos.
Você sabe, eles dominaram o Estado.
Você sabe, eles destruirão a liberdade.
Em “Eliminando outras formas de pensamento” temos itens como: Orgasmo contínuo, A razão é facilmente moldada, Sobre o departamento da contranotícia (“cada verdade deve ser abolida por uma outra de acordo com a doutrina”), Cidade dos Intelectuais: anulação (“É preciso destruiu a autoridade moral”).

O Posfácio dá exemplos de como o Conglomerado de Controle, com 75% do total, aliado à múltiplas plataformas e à repetição pode fabricar uma memória impermeável à desconstrução. 

O exemplo é dado em uma tabela, com aceitação por parte do público depois de um ano de veiculação reiterada - três vezes por dia em três programas diferentes.
70% - os empresários são o melhor governo.
84% - deixar o dinheiro parado é sempre melhor.
67% - perdedor, vc não tem autoridade suficiente.
50% - eu concordo que quem não paga impostos é inútil.

A miséria crescente necessita de uma polícia ativa”, diz um trecho do Posfácio. "O medo da lavagem cerebral do comunismo deve servir para derrotar o inimigo". 

O Apêndice comenta a história de um rapaz que matou com um machado 30 moradores de rua em 3 dias depois de ouvir um aplicativo com cenas de guerra no qual se repetia: A desigualdade é necessária para o progresso.

Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 01, 2014

O sepulcro

"Um profissional admirável, um pai perfeito, um cidadão exemplar" - era o que todos falavam dele. A única forma então de destruí-lo era seu único defeito: a curiosidade excessiva. 
Em um dia em que eu o recebia em minha casa de campo para um almoço, estando minha família em viagem, andando por um canto longínquo, comentei ser esse o rio que levava ao cemitério etrusco que havia na minha propriedade e que me inspirara meu primeiro romance. 

- Foi um estranho sonho que eu tive. Eu caminhava pelo campo e achava um fragmento de vaso grego. Depois, o céu escurecia e eu me escondia da tempestade no que viria a ser as ruínas de um cemitério. O sonho se transformava em pesadelo e eu temia encontrar algo que não devia. Quando acordei, corri até o local e procurei as mesmas ruínas. De fato, elas estavam lá. Penetrei temerariamente o segredo. O que eu vi a seguir me estarreceu, pensei que perderia a razão e permaneci uns dois meses na cama, sombrio e assustado. Por fim, mandei construir, nesse canto ermo da propriedade, o labirinto, que hoje encerra o túmulo. Monstros de mármore avisam do perigo. Relevos em paredes de pedra contam dos infortúnios aqueles que sofrem no Inferno. Crânios pendurados em estacas ameaçam os sobreviventes para que lembrem como é vão buscar saída. 
Dito isso, almoçamos e tratei de me recolher em meus aposentos. Os cavalos continuavam encilhados. Eu mandei o criado avisar de um mal estar e passei a tarde lendo meu inglês favorito. 
No outro dia, fizemos a busca pelo meu amigo, mas ninguém o encontrou. Caiu muita neve aquela noite. 

Afonso Lima

quinta-feira, novembro 13, 2014

Lembra?

Você sabe quem eu sou? - um homem negro, de camiseta e jeans, pergunta a um policial que está com seu parceiro.
O policial lembra de um segurança negro que estava numa agência de banco (ele, à paisana), entra uma mulher drogada, bate no braço de uma cliente que sai do caixa eletrônico, o segurança fica parado, a funcionária do banco grita com a mulher, leva um tapa na cara, o segurança parado, a funcionária grita: faz alguma coisa negro filho da puta!
Não.
Uma mulher compra milho de um ambulante negro na Paulista, ele diz: fica de olho na polícia pra mim, ela muda de posição, ele passa. Não.
Uma foto de um traficante de escravos que viu no museu - um velho sem dentes que lembra esse homem. Não.
Eu sou o que estava contigo.
O policial lembra: correndo atrás de bandido, rapaz correndo, tiro, expulso da polícia.
Agora eu sou um preto pobre como eles.

Afonso Lima

domingo, novembro 09, 2014

Bucólico

- Montes.
- Boi.
- Mas longe.
- A teia de aranha.
- Saudade? Mas o que dizem?
Escuro. Uma aranha na parede. Ruínas.
- Pequenos. Rápidos.
- Cruzando a estrada.
- Molhamos os pés.
- Saudade?
- Acabou.


Ele observa através da janela de madeira.
- Acorde.
- Eu descia até o mundo dos mortos.
Um antepassado tão longínquo.
- Maldição?
- Parente do tio.
- Doze gerações.
Eu tenho medo.
- Herói derrotado.
- Você nasceu.
Na noite caçamos. O silêncio na meia noite. Latidos marcados. Tempestade. Molhados no mato. A cidade. Saudade.

Afonso Lima

sexta-feira, novembro 07, 2014

como eu estava morrendo


Como o autor já havia morrido, ele, com já mais de cem anos, buscava levar à julgamento os descendentes daquele. "Ele roubou minha vida: toda a vez que conto para alguém um episódio de minha vida, a pessoa diz que já leu isso em outro lugar". (Escreveu: Levavam o caixão pelas ruas da pequena cidade filas de homens de chapéu e mulheres bem vestidas. Filho supérfluo de pai supérfluo, começou bem graças ao cargo fictício criado para o pai inútil, mas de salário vitalício). De fato, juiz, mudara-se para outra cidade e sofrera uma queda no meio da reforma da casa recém comprada. Vivendo em casa, com o filho adolescente, uma vida de mentiras, o viver para o meio social, reflexões sobre a existência, a solidão e as coxas magras, tudo, tudo já havia sido escrito. (Escreveu: Chamou a carruagem, lembrou-se, enquanto ia para o cemitério, de sua vida de Tribunal, jogo de cartas, chegando em casa e ouvindo que sua mulher recebera visitas, seu filho estudara com o tutor, tudo ia bem, lia um livro, lia documentos. Desceu, pagou o cocheiro, ouviu o trovão e pensou que sua primeira visita ao seu futuro túmulo ia ter água.) Mesmo minúcias como a cor verde da sala de visitas da mansão, o local da casa de campo do cunhado, a cadeira do Tribunal... O juiz ficou espantado. Mas, tendo morrido o autor, decidiu arquivar o caso. "No fim, escrevi um livro para sair de dentro do livro". (Escreveu: É com profundo pesar que a Sra. X participa a amigos e parentes a passagem do juiz seu marido, membro da Corte Suprema, de quarenta e cinco anos, que deixou a vida no dia 02 de fevereiro. O enterro será sexta-feira à tarde). 

