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terça-feira, dezembro 31, 2013

Um animal

Um conto inacabado de Tchékhov.  Ele estava impressionado com o fim trágico de Guy de Maupassant. Ele havia lido no Malleus maleficarum sobre um padre com estranhos movimentos, que seriam possessão demoníaca. Tivera sífilis hereditária. “O senhor Maupassant transformou-se num animal”. Além do sistema nervoso central, pode ter se interessado em corrigir o sentimental conto “Relíquia viva” de Turguêniev de 1852: “A cabeça completamente murcha... como ossos finos, os dedos...” Seu primeiro contato com ele fora através de uma rica judia que pediu ajuda para a tradução das obras completas. Sua beleza de olhos negros, seu vestido de seda vermelha, uma garrafa de 1883 e uma noite estrelada me prenderam ao autor. Nunca acabamos sequer um livro e achamos melhor acabar com os salões literários. Ele leu sobre a vida do autor em Édouard de Maynial. Provavelmente, nessa época, fez as muitas anotações, que aparecem misturadas aos manuscritos de rascunhos do conto. Noites no mar, observando o céu nu, na infância. A mãe, prima de Flaubert. As tardes ensolaradas nas ilhas do Sena. A triste visão do jardim atrás da porta do escritório, durante o dia. As pesquisas do século passado mostravam que a sífilis era fruto de uma alma fraca, o que se provava mostrando a sua incidência entre os negros. As prostitutas acabavam com as famílias pelo amor e pela doença. A faca, a garganta, o hospício. O viajante. Como a Rússia. Os servos são libertados, o csar assassinado. Revolução no horizonte. Eu combato a cólera, eu ergo escolas nas aldeias. Turbulências. Argélia, Itália, Inglaterra. Exercícios, prostitutas, álcool, sexo, luxo. Terror, paranoia, inconsciência. “Sua vida de trabalho mataria dez homens normais”. A guerra. Febre. “Sei que alguém me observa, se aproxima”. Avós servos, médico disciplinado. O olhar científico observa? A sociedade das barreiras ruía. A última frase do conto, inacabado, diz: “Engatinhava quando parti do manicômio. Como acabou sua história, não sei dizer”.  

Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Solstício

Eu não sei por que as pessoas comem nozes, pai, saca? Seco, nunca ninguém acha o negocinho, Quebranozes, filho, É, sempre quebra no martelo, e essa coisa de fios de ovos no leitão e misturar doce com salgado! Adivinha o sorvete que a mãe comprou, Pitanga?, Claro, Ele gostava de ouvir o filho falar, daqui a pouco iam abrir os presentes, a mulher já disse que ele ia ganhar um DVD do Gordo e o Magro, já tinham estourado a champanhe, A tia Elza com aquele vestido azul de bolinha, de novo, acredita! O tio Marcelo já tá meio mamado, canta Dingoubel acabou o papel, a tia Malvina começou com os tiques que tem no olho de vergonha, os metralha do Luiz cada vez mais gordo, a gente escondeu a Melinha que eles querem jogar bombinha no rabo dela, pai, o Panetone é aquele que o senhor gosta, eu tenho nojo, Cristalizado, É, bom plantão pro senhor, ouve aí as músicas dos Beatles que eu salvei no seu celular. Os fogos estouravam e ele pensou que o filho teria um belo futuro. 

Era do Ferro

Depois das guerras religiosas, a classe média entregou aos duques seu poder e passou a viver um liberalismo ilustrado, duas cidades divididas por uma ponte. Uma, erguia a Natureza como Deus e queria apagar as crenças injustificadas; outra, a ortodoxia, achava que o corpo era pecaminoso e pregava o espiritualismo; uma terceira cultuava o Zero e o sublime K. Debates sobre qual delas tinha a verdade seguiram por anos na Universidade Central e o Acordo era que Desenvolvimento e Instinto seriam democratizados. Dominava, nos meios eruditos, a Engenharia, a Gramática, a Linguística, a Numismática e a Cronologia. Os leigos consumiam ferozmente livros, a Turística, a Culinária, a Estatística. 

O rei era racionalista, pregava a tolerância e valorizava a ópera. Naun, que vinha do campo, adorou o trem de cristal, amarelo, que andava sozinho. Perguntou a um homem de gravata onde se comia ali. Se tiver dinheiro, em qualquer lugar, voava, usando uma teladetoque projetada na palma da mão. Os prédios eram altos para ficarem mais arejados, os homens dormiam nas calçadas para ver as estrelas, as placas eram brilhantes para que ninguém se esquecesse de comer. 

Perguntou para um operário de onde vinha tanto metal: Havia uma indústria naquele morro, apontou, agora está desativada e sem manutenção – o zinco, o cádmio, o mercúrio e o chumbo estão poluindo o solo e o rio, mas vamos resolver isso assim que possível, afirmou. Vocês têm livros aqui, perguntou a um varredor de rua. Sim, naquela livraria. Achou uma pobreza. Na aldeia, velhos haviam salvado placas de metal onde alguns monges gravaram versos e fragmentos. Ali, o que mais se via era “poesia”: São regras para ganhar a vida, disse o vendedor. 

Foi até a Praça Maior, onde a aristocracia governava a cidade. Eles são sábios, têm olhos distantes, pensam apenas em escala global, na vida futura das massas, disse um vendedor de frutas ao pobre Naun. Uma vez por ano, nessa praça, temos a Assembleia, onde se vende incríveis trouxinhas de maçã adocicadas. Um asceta, sentado nas escadas, discursava. Parecia mais um canto, na verdade. Ele dizia: “Um rei amava seis três filhos e não sabia a quem deixar sua herança. Fez duas cópias idênticas de seu anel real. No instante da morte, o pai, secretamente, deu a cada filho o seu anel. Após o desenlace do pai, os filhos disputaram entre eles a posse da herança e da honra. Cada um negou aos outros qualquer direito. E, para testemunhar que podia assim agir, em sã consciência, cada um deles apresentou o seu anel. Ao se constatar que os anéis eram tão iguais, que não se poderia identificar aquele que servira de modelo estabeleceu-se o problema de saber quem deveria ser o legítimo herdeiro do pai. O problema ficou sem solução – e ainda o está”.

© Afonso Lima

domingo, dezembro 29, 2013

Maria

Sozinha no palácio. Não era o Palácio dos mil quartos onde nascera, com jardins que encantaram a Europa, que venceu o cerco turco a Viena, em 1683. As paredes douradas, as cortinas de seda azul, falsos bosques na parede. Os Habsburgo. Imperadores desde 1282. Filha do imperador do Sacro Império Romano-Germânico e de Maria Teresa de Bourbon. Ela era branca, delicada, criada para amores da alma. Agora, o calor, os insetos, a doença que enchia a cidade. Melancolia. Bordar não a consola. Seu consorte a abandonara. Desde o início a chocara essa gente meio bruta, a começar pela sogra ambiciosa, Carlota, cujas filhas sabiam tanto quanto mulheres casadas aos dez anos. Tinha medo da guilhotina com essa revolta chamada “independência”. Nunca mais as árvores cobertas de neve. Onde a poesia, as obras de arte, a música ao piano, os filósofos, uma criadagem decente, as flores, pensava Leopoldina. Seu marido constrangia as empregadas. Ela adoecia na alma. Saturno teria feito seu baço produzir bílis negra? Sorria. Tocava flauta na janela. Nove vezes gerara os filhos dele. Em Viena, estudara botânica e zoologia tropical. De nada serviram os livros. O Imperador, seu marido, bebia, frequentava mulheres, cantava e dançava no palácio ao lado com uma paulista. A cidade zombava dele. Ingleses franceses africanos. Não dorme mais, sua. Isolada dentro do palácio. Ela enfraquece, escreve cartas. Lembra da infância. Ninguém soube dizer qual a causa de sua morte. 

