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quarta-feira, outubro 15, 2014

O estrangeiro

- Quem é você?
- Basicamente eu sou um estrangeiro do meu país. Minha alma é anglo, eu acho que a massa é feia e não toma banho. E a culpa é da seca e da moral deles. Mas pega mal falar isso - por isso eu apenas deixo eles onde estão.
- Por que é você?
- Eu tenho entre 40 e 60 anos - mas meu filho é tão desinformado como eu - e pude estudar e prosperar porque nunca passei fome. Eu nasci sob a ditadura, então tem muita coisa que eu não sei. Eu sempre ouvi que rebeldia era ruim, fazer baderna era perigoso. Em especial, o comunismo e o socialismo, uma coisa só, gente malvada que quer dividir seu liquidificador ao meio.
- Como você?
- Eu ouço todo dia os mesmos slogans: corrupção, vandalismo, aparelhamento. Basicamente eu sou bem informado, ou seja, eu vejo muito o mesmo ponto-de-vista várias vezes por anos. Cada vez fico mais com meus familiares e amigos, gente da minha classe, porque o Brasil está perigoso, né? Não dá pra se misturar.


- E como quando não você?
- Quando alguém mostra uma contradição no Pensamento Único, eu sei o contraveneno: isso é polêmico. Eu acho que o problema é pontual, não faz parte de um pensamento maior, de um contexto. É por isso que eu transformo supostos casos de corrupção em amostras de uma conspiração comunista.
- Que medo você?
- Eu tenho medo dos estudantes, acho que a polícia deve ser mais forte. Afinal eu nunca vi corpos espalhados pelo meu bairro. Eu nunca vi as mães chorando por mortes suspeitas. Eu sempre acho que a justiça prevalece. Para quem trabalha.
- Com você?
- Isso porque sempre tem uma parte da Justiça, dos artistas, dos jornalistas que perdeu contato com a realidade como eu. Que acha que pode e deve conviver com a desigualdade, essa obra da Natureza, senão de Deus. E como são valores fortes, valores como honestidade e respeito à propriedade, eu posso ser fanático.


- Desde quando você?
- Talvez eu tenha feito Direito numa universidade onde 2/3 do currículo é Direito Comercial. Talvez eu tenha feito Medicina e não sei que a saúde é atribuição do estado. Eu sou uma PCI (Pessoa Culta Ignorando).
- Em que acredita você?
- Eu não sei o que são juros. Eu não sei o que é FMI. Eu acho que quero apoiar a produção, mas apoio a especulação. Para mim existe uma coisa: economia. E quem fala de economia? A TV. A TV é sempre baseada em dados. E com dados a gente não discute.

Afonso Lima

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