Afonso Lima

quinta-feira, outubro 30, 2014

O milagre

Anoitece. Ele caminha pela avenida, vidro vertical e concreto. A luz da torre no escuro prédio em frente. Alguém lhe disse: meus alunos são analfabetos. Ouviu: A distribuição de renda se deu pela globalização mundial. Onde está? Ouviu: A democracia tem que ter alternância. Quando era adolescente, andava de skate, um policial bateu na sua mão, propaganda, a empresa não permite plantas e ideias novas sobre a mesa. Barulho, um animal se arrasta no chão. Inovação, design na vitrine. O doente incurável que dissolve a estabilidade. Um carro grande para sobre a faixa de pedestres, uma mulher arrasta uma criança. Dores nem do corpo nem da alma, que tem algo dos doisOnde está? O homem normal nos odeia, nos teme, raça de perdidos. Livraria, na capa, um senhor feudal manda matar os filhos, casa com a cunhada, prende o servo rebelde. Vento frio, a lua sai de trás da nuvem e se deforma no décimo-sexto andar. Na manchete do jornal: governo - crime e conivência. Um jovem diz: "Eu não tenho dinheiro para ler jornal". Uma mulher: "Se tem fumaça, tem fogo, ladrão". Fogo no ônibus, os mercados tremem. Fumaça, pessoas afetadas pela indústria. Passa pela universidade, estudou para ser sozinho. Onde está? No café, o livro: e o fantasma do rapaz preso no castelo aparece para o príncipe. Quando tenta violar a cunhada a imagem da filha aparece sem cabeça. O cavalo no campo à noite se assusta com um corpo de enforcado. O príncipe passa a viver dentro de seu quarto e enlouquece aos poucos. O veneno inato, o inferno, que nos deixem em paz, em paz. Na esquina, um violão, blues, um gringo, a crise. Compra um cigarro, economia de TV sobre a "roubalheira". Na fila: querem plebiscito, quem votará é só militante, logo vão estar enforcando pessoas na rua. Entra, frio, ambiente controlado, laboratório. Na tela, extermínio de espécies exóticas, planos políticos, toneladas de informação, um grupo pequeno de pessoas poderosas. Um homem de bigode lembra seu tio coronel, almoço de domingo: o empresário não pode ser tutelado pelo estado. Alguém falou: de que forma isso poderia ser, era sertão, escravos e senhores, indústria, torturadores e patriotas. No filme: reformar o mundo, histeria coletiva, remodelar o mundo mental de uma geração inteira. O eu louco incurável, a castração do espírito, o controleUm homem de terno parou por algum motivo no meio da calçada. Como? Pela avenida carros com pessoas silenciosas, ouve-se o discurso por toda a cidade. 

Afonso Lima

domingo, outubro 26, 2014

A voz

Eles estavam sentados em suas mesas. Um pouco acinzentados. Os olhos bem abertos. Olhavam a máquina.
- Não somos mais aquele país.
A máquina falava de uma conspiração sinistra.
- Deve haver algum engano. Eu estudei.
- Eu sei. Deve ser difícil. Seu pai, seu avô, seu bisavô.
O líder era suspeito. Algo monumental. A resposta do líder. A resposta à resposta.
- Que se deixava levar; apenas um rostinho bonito. Promessas de mudança.
O ataque aos anunciadores é algo terrível. A revolta não tem causa.
- Onde foi que nós erramos?
- Democracia.
O outro parecia transtornado, levantou, saiu pela porta sem pagar.
Eles comiam. A voz. Os olhos iam perdendo o brilho. Ele sabia o que estava acontecendo. Já tinha visto muitas guerras.
Sabia que o primeiro momento é o medo. A voz neutralizava.
- Aprendemos um pouco.
Ele comeu tranquilamente sua refeição. Sabia o que ia acontecer com eles.

Afonso Lima

quarta-feira, outubro 22, 2014

A felicidade

Uma guerra. Dentro de um condomínio fechado, um carro importado, um restaurante refinado, universidade cara: protegido, esterilizado. Por isso eu vou explodir a bomba. Não havia choque na minha vida, na vista azul das montanhas atrás de vidro grande com mulher fria na minha casa de campo. Na praia onde as crianças loiras falam com crianças com sardas ruivas ou quase loiras. Nos campos de golfe onde circulo, as pessoas estão indignadas com os bolsistas que nunca leram um livro na sala de aula dos filhos. Na balada em frente ao mar onde o rap e o funk fazem chacoalhar as jóias, onde uma mulher enfiou uma faca no peito em protesto contra o aparelhamento e a corrupção, onde meus primos médicos falam do horror de trabalhar no interior, sem shopping, onde meus amigos juízes falam de como é melhor prevenir que remediar, meus tios economistas e seus pupilos falam do horror social, de como um grau de desespero é bom agra e e polícia precisa cuidar dos efeitos do ajuste, todo mundo está puto com o número de carros invasões de propriedades e bolivianos e nós sustentando Cuba e minorias raivosas e empresários vermelhos. E miseráveis nus estendendo a mão em Higienópolis sem que um tiro um PM sem que nenhum veneno nos salve. Tive de demitir três empregadas. Só por que viviam em cortiços ratos caíam na cama em albergues não sabem ler a mãe comia comida estragada e o pai bêbado foi preso por engano não justifica fim da idade mínima cadeia já preso também é negócio. Eu tenho conhecimento jazz curso gourmet de fotografia medo ouvi piano em Madrid e responsabilidade social. Eu tenho mala gucci angústia no cartão e veyron os mais de 400 quilômetros por hora que esse carro pode atingir, medo, madrepérola, medo e uma arma no carro. 

Agora. Uma prima que ajuda a África até tem um filho adotivo e paga carteira assinada pros empregados da fazenda de Minas que seu marido nem dava salário passou pelo constrangimento de voltar de Miami com um porteiro do lado. Uma tia que ajuda o Greenpeace passou pelo vexame de ver a empregada desistir do emprego. O Lamarca e sua guerrilha voltaram. Eu já sei quem é o inimigo, então tudo o mais é irrelevante, é o bem contra o animal, agora é apontar o míssil, quebrar essas bandeiras, pegar sua espada, acabar com o mal antes que a favela invada o centro climatizado. Meu pai hoje é um homem que só mexe os olhos, mas com eles manda sinais que dizem acabem com o terrorismo. Os sindicalistas quilombolas estudantes sem-teto ou liberdade lucro felicidade. A minha mulher ficou um pouco nervosa andando com os cisnes no lago quando um menino ao lado cor de água suja, um pouco nervosa agora que estava ficando com o bumbum definido e carga mais pesada, e jogou, deixou cair nossa princesinha. O que será dela indo num show de rock e encontrando namorando quem sabe engravidando de um desclassificado, povinho bolsa esmola, gentinha filho de analfabeto, na sua mesa de jantar, no quarto da Barbie Minnie Ivy Lavigne com swarovski na parede que você pintou com amor e carinho e colou estrelinhas planetas e nomes de presidentes americanos pra ela ser inteligente? A minha mulher teve um colapso numa loja de cristais de Veneza com um casal diferenciado e teve de quebrar uns espelhos e ligou pra Itália para a mãe acalmá-la. Na Vila cheia de flores onde jogamos bilhar e fazemos convenções, os empresários acham que combater a fome foi bom, mas é pouco e as ações? Pobre adam. É um estado de exceção, a  maldição de um povo miserável, por isso precisamos de um governo de contenção, um pouco de censura, pra evitar um golpe comunista, a pobreza vigiada, porque a pobreza é crime. Trabalhamos com a produção da urgência, a tensão pela felicidade, os sistema de exclusão e condenação moral da revolta, tudo junto é progresso no fim. Eu quero o bem do meu país, sempre houve cavalos e cartolas, boa e má sorte, destino, raça, a vida tem que seguir seu curso livre natural. Nós, que civilizamos essa terra. Por isso eu vou explodir a bomba no comício. 

