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Crônicas

Por que votar em Dilma e não em Aécio?
Ou melhor: Por que votar PT e não PSDB?

É inegável o papel das mídias nessa eleição. Já virou lugar comum. Se antes não eram simpáticos às propostas petistas, nessa cada uma mostra a sua cara e faz a maior campanha ante petista nunca visto na história desse país.

Em 1989, quando Lula encostou em Collor, a surpresa foi geral e o susto também. Eles ficaram descolados, sabendo que o povo brasileiro não aceitava mais o voto de cabresto e que as mudanças se faziam necessárias. Em 94 e 98 o plano real venceu as eleições, foi o tempo da estabilidade econômica. Mas estabilidade pra quem? Para o grande capital. Os bancos enriqueceram apoiados pelo governo que lhes garantiria a não quebradeira. Em troca os investimentos na economia, patrocinando privatizações, principalmente com capital especulativo na bolsa. O capital vindo de fora, garantiu a sobrevivência do PSDB.

Mas qual foi o crescimento do país nesse período? Houve crescimento de fato?

O PSDB rezou pela cartilha dos neoliberais: Ideologia identificada com o Estado mínimo, recessão com alta taxa de desemprego, alta taxa de juros, desorganização da sociedade desconstruindo o movimento sindical reivindicatório, capital especulativo vindo do exterior, baixas reservas, pouco investimento na indústria, pouca credibilidade dos credores, aumento da dívida externa, alta do dólar, pouco investimento em infraestrutura, pouco investimento em programas sociais, nenhum em cultura, arrogância no trato dos projetos em educação, sucateamento das universidades públicas, privatizações sem critério, sucateamento dos bens públicos agravado pela desconstrução do funcionalismo público com o estímulo as demissões voluntárias, desprezo pelos aposentados que contribuíram durante 30 anos na Previdência e que foram taxados de “vagabundos” por FHC, o fator previdenciário e, principalmente, pouco crédito na praça não possibilitando o acesso da classe trabalhadora aos bens de consumo.
Isso basta?
Em 2002 a mídia arrefeceu, acreditando que o candidato Lula, “mais amadurecido” e “menos radical”, poderia levar o Brasil ao caminho do desenvolvimento. Lula teve que assinar um manifesto para acalmar o capital e os especuladores. Lembram? Mas isso não foi o suficiente, logo começaram a entender que para o país se desenvolver era preciso um alto investimento nas camadas populares, com a criação do Fome Zero, do bolsa família - o maior programa de transferência de renda do mundo, que possibilitou às famílias mais pobres a pelo menos comer diariamente. Com isso o dinheiro do bolsa família passou a circular em regiões onde o trabalhador rural recebia R$ 5,00 por semana. O resultado da implantação do programa foi um maior desenvolvimento nessas regiões. Uma simples matemática.
Em alguns municípios houve calçamento nas ruas e a chegada de luz elétrica promovido pelo programa “Luz para Todos”. Maior dinheiro circulando, maior desenvolvimento. Algumas famílias puderam ter pela primeira vez uma geladeira.
Um dos marcos da gestão Lula foi o pagamento de toda a dívida externa brasileira, quando FHC, o PSDB de Malan, havia deixado o país nas mãos do FMI, recorrendo a ele em 1999 e 2002.
Logo então, surgiram as primeiras denúncias de corrupção envolvendo altas figuras do governo no escândalo conhecido como “mensalão”. Era o prato feito que a mídia precisava para começar o seu périplo de notícias contra o governo. A mídia “ética” entrou em campo e com seus colunistas palpiteiros iniciaram uma campanha de desconstrução dos ganhos sociais, incutindo na opinião pública os altos gastos com esses programas, através da crítica de que o governo gastava mal “o meu, o seu, o nosso” dinheiro. As análises políticas sempre foram pautadas por uma visão moralista e nunca pelo que representa o jogo político numa democracia liberal.