© Afonso Lima

O velho

Já me aposentei há alguns anos. Acostumei-me a uma vida regrada, exercícios, livros, um trabalho voluntário pela manhã uma vez por semana como contador. Recentemente uma mulher jovem se aproximou de mim, uma mulher casada. Nós passeamos algumas vezes juntos, acho que me apaixonei, mas não. Eu queria aproveitar minha liberdade, depois de anos de trabalho duro. Eu não seria sensual como meu pai, cheio de amantes. Eu me dedicava agora a construir meu espírito, havia desvendado algo. Em um famoso conto, J. apresenta alguns garotos que fogem da rigidez da escola jesuítica – Que porcaria é essa de faroeste? Voltem à História Romana! - para sentar sobre a ponte, ver a luz nas árvores, na água, atravessar de barco o canal, observar o descarregar de cargueiros como heroica aventura. O nome: “O encontro”. 

Os meninos, pensativos, na colina próximo ao mar, veem se aproximar um velho, com chapéu de feltro e roupa miserável. Ele é misterioso, caminha lentamente até o fim do terreno, volta, senta com eles. Conta sobre o amor. Sobre livros antigos. O amigo corre atrás dos gatos, ele fica sozinho. O velho sai, retorna, fala sobre espancar garotos que perdem seu tempo com meninas. Ele sente medo. Talvez houvesse uma sedução no ar, em um livro posterior ele pensaria em acariciar as nádegas de um jovem. O que me chamou a atenção é que os olhos do velho são “verdes como garrafas”. No início do conto, o menino tenta observar os olhos dos marinheiros noruegueses, ele pensa que noruegueses devem ter olhos verdes. Descobri, num estalo, que o homem deveria ser um deus, já que o pensador trabalha mitos em Dublin posteriormente. Naquela noite eu não dormi. Suava. Por fim caí num sono confuso. Sonhei com um homem com olhos misteriosos que surgia do nada para revelar algo importante.


© Afonso Lima

Campo

Espaço livre, morros e pedras 
          Nuvens escuras, o fim da tarde 
Subo no animal, garoto da cidade 
                                      Uma capa de lã, chapéu preto   Eu e meu pai no campo largo   Morro, morro, cercas, riacho  
Este é teu mundo, e dos antigos                                     Pouco herói, meu corpo dói
A terra dura, temos que correr 
                                             

Um verde morno, trote O cavalo sua Seguro os pés no estribo 
Bemtevi, a flor de mato, ninho do joãodebarro 
                                                                Horizonte pesado, vento Minuano Temos de correr, a chuva começa 
Chegamos molhados, sob os pinheiros 
Olho para trás, eu e meu pai. 

© Afonso Lima

quinta-feira, dezembro 26, 2013

Austin

Ele deixou cair o jornal sobre a mesa e a xícara fez um barulho.
- Você esta tremendo? - perguntou sua esposa.
Na estrada escura, havia dado carona no caminhão para um sujeito alto, magro, negro, de tranças, que não levava nada nas mãos.
- Eu vou pra Austin.
Sentou. Parecia contente com sua sorte.
- Estou vindo de Minas.
- Minha mulher era de Minas. A primeira.
O homem calado parecia tão maltratado pela vida que perdera a vivacidade e a ousadia da juventude. Respondia a tudo sem constrangimento, mas falava o necessário. Ao pararem num restaurante de estrada, disse que não ia sair para comer. Uns dois dias, calculou. O caminhoneiro lhe trouxe um sanduíche e castanhas.
- Todo mundo devia comer isso, mas pobre não pode. Dá energia, sabe, disse com um pouco de melancolia no rosto.
O outro comeu com vontade. Depois adormeceu.
Ao chegarem perto do lugar, o motorista havia pedido que observasse as placas, devia descer na Loja Mauritânia.
- Não sei ler não senhor.
- Você sabe que daqui até Austin dá uns bons quilômetros? Vai assim, sozinho, de noite?
- Vou sim senhor.
Quando foi descer percebeu que perdera dez Reais que levava no bolso. Todo o esforço com duas lanternas não foram o bastante.
- Deve ter caído no banco – disse o caminhoneiro abrindo a carteira – Pega, vai com Deus. O homem resistiu, quis procurar mais, ele não deixou.
Começava a cair uma chuva fina. Quando o homem atravessou a estrada e sumiu na escuridão, o caminhoneiro disse:
- Brasil filha da puta.
A manchete do jornal dizia:

Um homem negro não identificado, foi arrastado pela correnteza do rio que corta Austin, na Baixada Fluminense.

(Afonso Lima)

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Investigando a Liberdade

Ser de céu, de claridade, a pedra o canto
Estou pesquisando o mundo
Meu objeto de pesquisa é 
o que é 
Nos cantos onde se ramifica, nos mares onde se agita
Meu foco é o mínimo
Eu estudo as crianças e suas mãos
Eu estudo o sol e sombras e camadas
Cada folha em sua nervura vermelho verde castanho
Eu estudo a angustia da mulher bem sucedida
Como na república ainda se come lixo
O ramo, o cinza, o véu do silêncio
Organizando o tempo para que ele não ande
E existe passado e futuro, ouvir as gerações
Nada de coisas divididas, processo eu-mundo
Por que a vida é forte e sempre esconde
Por que se sabe demais e falta o esforço
de ignorar e libertar e vigiar a ordem
a prudência pobre, viagem
o que rasteja - ele sim
sabe

Afonso Lima

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Mudança


Vocês não estão entendendo Alguém vai queimar a cidade
Cortar as cabeças arejadas Dar fim nos seus filhos 
Vocês não estão entendendo O piano e o foie gras e o veuve clicquot
E o metrô choveu e já parou fatal corrupção a criança sufocada nos braços da mãe
quebrará seus vidros no próximo vendaval A cultura minguada, a facada
A pobre educação, cano sem perdão Nenhuma repressão vence a injustiça
O fogo responde à preguiça A cidade ficou sem esperança
Vocês não estão entendendo O livro escondido é a bala perdida
O branco letrado complacente, faca nos dentes O que custa a perda do amanhã
A praga primeira de negro medo as pragas porque a mente do mundo cobra
tragam o berço 
não percebem REALMENTE não sabem NA PELE que serão desligados furados reconstituídos enquanto status global classe A teclando aguardando prato tailandês o embarque o retorno do fundo de vinhos/arte a executiva sexy
Que nada pode ser abandonado nessa teia nada pode ser cortado
Sem que a própria Terra mova seu coração líquido e envie deuses da destruição
Depois não haverá julgamento, corpos empilhados
Vocês acham que podem escapar as estradas fechadas no sono punhal
O ódio que nasce da terra seca O pão pouco Vocês não estão entendendo
O desejo de ser do coração O vulcão do esquecido A multidão que também é do chão
A queda de Roma da Torre de Sauron a vida quando ofendida
Vocês não estão entendendo a sede fúria vampira com sangue rebelião
Vocês não estão entendendo Quanto custa o milhão Bordeaux arte arte
Pesadelo gelado pingando alimentar a escuridão cavalo chicoteado
A violência bestial do ignorado mar bravo
Queimar a cidade e seus filhos em vão Vocês não estão entendendo
A cidade  sem esperança

