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quinta-feira, abril 27, 2017

Ocupem Wall Street

A fila foi parada pelos guardas na sua vez de entrar. Lá dentro, 300 pessoas representando 11 milhões. 
Algumas pessoas insistiam, os guardas diziam que o telão iria transmitir. Era a última apresentação das metas da Prefeitura. Assistiram um pouco no telão. Toda a cidade em fúria. Mas que importava isso? A comunicação era pelas redes e pela mídia com a "massa". 
Foi tomar um café com um conselheiro de bairro, acabaram de se conhecer na fila.
- É chocante, será que não havia outro espaço? Tanta gente ficou de fora...
- Fizeram 39 audiências em 3 dias. 
- Eu penso no que aconteceu com a política. Os vereadores eleitos pela enxurrada de dinheiro e o prefeito, idem, parecem não se importar em nada com as demandas da sociedade. 
- O que aconteceu foi mercado financeiro. E parece que a elite percebeu que ninguém tem compreensão. A classe media virou tecnocrata, a maioria dos pobres trabalha demais ou se tornou novo rico. O discurso da TV e do jornal pode apagar qualquer alternativa, tudo é culpa da "gastança", da "farra social". 
- Tenho ouvido cada coisa... No grupo do bairro se diz que "cultura de verdade não precisa de investimento público", critica-se o "o vitimismo das minorias", ou se diz que "reduzir investimentos é essencial porque dinheiro não dá em árvores". Ouvi esse provérbio: "Em casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão".
- Enquanto isso... Paraísos fiscais. Quando se reduz muito os impostos, os governos ficam miseráveis, surgem bairros sem lei, nos quais o tráfico impera ou outra espécie de máfia.
- A impressão que eu tenho é que nossa sociedade cortou os vínculos. O soldado mata à distância como num jogo da morte. Os acionistas lidam com números, mas esses números são uma mata cortada ou uma barragem que destrói a água de cidades inteiras. A classe A, vivendo em seus palácios cercados, pode apoiar os políticos mais sorridentes na rede, sem ver o que significa o corte que aplicam nos investimentos públicos. 
- Eu estava em Nova Iorque na época do "Ocupem Wall Street". Eles falavam do "cartel dos bancos" e "senhores dos governos". "Eles colocam os seus no governo", "a dívida dos governos é aplicação". Uma jovem disse: "A nova ordem internacional imposta ao mundo foi uma conquista imperial pela abertura dos mercados de capital". As pessoas diziam na praça que cada um dos 28 grupos financeiros que mandam no mundo tem um PIB maior que o do Brasil. Nem Obama conseguiu recriar leis de regulação. O capital é global, o governo é local. Ouço uma mulher gritar para uma manifestante: "Bando de picaretas, vão procurar emprego". E a outra responde: "Eu tenho emprego, o que eu não tenho é uma vida".
Na rua, jovens negras de um coletivo saem da audiência conversando. 
Começava uma fina chuva, mas o sol ainda brilhava. Resolveram ficar mais um pouco.


Afonso Junior ferreira de Lima




segunda-feira, abril 24, 2017

Os quase miseráveis

Dan estava na parada de ônibus; estava preocupado porque tinham que conseguir um novo apartamento. A região havia ficado muito perigosa, a polícia descontrolada. Fora olhar um trailer, mas parecia muito velho. Além disso, o proprietário nunca fazia os consertos necessários. Seu irmão conseguira um novo trabalho, quem sabe podiam ficar num motel alguns dias.
Um rapaz lhe deu um panfleto.
- Queremos proteger as pessoas da globalização, ele disse. Do desemprego e da imigração massiva.
Ele lembrou da conversa que ouvira.
- Você não quer tomar uma cerveja?, perguntou ao rapaz.

Foram. Ele chamou uma amiga, também do partido. Enquanto os ouvia, sua mente divagava. 
Como chegara a isso se trabalhara a vida toda? Não tinha dinheiro para morar com dignidade. Sua mulher só pode fazer metade do tratamento dentário e andava com medo de ter outra crise. Não podia pagar por sua saúde. Acreditava que o esforço de uma pessoa era o que fazia a diferença. Só que teve de aceitar aquele emprego de merda porque quase enlouquecera quando fora demitido - os novos contratados ganhavam ainda menos. Mas... Alguém devia estar ganhando muito com os serviços pelos quais que ele pagava. Começava a pensar que cada vez comprava coisas mais baratas e ganhava menos. Que as escolas públicas estavam fabricando semianalfabetos. 
Naquele dia, voltava de uma loja, pedira folga no serviço. Fora obrigado a comprar uma cama há uma semana. A empresa não entregou uma peça do móvel. Foi reclamar. Alguém ia lhe procurar. Ele lembra que sua imobiliária não conserta o interfone há dois anos. Não tem porteiro. Mas a pessoa não irá lhe ligar, não pode ligar para avisar que está na porta. Essas pequenas humilhações e a sensação de injustiça, de ser uma vítima sem julgamento, o angustiavam. 
Saiu da loja e foi num restaurante barato, tinha 50 pratas na conta. O cara do restaurante debita duas vezes seu almoço. Ele vai no banco e tira um extrato. Não aceita quando lhe mostra o erro. É preciso aparecer o nome da loja, só no outro dia. "O senhor me fará pagar duas passagens para vir aqui reclamar?". 
Ele passa por um sinal estragado, carros não param, as pessoas não conseguem atravessar. "Estragou, consertaram, roubaram, está assim há dois meses". Passou por outro cruzamento. Desligado há dez dias. 
Outra vez abriu a porta do prédio para uma empresa terceirizada de energia, que religaria a conta de um vizinho. Os rapazes nervosos porque a parede era velha e podia haver explosão. O chefe ordena por telefone que faça, caso contrário pagarão multa. "Não se importam se o funcionário morrer", disse um deles. 
Ele começava a sentir que perdia o controle. Quando os filhos ficavam doentes ou a mulher lutava para fazer um miojo diferente, ele se sentia muito mal. Uma vez, quando uma sombra demoníaca passou em sua mente no meio da sujeira e do caos, chegou a pensar que podia livrar os filhos daquilo tudo. Foi apenas um lampejo, um momento em que perdeu a esperança. Por sorte lembrou de seu pai, bêbado e desesperado, e retornou a lucidez. Não podia ser como ele. Mas isso o havia assustado. Ninguém era assim tão forte. 

A amiga do rapaz dizia:
- Eu trabalho para pagar meus estudos. Eu dou duro, mas os estrangeiros recebem do Estado comida e dinheiro. Não quero acordar amanhã e ver que tudo mudou, que nossa cultura mudou.
Contou a conversa que ouvira. A loja faturava 400 mil por semana, ele ganhava 140 pratas em duas semanas.
- Será que não estamos desviando o foco?
Eles pagaram a conta, se despediram, e ele colocou o panfleto no lixo.

Afonso Junior Ferreira de Lima




sexta-feira, abril 21, 2017

Mundo imaginário

- É uma nova era de irracionalismo, parecida com a do fascismo...
Elas estacionaram e caminhavam em frente à Prefeitura, no viaduto, tumulto do meio-dia.
Sentaram no café do centro cultural. Ela iria dar uma palestra sobre seu novo livro.
- Sabe, como escritora, eu sempre desejei que as pessoas entrassem no meu mundo de imaginação. Que as pessoas deixassem suas convicções e mergulhassem no meu sonho. E agora... Parece que a capacidade de analisar a realidade desapareceu.
- Você que dizer... o prefeito?
- Sim, medo.
- Mas ele parece tão enérgico. Tinham muita crítica contra o outro, né?
- Ódio pode ser criado... O plano é reduzir, modificar, vender...
- Ele pode ter feito coisas boas, como na saúde...
- Não podemos ter uma autocomplacência que se deixa enganar... as coisas estão em retrocesso, os planos desmontados, parece que nas reuniões as ideias da população "não interessam".
Estaria sendo injusta? Lembrou de sua vó dizendo: "Não sou democrática com fascistas".
- Quem sabe? Nem conseguimos entender o que está acontecendo tamanha a guerra de propaganda.
A moça trouxe o café. Ela lembrou de quando era jovem e diziam que ocorriam torturas, mas ninguém sabia...
- O que me assusta é que começaram pelas campanhas de rádio e na internet esses fanatismos... Deputados e vereadores foram encurralados pelos moradores. Os meios institucionais não valem, os políticos sérios podem fazer reuniões e falar de números e os jovens vereadores cheios de ódio vão dizer que tudo é comunismo, e fazer uma transmissão ao vivo; você não vai saber a verdade... O dinheiro vai levar a sociedade para seu barco.
Ela pensou sobre toda a filosofia de que a arte tem um espaço próprio, toda linguagem é estilização, dizia um professor. Por outro lado, percebia que a mente havia se fragmentado de forma incrível, blocos de ideias opostas podiam conviver juntos.  De modo geral, ela achava que arte e política eram dois níveis distintos, a imaginação era também algo político, a subjetividade era libertar-se do poder oficial, seja a propaganda, seja o partido, mas não estava certa de nada. Um debate que já existia na Rússia de Dostoiévski. É preciso um certo idealismo para um romance acontecer? É melhor menos reflexão e ações firmes de homens capazes de alterar a realidade? De que modo podíamos nos relacionar com o mundo sem criar uma submissão ou empobrecimento?
- Eu concordo com você no sentido em que acho exagerada essa promoção pessoal. Realmente, parece que a democracia virou isso. Eu tenho aquela amiga que trabalha na Câmara. Havia muita discussão, dinheiro no orçamento para projetos. Para dizer que está fazendo, tem de negar e refazer tudo o que já foi pensado. É uma marca de grande força, o "trabalho e competência".
-  E se, apesar de tudo, ele for menos competente? E se essa gente estiver propagando uma mentira involuntariamente? Eu te juro que nada do que eu vejo parece apontar o contrário. Numa cidade tão injusta, o plano do executivo é reduzir investimentos. Até livros das bibliotecas estão sendo triturados, de humanidades, sobre ditadura... A moça que escreveu um texto denunciando o abandono do plano municipal do livro recebe visita do chefe para intimidá-la. Talvez tenhamos esquecido o quanto é importante sínteses de vida para nos guiar na escuridão.
Alguém veio pedir um autógrafo. Um mundo imaginário que é um sistema de mentiras. Ela pensava que seu mundo imaginário sempre respondeu ao anseio de terra.

