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terça-feira, setembro 19, 2006

POA EM CENA- Ricardo III


A afirmação de Harold Bloom de que Shakespeare inventou o eu, pode parecer muitas vezes a fantasia de um erudito que esquece que todo gênio dá forma a uma fala de sua época, dos contos, cantigas e fábulas do povo, e que tudo era parte da brincadeira chamada cultura. Mas não seria falso afirmar que sim, os dramas de Shakespare são dramas de “eu”, não se referem a normas sociais e contextos como no mundo grego, ódio, ruptura e violência, não se referem às coisas que acontecem a um indivíduo, mas são o indivíduo: o que fala, o que conta a si mesmo.
Em nenhum das peças que eu conheço isso fica mais claro do que em Ricardo III.

A única coisa que interessa na peça é a forma como os personagens falam de si mesmos. Ele está preso em modelos históricos, parece que não houve interesse humano além do papel de “irmão que é morto” ou “rainha que é destronada”. Sem pensar, o personagem é nada.
Aí entram todos os recursos mais típicos do autor, imagens fortes, repetições, metáforas sobre metáforas, ênfases, artificialismo. Salvam os assassinos, humanos e divertidos.
Shakespeare, claro, é texto, mas como Hegel sabe, arte é conceito em forma, portanto, precisamos dos olhos, precisamos de movimento e de luz. Infelizmente essa não foi a peça que assisti, de Roberto Lage.
As pessoas ao meu lado se mexiam, bocejavam, falavam. Ninguém hoje, na era de tudo aquilo que sabemos, consegue entrar na “viagem” abstrata de Shakespeare se a luz for de garagem, os atores estáticos e só as bocas mexendo. A ironia que a direção achou para certas falas é positiva, mas em alguns momentos a platéia acaba rindo do que não era para rir.
Mas se há algo nessa peça são os atores, todos excelentes. (São atrapalhados, claro, pelo tradionalismo da luz, ora de palco cheio, ora em focos comuns, e também por uma escolha errada de “texto integral” que obriga a usar todos os erros do autor, todos os recursos mais antigos de “quatro ingleses conversando sobre a morte do rei e a sucessão”).

Aliás, para uma peça de um ator, como essa, em que todos os outros personagens só repetem o que já sabemos, só linguagem agindo, levando o verbalismo shakesperiano ao absurdo, é impressionante que lembremos de outros atores. Celso Frateschi é brilhante em tudo.
Mesmo com sua força, há momentos em que desejamos que o dramaturgo não tivesse escrito tanto, primeiro porque o texto é, como quer aquele crítico, uma paródia de Marlowe, e só assim pode ser levado a sério.

Falar tudo também não ajuda. Como disse, hoje se pode trabalhar o sutil, o contexto, pode-se brincar com o texto e o cenário... Os motivos para irmos ao teatro mudaram, e, portanto, deve mudar o corpo dos textos. Senti muito a falta de movimento, originalidade e contemporaneidade.
Como diz o crítico, sobre um trecho da peça, “Não consigo me lembrar de outro trecho (...) em que Shakespeare seja tão inepto”. Representar isso, ai sim, é, os atores que me perdôem, ser inepto.

ajr

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