Afonso Lima

domingo, dezembro 01, 2013

A reconstrução


"É uma guerra e uma ou outra deve desaparecer" disse Thomas Huxley. Eles dizem que Deus é desejo de consolação. "A verdadeira guerra é entre racionalismo e superstição" - afirma um famoso cientista, que diz que "Deus é um delírio". A imprensa nos ridicularizou no julgamento do Tennesee, mas a ciência darwinista fez a guerra mais cruel que o mundo já viu, "os fortes devem sobreviver". O que chamam de ciência é a redução do mundo à quantidade. Foi a Alemanha iluminada que criou a barbárie. Então, estavam certos aqueles que diziam que o tempo é do Cristo Armado e Sangrento do Apocalípse, que a Rússia era o Poder do Norte destruidor e que o Anticristo era um pacificador como a Liga das Nações. O governo é Roma que ataca a liberdade. Somos a ciência, o Instituto de Chicago, o seminário de Princeton. Os filósofos como Hegel pretenderam atacar Deus chamando-o de tirano. Outros disseram que Alguém deu corda no relógio e depois ele andou sozinho. Alguns tentaram dizer que a Escritura era uma alegoria, que dez mil anos não são dez mil anos. Mas os geólogos acharam exatamente as camadas de catástrofes de que fala o Livro. No fim, seremos arrebatados. No fim, ou a Bíblia é fato ou não existe. E cada palavra é não apenas de Deus, mas é Deus. O senhor odeia os pobres, a maldade e a pobreza são irmãs. Dar dinheiro dos trabalhadores para os preguiçosos é criar o mal. Gays, prostitutas e adúlteros serão punidos de acordo com as leis Sagradas. A guerra é o caminho da purificação. Que venha o tempo da Revelação. 

(Afonso Lima)

Ataraxia

No século XVIII, Johann Joachim Winckelmann: Filho de um sapateiro, de uma tecelã, eis-me aqui em Roma descobrindo a sublime ordem da sublime razão. O amarelo e sangue das estátuas eu apago. O azul brilhante dos templos me ofende. Nem batalhas, nem deuses furiosos, nem a correnteza do tempo e o abraço dos opostos. Nobre simplicidade, calma grandeza. A realidade podia ser sempre descoberta e em transformação, quero a imutabilidade imperecível, comando do corpo, a certeza. Somos modernos porque existe uma linha. Frinéia, amante de Praxíteles, que desfilou nua diante da cidade no festival de Posídon, sua oficina suja de piche, pregos e argamassa não falam do Um Deus, Um Rei, Um Verbo. O banquete festivo dos jovens, os corpos sujos no lago, o laranja, o violeta, o púrpura não são puros heróis e pastores da vaporosa Arcádia. Somos diferentes e nossas raízes estão aos pés de Tróia, as contradições da verdade nos ofendem. Ele partiu e eu fiquei aqui com sua pureza para sempre. Eles ensinavam através do amor. Sócrates deitou-se ao lado de Alcibíades inocente. O mármore branco eu busco no passado. Eu crio um passado, tempo imaginário. Nosso pensamento e nosso corpo divergem, a filosofia nossa não é mundo, caminho de si, mudança da alma. O interior nos protege. Somos os homens científicos. Para nós, a serenidade como projeto. Enquanto o mundo vive entre o caos e o fixo, eu sou o deus do cálculo, a dança, o falo, o ritual filosófico deixo nas sombras. O paganismo é material e exterior, nós somos jovens, nossa religião é a da vida imortal. Na cama de um hotel, em viagem, fui morto pelas medalhas de ouro dadas pela rainha, pelas mãos de um ladrão de estrada. "Os homens eram livres para pensar e seu discurso sobreviveu à decadência do mundo".
Afonso Lima

sábado, novembro 30, 2013

Meu abacateiro


Começo na surpresa do duro e feio que resiste e explode
Eu venero o deus sol - minhas asas ganhei
doces aladas formas femininas no
cristal do ar :Blake
Meu navio é hoje e já
quebrar os vasos, cavar pela argila- nem
ausência de perturbação
no jardim de costas pra cidade - nem
poética da sombra na caverna de Dionísio fumo
método :transfigurar raciocínios, memória cascata
dança das ruas já derrubou exércitos
misturar sem fundir as ondas do Mar e do vasto universo
que a palavra acerte, o essencial do osso
contar a mesma história e os passantes param
na minha mala a história e a alegria eu te vejo
Meu logos :poema-ciência, dedução apaixonada
Eu conecto cabeça-tronco-e-membros com maracatu rima
você respira e ao seu redor ar vibra
A putaria e a castidade
espelham uma à outra
eu conheço os fantasmas da beira das águas
os segredos das cidades nunca vistas
o romance escrito no fogo
era do império, sistema, tirania
Mas uma criança em mim não quer entender
uma criança que destrói o comum
Quero por tudo em dúvida de novo
voltar aos clássicos, nada pouco
aparelhos de pensar secos
simplificadas tramas do real
divisão entre a seiva da terra e a veia
Eu já não sou um poeta para ler a mão
Não quero trazer a verdade aos corações
Simulando suspensão de abismo
No mundo do meio dia, feito de neve e um eu úmido
Não falo sempre de novos territórios
sempre buscando a vida
não odeio a ciência, nem sou dançarino em marcha
nem nômade, sem pecado original
de dentro do mundo sem esperança
nem dia, nem noite, sol implacável
pelo pensamento da existência
modos de viver, ouvindo a voz do mundo
linguagem primordial, natureza-oracular
a dupla face do real e mais
sem fugir para as montanhas
nem simular metafísica
além de matar a tradição
(e o preço e a promoção são tudo)
aqui estou eu para falar
do mais puro vazio e deus
de novo do novo e incessante
da força cósmica do caroço na terra
da erotização do sol nascente
do sonho ilimitado do eu equilibrista
(canto palhaço para rever brotando
só resta ao poema a religião dos nervos)
comento as viagens e renego os rebeldes
para não morrer neles
ver os mínimos, não esquecer o mal
contato com objetos, rigor e magia matemática
(contra a arrogância, alquimias num espaço infinito
olhando o monte de escombros e a queda
o brilho militante da hipocrisia)
de um mar de transformações no horizonte
nem só delírio, só barricada, um germe nascente
as asas de metal de céu e magma
com quase nada verdes rugosas folhas do nada inspirando
e patas de fome latejante
querendo tudo
A palavra, a coisa e o vazio
São meus.

sexta-feira, novembro 29, 2013

unruhig, ungeheuer, Ungeziefer

Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos não tranquilos, percebeu que se transformara, durante o sono, em um animal não normal, não sacrificável e não domesticável. Certa manhã, Gregor Samsa acordou depois de uma noite nada reconfortante e percebeu que se transformara em um desforme inseto inútil. Certa manhã, Gregor Samsa, ao acordar de sonhos que pareciam castigos de sofrimento, percebeu que se transformara, como um ser que de ovo vira casulo, em algo pouco admirável e menos desejável. Quando Gregor Samsa quis levantar da cama depois de uma madrugada intolerável, percebeu que era um bicho articulado, sem sangue e infeliz. Quando, certa manhã, Gregor Samsa despertou depois de ter sonhado com coisas incomuns, percebeu que jazia em sua cama como um desprezível piolho nada belo. Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de uma noite de desagradáveis visões, percebeu que se transformara em uma intolerável barata sem carnes. Certa manhã, Gregor Samsa acordou de maus sonhos e viu que se transformara em um inseto desemparado e desengonçado. Certa manhã, Gregor Samsa acordou, depois de sonhar muito e terrivelmente, e percebeu que seu corpo sofrera uma metamorfose e era agora um animal pouco agradável, nada digno e semelhante a um artrópode. Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou, depois de sonhar de modo incomum, percebeu que se tornara um percevejo sem rosto e sem passado. Gregor Samsa desperta, pela manhã; ele agora era algo como uma vida não-humana, uma pulga imprópria. Gregor Samsa abriu os olhos e se desfizeram sonhos perturbadores, mas ele via apenas não-braços e não-pernas em sua cama. Certa manhã, Gregor Samsa acordou desgraçadamente de seus sonhos, para perceber que se transformara em um monstro incompreensível. Quando, certa manhã, Gregor Samsa, bem cedo, despertou, viu que agora seria um parasita desconhecido. Certa manhã, Gregor Samsa acordou de seus sonhos nas trevas e percebeu que se transformara em um um obscuro inseto asqueroso. Gregor Samsa acorda: olha ao redor e sente-se estranho, e percebe que respira por uma traqueia, tem antenas e uma casca.
(Afonso Lima)