Ainda no roldão “ético” falaram muito sobre o aparelhamento do Estado ocupado por “petistas” que só queriam assaltar os cofres públicos. A palavra aparelhamento vem de aparelho, usado na ditadura militar, para designar lugar onde eram tramadas ações “terroristas” contra o Estado. A apropriação do termo já mostra que caminho ideológico que eles seguem.
Qual governo que não coloca nos postos chaves pessoas de sua confiança? No PSDB até um genro de FHC foi nomeado interventor no evento do apagão. Para eles é quadro técnico, no PT é aparelhamento. A política de alianças que precisa ser costurada para poder governar o país e vencer a burocracia, exige ampla articulação na base. Essa é a política brasileira – a democracia liberal.
Quando do julgamento do “mensalão”, surgiu a figura do grande salvador - o julgador do STF, que flagrantemente levado pela “opinião pública”, optou pela condenação sumária com absoluta falta de provas. Isso abriu um precedente perigoso, porque a mais alta corte julgando e condenando sem provas abre jurisprudência em todos os tribunais do país. O país passa a ter um regime de exceção, onde suspeitos de crime são condenados sem direito amplo de defesa.
Em 2006 Lula se reelegeu, venceu o fantasma do mensalão e deixou o governo com alta taxa de aprovação pelo povo brasileiro, o que lhe garantiu o lugar de grande vitorioso em 2010 elegendo sua candidata Dilma Rousseff.
O governo Dilma tem ratificado as políticas públicas do PT no que diz respeito a manutenção dos programas sociais, do aumento do crédito, cedendo um pouco a inflação mais alta para garantir a manutenção do emprego. Mas isso afugenta o capital especulativo, que perde com a inflação. Esse capital que mantém a balança comercial, porque com dinheiro em caixa você pode negociar prazos maiores a juros menores.
Em 2008 houve uma crise mundial, a quebradeira dos bancos americanos, acabou produzindo um desastre econômico mundial que afetou economias sólidas como a da Alemanha na Europa. Aquilo que poderia atingir em cheio o Brasil em outras épocas - a tsunami virou uma “marolinha” conforme Lula profetizou. E por quê o país resistiu a essa crise? Porque tinha reservas suficientes para viver essa e outras que viessem. Hoje as reservas brasileiras estão na ordem de R$ 320.000.000,00 contra os R$ 20.000.000,00 deixados pelo PSDB em 2002.
A quitação da dívida externa mostrou aos países em crise que o Brasil tinha estofo e credibilidade, porque honrava seus compromissos. A desgraça dos países mais ricos era a alegria dos Brics, porque a nossa moeda continuou forte perante ao dólar e ao Euro. Tínhamos capacidade de investimento suficiente que nos garantiriam bons resultados na economia.
Seis anos mais tarde, com a economia nos países ricos se ajustando e os EU voltando a crescer, naturalmente os países pobres pagam a conta, com o capital especulativo migrando para outros portos. No mundo todo, com a exceção dos EU, o crescimento será muito abaixo do esperado. Esse não é um fenômeno da política econômica do PT. Essa é a lógica do capitalismo neoliberal, uns perdem para outros ganharem muito.
Escândalos de corrupção pipocam por todo canto. Todo ano de eleição é a mesma coisa. Ninguém é santo na política. Essa democracia liberal, sem financiamento público de campanha, força os partidos a buscarem recursos nas grandes empreiteiras, nos bancos para continuarem seu projeto de poder. Essa prática da corrupção tem que acabar. Acabar principalmente no ninho dos que aprenderam a fazer política sem ética. E aí cabe uma mea culpa do PT. Interessante é a oposição se colocar como não querendo o poder mas sim fazer o melhor pelo país e pelo povo brasileiro.