Afonso Lima

quarta-feira, outubro 15, 2014

O estrangeiro

- Quem é você?
- Basicamente eu sou um estrangeiro do meu país. Minha alma é anglo, eu acho que a massa é feia e não toma banho. E a culpa é da seca e da moral deles. Mas pega mal falar isso - por isso eu apenas deixo eles onde estão.
- Por que é você?
- Eu tenho entre 40 e 60 anos - mas meu filho é tão desinformado como eu - e pude estudar e prosperar porque nunca passei fome. Eu nasci sob a ditadura, então tem muita coisa que eu não sei. Eu sempre ouvi que rebeldia era ruim, fazer baderna era perigoso. Em especial, o comunismo e o socialismo, uma coisa só, gente malvada que quer dividir seu liquidificador ao meio.
- Como você?
- Eu ouço todo dia os mesmos slogans: corrupção, vandalismo, aparelhamento. Basicamente eu sou bem informado, ou seja, eu vejo muito o mesmo ponto-de-vista várias vezes por anos. Cada vez fico mais com meus familiares e amigos, gente da minha classe, porque o Brasil está perigoso, né? Não dá pra se misturar.


- E como quando não você?
- Quando alguém mostra uma contradição no Pensamento Único, eu sei o contraveneno: isso é polêmico. Eu acho que o problema é pontual, não faz parte de um pensamento maior, de um contexto. É por isso que eu transformo supostos casos de corrupção em amostras de uma conspiração comunista.
- Que medo você?
- Eu tenho medo dos estudantes, acho que a polícia deve ser mais forte. Afinal eu nunca vi corpos espalhados pelo meu bairro. Eu nunca vi as mães chorando por mortes suspeitas. Eu sempre acho que a justiça prevalece. Para quem trabalha.
- Com você?
- Isso porque sempre tem uma parte da Justiça, dos artistas, dos jornalistas que perdeu contato com a realidade como eu. Que acha que pode e deve conviver com a desigualdade, essa obra da Natureza, senão de Deus. E como são valores fortes, valores como honestidade e respeito à propriedade, eu posso ser fanático.


- Desde quando você?
- Talvez eu tenha feito Direito numa universidade onde 2/3 do currículo é Direito Comercial. Talvez eu tenha feito Medicina e não sei que a saúde é atribuição do estado. Eu sou uma PCI (Pessoa Culta Ignorando).
- Em que acredita você?
- Eu não sei o que são juros. Eu não sei o que é FMI. Eu acho que quero apoiar a produção, mas apoio a especulação. Para mim existe uma coisa: economia. E quem fala de economia? A TV. A TV é sempre baseada em dados. E com dados a gente não discute.

Afonso Lima

quarta-feira, outubro 08, 2014

O antigo

O rei estéril, doente o cosmos
pelo rádio escuto tristes novas
é como se uma guerra tivesse chegado
partimos em busca do rio
na terra de lua seca e sem primavera
melancólico choro e lembranças
não tenho, não sei ter
cruza um avião o céu e eu sem pressa
outra linhagem, muito pior
de tolos heróis, violência incontida
de ferro sereias, sem voz humana
bancos de corais em ruínas
devolve o mar veneno químico
resumo da alma
este rachar cinzento
em busca da água
arar e plantar sonha o magro velho
alquebrado em sua pedra
onde as palmeiras agonizam
os ossos dos mortos saem da terra
lamentando a estéril coroa
o ouro som surdo do peito
no caminhar pelo sonho de cascalho
a multidão em círculos no túmulo
prece silenciosa no tempo eterno
noiva impossível que dorme sonho de ninfa
na ponte metamorfose do negociante
olhando água suja olhos frios
a aranha tece, um todo falso
a tradição das casas doentias
linhagem sombria contando moedas
cidade controlada a pele dura
o coro de soldados estranho mar de gemidos
locais áridos os quais o Demônio frequenta
morcegos dormem talvez não haja amanhã
não tenho, não sei ter
o sorriso da menina de casaco azul
não, verde! com seu botão pequeno
de rosa cantando baixo
na terra de lua escura e sem primavera


Afonso Lima

terça-feira, outubro 07, 2014

Pequenos direitos

1. Direito à não saber.
2. Direito à andar à esmo.
3. Direito ao olhar leve.
4. Direito à confusão.
5. Direito à preguiça de todo dever.
6. Direito à antiga precariedade.
7. Direito ao descobrir-me vivendo.
8. Direito ao silêncio das pedras.
9. Direito à suspeita.
10. Direito à compaixão.
11. Direito à indignação.
12. Direito ao erro.

Afonso Lima

sexta-feira, setembro 19, 2014

Verde

Uma canção para o verde que é
A parte que diz que as coisas
São o que são
Invejo os que podiam matar a metafísica
Desconfio da realidade
O olhar puro sem pensar
Queremos escapar
A serpente invisível
Mais poderosa
(Sem Paulo ou conflito
Sem contradição)
Nosso querer sempre erra
Da qualidade das nuvens
Com força pelos vales
Deixando tudo que não é
Surge um fruto novo e único
Meu irmão
É preciso cometer loucuras
Talvez a saída seja
Desaprender em conjunto


Afonso Lima

quarta-feira, setembro 17, 2014

Montanha


Não posso apagar
Não sou espelho nem retrato
O poeta machucado quase morto
É soco
Não posso fugir
para as montanhas
o sonho tem que correr ruas
labirintos não podem
esquecer o ser tão frágil
meu cavalo com asas
pudesse ser verso livre
talvez fosse rarefeito
das lágrimas dos infelizes
Não posso fugir
para as montanhas
o sonho muda nos dias
e a noite é necessária
aos pássaros cansados

Afonso Lima

domingo, setembro 14, 2014

Carolina

Minha terra tem miséria
Não se olha para lá
Carolina cata lixo
Na noite de São Paulo