domingo, novembro 24, 2013

Anju Mami

Anju Mami deveria acompanhar seu tio, lenhador, para cortar os pinheiros. Ele ficava tirando a neve do redor das árvores e seu tio derrubava, enfiava um pedaço de ferro em cada extremidade de cada pedaço já cortado de tronco, criando uma fenda, e separava as duas metades com as mãos. Sempre tiramos somente o necessário, o tio dizia. Eles estão vivos e pertencem ao deus dos pinheiros. Antes pedia sempre a Anju Mami que acendesse um pequeno fogo para o deus, dentro de um buraco num tronco ou fazendo um pequeno templo de gelo, ao lado do qual eram depositados doces. Anju Mami estava com preguiça. Não fez nada. Depois de uma manhã inteira de trabalho, foi buscar água no riacho, eram águas aquecidas que nunca congelavam. Mas ele se perdeu. chegou numa casa de madeira onde foi recebido por uma linda moça em um quimono vermelho. Ela lhe serviu chá e dançou para ele. Ele comeu e dormiu. Quando acordou, sentiu-se enjoado. Havia se tornado uma mulher. O quimono vermelho repousava a seu lado e ele o vestiu perturbado, colocou outro manto de e saiu para fora. Caminhou muito chorando pela neve até que avistou um palácio. Empurrou a porta de madeira e entrou. Não havia ninguém no palácio, que era decorado com lindas gravuras e caligrafias, ramos de flores em belos arranjos. Cada janela tinha uma paisagem. Em uma delas, caiam folhas vermelhas. Em outra, via-se o verde e peixes coloridos no lago. Em uma terceira, flores de cerejeira. Na quarta, a brancura infinita. No cômodo central, próximo a lareira, havia chá e doces. Ele comeu e depois voltou a caminhar pela neve. Finalmente encontrou o riacho de águas aquecidas onde ia buscar água. Seguiu a trilha costumeira e chegou até o local onde seu tio devia estar. Não havia ninguém e as árvores pareciam diferentes. Quando retornou à sua aldeia, Anju Mami foi considerado uma visão, pois, além de ter corpo de mulher, todos os seus amigos estavam velhos, seus pais haviam falecido. Soube que seu tio havia procurado por ele sem cessar durante um ano inteiro. Anju Mami passou a morar no cemitério, onde as pessoas levavam pequenas oferendas para ele. 
Copyright © Afonso Lima, 2013

quarta-feira, novembro 20, 2013

Zelo


Zelo é o deus que instiga os homens a buscar algo sem cessar. Ele é filho de um Titã, Palas, e do rio dos mortos, Estige. Quando a força indomável deitou nas águas da invulnerabilidade, nasceram Zelo, Vitória, Poder, Violência. Quando os Olímpicos derrotaram os Titãs, Zeus deitou-se com Memória para que surgissem divindades capazes de cantar esse feito. Zeus as nomeou usando a palavra mémona, "eu desejo". E para que também os Titãs fossem reverenciados, cuidou para que Zelo sempre estivesse ao lado das nove deusas. Foi Zelo quem soprou a alguém que ouvia Homero cantar que escrevesse aquilo, criando o alfabeto. A investigação, a descoberta, são dons de Zelo. 
O primeiro homem a receber uma visita das musas foi o belo pastor Poemandro. Zelo se apaixonou por ele. A deusa Tétis aconselhou-o a testar o amado, oferecendo-lhe um pouco de ouro para que criticasse os deuses. Assim Zelo o fez e Poemandro ofendeu Tétis, tornou-se cantor-poeta e rei. Durante a Guerra de Tróia traiu o acordo entre os reis, recusou-se a enviar navios. Aquiles, filho da deusa, invadiu seu castelo, raptou sua mãe e este, numa discussão, acabou por matar seu próprio filho Leucipo, sendo exilado. Depois desses tristes fatos, quando surge o desejo de ser mais, Zelo é o primeiro que chega e avalia o coração com seus olhos capazes de penetrar a substância leve da alma. Para alguns, ele irá chamar as musas. Para outros, o deus chama apenas sua irmã Bia. A maioria das pessoas pode sentir o cheiro de sangue que Bia deixa na testa daqueles que inspira.

terça-feira, outubro 15, 2013

Sobre o inferno 

Eu, Leonardo Flynn. Percebo que estou chegando na idade em que Rimbaud faleceu. Meu caro menino, meu amado, belo, depravado menino. O que seria de nós sem você? Você nos mostrou que para descrever a realidade, precisávamos conhecer e descrever a nós mesmos. 

Mas também essa fome de novos mundos, essa corrida pela vida, que eu, sr. Henry, reconheço nos bons autores. Essa poesia-prática que devora a Índia, a Arábia e a África, a suspeita de que há outra forma de ver. Vocês destruíram um império com suas frases de fogo, e ainda queremos esses mesmos deuses.

Eu te descobri tardiamente, os livros em minha casa não eram de literatura, mas a feira do livro de minha cidade era movimentada e rica e toda a cidade amava os livros. O som do teu nome magnético, assim como os de Shakespeare, Proust e Joyce, pegar um pouquinho de pó dourado daquelas auras. 

Eu, sra. Parker, penso que, de certa forma, eu também fui um jovem precoce para minha época (mas talvez não hoje, com os bebês e suas telas-de-toque). Aos 11 anos escrevia histórias em quadrinhos, minha primeira peça foi aos 15. Digo isso porque sinto que nós sempre subestimamos e, portanto, subjugamos as crianças e os pré-adolescentes. (Mas isso também pode ser apenas esquecendo delas ou dando tudo que querem). Já nesse tempo, eu pensava que a geração romântica e o jovem gênio de 17 anos eram meus aliados secretos. 

Com 15 anos, você estava em círculos boêmios de criadores. Sim, os artistas conviviam, tomavam café juntos e depois liam jornais e cantavam e falavam do mundo. E se amavam. Pobres, talvez miseráveis, mas em bando. Isso foi negado à minha geração (yuppie). Os "intelectuais" estavam muito distantes e os boêmios eram parte da burguesia. Um mundo de solitários, trancados em suas casas, com medo e aparelhos eletrônicos, um mundo sem ideais. É de mau gosto querer mudar. Temos tanto medo de sermos excluídos que servimos às hierarquias agradecidos. O inferno agora é ignorância bem informada. Talvez seja o espírito gaúcho, a ética do trabalho, o medo do invasor, e o gelo do tempo onde não há espaço público, muitos artistas com quem convivi eram francamente hostis.

Outros nem tanto, eram hostis só nos momentos cruciais.
Talvez ser vidente seja propor a vida como o mais urgente valor.
Penso também nas suas vogais. Nunca concordei com suas cores. Nos meus primeiros cadernos já escrevia sobre isso e fiquei chocado quando li o poema. A para mim tem tons alaranjados, lembra atividade e força. E é azul claro, quase branco, é sereno. I é amarelo, irritado, rebelde. O é branco, formal, ordenado. U é preto, profundo, ursino.

Você sempre foi um marginal por vontade própria. Contra as escolas mofadas e decrépitas. (Eu, talvez, marginal involuntário, incluído-excluído em turnos, porque meu mundo é mais perigoso, cheio de seitas fanáticas, e está mais difícil obter passaporte). Agora o sistema é global e um verdadeiro debate é impossível, porque felicidade é um sabonete e metal veloz, porque já nos deram a crítica com a crítica da crítica, porque a educação ruiu e as comunidades perderam sua diferença. Nossas elites deixam o povo sem transporte público e hospitais, dão migalhas de igualdade e defendem os direitos humanos na televisão.
Elas deixaram os pobres tão excluídos que eles criaram planos de carreira no crime e movimentam milhões, mas não vemos um movimento no sentido de sair das soluções de relações públicas.