São pessoas iluminadas, com os melhores quadros e que tem uma solução mágica contra tudo isso que está aí.
O PT em vários momentos assumiu esse discurso contra os adversários. A única diferença é que o PT governou com o povo brasileiro, porque quando coloca no seu orçamento as altas e necessárias despesas com os projetos sociais, amenizando uma dívida histórica de 500 anos de povo oprimido pela falta de oportunidades, já indica em que direção vai o nosso país. Eles não, governaram com os ricos, para uma minoria bem formada nas boas escolas de formação técnica, mas sem conteúdo humanista, com valores que compreendam as relações humanas. Nesse rol incluo as confessionais, com seu discurso contraditório e que sempre primaram em manter a “boa clientela” que as sustentam.
Quantos desses tecnocratas não passaram por essas escolas e ainda se orgulham disso? E vice versa. Eu mesmo trabalhei numa escola religiosa que reuniu os alunos no pátio no dia 15 de março de 1990, para cantar o Hino Nacional, hastear a bandeira em frente a um retrato imenso do presidente que tomava posse naquele dia e que havia sido ex-aluno de lá. Esse presidente era Collor.
Nada justifica a corrupção. Nada justifica o absurdo do superfaturamento com o dinheiro público para financiar campanhas políticas. Mas onde estão os corruptores? Onde estão as grandes empreiteiras que forçam os governos a fazerem adendos nos contratos em troca de propina?
Onde está o processo do “mensalão” mineiro, o pai dos desvios de dinheiro público para campanha de políticos da base do PSDB? Porque não houve pressa no julgamento pelo STF se foram descobertos na mesma época? E a compra de votos lá atrás no Congresso Nacional para garantir a reeleição de FHC? Porque a mídia investigativa nunca se preocupou em investigar isso? Onde estão os escândalos da “privataria tucana”? Por que nunca foram investigados? E os escândalos da privatização das teles no governo do PSDB? E o escândalo do metrô, envolvendo políticos tucanos por diversos governos em SP? E o aeroporto financiado com dinheiro público nas terras da família Neves em Minas?
Eles se comportam como se isso não fosse com eles. Nunca investigaram escândalos e FHC sempre barrou qualquer CPI no Congresso. Ao contrário do governo do PT que tem na Polícia Federal a autonomia para investigar a denúncia e prender quando há comprovação. Segue o que determina a Constituição Brasileira. Não engaveta escândalos e nem persuade o Procurador Geral da República. Se age assim é porque descobre onde está, investiga e toma as providências necessárias.
O governo do PT tem autoridade para lidar com isso porque nos seus governos foram descobertos esses “mal feitos”, alguns que até se voltaram contra si próprio. Que autoridade moral tem esses políticos de oposição para falar em corrupção no seio do PT?
O desejo de mudança faz com que a classe média brasileira se esqueça do que era esse país há dose anos atrás. Esquece que eles deixaram o país com uma alta taxa de juros e com alto desemprego. Esquece que o PT encontrou um país sucateado. O brasileiro médio não tem a noção do significado da política nas suas vidas e prefere se manter na ignorância do que ser agente dessa transformação. E aí prefere seguir e acreditar nas informações passadas pela mídia, que sem fazer uma análise segura, tendência a colocar os políticos num mesmo saco de gatos e falar mal da política.
O governo do PT mexeu em vespeiro, com Leis que garantiram a criminalização do homem que bate em mulher e a união estável para os casais homo afetivos. Discute a criminalização da homofobia. Trouxe para a sociedade a discussão desses temas recorrentes, mas que os reacionários e as instituições religiosas insistem em não aceitar.
Criou a Comissão da Verdade onde os torturadores estão finalmente se revelando, abrindo uma ferida que não quer cicatrizar e que diz respeito a uma parcela da família brasileira, as famílias que perderam seus membros nos porões da ditadura. Isso incomoda muita gente.
Garantiu o programa de cotas raciais nas universidades públicas, dando real condições a participação dos negros na vida universitária, para horror da classe média que precisa ver seus filhos estudando muito para disputar as vagas que lhes cabem.
Possibilitou o crédito para o acesso da classe trabalhadora aos bens de consumo. Encontramos hoje nos aeroportos vários trabalhadores viajando com conforto para suas terras de origem indo visitar suas famílias. Essa gente de sandália de dedo e bermuda.
Com isso estamos assistindo a uma reação de parcela dessa sociedade que não aguenta mais dividir o mesmo espaço com pessoas de classes sociais diferentes. Não aceitam a diferença, reagem a tudo isso com uma onda de moralismo achando um absurdo tantas mudanças que tiram seus privilégios. Estamos assistindo a uma “ascensão conservadora da sociedade” como diz a filósofa Marilena Chauí.
E sem dúvida a mídia faz parte disso tudo. Todo veículo de comunicação é autoritário por princípio, porque não dá o direito do contraditório, da discordância imediata. Aquilo que é dito é tido como verdade e até que se diga o contrário o tempo passou. Essa ideia liberal de que se você discorda desse ou daquele jornal basta você não lê-lo, é pura falácia, porque cada opinião emitida é um registro na história com consequências nefastas em alguns casos.