Carolina põe o coração
da Zambia, Guiné e Sudão
No branco colhido do chão
Carolina morre de frio

Carolina embaixo da ponte
Na fábrica de sabão
Nem Pende, Nalu ou Dogon
Na noite faz a canção

Afonso Lima

quarta-feira, setembro 10, 2014

Lua

Já foste uma deusa
coberta de poesia
pedra
coisa em si
eu não sei o que num clarão
à meia noite saindo do metrô
tantas outras brancuras de cidade
eu poderia colocar em fila
Vez
Véu
Voz
mas o que é concreto me cansa
não voa
eu apenas fico a olhar-te
e esse vazio
(make it new)
basta

Afonso Lima

terça-feira, setembro 09, 2014

Soneto em yx - jogando com Mallarmé

Um soneto tão hermético, que usa palavras já esquecidas, só mesmo com ajuda de um crítico, C. F. MacIntyre*. O poeta fala, em carta de 1887, que "não há soneto algum", e que escolheu "esse assunto, de um soneto nulo". Pensei antes em criar o prazer da rima ("criar pela magia da rima, ele diz) e o interesse advindo de um vago referente, mesmo sacrificando talvez o objetivo principal de que o sentido seja "evocado pela miragem interna das próprias palavras". A famosa "cinerária ânfora" foi substituída por uma ousada interpretação... Na primeira versão do poema, tudo fica mais claro, podendo ser apenas a morte do sol pela Tarde com a ajuda da Noite, que traz a Fênix da estrela...

 (Universidade da Califórnia, 1975 apud. Fontes, "Os anos de exílio do jovem Mallarmé, Ateliê Editorial, 2007)


Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx,

L’Angoisse, ce minuit, soutient, lampadophore,

Maint rêve vespéral brûlé par le Phénix

Que ne recueille pas de cinéraire amphore


Sur les crédences, au salon vide: nul ptyx,

Aboli bibelot d’inanité sonore,

(Car le Maître est allé puiser des pleurs au Styx

Avec ce seul objet dont le Néant s’honore.)


Mais proche la croisée au nord vacante, un or

Agonise selon peut-être le décor

Des licornes ruant du feu contre une nixe,


Elle, défunte nue en le miroir, encor

Que, dans l’oubli fermé par le cadre, se fixe

De scintillations sitôt le septuor.

(1887)



De unhas puras no alto dedicando ônix
A Angústia, essa meia-noite, sustém luz-esfera
Muito sonho vesperal queimado pela Fênix
Não recolhe as cinzas do poema que não era

Dobra alguma, na sala vazia, nenhuma ptyx
Abolido bibelô que o som edifica
(pois o Mestre foi sorver lágrimas no rio Styx)
Com este único objeto com que o nada se glorifica

Mas junto ao vidro aberto ao norte
Agoniza um ouro no adorno com a Vitória            
De unicórnios a coiceando, pobre nixe

Ela, embora defunta nuvem no espelho se olha      
Que no esquecimento fechado da moldura se fixe
De cintilações no mesmo instante sete vozes

Afonso Lima

Exílio

A infância perdida
onde tudo era belo
as manhãs eram amigas
o mar era calmo e quente

A infância roubada
onde nada era nada
um criar incessante
sorriso de toda gente

Minha infância me protege
Na negra tempestade
com suas cantigas amadas
E o rio que era apenas um rio

Thadeus K.

(Ajr)

sábado, setembro 06, 2014

Fuga

A menina perdida
no mundo dos robôs
O príncipe triste na beira do lago
Querendo voltar a ser sapo
Cuidado que essa coisa de sobreviver
Pode acabar com sua vida
Um rei sem fuga
negando parte do real
barulho o silêncio
quadrados jukebox
siga as pedrinhas amarelas
alucinações impulsivas
A menina perdida
no mundo dos robôs
modo luxo
no seu lugar sem inovar
meu sapato seu salário
paguei mais caro
O CEO sabe
o mundo é de quem sobe
a pobreza é genética
Os herdeiros herdarão a terra
A menina perdida
tocando seu tambor
o mercado
já sabe
a mala tem brasão
a marca, autoridade
de definir o jet-set
Um mundo para os produtos
os patos buscam um lago
menina, você pode ser o que já foi
O corpo interior demora
Menina não chora
Sapo não pula
O sapo nostalgeia
Morta-viva camarote
Recua.

Afonso Lima

sexta-feira, setembro 05, 2014

Bicicleta

Aqui tudo tem suficiente clareza e a deliciosa obscuridade da harmonia. No julgamento, o homem parecia não estar entendendo. O epitáfio era um belo poema. Usava um colar de pérolas, vestido cinza, apesar do dia ensolarado, os pássaros não cantavam, devia ter colocado o verde, tinha sonhado com seu marido, que fora confinado em Treblinka, perdera toda a família. Quando menino, sentava em seu colo, ela contava histórias, aprendeu algum piano da vizinha. O filho era casado com uma libanesa, um livro das Mil e Uma Noites. Crescido, sempre perguntava sobre a grande perseguição, a mãe ficava nervosa, só o que faltava, filho, ela contava sempre. Eles quebravam vidraças, em uma cidade na fronteira, mataram meninos quebravam-lhes o crânio com suas armas e, transpassando-os com um pau, os pregavam nos muros. Dona Sara sempre dizia, Se alguém te tratar mal, responda, não podemos aceitar o mal. Faculdade, voltava pra casa, bicicleta, foi escurecendo, parado, o homem, Tem passagem, Não, Vou verificar, se tiver passagem te dou uma surra, E se eu não tiver, posso dar uma surra no senhor? Ela lembrava de um Ano Novo que passaram na praia.

Afonso Lima

Pessoas

A voz que vos fala
na madrugada
tempestade harpa no jardim
ninfas e fadas
                      gemendo ao céu
emoção fatal sábio segredo
o trem, a ânfora
farrapos de verdade
no espelho não
      (heteromim?)
grito impessoal
da montanha
bagunçando o hábito
é que tudo é tanto
variação tamanha
da cidade a rima
é a voz de um rosto
outro
raiz
personagem autoral
sim

Afonso Lima

quinta-feira, setembro 04, 2014

"Vere Novo" - Mallarmé, Le Parnasse contemporain/1866


Le printemps maladif a chassé tristement
L’hiver, saison de l’art serein, l’hiver lucide,
Et dans mon être à qui le sang morne préside
L’impuissance s’étire en un long bâillement.

Des crépuscules blancs tiédissent sous mon crâne
Qu’un cercle de fer serre ainsi qu’un vieux tombeau,
Et, triste, j’erre après un Rêve vague et beau,
Par les champs où la séve immense se pavane.