Minha geração não tem mais contra o que lutar, somente contra o sentimento de que tudo já foi feito e está sendo vendido barato, que a vida mesma é secundária desde que você tenha algumas coisas. O conhecimento é uma forma de agressão. A natureza pode desaparecer. 

Agora que tudo parece e é vendido como muito estruturado, racionalizado, em franco progresso, os marginais são todos nós, vivendo como que à deriva, em um mundo dominado pela nobreza orgulhosa e bem articulada, com artistas que não conhecem a diferença entre opressão e libertação, uma tolerância e rebeldia que beira o fascismo. Nós já vimos tudo, e achamos que compreendemos tudo, somos cínicos e conformistas. Não temos mais um inferno para nos salvar. 

A desordem dos sentidos seria um bom veneno para a altivez petrificada, mas pode ser a forma mais acabada de acomodação. Enquanto isso, continuo marginal, porque o que busco não é o que se oferece. Mas quase não há mais esse mundo "outro", essa crítica ao modo de ser, essa problematização de toda a cultura e seus valores. Separamos "arte" de "ideal", mas podemos ter nos fechado numa caixa de chumbo, nem a posição temos para criar nossa teia. Abandonamos o dogmatismo (pseudo)marxista e ficamos vazios. 

Depois de vocês, o artista não tem uma lição à ensinar, ele quer duvidar e escutar, preservar através da destruição. Vocês adoeceram de morte o empreendedor guia que tinha como missão salvar os povos pelo trabalho. O sacrilégio, a preguiça, a luxúria são mais importantes que "Declarações de Direitos do Homem" feitas de domesticidade e honradez empobrecedoras. A realidade, que já estava pronta, no máximo uma questão de tempo, explode e a "razão" deixa de ser a "lógica do real". "A ciência, a nova nobreza!".

Ainda sobre você duas memórias:
Uma amiga pediu que falasse de você numa ONG da periferia. Quando contei seus erros e loucuras, pareceu ter sido imprudente. É como se ainda a "beleza" do poeta se misturasse a uma moralidade santificadora. Talvez o ícone medieval nos remeta ao alto, enquanto a lama toma conta do mundo e suas fraquezas. A descoberta da essência das coisas como trajeto incorrompido rumo ao acabado. A negação do tropeço iluminador. Da força dos objetos, sua teoria. Que o poeta ensina esse acolher da fragilidade, para que possamos andar em ziguezague, quando não temos certeza de nada, buscar esse desconhecido em si mesmo, uma voz pessoal.

Quando abandonamos os versos dos outros, já somos éticos. Porque fazemos coisas terríveis pela ambição de sermos parte de algo, de termos uma palavra de consolo, de estarmos de acordo. O que as pessoas chamam de "Rimbaud" pode ser ainda uma espécie de marca perfeita, um dogma, contrário a tudo que nos foi dito sobre a verdade do inesperado, do tumulto (ou, ao contrário, sua mitificação). A ética da arte é dialogar com o estranho da vida, querer abraçá-la, reconhecer seu rosto. 
Isso me mostra a incompletude desse nosso Brasil, sempre avançado, mas deixando pelas calçadas pedaços arcaicos.

Outra cena: lemos poemas franceses num bar, eu lia em português e um amigo no original. Abrimos debate. Uma moça que viveu muitos anos na França começou a falar sobre esse lado trash de Rimbaud. Meu amigo, de origem francesa, pareceu ofendido. Eu tentei confirmar, e daí?, mas não adiantou. Ou seja, a França, que foi nosso modelo de "civilização" na virada do século ainda é um ideal, um mito. Pior, a união do "belo" com o "bom" (mas um modelo pré-fabricado de "bom") é perigosa, porque os fascismos justificam sua violência pela beleza de sua pureza e ideais. Foi isso que sua geração mudou. A intensidade e a franqueza se tornaram valores e as coisas desse mundo ganharam seu direito à existir. Ainda somos colonizados. 

Mas se minha época é de confusão, individualismo e impulsividade, também porque nosso poder é suave, "liberal" e controla completamente as formas de participação e diálogo, posso dizer que vejo jovens absolutamente honestos e firmes, que vejo rebeldia real e mais disposta a jogar tudo, que novamente as velhas soluções parecem impossíveis. São ciclistas-ativistas, blogueiros, veganos, transgêneros, feministas radicais e gente que cria dinheiro local. Que ousam desafiar o que já foi decidido. Querem novos métodos. São videntes, mas não acham que sabem o caminho. São mais abertos à diversidade e não estão ligados à mesquinharias. Em um mundo que esconde de nós a verdade com tanto empenho, e corta as continuidades com sua instabilidade e rupturas, espero que esse espírito rimbaudiano viva da sua conexão com o passado e a razão, agora mais humilde e disposta à mudar. 

terça-feira, setembro 17, 2013

Aristóteles - uma introdução

Aristóteles foi um grande sistematizador do pensamento antigo, levando sempre em 
consideração as opiniões dos pesquisadores anteriores a ele. Através de uma equipe de 
colecionadores pôde classificar de modo eficaz uma série de dados, dando impulso assim à 
biologia, psicologia, astronomia, etc. 

Para os gregos, o universo estava em equilíbrio e harmonia, era o “cosmos”, em 
oposição ao caos primordial. A terra estaria rodeada de inúmeras esferas celestes, 
móveis, formadas por um quinto elemento ou éter, a primeira das quais seria a que dá 
impulso ao movimento que chega até o mundo sublunar (formado pelo fogo, água, ar e 
terra), regendo as cheias dos rios, marés, configurações dos continentes e mares. 
Influenciado pelo neoplatonismo que penetrou a teoria aristotélica no mundo árabe (o 
princípio motor torna-se Deus Criador), no aristotelismo da Idade Média européia as 
emanações do divino permeavam o mundo terrestre, cada ser era provido de uma “forma 
substancial” (estrutura abstrata do ser, que se manifestava como qualidade, frio, calor, 
etc.) 

Além disso, das causas pelas quais as coisas existem (material, motora, formal e 
final), a mais importante é a causa final, ou seja, o fim ou função pela qual existe: “A 
natureza não faz nada em vão”, ou seja, é perfeita e tudo responde a uma necessidade 
específica. Nos séculos XVI e XVII, a Igreja tomou esse aristotelismo arabizado como 
cavalo de batalha, pois um mundo mecânico sem Deus parecia surgir das novas 
descobertas científicas, como a mobilidade da terra ao redor do Sol, onde a mera 
extensão e jogo de forças justificariam os movimentos dos corpos. 

Também um novo método científico vai tomar o local do silogismo aristotélico 
(definição por relações de conceitos); através de comparações numéricas se pode testar 
as hipóteses, verificar as relações entre as medidas físicas. Para os sábios escolásticos 
medievais e os aristotélicos, para se chegar à forma científica usava-se à indução: vendo 
casos particulares chegava-se, por abstração, a uma definição precisa. Para os gregos 
havia uma ligação natural entre os homens e o universo, de forma que ter uma definição 
precisa de algo era conhecer a sua realidade última. Galileu terá de mostrar que, por falta 
de instrumentos como o telescópio, as definições de Aristóteles informavam pouco sobre 
o mundo, muito mais qualidades sensíveis (úmido, por exemplo), do que quantidades 
mensuráveis e representáveis matematicamente. 