O marco regulatório não cerceia a liberdade de expressão, apenas a qualifica. Hoje, o que mais temos nas mídias são os palpiteiros de plantão. Pessoas despreparadas e tendenciosas que não concordam com as políticas públicas encaminhadas pelo governo petista. Todos, absolutamente todos têm uma opinião a dar, algo a dizer. E num momento de luta acirrada na eleição, as opiniões são sempre contrárias.
A mídia que reflete o pensamento de uma parcela da elite nacional quer “mudança” para implantar uma política neoliberal. É isso que precisa ficar claro. Eles apostam na despolitização da classe média brasileira insatisfeita e tentam vender o projeto neoliberal através do controle da inflação e a promessa de desenvolvimento. Ora, quem desenvolveu esse país foi o PT e não o PSDB. Inclusive, quem possibilitou os filhos dessa classe média a irem fazer intercâmbio e estudar com bolsa do governo brasileiro em países europeus foi o governo do PT.
Quando o candidato de oposição anuncia o seu Ministro da Fazenda, já indica que caminho irá tomar: o corte nos gastos públicos - os programas sociais, embora digam que não é verdade. Agora, dizer que vão aprimorar o bolsa família e o Minha Casa Minha Vida, já sabemos qual a verdadeira intensão.

Quando o PT assumiu o governo em 2003 encontrou uma máquina pública desarticulada e sucateada. O estímulo as demissões voluntárias desestruturou as universidades, com cientistas se aposentando com medo do que poderia haver com suas aposentadorias, já que era isso que se comentava e fazia à época. Essa é a política de mudança do PSDB, uma política da meritocracia em que cria no funcionalismo uma divisão entre competentes e incompetentes, bons e maus, segundo a lógica deles.

E em vez de desenvolver uma política de aumento real e valorização do funcionalismo, acirra a competição entre pares para ganhar algumas migalhas a mais. Essa na verdade é uma forma de driblar a legislação brasileira que garante estabilidade ao funcionário público. Tudo que eles querem é demissão em massa.
Como o companheiro Lula falou, temos dois projetos diferentes para o Brasil. A sociedade está dividida e o acirramento das contradições só fortalece a democracia, porque evidencia quem é quem nesse jogo. O jogo da direita é cooptar parceiros para seu projeto, haja visto a adesão oportunista do PSB, da família Campos em Recife e de Marina, que antes esquerda, mantém encontros com FHC para ajustar suas propostas para a economia. Como Dilma falou: “era compreensível”.
Ao longo desse tempo a mídia e seus palpiteiros descaracterizam o embate esquerda e direita, negando a existência de ambas. No jogo democrático é muito importante que isso fique explicitado: eles são direita, são conservadores, retrógrados, moralistas (e não éticos) e a palavra mudança só tem significado eleitoreiro. Nós somos de esquerda, preocupados com a ascensão social da classe trabalhadora.
A luta continua, porque vencer o projeto neoliberal é dever dos países em franco desenvolvimento. Não queremos ser mais um número de mercado, uma estatística que só favorece o enriquecimento de uns em detrimento da maioria.
Basta com essa hipocrisia. Que fique claro as diferenças. Que fiquem claras as intenções. Que possamos superar o ante petismo. Que o Brasil continue com Dilma e o PT.

Mario Sergio Medeiros


dramaturgo - SBAT


Uma visão "elitista" do caso Belas Artes –
Colocar "ricos" contra "pobres" é muita pobreza...

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/rauljustelores/1215535-o-elitismo-da-compra-do-belas-artes.shtml

O colunista da Folha, Rarul Juste Lores, criticou o projeto da prefeitura de criar um centro cultural no prédio do antigo cine Belas Artes, um símbolo da cultura paulistana, que educou gerações. 

Quando vemos um jornalismo que está descolado da cidade, mas pode surfar na falta de informação e organização da população e confundi-la, podemos nos indignar. Creio na boa intenção do colunista ao defender investimentos na periferia: mas olhando de perto, é calar a sociedade e cair no vácuo do "um dia". Algo que resume um debate de um ano em meia dúzia de palavras pseudo-críticas. Todos querem ser "críticos", mas isso significa ser “vanguarda” a qualquer custo?  (Parece que esse mesmo colunista já criticou o Movimento contra Verticalização Desenfreada em Pinheiros, levantando suspeitas sobre uma posição pró-especulação imobiliária e livre[-destruição-do-]mercado).

