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segunda-feira, dezembro 01, 2014

O sepulcro

"Um profissional admirável, um pai perfeito, um cidadão exemplar" - era o que todos falavam dele. A única forma então de destruí-lo era seu único defeito: a curiosidade excessiva. 
Em um dia em que eu o recebia em minha casa de campo para um almoço, estando minha família em viagem, andando por um canto longínquo, comentei ser esse o rio que levava ao cemitério etrusco que havia na minha propriedade e que me inspirara meu primeiro romance. 

- Foi um estranho sonho que eu tive. Eu caminhava pelo campo e achava um fragmento de vaso grego. Depois, o céu escurecia e eu me escondia da tempestade no que viria a ser as ruínas de um cemitério. O sonho se transformava em pesadelo e eu temia encontrar algo que não devia. Quando acordei, corri até o local e procurei as mesmas ruínas. De fato, elas estavam lá. Penetrei temerariamente o segredo. O que eu vi a seguir me estarreceu, pensei que perderia a razão e permaneci uns dois meses na cama, sombrio e assustado. Por fim, mandei construir, nesse canto ermo da propriedade, o labirinto, que hoje encerra o túmulo. Monstros de mármore avisam do perigo. Relevos em paredes de pedra contam dos infortúnios aqueles que sofrem no Inferno. Crânios pendurados em estacas ameaçam os sobreviventes para que lembrem como é vão buscar saída. 
Dito isso, almoçamos e tratei de me recolher em meus aposentos. Os cavalos continuavam encilhados. Eu mandei o criado avisar de um mal estar e passei a tarde lendo meu inglês favorito. 
No outro dia, fizemos a busca pelo meu amigo, mas ninguém o encontrou. Caiu muita neve aquela noite. 

Afonso Lima

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