Aristóteles influenciou mil anos de pesquisa científica no ocidente. Em que outros 
aspectos podemos perceber sua influência? 

Alguns conceitos base de sua filosofia: 

SUBSTÂNCIA 

Sobre o ser (“Aristóteles”, p. ex.) pode-se perguntar: 

O que ele é? 
Quais suas qualidades? 
Onde está? 
Como se relaciona com os outros? 


Cada tipo de pergunta quer um tipo de predicado (kategoria): de quantidade (tem um 
metro e sessenta), de relação (é filho de Nicômaco), etc. Haveria 10 classes. Também são 
vistas como “categorias do ser” classes das coisas “que existem”. Isto porque tem de haver 
alguma coisa ao qual o predicado se refere. Aristóteles é saudável. A saúde tem de existir. 

A primeira categoria, que corresponde a pergunta “o que é isso” é a de substância. 

Mas há muitos sentidos de dizer que as coisas são, e há tantos sentidos de “ser” 
quanto as categorias dos seres. 

Mas todas existem com relação a substância, pois é preciso que ela se mova, seja 
colorida ou tenha tal tamanho. A substância pode ser “distinguida individualmente” e 
“separada” , permanecendo essencialmente a mesma. Para os pré-socráticos as matérias 
eram substâncias ( como pó fogo ,a água, etc.) , para outros os átomos, os números 
(pitagóricos e platônicos) e para outros os universais abstratos ou idéias, como para Platão. 
Para Platão as coisas são brancas porque partilham da brancura Ideal, enquanto para 
Aristóteles as coisa brancas existem antes da brancura em si. 

Para ele substâncias são os animais, plantas, astros, artefatos como mesas e cadeiras: 
os objetos materiais de tamanho médio. 


METEORIOLOGIA 

O mundo sublunar é constituído de quatro elementos-terra, fogo, água e ar-
correspondentes a quatro qualidades primárias-secura, calor, umidade e frieza. Cada 
elemento tem um movimento para seu “lugar natural”-fogo para cima, a terra para baixo, Os 
corpos celestes são constituídos de uma quinta essência, ou quinto elemento, sendo divinos, 
vivos e inteligentes, e fazendo girar o universo. 

Alguma fonte imutável da mudança, estando fora do universo, incorpórea e, tem de 
iniciar o movimento, e “inicia a mudança como objeto de amor.” 

PSICOLOGIA 

Todas as coisas vivas são possuidoras de uma psique, uma força animadora, que 
podem ter faculdades simples como nutrição, como as plantas, ou estas , percepção e o 
desejo, como os animais, ou estes e imaginação que cria o pensamento, como os homens. 
Ter alma significa possuir uma habilidade, é um conjunto de potências e capacidades. As 
realizações não podem existir separadas dadas coisas que são realizadas. As almas são 
capacidades físicas. 

Há dois tipos de pensamento o ativo – separável do corpo, imortal e impassível, e o 
passivo, que depende da percepção. 

CAUSAS 

Buscar uma causa é buscar o porque de algo. A resposta é Isto porque Aquilo. Por 
causa de quê troveja? Porque A é B? Porque S é P? S é P porque Y. 

O vínculo que liga S a P é p termo médio. 

"porque S éP? por causa de M. S é P porque S é M e M éP."Porque as vacas(S) têm 
vários estômagos (P) Porque são ruminantes (M) e os ruminantes têm vários estômagos. 


Quatro causas : material, motora, formal e final. 

Material -constituinte a partir do qual uma coisa vem a existir: bronze 

Forma e organização - o rosto tem três vezes o tamanho do nariz 

Motora - fonte do primeiro princípio ou mudança: pai é do filho 
Final -espécie de meta, em busca de que se dá: exercício para ter saúde. 

Causa como forma-estrutura-organização -o que é e porque é são a 
mesma coisa: "A lua é eclipsada porque é privada de luz ao ser ocultada, e as coisas privadas de luz 
ao serem ocultada são eclipsadas" 

Causas finais ocorrem tanto nos produtos de atividades humanas, como 
na natureza: são “aquilo em busca do quê.” 
Silogismo: 

A) estátua é de bronze 
B) bronze é maleável 
C) estátua é maleável 


VIRTUDE E INTELIGÊNCIA 

A pessoa que desenvolveu virtude (arete) e inteligência prática (phronesis) que levam à 
ação correta, desenvolveu capacidade biológicas de modo correto devido a vivência numa 
comunidade (polis) onde a lei a justiça imperavam, onde a Dike (justiça) ordenava a cidade 
fazendo julgamentos justos. 

A ética de Aristóteles é baseada na eudaimonia e arete. Arete é “bem” ou “excelência” 
e eudaimonia é realização, sucesso. Ele deseja compreender o que nos leva a realizarmo-nos 
e a fazer sucesso na vida. A eudaimonia requer um fazer, realizar atividades, não é um mero 
estado de espírito. É agir de acordo com a excelência. Existem excelências de caráter como a 
coragem e a amizade, e existe “o divino que habita em nós”, ou seja, a razão, que nos impele 
a saber o que é bom e mau, e à atividade intelectual que atinge a excelência nos traz a 
realização e o sucesso. 


A raiz da palavra está ligada a “ser favorecido por algum deus”, ter sorte, e está ligada 
parte divina em nós, a razão (nous).A razão na Grécia tem uma relação sutil com a ordem e a 
beleza, a harmonia. O Universo era ordem, era kosmos, como uma jóia muito bonita feita por 
um artesão. 

Outro significado seria o de viver bem e ir bem , ou seja dirigir nossa vida 
racionalmente para guiar nossas paixões como quem guia um barco. 
Realizar o que somos na essência através de obras: “o bem para o homem vem a ser o 
exercício ativo das faculdades da alma em conformidade com a excelência” 

Justiça 
- o bem da polis exige as virtudes da soprosyne e da dikaiosyne. 
- Dikaiosyne é justiça corretiva e distributiva 
- A democracia é não-seletiva e a oligarquia não distingue pela virtude 
- os papeis sociais influem na virtude, por exemplo artesãos e mulheres, 

estas últimas por não terem controle nas emoções 
- é papel da cidade treinar seus cidadãos no exercício das virtudes 
- os cidadãos deveriam com a idade aprender a fazer decisões justas e isto 
exigia que tivessem todas as virtudes que iriam julgar, a começar pela justiça, 
“virtude em com que um homem desempenha seus papéis sociais projeta-o 
finamente para o aperfeiçoamento de sua própria alma na atividade contemplativa.” 
(MacIntyre, p. 122) 

Aristóteles no Séc. XX 

O filósofo grego tem sido retomado no século XX, desvinculado de sua roupagem 
cristianizada e neoplatonizada, sendo inclusive base de uma filosofia positivista, ligada ao 
filósofo Wittgenstein. Está mais claro hoje que Aristóteles não via o ser de forma tão abstrata 
como a interpretação árabe deu a entender, sob influência dos testos da época helenística 
grega. Conforme o professor Fernando Santoro: 

“Aristóteles é sem dúvida um dos filósofos mais presentes no séc. 
XX, seja pelas profundas transformações ocorridas nos estudos de suas 
obras e na interpretação de seu pensamento, seja pela influência direta na 
formação e discussão das principais correntes de filosofia 
contemporâneas, entre as quais a fenomenologia, a filosofia analítica, o 
pragmatismo, o neotomismo e a nova retórica, para citar apenas algumas 
das correntes onde as fontes aristotélicas das questões e dos métodos 
são evidentes”. 1 

Bibliografia:

Aristóteles, J. Barnes, Loyola
Justiça de Quem? Qual Racionalidade? MacIntyre, Loyola
De La religion a la filosofia, Conford, Ariel

Afonso Junior F. de Lima, 2008

1 Disponível em: http://www.ifcs.ufrj.br/~fsantoro/ousia/artigo_aristotelismonosecxx.htm

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segunda-feira, setembro 16, 2013

Pyton


Eu guardava o antigo oráculo junto à fonte do bosque de loureiros ao pé do monte. Eu nasci da própria Geia profunda. Eu descia até a caverna-útero para escutar as sombras e guiar os viajantes. Porque todos precisam de uma luz escura. Essas deusas de coxas duras gritavam e dançavam ao som de Dionísio, mas ele as ensinou regras e proporções. Como paga, o furioso mestre da memória - dos adivinhos que olham além e sabem o que foi, o que é, o que será - exigiu o jogo, o recitar da poesia, a cítara e a flauta, som de meninos em roda no altar. 

