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domingo, outubro 26, 2014

A voz

Eles estavam sentados em suas mesas. Um pouco acinzentados. Os olhos bem abertos. Olhavam a máquina.
- Não somos mais aquele país.
A máquina falava de uma conspiração sinistra.
- Deve haver algum engano. Eu estudei.
- Eu sei. Deve ser difícil. Seu pai, seu avô, seu bisavô.
O líder era suspeito. Algo monumental. A resposta do líder. A resposta à resposta.
- Que se deixava levar; apenas um rostinho bonito. Promessas de mudança.
O ataque aos anunciadores é algo terrível. A revolta não tem causa.
- Onde foi que nós erramos?
- Democracia.
O outro parecia transtornado, levantou, saiu pela porta sem pagar.
Eles comiam. A voz. Os olhos iam perdendo o brilho. Ele sabia o que estava acontecendo. Já tinha visto muitas guerras.
Sabia que o primeiro momento é o medo. A voz neutralizava.
- Aprendemos um pouco.
Ele comeu tranquilamente sua refeição. Sabia o que ia acontecer com eles.

Afonso Lima

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