Afonso Junior Ferreira de Lima





quinta-feira, abril 20, 2017

A entrevista

Ele pensava se teria imaginado tudo.

Deitado em seu quarto, tentando ler, ele ouviu um menino na janela. Tentou achá-lo, ele corria já longe. Ninguém sabia informar nada sobre os massacres. "A Paixão segundo Mateus" era seu trabalho agora. Ele morava em Marte há mais de cinco anos, tinha a impressão de que mesmo o "inimigo" não existia mais na linguagem.

- Foram duas décadas de apagamento de mentes - finalmente um homem disse.

Reeleito sete vezes. Lembra do que pensou naquela época.

W. Berren. Seria um animador de auditório ou um jornalista?

O que ele estava dizendo? Era preciso derrubar o presidente de outro país para evitar o "perigo chinês" e o "não-alinhamento que disfarça a estatização e os altos impostos"? O nosso presidente ia visitar o país. Depois ia começar testes nucleares na lua.

Entrevista o músico que faria São Mateus para a elite local.

Acabam conversando meio bêbados sob a lua.

- Eu me lembro da rádio falando dia e noite sobre os socialistas, radicais, antipatrióticos e muçulmanos. Como a democracia pode se defender da lavagem-cerebral dos bilionários?

Ele lembrou da época em que resolveu perguntar sobre Berren ao seu velho mestre, jornalista aposentado.

- Você sabe, os herdeiros de castas antigas acabam acreditando que sua casta é superior, e os outros são desumanos - ele acertava a bola robótica no nível 3 no buraco. Ninguém mais era perdedor, depois daquilo.

Observavam os drones de controle sobre suas cabeças. Seu volume estaria ajustado para captar o som de conversar no jardim? O músico continuou:

- São os políticos contratados para evitar que as coisas aconteçam e mudar as leis em favor das empresas.

Uma vez, no campo de golf, ele havia indagado:

- Mas você acha que vamos promover um massacre?

- FMI e o Banco Mundial foram expulsos. Lembra? Passaremos os nomes dos principais líderes inimigos - disse o mestre. E morreram um milhão de pessoas.

Estrelas no céu. O músico tocou Bach. Então, era isso. Passaram-se vinte anos. Ele chegava ao país e não havia impressões digitais em nada.


Afonso Junior Ferreira de Lima 
 




sexta-feira, abril 14, 2017

Ártemis

Ela não compartilhava seu ódio pela humanidade.
- Quando nos encontramos, seu pai tinha falido construindo um navio de 150 pés. Ele foi o mais digno rival de Demóstenes, mas teve de me entregar a filha virgem em troca de dinheiro. 
- O negócio é o seguinte: você está querendo que eu faça por você o mesmo que fui obrigada a fazer com você mil anos atrás. O que eu ganho com isso?
- Você queria que aquele escritor de histórias de aventura terminasse seu livro, que ele fosse publicado e que - quem sabe, virasse um filme. Eu quero que a Comissão nunca crie mais regulações. 
- Eu pensei que jamais tinha lido o manuscrito que lhe dei. Eu amei demais aquela vampira. 
- Eu preciso de alguém capaz de fazer lobby sem assustar demais o senador. Meus outros aliados preferem manchar as cortinas de sangue. 
Assim, Ártemis foi visitar o assessor do senador. 
- Trata-se de fraude, Lilian (era assim que os mortais a chamavam), e a lei, as agências, são patinhos nadando no lago para esse tipo de assassino. Ou algo parecido. 
Ela observava a espada árabe sobre a lareira. Como ele achara essa relíquia do ataque de 1098 aos bizantinos? Ela não estava lá, mas, mais grega que uma ilha, não aprendera apenas filosofia com os árabes. 
- Meu caro, blogueiros anarquistas não vão mudar o sistema. Ninguém pode. São mais de 3 mil lobistas. Nem entrou na pauta em seis meses. Os jornais falando dia e noite nisso. Aceite meu dinheiro e compre uma casa na praia. Em mais uma praia. 
- Eu sei quem vocês são. As pessoas desistiram do poder por causa de vocês. São pessoas que nada produzem. Investem em papéis. Não há governo global, ninguém segura esse monstro. 
- Aceite as coisas como são. Desmembrar os bancos que consomem a riqueza seria mudar preconceitos que nem Einstein imaginou. São predadores. Eles são imortais.
Seu amigo olhou para os prédios - cada andar levemente diverso do outro - e suspirou. 
- Eu quero escrever um livro sobre isso.
- Eu posso publicar.
Ela apagou as luzes.

Afonso Junior Ferreira de Lima




quinta-feira, abril 13, 2017

Porto Alegre antiga

Porto Alegre cidade aberta

na luz vermelha da ponta do rio

mergulho com um finlandês perdido

clarões de um céu inteiro fonte invisível

menino tropeçando nos degraus

mercado marcado explodo a bolha dourada

recebo todos os deuses com minha espada

nas árvores da Redenção

ele odeia comida indiana, ela usa turbante azul

vento na rua solitária de pedras

no sofá com Legião, a geometria judaica

hormônios florescidos na dança da metrópole

rambô toma chimarrão na grama

a sombra do aço lembra

1752 açorianos um rumo novo âncoras 

protesto contra o fluxo dos tiranos de ar

Porto Alegre a paixão descendo a lomba

onde canta o sabiá do samba

e o punk à cavalo Noll de memórias

só eu sozinho solidão simulada sussurros de mata

artista perdido refletido em vidro

na roda do dia da festa 

a água se enfeita de lua

o beijo no cruzamento do Ocidente roubado

o sol do verão me ensinou filosofia 

Buda nos campos do exército imperial e farrapos 

aqui morou o capitão érico, ecoa um riso de poeta

desenho anjos no cais e colo flores fantasiadas

minimalismo e choro naquele banco transfigurado

o alemão grita com a bandeira 

telefonemas suicidas e paixão impossível mais uma

debates e terra, chamado da floresta

jogo de branco em preto e contar moedas pra estudar

a indústria francesa nos degraus, escadas da 24 onde nasci

Porto Alegre cidade vermelha

Porto Alegre os índios do Pará

a árvore milenar da esquina, casario baixo

amor que não dura, o eterno, a separação

o meu mundo interior clarões

os mortos em cada fachada colorida e rococó

nunca adaptado, acreditado herói trovador

espelho caminhando no Beira-Rio

ninguém pode parar 

essa tempestade em que falo com o céu

olhando os aviões e a saudade calculada

coloco a máscara que diz a verdade

Porto Alegre na rua da praia

águas levam à todos os mares

louca fria sereia do inverno

Ofélia afogada, lembrança desregrada 

Porto Alegre cidade sonhadora


Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, abril 11, 2017

poesia pós-industrial

à mão as peças da modernidade quebradas
minha arte não tem propriedade definida
a metáfora está em pedaços
a poesia brasileira assim tão pouco brasileira
srta. krupp agora casa-se com o pilar nazista

meu olhar busca o corpo, as flores pintadas
eu ainda acho que temos de viver
com alguma liberdade no tempo de liberdade

sr. krupp gosta de um olhar produtivo
mas a indústria dorme, camponeses escravos
minha época materialista
crime contra a humanidade
é sair das coisas práticas 

roubo uma canção de água em rocha
populismo digital, trabalhador
sai do consumo e se torna apenas produção
o dragão Ying e a inutilidade de um dia incerto

meu olhar busca o passado, o fruto caído
eu ainda acho que temos de sonhar
com alguma verdade no tempo da certeza
das nove às cinco para ser respeitado
as fronteiras devem ser fechadas ele diz

meu olhar busca o invisível, as flores esperadas
eu ainda acho que temos de viver
com alguma suavidade no tempo do medo

comprar suas roupas
comprar sua saúde
comprar sua comida
comprar seus filmes
comprar seu colchão

havia um tempo em que se podia decidir o espaço
os direitos humanos não cabem no orçamento
a metáfora está em pedaços
os direitos do consumidor

meu olhar busca o que não sei
eu ainda acho que temos de viver um novo tempo
com alguma humanidade desconhecida

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, abril 10, 2017

Um novo céu

Uma vez, parecia valer a pena
acabar com o abrigo inimigo
as folhas se desfizeram em cinzas
as chamas alertaram a rebeldia

Essa gente fugia por caminhos
sem a esperança que os caminhos trazem
rumos de ruínas, futuro de fome
sobre as cabeças os aviões lançam morte

O amigo do presidente
recebeu ajuda no cozido tóxico
hoje aliados, amanhã quem sabe?
por ninguém o efeito foi ouvido

Essa gente fugia com seus filhos
sem a esperança que os caminhos trazem
rumos de ruínas, futuro encontro fatal?
sobre as cabeças os aviões lançam morte

Fósforo branco e o urânio empobrecido
Estão na luta contra o mal
por ninguém o efeito foi ouvido
Hiroshima não faria melhor