Dizem que eu persegui Leto, grávida dos gêmeos, e por isso ele feriu-me com setas de prata e de minha pele fez um trono para uma nova profetiza. A verdade é que queriam por fim à palavra de Geia e estabelecer uma nova palavra. Com lógica nova, colocam cada um em seu lugar. Com a retórica de evitar a vaidade do combate e a ganância do comércio, pregam a austeridade, a disciplina, a severidade para consigo mesmo, a fuga do prazer e o esforço ascético. Sua razão de ouro é falsa, magia negra. 

Não acreditam mais que devem pagar tributo à Noite poderosa e à vasta mata. Que o mundo exige reconhecimento, que tudo pede equilíbrio. Não pensam mais que o invisível derruba, vindo por trás, de rasteira, a alma adoece, a raiva aniquila, a sorte e o acaso podem derrubar um carro em batalha ou naufragar o belo guerreiro de mais alta linhagem. Os nobres aprendem a falar e isso lhes garante a verdade nos debates, com orgulho esmagam razões alheias. Eles podem tudo, mas não cultuam seus mortos, e os espíritos se ressentem. Eu estou ao lado da Senhora das colheiras e enlouqueço Diomedes que feriu Afrodite. Eu sou um Dragão-Fêmea e, com as Eríneas, não deixo o mortal dormir em paz. Eu grito nos ouvidos dos criminosos continuamente seus crimes e faço com que sua vida perca o sentido. 

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segunda-feira, agosto 12, 2013

A criadora

A criadora

Eles se chamam de Estado Francês. ela faz aniversário. C olha o azul liso e sem fim. Trabalho, Família, Pátria esculpido sobre as antigas palavras de 1789. esse homem quer roubar meu trabalho. salário de aprendiz. um velho diz que ela copiou seu mestre, ela atira a obra ao chão. As leis raciais começam a funcionar. aniversário do histérico. C anda pelas pedras claras. quando as amazonas chegarem, o padre disse, a arte será apenas delicadeza. eu não sou mãe nem esposa. C, na cama, sente frio. ele nunca vai largar a mulher. uma mulher não pode estudar o nu, o padre disse. Pode-se dizer que a seleção natural realiza seu escrutínio dia a dia, hora a hora, pelo mundo, de qualquer variação. trabalho doze horas por dia, suja, mãos duras. uma mulher não tem força para esculpir o mármore, o padre disse. o filho foi morto. escreve cartas. não me amarrem, não me amarrem. Rejeitando aquelas que são ruins e preservando e fazendo prosperar todas as que são boas. eu merecia algo mais, reclamo a liberdade. azul liso e sem fim. esculturas esquecidas nos móveis, malditas, são repartidas no inventário. natal. o funcionário do museu visita seu ateliê, elogia as três figuras nascidas do rompimento. aniversário da esquizofrênica. ela rasga a revista com: - Quando casares, senhorita, então criarás a beleza. C olha a parede de tijolos. quer roubar meu trabalho. Sobrevivência do mais apto: seleção artificial. as pessoas caminham na exposição e sorriem frente às obras. ela vende as últimas esculturas e vive solitária em seu quarto. C fica sem comer e morre.


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domingo, agosto 11, 2013

Pai
Eu não te entendo
e você nem sei
mas existe algo além
Pai
você Flash Gordon
eu He-Man
mas existe algo além
Pai
Devem existir feridas para os psicanalistas
e jardins talvez
existe algo além
Pai
Você viu a escuridão que eu não vi
você conquistou a cidade em que eu nasci
você sabe coisas que eu não sei
e debate com os passarinhos
você não usou camisinha
e talvez seja por isso que
eu não tenho limites e nem norte
mas existe algo além
no feminino do teu canto noturno
no repente na roda sob o minguante
falo diplomático pós-freudiano
sorvendo o mate em gargalhadas
oferecendo um botão de rosa branca

Eu não quero que você seja perfeito
porque eu não sou
somos os possíveis que não ganharam o mapa
e nos restou colocar os ouvidos na terra negra
eu durmo ainda ao teu lado antes da noite crescer
eu eu diminui para o bem da humanidade
finalmente, eu perdi o interesse pela vitória
eu tenho preguiça de achar culpados
e a nós, que acabamos, não nos é dado
eu não sou mais o Senhor do Juízo Final
entre o você imaginado e o eu imaginado
criamos essa terra de alguém

Quantas peles têm uma cidade?
Quantas formas de ser humanidade?
você é toda a linhagem
de sábios, guerreiros, bufões
Essa onda orgulhosa e rebelde
Ensinando
que tudo tão profundo é relativo
que existe a justiça e precisa existir
que é preciso transformar
existe sempre e ainda
um céu estrelado
o chão rachado
e o silêncio
Você me disse: filho um poema
é feito de ontem e de hoje
Pai
tua lição não está à vista
e eu demorei
Mas ficou uma semente no unicórnio
do berço
de sempre ter um começo, existe algo além.


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quinta-feira, agosto 08, 2013

Julgamento


Eu lembro da cortina com pássaros vermelhos. A cortina com pássaros - mortos? No livro ao lado da cama. Na Bíblia está escrito: a palavra de Deus é viva e afiada e julga o coração como uma espada. Versículo 12 de Hebreus 4.  (No inferno: e ela passava batom nos domingos e recebia o namorado). A Bíblia diz: os estupradores merecem castração química. (Sujeira: e ela queria por peitos). Eu li no jornal o caso de uma moça que parecia possuída – o médico dizia - o desejo de transcendência pode ser pelo sangue ou pelo sexo, transcendência pelo sangue. Dizem: 87% receberão mais de um tiro. (Eles suavam. Quase sem barba, ela era uma rainha, ganhava presentes e sempre conseguia cigarros e até uma vodca pra quem podia pagar). A Bíblia diz, Mateus 10: Não penseis que trago a paz. Sim, as angústias não produtivas são monstros. A Bíblia diz: Não existe essa coisa de melhorar o preso na cadeia. (Ela gostava mesmo era do cara que tinha sido ator pornô, ele não era bom de cama, mas trazia flores que a namorada lhe trazia). Diz que, sim, todos sonhamos em ser policial ou assassino, assassino medieval entrando em Jerusalém contra os árabes sujos de sangue. Falcão, águia.Transcender. Uma alguma lógica. Dizem: 90% das mortes serão com tiros na cabeça se amarmos nossos irmãos. Ela diz: no seu lar a violência era algo belo. (E ela diz que no seu lar a violência era banal). Ela diz: é preciso matar psicopatas, preguiçosos e pessoas no corredor direito do terceiro andar. Na Bíblia de capa vermelha da minha mãe: não leve desaforo pra casa, não sustente vagabundos, sorria e despreze com elegância. Dizia: não sabemos entender angústias não promissoras. Não sabemos andar no labirinto. Cave com as mãos sua terra, cruze o rio com suas próprias botas, mate com uma faca sua própria vaca, tenha uma lógica, uma pobre, rota e suja alguma lógica. (Ainda maquiada, tirou a roupa, mostra o pau pequeno, em sinal de rendição. Tiros). Ela diz: oferecerás um pássaro pelo pecado. Dizem: Seja um guerreiro. A Bíblia diz: matem.