Puis je tombe, énervé de parfums d’arbres, las,
Et creusant de ma face une fosse à mon Rêve,
Mordant la terre chaude où poussent les lilas,

J’attends en m’abîmant que mon ennui s’élève…
— Cependant l’Azur rit sur la haie en éveil,
Où les oiseaux en fleur gazouillent au soleil.

A primavera doente expulsa com pesar
O inverno, da arte serena, lúcido consolo
E, no meu ser, a que preside o sangue morno
A impotência se estira num longo bocejar

Crepúsculos brancos afrouxam minha testa
Que aperta, como velho túmulo, o círculo de ferro
e, triste, erro atrás de um sonho vago e belo
Nos campos, a seiva imensa em festa

Depois tombo, tremo de perfumes de árvore e suspiro
Cavando uma fossa para meu sonho, sem remédio
Mordendo a terra quente onde nasce o lírio

Aguardo, estragando-me que se erga meu tédio
- entretanto o Azul ri sobre os ramos, o alerta
De tanto pássaro em flor na luz desperta

versão Afonso Lima




urgência

O botão do fast-forward certamente quebrara. Os personagens não podiam mais ser acelerados. Uma senhora de certa idade parava na janela e nada acontecia por mais de um minuto. Mãe e filha faziam chá e o deixavam esfriar em silêncio. Um pai apenas empurrava o balanço de um pequeno de cabelos vermelhos. Já não iniciavam nada com tensão nos primeiros dez minutos. Choravam sem solução de um impulso desconhecido. Até liam poemas um pouco enigmáticos no jardim. Assim, teriam de ser cortados. Um menino colocou sua caixa sobre a mesa e correu para atirar-se no rio.

Afonso Lima

quarta-feira, setembro 03, 2014

"M'introduire dans ton histoire" - traduzindo Mallarmé

M'introduire dans ton histoire
C'est en héros  effarouché
S'il a du talon nu touché
Quelque gazon de territoire

A des glaciers attentatoire
Je ne sais le naïf péché
Que tu n'auras pas empêché
De rire très haut sa victoire

Dis si je ne suis pas joyeux
Tonnerre et rubis aux  moyeux 
De voir en l'air que ce feu troue

Avec des royaumes épars
Comme mourir pourpre la roue
Du seul vespéral de mes chars


M´introduzir na tua vida
Um heroi que se assustou
Se com calcanhar nu tocou
Relva de terra esquecida

Em luta contra a muralha
Pecado ingênuo não é sabido
Que tu não terás impedido
De rir de sua alta vitória

Dize se não sou feliz, perfeito
Trovões e rubis no eixo
E ver como esse fogo arde

Com reinos dispersos vários
e a roda púrpura se parte
No entardecer de meus carros

Afonso Lima

Fato

Ainda que não o escuro mar se abris
se a pata não passeasse em nice
sorvete no cimento ro
mano já haveria manhã no poema
é a língua que emana florença
E viena só é viena
pelas camadas de terna
poesia

Afonso Lima

segunda-feira, setembro 01, 2014

Os pastores

Virgílio também molhava os pés na praia
Oferendas para o mar ele fazia
A Natureza bela e antiga
é a mãe de seus pastores

Que eu nunca tenha um coração arrogante
Que eu cante junto com os demais
Que a Natureza sempre seja mais
Meu corpo não seja escravo do pensamento

Afonso Lima

domingo, agosto 31, 2014

Pai

carola pai e filho no campinho correta

moderna





a festa
desaparecido o carro



pai e filho comemoram a lista  financiamento
direito

PIB
suspeito o fio



pai no cemitério o silêncio
a bola

operação
a indústria escolhe uma pedra flores comércio mundial
intriga a nação



a queda



Afonso Lima

Do ócio

Haverá por certo um começo
possível um escutar para o coração
combate de fogo e rumo incerto
crescer na tradição e ousar no verso

Na minha aldeia não há tempo
poesia luar e relva pouca
cansado novo, estrelas sabidas
linha ilegível
o pão de cada dia
não sei como sinto

Afonso Lima

sábado, agosto 30, 2014

Cinzas

Caro Pe. Lobato:
A senhorita M., que acaba de falecer em nossa casa aos 45 anos, de modo terrível, era parte da família. Ela foi abusada por seu padrasto e viveu quase um ano na rua, até que um primo a descobriu e a enviou para uma casa de caridade católica, onde foi treinada para ser empregada. Infelizmente, com 13 anos, sem que seus parentes soubessem, foi entregue a uma família e viveu dez anos sem poder sair de sua propriedade, sem contato com nenhum conhecido. Sua irmã depois de casada, contou o caso para o marido, que iniciou uma longa busca e finalmente ela foi resgatada pela segunda vez. Veio trabalhar conosco quando eu era criança e permaneceu comigo quando minha mãe faleceu e eu mesma tive filhos; nunca se casou. Seu ato contra si mesma pode ter sido causado por uma secreta depressão, minha filha tinha dito achar que ela estava mais silenciosa e ensimesmada recentemente. Nos alivia o coração pensar que sempre a tratamos bem e que ela teve mais sorte do que a maioria das crianças desprivilegiadas, contando com todo o conforto e respeito que uma família pode dar. Sem mais, Elizabete.

Afonso Lima

sexta-feira, agosto 29, 2014

adolescência

Um no outro encontramos o sol
deitados no barco, pelo verde
nosso corpo acredita e compreendemos
a inutilidade fundamental

Para sempre do perfeito
a memória será desses dias
surpresos de que no mundo
tudo pode ser refeito

Vogais e as consoantes que virão
apagar não podem a verdade
lábios sabem o segredo
o fluxo vai nos transformar

Então o puro silêncio mais profundo
do mar nunca achado será vivido
eterna brilha a frágil glória
no fundo de nossa alma

Afonso Lima

Caeiro


Antes eu fosse a pedra do rio que nunca
Que folhas soltas olham com desprezo...

Quem me der eu fosse a calma ovelha
Comendo alface na solidão terrena...

Quem dera eu fosse o negro inseto
Que entre água e céu coça sua antena...

Eu sou o ser que nunca dorme
E que rumina e molha sua pena...

Afonso Lima

Traduzindo Antonio Cícero

Segundo a tradição*

O grande bem não nos é nunca dado
e foste já furtado do segundo:
O resto é afogar-se com o amado
na líquida volúpia de um segundo.

Antonio Cícero

The greatest good never in the pocket
Already far from the second
So, to drown with the loved
In the liquid lust of a second

versão Afonso Lima


Voz*

Orelha, ouvido, labirinto:
perdida em mim a voz de outro ecoa.
Minto:
perversamente, sou-a.