Precisamos proteger inocentes
mas se não são os nossos
pura propaganda e silêncio
sobre as cabeças os aviões no novo dia


Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, abril 08, 2017

140

"Vendo uma menina de 13 anos e rapaz robusto que sabe cortar cabelos e uma Nitroan -X nova, cor vermelha, capaz de voar a 120 km/h". 
140 se lembrava de quando, criança, havia sido obrigado pelo senhor a espancar seu pai, de barbas grisalhas. Como tudo isso começara?
Seu avô contava que, na fábrica onde trabalhara, foram cortados 10 mil empregos em 20 anos. Os novos contratados, trabalhavam até 14 horas por dia e não tinham nem férias, nem salários plenos. As fábricas se separaram e propuseram "redução agressiva dos custos". Agora, seu avô dizia, começara a trabalhar em cinco máquinas ao invés de duas. Sua renda caíra de 25 draimas para 13 por hora. Com o novo acordo, não receberiam nem a metade da aposentadoria que planejara. 
Mas seu pai já foi considerado servo. A dívida pública precisava ser paga. As prefeituras não podiam mais arcar com serviços de lixo e luz nos bairros e aumentar impostos acabaria com as empresas, era o que se dizia. O governo alegou que os trabalhadores andavam deixando seus postos de trabalho e uma lei aprovada pelo Congresso deu às empresas a propriedade dos funcionários, desde que obedecido um código de responsabilidade social. Os juízes, entretanto, nunca foram muito exigentes. Logo, as empresas podiam infligir castigos corporais, e com o tempo os acionistas viram os servos como uma sub-raça, um estado natural dado por Deus. 
140 não podia se livrar da lembrança de seu pai chorando depois de ter sido espancado por ele. 
O presidente falou com a nação pela rede:
"Estamos criando o dia do banqueiro. E também faremos uma guerra Deus abençoe etc."
Nesse dia, ele usou suas habilidades de servo digital para mudar a frase:
"Estão canalhas criando dia do banqueiro porque eles tem milhares de servos hipotecados. E também nós servos faremos uma guerra deus abençoe"

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, abril 02, 2017

Sem nome

Eu a encontro depois de algum tempo. Não está morta.
Carrega duas sacolas.
Pergunto se está dormindo no albergue.
[Brasil tem 12,9 milhões de analfabetos]
- Vou ver se entro, albergue não é a casa da gente.Dou algumas bananas. Qual é mesmo seu nome?
[Moradores de rua estão jogados à própria sorte]Deixei as compras na porta do prédio.
- Vai dar tudo certo, tudo de bom.
[Ação da prefeitura remove itens de moradores de rua no centro de SP]Pego as chaves e penso que podia ter dado mais. Penso nos servos da Rússia, como ainda estamos nisso?
[Casal de moradores de rua é morto a tiros na Zona Norte]
Qual é mesmo seu nome? 

Afonso Jr. Ferreira de Lima
 

terça-feira, março 28, 2017

Pipa na ocupação

dona juíza tenha piedade
um menino nessa cidade
lua procura no papel
aos sete anos de vida
mãe trabalha mas não pode pagar casa
limpando a sujeira do casarão
ele pintava anjos
crianças que o mundo esqueceu
aos sete e meio anos de vida
pombas e sangue no papel
essa gente que de medo vivia
um dia vem a bomba da polícia
crianças e a pipa voa
em cima do sujo vidro moderno
com o nariz na janela
observam a padaria em frente
pão quente dessa gente bela
aos oito anos vida
pombas e sangue
no desenho talvez
dona juíza tenha piedade
talvez o céu de estrelas
e a noite fria

Afonso Junior Ferreira Lima

quarta-feira, março 22, 2017

descoberta do mundo

meu poema não é sobre nada
é sobre a forma que eu procuro
para ver o que está oculto
para aventuras de ligação
precisei dos livros
é neles que busco o que não acho
conto de viajantes, mascates e ladrões
humilhados pelo ódio ao abstrato
aos poucos é que vejo onde me acho
aos poucos é que sei do que somos feitos
precisei da dúvida
para arrancar das veias a percepção
tudo já montado, tudo preparado
e é mudando as formas que eu procuro
o que as coisas são
debaixo do véu, da inundação
oceano da dominação
para além da automática visão
busco o que não acho


Afonso Junior Ferreira de Lima


domingo, março 19, 2017

Escolhas

Andava pelo aeroporto e parou na livraria. "Economia Socialista de Mercado". Tinha uma semana para ler aquilo. Timor, Filipinas e Birmânia vinham em seguida. Vivia cada semana de uma vez.
A moça que o atendeu, de pele muito branca e olhos verdes orientais, lhe pareceu familiar. Abriu seu 102 e tentou discretamente ver o código dela no crachá. Eles tinham feito amor, estava na sua lista.
Ele realmente tinha a impressão de ter passado por ali antes. Aproveitou para conferir o clima lá fora.

Andava pelo aeroporto e parou no café.
- Frapê de café cubano, por favor - ele abriu a mochila e achou "Economia Socialista de Mercado". Mais um livro que não conseguira ler. Abriu seu 102 e procurou quantos frapês de café cubano havia tomado naquele mês. Talvez fosse a hora de tentar o de morango, estimular o cérebro. Foi conferir o clima lá fora.
Uma moça de pele muito branca e olhos verdes passou e sentou na mesa ao lado. Ele sentiu alguma coisa. Ela pediu um frapê de morango e abriu seu tog. Era um 103, droga.
Tentou discretamente ver o código dela no crachá. Não conseguiu.

Tinha uma semana para ler aquilo. "Economia Socialista de Mercado". O aeroporto da Birmânia parecia familiar. Resolveu procurar na sua lista. Seu 102 estava esquisito. Estava difícil dar sentido àquilo tudo.

A verdade é que, depois que criaram o sistema de armazenamento externo, as pessoas pararam com as brigas inúteis, discussões filosóficas e fantasias sem sentido. Mas era um pouco complicado controlar o tempo. Algumas vezes fantasiava estar desembarcando no futuro ou no passado. Observar seu número na coluna onde suas cinzas seriam armazenadas depois de descontinuado. E se cada segunda-feira estivesse mesmo num lugar-tempo? Mas podia ter lido isso em algum lugar. Por sorte, tinha um dos melhores equipamentos de reanimação diária.

A moça que o atendeu lhe pareceu familiar. Enquanto esperava na fila, abriu o aplicativo para conferir o clima. Ele realmente tinha a impressão de ter passado por ali antes. Alguma coisa estava muito errada. Vivia cada semana de uma vez. Parou no café e pediu um frapê de morango.

Afonso Junior Ferreira de Lima


sábado, março 18, 2017

Sobre silly walks

nossa rotina de invenção

da cartola coisas que não são

nosso tambor, nosso laboratório

em alguma estalagem, maquiagem demais

seguir sua rota sem olhar pra trás

trocando palavras, imitando animais

fazendo o que acredita e ninguém mais

razão da loucura, espelho à venda

certo ou errado quem pode saber?

é preciso coragem para tanta aventura

na nossa carroça, contra a corrente

o mistério das silly walks

atrás da cortina, o nariz vermelho

dançando e cantando por puro prazer

acreditando na sua voz  e criando mais

seguir sua rota sem olhar pra trás


Afonso Junior Ferreira de Lima









quinta-feira, março 16, 2017

Mercadoria

Mercadoria pegou suas duas mercadorias na escola e passou no supermercado para comprar mercadoria.
Seu marido Mercadoria saiu do trabalho e foi na academia, depois comprou uma mercadoria para o jantar.
As duas mercadorias ficaram assistindo uma mercadoria na sala enquanto preparavam o jantar.
A irmã de Mercadoria ia se casar. Precisavam comprar um monte de coisas.
Ela estava cheia de mercadorias, mesmo que significasse um aumento no ritmo. É preciso correr para viver sem correria. Não correr e viver seria estragar tudo.
Mercadoria ficou até tarde no telefone com Mercadoria. Está roubando nosso tempo, disse Mercadoria, mas é por uma boa causa. Eles haviam conquistado uma boa mercadoria, tinham uma bela mercadoria, uma linda mercadoria para as mercadorias brincarem, davam às mercadorias uma boa mercadoria e lhes ensinaram as mercadorias necessárias para uma vida feliz.
Mercadorias dormiram como anjos.

