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domingo, outubro 22, 2017

Gender Free

Eles me chamavam de bichinha e o professor quase ria com eles.
Eu não demonstrava interesse em nenhum gênero, na verdade.
Apenas não queria nenhuma semente de homem em mim, para fazer nascer minha virilidade.
Meu pai me olhava com desprezo por eu não querer um mestre másculo comigo, mas eu achava que podia ser meu próprio mestre, só porque tinha curiosidade suficiente.
Esse jovem delicado estava interessado em desenho e ficava horas inteiras observando a natureza.
Na realidade, eu me apaixonei platonicamente por uma colega, mas ela sequer podia imaginar romper nosso código rígido. Nosso professor da quarta série tinha avisado sobre os perigos do "afeminamento" dos beijos heterossexuais.
Um dia, deixaram no meu livro um panfleto "gender free". Era um lugar longe da cidade.
Fugi.
Uma vila incrível. Muitas flores, o moinho, trabalhávamos no campo e nas oficinas, andávamos à cavalo, caçávamos.
Ambos os sexos faziam as mesmas tarefas e não havia nenhum culto à força, ao falo ou à competição. Mulheres mais velhas eram as líderes, e eu pude até beijar duas garotas da minha idade. Eu me tornei íntimo de outro jovem, Tíron, e dormíamos abraçados como irmãos. Comecei a pintar telas e encantava à todos com as paisagens que fazia.
Mas o que aconteceu?
Depois de um tempo, percebi que vivia numa prisão. Eu estava sendo treinado.
Um dia, fui lavado até a sala da coordenação e me disseram que eu devia seduzir e matar um oficial do primeiro escalão, responsável pelo controle da formação sexual com os mestres.
Eu pensei muito em como sair do reino dessas mulheres dominadoras.
Por fim, coloquei fogo na casa e consegui fugir.
Troquei meu nome, achei um companheiro, me tornei advogado e lutei pelo direito dos homens de escolher sua iniciação sexual, livres de preconceitos.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

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