Antonio Cícero

Ear, labyrinth, the eye
Lost in echoes, a voice I see
I lie
Perversely, that's me

versão Afonso Lima

Caixa

Dentro do osso, labirinto
parte solta: a conversa
dispersa o corpo
De mim eu minto
a outra
voz ecoa

Afonso Lima

*Outras praias, Iluminuras, 1998.

quarta-feira, agosto 27, 2014

comédia

Estudos de Costumes
Vida Privada  - Pq vc naum transa comigo? Naum gostou do meu k*? A lorena gosta kkk Naum vem com essa. Já era chata. Oi sou o pedro, vamos teclar?
Vida Rural - A colheira sofreu, o teto caiu. Ele faliu. O governo mudou, novo motor, filha letrada, chove na estrada.
Vida Política - Árvore já era. A Nova Era. Dois um casal lado a lado baleado. Se me apagam verão dizia o condenado. Associado. A polícia olha o sol se por.
Vida Militar -  Moço pedindo favor a imprensa tá aqui precisa de ofício impresso nada de no celular o funcionário tem ordem. Entra, senta, quer chá? PM.
Vida na Província - Ele caminha subindo a ladeira em direção à Matriz. Não é ninguém com um nome, um pouco sem rumo, mas ele vê um raio de sol na torre. A lua.
Vida na Metrópole - Um cavalo corre em meio aos carros rush do fim da tarde. Motoqueiros cowboys, polícia, socorro. O cavalo some.
Estudos Filosóficos - Filósofo na nuvem, observa a multidão, nem empresa nem governo te olham, meu irmão. Na rua na noite descobre a verdade: a teoria basta.
Estudos Analíticos - Dois viajantes estranhos na casa do militar. Vieram para o estudo de teologia milenar. Os anjos vivem em meio aos homens, diz o orador.

Afonso Lima

domingo, agosto 24, 2014

O jovem Schopenhauer

Notas -
1 - Ele preferia escalar montanhas na alvorada, para ver o sol nascer e chegar até as aldeias do vale. Ali, com certeza, seu medo com relação ao futuro sombrio que o aguardava - negação total de si mesmo ou a negação do mundo - se abrandava, e podia esquecer a figura opressora e protetora do pai.

2 - Sua mãe, Johanna Schopenhauer vai apontar sempre seu modo de "criticar a tudo e a todos sem perdão". Ele, por sua vez, mais tarde, vai praticamente acusá-la de levar o pai, muito mais velho do que ela e doente, ao suicídio.

3 - As três montanhas que escalou foram: O Cume do Chapeu, em Chamonix; o Monte Pilatus, na Suíça; o Pico da Neve, em Riesengebirge.

4 - Ele primeiro se imagina, depois de  matriculado na universidade de Göttingen, dedicando-se às ciências físicas e biológicas, ao "concreto" - os médicos, nessa época, eram também continuadores de Kant e já era um passo além do cálculo pelo lucro e do conforto material como fim do mundo paterno. Para o amigo de sua mãe, o filósofo Wieland, que o advertira sobre o esforço e a solidão quando decidiu finalmente dedicar-se à filosofia, ele respondeu: "A vida é precária, vou refletir sobre ela".

5 - Ele usará esse exemplo mais tarde comparando o imperativo categórico de Kant com a estabilização autoregulada da sociedade burguesa de Adam Smith, ambas utopias.

6 - Essa triste descrição do diário de viagem também reflete sua própria situação em direção à uma vida não desejada. Em Toulon, as pesadas correntes dos condenados, presos dois a dois, que caminham pelo arsenal; os condenados que jamais levantam do seu assento nas galeras que apenas circulam pelo porto - tudo isso despertou nele um horror tremendo, ainda mais quando soube que há seis mil desses infelizes que aguardam a libertação pela morte.

7 - Quando seu pai lhe colocou a escolha incontornável - a viagem ao redor do mundo e depois um aprendizado de comerciante numa firma de negócios ou a matrícula num curso de humanidades para seguir a carreira filosófica que desejava - pode ter despertado no adolescente um desejo de vingança, que se transformaria em culpa, ele continuando a viver como o pai imaginara até anos depois de sua morte.


Afonso Lima

sábado, agosto 23, 2014

A batalha de San Romano

Dizem que Picasso, ao ver, no Salão de 1907, o quadro "As Banhistas" de Cézanne, exclamou: "Aqui acaba a natureza e começa a arte!" Ele havia trabalhado até poucas semanas antes de sua morte na tela. Paul decidiu pintar de uma forma que mostrasse sua própria percepção porque achava que Manet já tinha dado o passo decisivo, nem guerreiros gregos, nem mercados turcos imaginários, não havia nada para contar. O jardim da burguesia, com moças elegantes, poetas e pintores sob as árvores, sua pincelada fria, deformante, foi duramente criticada em 1863. Manet foi grosseiro com o traço porque não gostava das damas rígidas e ricas, da minúcia de joias, o veludo e as flores nos panos dobrados de Ingres, com poses copiadas de Rafael e Herculano, soterrada há tempo. Ingres pintava para agradar os banqueiros, mas também porque achava que era preciso voltar às coisas em si, ao concreto do fato, numa época de ciência. Ele amava os espelhos e a fotografia e, acima de tudo, a Itália. Dizia que Tintoretto já usara metade de todo o vermelho e azul do mundo para deuses e estrelas, túnicas ao vento, seios e coxas, cupidos e pavões, suas narrativas fluídas, verdade da mentira, penduradas nos quartos de imperadores. Tintoretto - que disputava com Veronese o título de maior pintor europeu e as encomendas das cortes principescas depois da morte de Ticiano, em 1576 - não gostava nem um pouco das narrativas sólidas demais de Paolo Uccello, como a batalha que representara em 1438, onde cada coisa encontra seu lugar sob a luz, nada flui, tudo permanece onde Deus o colocou no Sétimo Dia: lanças fantásticas, cavalos de mármore, tecidos cor de sangue, metais pintados à ouro e prata. Picasso adorava o painel com a batalha entre florentinos e sienenses porque é imagem de uma ideia, cada coisa conservava sua individualidade e brutalidade, nada de harmonia cósmica, porque em nada parecia com a natureza.

Afonso Lima

segunda-feira, agosto 11, 2014

Metzengerstein 2

"Era evidente que o cavaleiro não conseguia mais dominar a carreira do animal. A angústia de sua fisionomia, os movimentos convulsivos, mostravam o esforço sobre-humano no que fazia; mas som algum, a não ser um grito isolado, escapava de seus lábios lacerados, que ele mordia cada vez mais, no paroxismo do terror.

O acontecimento da entrada de posse de uma fortuna tão incomparável por um proprietário tão jovem poucas conjeturas trouxera à tona referente ao curso provável de sua conduta. No espaço de três dias, a conduta do herdeiro sobrepujara a do próprio Herodes. Ultrapassou, de longe, as expectativas de seus admiradores mais entusiastas.

