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quinta-feira, abril 20, 2017

A entrevista

Ele pensava se teria imaginado tudo.

Deitado em seu quarto, tentando ler, ele ouviu um menino na janela. Tentou achá-lo, ele corria já longe. Ninguém sabia informar nada sobre os massacres. "A Paixão segundo Mateus" era seu trabalho agora. Ele morava em Marte há mais de cinco anos, tinha a impressão de que mesmo o "inimigo" não existia mais na linguagem.

- Foram duas décadas de apagamento de mentes - finalmente um homem disse.

Reeleito sete vezes. Lembra do que pensou naquela época.

W. Berren. Seria um animador de auditório ou um jornalista?

O que ele estava dizendo? Era preciso derrubar o presidente de outro país para evitar o "perigo chinês" e o "não-alinhamento que disfarça a estatização e os altos impostos"? O nosso presidente ia visitar o país. Depois ia começar testes nucleares na lua.

Entrevista o músico que faria São Mateus para a elite local.

Acabam conversando meio bêbados sob a lua.

- Eu me lembro da rádio falando dia e noite sobre os socialistas, radicais, antipatrióticos e muçulmanos. Como a democracia pode se defender da lavagem-cerebral dos bilionários?

Ele lembrou da época em que resolveu perguntar sobre Berren ao seu velho mestre, jornalista aposentado.

- Você sabe, os herdeiros de castas antigas acabam acreditando que sua casta é superior, e os outros são desumanos - ele acertava a bola robótica no nível 3 no buraco. Ninguém mais era perdedor, depois daquilo.

Observavam os drones de controle sobre suas cabeças. Seu volume estaria ajustado para captar o som de conversar no jardim? O músico continuou:

- São os políticos contratados para evitar que as coisas aconteçam e mudar as leis em favor das empresas.

Uma vez, no campo de golf, ele havia indagado:

- Mas você acha que vamos promover um massacre?

- FMI e o Banco Mundial foram expulsos. Lembra? Passaremos os nomes dos principais líderes inimigos - disse o mestre. E morreram um milhão de pessoas.

Estrelas no céu. O músico tocou Bach. Então, era isso. Passaram-se vinte anos. Ele chegava ao país e não havia impressões digitais em nada.


Afonso Junior Ferreira de Lima 
 




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