Afonso Junior Ferreira de Lima





O império

A piscina azul parecia continuar no mar. O drink era amarelo, com um guarda-sol vermelho. 
- Mas nosso apoio aos bombardeios pode impedir que a comida chegue - disse o general inglês. Podem morrer milhares. 
- O que você quer? Um aliado inimigo na região? - respondeu o político democrata, herdeiro das Indústrias Collyn. 
- Eles não produzem seu alimento... Precisamos de reforma social, ou seremos sempre os vilões...
Uma mulher passou observando o general. Sua camisa de palmeiras o deixava com cara de americano?
O democrata respirou fundo. Culpa imperialista. 
- A competição leva naturalmente à concentração. Uma igualdade artificial não deve ser buscada para reprimir o direito natural de expansão, nem que isso signifique regime forte - ele disse, pedindo mais um dry martini. 
- O senhor está me dizendo que acredita numa missão civilizadora? - disse o general servindo-se de um taco mexicano. 
- Não, caro general. Mas o comunismo destruiu muitos proprietários. Qualquer anticomunista é um líder da liberdade. E o investimento precisa de governos convenientes. 
Ao fundo, dois lobistas começaram uma partida de xadrez com um ministro. Mas o general, tendo deixado sua mente vagar, retomou: 
- Apoiar o fascista espanhol não ajudou. A Comissão Din também pediu reforma agrária, porque os camponeses filipinos se revoltaram com os latifundiários. Baixos salários são bons para investir, mas como sair do feudalismo sem mudança de regime? 
O democrata lembrou da China, triste erro de avaliação, deixar os chamados nacionalistas, ainda que corruptos, perderem. Mas disse: 
- É aí que entra o inimigo. Queremos ficar isolados da corrupção do mundo, mas não seria absurdo o as riquezas da terra  serem desperdiçadas com povos primitivos? Então, o inimigo, qualquer um, ameaça nosso "way of life" - sim, aquilo era culpa imperialista; mas seus pais industriais o haviam ensinado a liderar os menos dotados, a conduzir os inferiores. Uma nuvem cinzenta surgiu entre nuvens brancas. Prosseguiu:
- Sabemos que sem a Grande Guerra os lucros com armas não haveriam crescido - e devem crescer.
- Não sei... Eu vi jogarem bombas contra os camponeses, uma guerra científica - Sabia que nada poderia ser mais conveniente do que pessoas economicamente subdesenvolvidas, divididas, mão-de-obra barata, dentro e fora - mulheres, negros, estrangeiros. Brincou com o guarda-sol vermelho.
- Eu... meu pai viu a repressão à oposição na Índia, ele leu textos sagrados indianos. O sangue de Jallianwala Bagh lhe dava vergonha. É preciso manter a elegância em tudo. 
O martini chegou. 
- O desafio é gerar liberdade e desigualdade com o mínimo de sangue e fome. É o fardo do homem branco. Como disse Roosevelt, precisamos congregar forças para lidar com as raças mais atrasadas do mundo.
De repente, a jovem saia da água. As nuvens cinzentas agora eram maioria. O drink do general parecia ter desbotado. 

Afonso Junior Ferreira de Lima




Adeus ao imigrante

querido amigo

parece filme ficção

a lei esmaga o coração

romeu e romeu interrompido


o dia é seguido pela noite, a noite, pelo dia

quem imaginaria o preço a pagar

o que você sentia não existia para

a Imigração


hoje você foi ferido de morte

hoje toda a treva com passaporte

parece ficção não poder amar


um céu azul sempre vem

assim como a onda trouxe na praia esse presente

quem sabe o que poderá chegar?


Afonso Jr. Lima

terça-feira, março 14, 2017

O sapo e o poço

Os monges começam a ensinar pessoas comuns. Rapidamente, por todo o país, as pessoas começam a conhecer o que antes só os nobres e militares conheciam.
Imprime-se xilogravuras com poemas e dramas.
Agora, Bashô pensa em como criar um poema que o homem comum possa escrever.
Ele caminha no jardim e fala em voz alta sem perceber:
- A primavera chegou.
Um grupo de borboletas azuis voa até a entrada da casa.
Cria um poema de duas partes. Alguém diz o primeiro verso e outro responde com o segundo.
Atinge sucesso na corte. Mas ele sai pelo país à pé.
- O Todo na Unidade; a Unidade no Todo, nos ensinaram os antigos - ele diz. Minha poesia é apenas o que acontece num dado momento.
A montanha, o lago, a lua, o gelo, o bosque de bambu, a pedra, o riacho, o pessegueiro.
Por todo o país, seus poemas estão gravados em pedra.
Uma borboleta branca pousa sobre "O sapo e o poço".

Afonso Lima

segunda-feira, março 13, 2017

O rebelde

Ninguém sabia no que ele estava trabalhando.
Seu neto de doze anos entrou na sala e disse:
- Vô, o que o senhor sabe sobre a lei de banimento dos casamentos inter-raciais de 1937?
Ele percebeu que devia fazê-lo.

Quando chegou, percebeu que as ruas estavam sujas e desertas. Um rapaz com uma arma chegou perto dele.

- O que você quer? De onde veio?
Ele viu uma poça de sangue no chão. Esperava que sua arma não fosse descoberta.
- O que está acontecendo? Chego de longe. Esse é meu país, mas eu não o reconheço mais.
- Venha para meu porão, disse o rapaz.
- Estamos caçando estrangeiros. Eles nos exploraram por anos e agora queremos vingança.
- Vocês tem uma lei que proíbe casamentos com imigrantes?
- Sim. Nosso Parlamento votou semana passada. Agora estão prendendo quem se manifestar contra.

O homem decidiu recuar um pouco mais. Precisava acertar no alvo.
Chegou na rua um minuto antes do primeiro-ministro sair de casa. Estava cercado de repórteres. Tinha de ter uma mira perfeita.
Logo, o homem estava rodeado de uma poça vermelha.

Tentou voltar ao ponto anterior.
O rapaz agora estava fumando num muro.
- Preciso saber uma coisa. O que tem a dizer sobre a lei de casamentos inter-raciais de 1937?
O rapaz pensou e o levou até a praça.
Um enforcado pendia azul na sua corda.
- A lei não foi votada. O primeiro-ministro foi morto antes. O rei abriu um processo. Enforcaram os líderes da conspiração fascista.

Seu neto entrou na sala e disse:
- Vô, o que o senhor sabe sobre a lei de banimento dos casamentos inter-raciais de 1937?
Ele era uma mistura de raças. Se a lei fosse aprovada, quem faria sua descoberta?

Afonso Junior Ferreira de Lima



o inverno não dura para sempre

um canto ainda ouço, azul o pássaro
um raio de sol, somos todos iguais
a chuva não dura para sempre

construímos torres de vidro
para o homem tomar água que corre na rua
ele está com o peito nu, lava os cabelos

construímos satélites
para o velho sujo e com unhas grandes
sentar na calçada e pedir esmola

construímos computadores
para uma geração sem história
desprezar a velha que vende cigarros no metrô

o sofrimento precisa sumir na névoa
perca todo o seu tempo querendo mais comida e plástico
se tornando o que nem quer ser

o corpo precisa de conforto
o corpo só vive com outros corpos
não vive um pássaro solitário

um canto ainda ouço, é a memória que insiste
o nosso silêncio é a nossa arma
o inverno não dura para sempre


Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, março 12, 2017

O menino dourado

Camila, Paulinha e Junior estavam na casa construída no bosque ao lado da casa do avô. Eles haviam ouvido que o bosque seria cortado. Junior havia sugerido o clube e seu pai fizera a casa.
- Nosso Clube do Verde vai sumir, diziam. Como vamos nos reunir para salvar a natureza num campo aberto?
Tio Nicolas que morava na casa do avô queria vender a madeira.
- Por que não perguntamos para o Grande Eucalipto? - disse Paulinha.
Grande Eucalipto falava com eles, mas somente à noite. Por isso tinham de sair de suas camas sem serem notados e descer até o bosque.
Os Sete Eucaliptos foram plantados pela avó e os irmãos da quando criança.
- Os peixes dourados do riacho viram o menino dourado, num salto, deixar cair as moedas do bolso, eles dirão onde as moedas estão e o menino mágico vai lhes dar o que pedirem. O peixe mais esperto se chama Mestre Vermelho.

Eles contaram a história toda aos peixes dourados do riacho. Mestre Vermelho disse:
- Uma moeda caiu aqui e ou vou buscar, disse o peixe. Mas a outra o Tatu Poeta pegou e terão de buscar na sua toca.

Camila, Paulinha e Junior lá foram. O o Tatu Poeta só saía à noite e tiveram de ir escondidos.
Ele estava na porta de sua toca cantando poemas e tocando sua gaita.
- Senhor Tatu, disse Camila, ouviu dizer que o o bosque vai ser cortado? Precisamos da ajuda do menino dourado. O Mestre Vermelho do riacho nos disse que o senhor sabe onde a moeda do menino mágico está.
Tatu Poeta disse:
-Na velha casa, vocês sabem, o gato preto fica o dia todo deitado e à noite sai para cantar para a lua. Sua voz estridente incomoda a minha poesia. Se vocês conseguirem incriminar o gato preto e fazer com que o seu avô o prenda pelo menos por uma semana na dispensa, eu ficaria feliz.
Assim, Camila, Paulinha e Junior  foram para a casa construída no bosque pensar no que fazer.
Paulinha teve uma ideia:
- Nós devemos roubar o queijo, que ele fique bem pequeninho e depois colocar a culpa no gato preto.
Assim fizeram. Sua avó os ajudou a comer escondido o queijo antes que endurecesse ficando na janela da casa de queijo quando o avô passava.
Quando ele perguntou o que estava havendo com seu queijo, Camila disse:
- Parece que o gato preto anda comendo o queijo antes dele endurecer.
E depois, voltaram ao bosque para pensar. Camila disse:
- O vô odeia quando as galinhas ficam espalhadas. E se roubássemos o milho das galinhas e colocássemos pelo bosque?
Assim, eles levaram nas suas botas milho até o bosque e as galinhas se dispersaram por aí.
- O que deu nelas - perguntou o avô? Minhas galinhas fugiram por todo lado!
- Foi o gato preto, disse Paulinha. Ele roubou milho e derramou por todo o bosque.
E o gato preto ficou preso na dispensa com água e comida.
- A moeda está aqui - disse o Tatu Poeta. Podem chamar o menino.
Assim voltaram ao Grande Eucapilto, que chamou o menino dourado. Seus cabelos eram de ouro e suas mãos de prata.
- Se você quer suas moedas de volta, precisa dar a eles o que eles querem.
- E o que vocês querem, perguntou o menino dourado.
Eles contaram.
Tio Nicolas dormia profundamente. Sua esposa havia ido visitar a irmã que morava longe. De repente, sentiu algo gelado nas suas pernas. Acordou num susto.
- O que é isso?
O lençol estava cheio de cobras.
- Somos serpentes negras e viemos vingar as árvores cortadas do bosque.
- Mas eu ainda não cortei árvore nenhuma!
Nesse momento, as serpentes desapareceram.
Tio Nicolas estava branco de medo e saiu de casa para observar o céu.
As crianças observavam atrás da casa.
- Pobre do gato preto, precisamos dar algum presente para ele em troca - disse Junior.
No outro dia, o tio disse ao avô que não iria mais vender a madeira do bosque.
A avô ouviu o que eles contaram e deu uma risada gostosa:
- Os Sete Eucaliptos têm amigos leais. Afinal, vocês defenderam o verde.