Orgias vergonhosas, flagrantes perfídias, atrocidades inauditas deram logo a compreender a seus apavorados vassalos que nenhum escrúpulo de consciência da parte dele lhe poderia de ora em diante garantir a segurança. Eram implacáveis as garras daquele mesquinho Calígula. Palavras de fogo, suntuosos ambientes, a arte como beleza obscena tudo fervia na sua mente escura e tempestuosa. Na noite do quarto dia, pegaram fogo as estribarias do castelo de Berlifitzing. A opinião unânime da vizinhança acrescentou mais este crime à já horrenda lista dos delitos e atrocidades do barão.

As pessoas caridosas, no entanto, haviam atribuído a alteração de procedimento do jovem fidalgo à tristeza natural de um filho que abandona para sempre seus pais. Alguns havia, de fato, que a atribuíam a uma ideia demasiado exagerada de sua própria importância e dignidade. Outros ainda (entre os quais pode ser mencionado o médico da família) não hesitavam em falar numa melancolia mórbida e num mal hereditário. Tenebrosas insinuações de natureza mais equivocas corriam entre o povo.

Na verdade, o apego depravado do barão à sua montaria recentemente adquirida – apego que seguia o aumentar das inclinações ferozes e demoníacas do animal – tornara-se, por fim, aos olhos de todos os homens de bom-senso, um fervor nojento e contra a natureza. No esplendor do meio-dia, a horas mortas da noite, doente ou com saúde, na calma ou na tempestade, o jovem Metzengerstein havia se fundido com o cavalo colossal, cujas ousadias intratáveis tão bem se adequavam ao próprio espírito do dono.

Havia, além disso, circunstâncias que, ligadas aos recentes acontecimentos, davam um caráter sobrenatural e monstruoso à mania do cavaleiro e às capacidades do corcel. O espaço que ele transpunha em um simples salto fora cuidadosamente medido. Verificou-se que excedia, por uma diferença espantosa, as mais ousadas expectativas das mais imaginosas criaturas.

Num instante, o tropel dos cascos ressoou forte e áspero acima do bramido das labaredas e dos assobios do vento, um instante ainda e, transpondo dum só salto o portão e o fosso, o corcel lançou-se pelas escadarias oscilantes do palácio e, como o cavaleiro, desapareceu no turbilhão caótico do fogo".

Afonso Lima

Plágio

Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
-  Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor. Meia hora.
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinou-se para tomar impulso, como um lançador de dardo. Se engolfava impiedosamente no sangue.

Afonso Lima

quinta-feira, agosto 07, 2014

“Murphy” e o conceito de ironia no primeiro Beckett

O Beckett de “Murphy” (1938) é um crítico do século XIX, um modernista semelhante à Joyce que torce os eixos da prosa, mas ainda não os tritura. Para que o autor fosse visto apenas como um “Beckett inciante”, seria preciso um olhar teleológico, assim como a ideia de que o modernismo é uma única linha em direção ao império da forma; importa saber quais questões guiam cada momento, os recursos usados, os achados que tornam o material rico e potente.
Murphy é um “solipcista exausto”, que pretende “o mínimo para sobreviver”, que vive de “pequenas somas de caridade” e deseja apenas “o sonho franco da criança, do espermário ao crematório”.
O que o texto nos apresenta não é um enredo, apesar dos movimentos de um “agregado complexo reunido sob a unidade de um nome” como quer Anne Ubersfeld (p. 73), também não é um caráter ao qual possamos nos apegar, com o qual possamos nos preocupar dentro do manter da crença, na consciência do artifício, com o destino do ficcional personagem.
Antes, são contínuos jogos de linguagem, paródias e inusitadas apresentações de personagens e situações, que causam contínua surpresa e atenção. 

Que recursos são usados se não a identificação com o personagem, a causalidade e o suspense oriundo da coerência?
Um dos mais interessantes é o uso de imagens atratoras, carregadas de simbologia, figuras que se destacam do fundo opaco distanciado de experimentalismo – tão bem expressos na descrição em tabela da personagem Célia e na irônica referência da relação entre silogismos na escolástica – BAR/BA/RA (“como Marphy tinha tantas vezes demonstrado a ela em Barbara, Baccardi e Baroko”).

Como imagens atratoras funcionam o tetraktys pitagórico, o livro "A cidade do Sol", de Tommaso Campanella e as referências astrológicas. O que sustenta a ironia fria é um calor buscado nos clássicos e na antiguidade. De certa forma, o passado é usado pela sua ressonância emocional, enquanto o contexto mágico-religioso que o constituía é dado como morto.
As qualidades que surgem são o ritmo, o contraponto, a síntese-surpresa (“- Não consigo entender o que as mulheres veem em Murphy... - É a sua... - Sua qualidade cirúrgica – disse Wylie”). Esses recursos incluem o jogo entre presente de uma narração e presente do ouvinte-personagem, criando choques de percepção – como no trecho em que Célia, a amada, descreve seu primeiro encontro com o enamorado Murphy ao amigo Sr. Kelly: “Célia acostou-se a ele da melhor forma – Menina infeliz! - disse o senhor Kelly – de modo que dali saíram caminhando...”

Aqui começa a transformação do sujeito autônomo em camadas de pontos de vista, personagens-valise nos quais o centro está em toda a parte e não há circunferência.
Vejamos como Balzac apresenta a Sra. Grandet no seu livro de 1833: “Uma docura angélica, uma resignação de inseto judiado pelas crianças, uma piedade rara, um inalterável equilíbrio de gênio, um bom coração, faziam-na universalmente lastimada e respeitada”.
Na peça “Casa”, de Richard Maxwell, de 1998, o personagem “Mãe” diz, depois da metade do texto, quando ainda quase nada sabemos sobre os personagens:

MÃE – Meu Deus. Meu Deus. Meu marido está morto. O que vai acontecer com a casa? E com a pensão dele? Eu sei que ele tinha uma pensão, acho que nós temos direito a ela. Tenho que olhar os documentos. Eu sei que deixei em algum lugar, preciso procurar. Isto é bom, porque nós vamos precisar, e você ainda é menor. Trabalhar para o governo traz algumas vantagens. Apesar do fato de que você precisar se representar. Você tem que dizer a eles quem você é. Eu acho que posso dizer a eles quem eu sou. Você precisa dizer a eles. Quem você é. Senão você não tem existe. Eu acho.

Dificilmente, aqui vamos encontrar os temas do conflito, da ação e da causalidade que dão estrutura ao drama tradicional. Nesta mímese bizarra, se mantém um traço de realismo na indicação de “personagens” (Mãe, Filho, Pai, Mike) e no simulacro de ambiente (“PAI – Gosto de onde vivemos. A casa.”)
É o estranhamento de um universo aparentemente familiar que cria o suspense. O interesse da peça se dá mais pelo relevo da linguagem, seu absurdo, e pelo fato mesmo de que seus diálogos são opacos a qualquer caracterização holística, revelando antes traços de neuroses e manias. (Também aqui há intertextualidade com um clássico, Hamlet). Algo desse modo de uso do texto está em Murphy, no qual não é ainda absoluta a descrença na capacidade expressiva da palavra (os “meios” para os “fins”). 

