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terça-feira, novembro 21, 2006

FRONTEIRAS DO CONSERVADORISMO

Quando recebi o convite da palestra de Paul Kennedy, na UFRGS, pensei: "Oh, mais papo furado de celebridades globais!" Não foi fácil de esquecer minha decepção com Lévy, há alguns anos, quando sua maior novidade foi que um vírus de computador é um ser vivo.

Mas para que nenhuma irmã universitária viesse me acusar de parcialidade, lá fui eu, aberto ao mundo! Afinal, é sempre bom ouvir novidades: quando são novidades!

A síntese da conferência pode ser dada pelo seu conselho ao presidente Lula: "evite políticas que criem conflito de classe e afugentem o capital". Há uma escolha aí, o esquecimento de que política hoje é feita de poderosos conglomerados econômico-políticos, pressão de órgãos externos como o FBI e ume elite interna corrupta e politicável, pronta a reagir a distribuição de renda.

É por isso que, se essas são as fronteiras do pensamento, prefiro ficar em casa dormindo; com a concentração absurda de dinheiro no globo, pouco saberemos da opinião dos jornalistas e professores de Angola e Timor Leste, mas quem é lançado por um poderoso governo ou mídia, imediatamente se torna "ouvível", um profeta.

O problema é complicado pelo fato de que em geral essas encontros dão ênfase a "fala" da celebridade e a perguntas individuais, respondidas sem réplica. Ou seja, não é nada como uma troca de idéias, mas um espetáculo. Lembro-me que há alguns anos veio ao Brasil um famoso professor francês que começou sua palestra com "gostaria de debater esse tema com vocês".

Eu, ingenuamente, na verdade desconhecendo como ele era "importante", aceitei o convite e questionei seriamente seu ponto de vista superficial. A platéia ficou metade enfurecida, metade rindo. Importamos conceitos como importamos cultura. E importamos para 1.200 pessoas.

Por exemplo, Paul vê o crescimento da "mão-de-obra" ("se você trabalha em uma fábrica, mas não se você é um vendedor de galinhas no interior do amazonas") como ótima notícia para os trabalhadores dos países pobres, que se tornam consumidores: nada foi dito sobre seu rendimento que não paga três refeições diárias, ou sobre os abusos das empresas na vigilância e proibição de sindicalização. É o progresso, afinal.

O pensamento superficial sempre vê como solução jogar a bola para os países, enquanto seus reais poderes de decisão são enfraquecidos por regras globais de comércio, para dizer o mínimo; sempre gera falsos problemas e cria soluções parciais, sempre mostra os dados isolados do contexto geral. Sim, é verdade que os conflitos armados tendem a ser em áreas de baixa renda; sim, o aumento da população (velha idéia colonialista do controle de natalidade como solução final) tem a ver com guerra (e com muitas outras coisas); sim, um sistema eleitoral representativo, uma polícia e justiça eficientes e escolas, água e saúde podem garantir a paz.

E daí? A questão é: o que tem sido feito sobre dar chance às pessoas de participar quando os lucros das empresas nunca foram maiores e os países mais falidos. Como ensinou o velho amigo Kennedy, trabalhe pelo seu país e não encha o saco. Seria preciso falar muito mais de por que as economias ficam na periferia, vendendo grãos a preço de nada, quando royalties, dívidas, e uma democracia sem distribuição criam uma sociedade sem controle sobre suas elites ditatoriais em conflito.

Em alguns momentos Paul Kennedy chegou a beirar uma democracia "elitista" quando disse, por exemplo, que o sistema de soberania dos países foi criado no pós- guerra, quando não se imaginava que os conflitos maiores seriam dentro das nações. "Não há soberania se não há crescimento".

Depois brincou sobre os 192 países na ONU como uma surpresa para os supostos marcianos que deram a palestra com ele. Sua postura sobre imigração também disse tudo e nada: é ruim para os países de onde saem e bom para os países onde vão, se são ricos. No mínimo uma tautologia. Admitiu que os Estados Unidos é um dos países que menos gasta em termos de educação básica, mas insistiu na velha fórmula patética de "educação" para salvar o país. Claro, Sr. Paul, mas com que dinheiro se os ricos não pagam imposto? FHC foi responsável pelo apagão do sistema universitário.

Depois de tanta celebração das estrelas globais, fico pensando o que sairá dessas "fronteiras". É constrangedor ver uma lista de pensadores best-seller, sem que se sinta aumentar em nada o senso crítico e o questionamento. Foucault poderia dizer que um saber, nesse caso, gera uma série de sistemas de micro-poder, cria, literalmente ,"criam" países "em desenvolvimento" e submetem povos e conceitos. Os dados estão lá, os problemas estão lá, mas não levam a nenhuma forma de ação coerente com a realidade das pessoas que não estão numa Universidade americana.

E, por gentileza, acabem com essas listas chatérrimas – E LONGAS- de autoridades presentes, senhor diretor, senhor vice- isso, senhor ex-aquilo, o prefeito de Taquara... É vitoriano!

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