Afonso Junior Ferreira de Lima








sábado, março 04, 2017

O muro de vidro

A primeira impressão que eu tive foi que alguém errou a entrada e tentava abrir a porta de vidro fechada. Depois o rapazinho começou a beijar o vidro. O garçom fez um sinal e foi chamar alguém. O menino continuava como que forçando a entrada. 
Depois o segurança apareceu, e ele já estava longe.
- São os sem-teto - disse o segurança para alguém quando saímos. 
Imaginei o que deve ser para uma criança que está acampada na rua, sob plásticos pretos, porque o presidente achou melhor destinar o dinheiro das casas populares para pessoas com renda acima de 4 mil Reais - o que deve ser ver gente comendo sopa, bebendo chocolate, comendo pizzas deliciosas. 
(A verdade é que a pichação deve começar aqui: uma voz). 
Quando comentei sobre isso com uma amiga querida, mas que nasceu rica, ela disse:
"Não acredito mais em notícias da esquerda".
O isolamento e a segregação nos fizeram entrar num quadro de adoecimento coletivo, no qual uma análise imparcial é impossível. Além da tese filosófica de que inexiste "neutralidade ou superioridade epistemológica" precisamos ter espaços coletivos de acordo, nos quais a mais razoável verdade prevaleça: o jornal caiu no mais obscuro marketing; as instituições parecem surdas aos apelos do povo; a polícia reprime manifestações. 
Quando a elite toma para si uma "mentira racionalista" e insiste nela, o que temos é guerra. Políticos-celebridade apelam a nossa emoção, levantam nossa moral, não importa o resto. O "resto" pode ser violência com judeus e comunistas? 
O país foi varrido pelo ódio de classe média. Ódio médico, ódio legal, ódio empresarial. Fui recentemente expulso de um grupo no Facebook que defendia um parque na cidade. Motivo? Por que falar mal da atual gestão, essa do vende-se?
O partido há vinte anos no poder usa da repressão da verdade e do sistema de silêncio para não fazer quase nada e manter-se no poder como "inovador". 
Em outro grupo de bairro, fui ameaçado. Num terceiro, "você só fala de um partido". Interessante é que esse partido sofreu quatro anos de bombardeio da mídia e ninguém sabe as coisas que fez: calçadas, proteção aos dependentes químicos, iluminação, creches... A sensação é que "é tudo igual". A classe média regrediu para a negação. 
O resumo de tudo isso é que a classe média vive num mundo paralelo. Até que esse mundo não apenas beije o vidro - mas jogue uma pedra nele. 

Afonso Lima.

quarta-feira, março 01, 2017

a lua

não pensem em barcos num horizonte cinzento
vamos competir para ver quem comeu mais sorvete e tem um carro maior
espero que as pessoas não pensem em escritores
pensem em liquidificadores, vestidos e decoração de sala
espero que as pessoas não façam poesia
poesia é marca, a marca da superioridade, autoconfiança
sem pesquisa pelo oceano, pelas dobras que a pele faz
pesquisa pela pergunta que pode nos libertar
nenhuma curiosidade pela coisa estranha da vida
espero que os miseráveis sejam um alerta para todos
os que quiserem coisas do espírito
para os que pensarem que podem questionar a vida
longos silêncios e andar em círculo até descobrir algo - não
as pessoas comuns como erros da natureza
a lua pode nos fazer descer até os labirintos ocultos
onde moram figuras, posições e, portanto, os significados
não vamos pensar - a liberdade vive não no supermercado
mas na alma capaz de pensar um mundo novo
todo um sistema repousa sobre o nojo que
um velho sujo deve despertar por pedir comida
um único caminho cheio de plástico e brilho e informação
vamos acabar com as dores da alma
e acabar com o adubo que faz crescer a flor
porque as flores nunca se repetem e quem ganha com elas afinal?
a lua pode ser explorada e os genes podem ser um produto
nada de pensar sem rumo, nada de músicas sem plano
nada de passado relembrado ou faróis de Alexandria
não pensem em amigos num jardim sem lucro
não pensem em cisnes num horizonte sem dinheiro
não pensem em barcos num horizonte cinzento

Afonso Lima

domingo, fevereiro 26, 2017

Em busca

meu tempo não é um tempo de solidão
de vastas montanhas e água corrente
de generosidade
meus ossos falam com teus ossos
não serão tão diferentes
os nomes às coisas atribuídos
eu deixo para os inseguros
tantas coisas que eu não posso mudar
a morte que eu não posso esquecer
como as coisas saem do controle
mas agora
as coisas invisíveis serão desprezadas
em pedaços sou melhor talvez
pelo menos não imponho nada a ninguém
e aceito o que foi e será
tenho pouco mas me orgulho
honra e glória sem realização não quero
não quero nada nem sequer amor
eu venho lhes trazer o espaço infinito entre um passo e outro
porque estou cansado dos fatos, dos dados feitos de opinião
quero o espaço no qual força e fraqueza dançam juntas
a rapidez não resolve nada de fato
não é hora de mestres, mas de curiosos
meu tempo odeia
grandes verdades, pequenos sentimentos
horizonte róseo e pensamento livre
perder por um dia, que contentamento!
duvidar e sair do caminho
e quem sabe no tempo perdido se ache no outro um caminho
meu tempo não é de memória
lentidão, névoa e oh! tristeza
(a tristeza observa o pensamento da multidão)
não é de fracassar e ser ridículo
meu tempo esconde a dor
(porque pode ser que haja mais felicidade que essa falsa
rápida sob demanda)
a honestidade, que faz a diligência
quero deixar-me em aberto
tão perdido no improviso
meu tempo despreza o não resolvido
porque tudo pode estar errado
sou pétala na água
torre cinzenta esperando a tempestade
meu instrumento é tocado na montanha
tão confuso e lutando e caindo
estudo as formas da beleza e sou com muitos
meu tempo pensa que a velocidade é conquista
mas o espetáculo do campo de batalha assusta
valores corrompidos, vitórias mentirosas
homens tristes pensaram em novos sistemas
sou das conversas na cozinha, dos livros, da ação sábia
o que é é belo porque a vida é isso
meu tempo finge para si mesmo a perfeição.

Afonso Lima



traduzindo Emily Brontë - dois poemas

Minha alma não é covarde  (1846)

The following are the last lines my sister Emily ever wrote." (Charlotte).


Nada covarde a alma minha

Sem tremer nesse mundo de tempestades pleno

Vejo o Paraíso, que brilha!

E a fé brilha junto, e eu nada temo!


Deus, que é quem sou!

Todo poderoso - Divindade sempre presente!

Vida - que em mim pousou

Como eu - Vida Imortal - tenho poder em Ti!


Vãos são os mil credos

Que movem os corações dos homens: Vaidade

Ervas daninhas e enganos cegos

Ou a espuma em meio à Imensidade 


Em despertar a dúvida em Ti

Tão rápido amparados na Tua Infinidade! 

Ancorados com segurança ali

A pedra inamovível da Imortalidade!


Com amor que a tudo vem envolver

Teu espírito a tudo ampara e anima

Tudo atinge e faz crescer

Muda, sustenta, dissolve, cria e reanima


Quando terra e homem vierem a desaparecer

E sóis e universos deixarem de ser 

Quando sozinho estiver o Ser 

Toda a existência em Ti vai existir 


Não há espaço para Medo

Nem a mínima parte do seu poder pode ser apagada

Tua - TUA arte - Ser e Alento!

Tua Arte - não pode voltar ao nada!


versão: Afonso Jr. Lima


Lembrança (1845)


O frio sobre a terra - e a neve se acumula sobre ti
Longe, longe estou - frio no túmulo triste 
Meu único amor, amor por ti, será que esqueci?
Separada pelo Tempo, que separa tudo que existe 

Agora, sozinha, não mais meu pensamento vaga
Sobre as montanhas, nas praias invernais 
Abrindo as asas sobre o pântano e o que a terra traga
Teu coração nobre para sempre, mais e mais! 

O frio na terra, quinze dezembros sem vida 
Desses morros mortos tornados em verdor
Fiel é o espírito que lembra ainda
Depois desses anos de mudança e dor 

Doce Amor da juventude, perdoe se eu me esquecer 
Enquanto a maré do mundo me arrasta como vendaval
Desejos duros e esperanças do dever 
Esperanças que obscurecem, mas não podem te fazer mal!

No meu céu outra luz nunca foi acendida 
Não houve uma segunda manhã na minha vida, amigo
Toda a alegria da minha vida veio da tua vida querida
E toda a alegria da minha vida está nessa cova contigo

Mas quando os dourados dias de sonhos tinham virado nada 
E até o Desespero, saciado, não mais destruía
Então eu aprendi como a existência poderia ser apreciada,
Fortalecida e alimentada sem o auxílio da alegria

Então sequei as lágrimas da inútil paixão
Proibi minha alma jovem de buscar a tua 
Neguei o desejo ardente de te acompanhar 
De deitar nesse, mais que meu, esse caixão

Não ouso ainda ouvir o que o coração sente
Me entregar à dor torturante da Memória
Mesmo bebendo profundamente dessa divina angústia,
Como buscar o mundo vazio novamente?

versão: Afonso Jr. Lima 

-

No Coward Soul Is Mine

No coward soul is mine,
No trembler in the world's storm-troubled sphere:
I see Heaven's glories shine,
And faith shines equal, arming me from fear.