(Veja bem, muito efeito de nossa sociedade que nos aparta e nos exclui - que nos separa em guetos, em classes, em pequenos interesses; pode não ser por mal, mas o efeito é uma cidade inerte).  Chega-se à lógica terrível: para ajudar aos pobres, é preciso não fazer nada (também para os pobres); não se pode ajudar quem precisa porque outros também precisam, etc. A omissão é justificativa da omissão.

Assusta pensar que nós, que não estamos entre os mais ricos (e sabemos quanto mudou nossa vida cultural) e defendemos arduamente a causa da democratização, inclusive com armas que desconhecíamos, como Audiências e MP, sejamos tratados novamente como ingênuos e "elitistas". Nós que vivemos nessas ruas e sentimos no bolso a diferença, somos "os ricos". 

Um comentário de leitor da coluna diz: "dinheiro público para poucos"... 
Quanto é poucos em São Paulo? Quase duas mil pessoas por dia de promoção é pouco? Vamos jogar bairro contra bairro, centenas contra centenas, problema contra problema?

Ser "crítico" é querer a presença do poder público no mundo Pós-Friedman onde é salve-se quem puder (o grande capital, claro). Desde o início, quando percebemos que a solução se desenhava pela compra, soubemos que haveriam viúvas de um liberalismo engessado, defensores da moribunda ausência completa do Estado que levou à duas grandes crises mundiais; e, sabemos que, quando o neoliberalismo não se sustenta mais ideologicamente, vende-se um "socialismo à la carte", ou seja, sempre uma urgência de falta de recursos aliada a uma escolha entre (duas) necessidades básicas. 

Parece que Platão lutou contra a doxa (opinião) em favor da verdade; agora, o "especialista" afirma a doxa, numa sociedade onde não há espaço público e empilhar "teorias" de autoridade é "ciência" e "economia"  (a reflexão da arte e espaços de convívio ajudam a criar esse espaço, afinal). Existe a piada de que, recentemente, economista é alguém que tem as piores soluções para as coisas mais evidentes (né, Grécia?).

Vale a pena lembrar que chegamos à essa situação porque o patrocínio de um banco mudou: será que sempre coisas voláteis do privado podem regular coisas perenes da cultura? Não se pensa assim na Argentina e na França, por exemplo, como já destacamos. O fato de sempre pegarmos o pior lado do capitalismo ajudou a tornar essa cidade tão desumanizada: por exemplo, aqui se pode construir grandes condomínios na várzea de rios, e no "capitalismo de primeiro mundo", não.  
Pensar a melhor solução, ainda que fora do "liberalismo" da moda é uma revolução para uma cidade acostumada ao baronato. Pensar que só existe transporte fácil para o centro é impossível para quem se acostumou a pensar com a cabeça da Vila Madalena. 

Se não há mais cinemas na periferia é também porque a comunidade ainda não pode se organizar para exigir isso - e nós sabemos o quanto é difícil mesmo na região central. Infelizmente, a classe média (caso se simplifique e se aceite que é um caso da classe média) consegue mobilizar mais recursos e tem acesso à mais formadores de opinião (mas estamos tão dispersos...); e talvez, assim, os problemas possar ser debatidos, numa cidade tão sem debate. Justamente esse foi um início de retomada da cidade em defesa de seus espaços. 

Antes de tudo, devemos perguntar: por que a prefeitura gastou 620 milhões em projetos e consultorias e 420 de incentivo ao Corinthians; e tantas obras absurdas, como o projeto mais caro da história, de 50 milhões? Aliás, o orçamento dobrou em termos reais...

O movimento em São Paulo é de 450 bilhões ao ano, o poder público tem obrigação de cuidar de todas as áreas – e já não faz, mesmo sem jornalistas para questionar equivocadamente... Além de lutarmos contra conselhos, políticos e proprietários egoístas, temos de enfrentar uma mídia muitas vezes sem tempo ou sem pesquisa, o cidadão que mora em outro país e dá sua opinião com toda contundência. 