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terça-feira, julho 30, 2013

Colonial

Doce mar, gente do pátrio Rio assim 
na vida tão encurralado talvez 
num bar com amigos atacado onde 
vemos ninfas cantar, pastar o gado

não nos amorne o esquecimento frio
nos cale também o gás sombrio 
com tanto medo do próprio Estado

morrer em casa ainda é vida
na janela sentir o estouro 
no tiro livre do vasto campo
abatida rezar pra não ter sangue 
no couro a injustiça é chama que não 
cicatriza tudo indo bem, e ainda manda
o ouro 


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Desaparecido

Eu queria falar do vestido puído
do branco do campo
da casa oca e do tempo lutado
entre o sistema doído e o íntimo 
sufocado
Mas o que posso é o soco 
do mundo palco
pão pouco 
na casa pouca
sempre
palafita vida 
sempre
trânsito 
para talvez alguém
cidadania aflita
para verificação
cidadão corpo
estudante marginal lei em desaparição
a multidão de formigas focadas
os gritos de esperança cortados
as línguas em trabalhos de eras 
suturadas na multiplicação, rompidas 
quando irrompe o fogo em preto e branco 
procedimento puro. boi
o vidro azul que cobria denso profundo
inferno. sombra antiga
da república. um silêncio de tempo deslizando 
frio. arte incriada das gerações 
pela flor da bala rasgada. hábito de guerra 
na prateleira e monótono sumiço 
Os sonhos do corpo em desafogar-se
Do caminhante da rua em sentir-se em duração
cavaleiro pedreiro em ser andante e amar pele geral
Sem ser apócrifo seu sonho, gemido desgosto
exterminado em enfermidade longa
transitar do quase-homem para o zero-quase
invisível ser sem relação 
Eu falaria da vaga do horizonte
e do sol que irrompe
mas não. 
Segurança


Ele estava cansado das humilhações do gerente. Trabalhava em dois empregos de dia, um à noite. Aquele cara não tinha nada a ver com segurança, foi colocado lá por ser um mauricinho puxa-saco, pensava. E, um dia, o banco foi assaltado. Troca de tiros. O gerente feito refém. Ela está em carne viva, disse a médica. Meu marido está desempregado, a chuva levou um pedaço da casa, tá chovendo lá dentro, a mãe justificava. Meu marido tá sem emprego faz tempo, hematomas no seu corpo confirmavam. Ele lembra da mãe falando que "água de rato" ia matar um deles, se pelo menos soubesse ler, faltava comida e leite. Um barulho. Ele atirou no peito do gerente, que caiu. 

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sexta-feira, julho 26, 2013

One

Esses registros foram encontrados muito tempo depois do ocorrido. M.T. era astronauta na estação Centuria 17P33. Uma tempestade elétrica o deixou sem comunicação com a Terra por mais de um dia. Quando retornaram seus equipamentos, não havia resposta alguma. Depois de uma semana, decidiu aterrizar. Ele conta que não encontrou ninguém na plataforma espacial que comandava a estação. A central e os escritórios também pareciam estar vazios. Tentou ligar para os amigos, os parentes, sem sucesso. A TV também havia parado de transmitir. Ele iniciou uma busca de carro por outros seres humanos. Ninguém nas ruas e nas estradas. Sua casa parecia deserta. 



Relata que o primeiro mês foi de sofrimento, mas que a esperança ainda existia. Vastas paisagens, silêncio quase absoluto, apenas os pássaros e o vento. Percorreu o país comendo o que encontrava em mercados de estrada e abastecendo-se livremente nos postos que encontrava. Uma sensação de paz se misturava à angústia. Nenhum sinal de pane, catástrofe ou doença. Atravessou metade do estado não encontrando ninguém. Finalmente, voltou para uma casa que tinha no campo e lá ficou. 

Decidiu plantar para distrair-se. Leu muitos livros. Começou a criar companheiros imaginários: a cadeira Senhora Tulls, o bule de café Sr. Piccard, a poltrona Lady Maus. Os animais lhe faziam companhia: cavalos, porcos, pássaros. Muito trabalho. 


Mas um dia acordou e viu um homem que se apresentou como Samuel. Era um perfeito cavalheiro, em suas roupas muito antigas. Eles tomavam chá e falavam sobre a evolução da raça humana. "Sabe, amigo, como a natureza sempre seleciona os melhores, vamos progredir indiscriminadamente". Achava estranho ele não dizer: "infinitamente". Samuel era um bom amigo, mas, um dia, ao caminhar sozinho próximo do rio, teve a impressão de ouvi-lo gritar. Voltou correndo à sua casa e nunca mais o viu. 



Por outro lado, buscando ao redor da propriedade, encontrou uma espécie de caverna. Sua entrada era pequena e coberta de vegetação, mas resolveu entrar depois de sentir o vento sair pela abertura. Nunca havia sabido de sua existência. Dentro dela descobriu paredes pintadas e polidas. Eram como letras, mas não pareciam formar uma língua, nem tampouco uma história por imagens. Continuou buscando em seu interior. Qual sua surpresa quando, dois dias depois, ouviu a fraca voz de uma menina, de aparentemente 14 anos, que parecia agonizando mais ao fundo da caverna. 


Levou-a para sua casa. A menina estava muito fraca e dormiu durante 24h. 
- Os Altos, ela disse. Os Altos. 
Mas ela não podia falar mais. Três dias depois, ele a surpreendeu folhando um livro, na biblioteca. 
- Conhece? Sabe ler?
- Lótus. São lótus - sua voz era fraca. 
- O que é lótus, ele perguntou.
Ela caminhou até a janela e pareceu fraca:
- Os de sua raça pensam que nós não pensamos. 
- Minha "raça"?
Ela olhou tristemente para o livro. 
- Nosso povo usava objetos como esse para preservar suas histórias. Hoje, sabemos que eles conseguiam juntar Votons para expressar o pensamento. Mas só temos, agora, Votons das coisas simples. 
- O que aconteceu com seu povo? 
- Os Altos começaram uma grande perseguição. Acham que temos poucos recursos na Terra. Acham que queremos tirar o que é deles. 


Finalmente, ele conseguiu tirar dela que, na caverna, havia uma espécie de lótus-pergaminho, muito danificado, em uma caixa de metal, que eles não podiam ler, onde sua antepassada contava fragmentos de histórias, borrados pela degradação do material. Ele as interpretou como pode: máscaras de oxigênio, contaminação química. "Grande Divisão". Grupos fascistas mataram todos os líderes de trabalhadores. Guerra, Corporação Branca e Vermelha. Os "Altos" passaram a venerar a Pedra. 


Os Baixos deveriam pagar por sua formação, perdendo acesso aos lótus e, por fim, qualquer forma de linguagem complexa; nova língua Klyn, global, seitas fanáticas e rivalidades locais, robôs e, depois, seres holográficos, "campos de força seletivos" nas cidades, "polícia molecular", teste de "DPCI", coeficiente de evolução. 



Para os Altos, andar em pares ou grupos era considerado deselegante. Robotização orgânica. A maioria dormia muito pouco por causa dos pesadelos. A fome e uma peste levou os Baixos à rebelião. Muitos foram queimados. Depois disso, foram instituídas as "Camas Públicas", onde Baixos eram torturados nas praças para amedrontar seus semelhantes. Até que veio a Grande Perseguição. 



Apesar de muitos cuidados, a menina morreu alguns dias depois. Ele ficou deprimido por muitos dias. O retorno ao mundo vazio o aniquilou. Decidiu partir e retornar à estação. Queria morrer no espaço. Sua  última mensagem foi escrita na capa de um livro: "One".