O God within my breast,
Almighty, ever-present Deity!
Life--that in me has rest,
As I--undying Life--have power in thee!

Vain are the thousand creeds
That move men's hearts: unutterably vain;
Worthless as withered weeds,
Or idlest froth amid the boundless main,

To waken doubt in one
Holding so fast by thine infinity;
So surely anchored on
The stedfast rock of immortality.

With wide-embracing love
Thy spirit animates eternal years,
Pervades and broods above,
Changes, sustains, dissolves, creates, and rears.


Though earth and man were gone,
And suns and universes ceased to be,
And Thou were left alone,
Every existence would exist in Thee.


There is not room for Death,
Nor atom that his might could render void:
Thou--THOU art Being and Breath,
And what THOU art may never be destroyed

-

Remembrance


Cold in the earth—and the deep snow piled above thee,

Far, far removed, cold in the dreary grave!

Have I forgot, my only Love, to love thee,

Severed at last by Time's all-severing wave?



Now, when alone, do my thoughts no longer hover

Over the mountains, on that northern shore,

Resting their wings where heath and fern-leaves cover

Thy noble heart forever, ever more?



Cold in the earth—and fifteen wild Decembers,

From those brown hills, have melted into spring:

Faithful, indeed, is the spirit that remembers

After such years of change and suffering!



Sweet Love of youth, forgive, if I forget thee,

While the world's tide is bearing me along;

Other desires and other hopes beset me,

Hopes which obscure, but cannot do thee wrong!



No later light has lightened up my heaven,

No second morn has ever shone for me;

All my life's bliss from thy dear life was given,

All my life's bliss is in the grave with thee.



But, when the days of golden dreams had perished,

And even Despair was powerless to destroy,

Then did I learn how existence could be cherished,

Strengthened, and fed without the aid of joy.



Then did I check the tears of useless passion—

Weaned my young soul from yearning after thine;

Sternly denied its burning wish to hasten

Down to that tomb already more than mine.



And, even yet, I dare not let it languish,

Dare not indulge in memory's rapturous pain;

Once drinking deep of that divinest anguish,

How could I seek the empty world again?




sábado, fevereiro 25, 2017

alma em lata

Você diz que tinha muitas ideias
e que isso não ajudou
um jovem precisa também de roupas bonitas
você ouviu a sua vida toda que o dinheiro é sujo
isso não é verdade
agora você quer encher a geladeira
a economia é um monte de besteiras motivacionais
e que o resto vá para o inferno
o dinheiro quer se reproduzir
você começa a sofrer para que ele aumente
o brilho, o sabor, tudo é deslumbrante
agora todas as coisas espirituais são vergonhosas
o tempo não pode ser desperdiçado
as bibliotecas estão vazias
não precisamos saber o que está acontecendo
o ócio da conversa pode descobrir coisas novas
mas palavra enche conta no banco?
e você é só você, você perde o respeito
por quem não é bom o suficiente
um dia as chaminés vieram
e a fome frutificou
aí vieram as utopias
e as pessoas foram mortas
as fantasias foram jogadas no lixo
o idealismo que piada
a humanidade mau gosto
a paz mundial é meu carro e uma promoção
as pessoas ficaram feias
a cortesia é uma bobagem
o instinto dos lobos vai nos levar longe
o problema com o ouro (belo e bom como é)?
ele deixa as pessoas meio doidas
elas vão cortar seu bosque vão mesmo
(cortaram o meu - e eu era só uma criança)
e se precisar elas comerão você aos pedaços
e a culpa será sua
e aqueles famintos deviam ter vergonha
agora as ideias já não importam
o que ocorre nas almas daqueles tão bem-sucedidos?
os bolcheviques de mercado vão engolir seu recuo e sua explicação
você não tem mais um alma
mas quanto ela poderia render?

Afonso Lima




Whitby

Ele escreve.

A cena de Fausto em que Mefistóteles está numa montanha cercado de morcegos dera muito trabalho. O gerente do teatro chega a sonhar com aquilo.

Lorde Kevin chegou à pouco em Londres e decide ir ao teatro.

Ele tinha gostado bastante do Macbeth do Lyceum Theatre. 

Conversara rapidamente com o irlandês que o administrava. Um homem interessante. Contara do sonho.

Um mês depois, resolveu distrair-se em Yorkshire e caminhava pelas ruínas da Igreja de Santa Maria.

Toda aquela situação com a histeria da contaminação e o Zola o haviam abatido. Ele o encontrara em um pequeno hotel em Londres, tendo fugido enquanto a multidão no tribunal gritava: "Traidor! Volta para os judeus!"

Encontra o homem do teatro caminhando entre os túmulos. Faz anotações.

Pergunta se não tem medo, se gosta de histórias sobrenaturais.

Comenta com ele sobre a história de Lord Byron, sobre o soldado morto na Turquia a quem é prometido o retorno à vida. Evidentemente, ele não sabe nada sobre o lorde, mas seu rosto expressa um estranhamento inquisidor.

Passam a se encontrar todos os dias.

Ele anota um nome de um jovem marinheiro, morto aos vinte anos.
O irlandês diz que sempre o impressionou a história do poeta Dante Rossetti. Ele havia enterrado a jovem esposa com o manuscrito dos poemas dedicados à ela. Os amigos o convencem a abrir o túmulo para publicar o manuscrito. A glória do autor veio daí. Dizem que, abrir o caixão, um ano depois, a moça parecia deslumbrante como se estivesse ainda viva.
O lorde lhe conta sobre um servo que também morreu muito cedo.

- Eu o encontrei com quinze anos, nas sujas ruas do subúrbio. Era belo. Eu vi uma prostituta beijando seu pescoço. Provavelmente, estava doente de sífilis. Eu gritei: "Saia! Esse homem pertence a mim". A mulher fugiu como se tivesse visto um fantasma. De fato, eu a teria matado se não fugisse. Eu me apeguei ao rapaz, ele viveu praticamente preso no seu castelo, temia que outros o vissem. Ele se apaixonou por uma criada. Por sorte, a moça adoeceu e pediu demissão, desaparecendo.

O homem olha nos olhos de Lorde Kevin e tem um estremecimento.

Tomaram chá com a mulher do gerente e sua filha mais tarde. Sua esposa era belíssima, mas fria, fora cortejada por Oscar Wilde. Conversavam sobre as viagens do lorde. Ela perguntou-lhe:

- É verdade, senhor, que na França, os radicais começam a exigir o controle do exército pelo governo republicano?

- Sim, o caso todo os está marcando como reacionários. Eu mesmo vi um clérigo na rua distribuindo panfletos nos quais se lia: "Sua mãe e sua irmã têm em você uma barreira. Você é a defesa da nação contra a infâmia da invasão estrangeira!" Mas... É o mesmo em todo o lugar. Na Rússia, na Alemanha, na França, aqui, todos querem a energia da expansão e louvam a guerra como força purificadora.

O gerente do teatro sonha.

Está sendo beijado por uma mulher.

- Saia! Esse homem pertence a mim.




Afonso Lima


sexta-feira, fevereiro 24, 2017

o sonho

na prática, o sonho não foi assim tão belo
não importa
abrimos uma porta e percebemos que tudo eram mentiras

quando os arquivos foram abertos
choramos
não importa
fomos presos e perseguidos
e ainda estamos aqui
querendo liberdade
querendo igualdade
querendo a verdade

o que importa é que acordamos
o que importa é que percebemos
o que importa é que sonhamos
nada é mais concreto que o sonho
não existe nada inevitável nesse mundo

Afonso Lima


terça-feira, fevereiro 14, 2017

Arquéolos

O lorde escreve.
Nossa tradição como filósofos naturais, médicos e oráculos remonta ao nascimento da humanidade. Agora, os alquimistas falam em ciência moderna, mas nós defendemos a civilização por séculos.
Temos uma lenda que circula desde o século IV depois de Cristo.
Um grande líder da floresta, Arquéolos, foi levado por César para ser apresentado a sábios de seu tempo, como Cícero.
Arquéolos, sendo experimentado mestre, percebeu entre os romanos nobres um imortal bebedor de sangue.
O demônio, claro, também pressentiu ter sido descoberto.
Ele tenta fugir, mas o druida o alcança e o paralisa com uma fórmula mágica.
Por sorte, um outro ser das trevas os viu e o homem foi afugentado por ele.
O imortal começou então uma campanha de propaganda na qual apresentava os druidas como bárbaros bebedores de sangue.
Conspirando na corte, conseguiu manipular os senadores para votarem uma guerra contra os druidas, um foco de revolta potencial, já que mantinham a memória do povo. Além disso, mesmo entre os soldados, o medo da magia era uma epidemia.
Assim os romanos os atacaram, para desgosto de César, e eles revidaram com maldições que mataram centenas, com a ajuda dos elementos da natureza. Ficou conhecida como a "Guerra entre a Espada e a Palavra".
Arquéolos, ao morrer, atirou sobre ele uma maldição para que ele nunca pudesse sentir o frio templo de seu coração ser aquecido pelo calor de outro coração.

