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terça-feira, setembro 09, 2014

Soneto em yx - jogando com Mallarmé

Um soneto tão hermético, que usa palavras já esquecidas, só mesmo com ajuda de um crítico, C. F. MacIntyre*. O poeta fala, em carta de 1887, que "não há soneto algum", e que escolheu "esse assunto, de um soneto nulo". Pensei antes em criar o prazer da rima ("criar pela magia da rima, ele diz) e o interesse advindo de um vago referente, mesmo sacrificando talvez o objetivo principal de que o sentido seja "evocado pela miragem interna das próprias palavras". A famosa "cinerária ânfora" foi substituída por uma ousada interpretação... Na primeira versão do poema, tudo fica mais claro, podendo ser apenas a morte do sol pela Tarde com a ajuda da Noite, que traz a Fênix da estrela...

 (Universidade da Califórnia, 1975 apud. Fontes, "Os anos de exílio do jovem Mallarmé, Ateliê Editorial, 2007)


Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx,

L’Angoisse, ce minuit, soutient, lampadophore,

Maint rêve vespéral brûlé par le Phénix

Que ne recueille pas de cinéraire amphore


Sur les crédences, au salon vide: nul ptyx,

Aboli bibelot d’inanité sonore,

(Car le Maître est allé puiser des pleurs au Styx

Avec ce seul objet dont le Néant s’honore.)


Mais proche la croisée au nord vacante, un or

Agonise selon peut-être le décor

Des licornes ruant du feu contre une nixe,


Elle, défunte nue en le miroir, encor

Que, dans l’oubli fermé par le cadre, se fixe

De scintillations sitôt le septuor.

(1887)



De unhas puras no alto dedicando ônix
A Angústia, essa meia-noite, sustém luz-esfera
Muito sonho vesperal queimado pela Fênix
Não recolhe as cinzas do poema que não era

Dobra alguma, na sala vazia, nenhuma ptyx
Abolido bibelô que o som edifica
(pois o Mestre foi sorver lágrimas no rio Styx)
Com este único objeto com que o nada se glorifica

Mas junto ao vidro aberto ao norte
Agoniza um ouro no adorno com a Vitória            
De unicórnios a coiceando, pobre nixe

Ela, embora defunta nuvem no espelho se olha      
Que no esquecimento fechado da moldura se fixe
De cintilações no mesmo instante sete vozes

Afonso Lima

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