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domingo, julho 23, 2017

Serpente

Saio na varanda, a lua imensa

Visto minhas asas de serpente
Aqui não existe mais esse eu estreito
Observo edifícios e pântanos na mesma claridade
A doença do mundo apagada
Eu sou uma serpente de fogo e navego
a energia que liga as fronteiras entre as moléculas

Agora, o silêncio calou as conversas na feira, nas portas
O frio dominou os vales, o mundo foi alterado
Jovens com hinos de ódio para perpetuar a opressão
Exércitos de homens de ferro erguem-se pela herança suja

Esquecimento envenenou as crianças com um eu
O dragão filho do céu enfrenta o dragão da terra
Uma serpente úmida, a armadura da pretensão
Cantam hinos de sangue para perpetuar a guerra

Observo a dança e o deserto na mesma claridade
O barulho do mundo apagado
Eu sou uma serpente de fogo e navego
a energia que liga as fronteiras entre as moléculas

Afonso Junior Ferreira de Lima



segunda-feira, julho 17, 2017

domingo, julho 02, 2017

Da utilidade

Eu o encontrei num bar em Nova Iorque. Era um homem bem vestido, discreto, cabelos brancos. Só depois de um tempo percebi seu sotaque. Ele me pareceu misterioso. Logo notei que estava me observando com certo desprezo. Ele me contava sobre suas funções. Narrativas. Sua infância. Jesus nunca havia estado na cruz. Cristianismo dos guerreiros. A ciência sobre os inferiores. O padre falando sobre o espírito controlando o corpo, o comunismo como força materialista. A desordem estava destruindo o mundo. Eu pergunto se algo mudou. Eu recebi meus documentos novos no navio, ele diz. O mundo precisa acabar com a rebelião. O senhor tem seu sangue e sua terra, mas com um telefone eu posso prendê-lo. Acabamos nosso drink. Eu saí com o coração apertado. Um judeu perigoso ou um criminoso anticomunista?

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, julho 01, 2017

terradeninguém


Será, existe mesmo uma terradeninguém entre o fazedor e o mundo, eu posso, será, fazer o jovem esforçado que estudou teoria crítica se emocionar com 15, 20, 25 centavos com as horas contadas até 700, com filhos soltos pela oficina, o jovem trabalhador que, ops! apontou seu saber e matou, uma criança que perdeu quatro dedos, eu tenho de fazer o pós-crítico leitor em Direito forte e saudável pensar, Agora está frio, estrelas no céu, Dormi muito tarde, Ontem nem almocei, A comida ruim, Prefiro miojo, belo e inteligente, ducha quente, ovos e bacon, que nunca saiu de seu lugar para buscar comida, bem informado, bem vestido, que pensa talvez, E empresas que estiverem inclusas na lista são obrigadas a fechar as portas, e, E daí lista de trabalho escravo, você que chora, você que nunca, Comida estragada, Uma vez, pulga, percevejo, será, eu posso, O dono, nem ajuda médica, caminha na praia, ele que sabe de tudo isso, ele que, veja!, uma lágrima talvez, viu na televisão, nunca 15 centavos, e o fazedor e o mundo, você que eu vou emocionar.

Afonso Junior Ferreira de Lima