Afonso Lima

Memórias de Paris

Philos Adelphos, 1840

Ouvi falar dele pelos amigos franceses que o viam perambulando pela rua mergulhado em pensamentos até alta hora da madrugada. Ele era um jovem estranho, com fascinação por livros, bibliotecas e livrarias.
Dizia-se que adorava enigmas e desejava sempre entrar na alma dos outros para adivinhar-lhes as intenções. Assim, cultuava por um lado a criatividade e, por outro, a investigação. Nos Estados Unidos, gostava de cartas, e estudou matemática, mas em Paris, parece ter se isolado numa mansão abandonada de ilustre família, com fama de mal assombrada. Passava os dias com as cortinas fechadas e só caminhava pela rua à noite.
Sua companhia eram os livros, não recebia visitas e escondeu dos conhecidos sua nova localização.
Mas o que eu tenho para contar é que, para observadores melhores que eu, esse rapaz desenvolveu o que talvez os cientistas da mente chamem de dupla personalidade.
Isso tudo foi confirmado pelo manuscrito que nos deixou. Nele, fala de um amigo, que na realidade nunca pode ser encontrado. Esse conto saiu numa revista local.
Mas o que mais me intrigou foi sua reflexão deixada em outro papel amarelado.
Eis aqui o que pensou, anotado, com certeza numa escuridão artificial feita por cortinas e iluminada por círios.

"O tipo de enredo que quero criar nunca foi visto ainda pelos humanos. Salvo talvez no caso de Édipo. Tem a ver com a capacidade imaginativa. Não significa que observando as coisas de muito perto nós as entenderemos. Pelo contrário, seria preciso recuar e imaginar as coisas mais absurdas. Por isso os artistas são cientistas de certa qualidade, mas divago.
Acho que a ambiguidade da percepção é parte de nossos julgamentos. Uma pessoa pode nos parecer de um jeito e, logo depois, seu exato oposto. Vivemos cercados de aparências. 
O tipo de enredo que pretendo criar é baseado em hipóteses (criações do não visível). Porque assim também é a vida, os fatos, como eu disse, são pouco para organizar as coisas. 
O terceiro elemento dessa fábula seria a curiosidade. Ela revelaria o que nos lança à ação, o fato de buscarmos sentido nas coisas que parecem absurdas. Ainda que ela seja essencial às histórias, aqui o passado está na frente.  
Assim, esse enredo seria não algo para chamar a atenção, mas sobre a escolha das perguntas, quando fatos passados em frente aos seus olhos podem não ser vistos. 
Quero ser o primeiro moderno a valorizar a intuição analítica, nesse novo mundo em que a observação científica apodrece entre cremes, máquinas e exércitos. Pois como já se afirmou, as perguntas enigmáticas sobre qual era o canto das sereias e qual nome Aquiles teve enquanto escondido entre as princesas não estão além de toda a conjectura".

Afonso Lima


Calendários

O lorde sentou em sua mesa e escreveu.

A sombra entrou na torre na qual os astrólogos conversavam. Um deles, percebendo, tentou chegar perto de seu amuleto para evocar uma fórmula de proteção.

O sangue caiu sobre mapas, instrumentos e papiros.

O imortal roubou a pequena esfinge dourada, supostamente resultado do amadurecimento do metal baixo, conseguida por eles. E notas escritas.

Agora podia embarcar em um veleiro que retornava da Itália depois de levar toneladas de trigo para a sábia Alexandria. Lá, César queria achar um matemático capaz de reorganizar o calendário, alguém que não manipulasse o tempo de forma a aumentar o ano dos altos funcionários amigos.

Mas isso dizia respeito a passar desapercebido pela astuta rainha, que tinha espiões por toda a parte.

E, de fato, ele foi preso.

A rainha queria saber a origem daqueles papiros e da esfinge.

Ele foi trazido à sua presença enquanto sentava no trono dourado, cercada pelos sacerdotes de Serápis.

A estátua do deus tinha a cabeça de ouro e olhos de pedras preciosas, que brilhavam até mesmo no escuro.

- O senhor conhece a lenda de Ônfale, que vestiu roupas femininas em Hércules e o manteve cativo por três anos? - perguntou a rainha levantando-se.

- Eu vim em nome de César em busca de um matemático - disse o imortal.

- Entendo... César prefere não ter de perguntar à sua vassala... Ouvi dizer que o calendário lunar está em desacordo com as estações.

Seus olhos negros brilharam.

- Mas existe algo no senhor que me deixa intrigada... Será que o senhor conhece o segredo do espírito do mundo capaz de preservar a vida?

Nesse momento, o prisioneiro rompeu as correntes e, como um vento furioso, fez jorrar o sangue de todos os sacerdotes.

Cleópatra ficou pálida e sentou-se. Ele teria preferido não mostrar-se.

- Parece que os imortais de fato existem. Sogístenes, meu melhor matemático será enviado com o senhor. Ele vem estudando o Sol há décadas. Se estou certa, um jovem de lábios grossos, cabelos ondulados e traseiro grande será bem-vindo em seu quarto. Aqui, a penetração não impede a cidadania de nenhum jovem. Eu nunca mais andarei sem um Tyet.

Ela fez sinal para que as servas limpassem aquilo tudo. 

Dois dias depois, ele voltava para Roma com o matemático.

Afonso Lima
 

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

O fruto

Ela se aproximou da pequena porta verde. Ela caminhou fazendo barulho no assoalho. Estava tudo podre.
A casa, abandonada há anos, era acompanhada por essa lenda. Um ser maligno se apoderara da casa e fizera o pai ferir seus próprios filhos. Podia-se conseguir o que se queria invocando o ser nessa porta.
E ela queria muito. Queria matar o pai do seu filho.
Como ele pudera? Transar com ela atrás de um muro e depois, quando ela contou estar grávida, ter lhe dado um soco e chamado de vadia?
Por alguns minutos ela pensou estar sozinha falando para o nada.
Então, a porta abriu.
Ela viu apenas um espelho sujo, no qual uma aranha de longas patas correu, escondendo-se.
A luz da lua caía sobre o chão empoeirado do porão, ela pode ver seu rosto.
- Vingança. Eu quero vingança - ela disse.
A porta bateu, gritou involuntariamente.
No espelho, por uma fração de segundo, um bebê com o rosto estranhamente adulto e pés que pareciam garras.

Afonso Lima

sábado, fevereiro 11, 2017

Metal H

Por que foram atacadas as milícias de empresas do reino norte? É isso que os jornais deviam perguntar, disse o ativista à rádio estrangeira. 
Ele desapareceria horas depois. 
A população lançara bombas no bairro dos forasteiros, e uma base de milícia da empresa XOR também fora alvo, matando dois mercenários. 
Eles ajudavam à casta dominante a manter a extração do metal H, que alimentava a economia do norte. 

*
Alguns décadas antes, havia sido patrocinada pelo norte a guerra por grupos extremistas para abalar o "Continente Inimigo". Uma armadilha. 
Os guerreiros continuaram armados e consideraram sacrilégio uma invasão posterior no solo santo. Acabaram atacando os antigos aliados. 
*
Há cinquenta anos, um governo democrático fora removido. O nacionalismo foi seu crime. Uma ditadura se alastrou, permitindo acesso ao metal. Correntes extremistas fizeram uma revolução.  

*
O presidente do norte fez seu primeiro milhão com ajuda de seus amigos exportadores de metal H. As agências foram proibidas de investigar os extremistas internacionais. 
Acho que não queremos saber a verdade, disse um agente anônimo.

Afonso Lima

terça-feira, fevereiro 07, 2017

O processo legal

- Mas o senhor não tem provas contra mim?
- Na colônia a lei comum não se aplica.
- Eu sou professor.
- Foi declarado um combatente inimigo.
Ele levava livros na pasta, outra língua, foram queimados. Ele ligou para o consulado. 
- Eles disseram que se eu me declarar culpado e assinar uma declaração, não serei preso preventivamente e responderei ao processo por "laços terroristas suspeitos" em liberdade, apenas indo depor diariamente no Departamento de Segurança Interior. 
- Não assine nada!, disse o homem do outro lado da linha. 
O cônsul veio correndo, tarde demais. 
Foram colocados em aviões e andaram por nove cidades sem terem acesso a um advogado. 
Na colônia, todos os funcionários eram brancos. Gostavam de jazz e gim. Iam à missa todo o dia.  
Os combatentes inimigos não tomavam banho quente. Os combatentes inimigos comiam pouco. Os combatentes inimigos não ligavam para os parentes. Os combatentes inimigos dormiam com luz acesa. Os combatentes inimigos era interrogados por horas. Os combatentes inimigos eram surrados. Os combatentes inimigos podiam ter os pés e mãos algemados. As filhas dos combatentes inimigos tinham medo e ódio. Os combatentes inimigos podiam morrer. 
- Qual o meu crime? Qual o meu crime? - ele gritava enquanto insetos eram colocados em seu corpo. 