Supomos que a tensão clássica do romance se dá pelo mecanismo da emoção correndo pela lógica da unidade – na psicologia, na consequência, na relação entre narrador e leitor. Grosso modo, o suspense se dá pela fórmula - “o que vai ocorrer ao personagem?” ou, mais modernamente, “o que mais saberei sobre essa personagem?” Propusemos que, em “Murphy”, o interesse ou a tensão se dá pela curiosidade sobre a linguagem, seu modo de operação, os recursos usados para operar esse personagem, marionete e autor singular do próprio absurdo. ("Cedo ou tarde, todas as marionetes deste livro choramingam, menos Murphy, que não é uma marionete").

De certa forma o que se está mostrando é mais o processo (os “bastidores”), a exposição da teatralidade, e, portanto, o fenômeno do pensar. Isso nos lembra as operações de Piscator e Brecht. ("A passagem acima foi cuidadosamente calculada para perverter o leitor cultivado").

Erwin Piscator (1893 – 1966) foi um diretor que influenciou profundamente a dramaturgia por meio de suas encenações e por tratar as causas sociais como tema. Afirma, no seu texto Teatro político, de 1918, realizar “o seu labor a serviço da luta do proletariado”. Ele pesquisa os “efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem”. (idem; grifo meu) Não busca mais uma dramaturgia do “eu - representação dos conflitos entre indivíduos e ambiente e indivíduo - mas mostrar diretamente as engrenagens e estruturas (a lógica subjacente) de problemas novos em todas as esferas: na vida social, na justiça, nos conhecimentos científicos e filosóficos...

Brecht, nos seus “experimentos sociológicos”, propunha uma espécie de análise científica do objeto personagem, observando os modos de operação, “uma superposição entre o que se chamava caráter 'culinário' do teatro e a crítica desse mesmo caráter. (Pasta, p. 92)
Ao sujeito descentrado, corresponde uma estrutura estranha, ela mesma, pelo menos montagem:
Contra a “peça bem feita”, último avatar do “belo animal“ aristotélico, o devir rapsódico do teatro contemporâneo coloca em questão a própria ideia de composição: transformada em montagem de arquivos de documentário em Weiss, justaposição de fragmentos narrativos e dramáticos em A missão de Müller, a escrita teatral obedece a uma lógica de decomposição. (Sarrazac , p. 42).

Podemos imaginar que o tipo ideal do século XIX era o indivíduo empreendedor, imaginário alimentado pela economia de Malthus – poucos recursos para muitos indivíduos, de modo que a vida seria uma forma de competição. No caso do teatro, ainda o “belo animal” aristotélico obedece a um encadeamento lógico, “tornada unidade de ação na época clássica” (p.42)

Nietzsche vai atacar o darwinismo justamente por ver nele um produto da moral cristã, e propor a natureza como abundância e absurdo desperdício, e a ideia de evolução e teleologia como sintomas. Em seu lugar, ele vê o contínuo declínio das formas de vida, o “orgânico como degeneração”. (Barrenechea, p. 61-64)
O ideal do sujeito estável, confiante nas leis da ciência moderna e na religião, que dão unidade de percepção e parâmetros para a ação, o sujeito que vive a culpa e o conflito e alimenta a autoreflexão, bucando seu lugar na sociedade, começa a declinar.
Como afirma Italo Calvino: “A realidade do mundo se apresenta a nossos olhos múltipla, espinhosa, com estratos densamente sobrepostos”. (Calvino, 2007, p. 210) Nessa situação, tanto a unidade de percepção, quanto os parâmetros para a ação não são claros, e uma posição solipsista pode ser um sintoma, uma reação lógica, uma criação (a “autodestruição” criadora de Nietzsche).

Impossível não lembrar dos exemplos de Barteleby, de Heman Melville, que, em meio ao trabalho que “urgia”, toma distância, transforma o outro em “estátuas de sal” pelo estranhamento - “prevalecia com ele alguma suprema consideração que o obrigava a responder como fazia”. Allan Poe, no seu conto “A carta roubada”, mostra uma polícia “perseverante, engenhosa, astuta, e perfeitamente versada nos conhecimentos do seu ofício” que, no entanto, não consegue avaliar o raciocínio do “oponente”. O fazer não é o bastante; o como e o por que surgem novamente, a ciência não pode ser o único modelo da sociedade: “Os axiomas da matemática não são axiomas de verdade geral. O que é uma verdade de relação, de forma e quantidade, é muitas vezes enormemente falso com respeito à moral”.
Da mesma forma a clínica do olhar de Charcot, esse “fotógrafo da histeria” como o chama Saurí, em Salpetrière, será desafiada pelo recuo ao ouvir de Freud. Charcot afirmava que não se ligava às teorias preconcebidas, e sim “àquilo que surge da experiência, como se pudesse existir um olhar neutro e objetivo, e como se a sua fosse uma mirada ingênua”. (Alonso e Fucks, p. 34) Com Freud a histérica deixa de fornecer “quadros vivos” e obedecer à leis da ação e reação, da exposição num mecanismo habitual (movimentos epileptiformes, alucinações, etc) e passa a ser analista de si mesma, a elaborar situações de grande carga afetiva, nas quais a descarga era impossível de acordo com os códigos vigentes.

Agora interessa no personagem seu modo particular, sua filosofia de vida, sua avaliação do mundo (espelhado no fato de Neary, amigo e rival de Murphy, ser um “pitagórico”, que estuda a “harmonia” ou o “acorde”). Ele prega a não ação (é impossível “deduzir o que você é a partir do que você faz”), ele nem imagina “lutar”, ele prefere “não mudar”. Interessa interrogar o “real” (até mesmo através do olhar periscópico joyciano, que adota as mais variadas formas) e saber que densidades pode criar a arte para questionar os hábitos de percepção.
Em “Murphy”, não há a unidade da identificação, o narrador-personagem que leva o leitor-personagem a pensar como o personagem, mas há o narrador, o vazio e o objeto. Talvez esse seja o conceito de ironia no primeiro Beckett. “Pois o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência” - diria Nietzsche no “Nascimento da tragédia”.

Afonso Lima


Alonso, Silvia e Fucks, Pablo. Histeria. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
Barrenechea, Miguel [et. al.] Nietzsche e as ciências. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.
Beckett, Samuel. Murphy. Tradução, texto e notas: Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
Pasta, José Antônio. Trabalho de Brecht: breve introdução ao estudo de uma classicidade contemporânea. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2010.
Sarrazac, Jean-Pierre (org) Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Ubersfeld, Anne. Para ler o teatro. São Paulo: Perspectiva, 2010.