(E ele praticamente ridiculariza o movimento todo com essa pérola do "minimalismo" de visão: "A multidão que faz barulho nas redes sociais poderia estar visitando mais as salas para que a sina do Belas não se repita com seus vizinhos". Essa "multidão", claro, engloba senadores, deputados urbanistas, antropólogos e outros mil jornalistas, a começar por colegas do jornal, além dos muitos cidadãos que, sim, importam e deveriam definir prioridades de acordo com o Estatuto da Cidade.) Sabe, só bancos podem ser estatizados... Pobre proprietário indiferente, que recusou aluguel de 65 mil reais... 

E podemos cair também no erro segundo o qual sempre que algo vai para a cultura é considerado um “desperdício”... Mais: deixar morrer o que funciona, por algo que um dia se vai fazer (ou não). Desconhecer que é um dos lazeres mais baratos e de fácil acesso da cidade o corredor cultural da Paulista é deplorável. (Note-se que mesmo a prefeitura usou esse argumento pseudo-social para fechar a Biblioteca Anne Frank e mais mil outros equipamentos: seriam feitas creches Deus sabe quando na periferia; já se ouviu até de movimento social "comprado" e troca de votos por "cartilha de reciclagem")...

Precisamos sim de bibliotecas em cada bairro e cinemas públicos por toda a cidade. Só que o Belas cumpria sua função no centro e foi também uma perda imensa para os mais pobres. (Justamente: sem aparelhos culturais na periferia - um trabalho de vários mandatos - todo mundo vai para a lá). Não apenas não se investe na periferia, como a região da Paulista está se periferizando, com a elite indo para condomínios fechados fora da cidade, cada vez mais insalubre e inviável. (Enquanto Paris subsidia livrarias no Marais para preservar as ruas e parece estar tombando até pichações dos anos 70, símbolos da contracultura). 

Falando de uma forma abstrata como que olhando de cima, sempre podemos tomar posições mais “revolucionárias”: para que gastar em Bibliotecas, se tem gente morrendo de fome? Para que gastar em educação, se a saúde está um caos, etc... Um dos argumentos do colunista é de que existem outras salas na região e "vazias"; falta de atenção: o Cinesesc tem um perfil mais voltado a Festivais (ou um filme por vez) e as outras têm os preços muito além e a diversidade aquém do antigo cinema. E, levando em conta que tantas famílias vêm ali para seu lazer, oferta não é problema. Converso com muita gente e para todos a quantidade e qualidade baixou: o Reserva têm ingressos entre 19,50 e 24,00 Reais. Um amigo meu da periferia: "Eu ia muito no Belas Artes, principalmente segunda". 

A miséria da cidade é usada para que nada de novo aconteça. Ao invés de se pensar que a classe média acaba sendo também vítima hoje da imensa concentração de capital, como ocorreu em tantos casos de desapropriação, por exemplo, na Nova Luz, uma ação urgente é abafada por um humanitarismo abstrato e descontextualizado. Quem de fato é elite defende antes que “os shoppings dominaram tudo...” e devemos viver no nosso "condomínio". 

Seria um ab-reação? O poder público está sempre ausente; isso causa revolta; quando ele atua, essa revolta surge sem foco e querendo "tudo-agora"? Já me disseram que a CPI do Belas Artes não devia existir porque haviam outras mais importantes; se não se conseguiu força popular para mobilizar as outras, isso não significa que o certo está errado - o ótimo é inimigo do bom.

Conhecemos esse discurso. O que está em sua mão para ser assinado não pode, e vamos lutar pelo resto. Quem? Quando? Vamos conseguir? Uma professora disse: "vocês deveriam pedir..." - vocês não: nós!

Na Cidade Tiradentes, por exemplo, um centro cultural foi feito, mas nenhuma verba foi destinada. Qual é a solução? Lançar “pobres” contra “ricos”, “centro” contra “periferia”? Não, usar o dinheiro de forma correta – sem obras faraônicas. 

(Como disse, na Folha, José Portella Pereira, engenheiro: "...a prefeitura pretende investir R$ 3,5 bilhões de reais na construção de cinco túneis...O túnel da avenida Jornalista Roberto Marinho é um exemplo. Visitei o local com cuidado e concluí que ele vai resolver o problema da avenida dos Bandeirantes por breve e escasso período. O túnel prioriza o carro ao invés de corredores de ônibus".)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joseluizportella/975353-tunelmania.shtml

É evidente que, depois da catastrófica administração Kassab a cidade está repleta de problemas urgentes: a solução disso é atuação do governo nos focos e não "idealismo" suspeito. 