Afonso Lima





canção do sapo aquecido

sapo fernando disse
pra sapo mateus
o sapo andava de noite
ia longe ia longe

sapo mateus respondeu:
eu tinha uma namorada
na balada na balada
agora não tem mais nada
na estrada na estrada

eles querem andar de carro
sai caro sai caro

Afonso Lima

domingo, fevereiro 05, 2017

vende-se

meu tempo não é de rima
bacaninha
minha letra no tempo
do corte
o prefeito dinheiro
quer novo ritmo
já era
amor estrela e poesia
era de nada de graça e cinza
minha letra é pura gasolina

o buraco tá mais fundo
o prefeito mais na foto
o veneno mais na água
fura a mentira
lavada na alma

meu tempo não é de mãos dadas
minha letra no tempo do mando
pele ouro língua ouro
verde ouro morte ouro
o poema calcula
era sem rima
gasolina


Afonso Lima

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Pais e filhos

"Hoje, 98% dos municípios brasileiros dizem possuir algum dependente da droga... Segundo o estudo, 80% dos usuários de crack no País são homens, não brancos (negros ou pardos), sem ensino médio e sem emprego ou renda fixa. (01/03/2015 - Carta Capital)
"Chega a 465% de aumento no número de apreensões por tráfico em dez anos"  (Zero Hora)
A capital gaúcha está em segundo lugar entre as cidades com mais dependentes químicos, me diz alguém.
Observo o número de homens pobres que vagam pela cidade, miseráveis, ao lado das avenidas, nos viadutos, nos gramados. 
Um motorista do Uber fala agitadamente, não sabe se deve abandonar o filho, a nova mulher insiste. Ela diz que o sofrimento nunca vai parar.  
Um taxista diz que tem de sustentar o filho, a mulher e seu filho, que ele tem 20 anos e já se internou três vezes, o aluguel tem de ser menos que um salário mínimo, mas isso só tem nas vilas, um amigo liga, chama pra uma festa, bebe e daí já era, ele diz, na última casa vendeu até o fogão à lenha do dono. Sei que meu filho é doente, mas fico louco quando ele vende um tênis novo de marca dado pela mãe e seis pessoas comem a cesta básica que nós damos a ele, diz. Um dia eu peguei uns caras, fomos até uma vila, eles tinham um pacote nas mãos. Depois de algumas vezes, percebei que o pacote era dinheiro que juntam dos dependentes na rua, alguém vende por ali, depois levam a uma loja qualquer. Um deles disse, se o fulano estivesse aqui eu apagava, era um que está roubando a boca deles. O tio tá trincado, diziam, porque estava ouvindo Marley. Se ele soubesse o quanto já lutei contra essa merda. 
Contam-me o caso de um casal de namorados que para de carro num sinal. O namorado dá algumas moedas a um morador de rua. A moça começa a chorar. É seu pai. 

Afonso Lima



sexta-feira, janeiro 27, 2017

Novo Mundo

Ela sentava no colo do avô.

Ele apoia a redução nos gastos do Estado e nos impostos.

Ela nadava na banheira com o avô.

Ele sugeriu a abolição do imposto de renda no Congresso.

O avô perdeu sua licença e parou no hospital.

Ele também apoia o sistema de saúde como sistema de livre mercado com maior competitividade e portanto se opõe ao sistema de saúde universal.

O avô teve de sair do país.



Afonso Lima

Trabalho rentável

A placa na entrada da fazenda informa: bancos públicos a financiam.
Sem água. Dezoito aulas de trabalho. Leite azedo e comida podre. Colchões sujos e baratas.
O Supremo mandou ocultar a lista dos empresários sujos. As equipes foram reduzidas á metade.
O fazendeiro diz:
- Vocês focam no campo, e a construção? Vocês lembram dos que levaram um tiro? O fazendeiro está livre.
O motorista pede que eles se apressem.

Afonso Lima



quinta-feira, janeiro 26, 2017

Ao poeta


O prédio estava em reforma. Eu desenhava quadrinhos, tinha 12 anos.

Uma sala com um artista. Não sabem como ajudar.

Leio agora na parede sobre Theo Wiederspahn, nascido na Alemanha em 1878. Quando mostrou a planta do prédio, em 1915, a municipalidade temeu que as passarelas sobre a rua ligando os dois prédios de sete andares caíssem. Era o primeiro concreto armado de Porto Alegre.

Antes dos assisistas e borguistas fazerem acordo em Pedras Altas (castelo agora colocado à venda pelo estado).

Em 1928, a cidade ganha avenidas largas pavimentadas.

Em 1985, cria-se o Ministério da Cultura, logo a comunidade exige um centro cultural em homenagem ao seu poeta.

Vejo uma galeria fechada. Um bar fechado.

Há alguns anos atrás, o cinema quase fechou porque o patrocínio morreu.

As portas quase fecharam, não se pagaria segurança.

Tempo, tempo, tempo, tempo.

Na parede: "Eu era o assunto de que tratava o livro", tradução do poeta.


Sento numa cadeira solitária na passarela, abro um livro.


A literatura tão transparente

quase fada, sinos na carroça

labirinto da vida, a poesia leve pequena

cavou no tempo um espaço



Seja diferente

o gringo no jardim japonês

colunas rosadas - o rio ao fundo

beatles passando na cidade faroeste

no quarto, poesia faz o aço



Ame o diferente

california dreaming nuvens um raio de sol

lâmpadas vermelhas na rua dos cataventos

vento e barcos no dia cinzento

a primavera em vermelho, foto, sino da tarde

o vento existe, vida resiste


Afonso Lima



quarta-feira, janeiro 25, 2017

Movimento TempoEspaxo.

O Tempo entrevista Bolañi para a TV.
- Por que você diz que essa história lhe marcou? Os poetas foram devorados?
- Revoltas de rua, barcos com trigo atacados, caminhões parados, Congresso paralisado para que se criasse uma crise que chamasse intervenção militar. Milhares de voluntários se oferecem para distribuir comida e dirigir caminhões. Enquanto isso um professor solitário escreve uma ficção científica em sua casa de madeira na qual paira um quadro de Ramón Gómez da Serna, pioneiro da vanguarda espanhola.
Na história, um homem surdo que vive em uma colônia com cinco tripulantes em Vênus se apaixona por um ser abstrato chamado Música. (Surgiriam teorias de que uma leitura hermética revelaria "casualidades", "símbolos" e "profecias"). Ele criara o Movimento solitário TempoEspaxo. Só conseguem fazer amor quando, insone, olhando a lua cheia que cai em sua cama, ouve a voz de Calipso dessa deusa e começa a dançar. Seus colegas planejaram seu assassinato, imaginando estar louco. Música o avisa e ele desce até uma gruta na qual seres de luz comem sua estrutura, transformando-o em som.
- Por que você diz que essa história parece importante?
- O professor solitário se tornou um filósofo do regime. 

Afonso Lima 

sábado, janeiro 14, 2017

Saturno

A empresa prometia um sono tranquilo, sem sonhos, como substituto do suicídio.
As pessoas flutuavam em capsulas dentro da estação espacial Saturno.
Nunca se imaginou que um deles, ao acordar antes do tempo, narraria a viagem a uma dimensão estranha.
- A Rainha Metálica domina o planeta mais desenvolvido - Duplo - e comanda os demais com chefes e vassalos locais. Uma guerra estava sendo preparada por dois planetas rebeldes, mas a Rainha tem uma rede de espiões poderosa e foram lançados ao espaço milhares de inimigos (imagina-se que alguns possam vir para esta dimensão, depois de uma tempestade cósmica). Fui preso para verificação, assim eu supunha, e ela me levou para seu castelo. Naquele universo, as pessoas são identificadas pelas suas ações, qualquer subjetividade é considerada mau gosto. Eu, portanto, era um selvagem. A Rainha podia ver o futuro, mesmo de dimensões vizinhas, ela previu uma guerra da Rússia e da China com os Estados Unidos e mostrou imagens de regiões inteiras deste país devastadas por bombas nucleares. Finalmente, no laboratório do castelo, eu pude ver fantasmas de meus companheiros de Saturno, suas almas aprisionadas em capsulas sem que tivessem consciência. Com sua energia eles alimentavam a teia de telepatia da Rainha. E eu? Você acordou dentro do sonho, ela me disse, e por isso vai despertar logo. Assim fui preparado para voltar a Saturno e lutar na guerra por vir. 
A empresa decidiu avisar o presidente. 

Afonso Lima 

quinta-feira, janeiro 12, 2017

O Pai

Ramalho foi expulso da igreja.
O padre disse que ele vivia com várias mulheres e havia traído os índios. 
O senhor Vereador e Guarda-Mor foi fundamental para evitar o massacre, disse ele ao bispo, mas
as mulheres que garantiram a sobrevivência viram seus irmãos virarem forçados.
O prefeito pensava que João seria um dia um santo que chegou antes de Colombo, o paulista pioneiro. 
O bispo pediu aos padres que começassem a escrever sobre o Homem, como prendia os índios inimigos e os vendia aos portugueses, o filho que mandou com os padres para buscar índios, a forma como os índios emplumados atacaram os estrangeiros. Historiadores trabalhariam anos para reverter as cartas dos jesuítas. Pai excomungado. 
Em 1975 a ditadura militar queria realizar a Festa da Padroeira do Brasil no Ipiranga, o regime autoritário abençoado por Deus. E o Arcebispo proibiu. Criaram uma cerimônia para remover os ossos de João para o Ipiranga para uma celebração nacional. 

Afonso Lima

domingo, janeiro 08, 2017

Espionagem

Os detetives esperavam o suspeito sair do apartamento.
- Aí eu via aquele cavalo tomando chuva, puta tempestade...
- Mas a gente falava do quê mesmo?
- Disso, do bicho preso. Sei lá, é tipo um Alien no nosso regime.
- O nosso ministro me dá arrepios. Tem um passado obscuro.
- Será que é um abandono planejado? É tipo trilha do Tubarão, John Williams....
- Um taxista me disse que o governo criou a pena de morte interna porque não pode mudar a Constituição. Os ordinários dos direitos humanos, ele disse.
- Vivemos tipo Blade Runner. Lembra do infiltrado? Os manifestantes serão presos. Alguma coisa está errada.
- Quando falo com os taxistas, puta, eles querem sangue.
Uma moto passou e o rapaz empinou com volume máximo.
- Será que o marido vai se vingar dela?
- Nosso trabalho é espiar. Psicose.
O homem saiu com um pacote embaixo do braço.

Afonso Lima