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quarta-feira, outubro 22, 2014

A felicidade

Uma guerra. Dentro de um condomínio fechado, um carro importado, um restaurante refinado, universidade cara: protegido, esterilizado. Por isso eu vou explodir a bomba. Não havia choque na minha vida, na vista azul das montanhas atrás de vidro grande com mulher fria na minha casa de campo. Na praia onde as crianças loiras falam com crianças com sardas ruivas ou quase loiras. Nos campos de golfe onde circulo, as pessoas estão indignadas com os bolsistas que nunca leram um livro na sala de aula dos filhos. Na balada em frente ao mar onde o rap e o funk fazem chacoalhar as jóias, onde uma mulher enfiou uma faca no peito em protesto contra o aparelhamento e a corrupção, onde meus primos médicos falam do horror de trabalhar no interior, sem shopping, onde meus amigos juízes falam de como é melhor prevenir que remediar, meus tios economistas e seus pupilos falam do horror social, de como um grau de desespero é bom agra e e polícia precisa cuidar dos efeitos do ajuste, todo mundo está puto com o número de carros invasões de propriedades e bolivianos e nós sustentando Cuba e minorias raivosas e empresários vermelhos. E miseráveis nus estendendo a mão em Higienópolis sem que um tiro um PM sem que nenhum veneno nos salve. Tive de demitir três empregadas. Só por que viviam em cortiços ratos caíam na cama em albergues não sabem ler a mãe comia comida estragada e o pai bêbado foi preso por engano não justifica fim da idade mínima cadeia já preso também é negócio. Eu tenho conhecimento jazz curso gourmet de fotografia medo ouvi piano em Madrid e responsabilidade social. Eu tenho mala gucci angústia no cartão e veyron os mais de 400 quilômetros por hora que esse carro pode atingir, medo, madrepérola, medo e uma arma no carro. 

Agora. Uma prima que ajuda a África até tem um filho adotivo e paga carteira assinada pros empregados da fazenda de Minas que seu marido nem dava salário passou pelo constrangimento de voltar de Miami com um porteiro do lado. Uma tia que ajuda o Greenpeace passou pelo vexame de ver a empregada desistir do emprego. O Lamarca e sua guerrilha voltaram. Eu já sei quem é o inimigo, então tudo o mais é irrelevante, é o bem contra o animal, agora é apontar o míssil, quebrar essas bandeiras, pegar sua espada, acabar com o mal antes que a favela invada o centro climatizado. Meu pai hoje é um homem que só mexe os olhos, mas com eles manda sinais que dizem acabem com o terrorismo. Os sindicalistas quilombolas estudantes sem-teto ou liberdade lucro felicidade. A minha mulher ficou um pouco nervosa andando com os cisnes no lago quando um menino ao lado cor de água suja, um pouco nervosa agora que estava ficando com o bumbum definido e carga mais pesada, e jogou, deixou cair nossa princesinha. O que será dela indo num show de rock e encontrando namorando quem sabe engravidando de um desclassificado, povinho bolsa esmola, gentinha filho de analfabeto, na sua mesa de jantar, no quarto da Barbie Minnie Ivy Lavigne com swarovski na parede que você pintou com amor e carinho e colou estrelinhas planetas e nomes de presidentes americanos pra ela ser inteligente? A minha mulher teve um colapso numa loja de cristais de Veneza com um casal diferenciado e teve de quebrar uns espelhos e ligou pra Itália para a mãe acalmá-la. Na Vila cheia de flores onde jogamos bilhar e fazemos convenções, os empresários acham que combater a fome foi bom, mas é pouco e as ações? Pobre adam. É um estado de exceção, a  maldição de um povo miserável, por isso precisamos de um governo de contenção, um pouco de censura, pra evitar um golpe comunista, a pobreza vigiada, porque a pobreza é crime. Trabalhamos com a produção da urgência, a tensão pela felicidade, os sistema de exclusão e condenação moral da revolta, tudo junto é progresso no fim. Eu quero o bem do meu país, sempre houve cavalos e cartolas, boa e má sorte, destino, raça, a vida tem que seguir seu curso livre natural. Nós, que civilizamos essa terra. Por isso eu vou explodir a bomba no comício. 

Afonso Lima

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