Além disso, já é muito difícil mobilizar os paulistanos, cansados, exaustos  (mas veja, quando o poder público acena dizendo que há uma réstia de democracia, a resposta é entusiástica!); uma matéria da Folha, logo no início, fez muitos grupos desistirem porque “era impossível tombar”.

 (Acabou tombado; o que foi um sinal de que não é a terra dos gigantes. Lembre-se a notável pesquisa do promotor Washington Assis, que afirmou não ter sido valorizado o valor cultural do local nos processos e pediu a presença do Estado para preservar o interesse público. É isso, defender o “patrimônio” ou destruir manifestações da comunidade é fácil; difícil é defender o direito coletivo, as futuras gerações e empoderar a comunidade quando ela se manifesta. Vale lembrar também que, segundo Carlos Lemos, ex-presidente do CONDEPHAAT, seriam preciso 3 mil assinaturas para um tombamento - tínhamos mais de 20 mil, por baixo). 


Sem querer, prevalece um estigma da ditadura: as autoridades falam e a população é "desinformada", está mal orientada, etc... Quando o jornalista diz que "estatizar cinema extinto é inacreditável", fica claro seu posicionamento, que generaliza o caso, vendo um centro formador de 68 anos como um comércio qualquer (igual a uma pizzaria, né?), além de desconhecer o quanto o sistema de salas de cinema de arte está ameaçado. Diz André Sturm, na Folha:

"Mas o capitalismo prevê mecanismos para evitar excessos. No mercado de cinema, não se vê isso. (...) Urge que os órgãos tomem uma atitude."

A população quer com toda a força, e não apenas meia dúzia de cinéfilos “elitistas”, mas jovens da periferia e estudantes que não podem pagar o cinema de arte caro ou no shopping... Como se comenta, o MIS e a Cinemateca são de acesso difícil e esta última acaba privilegiando quem tem carro.  De segunda a sexta, no Cineclube do Belas Artes se entrava sem pagar nada; segunda, toda carteira de trabalho dava meia (um amigo do Movimento, que mora longe do centro, foi quem postou isso no FB recentemente, nos lembrando). Pobre senhor Chundi, aposentado de São Miguel, que ia sempre ao cinema à tarde, e foi ao Conpresp protestar... 

Nossa sociedade precisa de muito mais justiça - não é estigmatizando um grupo que isso vai ocorrer - ainda mais um público tão eclético. O jogo político não funciona assim: não é que amanhã haverá a escolha de Sofia e vai se assinar um papel com "um cinema por bairro" OU o Belas Artes de novo; funciona, como aprendemos, juntando pessoas, buscando políticos, pedindo assinaturas para casos específicos. Não se pode cair na lógica do "não se faz nada porque tem de se fazer tudo". 

Isso mostra a fragmentação da cidade: cada um no seu escaninho, sem ampliar as racionalidades parciais (esse é um belo exemplo: na aparência, se justifica, mas em confronto com o todo, é tolo); enfrentamos muitos “cabeções” de elite (com que interesses, não se sabe), todo mundo sabendo muito sem sair do escritório, todos são contra tudo sem o devido debate, há sempre um “especialista” contra algo que, no fundo, desconhece, isso gera uma paralisação e vence o conservadorismo. 

Democracia não é apenas votar, é quando se entende os contextos e se participa: e ampliar esses mecanismos, assim como o princípio de solidariedade, de que estamos ligados uns aos outros, é a verdadeira defesa da justiça.


Deixar fechar esse cinema e desamparar tantos aposentados e jovens não vai ajudar a periferia, mas lutas por metas reais para ela; e podemos começar agora, quando levantamos a necessidade de cinema bom e barato. O que ocorreu foi que, neste caso, achamos vereadores e deputados decentes e que fizeram seu trabalho (até uma investigação que parece ser esquecida pelo colunista), mostrando por A mais B a necessidade a necessidade dessa intervenção em defesa do público.  Espero que nenhum preconceito atrapalhe.